19/10/2026

Geydar Dzhemal - O Roteiro da Catástrofe Asiática

 por Geydar Dzhemal

(2012)


A vida política internacional da última década decorre sob o signo de uma furiosa campanha de propaganda contra o programa nuclear do Irã. O Ocidente tenta desesperadamente criar a sensação de que o Irã está prestes a fabricar a sua bomba nuclear. O escândalo, continuamente alimentado pelos meios de comunicação mundiais anti-iranianos, assim como por diferentes estruturas burocráticas internacionais como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e alguns burocratas ativos e reformados, tem um caráter tão pouco adequado que muitos se dão conta de que o objetivo do Ocidente é muito diferente. A campanha contra o átomo iraniano não é mais do que uma cortina de fumaça; na realidade, trata-se de derrubar o regime que não é do agrado da "comunidade internacional". Imediatamente surgem várias perguntas. Este mesmo Ocidente "fechou os olhos" perante as armas nucleares da Índia e do Paquistão. Mais ainda, no seu tempo, a União Soviética opôs-se desesperadamente à perspectiva do aparecimento da bomba nuclear chinesa. Parecia que o Ocidente deveria ter unido os seus esforços aos da União Soviética, mas este apoio a Moscou não se produziu, muito pelo contrário: a China obteve ajuda ocidental, também nesta direção. Não é segredo que os cientistas nucleares franceses contribuíram notavelmente no desenvolvimento das tecnologias nucleares por parte da República Popular da China, não só da bomba, mas também na criação dos submarinos nucleares chineses. Quanto à Índia, sabe-se que o seu programa nuclear se apoiava na ajuda de Israel e da África do Sul.

14/10/2026

Geydar Dzhemal - A Questão do Gênero no Islã

 por Geydar Dzhemal

(2011)


Após a expulsão do Paraíso, o homem e a mulher se encontram numa situação ambígua: estão unidos por um destino comum, mas permanecem num antagonismo eterno. O monoteísmo abraâmico é realista ao descrever a relação entre os sexos e não oferece nenhuma solução ilusória para o problema.

E o problema existe! A humanidade não pode existir sem a união do homem e da mulher. Mas como construir a sociedade, como continuar o gênero humano no tempo, se o homem e a mulher são antagonistas?

Ao longo dos milênios, a sociedade pagã tentou encontrar a saída para esta armadilha, mas não fez mais do que vaguear, e continua a fazê-lo, pelos labirintos deste conflito fundamental. As soluções oferecidas pelas sociedades que ignoram a Revelação monoteísta resumem-se ao ditado bruto do homem – o patriarcado como base da organização social, ou a diferentes formas de predomínio social da mulher – o matriarcado. Ambas as formas não estabelecem a paz, mas fixam o antagonismo, dão-lhe, poder-se-ia dizer, um caráter permanente.

10/10/2026

Aleksandr Dugin - Der Arbeiter: Sobre Ernst Jünger

 por Aleksandr Dugin

(1995)


Ernst Jünger é o maior escritor alemão moderno, cujo percurso literário e político é um símbolo clássico de tudo o que foi vanguardista, vivo e inconformista na cultura europeia do século XX. Participante e testemunha de duas guerras mundiais, um dos principais teóricos da Revolução Conservadora alemã dos anos 20 e 30, inspirador do nacional-socialismo que rapidamente se tornou um "dissidente de direita" após a ascensão de Hitler ao poder, tendo sobrevivido ao ostracismo durante o período do totalitarismo nazista e, no entanto, alvo de repúdio por parte dos vencedores durante a "desnazificação", conseguiu, com seu talento e profundidade de pensamento, superar os preconceitos dos "democratas" – Jünger é hoje, com justiça, considerado um emblema do século XX, o intérprete dos sentimentos não apenas de uma "geração perdida", mas de um "século perdido", repleto de uma luta apaixonada e dramática, dos últimos surtos sagrados da vida nacional contra o profanismo asfixiante da modernidade tecnicista e universalista.

03/10/2026

Jean Meyer - A Maquinação Jesuíta no Imaginário Russo

 por Jean Meyer

(2015)



Introdução


Em 1888, podia-se ler no Tserkovnyi Viestnik (O mensageiro eclesiástico) um artigo assinado A. K. e intitulado "Novaia jezuitskaya machinatzia", "Uma nova maquinação jesuíta" (1888-14, col. 277-280). Denunciava Basil Livantsky, pseudônimo com o qual não se disfarçava muito bem o russo católico Mijail Zherebtsov, autor de um livro publicado no mesmo ano, em Friburgo de Brisgau: Protoprosviter Janychev i novyi doctrinalnyi krisis v russkoi tserkvi (O P. Janychev e a nova crise doutrinal na Igreja russa). "A maquinação jesuíta" aparece de maneira recorrente sob penas russas desde finais do século XVI até nossos dias. Em cada uma das grandes crises históricas, o tema do complô tramado pelos jesuítas se manifesta: a embaixada do jesuíta italiano Antonio Possevino, em tempos de Ivan o Terrível;1 a União de Brest em 1596 e o surgimento dos greco-católicos, denunciados como "uniatas"; no Tempo dos Distúrbios com os "falsos Dimitri" e a presença dos poloneses em Moscou até 1613; a existência da Companhia de Jesus no império de Catarina a Grande, Paulo e Alexandre I, quando Roma a havia suprimido; a passagem de russos ortodoxos ao "latinismo", exemplificado pelo príncipe Ivan Serguievich Gagarin, sacerdote e jesuíta; o ativismo de vários jesuítas na Rússia e na URSS, quando a Revolução desperta em Roma a ilusão da próxima catolicização da Ortodoxia (1917-1929); um ativismo semelhante, com menos ilusões, a partir de 1989. Cada uma daquelas etapas da história da Rússia proporcionou elementos para que se perpetue e adquira uma dimensão mítica o tema da conspiração, do complô, da "maquinação jesuíta".