16/07/2011

A Impostura do Psicologismo

por Frithjof Schuon

Entendemos pelo termo "psicologismo" aquele pré-conceito de reduzir tudo a fatores psicológicos e de pôr em dúvida, não só o intelectual e o espiritual, no sentido tradicional dos termos, referindo-se o primeiro à verdade e o segundo à vida nela e por ela, senão também ao espírito humano, como tal, e logo sua capacidade de adequação e, com toda evidência, sua ilimitação interna ou sua transcendência. Esta tendência empequenecedora e propriamente subversiva faz estragos por todos os campos que o cientificismo pretende abarcar, porém sua mais aguda expressão é sem possível discussão a psicanálise; esta é por sua vez resultado e causa, como é sempre o caso das ideologias profanas, como o materialismo e o evolucionismo, dos quais a psicanálise é, no fundo, uma ramificação lógica e fatal e um aliado natural.

A psicanálise merece duplamente o qualificativo de impostura, primeiro porque pretende ter descoberto fatos que eram conhecidos em todos os tempos e que não podiam não sê-lo, e, em segundo lugar, e acima de tudo, porque atribui-se funções de fato espirituais e erige a si mesma praticamente como religião. O que chama-se "exame de consciência" ou, entre os muçulmanos, "ciência dos pensamentos" (ilm al-khawâtir), investigação (vishara) entre os hindús, com pequenos matizes, não é mais que uma análise objetiva das causas próximas e distantes de nossas maneiras de atuar ou reagir que repetem-se automaticamente sem que conheçamos os motivos reais disso, ou sem que discernamos o caráter real de tais motivos. Ocorre que o homem comete habitual e cegamente os mesmos erros nas mesmas circunstâncias, e fá-lo porque leva em si mesmo, em seu subconsciente, erros baseados no amor próprio ou traumas; agora bem, para curar-se, ao homem, deve detectar estes complexos e traduzi-los em fórmulas claras, portanto deve fazer-se consciente dos erros subsconscientes e neutralizá-los por meio de afirmações opostas. [...] Neste sentido Lao Tsé disse: "Sentir uma enfermidade é já não tê-la", e a Lei de Manú: "Não há água lustral comparável ao conhecimento", quer dizer, à objetivação pela inteligência.

O que é novo na psicanálise e dá-lhe sua originalidade sinistra, é o pré-conceito de reduzir todo reflexo ou toda disposição da alma a causas mesquinhas e excluir todos os fatores espirituais e, daí, a tendência bem notória a ver saúde no que é vulgar, e neurose no que é nobre e profundo. O homem não pode escapar aqui por baixo das provas e das tentações; sua alma está, portanto, forçosamente marcada por uma certa tormenta, a menos que possua uma serenidade angélica, o que ocorre em meios muito religiosos, ou, pelo contrário, de uma inércia a toda prova, o que ocorre em todas as partes; porém a psicanálise em vez de permitir ao homem sacar o melhor partido de seu desequilíbrio natural, e em certo sentido providencial, e o melhor partido é o que aproveita para nossos fins últimos, tende ao contrário a reduzir o homem a um equilíbrio amorfo, um pouco como se quisesse evitar a um pássaro jovem as angústias do aprendizado cortando suas asas. Analógicamente falando, quando um homem inquieta-se por uma inundação e busca o meio de escapar dela, a psicanálise suprimirá a inquietude e deixará que o paciente afogue-se; ou todavia mais: em lugar de abolir o pecado, abolirá a má consciência, o que permite-lhe ir serenamente ao inferno. Isto não significa que não ocorra nunca que um psicanalista descubra e suprima um complexo perigoso sem por isso desbaratar o paciente; porém do que aqui trata-se é do princípio, cujos perigos e erros superam infinitamente as vantagens aleatórias e as verdades fragmentárias.

De tudo isto resulta que para o psicanalista médio um complexo é ruim porque é um complexo; não qur dar-se conta de que há complexos que honram o homem ou que são-lhe naturais em virtude de sua semelhança a Deus e que há por conseguinte, desequilíbrios necessários e destinados a encontrar sua solução por cima de nós mesmos e não por baixo. Outro erro, que no fundo é o mesmo: admite-se que um equilíbrio é um bem porque é um equilíbrio, como se não houvesse equilíbrios feitos de insensibilidade ou perversão. Nosso próprio estado humano é um desequilíbrio, posto que estamos existencialmente suspensos entre as contingências terrestres e a chamada inata do Absoluto; nem tudo consiste em desembaraçar-se dele. Não somos substâncias amorfas, senão movimentos em princípio ascensionais; nosso bem-estar deve estar proporcionado a nossa natureza total, sob pena de reduzir-nos à animalidade, o que precisamente o homem não suporta sem perder-se. Por isso um médico da alma há de ser um pontifex, logo mestre espiritual no sentido próprio e tradicional da palavra; um profissional profano não tem nem a capacidade nem, por conseguinte, o direito de tocar a alma mais além de dificuldades elementais para cuja resolução basta o sentido comum.

O crime espiritual e social da psicanálise é, portanto, o usurpar o lugar da religião ou da sabedoria, que é o de Deus, e eliminar de seus procedimentos toda consideração de nossos fins últimos; é como se, não podendo combater a Deus, tomasse a alma humana, que pertence-lhe e está-lhe destinada, envilecendo a imagem divina à falta do Protótipo. Como toda solução que esquive o sobrenatural, a psicanálise substitui a sua maneira o que aboliu: o vazio que produz por suas destruições voluntárias ou involuntárias dilata-o e condena-o a um falso infinito ou à função de pseudo-religião.

A psicanálise, a fim de poder sair à luz, tinha necessidade de um terreno apropriado, não somente desde o ponto de vista das idéias, senão também do dos fenômenos psicológicos; queremos dizer que o europeu, que sempre foi cerebral, tornou-se muito mais cerebral desde dois séculos; agora bem, esta concentração de toda a inteligência na cabeça tem algo de excessivo e anormal, e as hipetrofias que disso resultam não constituem uma superioridade, apesar de sua eficácia em certos tempos.

Normalmente, a inteligência deve assentar-se não somente na mente senão também no coração, e deve repartir-se por todo o corpo, como é o caso dos chamados homens "primitivos" (porém muito superiores em certos aspectos); seja como seja, aonde queremos chegar é que a psicanálise, em grande parte, está em função de um desequilíbrio mental mais ou menos generalizado em um mundo onde a máquina dita ao homem seu ritmo de vida e inclusive, o que é mais grave, sua alma e seu espírito.

A psicanálise fez sua entrada mais ou menos oficial no mundo dos "crentes", o que constitui verdadeiramente um sinal dos tempos; resulta disso a introdução, na suposta "espiritualidade", de um método que é contrário à dignidade humana, e que encontra-se em contradição com a pretensão de ser "adulto" ou "emancipado". Brinca-se de ser semideus e ao mesmo tempo trata-se a si mesmo como irresponsável; por causa da menor depressão causada, quer seja por um ambiente demasiado trepidante, quer seja por um gênero de vida demasiado contrário ao bom sentido, corre-se ao psiquiatra, cujo trabalho consistirá em inspirar-lhe algum falso otimismo ou aconselhar-se um pecado liberador. Não parece suspeitar nem por um momento que somente há um equilíbrio, o que nos fixa em nosso centro real e em Deus.

Um dos efeitos mais odiosos da adoção da psicanálise pelos "crentes" é o desdém ao culto da Santa Virgem; este culto não pode menos que molestar a uma mentalidade bárbara que pretende-se "adulta" a todo custo e recria-se no trivial. À censura de "ginecolatria" ou de "complexo de Édipo" respondemos que, como qualquer outro argumento psicanalítico, não vê o problema, posto que a questão que apresenta-se não é saber qual pode ser o condicionamento psicológico de uma atitude, senão ao contrário, qual é o resultado. Quando dizem-nos, por exemplo, que alguém escolhe a metafísica a título de "evasão" ou "sublimação" e por causa de um "complexo de inferioridade" ou de uma "repressão", isto não tem nenhuma importância, já que bendito seja o "complexo" que constitui a causa ocasional da aceitação do verdadeiro e do bem! Porém há isto, ademais: os modernos, fatigados que estão das doçuras artificiais que arrastam sua cultura e sua religiosidade desde a época barroca, trasladam (segundo seu costume) sua aversão à noção mesma de doçura e cerram-se assim, quer seja a toda uma dimensão espiritual se são "crentes", quer seja inclusive a toda humanidade verdadeira, como demonstra-o certo culto infantil à grosseria e ao estrépito.

Pelo demais, não basta perguntar o que vale determinada devoção em certas consciências, há que perguntar também por que coisa substitui-se, posto que o lugar de uma devoção suprimida jamais fica vazio.

"Conhece-te a ti mesmo" (Helenismo), diz a Tradição, e também "quem conhece sua alma, conhece a seu Senhor" (Islã). O modelo tradicional do que deveria ser, ou pretende ser, a psicanálise, é a ciência das virtudes e dos vícios, a virtude fundamental é a sinceridade que coincide com a humildade: aquele que submerge à alma na sonda da verdade e da retidão, chega a detectar os nós mais sutis do inconsciente. É inútil querer curar a alma sem curar o espírito; o que importa, pois, em primeiro lugar, é desembaraçar a inteligência dos erros que pervertem-na, e criar assim uma base em vistas ao retorno da alma ao equilíbrio; não a qualquer equilíbrio, senão a aquele do qual leva o princípio em si mesma.

Para São Bernardo, a alma passional é "coisa desprezível" e Mestre Eckhart comina-nos a "odiá-la". O que significa que o grande remédio a todas as nossas misérias interiores é a objetividade para com nós mesmos; agora bem, a fonte ou ponto de partida desta objetividade situa-se mais além de nós mesmos, em Deus. O que está em Deus reflete-se em nosso centro transpessoal, que é o puro Intelecto; quer dizer que a Verdade que salva-nos forma parte de nossa substância mais íntima e mais real. O erro ou a impiedade é a negativa a ser o que é-se.


15/07/2011

Determinação

"A determinação é um ato de valor em um caso particular, e se transforma-se em um traço característico será um hábito mental. Porém aqui não referimo-nos ao valor para afrontar o perigo físico, senão ao valor para fazer frente às responsabilidades, ou seja, para encarar, em certa medida, o perigo moral. A isto tem-se chamado costumeiramente courage d'esprit, sobre cuja base surge o intelecto, mas não é por isso um ato de intelecto, senão dos sentimentos. A mera inteligência não implica necessariamente valor, já que é comum comprovarmos que a gente mais clarividente carece de determinação. Assim pois, a inteligência deve despertar primeiro o sentimento de valor que ela mesma manterá e apoiará, porque em momentos de emergência o homem é dominado mais por seus sentimentos que por seus pensamentos."
(Carl von Clausewitz)


14/07/2011

A Arte de William Blake













Nivelamento por baixo


"A conclusão que se deduz nitidamente de tudo isto, é que a uniformidade, para ser possível, suporia seres desprovidos de todas as qualidades e reduzidos a simples unidades numéricas; é por isso que uma tal uniformidade nunca é realizável de facto, e todos os esforços feitos para a realizar, nomeadamente no domínio do humano, só podem ter como consequência o desprover mais ou menos completamente os seres das suas qualidades próprias, e desse modo, fazer deles qualquer coisa parecida com simples máquinas, porque a máquina, produto típico do mundo moderno, é bem aquilo que representa, ao mais alto grau jamais atingido, a predominância da quantidade sobre a qualidade. É para isso que tendem, do ponto de vista social, as concepções democráticas e igualitárias, para as quais todos os indivíduos são equivalentes entre si, o que leva à suposição absurda de que todos devem estar igualmente aptos para tudo; esta igualdade é algo de que a natureza não oferece nenhum exemplo, pelas razões que acabámos de indicar, já que se assim fosse, ela não seria mais do que uma completa semelhança entre os indivíduos; mas é evidente que, em nome desta pretensa igualdade, um dos ideais ao invés mais caros ao mundo moderno, fazem os indivíduos o mais semelhantes que a natureza permite, e para isso, primeiro que tudo, pretendendo impor a todos uma educação uniforme. É claro que, como não se pode suprimir inteiramente a diferença das aptidões, essa educação não dá em todos os mesmos resultados; mas também é verdade que, se é incapaz de dar a certos indivíduos as qualidades que eles não têm, pelo contrário, é capaz de abafar noutros todas as possibilidades que ultrapassam o nível comum; é assim que o nivelamento se faz sempre por baixo."

René Guénon in "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos".

13/07/2011

A decadência da música

Sobre como o que se ouve pode espelhar a sociedade na qual se vive

Todos os livros de Hermann Hesse parecem trazer-nos sempre uma lição iluminada, que se destina a comportamentos tanto individuais como coletivos, sociais. Não para menos, recordo a figura de um amigo que sempre reagia com espanto quando soubera que alguém próximo ainda não o havia lido. Em “O jogo das contas de vidro”, que se passa em uma realidade semelhante à nossa, propõe-se que destino da humanidade viria a ser encaminhado, em tempos de crise, conforme dois grandes centros: a música e a matemática. A primeira, por ser uma notável expressão artística do povo; a segunda, por sua imutabilidade.

“Fui um homem que muito buscou e que ainda busca, mas já não o faz nas estrelas e ou livros, senão à escuta dos ensinamentos do próprio sangue” - Hermann Hesse

Oswald Spengler costumava se referir à decadência como já oriunda de épocas distantes. Se o tomarmos como certo, não se torna muito difícil perceber que, assim sendo, estamos nos encaminhando para aquilo que Jaspers conceituou como situação-limite.

Toda exaltação que se faz a tal dita Democracia, esta expansiva forma de governo, é apenas um meio de se camuflar a forma com que nos aproximamos de tal situação-limite. É cobrir os lixões com tapetes belos. É levantar outdoors entre as estradas que conduzem à Cidade Maravilhosa, de forma com que turistas encantados não se notem suas favelas.

Foquemos na música.

Confesso que não tenho costume de acompanhar os programas televisivos aos domingos. Primeiro, pela própria vontade, uma vez que acredito ter afazeres mais importantes; segundo, por falta de opções. Mas foi em um desses domingos, durante a visita a um familiar, que tomei contato com tal “sucesso do momento”.

A cena: quatro jovens alcoolizados e sem camisa, postos ao lado de um carro. Deste, ecoa uma canção em ritmo de forró: “Posso não, quero não... Posso sim, quero sim”. E, no entanto, era apenas mais um dos tantos “fenômenos” considerados hoje como “geniais”.

Por um momento, pensei em tempos que não vivi, quando um Noel Guarani afirmava ser poeta sem catecismo, criando sons de liberdade, dos cavalos às cheias do rio. Pensei nos tempos em que o samba era mais melodia que percussão, quando expressava as vivências de um boêmio. Pensei nos tempos em que a música de raiz retratava a saudade de quem deixa o campo.

O romantismo, o espírito de sacrifício, a revolução, as vidas de tempestades e paixões, a sensibilidade, a vontade. Tudo isto repousa quase ao relento, em questão musical na atualidade. Recordemos a um Wagner, músico completo, que, composições à parte, fora escritor e responsável pelos desenhos de cenários e figurinos de suas belíssimas óperas, e pensemos no contraste com a nossa época.

No momento, o que rege nossa sociedade são os “Baby, baby, baby, uh!” de um pequeno garoto, gemidos e sussurros das tantas cantoras de músicas pornográficas, ou um “Pará pará pará...” de um funkeiro qualquer. São as Lady Gaga com vestidos feitos de carne crua, Madonnas que embora próximas da velhice, dão-se ao luxo de estar com rapazes de vinte anos, e Aguileras e todas suas referências às corporações que dominam o mundo, e, por conseqüência, a indústria da música.

Há não muito, os cadáveres de Dresden foram retratados na Sapucaí. Neste ano, o injustificável sacrifício de Abraão virou tema de escola. Também Bach foi regido com batuques ao fundo. E tudo vira festa.

Do Balé, que expressa o infinito concentrado no corpo humano, a beleza e a magia, chegamos à promoção de danças de rua que se misturam a ritmos antifônicos, sempre com um quê de malandragem e agressividade.

De língua compreendida por todos os homens, conforme a definição de um grande filósofo prussiano, a música futuramente haverá de se transformar (ou ser transformada) em um alicerce de incontáveis problemas de educação e até segurança pública.

Noto multidões de jovens que se deixam levar por instintos acionados conforte batidas repulsivas e idiotizantes. A degradação pseudo-artística precede a moral, física e espiritual. Verdadeiros exércitos joviais cujos idealismos e rebeldias são administrados conforme tentáculos alienígenas: não se vêem a lutar por povo, comunidade, região, nacionalidade ou origem étnica, conceitos estes já ultrapassados – Altmodisch, em bom alemão - senão por seus ídolos da música moderna.

Fato é que tal como com a literatura, a música foi e tem sido propositadamente distorcida. Um simples detalhe? Ou o sistema está consciente de que uma boa mensagem musical pode trazer os indicativos para um despertar?

Penso por um instante: e se ao invés de tocar o hino nacional brasileiro em ritmo de samba, fossemos orientados a ouvir atentamente o que ele diz?

Penso ainda: E se tivéssemos a sinceridade de um Beethoven entre nós, uma sinceridade flamejante, capaz de, em um só golpe, transformar em cinzas os embustes ocos e pseudo-artísticos da nossa era?

Somente assim é que um Nietzsche voltaria a repetir sua sentença imortal: “Ohne Musik wäre das Leben ein Irrtum” – “Sem a música, a vida teria sido um erro”. Admita-se ou não, a arte sempre será o espelho do Khronos em que se vive. Com a música, não poderia ser diferente.

A forma com que esta expressão sublime vem sendo conduzida só nos leva a um caminho: à decadência per se.

12/07/2011

Hyperion

por Stefan George

Ich kam zur heimat: solch gewog von blüten
Empfing mich nie .. ein pochen war im feld
In meinem hain von schlafenden gewalten,
Ich sah euch fluss und berg und gau im bann
Und brüder euch als künftige sonnen-erben:
In eurem scheuen auge ruht ein traum
Einst wird in euch zu blut der sehnsucht sinnen ...
Mein leidend leben neigt dem schlummer zu
Doch gütig lohnt der Himmlischen verheissung
Dem frommen ... der im Reich nie wandeln darf:
Ich werde heldengrad, ich werde scholle
Der heilige sprossen zur vollendung nahn:
Mit diesen kommt das zweite alter, liebe
Gebar die Welt, liebe gebiert sie neu.
Ich sprach den spruch, der zirkel ist gezogen ..
Eh mich das dunkel überholt entrückt
Mich hohe schau: bald geht mit leichten sohlen
Durch teure flur greifbar im glanz der Gott.

11/07/2011

Carl Schmitt - Breve Introdução

por Paul Gottfried

Há duas ideias levantadas no trabalho de Schmitt que merecem atenção na nossa sociedade multicultural decretada pelas “elites”. Em «The Concept of the Political» (um trabalho que primeiramente surgiu em 1927 e que foi depois publicado em inglês, em 1976, pela Universidade de Rutgers) Schmitt explica que a distinção amigo/inimigo é uma característica necessária de todas as comunidades políticas. De facto, o que define o “político” por oposição a outras actividades humanas é a intensidade de sentimento em relação a amigos e inimigos, ou em relação aos nossos e àqueles percebidos como forasteiros hostis. 

Este sentimento não deixa de existir na ausência de Estados-nação. Schmitt argumenta que a distinção amigo/inimigo caracterizara as antigas comunidades e persistiria provavelmente no ambiente cada vez mais ideológico no qual os Estados-nação fossem enfraquecendo. O sistema europeu de Estados, a começar no final da guerra dos 30 anos, havia de facto prestado um serviço de controlo sobre o “político”.

O subsequente ataque a esse sistema de Estados-nação, com os seus específicos e limitados interesses geopolíticos, tornou o mundo ocidental mais fervorosamente político, um ponto que Schmitt desenvolve no seu magnum opus do pós-guerra «Nomos der Erde» (Nomos da Terra). A partir da Revolução Francesa cresceu o número de guerras travadas em nome de doutrinas morais – mais recentemente clamando a defesa dos “direitos humanos”. Essa tendência replicou os erros da idade das guerras religiosas. Transformou a força armada de meio para alcançar objectivos territoriais limitados, quando os recursos diplomáticos falham, numa cruzada pelo bem universal contra um inimigo diabolizado.

Uma ideia relacionada tratada por Schmitt é a tendência em direcção a um Estado Universal (a Nova Ordem Global?). Essa tendência parecia proximamente ligada à hegemonia anglo-americana, um tema que Schmitt abordou nos seus comentários durante e depois da II Guerra Mundial.

Os historiadores germânicos, no início do século XX, haviam tipicamente feito comparações entre, de um lado, a Alemanha e Esparta e, do outro lado, a Inglaterra (mais tarde os EUA) e Atenas – entre aquilo que viam como sendo potências terrestres disciplinadas e potências mercantis, expansionistas e navais. Os poderes anglo-americanos, que dependiam da capacidade naval, tinham um sentido de limitação territorial menor do que os Estados terrestres. As potências marítimas haviam evoluído para impérios, desde os atenienses.

Mas embora esta comparação seja controversa ele também levanta o ponto mais significativo: os americanos aspiram a um Estado Mundial porque reclamam validade universal para o seu modo de vida. Eles vêem a democracia liberal como algo que estão moralmente obrigados a exportar. São conduzidos pela ideologia como pela natureza do seu poder em direcção a uma distinção amigo/inimigo universal.

Embora nos anos 40 e 50 Schmitt esperasse que o devastado sistema de Estados-nação fosse substituído por um novo pluralismo político, a criação de esferas de controlo por parte de poderes regionais, ele também duvidava que isto resultasse. O período do pós-guerra trouxe a polarização entre o bloco comunista e os anti-comunistas, liderados pelos EUA. Schmitt claramente temia e detestava os comunistas mas também desconfiava do lado americano, por razões pessoais e analíticas. De Setembro de 1945 até Maio de 1947 Schmitt havia sido prisioneiro das forças de ocupação americanas na Alemanha. Embora libertado com base no facto de não ter desempenhado significativo papel enquanto ideólogo nazi, ficou traumatizado pela experiência. Durante o cativeiro fora-lhe “pedido” que desse provas da sua crença na democracia liberal. Ao contrário dos soviéticos, em cujas zonas de ocupação havia residido por um tempo, os americanos pareciam ser ideologicamente motivados e não meros conquistadores vingativos.

Schmitt acabou por recear o globalismo americano mais que o seu congénere soviético, que considerou ser despotismo militar primitivo aliado a uma obsessão intelectual ocidental. No final recebeu com agrado a bipolaridade da guerra-fria, vendo no poder soviético um meio de limitar as cruzadas americana pelos “direitos humanos”.

Um conhecedor crítico do expansionismo americano, Schmitt compreendeu o agora indisfarçável carácter ideológico da política americana.

No período posterior à guerra-fria, apesar da irritação que causa entre os imperialistas americanos, as suas análises parecem mais actuais e relevantes que nunca.


10/07/2011

Burguesia Decadente

"Eu comecei a entender que os intelectuais urbanos do mundo estavam divorciados do sangue popular da terra e eram apenas idiotas desenraizados, porém idiotas permissivos, que realmente não sabiam como viver. Eu comecei a ter uma visão própria de uma escuridão mais verdadeira que simplesmente sobrepujava todo esse lixo mental do 'existencialismo', e 'hipsterismo' e 'decadência burguesa' ou quaisquer nomes que vocês queiram dar."
(Jack Kerouac)


09/07/2011

A Propósito da Teologia Política e do Problema da Linha

por Eduardo Hernando Nieto

1. A Natureza da Linha e a Crise da Política

A crise do político que via-se vindo com força desde inícios do século XX segundo advertiam "profetas" como Weber, Schmitt ou Spengler, percebe-se claramente hoje com a convulsão social que gira ao redor da perda de significados dos conceitos, particularmente os políticos, como também com a  grave alteração do que foram os espaços, os papéis e as funções sociais tradicionais.

Tal confusão aprecia-se por exemplo no plano sexual quando começamos a ter problemas para distinguir os sexos e inventam-se conceitos ambíguos como o de "gênero", no aspecto político por sua vez, faz-se já complicado discernir entre os âmbitos públicos ou privados ou pior ainda, diferenciar o amigo do inimigo, e a vagueza também exibe-se quando resulta impossível falar de hierarquias, de centros e periferias, do real e do ideal ou finalmente no plano moral, do bem e do mal.

Certamente, a gravidade e perversidade deste fenômeno, como demonstraremos logo, é usualmente "anestesiada" recorrendo à linguagem "acadêmica", descrevendo esta nova realidade simplesmente como uma manifestação natural da chamada pós-modernidade que caracteriza-se justamente pela relativização dos conceitos e pela conseguinte eliminação das hierarquias, forma típica, dito seja de passagem, que acompanhou a modernidade cartesana. Inclusive, para os filósofos pós-modernos, herdeiros diretos do discurso marxista, como Lyotard, Foucault ou Derrida, esta situação mais bem poderia ser vista de modo positivo na medida que a superação e anulação final das hierarquias consideram-se como um signo de plenitude democrática, falando-se assim da transcendência ou anulação do poder e finalmente da afirmação da igualdade plena.

Não obstante, para entender este fenômento e compreender acima de tudo a natureza do perigo que ronda por trás desta situação, segundo nossa leitura particular, vamos recorrer inicialmente ao apoio da Teologia Política, e ao conceito da linha ou katechon. Assim pois, desde a Teologia Política, toda esta situação de crise social e anomia não é senão fruto de um processo acelerado de indiferenciação daquilo que permitia anteriormente a separação e a conseguinte definição de espaços e papéis, isto é, do nomos, (de acordo à linguagem jurídica), da linha, (desde a perspectiva metapolítica), ou katechon, o selo que continha a chegada do iníquo ou anticristo como afirmava a revelação dentro do contexto teológico.

A idéia de limite sempre esteve associada ao homem e sua natureza, assim o entenderam filósofos clássicos como Sócrates, Aristóteles e Platão, teólogos como Santo Agostinho ou São Tomás e inclusive filósofos modernos como Montesquieu, Tocqueville ou Stuart Mill, os quais com maior ou menor intensidade compreenderam que a virtude e a justiça dependiam da existência de uma ordem política, assumindo que esta ordem somente poderia ser viável sempre que pudessem definir-se claramente limites, inclusive de caráter interno.

Neste sentido, a política teve também o objetivo de situar e delimiar espaços dentro da terra, vale dizer, em conseguir manter uma linha de separação que definisse também os objetos, quer se tratasse por exemplo de uma comunidade, de uma família, uma Igreja, do Estado, ou da propriedade ou mantendo uma divisão entre contrários, o meu e o teu, ou o bom e o mau, desde uma perspectiva qualitativa, isto é, na busca do melhor regime político que nascia da tentativa de harmonizar os opostos.

Se bem é verdade que tem sido usual o associar a idéia de separação ao pensamento moderno, ao menos em seus inícios, e na política moderna ao liberalismo e à democracia, não obstante, como já vimos no contexto antigo também estava muito presente a idéia de nomos ou linha, tratando-se neste caso de uma separação que não buscava isolar os espaços senão integrá-los em um todo coerente mantendo a diversidade dentro da unidade orgânica, garantia última do regime justo.

Assim pois, o nomos como sustentava acertadamente o teórico político e jurista alemão Carl Schmitt, produzia então um ordenamento dentro de um espaço físico estabelecendo imediatamente significados e sentidos. O nomos podia entender-se também como o ato inicial de possessão da terra:

"A história de todo povo que fez-se sedentário, de toda comunidade e de todo império inicia-se pois, em qualquer forma com o ato constitutivo de uma tomada da terra. Isso também é válido enquanto ao começo de qualquer época histórica. A ocupação de terra precede não só logicamente, senão também historicamente à ordenação que logo seguir-lhe-á. Contém assim a ordem inicial do espaço, a origem de toda ordenação concreta posterior e de todo direito ulterior. A tomada de terra é o enraizar no mundo material da história."

Schmitt ao mencionar o conceito katechon, ou nomos, associava-o fundamentalmente ao catolicismo, no qual a linha divisória marcava o terreno eclesiástico e político porém mantendo uma relação ainda quando poderia ser que no fundo a autoridade eclesiástica mantivesse uma preponderância na medida em que o Império ou a Respublica Christiana havia-se construído em função à revelação e à tentativa de evitar a concentração de poder. O katechon neste caso podia entender-se também como autoridade, como auctoritas.

"A unidade medieval de império e sacerdócio na Europa Ocidental e Central não foi uma concentração de poder em mãos de uma pessoa. Estava baseada desde o princípio na diferenciação entre potestas e auctoritas como duas linhas distintas de ordem dentro da mesma ampla unidade. As diferenças entre Imperador e Papa não são, portanto diferenças absolutas, senão unicamente ordens nas quais perdura a Respublica Christiana."

Por isso, a negação do katechon seria o chamado Cesarismo que surgiria ao redor da Revolução Francesa constituindo um regime político presumidamente todo poderoso porém em termos reais muito débil em relação ao Império porque o verdadeiro poder requer também da autoridade que era algo que o Cesarismo descartava gerando assim um regime político secular e inimigo da Teologia Política, quer dizer, negador do katechon e da autoridade, portanto, inimigo da ordem.

Certamente, Schmitt destacou sempre o caráter espaço-temporal e voluntarista da política, em contraste com a dinâmica abstrata e atemporal que percebia-se por exemplo no discurso jurídico e político moderno de induvidável raioz kantiana, assim mesmo a política entendida como nomos ou como katechon implicava uma tomada de posição que criava identidades e permitia assim o reconhecimento e a consolidação de comunidades delimitadas pela própria política. De fato, o nomos e seu caráter concreto estava ainda presente no discurso dos filósofos clássicos, em particular Aristóteles, entendendo-se basicamente como "a forma imediata na qual faz-se visível, enquanto ao espaço, a ordenação política e social de um povo."

Por certo, que a própria idéia de linha ou nomos conduzia-nos à imagem do traçado como ato de vontade ou decisão, uma ação que implicava no fundo uma recriação do ato fundacional do mundo, entendido este como ordem natural ou divina, a qual significava que a política não podia desligar-se de seu fundamento metafísico e teológico.

A presença do nomos envitava então a anomia que seria no fundo uma manifestação da indecisão, indefinição e relativismo. Neste sentido, verdadeiros inimigos da política ou do nomos seriam então a ausência de decisão ou vontade, por um lado, e pelo outro, a promovida neutralidade frente aos valores, típica característica do liberalismo contemporâneo.

Assim pois, a ausência de decisão observar-se-ia dentro de contextos como o do Mercado, por exemplo, pois este seria o espaço da "não decisão" e da "ordem espontânea", enquanto que no caso da neutralidade, falaríamos do Estado Liberal contemporâneo precisamente ao ser este o maior promotor da indiferença no tema dos valores e do individualismo que nega o respeito por qualquer princípio político ou verdade objetiva.

Indubidavelmente, a carência de conhecimento político no mundo atual faz passar desapercebido este problema que resulta na prática crucial pois poderia explicar muitos dos acontecimentos que vem-se decantando hoje e que tem que ver diretamente com a perda de propósitos e sentidos na vida dos homens, com os conflitos que se suscitam pela falta de identidade, a ausência de status e a luta pelo reconhecimento. Por isso mesmo, é que a indiferenciação do nomos significaria abrir as portas ao caos e a desordem.

Chegados a este ponto é pertinente apresentar-se algumas perguntas, o que é que produziu este fenômeno de perda do nomos? Por quê os limites foram transbordados? E o mais importante, como poder-se-ia recuperar o katechon?

Sem dúvida, que são perguntas complexas porém quiçá a última seja muito mais difícil de responder. Pelo visto, a raiz do decaimento da linha está dado pelo incremento do poder e da força nos homens. Se reconhecemos na linha um limite que não pode ser ultrapassado, o poder crescente que veio concentrado o homem moderno serviu para ultrapassar a linha e inclusive apagá-la, com isso então destapou-se "o selo), como rezava a revelação, trazendo o conseguinte caos e anomia generalizada.

Este poder concentrado, chama-se em realidade Técnica Moderna que tem que ver diretamente com esta crise de política. Não por gosto, aquieles que interessaram-se durante o século XX pelo problema do katechon, como Jünger, Schmitt, Heidegger ou Spengler, olharam com grande suspeição o desenvolvimento da técnica.

A técnica moderna, à diferença da antiga como sustentava Heidegger não pretende "re-velar" ou "des-cobrir" como a antiga poiesis, mas sim desafiá-lo:

"O que é a tecnologia moderna? Também é revelação. Somente quando nos permitimos prestar atenção a sua característica fundamental é quando a tecnologia moderna se nos mostra. E não obstante, a revelação que se dá através da tecnologia moderna não se manifesta da maneira de trazer a nós no sentido da poiesis. O revelar que subjaz à tecnologia moderna é o do desafio (Herausforden), que coloca à natureza na pouco razoável demanda de que nos providencie energia que possa ser extraída e armazenada como tal."

Paradoxalmente, esta técnica que podia servir para construir e expandir a vida e o bem-estar e que era também fruto da divisão do trabalho, possuía um lado maligno no sentido de poder outorgar uma força igualmente poderosa para destruir e alienar o homem de sua essência, quer dizer, tinha o poder de remontá-lo fora da natureza e fora de sua própria natureza, desumanizando-o. Porém, esta técnica ademais, servia para relativizar espaços e fazê-los perder significado, como quando empregávamos os elevadores em um edifício deixando vazios e sem uso as escadas, excluindo-as da realidade; ou quando a concentração de áreas comerciais em distintos lugares da cidade, começava a constituir uma série de guetos sem contato entre si, acentuando assim a fragmentação da cidade e a afirmação de diferenças radicais.

O poder da técnica no campo da biologia poderá servir também para deixar completamente aberto o âmbito da privacidade como observamos no caso do projeto genoma humano, que permite por exemplo gerar uma quantidade de informação sobre a pessoa que não somente a torna vulnerável mas senão que na prática terminará por reduzir sua autonomia a níveis inaceitáveis. Com a técnica então a dualidade do escuro e do luminoso, se desvanece em favor da luz, a qual no plano social pode ler-se como a "publicidade do privado" que terminar assim por acabar com a privacidade.

No fundo, a técnica moderna proporcionava um poder excessivo aos homens que terminava por desvirtuar a figura da autoridade, outorgando a seus detentores uma capacidade tal que já não podiam ser controlados por nada nem por ninguém. Em realidade a técnica ao final podia mais bem ser útil somente a ela mesma e já não à humanidade, tal e como advertia também o próprio historiador Oswald Spengler:

"A civilização converteu-se ela mesma em uma máquina que tudo o que faz ou quer fazer, o faz maquinisticamente. Hoje pensa-se em cavalos de vapor, já não se veem e contemplam as cascatas sem convertê-las mentalmente em energia elétrica. Não se vê um prado cheio de rebanhos pastando sem pensar no aproveitamento de sua carne. Não se tropeça com um belo ofício antigo, de uma população todavia alimentada de seiva primordial, sem sentir o desejo de substituí-lo por uma técnica moderna. Com sentido ou sem ele, o pensamento quer realização. O luxo da máquina é a consequência de uma construção mental. A máquina, é, em último termo, um símbolo como seu ideal oculto, o perpetuum mobile, é uma necessidade espiritual e anímica porém não vital."

Porém, os maiores perigos radicavam não somente em que a linha ao final podia ser varrida pela técnica senão também porque sem ser necessariamente eliminada esta podia ser objeto de manipulação e alteração arbitrária. Quer dizer, que a técnica brinda também a possibilidade de "jogar" com sua localização e colocá-la segundo conveniência em qualquer lugar. Um exemplo do dito encontramos claramente na promovida "sociedade civil" e seus produtos conhecidos como Organismos Não-Governamentais (ONGs), conceito que possui tal ambiguidade que por momentos aparece situada dentro do âmbito privado porém também dentro do espaço público. Assim, quando trata-se de participar no governo "assessoram", ocupam cargos públicos e cobra do erário Estatal como se tratassem de organizações políticas escolhidas popularmente gozando por isso de representação política, porém quando o assunto tem que ver com o controle ou a supervisão então imediatamente identificam-se com o espaço privado buscando assim neutralizar qualquer ato de fiscalização, quer dizer, reivindicam uma imunidade.

Esta situação, ademais de gerar mal-estar pela desonestidade e injustiça do fato, produz uma sensação de real confusão, que é também um signo claro do processo de indiferenciação do katechon. A confusão é no fundo um símbolo inequívoco de anomia exagerada, quer dizer, de uma situação na qual esta supera ao nomos e gera esta atmosfera tão nefasta que estaria avisando a próxima desaparição do nomos da terra.

Avaliado já o problema da perda do nomos, encontramos que sua gestação dá-se com a chegada à técnica moderna, que é a sua vez resultado do desenvolvimento da própria modernidade. Uma modernidade que em si mesma é um processo contraditório e que se acelera diariamente.

Agora bem, se o nomos pode interpretar-se como um ato de vontade, é induvidável que sua restauração passa pelo terreno político, do poder e da decisão, porém o poder como vimos requer limites, quer dizer, que deixe de ser somente poder e transforme-se em autoridade. Não obstante, o contexto atual dificilmente presta-se para entender a natureza da autoridade que ademais requer de fundamentação filosófica ou teológica mais não científica. Assim mesmo, o outro grave problema encontramos com a própria presença hegemônica da técnica que não podemos anular ademais de ser isto também um absurdo. O nomos requer então de uma técnica que possa ser limitada e em cujo caso necessitará também de pessoas que possam controlar dita técnica e que se possa reorientá-la a fim de que ela mesma possa contribuir a restaurar a ordem com o traçado da linha.

Consequentemente, a tese sugerida por Leo Strauss, em relação à recuperação da filosofia política e da educação liberal junto com a possibilidade de retomar a concepção do Estado decisionista nos termos de Carl Schmitt, seriam duas alternativas necessárias neste objetivo. Trata-se então de constituir por um lado cidadãos virtuosos que estejam em condições de manejar e moderar seus sentimentos para poder reomar o sentido real da política, enquanto que pelo outro, de afirmar um Estado que oriente e fixe sentidos e valores e não que permaneça impávido como aconselham os impulsores do Estado neutro do liberalismo contemporâneo e do Mercado. Somente assim poderemos retomar o sentido do katechon, quer dizer, graças ao reencontro com a filosofia política e com a teologia política.


A Vulgaridade como Direito

"Não se trata de o homem-massa ser estúpido. Pelo contrário, o actual é mais esperto, tem mais capacidade intelectiva que o de qualquer outra época. Mas essa capacidade não lhe serve de nada; com rigor, a vaga sensação de possuí-la serve-lhe só para encerrar-se mais em si mesmo e não usá-la. Consagra de uma vez para sempre o sortido de tópicos, preconceitos, ideias feitas ou, simplesmente, vocábulos ocos que o acaso amontoou no seu interior e, com uma audácia que só se explica pela ingenuidade, imporá onde quer que seja. É isto que no primeiro capítulo eu enunciava como característico da nossa época: não que o vulgar julgue que é excelente e não vulgar, mas que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade, ou a vulgaridade como direito."

Ortega y Gasset in A Rebelião das Massas.