22/05/2015

Angel Millar - Espiritualidade, Marxismo e o Futuro da Religião

por Angel Millar

Tradução de Lucas Leiroz



Em uma das revelações mais surpreendentes do ano, “no que concerne teoria socioeconômica”, disse Dalai Lama em janeiro, “eu sigo sendo marxista”.

Religião, espiritualidade, socialismo e capitalismo têm, talvez, se cruzado por mais de um século no Ocidente, com movimentos resultantes se expressando em noções de “direitos”, ou, pelo contrário, conservadorismo social. 

O movimento da Teosofia, inspirado no hinduísmo e na antiga religião egípcia, buscou explicar a desigualdade social pelo Karma, e isso teve um impacto significativo no anticolonialismo na Índia e no Ceilão. Sufragistas e ativistas dos direitos das mulheres eram, no início, muitas vezes, espiritualistas do sexo feminino. E quem poderia esquecer os socialistas cristãos de inspiração marxista da Teologia Católica da Libertação?

Religião e espiritualidade também têm encontrado expressão no lado oposto do espectro político, “da direita cristã” pró-capitalista, ao uso nazista da imagética e pompa tanto pagã quanto cristã, ao interesse recente em Aleister Crowley pela extrema-direita (que a maioria dos devotos de Crowley, sem dúvidas, deploram, considerando a tendência de Crowley à quebra de regras e ao sexo atrevido).

Mas, enquanto a direita cristã capitalista ainda tem uma influência em partes dos EUA, a fusão de espiritualidade e anticapitalismo emergiu como a força mais significativa da esquerda, com o Occupy Wall Street e os seus protestos, sessões de ioga e meditação em massa. Fora da América, Dalai Lama se proclama economicamente marxista e o Papa Francisco ataca o capitalismo e a economia de "conta-gotas". 

A religião alcançou seus limites?

“Em países capitalistas há um crescente abismo entre ricos e pobres. No marxismo há uma ênfase na distribuição igualitária. Isso é crucial para mim.”, comentou Dalai Lama. 

Poucos duvidam que os ricos estejam ficando mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, mas se deseja saber por que Dalai Lama e Papa Francisco, bem como a direita cristã, passaram a pensar em economia por termos de capitalismo e socialismo, ou anticapitalismo – ideias políticas e sociais – em vez de buscar possibilidades dentro de suas próprias religiões, fosse com o Distributismo (a doutrina econômica católica com base na encíclica Rerum Novarum e na Quadragesimo anno do Papa Pio XI) ou noções mais recentes do “capitalismo do Dharma”.

É notável que só o islamismo, com sua "shari'a financeira" - e "hipoteca shari'a" e daí em diante -  chegou a um entendimento econômico proveniente de sua religião (embora muitas vezes pensadores islâmicos tenham sido influenciados pelo marxismo, como o caso de Ali Shariati, no Irã). Não é por acaso que o islã, de todas as religiões do mundo, é a mais assertiva no momento.

Com a guinada de Dalai Lama e Papa Francisco para pensamentos econômicos fora das religiões, sugerimos que, talvez, as religiões tenham se tornado incapazes de enfrentar as injustiças econômicas modernas. Ou que, talvez, hajam perdido a fé em si mesmas para fazer mudanças no mundo. 

Talvez pelo cristianismo ser frequentemente criticado por ter sido o motor histórico do imperialismo, do racismo e assim por diante, que ele busca, naturalmente, se fundir com o lado político contra tal injustiça, à direita, se manter firme numa espécie de identidade defensiva cristã, desprovida de qualquer elemento da mensagem de Jesus.

Mas, mais importante que isso, o moderno movimento espiritual do Ocidente, mesmo solto e fluido, ultrapassou igrejas estabelecidas como força de mudança social, reivindicando, com ou sem razão, que suas ideias sociais eram parte de tradições antigas nas quais o movimento se inspira.

Isso é raramente verdade, mas ainda assim, praticantes espirituais que também são defensores dos direitos das mulheres podem reivindicar a adoração de deusas etc. na antiga Europa ou Índia (embora a adoração de entidades femininas não signifique necessariamente a emancipação da mulher). O mesmo pode ser dito para qualquer outra crença social que seja imaginada como existente antes do cristianismo. Tais crenças podem não ser fundamentadas factualmente, mas isso é irrelevante quando as pessoas são motivadas por mitos, imagens, imaginação e ideias. É isso que nos dá energia. 

Capitalismo revolucionário ou a antiga rede renovada:

Christopher Hitchens gostava de descrever a si mesmo como “um socialista vivendo em um tempo onde o capitalismo é mais revolucionário”. É uma avaliação interessante, e que reflete o fato de, em muitos casos, os valores da centro-esquerda se entrincheirarem no mercado. Isso pode ser a venda de Che Guevara em sorvetes embalados (Cherry Guevara) ou a grande indústria lutando para abrir fronteiras, de modo a se beneficiar da importação de mão-de-obra barata, o capitalismo pode canalizar a esquerda e até mesmo ideias socialistas.   

Mas também podem muitos partidos de esquerda e praticante espirituais canalizar o capitalismo. “Muitos líderes marxistas”, afirma Dalai Lama, “são agora capitalistas em seu pensamento”. 

Estamos todos familiarizados com o termo “socialismo champanhe”. Para o socialista champanhe, ostentar crença na igualdade social sempre foi uma forma de justificar o fato de ter mais dinheiro que os outros. Quem deve ter mais dinheiro? O ético ou o antiético? Vocês veem, eles merecem isso. 

Assim também é por vezes com a adoção de formas ocidentais de espiritualidade. Como o pensador neo-comunista e crítico cultural Slavoj Zizek observou, o comerciante de Wall Street pode usar, por exemplo, a meditação budista ocidental como uma forma de lidar com as tensões do mercado. Ele pode se convencer de que tudo é “ilusão”, de modo que ele não está fazendo nada de errado em empobrecer as pessoas e enriquecer aqueles que já são mais ricos do que quase todos os outros, inclusive ele próprio.

Uma espiritualidade religiosa socialista? 

O que significa quando os líderes do budismo tibetano e do catolicismo romano estão apaixonados pela economia de esquerda? Além disso ser um reflexo, como o Papa observou, do abismo crescente entre ricos e pobres, parece indicar tanto uma perda de confiança nessas religiões e a possibilidade (principalmente para um cristianismo não-direitista) de ressurgimento. 

Carente por tanto tempo, talvez o cristianismo vá redescobrir uma espiritualidade cristã por detrás da economia. Este não é o caminho ideal para uma experiência mais gnóstica, mas é claro que o cristianismo precisa de mais do que de direita pró-capitalista e negócios como de costume, com a sua frequência de idas à igreja declinando. 

Mais que tudo, entretanto, isso parece sugerir que a religião (especialmente budismo e cristianismo) fundirá espiritualidade com economia. 

20/05/2015

Daniel James Spaulding - A Fraude Sem Fim: ISIS

por Daniel James Spaulding

Tradução por Carolina Santos



Em meio à falta de piedade da Arábia Saudita, a campanha de bombardeios contra o povo do Iêmen vem com a notícia de que uma facção de militantes aliados ao ISIS teriam estabelecido um ''beachhead''(1)  no sul da Península Arábica para seu proclamado Califado. Já os relatórios de mídia em circulação apontam que a filial local do al-Qaeda obteve vantagem na campanha de bombardeios de Riad para obter controle do território do sudoeste do Iêmen, com a ausência de oposição perceptível por parte dos sauditas a esses atos. Os sauditas não sufocaram dos grupos como al-Qaeda e ISIS qualquer prioridade em seus ataques, pelo contrário, são exclusivamente as milícias houthi que estão na vista do reino wahhabista.

Esse estado de interesses aparentemente se encaixa muito bem às facções jihadistas. Eles não têm expressado oposição visível à campanha saudita de bombardeios e homicídios em massa de civis iemenitas. Ao invés disso, o ISIS emitiu uma declaração de guerra contra os houthis, ameaçando assassinatos em massa do setor xiita do Iêmen. Os objetivos da Arábia Saudita, e seu principal financiador, os Estados Unidos, e facções jihadistas como ISIS e al-Qaeda convergem no que tange à luta e repressão dos houthis (cinicamente apresentados como proxies iranianos). Ou melhor, mais uma vez, jihadistas são deliberadamente encorajados a travar uma guerra contra os inimigos e rivais de Washington e Riad, assim como eles têm sido empregados anteriormente na Líbia e na Síria.

Apesar de toda a retórica intencionalmente assustadora, e a desinformação apregoada pelos elementos da mídia Norte Americana sobre campos secretos de treinamento do ISIS no México, existem precisamente, zero células ISIS descobertas nos EUA. Mais especificamente, células não manufaturadas e coordenadas pelos EUA. Mais especificamente, nenhuma célula não manufaturada e gerenciada pelas próprias agências de inteligência doméstica norte americanas foi encontrada. Por outro lado, o Estado Islâmico é muito ativo no ataque selvagem de estados, como aquele da Síria de Bashar Al Assad, e outros grupos, como os houthis no Iêmen, que estão no alvo de Washington e Riad. Sem mais rodeios, o Estado Islâmico e o al-Qaeda são as tropas de choque da admirável nova guerra dos Estados Unidos.

Abu Bakr al-Baghdadi, um homem de negócios

É uma comum e inteiramente cínica mimetização dentre certas facções da mídia alternativa para colocar toda a culpa em Barack Obama e nos Estados Unidos por apoiarem o jihad internacional, insinuando que ele é secretamente um simpatizante do Islã e companheiro de jornada. Do outro lado, a junta Americano-Saudita, patrocinadora das  brigadas mujahedin não é novidade alguma para a administração Obama. Isto vai até Jimmy Carter e Zbigniew Brzeszinski, que armou o mujahedin no Afeganistão anteriormente aos russos. Na verdade, toda a questão de amor sórdido remonta ainda mais cedo à polícia imperial Britânica tentando dividir e governar o Oriente Médio, como decretado por Lawrence da Arábia. Curiosamente, o governo iraniano, agora contrariado pelos Estados Unidos e Israel, foi construído por ambos países durante os anos 80. Mais recentemente, durante o governo de George W. Bush, o eixo Washington-Riyadh fundou e facilitou que militantes jihadistas no Irã e no Líbano agissem, em um esforço orquestrado para desestabilizar os países.

O objetivo específico dessa empreitada, de acordo com o jornalista investigativo Seymour Hersh, que destrinchou a história, é usar os jihadistas sunitas para minar e degradar a influência dos poderes Xiitas na região, especialmente no Irã, Síria e Hezbollah no Líbano. [1]

Assim, as posições atuais e atividades empregadas pela administração Obama para esse fim são meramente uma continuação das políticas anteriores da Era Bush. Colaborando com os sauditas para liberar jihadistas radicais sunitas na Síria, Iraque e Iêmen contra os xiitas daquelas nações é uma tentativa de destruir a percebida hegemonia do Irã no Oriente Médio.

O papel de Israel nessa empreitada criminosa, enquanto isso, não deve ser ignorado. Israel tem bombardeado repetitivamente o exército Sírio, e ao mesmo tempo, permitindo que jihadistas sírios permaneçam intocados no Golan, e até mesmo providenciando várias formas de proteção aos jiadistas sírios. Oficiais de Tel Aviv estão até bastante abertos sobre o fato de que estão muito mais confortáveis com assassinos do Estado Islâmico de outros radicais sunitas no poder ao lado do que com o Irã e os xiitas.

Entre os globalistas baseados em Washington e os wahhabistas sauditas, uma mão lava a outra. (Para que não nos atrevamos a mencionar a cobertura acima do envolvimento da Arábia Saudita com 9 / 11 ataques de terrorismo por Washington.)

Nós  nunca entenderíamos a monstruosa fraude perpetrada contra os povos do Oriente Médio, assim como simples americanos, por ingerir o veneno da mídia de massas. Quando não ruminam fofocas ridículas sobre celebridades, ou itens mais banais, a imprensa ocidental, especialmente a norte americana, é uma fonte contínua de desinformação, notícias falsas, pontos de vista dos departamentos de Estado, e em geral, estupidez que aliena.

Estão nossas crianças aprendendo?” –Pres. George W. Bush

''Nós vivemos em um mundo onde existe mais e mais informação'', observou o filósofo francês Jean Baudrillard, ''e menos e menos significância''.

A maioria da audiência dos noticiários ou consumidores de mídias sociais é saturada com todos os tipos de imagens, narrativas e factóides, mas são suprimidos de qualquer significado coerente dos itens que absorvem.

Muitos assumem, observa Baudrillard, que ''informação produz significado'', mas eles estão errados, e na realidade ''o oposto acontece''.

Ao invés de  buscar significado ou até mesmo conectar os pontos da questão Estado Islâmico, e sem saber das manipulações dialéticas da elite, o americano mediano é largado para se afundar em sua própria ignorância, cego pelos que ditam regras em seu nome.

Ele é facilmente intimidado com medo e terror dos mesmos grupos jihadistas que o governo tem patrocinado e promovido por décadas, rendendo a sua liberdade e identidade enquanto saúdam a sua própria desumanização na Admirável Nova Guerra. Assassinato, mutilação e um espetáculo caleidoscópico de mentiras: são esses os frutos da fraude que celebramos.

Nota do Autor:

[1] A Rússia  é outro alvo perpétuo da rede de jihadistas patrocinados pelos americanos e sauditas. O presidente russo, Vladimir Putin, recentemente revelou em um a entrevista que ele confrontou Bush sobre o acobertamento pela CIA de radicais no norte do Cáucaso. E em 2013,  o então líder da inteligência saudita, o  Príncipe Bandar em um encontro com Putin ofereceu  liderança em grupos de militares chechenos, os quais ele  sabia serem dirigidos pela inteligência saudita, se a Rússia concordasse em por um fim em seu apoio ao governo Assad na Síria.

Nota da Tradutora:

(1)Beachhead =  Linha temporária criada quando uma unidade militar chega em alguma praia através do mar e inicia a defesa da área enquanto outros reforços ajudam até  uma  parte suficiente da área esteja tomada.

16/05/2015

Tomislav Sunic - História e Decadência: O Pessimismo Cultural de Spengler Hoje

por Tomislav Sunic



Oswald Spengler (1880-1936) exerceu influência considerável sobre o conservadorismo europeu antes da Segunda Guerra Mundial. Ainda que sua popularidade tenha diminuído ligeiramente após a guerra, suas análises, à luz das condições perturbadoras da política moderna, novamente parecem ganhar popularidade. Literatura recente lidando com sombrios temas pós-modernos sugerem que as profecias de Spengler sobre decadência podem agora encontrar apoiadores dos dois lados do espectro político. A natureza alienadora da tecnologia moderna e a decadência social e moral de grandes cidades hoje dá crédito novo à visão spengleriana do colapso iminente do Ocidente. Na América e na Europa um número cada vez maior de autores percebe no estado permissivo liberal um arauto do totalitarismo "suave" que pode levar decisivamente à entropia social e concluir no advento do totalitarismo "duro".

Spengler escreveu sua principal obra O Declínio do Ocidente (Der Untergang des Abendlandes) contra o pano-de-fundo da antecipada vitória alemã na Primeira Guerra Mundial. Quando a guerra acabou em desastre para os alemães, suas previsões de que a Alemanha, junto ao resto da Europa, estava destinada a um declínio irreversível adquiriu um senso renovado de urgência para grandes números de pessimistas culturais. A Primeira Guerra Mundial deve ter abalado profundamente o otimismo semi-religioso daqueles que haviam anteriormente profetizado que as intenções tecnológicas e os elos econômicos internacionais pavimentariam o caminho para a paz e a prosperidade. Ademais, a guerra provou que as invenções tecnológicas poderiam ser um instrumento perfeito para a alienação humana e, eventualmente, sua aniquilação física. Inadvertidamente, ao tentar interpretar os ciclos da história mundial, Spengler provavelmente teve mais sucesso em difundir os espíritos de desespero cultural a sua própria geração e às futuras.

Como Giambattista Vico, que dois séculos atrás desenvolveu sua tese sobre a ascensão e declínio da cultura, Spengler tentou projetar um padrão de crescimento cultural e decadência cultural de uma certa forma científica: "a morfologia da história" - como ele mesmo e outros se referem a sua obra - ainda que o termo "biologia" pareça mais apropriado considerando a inclinação de Spengler por ver culturas como entidades orgânicas, alternadamente afligidas com doenças e pragas ou mostrando sinais de vida vigorosa. Indubitavelmente, a concepção orgânica da história foi, em grande medida, inspirada pela popularidade da literatura científica e pseudocientífica, que, no início do século XX começou a focar sua atenção nos paradigmas raciais e genéticos para explicar os padrões de decadência social. Spengler, porém, prudentemente evita o determinismo racial em sua descrição da decadência, ainda que sua exaltação do determinismo histórico em sua descrição não raro o aproxime de Marx - ainda que em uma direção inversa e pessimista. Em contraste a muitos pensadores igualitários, o elitismo e o organicismo de Spengler concebiam a espécie humana como composta por povos distintos e opostos, cada um experimentando seu próprio crescimento e morte, e cada um lutando pela sobrevivência. A "humanidade", escreve Spengler, deveria ser vista ou como um "conceito zoológico ou uma palavra vazia". Se algum dia esse fantasma da humanidade desaparecer da circulação das formas históricas, "nós notaremos então uma afluência assombrosa de formas genuínas". Aparentemente, por forma (Gestalt), Spengler quer se referir à ressurreição da noção clássica do Estado-Nação, que, no início do século XX, foi atacada pelos defensores da política globalista e universalista. Spengler deve receber crédito, porém, por apontar que o conceito frequentemente usado de "história mundial", na verdade envolve um conjunto impressionante de culturas diversas e opostas sem denominador comum; cada cultura expressa suas próprias formas, persegue suas próprias paixões e luta com sua própria vida ou morte. "Há culturas florescentes e fenecentes", escreve Spengler, "povos, línguas, verdades, deuses e paisagens, tal como há carvalhos, pinheiros, flores, arbustos e pétalas jovens e antigas - mas não há humanidade amadurecendo". Para Spengler, as culturas parecem estar crescendo em sublime futilidade, com algumas se aproximando de um estágio doentio terminal, e outras ainda demonstrando sinais vigorosos de vida. Antes da cultura emergir, o homem era uma criatura a-histórica; mas ele se torna a-histórico novamente e, pode-se acrescentar, até hostil à história: "tão logo alguma civilização tenha desenvolvido sua forma plena e final, pondo assim fim ao desenvolvimento vivo da cultura" (2:58; 2:38).

Spengler estava convencido, porém, de que a dinâmica da decadência bem poderia ser prevista, desde que dados históricos exatos estivessem disponíveis. Tal como a biologia humana gera uma expectativa bem definida, resultando finalmente na morte biológica, também cada cultura humana possui seus próprios "dados", normalmente não durando mais que mil anos - um período, separando seu desabrochar de sua eventual antítese histórica, o inverno, da civilização. A estimativa de mil anos antes do declínio da cultura se iniciar corresponde à certeza de Spengler de que, após este período, cada sociedade tem que se deparar com sua autodestruição. Por exemplo, após a queda de Roma, o renascimento da cultura europeia começou no século IX com a dinastia carolíngia. Após o doloroso processo de crescimento, auto-afirmação e amadurecimento, mil anos depois, no século XX, a vida cultural na Europa está chegando ao seu encerramento histórico definitivo.

Como Spengler e seus sucessores contemporâneos a veem, a cultura ocidental agora se transformou em uma civilização decadente afligida por uma forma avançada de degeneração social, moral e política. Os primeiros sinais dessa degeneração apareceram pouco após a Revolução Industrial, quando a máquina começou a substituir o homem, quando sentimentos deram lugar à razão. Desde aquele evento nefasto, novas formas de conduta política e social tem emergido no Ocidente - marcadas por uma obsessão difusa com o crescimento econômico infinito e o melhoramento humano irreversível - alimentadas pela crença de que o peso da história pode finalmente ser removido. As novas elites plutocráticas, que agora substituíram a aristocracia orgânica, impuseram o ganho material como o único princípio digno de ser perseguido, reduzindo toda interação humana a uma imensa transação econômica. E como as massas nunca podem estar plenamente satisfeitas, diz Spengler, é compreensível que eles buscaram mudanças em suas políticas existentes mesmo que tais mudanças possam significar a perda da liberdade. Poder-se-ia acrescentar que esse desejo por afluência econômica será traduzido em um declínio incessante do senso de responsabilidade pública e um sentido emergente de desenraizamento e anomia social, que finalmente e inevitavelmente levará ao advento do totalitarismo. Pareceria, portanto, que o processo de decadência pode ser evitado, ironicamente, apenas recorrendo-se a regimes linha-dura saudáveis.

Usando as previsões apocalípticas de Spengler, fica-se tentado a traçar um paralelo com a política ocidental moderna, que similarmente parece passar por um período de decadência e degeneração. John Lukacs, que porta o selo inequívoco do pessimismo spengleriano, vê a natureza permissiva da sociedade liberal moderna, como representada na América, como o primeiro passo na direção da desintegração social. Como Spengler, Lukacs afirma que o individualismo excessivo e o materialismo generalizado cada vez mais paralisam e tornam obsoleto o senso de responsabilidade cívica. Deve-se provavelmente concordar com Lukacs que nem a retirada da censura, nem a impopularidade crescente dos valores tradicionais, nem a limitação da autoridade estatal em Estados liberais contemporâneos, parecem ter levado a um ambiente mais pacífico; ao invés, um senso crescente de desespero parece ter despertado uma forma de neobarbarismo e vulgaridade social. "Já riqueza e pobreza, elegância e vulgaridade, sofisticação e selvageria vivem juntos cada vez mais", escreve Lukacs. De fato, que poderia ter previsto que uma sociedade capaz de lançar foguetes à lua ou curar doenças que outrora varreram o mundo também poderia se tornar uma civilização afligida pela atomização social, pela criminalidade e por um vício de escapismo? Com suas previsões apocalípticas, Lukacs tal como Spengler, escreve: "Esta mais apinhada de gente entre as ruas da maior das civilizações; este é agora o inferno do mundo".

Interessantemente, nem Spengler nem Lukacs nem outros pessimistas culturais parecem prestar muita atenção no apetite obsessivo por igualdade, que parece desempenhar, como vários autores contemporâneos apontam, um papel importante na decadência e no resultante senso de desespero cultural. Fica-se inclinado a pensar que o processo de decadência no Ocidente contemporâneo é o resultado de doutrinas igualitárias que prometem muito mas dão pouco, criando assim cidadãos economicistas e desenraizados. Ademais, elevados ao status de religiões seculares modernas, o igualitarismo e o economicismo inevitavelmente seguem sua própria dinâmica de crescimento, que provavelmente conclui, como Claude Polin nota, no "terror de todos contra todos" e no feio ressurgimento do totalitarismo democrático. Polin escreve: "O homem indiferenciado é por excelência um homem quantitativo; um homem que acidentalmente difere de seus vizinhos pela quantidade de bens econômicos em sua posse; um homem sujeito a estatísticas; um homem que reage espontaneamente conforme as estatísticas". Possivelmente, a sociedade liberal, caso se torne afligida por dificuldades econômicas e atingida por oportunidades rarefeitas, não terá opção senão domar as massas inquietas em um "regime de força" no sentido spengleriano.

Spengler e outros pessimistas culturais parecem estar certos em apontar que as formas democráticas de política, em sua fase final, estarão acometidas por convulsões morais e sociais, escândalos políticos, e por corrupção em todos os níveis sociais. No topo disso tudo, como Spengler prevê, o culto ao dinheiro reinará supremo, porque "através do dinheiro a democracia destrói a si mesma, após o dinheiro ter destruído o espírito" (2: p.582; 2: p. 464). Julgando pelo desenvolvimento moderno do capitalismo, Spengler não pode ser acusado de pressuposições fantasiosas. Essa civilização econômica soçobra em uma grande contradição: por um lado sua religião dos direitos humanos estende seus princípios legais beneficentes a todos, reconfortando cada indivíduo da legitimidade de seus apetites terrenos; por outro lado, essa mesma civilização igualitária fomenta um modelo de darwinismo econômico, atropelando impiedosamente sob seus pés aqueles cujos interesses não se situam na arena econômica.

O próximo passo, como Spengler sugere, será a transição da democracia ao cesarismo salutar; substituição da tirania dos poucos pela tirania dos muitos. O estado neo-hobbesiano, neo-bárbaro está sendo construído:

"Ao invés das piras emerge o grande silêncio. A ditadura dos chefes de partido é sustentada pela ditadura da imprensa. Com dinheiro, faz-se uma tentativa de atrair hordas de leitores e povos inteiros para longe da atenção do inimigo e trazê-los sob seu próprio controle de pensamento. Ali, eles aprendem apenas do que devem aprender, e uma vontade superior moldará sua imagem do mundo. Não é mais necessário - como faziam os príncipes barrocos - forçar seus subordinados ao serviço militar. Suas mentes são açoitadas através de artigos, telegramas, imagens, até que eles demandem armas e forcem seus líderes a uma guerra à qual estes queriam ser forçados". (2: p.463)

A questão fundamental, porém, que Spengler e muitos outros pessimistas culturais não parecem abordar, é se o cesarismo ou o totalitarismo representa o remédio antitético à decadência ou, contrariamente, a mais extrema forma de decadência? A literatura atual sobre totalitarismo parece focar nos efeitos colaterais desagradáveis do Estado saqueado, a ausência de direitos humanos, e o controle absoluto da política. Por contraste, se a democracia liberal é de fato um sistema extremamente desejável e o menos repressivo até então conhecido no Ocidente - e se, ademais, essa democracia liberal afirma ser o melhor custódio da dignidade humana - fica-se imaginando por que ele incansavelmente causa desenraizamento social e desespero cultural entre um número cada vez maior de pessoas? Como Claude Polin nota, as chances são de que, a curto prazo, o totalitarismo democrático vencerá já que a segurança que ele fornece tem mais apelo às massas do que a vaga noção de liberdade. Poder-se-ia acrescentar que o ritmo do processo democrático no Ocidente leva eventualmente ao impasse caótico, que necessita da imposição de um regime linha-dura.

Ainda que Spengler não forneça uma resposta satisfatória para a questão do cesarismo vs. decadência, ele admite que a decadência do Ocidente não precisa significar o colapso de todas as culturas. Ao invés, parece que a doença terminal do Ocidente pode ser um novo começo para outras culturas; a morte da Europa poderia resultar em uma África ou Ásia mais forte. Como muitos outros pessimistas culturais, Spengler reconhece que o Ocidente envelheceu, não deseja lutar, está com seu inventário político e cultural esgotado; consequentemente, ele é obrigado a ceder o mando da história àquelas nações que estão menos expostas ao pacifismo debilitador e aos sentimentos auto-flagelantes de culpa que, por assim dizer, se tornaram as novas marcas registradas do cidadão ocidental moderno. Poder-se-ia imaginar uma situação na qual essas novas nações viris e vitoriosas mal darão ouvidos às gentilezas democráticas de seus ex-senhores que se afundaram em sentimentos de culpa, e podem possivelmente em algum tempo no futuro, impôr seu próprio estilo de terror que eclipsará o legado da Auschwitz europeia e do Gulag. Em vista das tortuosas guerras civis e tribais por todo o continente africano e asiático descolonizados parece improvável que a política de poder e belicosidade desaparecerá com o "Declínio do Ocidente". Até agora, nenhuma prova foi ofertada de que nações não-europeias podem governar mais pacificamente e generosamente do que seus antigos senhores europeus. "O pacifismo permanecerá um ideal", Spengler nos recorda, "enquanto a guerra um fato. Se as raças brancas resolverem jamais travar guerra novamente, as de cor agirão diferentemente e se tornarão senhoras do mundo".

Nessa afirmação, Spengler indicia claramente o "homo europeanus" auto-odiador que, tendo se tornado vítima de sua má consciência, ingenuamente pensa que suas verdades devem permanecer irrefutavelmente voltadas contra ele. Spengler ataca fortemente essa falsa simpatia ocidental com os despossuídos - uma simpatia que Nietzsche outrora retratou como uma forma distorcida de egoísmo e moral escrava. "Essa é a razão", escreve Spengler", pela qual esse 'compasso moral', no sentido quotidiano evoluiu entre nós, às vezes buscado pelos pensadores, às vezes desejado, jamais foi realizado" (I: p.449; 1: p.350).

Essa forma de masoquismo político bem poderia ser estudada particularmente entre aqueles igualitaristas ocidentais contemporâneos que, com o declínio das tentações socialistas, substituíram o arquétipo do trabalhador europeu explorado pela iconografia do africano faminto. Em lugar algum essa mudança em simbologia política parece mais aparente do que no atual impulso ocidental de exportar formas ocidentais de civilização às antípodas do mundo. Esses ocidentais, no último espasmo de uma vergonha culpabilizada, estão provavelmente convencidos de que sua penitência histórica pode também garantir sua longevidade política e cultural. Spengler estava consciente dessas atitudes paralisantes entre europeus, e ele ressalta que, se um europeu moderno reconhece sua vulnerabilidade histórica, ele deve começar pensando para além de sua perspectiva estreita e desenvolver atitudes diferentes em relação a diferentes convicções e verdades políticas. O que Parsifal ou Prometeu tem a ver com o cidadão japonês médio, pergunta Spengler? "É exatamente isso que falta no pensador ocidental", continua Spengler, "e precisamente o que jamais deveria ter faltado nele; entendimento da relatividade histórica de suas realizações, que são elas próprias a manifestação de uma existência singular e única" (I: p.31; 1: p.23). Em um nível um tanto quanto diferente, se imagina em que medida a tão propagandeada disseminação de direitos humanos universais pode se tornar um princípio valioso para povos não-ocidentais se o universalismo ocidental significa não raro desrespeito patente por todas as particularidades culturais.

Mesmo com seu elogio do universalismo, como Serge Latouche recentemente notou, ocidentais tem, não obstante, garantido as posições mais confortáveis para si próprios. Ainda que eles agora tenham recuado aos bastidores da história, indiretamente, através de seu humanismo, eles ainda desempenham o papel de mestres indisputáveis do show do homem não-branco. "A morte do Ocidente por si mesma não foi o fim do Ocidente em si mesmo", acrescente Latouche. Fica-se a imaginar se tais atitudes ocidentais em relação ao universalismo representam outra forma de racismo, considerando o caos que essas atitudes tem criado nas comunidades tradicionais do Terceiro Mundo. Latouche parece correto em ressaltar que a decadência europeia se manifesta melhor em seu impulso masoquista de negar e descartar tudo que uma vez havia defendido, ao mesmo tempo simultaneamente sugando em sua órbita de decadência também outras culturas. Ainda assim, apesar de suicida em seu caráter, a mensagem ocidental contém admoestações obrigatórias para todas as nações não-europeias. Ele escreve:

"A missão do Ocidente não é explorar o Terceiro Mundo, nem cristianizar os pagãos, nem dominar pela presença branca; é libertar homens (e ainda mais as mulheres) da opressão e miséria. E para se responder a esse auto-ódio da visão anti-imperialista, que conclui no totalitarismo vermelho, fica-se agora compelido a secar as lágrimas do homem branco, e portanto garantir o sucesso dessa ocidentalização do mundo" (p.41)

O Ocidente decadente exibe, como Spengler sugere, uma cultura travestida vivendo de seu próprio passado em uma sociedade de nações indiferentes que, tendo perdido sua consciência histórica, sentem um impulso de se tornarem misturadas em uma "cidade global" promíscua. Fica-se imaginando o que ele diria hoje sobre a imigração massiva de não-europeus à Europa? Essa imigração não promoveu o entendimento entre as raças, mas causou mais conflito étnico e racial que, muito provavelmente, sinaliza uma série de novos conflitos no futuro. Mas Spengler não deplora a "desvalorização de todos os valores" nem a morte de culturas. De fato, para ele a decadência é um processo natural de senilidade que conclui na civilização, porque civilização é decadência. Spengler faz uma distinção tipicamente germânica entre cultura e civilização, dois termos que são, infelizmente, usados como sinônimos em inglês. Para Spengler, civilização é um produto do intelecto, do intelecto completamente racionalizado; civilização significa desenraizamento e, enquanto tal, desenvolve sua forma última na megalópole moderna que, ao fim de sua jornada, "condenada, avança rumo a sua autodestruição" (2: p.127; 2: p.107) A força do povo foi eclipsada pela massificação; a criatividade deu lugar à arte "kitsch"; o gênio foi subordinado à razão. Ele escreve:

"Cultura e civilização. Por um lado a carcaça viva de uma alma e, por outro, sua múmia. É assim que a existência europeia ocidental se difere a partir de 1800. A vida em sua riqueza e normalidade, cuja forma cresceu e amadureceu de dentro para fora em um poderoso curso se estendendo dos dias adolescentes dos góticos a Goethe e Napoleão - naquela velha vida artificial e desenraizada de nossas grandes cidades, cujas formas são criadas pelo intelecto. Cultura e civilização. O organismo nascido no campo, que termina no mecanismo petrificado". (1: p.453; 1: p.353).

Em ainda outra demonstração de determinismo, Spengler disputa que não se pode escapar do destino histórico: "as primeiras coisas inescapáveis que confrontam o homem como um destino inevitável, que nenhum pensamento pode abarcar, e nenhuma vontade pode mudar, é o lugar e tempo do próprio nascimento: todos nascem em um povo, uma religião, um estrato social, um período do tempo e uma cultura". O homem está tão limitado por seu ambiente histórico que todas as tentativas de modificar o próprio destino são inúteis. E, portanto, todos os postulados floridos sobre o melhoramento da humanidade, todo o filosofar liberal e socialista sobre um futuro glorioso em relação aos deveres da humanidade e a essência da ética, são inúteis. Spengler não vê outro caminho de redenção exceto declarando-se a si mesmo como um pessimista resoluto e fundamental:

"A humanidade me parece uma quantidade zoológica. Eu não vejo progresso, não vejo objetivo, não vejo caminho para a humanidade, exceto nas mentes dos filisteus progressistas do Ocidente... Eu não consigo ver uma mente única e muito menos uma unidade de projetos, sentimentos e entendimento nessas massas estéreis" (Ensaios Selecionados, p. 73-74; 147).

A natureza determinista do pessimismo de Spengler foi recentemente criticada por Konrad Lorenz que, apesar de partilhar do desespero cultural de Spengler, rejeita a linearidade predeterminada da decadência. Em sua capacidade de etologista e como um dos neodarwinistas mais articulados, Lorenz admite a possibilidade de uma interrupção da filogênese humana - mas, ainda assim, afirma que novas possibilidades para desenvolvimento cultural permanecem sempre abertas. "Nada é mais estranhos para o epistemólogo evolutivo, bem como, para o médico", escreve Lorenz, "do que a doutrina do fatalismo". Mesmo assim, Lorenz não hesita em criticar veementemente a decadência nas sociedades de massa modernas que, em sua opinião, já deram origem a espécimes pacificados e domesticados, incapazes de perseguir projetos culturais. Lorenz certamente encontraria ressonância positiva com o próprio Spengler ao escrever:

"Isso explica como a doutrina pseudo-democrática de que todos os homens são iguais, pelo que se acredita que todos os humanos são inicialmente similares e flexíveis, pôde ser transformada em religião estatal tanto pelos lobistas da grande indústria, como pelos ideólogos do comunismo". (p. 179-180)

Apesar da crítica ao determinismo histórico que foi lançada contra ele, Spengler não raramente confunde seu leitor com exclamações faustianas reminiscentes de alguém preparado para a guerra, ao invés de alguém reconciliado com um fim sublime. "Não, eu não sou um pessimista", escreve Spengler em Pessimismo, "pois Pessimismo significa não enxergar mais deveres. Eu vejo tantos deveres ainda por resolver que eu temo que o tempo e os homens esgotarão antes de resolvê-los" (p.75). Essas palavras não são muito coerentes com o desespero cultural que previamente ele elaborou de forma tão apaixonada. Ademais, ele muitas vezes prega a força e dureza do guerreiro para se poder evitar o desastre da Europa.

Se é levado à conclusão de que Spengler exalta o pessimismo histórico ou o "pessimismo propositado" (Zweckpressimismus), desde que isso traduza sua convicção na decadência irreversível da política europeia; porém, uma vez que ele perceba que os buracos culturais e políticos estão abertos para regeneração moral e social, ele rapidamente reverte para o elogio da política de poder. Características similares são muitas vezes encontradas entre muitos romancistas e cientistas sociais cujo legado na difusão do pessimismo cultural desempenhou um papel importante na formação do comportamento político entre conservadores europeus antes da Segunda Guerra Mundial. Fica-se a imaginar por que todos eles, como Spengler, lamentam a decadência do Ocidente se essa decadência já foi selada, se o dado cósmico já foi lançado, e se todos os esforços de rejuvenescimento político e cultural são inúteis? Ademais, em um esforço de corrigir o incorrigível, ao defender uma mentalidade e vontade de poder faustianas, esses pessimistas parecem emular o otimismo de socialistas mais do que as ideias desses reconciliados com a catástrofe social iminente.

Para Spengler e outros pessimistas culturais, o senso de decadência é inerentemente combinado com uma repulsa pela modernidade e uma aversão pela ganância econômica generalizada. Como a história recente demonstrou, a manifestação política dessa repulsa pode levar a resultados menos saborosos: a glorificação da vontade de poder e a nostalgia da morte. Nesse momento, a sutileza literária e a beleza artística podem tomar um rumo bastante agourento. A história recente da Europa é testemunha de como o pessimismo cultural diário pode se tornar um instrumento útil para titãs políticos modernos. Não obstante, os desastres que se aproximam tem algo de inspirador para as gerações de pessimistas culturais cuja natureza hipersensível - e desdém pela sociedade materialista - muitas vezes cai no niilismo político. Essa veia niilista foi ousadamente expressa pelo contemporâneo de Spengler, Friedrich Sieburg, que nos lembra que "a vida diária da democracia com seus tristes problemas é tediosa, mas as catástrofes vindouras são bem interessantes".

Não se pode evitar de pensar que, para Spengler e seus semelhantes, em um contexto histórico mais amplo, a guerra e a política de poder oferecem uma esperança regenerativa contra o sentimento onipresente de desespero cultural. Ainda assim, independentemente da validade das visões ou pesadelos spenglerianos, não é preciso muita imaginação para observar na decadência do Ocidente o último sonho crepuscular de uma democracia que já se cansou de si. 

08/05/2015

Lucian Tudor - Othmar Spann: Um Católico Tradicionalista Radical

por Lucian Tudor




Othmar Spann foi um filósofo austríaco de grande influência sobre o pensamento conservador tradicionalista Germânico pós- Primeira Guerra, sendo também considerado um representante do movimento intelectual conhecido como “Revolução Conservadora.” Foi professor de economia e sociologia na Universidade de Viena, onde ministrou não apenas ciências sociais e teorias econômicas, mas também onde influenciou muitos estudantes com sua presente Weltanschauung em suas lições e aulas. Como resultado disso, formou-se um grande grupo de seguidores conhecidos como Spannkreis (“Círculo de Spann”). Tal círculo de intelectuais almejou influenciar políticos que fossem simpáticos à filosofia “Spanniana” e compartilhassem de seus mesmos objetivos.[1]

O próprio Spann foi influenciado por uma variedade de filósofos através da história, incluindo Platão, Aristóteles, Santo Tomás de Aquino, J. G. Fichte, Franz von Baader, e mais notavelmente pelo pensamento romântico alemão de Adam Müller. Spann denominou sua própria visão de mundo de “Universalismo”, um termo que não deve ser confundido com “universalismo” no senso comum; o primeiro é nacionalista e não se contrapõe a valores identitários e subsidiários, já o último é cosmopolita e não- identitário desprezando diferenças. O termo de Spann deriva da palavra-raiz “universalidade”, que em tal caso é sinônimo a termos relacionados a coletividade, totalidade ou integralidade.[2]

O Universalismo de Spann foi exposto e desenvolvido em vários livros, sendo o mais notável Der Wahre Staat (“O Verdadeiro Estado”), e essencialmente demonstra-se aí o valor da nacionalidade, da integralidade social sobre o individual, dos valores da religião (especialmente católico) sobre os valores materiais, e advoga também um modelo não-democrático, hierárquico, e corporativista de Estado que é a única constituição política verdadeiramente válida.

Teoria Social

Othmar Spann declara: “É verdade fundamental de toda ciência social...que os indivíduos não são verdadeiramente reais, mas a totalidade; e que os indivíduos são reais apenas à medida com a qual fazem parte do todo.”[3] Tal conceito, que será o coração da sociologia de Spann, não é uma negação da pessoa individual, mas uma completa negação do individualismo; individualismo sendo a ideia que nega a existência e a importância de tudo que vá além de si mesmo. A teoria liberal clássica, individualista, sustenta uma visão “atomizante” dos indivíduos e considera apenas estes como verdadeiramente reais; indivíduos nos quais se acredita serem essencialmente desconectados e independentes uns dos outros. É também defendido que a sociedade existe apenas como associação instrumental que resulta de um “contrato social”. Por outra via, os estudos sociológicos têm refutado tal teoria, demonstrando que o todo (sociedade) não se resume meramente a uma soma das partes (indivíduos) e que os indivíduos naturalmente guardam laços psicológicos intrínsecos em relação a outros. Esta é a posição de Othmar Spann, mas ele teve seu único meio de formular isso.[4]

Enquanto que a teoria do individualismo parece, superficialmente, estar correta para muitas pessoas, uma investigação mais profunda em relação a tal conteúdo demonstra sua total falácia. Indivíduos

nunca agem inteiramente independentes porque seu comportamento é sempre pelo menos em parte determinado pela sociedade na qual ele vive, e por seus laços orgânicos com as outras pessoas na sociedade. Spann escreve que, “de acordo com sua visão, o indivíduo já não é auto-determinado e auto-criado, também já não age fundamentado inteiramente em seu próprio ego.”[5] Spann concebe uma ordem social, do todo, como uma sociedade orgânica (uma comunidade) na qual todos os indivíduos pertencentes a ela possuem uma unidade espiritual pré- existente. A  pessoa  do  indivíduo emerge como tal da integralidade social na qual ela nasce e da qual ela nunca está realmente separada, e “sendo também o indivíduo dela derivado.”[6]

A sociedade não é resumidamente um agregado mecânico de indivíduos fundamentalmente díspares, mas um todo, uma comunidade, que precede suas próprias partes, os indivíduos. “Universalistas defendem que os laços de associação mental e espiritual entre indivíduos existem como entidade independente...”[7] Spann esclarece que isso não significa que o indivíduo é “desprovido de autossuficiência mental,” mas que ele percebe seu ser pessoal apenas como membro do todo: “ele apenas é capaz de formar a si mesmo; ele apenas pode sustentar a si mesmo como ser dotado de mentalidade ou espiritualidade, quando ele goza de íntima e multiforme comunhão com outros seres similarmente dotados.”[8] Então,

Toda realidade espiritual presente no indivíduo apenas vem a ser e apenas faz parte do ser como algo que despertou...a espiritualidade que faz parte do ser de um indivíduo (diretamente ou mediada) é sempre em algum sentido a reverberação da influência que outro espírito exerce em tal indivíduo. Isso significa que a espiritualidade humana apenas existe em comunidade, nunca em isolamento....Nós podemos dizer que a espiritualidade individual apenas existe em comunidade, ou melhor em uma ‘comunidade espiritual’ [Gezweiung]. Toda essência espiritual e realidade existem como uma ‘comunhão espiritual’ e apenas em ‘espiritualidade comum’[Gezweiheit].[9]

É também importante esclarecer que o conceito de Spann de sociedade não a concebeu como desprovida de corpos espirituais diferentes e separados de cada um. Pelo contrário, ele reconheceu a importância de vários sub-grupos, referidos como “todos parciais”, como partes constituintes e elementos diferentes ainda que relacionados, e harmonizados pelo todo sob o qual eles existem. O todo ou a totalidade podem ser entendidos como a unidade dos indivíduos ou “todos parciais”. Para se ter uma imagem simbólica, “Totalidade [o Todo] é análogo à luz branca antes de ser refratada por um prisma em diferentes cores”, na qual a luz branca é a totalidade supratemporal, enquanto que o prisma é o tempo cósmico que “refrata a totalidade em diferentes e individuadas realidades temporais.”[10]

Nacionalidade e Tipo Racial

Volk (“povo” ou “nação”), que significa “nacionalidade” em sentido étnico e cultural, é uma entidade inteiramente diferente além de condicionada à sociedade ou ao todo, mas para Spann as duas palavras têm importante conexão. Spann era um nacionalista e, definindo Volk em termos de pertencimento a uma “comunidade espiritual” com uma cultura comum, acreditava que o todo social está sob normais condições apenas quando formado por um tipo étnico homogêneo. Só quando pessoas compartilham mesmo background cultural, os laços profundos que estavam presentes nas sociedades ancestrais podem existir. Ele também desenvolve o “conceito de comunidade cultural concreta, a ideia de nação – em contraste com a ideia de irrestrito e cosmopolita intercurso entre indivíduos.”[11]

Spann advogou a separação de grupos étnicos sob diferentes estados e foi também defensor do pan-Germanismo porque acreditava que o povo germânico deveria se unir sob a égide de um único Reich. Também acreditava na nação Alemã como intelectualmente superior a todas as outras nações (noção que pode ser considerada resultado inoportuno de suas tendências pessoais), Spann também acreditava terem os alemães o dever de guiar a Europa da crise da modernidade liberal para uma ordem sã similar à que existiu na Idade Média.[12]

Em relação ao tema da raça, Spann objetivou formular uma visão racial que estivesse de acordo com a concepção cristã de ser humano, a qual levasse em consideração não apenas o aspecto biológico mas também o espiritual e psicológico. Por isso rejeitou a concepção comum de raça como entidade biológica, por não acreditar que tipos raciais derivavam de herança biológica, já que ele não acreditava que o caráter pessoal fosse determinado por hereditariedade. Antes, raça é para Spann um caráter ou tipo cultural e espiritual, assim a “pureza racial” de uma pessoa é determinada não apenas pela pureza biológica mas antes estaria relacionada à proporção com que seu caráter e estilo de comportamento se conforma a uma qualidade espiritual específica. Em sua comparação entre as teorias raciais de Spann e Ludwig Ferdinand Clauss (um influente psicólogo racial), Eric Voegelin conclui:

Na teoria racial de Spann e nos estudos de Clauss encontramos a raça como ideia de total ser: para estes dois acadêmicos pureza racial ou pureza de sangue não é propriedade genética em sentido biológico, mas antes uma pureza peculiar da forma humana em todas as suas partes, uma posse de um sinal ou selo mental perceptível em sua expressão física e psicológica.[13]

Deve ser sabido que enquanto Clauss (assim como Spann) não acreditava que o caráter espiritual era apenas produto da genética, ele de fato enfatiza que a raça física tem importância porque a forma racial corporal deve estar essencialmente de acordo com a forma física racial com que esta é associada, e com a qual está sempre conectada. Como escreve Clauss,

O estilo da psique se expressa em sua própria arena, o corpo. Mas para que tal seja possível, tal arena deve ser ela mesma regida por um estilo, que deve permanecer em harmonia com o da psique: todas as características das estruturas somáticas são, assim como eram, meios de expressão do aspecto desta. A psique racialmente constituída adquire um corpo também assim constituído com o fim de expressar seu estilo composto de sua própria experiência de maneira pura e consumada. O estilo expressivo da psique é inibido se o estilo do corpo não se conforma perfeitamente a ele.[14]

Do mesmo modo Julius Évola, cujo pensamento foi influenciado tanto por Spann quanto por Clauss, e que expandiu a psicologia racial de Clauss para incluir conteúdo espiritual e religioso, também afirma que o corpo tem certo nível de importância.[15]

Por outra via, o aspecto negativo da teoria de Othmar Spann é que ele termina ignorando inteiramente o aspecto racial físico e de fato a maioria de suas obras nem mencionam tal isso. A consequência foi também que Spann tolerou e até aprovou críticas feitas por seus estudantes às teorias raciais Nacional Socialistas que enfatizam o aspecto biológico; questão que depois comprometeria sua relação com tal movimento mesmo que se pense que ele era um de seus defensores.[16]

O Verdadeiro Estado

O Universalismo de Othmar Spann era em essência uma forma Católica de “Tradicionalismo Radical”; ele acreditava na existência de princípios eternos sobre os quais toda ordem política, econômica ou social deveria ser construída. Enquanto que os princípios da Revolução (Anti)-Francesa – de liberalismo, democracia e socialismo – eram contingentes às circunstâncias históricas, relacionadas à história do mundo, existem outros princípios acima destes sobre os quais a maioria dos estados medievais e antigos foram fundados e que são eternamente válidos, derivados da ordem Divina. Enquanto que formas estatais específicas do passado que foram baseadas em tais princípios não podem ser exatamente redivivas na atualidade como foram por certos detalhes históricos e anacrônicos, os princípios sobre os quais tais ordens foram edificadas são atemporais e eternos, e devem ser reinstituídos no mundo hodierno, pois os sistemas derivados da Revolução (Anti)-Francesa são inválidos e desarmônicos.[17] Este modelo atemporal é o Wahre Staat ou “Verdadeiro Estado” – um Estado monárquico, corporativo e elitista – que é central à filosofia Universalista.

1.Economia

No campo econômico, Spann, como Adam Müller, rejeitou tanto o capitalismo como o socialismo, advogando o restabelecimento do sistema corporativo e orgânico, similar ao arranjo de guildas e das províncias rurais da Idade Média; um sistema no qual as linhas de trabalho e produção são organizadas e estabelecidas pelas corporações de ofício que estariam subordinadas ao Estado e à Nação, e a atividade econômica seria portanto guiada e auxiliada por administradores antes que pelo próprio arbítrio. O valor de cada bem ou commodity produzido em tal arranjo seria determinado não pela quantidade de trabalho a ele dedicado (teoria do valor do trabalho de Marx e Smith), mas por seu “uso orgânico” ou por sua “utilidade social”, que significa sua serventia ao todo social e ao estado.[18]

A maior razão para que Spann rejeite o capitalismo é por seu individualismo, e também por sua tendência a criar desarmonia e enfraquecer os laços espirituais entre indivíduos no todo social.

Apesar de não acreditar no benefício da total eliminação da competição no aspecto econômico, Spann esclarece que a extrema competição glorificada pelos capitalistas cria um sistema onde ocorre a “guerra de todos contra todos” e na qual os empreendimentos não são levados a cabo pelo todo social ou pelo estado, mas por interesses individuais. A economia universalista tem como fim a harmonia social e econômica, e valoriza “a energia vitalizante da interdependência pessoal de todos os membros da comunidade...”[19]

Mais além, reconhece Spann que o capitalismo também resulta em tratamento desigual dos capitalistas em relação a quem está abaixo destes. Também acreditava que por mais que as teorias de Marx fossem falhas, “...apesar de tudo fez um ótimo serviço ao atentar à desigualdade de tratamentos imposta ao trabalhador pelo patrão na ordem individualista de sociedade.”[20] Spann, assim, rejeita o sistema socialista em geral porque enquanto o socialismo aparenta ser Universalístico superficialmente, ele termina de fato sendo uma mistura de elementos Universalistas e individualistas. Não reconhece o primado do Estado sobre o indivíduo além de defender uma sociedade na qual todos têm a mesma posição, eliminando distinções e diferenças saudáveis, e que todos devem receber a mesma quantidade de bens. “O verdadeiro Universalismo busca a multiplicidade orgânica, a desigualdade,” e também reconhece as diferenças mesmo ao militar pela harmonia entre as partes.[21]

2.Política

Spann afirma que todo o sistema político democrático é uma inversão da ordem política única verdadeiramente válida, que é de ainda maior importância que o arranjo econômico. O maior problema da democracia é desta permitir, primeiramente, a manipulação do governo por capitalistas e financistas poderosos cujo caráter moral é na maioria das vezes questionável e cujas metas são na maioria das vezes em desacordo com o bem da comunidade; secundariamente, democracia tolera também o triunfo de demagogos interessados em si mesmos, que são hábeis em manipular as massas. Mesmo em sua base teórica, a democracia é falha, de acordo com Spann, pois seres humanos são essencialmente desiguais e indivíduos estão sempre presentes em realidades diferenciadas em suas qualidades e também estão vocacionados a diferentes posições na ordem social. Democracia também, por permitir às massas a decisão de matéria governamental, acaba excluindo o natural e válido direito dos mais aptos e verdadeiramente hábeis indivíduos de comandar o destino do Estado, pois “oferecer à maioria as rédeas do destino significa o domínio do menor sobre o maior.”[22]

Finalmente, Spann nota que “a demanda por democracia e liberdade é intrinsecamente individualista.”[23] No Verdadeiro Estado Universalista, o individual se submete ao todo e é guiado por um senso de auto-sacrifício e dever a serviço do Estado, oposto à supremacia da vontade individual sobre a vontade dos outros. Além disso, o indivíduo não possui direitos simplesmente por possuir caráter “racional” ou simplesmente por ser humano, como defenderam os pensadores do Iluminismo, mas porque tais direitos são derivados da ética e do todo social particular ao qual pertence além da lei e do Estado. [24] O Universalismo também reconhece as inerentes desigualdades entre seres humanos, defendendo uma organização hierárquica da ordem política, onde haveria apenas “igualdade entre iguais” e na qual há “subordinação dos intelectualmente inferiores aos intelectualmente superiores.”[25]

No Verdadeiro Estado, indivíduos que demonstram sua vocação de liderança, sua natureza superior, e seu caráter ético justo ascendem os níveis hierárquicos. O Estado seria guiado e administrado por uma poderosa elite cujos membros seriam selecionados dos maiores níveis hierárquicos por sues méritos; isto é essencialmente uma aristocracia meritocrática. Aqueles pertencentes às posições inferiores seriam ensinados a aceitar seu lugar na sociedade e a respeitar seus superiores, apesar de todas as partes do sistema serem “a despeito de tudo, indispensáveis à sua sobrevivência e desenvolvimento.”[26] Ademais, “a fonte do poder de governo não é soberania do povo, mas a soberania dos mais aptos e hábeis.”[27]

Othmar Spann, de acordo com sua erudição religiosa católica, acredita na existência de uma realidade supra-sensível, metafísica e espiritual que existe separadamente e acima da realidade material, e da qual o reino material não passa de uma imperfeita reflexão. Ele afirma que o Verdadeiro Estado deve ser regido pela espiritualidade Cristã, e que seus líderes devem ser guiados pela piedade e pela devoção às leis Divinas: o Verdadeiro estado é essencialmente teocrático. A liderança de tal Estado receberia legitimidade não apenas por seu caráter religioso, mas também por possuir “capacidade espiritual válida”, que “precede o poder como este é representado na lei e no Estado.”[28] Também conclui Spann que “a história ensina que é a validade dos valores espirituais que constituem os laços espirituais. Eles não podem ser realocados por fogo e espada nem por qualquer outra forma de força. Todo governo que prevalece, e toda ordem que a sociedade também efetivou, é resultado de domínio interior.”[29]

O Estado que Spann almejou restaurar é federalista por natureza, unindo os “todos parciais” – Corporações e regiões locais dotadas de certo nível de auto-governo – com respeito à Autoridade maior. Como escreveu Julius Évola, em uma descrição de acordo com a visão de Spann, “o verdadeiro Estado existe como um todo orgânico compreendido por distintos elementos abrangendo unidades parciais [todos], em que cada unidade possui uma vida hierarquicamente ordenada em si mesma.”[30] Através da história do mundo, a ordem hierárquica e corporativa de Verdadeiro Estado aparece e reaparece; nos antigos Estados de Esparta, Roma, Pérsia e na Europa Medieval. As estruturas de estados destes tempos “ofereceu aos membros de tais sociedades um profundo sentimento de segurança. Tais grandes civilizações têm sido caracterizadas pela harmonia e estabilidade.”[31]

A modernidade liberal criou a crise na qual a harmonia das antigas sociedades foi destruída pelo capitalismo e na qual os laços sociais foram enfraquecidos (senão eliminados) pelo individualismo. Spann também afirma que todas as formas de liberalismo e individualismo são chagas que nunca deveriam ter tido sucesso e eliminado totalmente a realidade original e primeva. Ele profetizou que após a I Guerra Mundial o povo alemão reaveria seus direitos e criaria uma revolução que restauraria o Verdadeiro Estado, que recriaria aquela “comunidade que liga o homem às eternas e absolutas forças presentes no universo,”[32] e cuja revolução subsequentemente ressoaria através da Europa, ressuscitando na vida política hodierna os imortais princípios do Universalismo.

A Influência de Spann e sua Recepção

Othmar Spann e seu círculo mantiveram grande influência na Alemanha e na Áustria, e mais ainda neste último país citado. A filosofia de Spann se tornou a base da ideologia da Heimwehr Austríaca (“Home Guard”) que foi liderada por Ernst Rüdiger von Starhemberg. Os líderes do denominado “Estado Áustro-Fascista”, incluindo Engelbert Dolfuss e Kurt Schuschnigg, foram também parcialmente influenciados pelo pensamento de Spann e do “Círculo de Spann”. [33] Então, apesar do fato de que tal Estado tenha sido o único a objetivar a realização de suas ideias, Spann não apoiou o Áustro-Fascismo pois como pan-Germanista desejava que o povo alemão se unificasse sob um único Estado, por isso a adesão ao movimento Nacional Socialista de Hitler, no qual ele acreditava estar pavimentando o caminho para o Verdadeiro Estado.


A despeito de repetidas tentativas de influenciar a ideologia Nacional Socialista e os líderes da NSDAP, Spann e seu círculo foram rejeitados pela maioria dos Nacional Socialistas. Alfred Rosenberg, Robert Ley, e vários outros autores associados às SS fizeram vários ataques à Escola de Spann. Rosenberg era revoltado pelo fato de Spann negar a importância do sangue em sua posição católica teocrática; ele escreveu que “a escola Universalista de Othmar Spann refutou com sucesso o individualismo materialista medíocre...[mas] Spann é contrário à sabedoria helênica tradicional, ao afirmar que Deus é a medida de todas as coisas e que a verdadeira religião se encontra apenas na Igreja Católica.”[34]

Além de insistirem na realidade do aspecto biológico, outros Nacional Socialistas também criticaram as propostas políticas de Spann. Eles afirmaram que seu modelo de Estado hierárquico criaria uma divisão destrutiva entre povo e elite por insistir em separação absoluta; isso destruiria a unidade que eles estabelecessem entre liderança e povo. Porém, o Nacional-Socialismo em si mesmo mantinha elementos de elitismo apesar do populismo, e também arguiam que todo alemão tinha potencial de liderança, e que assim, se aperfeiçoado dentro da Volksgemeinschaft (“Comunidade do Povo"), o povo alemão não necessitaria de divisão em elite superior sobre massa inferior, em sentido estrito.[35]

Como esperado, as críticas liberais a Spann denunciaram que sua posição anti-individualista era supostamente muito radical, os social democratas e marxistas arguiam que o Estado Corporativo não garantiria os direitos dos trabalhadores e dariam dominância a líderes burgueses. Ambos acusaram Spann de ser um reacionário irrealista que queria reviver a Idade Média.[36] Porém, devemos também apreciar aqui o que Edgar Julius Jung, sendo ele mesmo um Universalista altamente influenciado pelo trabalho de Spann, mencionou:

Nós somos censurados por atuarmos ao lado ou à retaguarda das forças políticamente ativas, por sermos românticos que falham em ver a realidade ou que divagam em sonhos de uma ideologia do Reino que se volta para o passado. Mas forma e ausência de forma representam princípios sociais eternos como a batalha entre microcosmo e o macrocosmo que perdura no eterno movimento do pêndulo. As formas contingentes que perecem no tempo são sempre novas, mas os grandes princípios de ordem (mecânica ou orgânica) sempre se mantêm os mesmos. Assim, se olharmos para a Idade Média como um norte, encontrando ali a grande forma, nós não estaremos apenas compreendendo melhor o presente mas entendendo-o mais concretamente como uma era em si incapaz de se enxergar por trás dos bastidores.[37]
Edgar Jung, que foi um dos maiores Conservadores radicais oponentes de Hitler, expôs uma filosofia que era marcadamente similar à de Spann, apesar haver diferenças que gostaríamos de expor. Jung acreditava que nem o Fascismo nem o Nacional Socialismo seriam precursores ao restabelecimento do Verdadeiro Estado mas antes “simplesmente outra manifestação da tradição secular, liberal e individualista que emergiu da Revolução (Anti)-Francesa”.[38] Fascismo e Nacional Socialismo não eram guiados pela referência ao Divino e são ainda infectados por individualismo, que ele acreditava estar exposto no fato de seus líderes serem guiados por suas próprias ambições e não por um dever em relação a Deus ou um poder maior que eles mesmos.

Edgar Jung também rejeitou o nacionalismo em sentido estrito, apesar de simultaneamente desenvolver o valor de Volk e o amor à pátria, e advogar a reorganização do continente Europeu numa base federalista com a Alemanha sendo a nação líder da federação. Também em contraste com a visão de Spann, Jung acreditava que a herança genética tinha grande importância no caráter dos seres humanos, apesar de acreditar no papel secundário em relação a fatores culturais e espirituais além de ter criticado o racialismo comum científico por seu “materialismo biológico”.

Jung afirmava que o que ele via como elementos superiores raciais em uma população deveriam ser fortalecidos e os elementos inferiores, enfraquecidos: “Medidas para o favorecimento de componentes valorosos racialmente no povo Alemão e pela prevenção de correntes inferiores devem ser efetivadas hoje e não amanhã.”[39] Jung também acreditava que os membros das elites do Reich, enquanto tal estivesse aberta para aceitar membros de níveis menores da hierarquia que demonstrassem qualidades de liderança, deveriam se casar apenas com outros componentes da mesma classe, criando-se uma nova nobreza possuidora de qualidades de força e liderança tanto geneticamente quanto espiritualmente dotados para desenvolvê- las.[40]

Enquanto que Jung constantemente combateu o Nacional Socialismo até o fim da vida, até depois do Anschluss, Othmar Spann se manteve defensor entusiástico do Nacional Socialismo, sempre acreditando que ele poderia eventualmente influenciar a liderança do III Reich a adotar sua filosofia. Tal ilusão se manteve em sua mente até a tomada da Áustria pela Alemanha em 1938, logo depois de Spann ser detido e preso por ser considerado adversário ideológico, apesar de ser solto depois de poucos  meses, acabou confinado em sua casa de campo.[41] Depois da II Guerra ele nunca reaveria de novo qualquer influência política, mas ele deixaria sua marca no domínio da filosofia. Spann exerceu grande influência sobre Eric Voegelin e também sobre os intelectuais da Neue Recht (Nova Direita) como Armin Mohler e Gerd-Klaus Kaltenbrunner.[42] Ele também teve influência sobre o pensamento Tradicionalista Radical, mais notavelmente sobre o Barão Julius Évola, o qual escreveu que Spann “seguiu uma linha similar à minha mesma”,[43] apesar de haver óbvias diferenças entre tais pensadores. A filosofia de Spann também, apesar de falhas e limitações, não tem sido inteiramente desprovida de interesse e utilidade.

Notas

1. Mais detalhadas informações aqui providas acerca da vida de Othmar Spann pode ser encontrada no livro de John J. Haag, Othmar Spann and the Politics of Totality: Corporatism in Theory and Practice (Ph.D. Thesis, Rice University, 1969).
 2. Veja Othmar Spann, Types of Economic Theory (London: George Allen and Unwin, 1930), p. 61. Devemos certificar o leitor de que este livro é o maior trabalho sobre Spann a ter sido publicado em inglês e também foi publicado sob o título alternativo de History of Economics.
3. Othmar Spann citado em Ernest Mort, Christian Corporatism, Modern Age, Vol.3, No.3 (Summer 1959), p.249. Online: http://www.mmisi.org/ma/03_03/mort.pdf
4. Para uma pesquisa mais profunda e científica sobre os estudos de Spann sobre sociedade, veja Barth Landheer, “Othmar Spann’s Social Theories.” Journal of Political Economy, Vol. 39, No.2 (April, 1931), pp.239-48. Deveríamos certificar nossos leitores que a teoria social anti-individualista de Othmar Spann é mais similar àqueles sociólogos da “Extrema Direita” como Hans Freyer e Werner Sombart. Deve ser também lembrado que sociólogos de quase todos os espectros políticos são opostos ao individualismo em algum grau, mesmo que do “Centro Moderado” ou da “Extrema Esquerda.” Além disso, anti- individualismo é a típica posição da maioria dos sociólogos de hoje, que reconhecem atitudes individualistas – que são, com certeza, ainda um assunto nas sociedades hodiernas assim como foi assunto a 100 anos atrás- têm efeito nocivo na sociedade como um todo.
5. Othmar Spann, Der wahre Staat (Leipzig: Verlag von Quelle und Meyer, 1921), p.29. Citado em Eric Voegelin, Theory of Governance and Other Miscellaneous Papers, 1921-1938 (Columbia: University of Missouri Press, 2003), p.68.
6. Spann, Der wahre Staat, p.29. Citado por Voegelin, Thory of Governance, p.69.
7. Spann, Types of Economic Thoery, pp.60-61.
 8. Ibid., p.61.
9. Spann, Der Wahre Staat, pp.29 & 34. Citado por Voegelin, Theory of Governance, pp.70-71.
10. J. Glenn Friesen, “Dooyeweerd, Spann and the Philosophy of Totality,” Philosophia Reformata, 70 (2005), p.6. Online aqui: http://members.shaw.ca/hermandooyeweerd/Totality.pdf
11. Spann, Types of Economic Theory, p.199.
12. Veja Haag, Spann and the Politics of “Totality,” p.48.
13. Eric Voegelin, Race and State (Columbia: University of Missouri Press, 1997), pp. 117-18.
14. Ludwig F. Clauss, Rasse und Seele (Munich: J. F. Lehmann, 1926), pp.20-21. Citado em Richard T. Gray, About Face: German Physiognomic Thought from Lavater to Auschwitz (Detroit: Wayne State University Press, 2004), p. 307.
15. Para uma visão da teoria racial de Evola, veja Michael Bell, “Julius Évola’s Concepto f Race: A Racismo f Three Degrees.” The Occidental Quarterly, Vol. 9, No. 4 (Winter 2009-2010), pp. 101-12. Online aqui: http://toqonline.com/archives/v9n2/TOQv9n2Bell.pdf. Para uma comparação mais próxima entre a teoria de Évola e Clauss, veja Julius Evola’s The Elements of Racial Education (Thompkins & Cariou, 2005).
16. Veja Haag, Spann and the Politics of Totality, p.136.
17. Uma explicação mais profunda do “Tradicionalismo Radical” pode ser encontrada no Capítulo 1: “Revolução – Contrarrevolução – Tradição” in Julius Evola, Homens Entre as Ruínas).
18. Veja Spann, Types of Economic Theory, pp.162-64.
 19. Ibid., p.162.
20. Ibid., p.226.
21. Ibid., p.230.
22. Spann, Der wahre Staat, p.111. Citado em Janek Wasserman, Black Vienna, Red Vienna: The Struggle for Intellectual and Political Hegemony in Interwar Vienna, 1918-1938 (Ph.D. Dissertion, Washington University, 2010), p. 80.
23. Spann, Types of Economic Theory, pp.212.
24. Para um comentário sobre direitos naturais individuais, veja Ibid., pp.53 ff.
25., Spann, Der Wahre Staat, p.185. Citado em Wassermann, Black Vienna, Red Vienna, p.82.
26. Haag, Spann and the Politics of Totality, p.32.
27. Othmar Spann, Kurzgefasstes Sytem der Gesellschaftslehre (Berlin: Quelle und Meyer, 1914), p.429. Citado em Voegelin, Theory of Governance, p. 301.
28. Spann, Gesellschaftslehre, p.241. Citado em Voegelin, Thory of Governence, p.297.
29. Spann, Gesellschatslehre, p.495. Citado em Voegelin, Theory of Governance, p.299.
30. Julius Evola, The Path of Cinnabar (London: Integral Tradition Publlishing, 2009), p.190.
31. Haaag, Spann and the Politics of Totality, p. 39. 32. Ibid., pp.40-41.
33. Veja Günter Bischof, Anton Pelinka, Alexander Lassner, The Dolfuss\Schuschnigg Era in Austria: A Reassessment (New Brunswick, NJ: Translaction Publishers, 2003), pp. 16, 32, & 125 ff.
34. Alfred Rosenberg, The Myth of the Twentieth Century (Sussex, England: Historical Review Press, 2004), pp. 458-59.
35. Veja Haag, Spann and the Politics of Totality, pp. 127-29.
36. Veja Ibid., pp.66 ff.
37. Edgar Julius Jung, “Germany and the Conservative Revolution,” em: The Weimar Republic Sourcebook, edited by Anton Kaes, Martin Jay, and Edward Dimenberg (Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1995), p.354.
38. Edgar Julius Jung, “People, Race, Reich,” em Europa: German Conservative Foreign Policy 1870-1940, editado por Alexander Jacob (Lanham, MD, USA: University Press of America, 2002), p101.
40. Para uma visão mais profunda da vida e pensamento de Jung, ver Walter Struve, Elites Against Democracy: Leadership Ideals in Bourgeois Political Thought in Germany, 1890-1933 (Princeton, NJ.: Princeton University, 1973), pp 317 ff. Veja também Edgar Julius Jung, The Rule of the Inferiour, 2 vols. (Lewinston, New York: Edwin Mellon Prezz, 1995).
41. Haag, Spann and the Politics of Totality, pp 154-55.
42. Veja nossas prévias citações de Voegelin, Theory of Governance and Race and State; Armin Mohler, Die Konservative Revolution in Deutschland 1918-1932 (Stuttgart: Friedrich Vorwerk Verlag, 1950); “Othmar Spann” in Gerd-Klaus Kaltenbrunner, Vom Geist Europas, Vol.1 (Asendorf: Muth- Verlag, 1987).
43. Evola, Path of Cinnabar, p.155.



06/05/2015

Alain de Benoist - O Pensamento Único "Antifascista"

por Alain de Benoist



Algum tempo atrás Jean-François Revel falou em "devoção" para qualificar a opinião sobre uma ideia somente em termos de sua conformidade ou seu poder de atração em relação a uma ideologia dominante. Eu poderia acrescentar que devoção representa o grau zero de análise e compreensão. É precisamente porque a devoção domina que hoje ideias que são denunciadas não são refutadas, mas ao invés é suficiente declará-las inconvenientes ou insuportáveis. A condenação moral está isenta de uma análise das hipóteses ou dos princípios sob o prisma de verdade e falsidade. Agora não há ideias justas ou falsas, mas ideias apropriadas, em sincronia com o espírito de nosso tempo, e ideias que não se encaixam são denunciadas como intoleráveis.

Essa atitude aparece ainda mais reforçada pelas obsessões estratégicas dos atores do "pensamento correto". Importa pouco nessa esfera se uma ideia é correta ou falsa: o que é importante é saber a que estratégia ela pode servir, quem se apoia nela e com que propósito. Um livro pode ser assim denunciado, ainda que seu conteúdo corresponda com a realidade, com a única justificativa de que se corre o risco de converter ideias consideradas intoleráveis em "aceitáveis" ou de favorecer aqueles que se deseja silenciar. É a nova versão do velho slogan, "não faça Billancourt se desesperar!" [Essa é a exclamação com a qual Sartre esperava camuflar a verdade, para que os trabalhadores da Renault de Billancourt não se desesperassem e faltassem com fervor revolucionário]. Desnecessário dizer que com essa abordagem, o lugar em que nos expressamos é mais relevantes do que aquilo que vamos falar. Há lugares admitidos e lugares "não-recomendados". Toda crítica se apresenta, portanto, como uma tentativa de desqualificação que é obtida recorrendo-se a palavras que, ao invés de descrever uma realidade, funciona como tantos outros sinais de máxima deslegitimação. Nossos singulares estrategistas traem assim seu próprio sistema mental, que só atribui valor a ideias na medida em que elas possam ser manipuladas.

No passado, esse trabalho de deslegitimação foi realizado em detrimento das famílias de pensamento mais diverso - pensamos, por exemplo, sobre as campanhas grotescas dos tempos do McCarthyismo. Mas atualmente ele está sendo realizado, sem dúvida, em uma direção única. Ele está relacionado com riscar como ilegítimo todo pensamento, toda teoria, toda construção intelectual que contradiga a filosofia do Iluminismo que, com todos os matizes que se deseje, constitui o suporte sobre o qual as sociedades contemporâneas são legitimadas. Para isso, o pensamento politicamente correto recorre essencialmente a duas imposturas: o antirracismo e o antifascismo. Nós diremos algumas palavras sobre esses dois.

O racismo é uma ideologia que postula a desigualdade entre raças ou que tenta explicar a totalidade da história humana baseada apenas no fator racial. Essa ideologia praticamente não possui defesa hoje, mas nós fingimos considerá-la onipresente, assimilando-a a xenofobia, atitudes de rejeição ou desconfiança em relação ao Outro, e até mesmo a uma simples preferência por endogamia e homofiliação. O "racismo" é apresentado como a categoria emblemática do irracionalismo residual, enraizado na superstição e no preconceito, que impediria a emergência de uma sociedade transparente diante de si mesma. Essa crítica do "racismo" como irracionalidade fundamental simplesmente e claramente recicla o conto-de-fadas liberal de um mundo pré-racional que é a fonte de todos os males sociais, como foi demonstrado agora já há mais de meio século por Adorno e Horkheimer ao dizerem que ele reflete a inaptidão da modernidade de encarar o Outro, isto é, a diferença e a singularidade.

Denunciando o "racismo" como uma pura irracionalidade, isto é, como uma categoria não-negociável, a Nova classe trai ao mesmo tempo sua distância em relação a realidade, mas também contribui para a neutralização e despolitização dos problemas sociais. Em efeito, se o "racismo" é essencialmente uma "loucura" ou uma "opinião criminosa", então a batalha contra o racismo tem muito a ver com tribunais e psiquiatras, mas, porém, nada a ver com política. Isso permite à Nova Classe esquecer que o próprio racismo é uma ideologia resultante da modernidade através do tríplice enviesamento do evolucionismo social, do positivismo científico e da teoria do progresso.

O "antifascismo" é uma categoria completamente obsoleta na mesma medida em que "fascismo", ao qual ele tenciona se opôr. A palavra hoje é um termo guarda-chuva sem qualquer conteúdo preciso. É um conceito elástico, aplicável a qualquer coisa, empregado sem o menor rigor descritivo, e que acaba sendo declinada em "fascista" (como adjetivo) e até em "fascistoide", que se permite adaptar a todos os tipos de casos. Leo Strauss já havia falado do Reductio ad Hitlerum para qualificar essa forma puramente polêmica de descrédito. A maneira pela qual, hoje em dia, qualquer pensamento inconformista é riscado como "fascista" por parte de censores que eles próprios dificilmente poderiam definir o que eles entendem por este termo, forma parte da mesma estratégia discursiva.

"Há uma forma de politicamente correto tipicamente europeia que consiste em ver fascistas por todos os lados", observou Alain Finkelkraut sobre isso. "Tornou-se um procedimento habitual para uma coorte de escritores denunciantes", acrescentou Jean-François Revel, "lançar ao nazismo e revisionismo todos os indivíduos cuja reputação eles desejem manchar". Pode-se observar as consequências disso diariamente. O incidente mais trivial da vida política francesa é julgado hoje sob o prisma do "fascismo" ou da Ocupação. Vichy "torna-se uma referência obsessiva" e é convertida em um fantasma que permite a manutenção de um psicodrama permanente, e dado que eles preferem o "dever da memória" ao dever da verdade, apela-se regularmente a essa memória para justificar as comparações mais dúbias ou as compreensões mais grotescas. "Essa perpétua incriminação de fascismo", escreveu Jean-François Revel", cujo excesso é tão chocante, que ridiculariza seus autores ao invés de desacreditar suas vítimas, revela o motivo oculto do politicamente correto. Essa perversão serve como um substituto para os censores, para aqueles tornados órfãos pela perda daquele instrumento incomparável de tirania espiritual que foi o evangelho marxista".

Revelador desses efeitos é a irrupção de hostilidades provocada pela exploração dos arquivos do Kremlin, que começou a causar o desmoronamento de algumas estátuas de "heróis" lendários. Igualmente revelador é o resultado de se observar em que maneira a simples verificação de que o sistema comunista havia posto fim às vidas de mais pessoas do que qualquer outro sistema na história (cem milhões de mortos!) hoje levante a indignação virtuosa em meios que "fazem de tudo para ocultar a magnitude da catástrofe" - como se essa verificação fosse equivalente à trivialização dos crimes nazistas que são por definição incomparáveis com qualquer coisa, como se o horror dos crimes do comunismo pudesse ser atenuado pela suposta pureza de suas intenções originais, como se os dois grandes sistemas totalitários cuja rivalidade e complementariedade caracterizou o século XX não se inscrevessem em um relacionamento a partir do qual um ou o outro tornar-se-iam ininteligíveis, como se, por fim, alguns mortos pesassem mais que outros.

Mas devemos enfatizar também que o "antifascismo" contemporâneo - que, parafraseando Joseph de Maistre, poderíamos qualificar não como o oposto do fascismo, mas como fascismo no sentido contrário - mudou totalmente de natureza. Na década de 30, o tema do "antifascismo", explorado por Stálin nas margens da luta autêntica contra o fascismo real, serviria aos partidos comunistas para o questionamento da sociedade burguesa capitalista, acusada de servir como criadouro do totalitarismo. Seu sentido era então o de mostrar que as democracias liberais e os "traidores sociais" eram objetivamente aliados potenciais do fascismo. Porém, atualmente ele é exatamente o oposto. Hoje, o "antifascismo" serve antes de tudo como um álibi para aqueles que se uniram vigorosamente ao pensamento único e ao sistema. Tendo abandonado toda atitude crítica, tendo sucumbido às vantagens de uma sociedade que lhes ofereceria garantias e privilégios, eles querem, abraçando a retórica "antifascista", dar a impressão (ou criar a ilusão) de ter permanecido leais a si próprios. Em outras palavras, a postura "antifascista" permite ao Penitente, figura central de nosso tempo, esquecer suas retrações pelo emprego de um slogan aleatório que não cessar de ser um lugar-comum. A ferramenta estratégica de ontem com a qual o capitalismo mercantilista era atacado, o "antifascismo", foi convertido em mero discurso em seu serviço. Assim, enquanto as forças da oposição potencial são prioritariamente mobilizadas contra um fascismo fantasmagórico, a Nova Classe que exerce a realidade do poder pode dormir tranquila. Fazendo referência a um valor que não mais se supõe ser uma ameaça à sociedade atual, mas que, pelo contrário, reforça o que ela é, nossos "antifascismos" modernos se converteram em seus guarda-costas.

É tão verdadeiro que para políticos, a denúncia do "fascismo" é hoje uma maneira excelente de se refazer uma reputação. Os mais corruptos usam e abusam dele para minimizar a importância de seus erros. Se o "fascismo" é o mal absoluto, e eles o denunciam, isso quer dizer que eles não são completamente maus. Contas falsas, promessas eleitorais esquecidas, corrupções de todos os tipos se tornam equívocos lamentáveis mas, resumidamente, secundários em relação ao pior. Mas não apenas a esquerda ou políticos precisam de um "fascismo" inexistente que represente o mal absoluto. Também, toda a modernidade em declínio precisa de um "monstro" que lhe permita tornar aceitáveis as patologias sociais que ela própria engendrou, sob o pretexto de que não importe quão ruins as coisas estejam agora, elas jamais poderão ser comparadas com aquilo que ocorreu no passado.

A modernidade é assim legitimada por meio de um fantasma que, paradoxalmente, nos dizem que é "singular" e que pode voltar a qualquer momento. Confrontada com sua própria vacuidade, confrontada com a falência trágica de seu projeto inicial de liberação humana, confrontada com a contraprodutividade gerada diariamente, confrontada com a perda de referências e com a falta generalizada de sentido, confrontada com o niilismo, confrontada com o fato de que o homem se torna cada vez mais inútil do momento em que seus direitos abstratos são proclamados, à modernidade não sobra outro recurso que desviar atenções, isto é, apontar para perigos inexistentes para impedir a consciência crescente da verdade. O recurso ao "mal absoluto" funciona então como meio prodigioso de impôr a aceitação dos males encarados por nossos contemporâneos em suas vidas diárias , males que, em comparação a esse mal absoluto, se tornam contingentes, relativos e, em última instância, acessórios. A oposição exacerbada aos totalitarismos de ontem, o tédio infindável do passado, impede analisar os males do presente e os perigos do futuro, ao mesmo tempo que eles nos fazem ingressar no século XXI com uma forte deficiência, com um olho fixo no espelho retrovisor.

Seria, portanto, um erro acreditar que o "antifascismo" atual não representa nada. Pelo contrário, ele expõe uma legitimação negativa que é fundamental para uma sociedade que não tem mais nada de positivo para incluir em sua contabilidade. O "antifascismo" cria a identidade de uma Nova Classe que não pode existir sem invocar o espantalho da pior coisa para que ela não seja reduzida a sua própria vacuidade. Da mesma maneira que alguns não encontram sua identidade fora da denúncia aos imigrantes, a Nova Classe só encontra a sua própria na denunciação virtuosa do mal absoluto, cuja sombra oculta sua vacuidade ideológica, sua ausência de referências, sua indigência intelectual, em última análise, que ela simplesmente não tem nada mais com que contribuir, nem análises originais, nem soluções a propor.

Portanto, torna-se vital para o núcleo central do "pensamento correto" proibir todo questionamento dos princípios fundamentais que constituem seu suporte de legitimidade. Pois se as coisas não fossem assim, seria necessário que a ideologia dominante aceitasse ser questionada. Mas ela não consente com isso, já que ela partilha da convicção junto a grande parte das ideologias messiânicas de que se as coisas derem errado, se o sucesso antecipado não for atingido, nunca é porque os princípios eram ruins, mas, ao contrário, porque eles não foram suficientemente aplicados. Hoje eles nos disseram que se o comunismo não havia atingido o paraíso na terra, era porque ele não havia eliminado um número suficiente de seus oponentes. Hoje nos dizem que se o neoliberalismo está em crise, se o processo de globalização leva a desordem social, é porque ainda existem obstáculos demais que obstruem o funcionamento correto do mercado.

Para se explicar a derrota do projeto - ou a impossibilidade de atingir o objetivo desejado - um bode expiatório é necessário. Precisa haver oponentes inconformistas, desviados ou dissidentes: ontem, os judeus, os maçons, os leprosos ou os jesuítas; hoje, os supostos "fascistas" ou "racistas". Esses desviados são percebidos como elementos perturbadores, incômodos que obstruem o advento de uma sociedade racional, de modo que é necessário purgar o corpo social por meio de uma ação profilática adequada. Se, por exemplo, a xenofobia existe na França hoje, não é por causa de uma política imigratória descontrolada, mas por causa da existência do "racismo" no corpo social. Em uma sociedade cujos componentes são cada vez mais heterogêneos, torna-se essencial estabelecer um tipo de religião civil que designe um bode expiatório. A execração compartilhada serve então como um nexo que, enquanto se combate um inimigo, ainda que ele seja apenas uma miragem, permite a manutenção de um simulacro de unidade.

Mas existe, ademais, outra vantagem da denúncia moral, e é que contra o "mal absoluto" todos os meios são válidos. A demonização, de fato, não só teve como consequência a despolitização dos conflitos, mas também causou, similarmente, a criminalização do adversário. Este se torna um inimigo absoluto que deve ser erradicado por todos os meios existentes. Entra-se então em um tipo de guerra total - e é tanto assim que se diz que ela é travada em nome da humanidade. Lutar em nome da humanidade leva a se situar os adversários fora da humanidade, isto é, à prática da negação da humanidade. Desde essa perspectiva, a apologia do assassinato e a chamada ao linchamento também se descobrem justificadas.

Finalmente, o que deve ser notado é que os rótulos desqualificadores manipulados hoje em nome do politicamente correto jamais são rótulos revindicados, mas sim rótulos atribuídos. Contrariamente ao que ocorreu na década de 30, quando comunistas e fascistas reivindicavam abertamente suas denominações respectivas, hoje ninguém reivindica as qualificações de "fascista" e "racista". Sua nomeação, assim, não possui valor objetivo, informativo ou descritivo, mas um valor puramente subjetivo, estratégico ou polêmico. O problema que emerge é o de saber qual é a legitimidade de sua atribuição. Como essa legitimidade está sempre a ser ainda testada no futuro, é deduzido que o "teste" é sempre derivado da própria possibilidade de atribuição.

O psicanalista Fethi Benslama escreveu que "o fascismo hoje não é mais um bloco, uma entidade facilmente identificável incorporada em um sistema, em um discurso, em uma organização que pode ser demarcada", mas que ele "assume formas fragmentárias e difusas dentro do todo da sociedade [...], uma forma tal que ninguém está seguro em uma cosmovisão, guardado dessa desfiguração do outro que o faz emergir como um corpo alegre e próspero, secretamente expandido por todo lugar". Tais declarações são reveladoras: se o fascismo está "secretamente expandido por todo lugar", então o "antifascismo" pode evidentemente acusar qualquer um.

O problema é que a ideia segundo a qual o mal está por todo lugar é a premissa de toda inquisição e, similarmente, a premissa sobre a qual a paranoia conspiracionista se sustenta, como inspirou no passado as caças às bruxas e as justificações do Protocolo dos Sábios de Sião. Assim como os antissemitas viam judeus por toda parte, os novos inquisidores veem "fascistas" por toda parte. E como a suprema esperteza do Diabo é fazer com que as pessoas acreditem que ele não existe, protestos jamais são ouvidos. Para coroar, um psicanalista popular tem permissão de interpretar a negação ou rejeição indignada de se trajar o uniforme que eles tentam nos oferecer tamanha complacência, tal como muitas outras confirmações suplementares: a recusa em confessar é a melhor prova de que se é culpado.

"Um homem não é o que ele oculta, mas o que ele faz", disse André Malraux. Acreditando que o "fascismo" está em toda parte, ou seja em lugar nenhum, a nova inquisição afirma pelo contrário que os homens são acima de tudo o que escondem - e que ela pretende descobri-lo. Ela se jacta de ver além das aparências e de ler nas entrelinhas, para melhor "confundir" e "desmascarar". É dessa maneira que a presunção de culpa não conhece limites. O que é "não-dito" é decodificado e detectado. Falando claramente, autores são denunciados, não tanto pelo que eles escreveram, mas pelo que eles não escreveram e pelo que é assume que pretendiam escrever. O conteúdo de seus livros não é boicotado, conteúdo que jamais é levado em consideração, mas sim as intenções que se crê terem sido adivinhadas. A polícia das ideias então se torna a polícia dos motivos ocultos.