11/01/2011

Noite

por Fernando Pessoa

A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei

Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo


Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.


Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,


Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome
-- O Poder e o Renome--


Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.


Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,


A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos.

O Humanismo e suas Conseqüências

"Como se originou essa relação desfavorável de forças? Como o Ocidente decaiu de sua marcha triunfal a sua convalescença atual? Houve curvas fatais e perdas de direção em seu desenvolvimento? Não parece ser o caso. O Ocidente continuou avançando socialmente segundo suas intenções proclamadas, com a ajuda de um brilhante progresso tecnológico. E subitamente ele se encontrou em seu atual estado de fraqueza.

Issi significa que o erro deve estar na raiz, na própria base do pensamento humano dos últimos séculos. Eu me refiro à prevalescente perspectiva ocidental do mundo que surgiu primeiramente na Renascença e que encontrou sua expressão política no Iluminismo. Tornou-se a base para o governo e para as ciências sociais e pode ser definida como humanismo racionalista ou autonomia humanista: a autonomia proclamada e imposta do homem em relação a qualquer força superior a ele. Também poderia ser chamado de antropocentricidade, com o homem visto como o centro de tudo que existe."
(Aleksandr Solzhenitsyn)

10/01/2011

Breve Tratado de Rebelião

por Robert de Herte

No seu Tratado do Rebelde, Ernst Jünger escrevia em 1951: «Duas qualidades são indispensáveis ao rebelde. Ele recusa aceitar por sua a lei dos poderes instituídos, quer eles usem a propaganda ou a violência. E ele está decidido a defender-se». Dominique Venner acrescenta, nas páginas deste número, que o que em todas as épocas os rebeldes tiveram em comum «foi terem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes seria necessário viver».

O rebelde recusa a ordem do mundo no seio do qual foi jogado. Recusa-a em nome de uma legitimidade que excede toda a legalidade. Recusa-a porque é em si mesmo que encontra a legitimidade e a norma – não que ele as decalque simplesmente sobre aquilo que ele é, mas porque sabe que ele próprio é também o resultado de uma norma que o ultrapassa. E a sua recusa é total. O rebelde é aquele que não cede, desdenhando daquilo com que o procuram deslumbrar: honrarias, interesses, privilégios, reconhecimentos. À mesa de jogo, ele é o que não joga: o espírito do tempo embate nele como a água na pedra. Espírito livre, homem livre, ele não coloca nada acima da liberdade do espírito e da pessoa. Ele é a própria liberdade. «É rebelde quem quer que seja colocado pela lei da sua natureza em ligação com a liberdade» (Ernst Jünger).

Mas ele não é somente um insubmisso. Certamente, como o resistente ou o dissidente, o rebelde é a prova viva de que uma alternativa é sempre possível. Mas a sua rebelião não está somente ligada às circunstâncias. Ela é de ordem existencial. O rebelde sente fisicamente a impostura, sente-a instintivamente. Tornamo-nos dissidentes, mas nascemos rebeldes. O rebelde é rebelde porque qualquer outro modo de existência lhe é impossível. O resistente deixa de o ser quando deixa de ter meios de resistir. O rebelde, mesmo aprisionado, continua a ser um rebelde. É por isso que, ainda que possa perder, nunca está vencido. Os rebeldes nem sempre podem mudar o mundo. 

O mundo, esse, nunca os conseguiu mudar.

Face a um mundo pelo qual não sente mais que desprezo ou desgosto, o rebelde não pode satisfazer-se com a indiferença, porque essa está ainda demasiado próxima da neutralidade. O rebelde é feito para a luta, mesmo que ela não ofereça esperança. Ele não é, então, um renunciante. O rebelde sente-se estrangeiro ao mundo em que vive, mas sem nunca deixar de querer nele viver: ele sabe que só se pode nadar contra a corrente na condição de não se abandonar o leito do rio. Pertencendo a essa minoria que desde sempre preferiu o perigo à servidão, ele sabe que o respeito de si deve sempre ser conquistado. O seu afastamento puramente interior não impede o contacto, porque esse contacto é necessário à luta. E se ele «recorre à floresta» não é para aí se refugiar – ainda que seja frequentemente um proscrito –, mas para aí reaver forças vivas. «A floresta está presente por todo o lado, prossegue Jünger. Existem florestas no deserto, como nas cidades, onde o rebelde vive escondido sob a máscara de qualquer profissão. Existem florestas na sua pátria como sobre qualquer outro solo onde se possa desenvolver a sua resistência. Mas existem sobretudo florestas na própria retaguarda do inimigo.»

O revolucionário persegue um objectivo, o que não é necessariamente o caso do rebelde. O rebelde pode perfeitamente lutar por afirmar um estilo. Ele luta porque não pode fazer outra coisa que lutar. O revolucionário pretende chegar a um fim onde o rebelde encarna antes de tudo um estado de espírito. Semelhantemente, o rebelde despreza a escalada extremista e a manipulação supostamente eficaz dos slogans. Ele não é dos que se limitam a anunciar o Apocalipse em ter o mínimo meio de o remediar. Antígona é estranha ao narcisismo da radicalidade. 

Por relação ao «curso da História», o rebelde sabe, por outro lado, identificar o momento e agarrar esse momento. Para romper o cerco, para tentar introduzir um grão de areia na máquina, ele raciocina sobre situações concretas. Determina a sua estratégia de acordo com o que vê surgir sob os seus olhos, não de acordo com modelos ultrapassados. O rebelde é, antes de tudo, dinâmico. Ele dinamiza o pensamento e torna esse pensamento dinâmico. Não é soldado, mas guerrilheiro. Ele não leva a cabo operações regulares mas lança ataques inesperados. Não está atrás de uma linha da frente, mas atravessa todas as frentes.

O rebelde pode ser activo ou meditativo, homem de conhecimento ou de acção. Sobre o plano estratégico, pode ser carvalho ou junco, raposa ou leão. Há rebeldes de todos os tipos. Na ordem do pensamento, Hugues Rebell, o bem falado Georges Darien, Péguy, Bernanos, Orwell, foram ao seu tempo rebeldes, tal como, mais recentemente, Jack Kerouac, Dominique de Roux, Burroughs, Pasolini, Xavier Grall, Mishima ou Jean Cau. Guy Debord foi também ele um rebelde, mesmo se a sua obra é hoje objecto de uma recuperação póstuma, sinal de que estamos já no para além do Espectáculo. Na ordem da acção, depois de tantos outros «mobilizadores do povo», poderíamos citar o subcomandante Marcos que, sem ter nunca cometido um só atentado, defende de maneira exemplar as liberdades dos índios de Chiapas. De Robin dos Bosques aos «zapatistas»: uma mesma linha!

Sempre houve rebeldes. Mas o mundo actual reserva-lhes um lugar muito particular. Na época da modernidade, o rebelde surgia muito aquém do revolucionário: era reputado por lhe faltar clara consciência ideológica e preferir, às estratégias longamente pensadas, o jogo desordenado das reacções instintivas. Hoje que a modernidade finda, ele reencontra o seu lugar. A mundialização faz da Terra um mundo sem exterior, um mundo sem outro, que já não pode ser atacado a partir de um ponto para além de si. 

Um tal mundo não está tanto votado à explosão como à depressão implosiva. O rebelde está apto para este mundo precisamente porque fomenta redes e propaga as suas ideias de forma viral. Neste sentido, ele é também uma figura pós-moderna, mas uma figura de oposição. Num mundo cada vez mais homogéneo, ele é a própria singularidade. Ele é um ponto opaco num mundo votado à transparência totalitária, um sujeito que permanece real num mundo de objectos virtuais, um insurrecto por excelência num mundo policiado e tornado policiador. Um estrangeiro que podíamos excluir, de pleno direito, em nome da luta contra a exclusão, se ele não se tivesse previamente excluído a si mesmo. É por isso que, de um certo modo, o futuro pertence ao pensamento rebelde, a esse pensamento que desenha clivagens inéditas, esboça uma topografia nova, prefigura um outro mundo. Porque a história permanece sempre aberta.

Jünger diz ainda que chama rebelde «àquele que, isolado e privado da sua pátria pela marcha do universo, se vê deixado ao nada». Escreve também: «Quando todo um povo prepara o seu recurso às florestas, torna-se uma potência temível.»

'Titanic'

"O indivíduo já não está na sociedade como uma árvore no bosque, assemelha-se, ao invés, ao passageiro numa embarcação, que se move rapidamente e que se pode chamar 'Titanic' ou também Leviatã. Desde que faça bom tempo e a paisagem seja agradável, ele mal se aperceberá do decréscimo de liberdade em que caiu."
(Ernst Jünger)

09/01/2011

Weltanschauung Grega

por Denes Martos

(…)Qualquer análise sem preconceitos da Antiguidade grega produz pudibundos estremecimentos de alarme entre os que escreveram a novela da História universal. O que sucede é que aos gregos foi atribuída a patente da invenção do sistema político vigente. Do que imperou em ambos os lados da Cortina de Ferro pois, ainda que pareça incrível, capitalistas e comunistas não se guerrearam pela democracia. Guerrearam-se para estabelecer qual dos lados era o mais democrata. No debate entre as superpotências do mundo bipolar do século XX tudo esteve em discussão. Menos uma coisa: a democracia. Foi permitido matar por qualquer outro tema: propriedade dos meios de produção, imperialismo económico ou imperialismo político, ditadura do proletariado ou ditadura do dinheiro, comité ou soviete. Mas pela democracia, não. A democracia esteve, e continua a estar, fora de discussão. A democracia herdámo-la dos gregos. A única coisa que ainda hoje é permitido discutir é se Platão foi – ou não – o primeiro comunista ou o primeiro teórico da oligarquia. A única coisa que , todavia, se discute raivosamente, é quem é o herdeiro mais directo. Dos gregos. Os pais da democracia. Pois claro…

Vejamos: de todos os gregos, não. Porque a novela – como todo o policial “comme il faut” exige gregos bons e gregos maus. Para usar os termos cunhados em 1939: gregos aliados e gregos do eixo. De um lado os democratas liberais e, do outro, os fascistas. Se Platão é o predecessor de Marx, então Licurgo tem que ser o percursor de Hobbes. Se Sólon é quase um George Washington, então Leónidas, com os seus trezentos espartanos, inevitavelmente tem de ser algo assim como…bom, eleja o leitor mesmo, com total liberdade, o personagem da sua preferência entre a populosa galeria de tiranos, ditadores, déspotas, opressores, repressores e personagens malditos que nos presenteia a História oficial. 

Esta visão estereotipada, binária e maniqueísta da Grécia é o dogma vigente. É a história da boa e democrática Atenas contra a obscura e totalitária Esparta. É a história dos nobres, ponderados, tolerantes e pluralistas atenienses contra os rígidos, belicosos, fanáticos e autoritários espartanos. São os rapazes bons de Atenas contra os maus de Esparta.

Claramente, o dogma não pode deixar de despertar suspeitas. Tanta perfeição de um lado e tanta perversão do outro resulta duvidosa. É como se o argumentista desconhecesse as suas próprias regras, quanto aos bons não poderem ser totalmente bons nem os maus completamente maus. Naturalmente, tratando-se de algo tão importante como a nossa instrução cívica, certa liberdade poética é admissível. Mas, ainda assim, a história tresanda a manipulação. Sobretudo quando se descobre que grandes luminárias de Atenas – nada menos que Sócrates e Platão – tinham um sólido respeito pelos espartanos e pelo seu estilo de vida. Mas claro, para percebê-lo é preciso ler Platão. E quem se vai pôr a ler Platão hoje em dia?!

Todavia, se pegamos nos próprios autores gregos, muito rapidamente se descobre a terrível e monstruosa verdade: os gregos não foram “democratas”, de todo! Para Aristóteles, a democracia é uma perversão da politeia – assim como a tirania é uma perversão da monarquia –, e vale a tendenciosidade inacreditável dos tradutores para tergiversar os termos. Para Platão a democracia é simplesmente uma notável estupidez política já que, segundo ele, o Governo deve estar nas mãos de uma minoria sábia. Em Atenas havia mais escravos e cidadãos de segunda do que homens livres. Na realidade, toda a celebrada democracia ateniense não é senão um luxo político a que, em certas circunstâncias, se permitiu a aristocracia terrateniense e a burguesia comerciante. 

Os espartanos simplesmente não tiveram a veleidade de dar-se a semelhantes luxos. Eram sóbrios. Enfrentavam as épocas de paz e prosperidade com o pessimismo natural do campesino que sabe que as boas colheitas não se dão todos os anos. Sabiam que é muito salutar ser previdente e medido nas pretensões. Por isso, quando tiveram que enfrentar épocas de angústia e perigo, simplesmente apertaram os cinturões e – sem mudar em nada a sua organização social – puseram-se a resistir. Estavam organizados para resistir. A Grécia não se teria aguentado se lhe tivessem falhado os espartanos. Quando Esparta deixou de resistir a Grécia esfumou-se, tornando-se macedónia primeiro e simples província romana depois.

Essa é a verdade. A crua verdade. Nada nesta vida nos é dado de um modo aproximadamente duradoiro se não lutamos por defendê-lo. E para lutar com alguma probabilidade de êxito há que estar organizado para combater. De outro modo, ao primeiro embate do inimigo produz-se uma debandada. E há sempre um inimigo. Sobretudo em política. É assim e sempre foi, ainda que hoje muitos pretendam negá-lo. Ainda que actualmente tenha surgido uma certa praga de indivíduos defendendo que, para não ter inimigos é suficiente declarar a sincera intenção de não os querer ter. É ridículo. Mais de dez mil anos de História contradizem esta fantasia. É como pretender acabar com os ladrões declarando a nossa mais honesta intenção de não resistir a um assalto.

Os espartanos não toleravam ser assaltados e organizaram-se para resistir. Tinham orgulho e determinação. Tinham sobriedade e disciplina. Tiveram grandes defeitos, é certo. Mas também tiveram grandes heróis. Plutarco disse deles que se cultivavam sistematicamente no exercício de quatro virtudes fundamentais. Primeiro: não queriam nem podiam suportar a ideia de um individualismo egocêntrico, contrário ao espírito da sua comunidade. 

Segundo: cada um deles sentia-se conscientemente parte orgânica da sociedade e, por isso, todos se mantinham firmemente unidos por detrás dos chefes. Terceiro: esforçavam-se por vencer o seu egoísmo mediante a exaltação do heróico e a moderação nas pretensões pessoais. E quarto: concebiam as suas vidas como um acto de serviço realizado em benefício dos demais.

Solidariedade, lealdade, disciplina, autocontrolo, heroicidade, vocação de serviço. São as virtudes duras de homens duros que levam a vida a sério. Alguns dizem que foram excessivamente duros e que, ainda assim, estiveram longe de ser perfeitos. Claro que não foram perfeitos. Estiveram tão longe da perfeição quanto qualquer ser humano pode estar. E quanto a terem sido duros: por acaso a vida é branda? A vida delapidada em idiotices pode chegar a ser fácil, mas uma vida vivida com intensidade e honradez é qualquer coisa menos um passeio no parque. Por acaso não é certo que resulta terrivelmente difícil viver a vida de tal modo que não tenhamos do que nos arrepender quando chega o momento de morrer?

Os espartanos acreditaram que sim, quiçá fizéssemos bem em crê-lo de novo também nós. E não há por que amargurar-se: os espartanos não foram menos felizes que nós.

Mais, tiveram algo que só muito poucos têm hoje em dia: tiveram do que se orgulhar.

Elite Revolucionária

"Quando uma Nação ergue-se ardente para lutar por sua liberdade e honra, é sempre uma minoria que realmente incendeia a multidão."
(Oswald Spengler)

08/01/2011

Somente o mais nobre é de máxima dureza

"'Por que tão duro? - disse certa vez o carvão ao diamante - acaso não somos parentes próximos?'

Por que tão brandos, irmãos? Assim eu vos pergunto - acaso não sois meus irmãos? Por que tão brandos e acomodados? Por que há tanta negação e retratação em vosso coração? Por que igualmente tão pouco destino em vosso olhar? E se não estáis dispostos a ser destino e a ser inexoráveis, como um dia poderíeis chegar a triunfar comigo?

E se vossa dureza não quer fulminar, cortar e desfazer, como poderíeis um dia criar comigo?

Pois todos os criadores são duros. E vos há de parecer gozo inefável por vossa mão sobre os milênios como se fossem cera. Inscrever na vontade de milênios qual bronze. Somente o mais nobre é de máxima dureza.

Tornai-vos duros! Eis aqui a nova tábua irmãos, que coloco sobre vós..."
(Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)

07/01/2011

Gabrielle D'Annunzio

por Kerry Bolton

"Nós artistas somos apenas testemunhas assombradas de aspirações eternas, que ajudam a elevar nossa linhagem ao seu Destino."

Gabrielle D'Annunzio, combinação única de artista e guerreiro, nasceu em 1863 em uma família de comerciantes. Ele era um Renascentista por excelência. Esse Guerreiro-Bardo teria um impacto crucial sobre a ascenção do fascismo apesar de ele não ter estado sempre de acordo com a maneira pela qual ele se desenvolveu.

O garoto que em anos posteriores viria a ser fortemente influenciado por Friedrich Nietzsche demonstrava uma vontade férrea desde tenra idade. Aprendendo a nadar, ele nadava contra a corrente ou buscava as ondas maiores para descobrir seus limites. Sua carreira como poeta começou cedo. Aos 16, ele já era conhecido em Roma como um poeta promissor. Aos 19 D'Annunzio viajou à Roma, vivendo um estilo de vida boêmio, trabalhando como colunista de fofocas, e escrevendo seu primeiro romance 'Il Piacere'. Um conjunto de pequenos contos se seguiu, 'Le novelle della Pescara', celebrando o sensual e violento. Então veio seu romance 'Le Vergini Delle Rocce', que foi importante por introduzir a Itália ao ideal do Übermensch Nietzscheano.

A primeira visita de D'Annunzio à Grécia em 1895 o inspirou a escrever um épico nacional que ele esperava trouxesse a Itália ao séc.XX como uma grande nação. "Eu estava para escrever um volume de prosa poética que será um grito de guerra dos povos Latinos". 'Laus Vitae' expressava um ethos pagão, Nietzscheano, de "Desejo, Voluptuosidade. Orgulho e Instinto, a Quadriga Imperial."

À essa época, novos ideais para o século vindouro estavam emergindo, especialmente entre os jovens artistas que estavam rejeitando o liberalismo burguês do séc.XIX. 

Em resposta à burguesia ansiosa por conforto e segurança e aos políticos-comerciantes, os jovens artistas, escritores e poets demandavam nacionalismo e Império. Eles eram representados pelo 'Movimento Futurista' com seu estilo provocativo e manifestos abrasivos, e liderados pelo poeta Marinetti demandando uma rejeição do "passadismo". Eles defendiam uma nova era baseada na velocidade, dinamismo e valor marcial. D'Annunzio escreveu sua peça 'La Nave' que celebrava a cidade renascentista de Veneza e clamava por Ação com o slogan: "Armem a proa e naveguem na direção do vento."

O impacto da peça foi tão poderoso com os atores trocando socos reais e a população romana gritando seus slogans. O Rei parabenizou D'Annunzio, e a Áustria fez um protesto oficial junto ao Ministério de Relações Exteriores Italiano. D'Annunzio agora era uma das principais influências sobre a juventude italiana e os Futuristas. O clima criado pelo movimento e por ele mesmo e pelos Nacionalistas Italianos permitiu que o Primeiro-Ministro Crispi embarcasse em aventuras imperiais na África, que culminaram com o ressurgimento de um Império Italiano na África sob Mussolino várias décadas depois. D'Annunzio inspirava tanto a população em geral como os soldados italianos com seus escritos.



Apesar de não se encaixar nem na Direita, nem na Esquerda convencionais, o que também poderia ser dito do movimento nacionalista italiano emergente, D'Annunzio entrou para o Parlamento em 1899 como um conservador não-doutrinário com idéias revolucionárias. Mesmo assim, ele sentia desprezo pelo Parlamento e pelos parlamentares como "rebanho eleito".

Ele havia escrito em 'La Vergine': "Um Estado erguido com base no sufrágio popular e igualdade nos votos, não é apenas ignóbil, mas precário. O Estado deve sempre não ser mais que uma instituição para favorecer a elevação gradual de uma classe privilegiada na direção de sua forma Ideal de existências." 

Ele tomou seu assento e forçou uma nova eleição em 1900 ao cruzar o tablado e se unir à Esquerda para quebrar um impasse político. Então ele defendeu o Partido Socialista, entre cujos líderes à época estava Mussolini, apesar de continuar a discursar sobre uma "Consciência Nacional" que era contrária ao internacionalismo dos Socialistas oficiais, como de fato Mussolini também viria a fazer. Apesar de não ter sido reeleito D'Annunzio contribuiu para a formação de uma síntese intelectual, junto com os nacionalistas e futuristas que várias décadas depois transcenderia tanto a esquerda como a direita, e emergiria como o Fascismo. D'Annunzio expressou a nova síntese da política vindoura assim:"Tudo na vida depende do eternamente novo. O Homem deve ou se renovar, ou ele mesmo perecer."

D'Annunzio estava morando na França quando começou a Guerra. Ele visitou o Front, e resolveu voltar à Itália para agitar pela entrada de seu país na guerra. Como Mussolini e Marinetti, D'Annunzio viu a guerra como a oportunidade para que a Itália tomasse seu lugar como uma das grandes potências do séc.XX. D'Annunzio foi convidade para discursar perante uma multidão durante a inauguração oficial do Monumento à Garibaldi, declamando seu próprio 'Sermão da Montanha': "Benditos aqueles que, tendo ontem gritado contra esse evento, aceitarão hoje a suprema necessidade, e não quererão ser os Últimos mas os Primeiros! Benditos os jovens que, famintos por glória, serão satisfeitos! Benditos os misericordiosos, pois eles serão convocados para satisfazer um esplêndido jorrar de Sangue, e irão se trajar com maravilhosas feridas..."

A multidão estava em êxtase.

Aos 52 anos de idade e considerado um tesouro nacional, havendo reestabelecido a literatura nacional italiana, houve pressão para dissuadi-lo de se alistar no Exército, mas ele foi comissionado nos "Lanceiros de Novara", e tomou parte em mais de 50 combates. Tamanhas eram as ousadias de suas aventuras que a principal figura literaria da Itália logo se tornou seu maior herói de guerra. 



Ele sobrevoou várias vezes os Alpes em uma época em que tal feito era considerado extraordinário. Os austríacos colocaram um prêmio em sua cabeça. Ele respondeu entrando no porto de Buccari com um pequeno bando de homens seletos em um bote, disparando seus torpedos e conteineres de borracha, cada um contendo uma mensagem lírica em tinta indelével. D'Annunzio era especialmente notado por suas excursões aéres sobre as linhas inimigas lançando panfletos de propaganda. Foi durante um desses vôos que ele pela primeira vez usou o grito de guerra, "Eia! Eia! Alala!"

Dizia-se que esse era o grito usado por Aquiles para atiçar seus cavalos. Posteriormente foi adaptado pelos póprios Legionários de D'Annunzio quando eles tomaram Fiume e eventualmente pelos Fascistas. Após sérios danos a um olho, lhe foi dito para não voar novamente, mas após alguns meses ele voltou ao ar e recebeu uma medalha de prata. Ele então marchou no assalto de Castagna até o mar. Ele voltou da Guerra como herói internacional; tendo recebido uma medalha de ouro, cinco de prata, uma de bronze, e a cruz dos Oficiais da Ordem Militar de Savóia. Ele também recebeu a Cruz Militar da Grã-Bretanha com muitos outros países lhe rendendo medalhas.

Após a vitória Aliada, a Itália não recebeu as recompensas que ela havia esperado. Fiume era um ponto particular de contenção. Veneziana em cultura e história, a cidade portuária havia sido ocupada por tropas francesas, inglesas, americanas e italianas; porém o Governo Italiano preferiu entregar sua administração à Iugoslávia. Mussolini, Marinetti e D'Annunzio novamente juntaram forças para agitar pela causa comum de que a Itália deveria anexar Fiume. Jovens oficiais formaram um exército com o mote: "Fiume ou Morte!" D'Annunzio foi chamado para liderar uma expedição para recuperar a cidade para a Itália.

Ao amanhecer de 12 de Setembro de 1919, D'Annunzio marchou a frente de uma coluna de 287 veteranos. Conforme eles marchavam ao longo da Itália até Fiume, eles recrutavam soldados e conseguiam suprimentos. 

No momento em que a cidade foi alcançada ele havia reunido um exército de 1.000 homens. D'Annunzio confrontou o Comandante italiano da cidade e, apontando para suas próprias medalhas declarou, "Atire primeiro nisso." Os olhos do General Pittaluga se encheram de lágrimas e ele respondeu: "Grande Poeta! Eu não quero causar o derramamento de sangue italiano. Estou honrado em lhe encontrar pela primeira vez. Que seu Sonho possa se realizar." Os dois se abraçaram e entraram em Fiume juntos. Assim que D'Annunzio havia tomado Fiume outros de toda a Itália correram para ele, nacionalistas, anarquistas, futuristas, sindicalistas, soldados e homens das artes. "Nesse mundo vil e louco, Fiume é o símbolo da Liberdade", declarou D'Annunzio.



D'Annunzio o Homem Renascentista recriou Fiume como uma Cidade-Estado renascentista no século XX. Seria o catalisador para uma "Liga das Nações Oprimidas" para se contrapôr à Liga das Nações das potências burguesas. O Estado Livre de Fiume foi proclamado com o "Estatuto de Carnaro". Ela instituía treinamento físico para os jovens, pensões de aposentadoria, educação universal, instrução estética, e seguro desemprego. A propriedad privada era reconhecida mas sob a condição de seu "uso apropriado, contínuo e eficiente." Corporações e Guildas à maneira medieval foram estabelecidas para representar trabalhadores e produtores, substituindo os velhos partidos políticos. Tanto a liberdade de religião como o ateísmo foram protegidos. Um "Colégio de Ediles" foi eleito com discernimento entre homens de gosto e educação, que manteriam os padrões estéticos na arquitetura e construções da cidade-estado. O parlamento, ou "Conselho dos Melhores", era instruído a minimizar o palavreado inútil, com sessões realizadas com "brevidade notadamente concisa". Uma câmara superior era chamada o "Conselho dos Provedores". D'Annunzio supervisava todo o edifício como o 'Commandante'. A Música foi elevada como "uma instituição social e religiosa" pelo Estatuto. 

Por 15 meses, o Commandante resistiu contra protestos aliados e o bloqueio erguido pelo próprio Governo da Itália.



O Governo italiano eventualmente fortaleceu seu bloqueio, que resultou em escassez de comida em uma época de ápice da gripe espanhola na Europa. Para se contrapôr ao bloqueio D'Annunzio formou os Uscocchi (de um antigo nome adriático para um tipo de piratas), que capturavam navios, armazéns, roubavam carvão, armas, carne, café e munição, até mesmo cavalos, em saques ousados por toda a Itália. D'Annunzio planejava marchar sobre Roma e tomar o país todo. De fato, a canção dos Legionários tinha o refrão, "com a bomba e a adaga entraremos na Quirinália". D'Annunzio havia esperado pelo apoio dos Fascistas de Mussolini, que haviam feito a propaganda pela ocupação de Fiume por D'Annunzio, mas Mussolini considerava uma Marcha sobre Roma prematura, e possivelmente considerava D'Annunzio como rival de seus próprios objetivos.

Tropas do governo avançaram na direção de Fiume. D'Annunzio ordenou uma mobilização geral. Ele esperava que as tropas italianas não disparariam contra seus irmãos de sangue. Tal noção repugnava a D'Annunzio, como também ao General Pittaluga quando ele havia permitido a ocupação de Fiume por D'Annunzio. Operações militares começaram em 24 de Dezembro de 1920. "O Natal de Sangue" como D'Annunzio chamou. 20.000 tropas começaram a avançar contra os 3.000 de D'Annunzio. O 'Andrea Dona' navegou até uma distância próxima. D'Annunzio recebeu um ultimato para se render ou sofrer bombardeio. Após começarem os bombardeios sobre a cidade, mulheres vierem carregando seus bebês, gritando, "Esse, Itália! Levem esse. Mas não D'Annunzio!"

O Commandante reuniu seu Gabinete e anunciou sua capitulação. Apesar de que seus homens haviam derrotado as tropas do governo por cinco dias, a cidade não poderia resistir a bombardeio pesado. "Não posso impor a este cidade heróica sua ruína e destruição certas", disse D'Annunzio. 



D'Annunzio se retirou para uma casa reclusa que ele chamou "Altar das Vitórias Italianas". Ele voltou a escrever. Permaneceu como a figura italiana mais popular, que tanto Fascistas como anti-fascistas tentaram recrutar. Apesar do que ele considerava uma traição de Mussolini por conta de Fiume, ele se recusou a apoiar os anti-fascistas. Em 27 de Outubro de 1922, os Fascistas marcharam sobre Roma. O novo regime estebeleceu com bases mais pragmáticas e realistas os ideais românticos e visionários que D'Annunzio havia realizado em Fiume. Muitos dos aspectos do Movimento Fascista foram estabelecidos pela primeira vez por D'Annunzio, incluindo o resgate da Saudação Romana e o uso da 'Camisa Negra'. Mussolini adotou o estilo de falar ao povo, de D'Annunzio, a partir de balcões com a multidão respondendo.

A Itália foi organizada como um Estado Corporativo (Guildas) como Fiume havia sido, e figuras culturais eram particularmente estimadas. Em 1924 a maior parte de Fiume foi tomada da Iugoslávia. Isso e iniciativas como o 'Eixo Roma-Berlim', a saída da 'Liga das Nações' e a Invasão da Abissínia (Etiópia) levaram D'Annunzio a se aproximar do regime Fascista.

Apesar de ele ter evitado de participar na vida pública, o regime agraciou D'Annunzio com várias honras, tornando-o Príncipe, publicando suas Obras Completas, e tornando-o General Honorário da Força Aérea e Presidente da Academia da Itália. Em 1º de Março, D'Annunzio morreu subitamente de uma hemorragia cerebral. No funeral de D'Annunzio, Mussolini disse: "Você pode ter certeza de que a Itália chegará ao cume com o qual sonhastes." 

Tradução por Raphael Machado

A Era do Capital

"O capital, que deveria ser o que é por sua natureza, quer dizer um resultado do trabalho, e, ao mesmo tempo, um de seus instrumentos, é, normalmente, como possessão individual, o resultado de maquinações culpáveis, da exploração da população através de iniciativas artificiais e pouco duradouras, dos jogos na Bolsa, das mentiras. Elementos econômicos pouco saudáveis, cavaleiros da indústria e empreendedoras no charlatanismo, sobem rapidamente nas classes altas da sociedade romena, nos lugares que antes estavam reservados às linhagens ilustres ou às inteligências mais desenvolvidas, aos caráteres mais justos e equilibrados. Em todos os lugares os antigos valores morrem e são substituídos por um materialismo brutal, a cultura do século, junto com a pobreza da classe trabalhadora, ameaçam o edifício grandioso da civilização cristã. Shakespeare cede lugar às bufonarias e aos dramas de incesto e adultério, o can-can expulsa Beethoven, as grandes idéias chegam ao seu ocaso, os Deuses morrem."
(Mihai Eminescu)