10/04/2026

Joakim Andersen - Kafka contra Kafka

 por Joakim Andersen

(2025)


Franz Kafka (1883-1924) é um dos grandes escritores da era moderna, notadamente graças à sua variante particular do realismo mágico. Trata-se de alguma forma de um realismo social mágico, de uma mito-sociologia que evidencia a dimensão oculta e incompreensível do mundo moderno.

Coisas estranhas acontecem na vida quotidiana do mundo moderno: «Quando Gregor Samsa acordou uma manhã de seus sonhos agitados, encontrou-se em sua cama, transformado num inseto gigantesco». O Processo e O Castelo são descrições brilhantes da burocracia, mesmo que seus personagens principais sejam mais ou menos tão heroicos quanto os de Lovecraft.

Uma obra menos conhecida de Kafka é Carta ao Pai, datada de 1919, uma longa carta endereçada a Hermann Kafka, que era muito diferente dele. Trata-se de um texto fascinante, a meio caminho entre a carta e a ficção, mesmo que a maioria dos pais provavelmente não desejasse receber uma tal carta de seus filhos.

Kafka começa sua carta contando que sempre teve medo de seu pai, que por sua vez é acusado de sempre ter repreendido seu filho por sua «frieza, alienação, ingratidão» e de ter ficado decepcionado com ele. Mas nenhum deles é culpado, eles são simplesmente muito diferentes e o desfecho era esperado. Franz identifica-se com a herança de sua mãe, ele é um Löwy, secreto e tímido. Seu pai é antes um Kafka, com «a vontade kafkiana de viver, prosperar e conquistar». Hermann era grande e forte, o jovem Franz compara-se a um pequeno esqueleto.

Mas mesmo afirmando que a culpa não é de nenhum dos dois, mas sim da diferença entre eles, ele enumera as reclamações que faz a seu pai de uma maneira quase passivo-agressiva. Às vezes é divertido, Franz escreve nomeadamente: «chamavas os empregados de ‘inimigos pagos’ e ‘nós não tínhamos o direito de beber vinagre, tu sim’». O raciocínio é fundamentalmente doentio quando o pai é acusado de ter destruído as chances de seu filho em todos os domínios, da carreira ao casamento, ao mesmo tempo que se descreve como um fracasso e justifica sua decepção. É impossível defender-se das acusações de Kafka, pois ele baseia-se em Freud e estima que esse tratamento destrutivo era inconsciente. «Sempre (inconscientemente) desprezaste minha capacidade de tomar decisões e pensavas agora (inconscientemente) saber exatamente o que ela valia», escreve ele entre outras coisas.

A influência de Freud, Strindberg e Weininger é evidente. Este último nomeadamente na relação do casal com o judaísmo. A imagem que Franz tem de si mesmo lembra a descrição negativa que Weininger faz da mentalidade judaica, o que não é o caso da imagem de Hermann. A carta contém raciocínios dialéticos interessantes, nomeadamente sobre a maneira como Ottla combinava uma natureza Löwy com as melhores armas de Kafka, ou sobre a descrição dos três «mundos» sociais imaginados pelo jovem Franz (o seu, como escravo submetido às leis de Hermann, o segundo, uma esfera distante onde Hermann reinava como rei, e o terceiro, onde outras pessoas viviam uma vida feliz e livre).

As acusações feitas ao pai sobre a herança judaica também são interessantes, pois ele conservou o suficiente de suas raízes para ter confiança em si, mas muito pouco para transmitir qualquer coisa a seus filhos. «Aqui também, havia judaísmo suficiente, mas muito pouco para ser transmitido a uma criança, ele se esvaiu à medida que o transmitias», escreve Kafka. Quando seu filho começou a interessar-se por sua herança, Hermann reagiu com desgosto.

No conjunto, é uma leitura cativante, mesmo que a fronteira entre autobiografia e ficção seja difícil de traçar. A carta é por vezes divertida, uma versão edulcorada de A Metamorfose, onde se aprende de passagem que o pai talvez não tenha sempre sido como é, «eras talvez mais alegre antes que teus filhos (eu em particular) te decepcionassem e te deprimissem em casa».

Adivinham-se os personagens de Larry David em passagens tais como «na tua poltrona, reinavas sobre o mundo. Tua opinião era a correta, qualquer outra era louca, excêntrica, meshugge, anormal». Mas a carta tem uma profundidade que vai além, com reflexões sobre a psicologia, a herança e as relações que fazem pensar em Freud, Strindberg e Weininger. Em suma, é uma leitura enriquecedora para os amantes de Kafka ou de autores similares tais como Céline e Vonnegut.