30/08/2020

Julius Evola - A Religião da Ciência

por Julius Evola 

(1971)



O "cientificismo" é uma espécie de religião da ciência, da ciência moderna, que se supõe fornecer um conhecimento autêntico da realidade e resolver também, com suas aplicações técnicas, todos os problemas humanos e conduzir a um futuro brilhante. Esta paixão fez sua primeira aparição no início do século, encontrando mesmo uma expressão coreográfica no balé "Excelsior" no qual as conquistas da ciência da época eram exaltadas e se louvava a vitória da Razão e da Ciência, instrumentos do Progresso, sobre o "obscurantismo", uma vitória que levaria também à fraternidade universal.

29/08/2020

Esteban Hernandéz - Entrevista com Diego Fusaro: Idiotas de Esquerda Combatem um Fascismo Inexistente e Aceitam o Mercado

por Esteban Hernandéz e Diego Fusaro

(2019)



Você acaba de publicar ‘La notte del mondo’. Explique-me, por favor, por que estamos em uma noite escura, e em que ponto se cruzam Marx e Heidegger.

Meu livro ‘La notte del mondo. Marx, Heidegger e il tecnocapitalismo’ (UTET, 2019) é uma tentativa de raciocinar segundo as categorias de Marx e Heidegger sobre o que o próprio Heidegger, com os versos de Hölderlin, define “A noite do mundo”. A noite do mundo é uma época na qual a escuridão está tão presente que já não vemos mais sequer a escuridão em si e, portanto, não somos conscientes desta escuridão. Heidegger o expressa dizendo que “é a noite da fuga dos deuses”, na qual já nem sequer somos conscientes da pobreza e da miséria nas quais nos encontramos. Esta é uma situação de máxima emergência. Por sua vez, Marx nos ‘Grundrisse’ dizia que “o mundo moderno deixa insatisfeito, ou, se satisfaz em algo, é de modo trivial”. É outra maneira de dizer que estamos efetivamente na noite do mundo, onde sequer vemos o enorme problema em que nos encontramos. No livro eu emprego as categorias de dois autores muito diferentes, como Marx e Heidegger, para tratar de expressar quais são as contradições de nosso presente em que todo o mundo calcula e ninguém pensa. No qual a razão econômica e técnica, técnico-científica, se impôs como a única razão válida e pretende substituir todas as demais.

28/08/2020

Aleksandr Dugin - Introdução à Noomaquia (Lição I) - Noologia: A Disciplina Filosófica das Estruturas Intelectuais

ÍNDICE

Lição I: Noologia
Lição II: Geosofia
Lição III: O Logos da Civilização Indo-Europeia
Lição IV: O Logos de Cibele
Lição V: O Logos de Dioniso
Lição VI: A Civilização Européia


por Aleksandr Dugin

(2018)




Noologia como Ciência da Multiplicidade do Pensamento Humano

O termo Noologia designa a uma nova disciplina filosófica. Noologia é um neologismo derivado de dois termos gregos: νοῦς (“nous”) e λόγος (“logos”). Logos indica palavra, discurso ou investigação. Assim, a Noologia é a disciplina que estuda o Nous. Mas o que é o Nous? Você pode traduzi-lo como mente ou intelecto, ou mesmo consciência. Em alemão, estaríamos falando do "Bewusstsein". Trata-se de algo que está profundamente dentro da mente humana. A questão então surge: o que se entende por humano?

O homem é um ser que difere de todos os outros do mundo em uma coisa: pensamento. Ele é o ser pensante. Toda outra qualidade é compartilhada com outros seres vivos, mas o pensamento constitui uma exclusividade do ser humano, que logo pode então ser definido como uma criatura pensante ou um ser pensante. Como resultado, o pensamento é, por definição, humano. Pensar é ser humano. Todos os seres vivos têm um corpo e várias instâncias relacionadas a ele (todos experimentamos dor física, prazer físico e assim por diante), mas nenhuma criatura, exceto nós, no mundo dos vivos, tem um intelecto e é capaz de pensar. O pensamento ou Nous, então, constitui a essência do homem. Todos os outros aspectos da vida são comuns ao homem e a outras criaturas, mas o pensamento, o intelecto é um aspecto único do homem e é o que nos torna humanos. Ser humano significa ser uma criatura pensante. Assim, o Nous é a raiz mais profunda do ser humano, da humanidade. Somos humanos porque o Nous está em nós. Sem o Nous, o humano não existe. 

Portanto, pensar o Nous, ou seja, explorar a Noologia, significa explorar não um tipo de objeto alienado, mas a nós mesmos. Refletir sobre o Nous significa refletir sobre nós mesmos, em nossa natureza mais profunda. Não se trata de algo abstrato, mas de uma espécie de introspecção destinada a conhecer as profundezas mais remotas do nosso ser, a humanidade dos seres humanos. Isto é o Nous.

12/08/2020

Israel Lira - Anticapitalismo ou Antiliberalismo?

por Israel Lira

(2020)




Em muitos lugares ao redor do mundo há uma onda de protestos contra o liberalismo (sob sua forma atual, neoliberalismo) e o capitalismo. Mas a pergunta é: por que não existem protestos com o mesmo vigor em nações capitalistas como Coreia do Sul, Cingapura ou Rússia, observadas as diferenças óbvias de cada país, como na França, Equador e Chile? Apenas para mencionar os casos mais recentes e conhecidos, o que realmente está em crise? Liberalismo ou capitalismo? Ambos? Vamos começar com o arcabouço teórico, uma vez que a categoria de capitalismo é talvez a mais usada e prostituída de todas, tomada como análoga a outras categorias, como propriedade privada e economia de mercado, o que gerou uma onda de defesa do capitalismo para pessoas pobres em que todos são capitalistas — a velha senhora que vende abacaxi nas ruas é capitalista, a mercearia é capitalista etc. Esse é precisamente o problema quando não temos conceitos claros.

10/08/2020

Roberto Bonuglia - A Economia como Ideologia: Raiz de Todos os Males

por Roberto Bonuglia

(2020)



“O desenvolvimento econômico tornou-se um fim em si mesmo, desconectado de todos os fins sociais”. Bernard Perret e Guy Roustang escreveram isso em "A Economia contra a Sociedade. Enfrentando a crise de integração social e cultural" (Paris, Editions du Seuil, 1993). Hoje, como ontem, é uma afirmação mais do que compartilhável, visando alertar que a economia estava se tornando cada vez mais um “fim” do que um “meio”. 

Na verdade, basta olhar para trás em sentido cronológico: nos trinta anos da globalização, a economia tornou-se muito mais do que apenas uma “forma de conhecimento de certos fenômenos sociais”. Tornou-se uma “técnica econômica”, afastando-se anos-luz dos postulados clássicos do que era precisamente a economia “política”.

Na sociedade padronizada do Terceiro Milênio, a lógica econômica tornou-se a mentalidade atual e predominante que acabou orientando as relações sociais, padronizando o senso comum, marginalizando a moral e todas as formas sociais.

06/08/2020

Adriano Scianca - Entrevista com Alain de Benoist: A Ideologia de Gênero é Anti-Sexo

por Adriano Scianca, Alain de Benoist

(2015)


O debate sobre a teoria do gênero está bloqueado porque os defensores desta ideologia… negam a sua existência. Segundo o movimento gay, nunca houve tal teoria, já que a única coisa que afirmam fazer é lutar contra a discriminação. A teoria do gênero, explicam os ativistas gays, foi inventada pelo Vaticano para fazer as pessoas acreditarem que existe um complô gay com objetivos misteriosos e sórdidos. Finalmente, existe ou não uma teoria do gênero?


Claro que há! Autores como Judith Butler, Eric Fassin, Monique Wittig e muitos outros, o que eles são senão representantes da teoria do gênero, ou seja, partidários de uma teoria que afirma que as identidades sexuais não são de todo dependentes do sexo biológico ou da filiação sexual? Mas esta teoria também não é o resultado de nenhuma “conspiração homossexual”. Ela se baseia na ideia de que a identidade sexual é derivada de uma pura “construção social”. Afirma que não há diferença significativa entre meninos e meninas ao nascer (postulado de neutralidade); afirma que o indivíduo não deve nada à natureza e pode se construir a partir do nada (fantasma da autogeração).

Quanto à discriminação, há formas muito diferentes de combatê-la. Se a discriminação consiste em tratar homens e mulheres de forma desigual, eu sou, naturalmente, o primeiro a querer que ela desapareça. Mas precisamos saber se a igualdade deve ser entendida como sinônimo de egoísmo. Em outras palavras, precisamos saber se, para restaurar a igualdade entre os sexos, a diferença entre eles precisa desaparecer, no que eu obviamente não acredito. O mesmo se aplica aos “estereótipos”, que nada mais são do que verdades estatísticas abusivamente generalizadas. A forma como algumas pessoas imaginam que, para “desconstruir estereótipos”, é preciso atacar as próprias noções de masculino e de feminino revela que, por muito que finjam o contrário, aqueles que pensam desta forma aderem ao postulado básico da teoria do gênero.

03/08/2020

José Francisco Garcia - Vida e Obra de Nicolás Gómez Dávila

por José Francisco Garcia

(2020)



O primeiro objetivo desse artigo é ser uma pequena introdução à vida e às ideias de Nicolás Gómez Dávila. O segundo é motivar um estudo mais profundo de sua obra.

Sua Vida


Nicolás Gómez Dávila nasceu em 18 de maio de 1913, na cidade de Bogotá. Era descendente de Antonio Nariño, um dos líderes do movimento de independência na Colômbia (então conhecida como Nueva Granada). Quando tinha seis anos de idade sua família se mudou para Paris, onde estudou numa escola beneditina até que um caso grave de pneumonia o obrigou a continuar sua formação com professores particulares. Obteve uma educação sólida graças a aprendizagem de línguas clássicas (grego e latim) e línguas modernas (inglês, francês e alemão). Com 23 anos voltou à Bogotá, já casado, e nunca mais deixou seu país (com exceção de uma breve estadia de seis meses na Europa) até sua morte em 17 de maio de 1994.

Passou a maior parte de sua vida recluso voluntariamente em sua biblioteca, rodeado de uma coleção de mais de 30.000 volumes, onde dedicou todo tempo que pôde à leitura e escrita. O Italiano Franco Volpi, um dos maiores divulgadores de seu pensamento na Europa, resume sua vida nessa frase: “Nasceu, escreveu, morreu”[1].

31/07/2020

Juan Gabriel Caro Rivera - Norberto Ceresole e a Crise Venezuelana

por Juan Gabriel Caro Rivera 

(2019)



Hoje o nome de Norberto Ceresole talvez seja desconhecido para a maioria das pessoas que nem conhecem seu trabalho, mas este sociólogo militar e analista geopolítico foi um dos grandes teóricos da revolução bolivariana na Venezuela.

Norberto Ceresole conheceu Hugo Chávez muito antes de ele se tornar presidente, em suas primeiras viagens à Venezuela em 1995. Naquela época, o exilado argentino tentou aconselhar Chávez e convencê-lo da necessidade de uma revolução baseada em uma geopolítica continentalista e em um caudilhismo pós-democrático que se tornaria um futuro farol de liberdade para a América Latina. Ceresole procurou aplicar seu modelo revolucionário segundo o qual o exército, o caudilho e o povo formariam uma tríade capaz de se entrelaçar em um destino comum, cujo objetivo seria a soberania, a independência técnico-militar e a criação de uma frente multipolar, aliada a outras nações do Terceiro Mundo, especialmente no Oriente Médio e próxima ao nacionalismo árabe. 

07/07/2020

Andrea Virga - Socialismo e Família: O que dizia o Direito de Família dos Países Socialistas?

por Andrea Virga

(2019)



Este artigo oferece uma antologia das concepções de família expressas nas mais importantes experiências políticas socialistas dos séculos XX e XXI, através de suas cartas constitucionais. Como se pode observar, quase todas reconhecem que a família é uma parte fundamental da sociedade, merecedoras portando de proteção por parte do Estado, e que o matrimônio, tendo como finalidade a procriação e a educação da prole, é também reconhecido explicitamente como união entre um homem e uma mulher, mesmo nos lugares em que se aceitam as uniões civis. Para além das diferenças culturais, o contraste com a esquerda progressista de matriz individualista e liberal, que prega a dissolução da família sobre uma base subjetivista, não poderia ser maior.

05/07/2020

Andrew Korybko - A Guerra Híbrida chegou aos EUA

por Andrew Korybko

(2020)


Dezenas de Desestabilizações


Está se tornando norma os comentaristas opinarem que “a América está mais dividida do que nunca” a cada dia que passa, mas isso na verdade é um reflexo preciso da realidade atual, especialmente no contexto dos tumultos de quase uma semana que tomaram conta de dezenas das grandes cidades americanas. O pretexto para essa desestabilização é a morte de George Floyd nas mãos de (ou melhor, sob o joelho de) um policial de Minneapolis, mas ao invés de protestos pacíficos inspirados em Martin Luther King serem o método através do qual os enlutados memorializam o homem que muitos acreditam ter sido vítima de um abuso de poder racista por parte da polícia, muitos deles em vez disso exploraram esse incidente como um pretexto conveniente para realizar uma onda de crimes em âmbito nacional. Pilhagens e saques tem infelizmente caracterizado muitos desses supostos “protestos pacíficos”, dividindo ainda mais os americanos no processo.

“Os Manifestantes são Revolucionários Heróicos Dedicados à Paz e à Justiça!”


Aqueles que apóiam essas multidões violentas que estão se espalhando por todo o interior do país acreditam que esses crimes de destruição são “atos legítimos de protesto” ou mesmo o início de um “movimento de resistência revolucionário”. Não importa para eles que pessoas inocentes e seus bens estejam sendo atacados porque os perpetradores tendem a ser afro-americanos, o que lhes dá carta branca para fazerem o que quiserem aos olhos de praticamente todos os críticos dos EUA, sejam eles esquerdistas ou “anti-imperialistas”. Alguns chegaram a inventar a ridícula teoria de que todo criminoso capturado pelas câmeras é na verdade um “policial disfarçado” ou “supremacista branco”, o que desafia a crença, pois é óbvio, pela infinidade de filmagens disponíveis, que estes são apenas puros oportunistas que viram uma chance de roubar coisas e causar estragos. No entanto, esses criminosos estão sendo saudados como heróis, e qualquer reação de autodefesa a eles é enquadrada como um “crime de ódio racista”.