por Geydar Dzhemal
(2012)
O mundo de hoje encontra-se diante do dilema que está essencialmente contido na organização fundamental da sociedade humana: o gênero humano no seu estado atual é incapaz de manter o “pagamento” pela sua existência. Não se trata de que grupos humanos cada vez mais reduzidos se apropriem da proporção cada vez maior das riquezas mundiais, e que a desproporção global entre os produtores e os consumidores leve a economia universal para o colapso. É totalmente certo, mas a verdade é muito mais profunda.
A existência da sociedade mundial está baseada na contínua e total alienação do tempo vital de todos os seus membros, enquanto esse tempo alienado sofre uma revalorização permanente e constitui a substância básica do capital mundial. Em última instância, cria-se a contradição entre o preço demasiado baixo do tempo vital da absoluta maioria dos habitantes do planeta e as despesas necessárias para mantê-los dentro do formato da sociedade global. A única saída desta situação para as elites mundiais consiste na drástica separação entre o que estas elites consideram como “civilização” (cidade mundial) e a absoluta maioria da humanidade que fica fora deste marco. Semelhante perspectiva por si mesma não significa o fim do globalismo. Trata-se da sua fundamental reestruturação. O novo globalismo do futuro será a geoeconomia da guerra permanente.
Guerra civil mundial
Neste caminho, será suprimido o direito internacional tal como se havia formado a partir do Tratado de Vestfália. Em consequência, é necessário acabar com a soberania dos estados nacionais, em primeiro lugar daqueles que pelas suas dimensões e o dinamismo do crescimento econômico representam um sério desafio para a burocracia internacional e os amos que se escondem por detrás dela. O limite entre a velha ordem mundial na qual predominava a ideia do valor supremo da vida humana e a nova ordem mundial na qual a maioria dos humanos será equiparada às más ervas que devem ser arrancadas, será a Terceira Guerra Mundial, com as principais frentes no Sul da Ásia e a região do Pacífico.
Este enfrentamento interestatal de grande força destrutiva e com consequências catastróficas para toda a região do Sul da Ásia e do Pacífico terá que completar-se, segundo os planos dos estrategistas do “clube dos senhores”, com a guerra civil na Grande Europa. Ao longo desta guerra, serão liquidados os paradigmas sociopolíticos arraigados no continente europeu durante os últimos 200 anos. Em alguns aspectos, a sociedade europeia retrocederá para os tempos do feudalismo tardio.
Claro que nem tudo seguirá de acordo com os planos da superelite. Já hoje cresce a resistência dos povos frente ao Sistema de forma mais radical, a luta armada é levada a cabo desde o Afeganistão e até à Argentina. Com o derrube da organização atual do controle planetário (e será inevitável perante as comoções de semelhante calibre como a guerra mundial, máxime com o uso do armamento nuclear mesmo que limitado), a luta entre os estados inevitavelmente passará para os sangrentos enfrentamentos civis, que, juntando-se com outros focos regionais de guerras intestinas, formarão a frente “multipolar” da guerra civil mundial. De fato, agora há guerras civis na Síria, Líbia, Iêmen, Mianmar, Colômbia, Somália, Sudão. À beira da guerra civil encontram-se não menos de um par de dezenas de países mais.
As forças principais da frente asiática da guerra mundial serão a China e a Índia. Precisamente ali a guerra terá a sua continuação “civil”. A saída da China do sistema do globalismo econômico (República Popular da China – a oficina, Ocidente – o supermercado) levará ao colapso social, agravado por pelo menos cinco focos do nacional-separatismo – Tibete, Tsintsián (Xinjiang), Mongólia Interior, Manchúria e Guangzhou (Cantão).
Na Índia, a guerra civil será alimentada pelo enfrentamento entre os muçulmanos, sikhs, castas inferiores e os hinduístas. Completadas com as guerras na Indochina, estas guerras civis unir-se-ão ao que estiver a ocorrer na Europa, as chamas expandir-se-ão para a África e América Latina. Os EUA já hoje estão à beira da guerra civil e as suas classes dirigentes estão a preparar-se para as repressões massivas contra a sua própria população.
Monarquia é a mãe da ordem, a máfia é imortal
A guerra civil “multipolar” converter-se-á na base da política mundial, na sua fonte de alimentação. Toda a casuística liberal e os falsos rituais da democracia eleitoral passarão à história, a vontade política, o mesmo que há 500 anos, manifestar-se-á mediante a pressão armada direta. O que, de qualquer maneira, já ocorre hoje ao nível do diálogo OTAN – Terceiro Mundo. No entanto, na política interior ainda se conserva a ilusão de que se mantém o campo do direito e os objetivos comuns que motivam a disciplina social de amplas camadas da população. Os primeiros sinais de que esta ilusão se dissipou e que começou o diálogo de força do poder com o povo também nos são fornecidos pelos Estados Unidos.
Nas condições de guerra civil mundial, o conceito de soberania nacional passará a formar parte da história lendária. A burocracia internacional será reorganizada e converter-se-á na administração mundial ou o governo mundial que regerá mediante o uso da força os territórios controlados. Por detrás deste governo mundial estará o “clube dos senhores”, para o qual se abrirão amplíssimas possibilidades para a restauração revanchista do sistema de valores monárquico tradicional. Provavelmente realizar-se-á o plano que os monarcas-parentes pretendiam levar a cabo quando desataram a Primeira Guerra Mundial – o conselho dos monarcas que se apresentará como a instância legítima suprema sobre a face da Terra, que estará em perfeita simbiose com a cúpula do establishment clerical. Neste conselho, não haverá diferenças substanciais entre as casas reinantes e as dinastias que por algum motivo tiveram que renunciar ao trono. Trata-se da atualização de todas as “casas” históricas, de tal maneira que a restauração do estatuto do monarca não signifique o retorno ao formato das monarquias nacionais absolutistas do passado. (Outra coisa é que os planos de há mais de cem anos terão que ser levados a cabo em condições muito parecidas às do ano 1919: resistência massiva mundial dos povos frente ao poder supremo).
Inevitavelmente, terá que mudar a organização político-administrativa da “cidade mundial”, dentro de cujo marco não ficarão estados nacionais.
Em primeiro lugar, isto quer dizer que não haverá exércitos nacionais. Já atualmente estão a ser ativamente substituídos pelas empresas militares privadas. Na realidade, já hoje as forças armadas dos estados do Ocidente formam-se com base no contrato, o que as converte apenas nominalmente em “nacionais”. As empresas militares profissionais integrarão os quadros das atuais forças especiais profissionais, ao qual se juntará o elemento criminal mais avançado, disciplinado e implacável. Assim, se passará ao princípio do condotiero (do italiano “condotta” – contrato para realizar o serviço militar) da formação da força armada ao serviço do governo mundial. A máfia que hoje representa a parte submersa do iceberg do Sistema, legalizar-se-á e converter-se-á na parte operativa da administração mundial. De fato, é a perspectiva da legitimação da sua entrada nos escalões superiores de “a lei e a ordem” que assegura ao Sistema a atual lealdade do crime organizado. As estruturas mafiosas asseguram não menos de 50% de estabilidade à ordem mundial atual através das manipulações com o dinheiro negro, violência extralegal e a burla dos obstáculos à livre empresa contidos nas legislações nacionais. Nos Estados Unidos, desde os tempos de pré-guerra, a máfia está firmemente integrada no sistema federal, embora por enquanto nominalmente se encontre fora do campo do direito. A legalização do elemento criminal será uma das mudanças socioantropológicas mais importantes do futuro.
Fim do mundo
Naturalmente, este quadro do mundo pressupõe o desaparecimento do mercado e a supressão do, como lhes gosta dizer aos economistas, “invento mais antigo da humanidade” – o dinheiro. O processo da transformação do dinheiro, até à total dissociação com a sua ideia fundamental, foi iniciado depois do ano 1945 e prossegue a toda a marcha. Hoje, são dinheiro os valores, lançados pelas instituições especulativas paraeconômicas, assim como os seus derivados de segundo e terceiro ordem. O valor total de semelhante “dinheiro” que está em circulação, supera muitas vezes todo o volume do capital mundial, o que obriga a manter o jogo permanente da revalorização deste capital para o aumento do seu preço.
O governo mundial do futuro sairá deste círculo vicioso, apenas quando recorrer aos mecanismos da economia política pós-consumista, onde apenas se poderá aceder aos bens através da permissão de entrada estritamente controlada no espaço informático de rede. A própria produção destes bens, seguindo a ideia do governo mundial, será concentrada em áreas limitadas estritamente vigiadas (a produção agrícola pelo seu caráter fechado e grau de proteção recordará os atuais cultivos de droga, sobretudo daqueles que se encontram sob o controle do ramo farmacêutico oficial).
Se a atividade do governo mundial fosse o jogo com uma única baliza, Fukuyama teria razão (apenas antecipando-se um pouco aos fatos). Semelhante remodelação da estrutura social da sociedade global significaria o fim da história, pois o único processo vivo na terra seria o extermínio da população sobrante. É, no entanto, um processo estritamente tecnológico e não histórico.
Para a sorte de todos os que não estão intoxicados pelo veneno da lealdade ao Sistema, o extermínio dos seres humanos não será tão fácil. A expulsão da gigantesca parte dos que vivem agora fora do marco de legitimidade, o abandono das pretensões de construir uma civilização humana comum, na qual todos têm direitos e cada um pode pretender a felicidade, converter-se-á num colossal fator de mobilização, que forjará a vontade política alternativa.
O bando que se oporá ao governo mundial será uma rede mundial não menos de comunidades armadas, que concentrará nas suas fileiras os inimigos mais ativos do Sistema. A luta destas comunidades contra o neofeudalismo global apoiar-se-á naquelas regiões da Terra que menos serão afetadas pela guerra na Ásia. Com toda a probabilidade, estas regiões serão a Rússia, o Oriente Próximo e a América Latina (o continente africano está praticamente condenado a converter-se num dos principais cenários do confronto armado entre as forças do governo mundial e os seus inimigos).
Seria errôneo pensar que a futura luta armada entre o cume neomonárquico e os de baixo terá a forma da caçada dos condottieri armados até aos dentes dos quase indefesos “aborígenes”. Da mesma maneira que na época do feudalismo tardio e do Renascimento, que na história humana destacam-se pelas guerras de caráter ideológico especialmente devastadoras, a cultura intelectual viveu um florescimento sem precedentes, desconhecido nos tempos mais pacíficos e estáveis. Assim, no futuro drama da humanidade pré-escatológica, seguramente descobrir-se-ão os últimos recursos, agora dificilmente imagináveis, do mais alto intelecto. Dado que o sistema de produção estará baseado na sobre-exploração das mentes dentro do espaço interativo informático, a atividade dos hiperhackers converter-se-á num dos instrumentos fundamentais da luta contra o Sistema. Trata-se de inimigos dignos uns dos outros.
A ideologia do governo mundial será o socioteísmo: visão do mundo baseada na restauração da ideologia simbólica centrada no ser ontológico (o paradigma platônico – N. do T.).
A doutrina das comunidades será a religião do sujeito transcendente, o culto da justiça, baseado no conceito do significado final, a predisposição para a culminação escatológica do drama histórico.
