"O lúcido pensador italiano Marcello Veneziani começa um belo artigo sobre o antiglobalismo com a seguinte observação: 'Se olharmos bem para eles, os anti-G8 são a esquerda em movimento: anarquistas, marxistas, radicais, católicos rebeldes ou progressistas, pacifistas, verdes, revolucionários. Centros sociais, bandeiras vermelhas. Com o complemento iconográfico de Marcos e do Che Guevara.
Imediatamente nos damos conta de que nenhum deles põe em causa do Dogma Global, a interdependência dos povos e das culturas, o melting pot e a sociedade multirracial, o fim das pátrias. São internacionalistas, humanitários, ecumenistas, globalistas. E acrescentando a isso: quanto mais extremistas e violentos são, mais internacionalistas e anti-tradicionais se tornam'.
Posto isto, a oposição da esquerda à globalização é só uma postura que se esgota numa manifestação. Seattle, Gênova, Nova Iorque, Porto Alegre, e acabou, 'o mundo continua', como dizia Discepolin. É que a política do 'progressismo', como bem observou o filósofo, também italiano, Massimo Cacciari, ordena os problemas mas não os resolve.
Do mesmo se queixa o sociólogo marxista mais importante da América Latina, Heinz Dietrich Steffan, que em um recente artigo diz: 'Se a tarefa atual de todo o indivíduo anticapitalista é absolutamente clara: por que a 'esquerda' e os seus intelectuais não a assumem? Por que repetem, fórum após fórum, a mesma lenga-lenga sobre a maldade do neo-liberalismo e se contentam com as suas ritualiadas propostas terapêuticas inspiradas em Keynes, Tobin e Stiglitz? Por que não convertem a realidade capitalista em objeto de transformação anti-sistema, ao invés de a manterem como muro de lamentações?".
O fracasso rotundo da esquerda, hoje rebatizada de 'progressismo', é que, além de não ter compreendido - deglutido será o termo exato - a derrota do 'socialismo real' com a implosão soviética e com a queda do Muro, não reelaborou as suas categorias de leitura, e permanece enclausurada no mundo categorial de Marx, Engels, Lênin, Rosa de Luxemburgo, e eventualmente Trotsky, fazendo arqueologia política.
A escola neomarxista de Frankfurt, através dos esforços de Adorno, Apel, Cohen e Marcuse, termina com o publicitado Habermas e a sua teoria do consenso (sem se aperceber que o consenso sempre foi o dos poderosos entre si), e os seus discípulos James Bohman e Leo Avritzer com a sua teoria da democracia deliberativa, que como um novo nominalismo pretende resolver as injustiças políticas, econômicas e sociais com palavras. Conversando numa espécie de assembleísmo permanente.
Se a esquerda está liquidade, o quê dizer da direita? Pode-se esperar algo dela? Da direita clássica, tanto do nacionalismo orgânico ou integral ao estilo de Charles Maurras, como do fascista de Mussolini ou do católico de Oliveira Salazar pouco permanece. Só trabalhos de investigação históricos e pequenos grupos políticos sem peso nas suas sociedades respectivas.
Resta então como direita o neoconservadorismo norte-americano e dos governos que lhe são afins. E desta direita liberal, a única que existe com peso político, só se pode esperar que as coisas piorem para a saúde e bem-estar dos povos.
Se isto é assim, denunciamos uma vez mais, de entre as centenas de vezes que o tentamos demonstrar, que a dicotomia esquerda/direita é estreita, para não dizer falsa, para fazer uma leitura adequada da realidade.
Hoje situar-se à esquerda ou à direita é não situar-se, é colocar-se num não-lugar, sobretudo para o pensador (recuso terminantemente o termo intelectual) que pretende elaborar um pensamento crítico. E o único método que hoje pode criar pensamento crítico é a dissidência. Dissidência não só com o pensamento único e politicamente correto mas também e sobretudo, com a ordem constituída, com o status quo vigente.
A dissidência é estruturalmente uma categoria do pensamento popular, tal como o consenso, que, como vimos, é uma apropriação da esquerda progressista para alcançar a democracia deliberativa que tem muito de ilustrada, e também, ainda que em outro sentido, propriedade do liberalismo como acordo do que decidem, dos poderosos (G8, Davos, FMI, Comissão Trilateral, Bilderberg, etc.).
A dissidência que se manifesta como negação tem distinto sentido no pensamento popular e no pensamento culto. Neste último, regido pela lógica da afirmação, a negação nega a existência de algo ou alguém, enquanto que no pensamento popular o que se nega não é a existência de algo ou alguém, mas antes a sua vigência. A vigência pode ser entendida como validez, como sentido. A dissidência nega o monopólio da produtividade de sentido dos grupos ou lobbies, para reservá-la ao povo no seu conjunto, para lá da partidocracia política.
A alternativa hoje é situar-se para além da esquerda e da direita. Consiste em pensar a partir de uma raiz, do nosso genius loci nas palavras de Virgílio. E não uma raiz qualquer, mas a das identidades nacionais, que formam os ecúmenos culturais ou regiões que constituem hoje o mundo. Com isto vamos para além inclusive da idéia de Estado-Nação, em vias de esgotamento, para penetrarmos na idéia política e grande espaço etnocultural.
É a partir destas grandes regiões que é lícito e eficaz posicionar o combate à globalização, ou americanização do mundo. Fazê-lo como pretende o progressismo: a partir do humanismo internacional dos direitos humanos, ou desde o ecumenismo religiosos como ingenuamente pretendem alguns cristãos, é fazê-lo a partir de mais um universalismo. Com a agravante que o seu conteúdo encerra um aspecto laudatório, mas vazio, inverossímil e não eficaz na hora do confronto político.
Todavia este confronto está, ainda assim, a acontecer, apesar do fracasso dos pensadores em entendê-lo, através do surgimento dos diferentes populismos, que não obstante os reparos que apresentam a qualquer espírito crítico, estão a modificar, como observa Robert de Herte as categorias de leitura. Assim, a oposição da esquerda clássica entre burgueses e proletários vai sendo substituída pela de povo vs. oligarquias, sobretudo financeiras, e a de esquerda e direita, pela de justiça e segurança.
Ora, do ponto de vista da esquerda progressista a crítica à globalização limita-se à não extensão dos benefícios econômicos à humanidade, mas apenas a uns poucos, pois a esquerda, pelo seu caráter internacionalista não pode denunciar o efeito destruidor sobre as culturas tradicionais e sobre as identidades dos povos. A sua denúncia transforma-se assim numa reclamação formal para que a globalização esteja unida aos direitos humanos.
Em sentido contrário, é a partir dos movimentos populares que se realiza a oposição real às oligarquias transnacionais. É a partir das tradições nacionais dos povos que melhor se demonstra a oposição à sociedade global sem raízes, a esse imperialismo desterritorializado de que falam Hardt e Negri. É com base na atitude não conformista que se rechaça a imposição de um pensamento único e de uma sociedade uniforme, e se denuncia a globalização como um mal em si mesmo.
O pensamento popular, quando o é de fato, parte das suas próprias raízes, não tem um saber livresco ou ilustrado. Pensa a partir de uma tradição, que é a única forma de pensar genuinamente, segundo Alasdair MacIntyre, dado que 'uma tradição viva é uma discussão historicamente desenvolvida e socialmente encarnada'. Pelo que se torna impossível aos povos e aos homens que os encarnam situarem-se fora da sua tradição. Quando o fazem desnaturalizam-se, deixam de ser o que são. São já outra coisa."
(Alberto Buela)
11/11/2010
10/11/2010
Psicologia Transversal
por Davide Moiso
O líder do MSI, Almirante, uma vez descreveu memoravelmente Evola como "nosso Marcuse, só que melhor." Mas "anti-Marcuse" teria sido mais adequado, posto que enquanto Evola, como Marcuse, diagnostica o homem moderno como "Unidimensional", ele não busca substituí-lo com novas ilusões: ao invés de Utopia, ele oferece Tradição.
Temas Centrais no Pensamento de Evola (adaptado de um artigo por Guido Stucco)
Na produção literária de Evola é possível identificar três temas principais. O primeiro tema é xeniteia, uma palavra que faz referência a condição de viver no exterior, ou de estar ausente da própria terra natal. Nas obras de Evola pode-se facilmente identificar um senso de alienação, ou de não pertencer ao que ele chama de "mundo moderno."
Ao longo de sua vida, Evola jamais se "encaixou". Quer durante sua fase artística, filosófica ou esotérica, ele sempre sentiu-se como um retardatário, tentando se reunir com o "resto do 'exército'". O mundo moderno que ele denunciou em sua obra-prima, Revolta Contra o Mundo moderno, teve sua vingança sobre ele: ao fim da guerra ele estava cercado por um mundo em ruínas, isolado, evitado, e detestado. Porém, ele conseguiu reter uma atitude composta e digna e continuar em sua tarefa auto-imposta de 'vigia noturno'.
O segundo tema é apoliteia, ou abstenção de participação ativa na construção da pólis humana. Apoliteia, segundo Evola, se refere essencialmente a uma atitude interior de indiferença e distância, mas isso não implica necessariamente em uma abstenção prática da política, desde que se engaje nela com uma atitude completamente distante: "Apoliteia é a distância interior, irrevogável em relação a essa sociedade e seus 'valores': ela consiste em não aceitar estar ligado à sociedade por qualquer laço moral ou espiritual." Essa atitude deve ser recomendada porquê, segundo Evola, nesses dias e nessa era não há idéias, causas e objetivos dignos de nosso comprometimento.
Finalmente, o terceiro tema é autarkeia, ou auto-suficiência. A busca por independência espiritual levou Evola para bem longe das ocupadas encruzilhadas da interação humana, de modo a explorar e expor caminhos de perfeição e ascetismo.
Esse último ponto representa a verdadeira diferença entre os egoísmos de Evola e Stirner, mesmo que eu pessoalmente prefira considerar as duas perspectivas como um continuum.
Enquanto Stirner torna o Indivíduo único, Evola acrescenta o atributo do Absoluto, criando um movimento na direção de uma ataraxia que, longe da confusa passividade pyrronistica, é - ao contrário - pró-ativa e autopoiética, como em certas perspectivas do Budismo. Nós vamos ver o quão importantes estes temas são dentro da perspectiva da Psicologia Tranversal.
Psicologia Transversal: Uma Introdução
Essa não! Outra especificação no campo! Realmente precisamos disso? Já não é o campo da psicologia suficientemente multi-facetado?
Sim, de fato, e é extremamente dividido também. As inumeráveis perspectivas na psicologia estão, na maioria dos casos, efetivamente se opondo umas às outras ao invés de trabalharem estrategicamente juntas, e, conforme se exploram suas estruturas teóricas, é aparente o porquê que isso não pode ser impedido. A maioria das perspectivas existentes assumem um marco para suas estruturas teóricas epistemológicas e este fator sozinho aparece para criar o demônio da incompatibilidade.
Porém, sem mesmo abrirmos a porta das orientações específicas de nível micro, que irão requerer uma exploração interminável de suas filosofias e crenças básicas, a um nível macro nós podemos separar o Mar Vermelho da Psicologia (o qual está principalmente contido na estrutura da filosofia determinista e mecanicista influenciada por Descartes) com o cajado da atitude de pesquisa e metodologia, definindo as duas partes principais do campo: abordagem qualitativa e quantitativa.
Vamos usar o cajado de novo, para que as águas possam voltar à normalidade, já que a Psicologia Transversal utiliza ambas, e o faz sinergicamente.
O quê é a Psicologia Transversal?
Em realidade nós a poderíamos ter chamado tanto 'Idealista' ou 'Tradicional', mas isso teria causado uma limitação, um rótulo desde o início.
A psicologia transversal é focada no Ego como um sujeito que escolhe o modo como decide perceber o mundo, e nisso o Idealismo pode ser visto como mais do que presente, como a maior parte dos temas de filosofias orientais como o Yoga, e particularmente na interpretação tântrica do Hinduísmo e Budismo. Também pode ser visto como um aspecto particular do Existencialismo, já que o conceito de Ego da Psicologia Transversal é análogo ao conceito de Ser-no-Mundo de Heidegger ou Binswanger.
Um processo de classificação e rotulação, porém, deve ser considerado como o mesmo erro, se rigidamente aplicado à Psicologia Transversal. É claro, o fato de que uma linguagem é utilizada aqui em seu formato escrito significa que esse processo não pode ser completamente evitado, mas, relembrando o conceito Foucauldiano do discurso, nós podemos dizer que a Psicologia Transversal é um discurso sobre discursos, um meta-discurso, em outras palavras. Isso, em si mesmo, é um rótulo. O processo de classificação, porém, perde sua credibilidade como realidade exterior, já que na Psicologia Transversal a única realidade reconhecida é o Ego. É o Ego que classifica, que cria aqueles discursos que jamais teriam existido de outra maneira. Em verdade, porquê o Ego pode rotular cada coisa existente de um modo que é determinado por si mesmo, a realidade objetiva não faz mais sentido, nem um rótulo.
A Psicologia Transversal remete fortemente, de fato, às filosofias de Max Stirner (particularmente nos conceitos contidos em O Ego e sua Propriedade) e de Julius Evola, com sua Teoria e Fenomenologia do Indivíduo Absoluto, sem esquecer a contribuição das filosofias Tradicionais (das quais Evola é um exemplo ilustre).
Nessas filosofias o Ego não pode ser expresso, demonstrado como é, mas também como não é, em seu aspecto dual do transcendente e do imanente, que co-existem de modo a experimentar o mundo e re-absorver a experiência em um nível onde as coisas não podem ser comunicadas. O Indivíduo se torna absoluto porquê ele é dono de si mesmo: todas as percepções são suas possibilidades de experimentar o mundo, e a escolha em relação a essas experiências e sua disponibilidade é feita através de um ato de vontade do Ego, que "molda" a realidade exterior que portanto não existe objetivamente, se não na forma do "percebido".
Esses dois aspectos do único e solipsístico Ego são espelhados pela estrutura da linguagem pensada por Noam Chomsky, e bastante explorada por Gregory Bateson, Paul Watzlawick, Richard Bandler e John Grinder, entre outros. Cada linguagem é a expressão superficial (ou estrutura) de uma estrutura mais profunda, e qualquer variação em cada uma dessas estruturas resulta em variações mútuas e, consequentemente, no modo como percebemos o mundo e interagimos com ele.
Não é suficiente operar uma análise da linguagem e estrategicamente fazer mudanças, como alguma forma de psicologia faz, já que o indivíduo apenas se tornará capaz de aumentar sua consciência a respeito de mudanças técnicas que ele/ela possa operar (o quê é, de qualquer maneira, um excelente ponto de partida).
O próximo e mais decisivo passo, porém, será alcançar a consciência do ato de Vontade que decide a operação: é a "propriedade" do Ego. Em outras palavras, aqui nós estamos dizendo que, se uma elevação de poder realmente existe, ela não é dada, como promove as filosofias esquerdistas e marxistas oficiais; nem alcançada, como afirmado nas psicologias clínica ou medicinalmente moldadas, já que ela já está ali. O ato da elevação de poder é concebido, em outras palavras, como sendo muito similar, em seu desenvolvimento, ao conceito oriental de iluminação.
É o reconhecimento do Ego através de si mesmo, distanciado de todos os fatores ambientais que tem limitado a percepção do 'Eu' a umas poucas soluções possíveis, os mesmos fatores que criam o senso de ansiedade bem explorado pelo Existencialismo (o "condenado a ser livre" sartreano é uma boa expressão dessa liberdade limitada).
Nesse cenário, é bem compreensível o porquê nossa psicologia deve ser "transversal". O indivíduo é convocado a explorar toda a amplitude de escolhar sob uma meta-perspectiva que convidará a pessoa a observar como todas as perspectivas são a mesma, sem conter qualquer significado dentro de si mesmas além da significância que o indivíduo quer pôr nelas. Consequentemente, o indivíduo pode se tornar cada uma das experiências que ele/ela está experimentando se ele/ela quiser, e esse transversalismo operacional através da existência não pode deixar de ser absoluto, próprio, assim como o Ego é. É um transversalismo que causa um distanciamento da realidade externa, apenas para dominá-la de uma maneira melhor através da consciência do Ego.
O estado real de consciência, como afirma a psicologia quântica, torna-se um estado em que nós não estamos mais sob a influência de qualquer ilusão. Porém, onde a piscologia quântica colocar o nada como o todo, nós colocamos o Ego em primeiro lugar, como o agente consciente, perceptico e criativo desse todo.
O processo de transformar-se em si mesmo passa a ser um ato de Vontade do Ego.
O Indivíduo Absoluto
Assim dito, o Indivíduo Absoluto não existe. Nesse aparente paradoxo está, em resumo, toda a filosofia por trás da Psicologia Transversal. O quê isso significa?
Se nós considerarmos a existência como um status, nós devemos supor a criação do statos, que, por sua vez, garanta a existência do Ego, nossa existência. Mas, de modo a fazer isso, nós temos que explicar um processo (como o status foi criado) que inclui um ponto de partida (quando aquilo aconteceu), um agente (quem ou o quê o criou) e, se tudo isso não for suficientemente difícil, nós podemos acrescentar uma causa ainda mais inexplicável (por quê foi criado).
Quase o mesmo ocorre se nós vermos a existência como um ato que está além de nós, já que deveríamos entender e explicar de onde esse ato emanou e, no caso, de quem.
Isso é matéria para todo um conjunto de fenômenos que eu chamarei de religião, que também inclui arquiteturas pragmáticas do pensamento com Marxismo e psiquiatria clínica. A existência não pode nem ao menos ser considerada como meramente "ser", ou, como declara a filosofia existencial, um Ser-no-Mundo, porquê nós cairemos nos mesmos erros: nós temos que supor e garantir realidade a um fator externo (nesse caso o mundo, que é uma condição necessária para ser, no existencialismo) de modo a afirmar nossa própria realidade como indivíduo.
Para movimentos do pensamento baseados na teoria social, mesmo esse último conceito inexiste, já que a individualidade é vista, não sem razão, como sendo uma construção-criação de uma cultura particular (e isso é particularmente verdade para a Ocidental).
De fato é verdade que em certas culturas, o indivíduo não é concebido como uma unidade singular, mas existe apenas como uma parte de um grupo social, a tribo, a igreja, ou a sociedade, e não é concebido fora dessas entidades. Esse aspecto peculiar é refletido na linguagem de certas culturas. O quê é, então, o Indivíduo Absoluto? Como Evola disse: "O Indivíduo é nada: ele pode tudo".
Nesse motto está encapsulado o conceito de um contínuo tornar-se, um status dinâmico que decisivamente se opõe à natureza estática de um simples ser, mesmo de um Ser-no-Mundo.
O tornar-se do Indivíduo Absoluto é contínuo, amoral, apragmático, e determina a não-determinabilidade do agente: o Indivíduo, que é Absoluto no sentido de ele pode escolher se tornar tudo que ele quiser além dele.
Então eu sou em princípio nada (= não determinado), e tendo desse modo garantido minha não-determinabilidade eu me livro da prisão de uma categoria de um único papel (ou de vários, mas limitados papéis, que eu desempenho dentro de uma dade sociedade e tempo) de modo a tornar-me, contínuamente.
Essa aparente transformação do meu Eu não mudará, não obstante, o fato de que eu sou (de modo a tornar-me). Nada a não ser eu mesmo está determinado, e eu, consequentemente, sou indeterminado também para o-quê-não-sou-eu que existe quando eu quero me tornar isso através de meu ato de Vontade. A existência, então, pode ser vista como um ato, mas é um ato de Vontade que é decidido por mim e por ninguém mais. Mas qual é o propósito desse ato de Vontade?
Como nós veremos, é um modo de ganhar experiência daquilo-quê-não-sou-eu a um nível prosaico e imanente. É o quê eu estou fazendo com essa experiência que dá forma ao meu Eu de um certo jeito, quando eu re-absorvo a experiência imanente em um nível diferente, que não cai sob os sentidos: o nível transcendente.
A consciência desse movimento quase-circular (já que o ponto de retorno não é exatamente o mesmo que o de partida, como é dito na cibernética) joga ainda mais luz sobre a posição ilusória de quem atribui para si mesmo algo além de si mesmo.
Quando nós afirmamos: "Eu sou..." [alguma coisa; um substantivo ou um adjetivo] nós instantaneamente paramos a dinamicidade do processo, e começamos uma cadeia de crenças de modo a sustentar a vericidade de nossa afirmação: nós criamos um rótulo, nós começamos a acreditar nele e agimos segundo ele.
Quanto mais nós nos comportamos de um modo que parece congruente com nosso sistema de crença, mais nós somos aprisionados naquela categoria. Se um músculo não é usado por um longo tempo ele começa a atrofiar e recuperar sua força e elasticidade pode ser extremamente doloroso. Assim é com a chamada "personalidade": os rótulos que escolhemos para criar e utilizar tornam-se um hábito, nenhum processo dinâmico real está em curso (a repetição diária dos mesmos padrões de modo a reproduzir a mesma personalidade é vista como um hábito, portanto, não-dinâmica) e nós podemos passar a estar completamente inconscientes daquilo-quê-não-sou-eu, ao ponto em que, quando ele (ou parte dele) aparece diante de nós, há uma reação de recusa e negação. É o quê a psiquiatria chama de "anormal".
Conceito de Inconsciente
Milton Erickson ligou o inconsciente a um contâiner de material que está desorganizado a maior parte do tempo. As associações que nós construímos estão construindo a realidade como nós queremos ou como estamos acostumados.
Isso significa que nós todos vivemos em um estado dissociativo a maior parte do tempo, e o estado associativo é a exceção e não a norma. Nessa afirmação aparentemente simples, porém poderosa, se encontra a observação de que nós não podemos considerar qualquer assim chamada desordem como errada ou patológica per se, dado que ela não passa de uma associação particular realizada por um indivíduo particular.
A ação, por sinal, é similar ao movimento quase-circular do conhecimento descrito por Evola. O material que nós incorporamos da realidade externa, imanente, constitui os vários elementos ainda não associados: a associação em si é um processo de transcendência, e não pode, portanto, ser expresso em palavras.
Isso também explica a luta da Psicologia para explicar como ocorrem os processos mentais, mas, apesar de todas as tentativas, obviamente a única coisa clara é o estudo das reações neurobiológicas que ocorrem conforme um processo cognitivo tem lugar: todo o resto é pensamento especulativo.
Porém, os processos mentais podem ser vistos aqui como consequências das associações, das ações desejadas pelo indivíduo de modo a dar sentido à experiência do mundo (que é criado, como nós vimos em "Egoísta e Existência", por si mesmo), e não, ultimamente, como as causas das associações. É melhor dizer que eles podem ser experimentados como causas apenas a nível imanente, quando o indivíduo enfraquecido (que é a pessoa que não está consciente da dualidade da experiência) confia em fatores externos ao invés de focar em si mesmo; e a perspectiva biológica oferece poucos espaços para a natureza complexa do indivíduo para além de sua fisiologia. E essa fisiologia é um fator externo, já que é generalizada e estruturada como verdade. E isso ocorre a um nível imanente ("inautêntico", poderíamos dizer).
Propósito da Psicologia Transversal
Resumindo, a Psicologia Transversal é, em termos psicológicos pseudo-quantitativos, a correlação entre a posição imanente e transcendental, que no Indivíduo Absoluto possui coeficiente 1 (correlação perfeita) e portanto chega a 0 (o nada com potencialidade ad infinitum, mas explorada ad libitum através do ato de Vontade do indivíduo).
O propósito da Psicologia Transversal é operar uma desconstrução do indivíduo de modo a reconstruir sua individualidade como um Nada.
O ato de desconstrução significa que o indivíduo se tornará consciente dos modelos e do filtro que ele utiliza para preencher o papel ou papéis que ele desempenha a um nível imanente e que são os limites impostos por seus sentidos físicos, pela sociedade e por sua própria personalidade construída.
Eles representam limites apenas se eles não auxiliarem o indivíduo a se mover livremente para todas as possíveis opções que ele pode escolher em vida.
Quando aqueles papéis são percebidos como fixos, eles controlam o indivíduo, conforme eles se tornam o quê Stirner chama de "idéias fixas". Por exemplo, se eu acredito que eu sou um psicólogo, um marido e um católico, comumente eu agirei no mundo como se estes papéis fossem verdadeiros para mim, e eu não explorarei muita coisa fora daquelas fronteiras de experiência.
Se eu realmente controlo aqueles aspectos, eu posso "deixá-los ir" e escolher tornar-me outra coisa, como eu quiser.
Eu sou nada; eu posso tudo.
Porém, seguindo o pensamento de Stirner, dominar a tudo significa que eu devo respeitar e não arruinar, já que é meu e posso usar para meu próprio benefício. Essa é a razão pela qual o meio-ambiente, os animais e a natureza devem ser respeitados, já que sua destruição priva o indivíduo de seu domínio.
Em outras palavras, uma desconstrução sem a possibilidade de reconstrução previne a utilização. Individualidade é um contínuo tornar-se o-quê-não-sou-eu através de um ato de Vontade. Se pensarmos nestes termos, destruir o quê nós podemos decidir nos tornar (de modo a experimentar) significa simplesmente destruir a nós mesmos.
Implicações Políticas
O Indivíduo Absoluto escapa de um processo de enquadramento em categorias rígidas. O Individuo é, (diz Stirner) único. Falar sobre classes, papéis, categorias, não faz nenhum sentido se nós objetificarmos esses conceitos.
A implicação política mais evidente disso é, então, que o Indivíduo Absoluto é não-identificável, e portanto potencialmente extremamente perigoso dentro de uma perspectiva determinista e de um sistema democrático. O Indivíduo é emancipado, e essa noção de emancipação é construída a partir da concepção dual de liberdade de Fromm (1965); liberdade das fontes psicológicas e sociais de opressão (exploração classista, dominação de gênero, e discriminação étnica, etc, como fontes de opressão social e problemas psicológicos como medos, fobias, etc...no que concerne opressão psicológica) e liberdade para desempenhar nossas tarefas na vida.
Mas o Indivíduo Absoluto faz muito mais do quê isso: ele torna a si mesmo emancipado e livre da categoria do indivíduo também, e do conceito de emancipação como algo a ser alcançado. Ele é emancipado se ele o decide ser.
O indivíduo pode ser um trabalhador de uma fábrica, mas ele não pertence ao proletariado; ele é um homem (ou mulher) mas não se vê como um ser humano; ele pode ser um católico, um muçulmano, um judeu, um budista, mas apenas pelo tempo que ele decidir desempenhar estes papéis. O Indivíduo Absoluto simplesmente é, superando todas as categorias.
Por essas razões o Indivíduo se decide a (e pode) sobreviver em um mundo de ruínas criado pelo materialismo, liberalismo, racionalismo e cosmopolitanismo: ele sabe, de fato, que estas ruínas são as raízes de aço das flores da fúria Berserkr, do ethos Espartano, do espírito marcial das Legiões Romanas, adormecidos sob o gigante com pés de barro da modernidade.
Ele sabe que ele pode trazer equilíbrio a um mundo que tornou-se desequilibrado com a inversão da Natureza. Ele sabe que aquelas flores florescerão de novo.
Tradução por Raphael Machado
O líder do MSI, Almirante, uma vez descreveu memoravelmente Evola como "nosso Marcuse, só que melhor." Mas "anti-Marcuse" teria sido mais adequado, posto que enquanto Evola, como Marcuse, diagnostica o homem moderno como "Unidimensional", ele não busca substituí-lo com novas ilusões: ao invés de Utopia, ele oferece Tradição.
Temas Centrais no Pensamento de Evola (adaptado de um artigo por Guido Stucco)
Na produção literária de Evola é possível identificar três temas principais. O primeiro tema é xeniteia, uma palavra que faz referência a condição de viver no exterior, ou de estar ausente da própria terra natal. Nas obras de Evola pode-se facilmente identificar um senso de alienação, ou de não pertencer ao que ele chama de "mundo moderno."
Ao longo de sua vida, Evola jamais se "encaixou". Quer durante sua fase artística, filosófica ou esotérica, ele sempre sentiu-se como um retardatário, tentando se reunir com o "resto do 'exército'". O mundo moderno que ele denunciou em sua obra-prima, Revolta Contra o Mundo moderno, teve sua vingança sobre ele: ao fim da guerra ele estava cercado por um mundo em ruínas, isolado, evitado, e detestado. Porém, ele conseguiu reter uma atitude composta e digna e continuar em sua tarefa auto-imposta de 'vigia noturno'.
O segundo tema é apoliteia, ou abstenção de participação ativa na construção da pólis humana. Apoliteia, segundo Evola, se refere essencialmente a uma atitude interior de indiferença e distância, mas isso não implica necessariamente em uma abstenção prática da política, desde que se engaje nela com uma atitude completamente distante: "Apoliteia é a distância interior, irrevogável em relação a essa sociedade e seus 'valores': ela consiste em não aceitar estar ligado à sociedade por qualquer laço moral ou espiritual." Essa atitude deve ser recomendada porquê, segundo Evola, nesses dias e nessa era não há idéias, causas e objetivos dignos de nosso comprometimento.
Finalmente, o terceiro tema é autarkeia, ou auto-suficiência. A busca por independência espiritual levou Evola para bem longe das ocupadas encruzilhadas da interação humana, de modo a explorar e expor caminhos de perfeição e ascetismo.
Esse último ponto representa a verdadeira diferença entre os egoísmos de Evola e Stirner, mesmo que eu pessoalmente prefira considerar as duas perspectivas como um continuum.
Enquanto Stirner torna o Indivíduo único, Evola acrescenta o atributo do Absoluto, criando um movimento na direção de uma ataraxia que, longe da confusa passividade pyrronistica, é - ao contrário - pró-ativa e autopoiética, como em certas perspectivas do Budismo. Nós vamos ver o quão importantes estes temas são dentro da perspectiva da Psicologia Tranversal.
Psicologia Transversal: Uma Introdução
Essa não! Outra especificação no campo! Realmente precisamos disso? Já não é o campo da psicologia suficientemente multi-facetado?
Sim, de fato, e é extremamente dividido também. As inumeráveis perspectivas na psicologia estão, na maioria dos casos, efetivamente se opondo umas às outras ao invés de trabalharem estrategicamente juntas, e, conforme se exploram suas estruturas teóricas, é aparente o porquê que isso não pode ser impedido. A maioria das perspectivas existentes assumem um marco para suas estruturas teóricas epistemológicas e este fator sozinho aparece para criar o demônio da incompatibilidade.
Porém, sem mesmo abrirmos a porta das orientações específicas de nível micro, que irão requerer uma exploração interminável de suas filosofias e crenças básicas, a um nível macro nós podemos separar o Mar Vermelho da Psicologia (o qual está principalmente contido na estrutura da filosofia determinista e mecanicista influenciada por Descartes) com o cajado da atitude de pesquisa e metodologia, definindo as duas partes principais do campo: abordagem qualitativa e quantitativa.
Vamos usar o cajado de novo, para que as águas possam voltar à normalidade, já que a Psicologia Transversal utiliza ambas, e o faz sinergicamente.
O quê é a Psicologia Transversal?
Em realidade nós a poderíamos ter chamado tanto 'Idealista' ou 'Tradicional', mas isso teria causado uma limitação, um rótulo desde o início.
A psicologia transversal é focada no Ego como um sujeito que escolhe o modo como decide perceber o mundo, e nisso o Idealismo pode ser visto como mais do que presente, como a maior parte dos temas de filosofias orientais como o Yoga, e particularmente na interpretação tântrica do Hinduísmo e Budismo. Também pode ser visto como um aspecto particular do Existencialismo, já que o conceito de Ego da Psicologia Transversal é análogo ao conceito de Ser-no-Mundo de Heidegger ou Binswanger.
Um processo de classificação e rotulação, porém, deve ser considerado como o mesmo erro, se rigidamente aplicado à Psicologia Transversal. É claro, o fato de que uma linguagem é utilizada aqui em seu formato escrito significa que esse processo não pode ser completamente evitado, mas, relembrando o conceito Foucauldiano do discurso, nós podemos dizer que a Psicologia Transversal é um discurso sobre discursos, um meta-discurso, em outras palavras. Isso, em si mesmo, é um rótulo. O processo de classificação, porém, perde sua credibilidade como realidade exterior, já que na Psicologia Transversal a única realidade reconhecida é o Ego. É o Ego que classifica, que cria aqueles discursos que jamais teriam existido de outra maneira. Em verdade, porquê o Ego pode rotular cada coisa existente de um modo que é determinado por si mesmo, a realidade objetiva não faz mais sentido, nem um rótulo.
A Psicologia Transversal remete fortemente, de fato, às filosofias de Max Stirner (particularmente nos conceitos contidos em O Ego e sua Propriedade) e de Julius Evola, com sua Teoria e Fenomenologia do Indivíduo Absoluto, sem esquecer a contribuição das filosofias Tradicionais (das quais Evola é um exemplo ilustre).
Nessas filosofias o Ego não pode ser expresso, demonstrado como é, mas também como não é, em seu aspecto dual do transcendente e do imanente, que co-existem de modo a experimentar o mundo e re-absorver a experiência em um nível onde as coisas não podem ser comunicadas. O Indivíduo se torna absoluto porquê ele é dono de si mesmo: todas as percepções são suas possibilidades de experimentar o mundo, e a escolha em relação a essas experiências e sua disponibilidade é feita através de um ato de vontade do Ego, que "molda" a realidade exterior que portanto não existe objetivamente, se não na forma do "percebido".
Esses dois aspectos do único e solipsístico Ego são espelhados pela estrutura da linguagem pensada por Noam Chomsky, e bastante explorada por Gregory Bateson, Paul Watzlawick, Richard Bandler e John Grinder, entre outros. Cada linguagem é a expressão superficial (ou estrutura) de uma estrutura mais profunda, e qualquer variação em cada uma dessas estruturas resulta em variações mútuas e, consequentemente, no modo como percebemos o mundo e interagimos com ele.
Não é suficiente operar uma análise da linguagem e estrategicamente fazer mudanças, como alguma forma de psicologia faz, já que o indivíduo apenas se tornará capaz de aumentar sua consciência a respeito de mudanças técnicas que ele/ela possa operar (o quê é, de qualquer maneira, um excelente ponto de partida).
O próximo e mais decisivo passo, porém, será alcançar a consciência do ato de Vontade que decide a operação: é a "propriedade" do Ego. Em outras palavras, aqui nós estamos dizendo que, se uma elevação de poder realmente existe, ela não é dada, como promove as filosofias esquerdistas e marxistas oficiais; nem alcançada, como afirmado nas psicologias clínica ou medicinalmente moldadas, já que ela já está ali. O ato da elevação de poder é concebido, em outras palavras, como sendo muito similar, em seu desenvolvimento, ao conceito oriental de iluminação.
É o reconhecimento do Ego através de si mesmo, distanciado de todos os fatores ambientais que tem limitado a percepção do 'Eu' a umas poucas soluções possíveis, os mesmos fatores que criam o senso de ansiedade bem explorado pelo Existencialismo (o "condenado a ser livre" sartreano é uma boa expressão dessa liberdade limitada).
Nesse cenário, é bem compreensível o porquê nossa psicologia deve ser "transversal". O indivíduo é convocado a explorar toda a amplitude de escolhar sob uma meta-perspectiva que convidará a pessoa a observar como todas as perspectivas são a mesma, sem conter qualquer significado dentro de si mesmas além da significância que o indivíduo quer pôr nelas. Consequentemente, o indivíduo pode se tornar cada uma das experiências que ele/ela está experimentando se ele/ela quiser, e esse transversalismo operacional através da existência não pode deixar de ser absoluto, próprio, assim como o Ego é. É um transversalismo que causa um distanciamento da realidade externa, apenas para dominá-la de uma maneira melhor através da consciência do Ego.
O estado real de consciência, como afirma a psicologia quântica, torna-se um estado em que nós não estamos mais sob a influência de qualquer ilusão. Porém, onde a piscologia quântica colocar o nada como o todo, nós colocamos o Ego em primeiro lugar, como o agente consciente, perceptico e criativo desse todo.
O processo de transformar-se em si mesmo passa a ser um ato de Vontade do Ego.
O Indivíduo Absoluto
Assim dito, o Indivíduo Absoluto não existe. Nesse aparente paradoxo está, em resumo, toda a filosofia por trás da Psicologia Transversal. O quê isso significa?
Se nós considerarmos a existência como um status, nós devemos supor a criação do statos, que, por sua vez, garanta a existência do Ego, nossa existência. Mas, de modo a fazer isso, nós temos que explicar um processo (como o status foi criado) que inclui um ponto de partida (quando aquilo aconteceu), um agente (quem ou o quê o criou) e, se tudo isso não for suficientemente difícil, nós podemos acrescentar uma causa ainda mais inexplicável (por quê foi criado).
Quase o mesmo ocorre se nós vermos a existência como um ato que está além de nós, já que deveríamos entender e explicar de onde esse ato emanou e, no caso, de quem.
Isso é matéria para todo um conjunto de fenômenos que eu chamarei de religião, que também inclui arquiteturas pragmáticas do pensamento com Marxismo e psiquiatria clínica. A existência não pode nem ao menos ser considerada como meramente "ser", ou, como declara a filosofia existencial, um Ser-no-Mundo, porquê nós cairemos nos mesmos erros: nós temos que supor e garantir realidade a um fator externo (nesse caso o mundo, que é uma condição necessária para ser, no existencialismo) de modo a afirmar nossa própria realidade como indivíduo.
Para movimentos do pensamento baseados na teoria social, mesmo esse último conceito inexiste, já que a individualidade é vista, não sem razão, como sendo uma construção-criação de uma cultura particular (e isso é particularmente verdade para a Ocidental).
De fato é verdade que em certas culturas, o indivíduo não é concebido como uma unidade singular, mas existe apenas como uma parte de um grupo social, a tribo, a igreja, ou a sociedade, e não é concebido fora dessas entidades. Esse aspecto peculiar é refletido na linguagem de certas culturas. O quê é, então, o Indivíduo Absoluto? Como Evola disse: "O Indivíduo é nada: ele pode tudo".
Nesse motto está encapsulado o conceito de um contínuo tornar-se, um status dinâmico que decisivamente se opõe à natureza estática de um simples ser, mesmo de um Ser-no-Mundo.
O tornar-se do Indivíduo Absoluto é contínuo, amoral, apragmático, e determina a não-determinabilidade do agente: o Indivíduo, que é Absoluto no sentido de ele pode escolher se tornar tudo que ele quiser além dele.
Então eu sou em princípio nada (= não determinado), e tendo desse modo garantido minha não-determinabilidade eu me livro da prisão de uma categoria de um único papel (ou de vários, mas limitados papéis, que eu desempenho dentro de uma dade sociedade e tempo) de modo a tornar-me, contínuamente.
Essa aparente transformação do meu Eu não mudará, não obstante, o fato de que eu sou (de modo a tornar-me). Nada a não ser eu mesmo está determinado, e eu, consequentemente, sou indeterminado também para o-quê-não-sou-eu que existe quando eu quero me tornar isso através de meu ato de Vontade. A existência, então, pode ser vista como um ato, mas é um ato de Vontade que é decidido por mim e por ninguém mais. Mas qual é o propósito desse ato de Vontade?
Como nós veremos, é um modo de ganhar experiência daquilo-quê-não-sou-eu a um nível prosaico e imanente. É o quê eu estou fazendo com essa experiência que dá forma ao meu Eu de um certo jeito, quando eu re-absorvo a experiência imanente em um nível diferente, que não cai sob os sentidos: o nível transcendente.
A consciência desse movimento quase-circular (já que o ponto de retorno não é exatamente o mesmo que o de partida, como é dito na cibernética) joga ainda mais luz sobre a posição ilusória de quem atribui para si mesmo algo além de si mesmo.
Quando nós afirmamos: "Eu sou..." [alguma coisa; um substantivo ou um adjetivo] nós instantaneamente paramos a dinamicidade do processo, e começamos uma cadeia de crenças de modo a sustentar a vericidade de nossa afirmação: nós criamos um rótulo, nós começamos a acreditar nele e agimos segundo ele.
Quanto mais nós nos comportamos de um modo que parece congruente com nosso sistema de crença, mais nós somos aprisionados naquela categoria. Se um músculo não é usado por um longo tempo ele começa a atrofiar e recuperar sua força e elasticidade pode ser extremamente doloroso. Assim é com a chamada "personalidade": os rótulos que escolhemos para criar e utilizar tornam-se um hábito, nenhum processo dinâmico real está em curso (a repetição diária dos mesmos padrões de modo a reproduzir a mesma personalidade é vista como um hábito, portanto, não-dinâmica) e nós podemos passar a estar completamente inconscientes daquilo-quê-não-sou-eu, ao ponto em que, quando ele (ou parte dele) aparece diante de nós, há uma reação de recusa e negação. É o quê a psiquiatria chama de "anormal".
Conceito de Inconsciente
Milton Erickson ligou o inconsciente a um contâiner de material que está desorganizado a maior parte do tempo. As associações que nós construímos estão construindo a realidade como nós queremos ou como estamos acostumados.
Isso significa que nós todos vivemos em um estado dissociativo a maior parte do tempo, e o estado associativo é a exceção e não a norma. Nessa afirmação aparentemente simples, porém poderosa, se encontra a observação de que nós não podemos considerar qualquer assim chamada desordem como errada ou patológica per se, dado que ela não passa de uma associação particular realizada por um indivíduo particular.
A ação, por sinal, é similar ao movimento quase-circular do conhecimento descrito por Evola. O material que nós incorporamos da realidade externa, imanente, constitui os vários elementos ainda não associados: a associação em si é um processo de transcendência, e não pode, portanto, ser expresso em palavras.
Isso também explica a luta da Psicologia para explicar como ocorrem os processos mentais, mas, apesar de todas as tentativas, obviamente a única coisa clara é o estudo das reações neurobiológicas que ocorrem conforme um processo cognitivo tem lugar: todo o resto é pensamento especulativo.
Porém, os processos mentais podem ser vistos aqui como consequências das associações, das ações desejadas pelo indivíduo de modo a dar sentido à experiência do mundo (que é criado, como nós vimos em "Egoísta e Existência", por si mesmo), e não, ultimamente, como as causas das associações. É melhor dizer que eles podem ser experimentados como causas apenas a nível imanente, quando o indivíduo enfraquecido (que é a pessoa que não está consciente da dualidade da experiência) confia em fatores externos ao invés de focar em si mesmo; e a perspectiva biológica oferece poucos espaços para a natureza complexa do indivíduo para além de sua fisiologia. E essa fisiologia é um fator externo, já que é generalizada e estruturada como verdade. E isso ocorre a um nível imanente ("inautêntico", poderíamos dizer).
Propósito da Psicologia Transversal
Resumindo, a Psicologia Transversal é, em termos psicológicos pseudo-quantitativos, a correlação entre a posição imanente e transcendental, que no Indivíduo Absoluto possui coeficiente 1 (correlação perfeita) e portanto chega a 0 (o nada com potencialidade ad infinitum, mas explorada ad libitum através do ato de Vontade do indivíduo).
O propósito da Psicologia Transversal é operar uma desconstrução do indivíduo de modo a reconstruir sua individualidade como um Nada.
O ato de desconstrução significa que o indivíduo se tornará consciente dos modelos e do filtro que ele utiliza para preencher o papel ou papéis que ele desempenha a um nível imanente e que são os limites impostos por seus sentidos físicos, pela sociedade e por sua própria personalidade construída.
Eles representam limites apenas se eles não auxiliarem o indivíduo a se mover livremente para todas as possíveis opções que ele pode escolher em vida.
Quando aqueles papéis são percebidos como fixos, eles controlam o indivíduo, conforme eles se tornam o quê Stirner chama de "idéias fixas". Por exemplo, se eu acredito que eu sou um psicólogo, um marido e um católico, comumente eu agirei no mundo como se estes papéis fossem verdadeiros para mim, e eu não explorarei muita coisa fora daquelas fronteiras de experiência.
Se eu realmente controlo aqueles aspectos, eu posso "deixá-los ir" e escolher tornar-me outra coisa, como eu quiser.
Eu sou nada; eu posso tudo.
Porém, seguindo o pensamento de Stirner, dominar a tudo significa que eu devo respeitar e não arruinar, já que é meu e posso usar para meu próprio benefício. Essa é a razão pela qual o meio-ambiente, os animais e a natureza devem ser respeitados, já que sua destruição priva o indivíduo de seu domínio.
Em outras palavras, uma desconstrução sem a possibilidade de reconstrução previne a utilização. Individualidade é um contínuo tornar-se o-quê-não-sou-eu através de um ato de Vontade. Se pensarmos nestes termos, destruir o quê nós podemos decidir nos tornar (de modo a experimentar) significa simplesmente destruir a nós mesmos.
Implicações Políticas
O Indivíduo Absoluto escapa de um processo de enquadramento em categorias rígidas. O Individuo é, (diz Stirner) único. Falar sobre classes, papéis, categorias, não faz nenhum sentido se nós objetificarmos esses conceitos.
A implicação política mais evidente disso é, então, que o Indivíduo Absoluto é não-identificável, e portanto potencialmente extremamente perigoso dentro de uma perspectiva determinista e de um sistema democrático. O Indivíduo é emancipado, e essa noção de emancipação é construída a partir da concepção dual de liberdade de Fromm (1965); liberdade das fontes psicológicas e sociais de opressão (exploração classista, dominação de gênero, e discriminação étnica, etc, como fontes de opressão social e problemas psicológicos como medos, fobias, etc...no que concerne opressão psicológica) e liberdade para desempenhar nossas tarefas na vida.
Mas o Indivíduo Absoluto faz muito mais do quê isso: ele torna a si mesmo emancipado e livre da categoria do indivíduo também, e do conceito de emancipação como algo a ser alcançado. Ele é emancipado se ele o decide ser.
O indivíduo pode ser um trabalhador de uma fábrica, mas ele não pertence ao proletariado; ele é um homem (ou mulher) mas não se vê como um ser humano; ele pode ser um católico, um muçulmano, um judeu, um budista, mas apenas pelo tempo que ele decidir desempenhar estes papéis. O Indivíduo Absoluto simplesmente é, superando todas as categorias.
Por essas razões o Indivíduo se decide a (e pode) sobreviver em um mundo de ruínas criado pelo materialismo, liberalismo, racionalismo e cosmopolitanismo: ele sabe, de fato, que estas ruínas são as raízes de aço das flores da fúria Berserkr, do ethos Espartano, do espírito marcial das Legiões Romanas, adormecidos sob o gigante com pés de barro da modernidade.
Ele sabe que ele pode trazer equilíbrio a um mundo que tornou-se desequilibrado com a inversão da Natureza. Ele sabe que aquelas flores florescerão de novo.
Tradução por Raphael Machado
08/11/2010
07/11/2010
Aleksandr Dugin - "Financismo", o Estágio Supremo de Desenvolvimento do Capitalismo
por Aleksandr Dugin
1. Em qual sistema de coordenadas deve-se examinar o fenômeno do "financismo"
Representa o capitalismo financeiro apenas uma variante aleatória da essência comum do desenvolvimento do sistema capitalista? Ou será, ao invés, a encarnação definitiva de toda sua lógica, seu triunfo?
A resposta para essa questão não pode ser encontrada dentro dos clássicos da teoria econômica, seu horizonte sendo limitado à fase industrial do desenvolvimento - cuja tendência geral e completa significância econômica eles (e principalmente os marxistas) investigaram completamente e corretamente. A sociedade pós-industrial ainda é, em muitas maneiras, uma realidade obscura.
Em sua análise não há clássicos estabelecidos, ainda que muitos autores tenham lançado um olhar profundo sobre esse fenômeno. A tarefa de compreender o "financismo" é nossa, quer gostemos ou não.
Até mesmo para darmos os primeiros passos na direção de um panorama consistente desse tema, nós temos que considerar toda a história do paradigma econômico, e individuar ali o lugar do "financismo" - não apenas a partir do ponto de vista da cronologia quantitativa, mas a partir do ponto de vista da relevância qualitativa desse fenômeno no desenvolvimento geral de modelos econômicos.
E ainda, mesmo aqui, no ponto-zero da formulação do problema, nós nos deparamos com um elemento de incerteza solapando a estrutura da análise. Haverá mesmo uma e apenas uma única história da economia? Tal história realmente existiu, mas em duas (ou três?) versões alternativas. Existe uma história reconhecida da economia a partir da posição liberal (capitalismo como a expressão do paradigma mais moderno e progressivo na economia), bem como a partir da posição marxista (socialismo como a superação do capitalismo como a expressão do paradigma mais moderno e progressivo na economia). E mais, existiu uma terceira orientação (ou seja, "heterodoxia" econômica), que se recusava absolutamente a avaliar o paradigma econômico segundo esta fórmula simplória (progressivo-não progressivo), como os economistas clássicos costumavam fazer. Mas esta escola ecomômica de "Terceira Via" (sobre a qual eu relatei na "Coleção Econômico-Filosófica) permaneceu marginal, a despeito da presença de economistas e filósofos de primeira categoria em suas fileiras.
2. Uma avaliação problemática do financismo na perspectiva marxista
Os eventos da última década demonstraram um sucesso claro da tendência histórica da economia liberal. E precisamente no contexto do pensamento econômico e filosófico liberal nasceram as primeiras teorizações a respeito da sociedade pós-industrial. O pensamento socialistas permaneceu, ao invés, completamente dentro das fronteiras do paradigma industrial, e a queda dramática do sistema soviético introduz acentos inconfundíveis na história dessa disputa acadêmica.
O sistema liberal foi capaz de:
- evitar as revoluções socialistas;
- dissolver o proletariado:
- impedindo-o de se consolidar em um partido revolucionário atuando em escala mundial;
- vencer a guerra ideológica contra o campo socialista.
A partir de todos esses aspectos, o modelo liberal bem-sucedidamente derrotou a ameaça marxista.
À parte da posição de vantagem tática, nós somos confrontados aqui com uma conclusão conceitual muito relevante. Eu posso compreender que pessoas que partilham de um certo conjunto de Weltanschauungen (*Visões-de-Mundo) dificilmente aceitarão essa conclusão - e mesmo o pensamento de tal generalização poderá ser perturbador para alguns. Não obstante, um grande número de fatores está nos levando a pensar que o paradigma liberal - isto é, especificamente, o capitalismo consistente - é exatamente o paradigma econômico que encarna em si mesmo o verdadeiro espírito do mundo moderno. Capitalismo liberal, mais do que o socialismo (e do que modelos econômicos de "Terceira Via"), provou ser o regime econômico mais atualizado.
Sendo este o este o estado das coisas, seria errado decifrar a posteriori os sistemas socialistas como tendo sido demonstrados menos adequados, ao mesmo tempo se apegando ao paradigma econômico moderno. Tudo é muito mais complexo: a orientação anti-capitalista e a premissa filosófica, subjacendo nas raízes do modelo econômico capitalista, aparecem como uma espécie de tendência anti-modernista em relação à economia - mas não apenas em relação a ela. Não é um beco-sem-saída, mas a última luta (ainda que velada e externamente estilizada segundo a aparência do "modernismo") do paradigma anti-moderno de uma Weltanschauung que encontra expressão na teoria e praxis econômica (ver A.Dugin, "O Paradigma do Fim", Elementy n.9).
Hodiernamente a posição socialista não vale um único centavo: não apenas as previsões de Marx a respeito da transição do Ocidente industrializado para o socialismo provaram-se verdadeiras apenas no modo de produção agrário-asiático oriental; mesmo o último argumento marxista foi batido - o fato da existência do marxismo (do marxismo realizado, vitorioso - ainda que de um modo voluntarista, blanquista-leninista) em muitas áreas do mundo.
Como concluir - a partir desse ponto de partida - que o socialismo mesmo representa um fenômeno mais "progressivo"? Como significar que o verdadeiro curso da história mundial (a infame necessidade histórica) corre precisamente em sua direção? É impossível. Um fato emerge, mais e mais claramente: que o socialismo foi o resultado de um esforço geral resoluto - não um produto do curso objetivo da história, mas precisamente da insurgência contra esse curso objetivo - o efeito de uma insurreição heróica e de um feito moral de heroísmo, no qual um máximo de tensão enlaçavam tanto a elite revolucionário como a massa nacional.
Nessa moldura, a peculiaridade geográfica e cultural dos países onde o socialismo triunfou não aparece mais como um elemento aleatóroi, mas como um fator importante, porém não determinante. A geopolítica efetivamente corrige a política econômica (ver A.Dugin, "O Paradigma do Fim", cit...).
O socialismo venceu nos países do Leste como um inimigo - cultural, histórico, étnico e religioso - de orientações e prioridades orientais. O messianismo escatológico eurasianista russo (e judaico ortodoxo) dos comissários bolcheviques provaram ser um argumento de muito mais peso que as abstrações sofisticadas da economia política. O universalismo marxista não provou ser comparativamente válido. E como uma linguagem conceitual comum, o marxismo caiu em pedaços junto com o Império Russo-Soviético.
As tentativas hodiernas de descriptografar o fenômeno do "financismo" em uma perspectiva marxista ortodoxa estão claramente destinadas à falha, desde que a ortodoxia mesma foi destruída. A ortodoxia é confrontada - em primeiro lugar - com o desafio seriíssimo de prover uma explicação marxista não contraditório dos paradoxos do século XX - e acima de tudo do destino trágico do socialismo na sua última década. Apenas após realizar essa tarefa, seria possível seguir adiante. Porém, tendo realizado tal tarefa, seria o marxismo ortodoxo o mesmo de antes? É difícil de acreditar.
Desse modo, o liberalismo possui as qualidades para analisar o "financismo" segundo sua própria perspectiva peculiar. O movimento na direção de uma economia puramente financeira será, nessa visão, o movimento na direção de um estágio mais moderno e "progressivo". Já que o capitalismo mesmo é considerado como moderno e "progressivo", muito mais moderno e "progressivo" será o financismo.
3. "Dominação Real do Capital"
O liberalismo assimilou da Weltanschauung socialista (e mesmo marxista) o quê sob um ponto de vista paradigmático não entrava em contradição com as fundações da lógica capitalista, e destruiu todas as formas remanescentes - aquelas realmente alterntivas - ao fim de uma guerra ideológica, econômica e geopolítica.
A fase pós-industrial do desenvolvimento do capitalismo - durante a qual sua transição a uma fase puramente financeira da economia ocorreu - coincidiram com a globalização e totalização do próprio paradigma liberal. O financismo é uma fase modular de desenvolvimento do paradigma capitalista. Ademais, é um módulo ligado à metamorfose desse paradigma em algo que não possui alternativa. O financismo é um limite lógico, na direção do qual o desenvolvimento mais auto-suficiente do Capital é atraído.
No não publicado Livro VI do "Capital", Marx ofereceu uma descrição dessa fase como o ciclo eventual da "dominação real do capital", que se instauraria na eventualidade de que a alternativa revolucionária do sujeito proletário não tivesse vencido a batalha na fase anterior da "dominação formal". Esse tema marxiano da natureza não pré-determinada do resultado final da luta mundial entre Trabalho e Capital é algo que o marxismo ortodoxo sempre temeu tanto como todo ser vivo teme o fogo. (ver Jean-Marc Vivenza, "Da dominação formal à dominação real do Capital", Elementy n.7).
Daí a sugestão de situar o "financismo" na zona escatológica da história econômica do desenvolvimento capitalista. Esta abordagem estará perfeitamente correta a partir da perspectiva da principal tendência do desenvolvimento capitalista - o progresso da alienação. Primeiro, a alienação do produto do trabalho dos produtores, então, a alienação de toda a esfera de produção no sistema de crédito bancário, e finalmente, a translação de toda a economia no modo de especulação financeira virtual.
4. Liberalismo como alienação, "progresso" como decadência
O financismo é a coroa da lógica capitalista e representa em si mesmo o último e mais elevado nível de alienação.
Nesse processo de alienação total, o curso natural do desenvolvimento histórico é claramente demonstrado a partir da perspectiva da sociedade tradicional. Mas um tema constantemente emerge na Tradição - aquele de Heróis, Profetas e Salvadores, resistindo contra a entropia histórica, contra a força gravitacional do Existente. (Marx e a doutrina marxiana podem muito corretamente serem contados como análogos dessa insurgência "pré-escatológica"). Mas, mais cedo ou mais tarde, esta iniciativa também cai sob a mó do Destino, e as condições apocalípticas se tornam piores.
Essa perspectiva tradicionalista vê o "progresso", o "curso natural da história", o "modernismo", como sina e mal, como a queda inercial de uma massa pesada, como um resfriamento conseqüente do Ser.
História é alienação, segundo os tradicionalistas.
A história da civilização é vista como alienação por Rousseau (o "bom selvagem", corrompido pela sociedade), Hegel ("alienação da Idéia Absoluta"), e Marx ("distanciamento do comunismo originário").
A alegre reviravolta ("democracia justa", em Rousseau, "Estado Prussiano" em Hegel, "Revolução Mundial" em Marx) acontece não obstante a inércia da história.
Assim, o "fim do mundo" (este evento ontologicamente positivo, segundo os cristãos) se segue à era do Anticisto. E a vinda do Anticristo é detectada como o sinal inconfundível da Segunda Vinda que se aproxima. Mas é claro, isso não significa que o anúncio inegável da Segunda Vinda se aproximando também possa alcançar o "Príncipe desse Mundo".
Há apenas uma coisa boa no clímax da alienação - uma vez que esse processo letal tenha alcançado seu limite, será erradicado pela mão direita vingadora do princípio transcendental.
5. Economia financeira e a dialética do mal
O liberalismo é a tendência natural de desenvolvimento da "filosofia da economia", autonomizada, separada de todas as outras estruturas sociais de valor em sua encarnação qualitativamente moderna.
O financismo representa o pico do desenvolvimento da economia moderna. Isto é - a não variação do "status quo".
Uma questão diferente é o modo como nós avaliamos o "financismo", e, mais geneticamente, o caminho "liberal-capitalista" do desenvolvimento econômico. Se nós vemos o "financismo" ("dominação real do capital") em cores escuras, então - quer conscientemente ou não - nós nos encontramos no lado oposto ao espírito da modernidade. Isso não pode ser disfarçado sob a retórica do "progresso". O curso natural da história (também da história econômica) não nos convém; nós consideramos a entropia histórica como imoral, e nós queremos nos posicionar contra ela. Nesse caso, nós temos que nos voltar - de um modo voluntarista, leninista - não apenas para o conjunto de visões "não-financistas" sobre a economia, mas também para todos os modelos econômicos que são não-modernos, anti-modernos, baseados em um impulso "heróico" (segundo a definição de Werner Sombart) de superar o curso maligno do mundo contemporâneo.
O "financismo" não é uma questão de desvio mecânico do paradigma econômico do capitalismo; é uma fase normal de seu desenvolvimento - a fase de seu triunfo mundial.
É estúpido e irresponsável reclamar sobre o fato de que a massa da especulação financeira nas bolsas de valores do mundo em muito excede os orçamentos de países desenvolvidos, ou que transferências fictícias de capital através de redes de computador solapam o desenvolvimento dos setores materiais protuditvos, transferindo os investimentos para a esfera da economia virtual. A alienação das finanças da esfera produtiva, a virtualização da substância econômica são o acorde final natural do desenvolvimento capitalista.
6. O imperativo indemonstrável da revolução
Nós podemos concordar completamente com todas os prognósticos extremamente catastróficos sendo feitos por analistas imparciais sobre a significância ética dessas tendências. Efetivamente, aumentar a economia virtual em prejuízo dos setores reais de produção inevitavelmente leva ao desastre econômico. O elemento informacional nas sociedades pós-modernas objetiva substituir definitivamente a realidade, substituindo-a com seu sistema operacional ilusório porém ainda poderoso. Isso se demonstrará letal, até um certo ponto.
E ainda - segundo as visões tradicionalistas da sociedade (e outras doutrinas não-liberais e anti-liberais) - esta é a lógica absoluta de cada processo imanente, no qual um princípio transcendental ou não intervém, ou não pode intervir, se não o quer. O capital (como a alienação última, como uma redução total ao princípio materialista quantitativo) tem lutado por um longo tempo para se tornar o único sujeito da história humana. E conseguiu isso com o "financismo". Como uma representação, ele obteve uma vitória muito mais fácil do que em sua forma original. A economia virtual, fictícia põe o próprio princípio da realidade sob exploração - tanto quanto põe sob exploração a realidade da economia e sua ontologia (ainda que essa ontologia não possa ser independente, ela necessariamente deriva da forma social e metafísica supra-econômica mais geral).
A antítese (mesmo teórica) ao "financismo" pode se manifestar nas fases anteriores do desenvolvimento capitalista.
A economia não é mais do que uma linguagem, pela qual qualquer mensagem pode ser formulada. O modelo liberal da economia é a mensagem da alienação e entropia triunfantes, da atomização do todo social, político, cultural e histórico. Tal é a mensagem do "espírito moderno", a mensagem do Iluminismo. "Esquerdistas" (democratas radicais, Rousseau, socialistas, comunistas) e "direitistas" (fundamentalistas, tradicionalistas, integralistas) há muito tempo interpretaram o evangelho liberal (em filósofos como John Locke, Jeremy Bentham, John Mill, e em economistas como Adam Smith e David Ricardo) como a encarnação do mal nesse mundo, como a dissolução de qualquer essência orgânica. Este é o espírito mortal, niilista da modernidade, baseado no "Exílio dos Deuses" (M. Heidegger), na "Morte e Assassinato de Deus" (F. Nietzsche), na "exploração" (K. Marx).
O "financismo" não é nada absolutamente novo, é o Capitalismo Liberal em sua forma mais pura. É a "modernidade" tendo sobrepujado completamente sua antítese.
É por isso que protestar contra o "financismo" em escala nacional ou mundial é impossível sem uma revolução global da consciência, sem uma revisitação excelente de cada ideologia anti-liberal, sem a expressão de uma nova Alternativa integral - e mais, uma Alternativa não apenas contra o resultado (o "financismo" mesmo), mas contra sua causa ("capitalismo", "liberalismo", "espírito moderno").
Buscar por tal Alternativa dentro da esfera limitada da economia é impensável. Tal Alternativa terá que transcender todo o conjunto dos discursos modernos, toda a "linguagem da modernidade". Apenas após isso, quando o paradigma filosófico global da Revolução final tiver sido forjado, esta alternativa assumirá uma forma econômica - como o caminho pragmático para afirmar um imperativo transcendente, indutivamente indemonstrável e empiricamente não-evidente.
Esse é o papel dos "novos profetas", dos "novos salvadores", dos "novos heróis".
O anti-financismo não é mais que o nível exterior da luta mais profunda e radical contra o capitalismo e o liberalismo, cuja necessidade não brota a partir de interesses pragmáticos, mas das profundezas da dignidade do sujeito humano como uma espécie - um sujeito que, mesmo no abismo de ter sido abandonado por Deus, rejeita qualquer conciliação com o mundo manchado de sangue, e toma partido de uma ontologia superior, por uma nova sacralidade, por justiça e irmandade, por liberdade e igualdade.
06/11/2010
Decadência da classe capitalista
"A questão realmente é que a massa da humanidade é miserável, não por falta da riqueza tomada pela classe capitalista, mas por falta da riqueza que jamais foi criada. Essa riqueza jamais foi criada porquê a classe capitalista administrou esbanjadoramente e irracionalmente demais. A classe capitalista, cega e gananciosa, se apossando enlouquecidamente, não apenas não fez o melhor de sua administração, mas fez o pior possível. É uma administração prodigiosamente esbanjadora. Esse ponto não pode ser suficientemente enfatizado. Em resumo, são cega é a classe capitalista que ela não faz nada para aumentar a duração de seu usufruto da vida, enquanto faz tudo para encurtá-lo. A classe capitalista não oferece nada que seja limpo, nobre e vivo. Os revolucionários oferecem tudo que é limpo, nobre e vivo. Eles oferecem serviço, altruísmo, sacrifício e martírio - as coisas que atiçam a imaginação do povo, tocando seus corações com o fervor que se ergue do impulso de fazer o bem e que é essencialmente religioso em sua natureza."
(Jack London, Trecho de "Revolução e Outros Ensaios")
(Jack London, Trecho de "Revolução e Outros Ensaios")
03/11/2010
Medo
"As coisas quase chegaram ao fundo do poço. Uma morte espiritual universal já tocou a todos nós, e a morte física logo inflamará e consumirá a nós e a nossos filhos - mas como antes nós ainda sorrimos de modo covarde e murmuramos sem timidez. Mas o quê nós podemos fazer para impedir isso? Nós não temos a força? Nós fomos tão desesperançosamente desumanizados que pela modesta ração de comida de hoje nós estamos dispostos a abandonar todos os nossos princípios, nossas almas, e todos os esforços de nossos predecessores e todas as oportunidades para nossos descendentes - mas apenas não perturbe nossa frágil existência. Nós carecemos de firmeza, orgulho e entusiasmo. Nós nem ao menos tememos morte nuclear universal, e nós não tememos uma terceira guerra mundial. Nós já nos refugiamos nos buracos. Nós apenas tememos atos de coragem civil."
(Aleksandr Solzhenitsyn, Trecho de "Não viva através de mentiras")
(Aleksandr Solzhenitsyn, Trecho de "Não viva através de mentiras")
02/11/2010
Breve Discurso Sobre o Herói
por Rodrigo Emílio
O herói é o arquétipo da consciência mitológica do Homem; o ato heróico, uma excursão do Homem ao absoluto de si mesmo; o heroísmo, a memória de Deus no Homem. Todo aquele que, de algum modo, faz jus à dignidade suprema de ser tido e havido à conta de herói, está em condições humanamente ideais de evidenciar as potencialidades divinas (ou paradivinas), mediúnicas e demiúrgicas, do ser humano. Com isto, quero eu dizer, cá na minha, que só na qualidade de herói é que a criatura reduz um pouco a distância que a separa do Criador. O mesmo é dizer que, somente em face do herói, terá Deus boas razões para se orgulhar da criatura, razões de peso para se rever nela: pois só o herói - só ele, afinal - dá a Deus (e aos mortais) a certeza de ter sido o Homem uma criação concebida, e espiritualmente materializada, à imagem e semelhança da grandeza do Criador.
Muitos são os campos da afirmação heróica; muitos e às vezes simultâneos, às vezes concorrentes. É o caso do herói que congraça a coragem e a sabedoria, elevando-se a um plano de vitoriosa supremacia sobre a mediania humana: "numa mãe sempre a espada, noutra a pena", "braço às armas feito, mente às musas dada", Luís de Camões é aqui chamado.
Entre as mais altas espiritualizações do heroísmo, é de incluir os santos e mártires da Fé, entendidos como sendo os heróis de Deus; e, logo depois, o herói de condição guerreira - de preferência habitado pelo espírito de cruzada: trabalhado pela ascese cristã; animado e acionado por essa voltagem mística, que dá sentido pleno a todos os ideais vitalistas.
A nível supremo, o herói configura, assim, o modelo do homem idealmente perfeito, que consegue reunir em si um difícil equilíbrio de virtudes, ou toda uma gama de desmesuras coroadas pela religião.
É apanágio do herói transcendentalizar-se, isto é, humanificar, ou humanizar, a transcendência divina, com a imanência do próprio valor, e consumar, por aí, uma personalidade de exceção, que a façanha (ou proeza) heróica autenticará.
Quanto ao heroísmo, não será propriamente um estado (ou sê-lo-à, quando muito, de maneira latente e latejando). As mais das vezes, consigna um momento, esporádico, um lampejo, fulgurante, de trascensão e ultrapassagem, consagrando, desse modo, todo um código de acendrada determinação e de superadora estoicidade.
Concretamente. Herói é todo aquele que no tempo se levanta para a Eternidade. Quando o tempo vem cobrar o quinhão de anos que lhe adiantou no nascimento, chega tarde. Porque, a essas horas, já o herói conquistou no tempo a intemporalidade, a poder de cometimentos que, não raro, se chancelam numa eternidade de segundos.
Ora, no tempo decaído em que vivemos, está bem de ver que o sucedâneo do heroísmo é o vedetismo (no cinema, no teatro, no esporte, etc...) Acresce que as teorias filosóficas do absurdismo - rendendo laudas à imotivação e à ausência de finalidade da existência - põem desde logo em causa a validade humana do herói. Serve-se frio. "Serve-se morto" - diz-nos Reinaldo Ferreira em "Receita para fazer um Herói." Porque heróis, só por receita. Lá para esses abstrusos "do absurdo", só assim se confeccionam heróis; por meio de receita aviada. De contrário, revelam-se inobtíveis, visto que a fauna existencialista não produz disso. E nem admira que não: figurantes de trazer na botoeira da existência, exibe-os a vida na lapela. Compreende-se: na lapela. Quando muito, aí... Que a mariquice mental não entende além destes janotismos!
("O Debate": 01/12/1973)
Ainda Sobre o Herói e sua Conceituação
Em apostila à teoria - que por aqui expendemos, no passado número - sobre o que seja o Herói, tratemos de fornece a público, e de comentar a... preceito, a tal "Receita para fazer um herói", que Reinaldo Ferreira houve por bem aviar e que tanto êxito auferiu nas Centrais do nosso esquerdismo intelectual. Reza assim:
A inconsistência desta perversa interpretação do herói, entendido como um tipo obcecado, e obsessivamente dominado, por uma idéia fixa - maníaco irracional de vocações suicidas - saltará logo à vista do leitor, pois não lhe dá senão uma imagem extremamente cortical, e ainda assim, caricaturalmente deformada, da exterioridade heróica.
A má-intenção do poeta - que, desde início, se propõe desígnios eminentemente satirizantes - leva-o a confinar e a cristalizar todas as variantes do heroísmo, numa única modalidade que tem sempre por desfecho a morte física do herói.
Ora, quando o nosso poeta sustenta que o herói serve-se morto, está a generalizar situações, a padronizar circunstâncias, e como tal, a explorar um filão que lindamente quadra à ementa que alinhou.
Só que o heroísmo afina por uma gama de diapasões humanos muito mais rica; e nem sempre o herói se serve morto à mesa da Vida.
Nem sempre tem esse inconveniente - que de um inconveniente se trata, para a classe bem-pensante, isso de o heroísmo algumas vezes se pagar com a vida. E, neste capítulo, bem importa dar ouvidos a Rainer Maria Rilke, que é o primeiro a contrabater, em termos lapidares, essa estreita aceitação da morte, que caracteriza os anti-heróis de toda a sorte. Diz ele: "Quando alguém morre, nem só isso é a morte. Morte é quando alguém vive e não o sabe. Morte é quando alguém está privado de morrar. Muita coisa é morte: em nós, diariamente, há morrer e nascer."
E, já agora, escutemos outrossim a preclaríssima palavra de Ezra Pound, quando aponta a dedo os tempos e lugares por "onde os mortos caminham/e os vivos são feitos de cartão."
Como observa, e bem, um dos nossos mais avisados pensadores cristãos, "outra coisa não é a morte senão que é da Vida, até porque nascer é aparecer para morrer imortalizado".
Ora, nesta ordem de idéias, a morte pode não ser mais do que um detalhe ("La mort, c'est un détail!"), coroador da existência.
De onde resulta que o heroísmo, longe de ser "um vôo cego a nada" (como pretendem os sequazes de Reinaldo Ferreira), será, com maior força de verdade, "um vôo iluminado a tudo"!
Na presença da morte, o herói coloca-se perante toda a sua vida. Singulariza-o aquele poder de decisão e tenacidade, que consiste na exaltação do viver em plenitude, contraposto a todas as áureas mediocridades: Dom Quixote levando sempre a melhor, à pusilanimidade do Sancho seu escudeiro.
Concluindo. O herói é um ser, simultaneamente, rico de reclusão interior e de expansão ativa; ao mesmo tempo, em estado de sonho e de vigília; tanto se encerra como se descerra. E, como niguém mais, sabe restituir o real ao seu próprio mistério.
É no herói, sobretudo nele, que repousa a esperança de vivos e mortos.
("O Debate":08/12/1973)
O herói é o arquétipo da consciência mitológica do Homem; o ato heróico, uma excursão do Homem ao absoluto de si mesmo; o heroísmo, a memória de Deus no Homem. Todo aquele que, de algum modo, faz jus à dignidade suprema de ser tido e havido à conta de herói, está em condições humanamente ideais de evidenciar as potencialidades divinas (ou paradivinas), mediúnicas e demiúrgicas, do ser humano. Com isto, quero eu dizer, cá na minha, que só na qualidade de herói é que a criatura reduz um pouco a distância que a separa do Criador. O mesmo é dizer que, somente em face do herói, terá Deus boas razões para se orgulhar da criatura, razões de peso para se rever nela: pois só o herói - só ele, afinal - dá a Deus (e aos mortais) a certeza de ter sido o Homem uma criação concebida, e espiritualmente materializada, à imagem e semelhança da grandeza do Criador.
Muitos são os campos da afirmação heróica; muitos e às vezes simultâneos, às vezes concorrentes. É o caso do herói que congraça a coragem e a sabedoria, elevando-se a um plano de vitoriosa supremacia sobre a mediania humana: "numa mãe sempre a espada, noutra a pena", "braço às armas feito, mente às musas dada", Luís de Camões é aqui chamado.
Entre as mais altas espiritualizações do heroísmo, é de incluir os santos e mártires da Fé, entendidos como sendo os heróis de Deus; e, logo depois, o herói de condição guerreira - de preferência habitado pelo espírito de cruzada: trabalhado pela ascese cristã; animado e acionado por essa voltagem mística, que dá sentido pleno a todos os ideais vitalistas.
A nível supremo, o herói configura, assim, o modelo do homem idealmente perfeito, que consegue reunir em si um difícil equilíbrio de virtudes, ou toda uma gama de desmesuras coroadas pela religião.
É apanágio do herói transcendentalizar-se, isto é, humanificar, ou humanizar, a transcendência divina, com a imanência do próprio valor, e consumar, por aí, uma personalidade de exceção, que a façanha (ou proeza) heróica autenticará.
Quanto ao heroísmo, não será propriamente um estado (ou sê-lo-à, quando muito, de maneira latente e latejando). As mais das vezes, consigna um momento, esporádico, um lampejo, fulgurante, de trascensão e ultrapassagem, consagrando, desse modo, todo um código de acendrada determinação e de superadora estoicidade.
Concretamente. Herói é todo aquele que no tempo se levanta para a Eternidade. Quando o tempo vem cobrar o quinhão de anos que lhe adiantou no nascimento, chega tarde. Porque, a essas horas, já o herói conquistou no tempo a intemporalidade, a poder de cometimentos que, não raro, se chancelam numa eternidade de segundos.
Ora, no tempo decaído em que vivemos, está bem de ver que o sucedâneo do heroísmo é o vedetismo (no cinema, no teatro, no esporte, etc...) Acresce que as teorias filosóficas do absurdismo - rendendo laudas à imotivação e à ausência de finalidade da existência - põem desde logo em causa a validade humana do herói. Serve-se frio. "Serve-se morto" - diz-nos Reinaldo Ferreira em "Receita para fazer um Herói." Porque heróis, só por receita. Lá para esses abstrusos "do absurdo", só assim se confeccionam heróis; por meio de receita aviada. De contrário, revelam-se inobtíveis, visto que a fauna existencialista não produz disso. E nem admira que não: figurantes de trazer na botoeira da existência, exibe-os a vida na lapela. Compreende-se: na lapela. Quando muito, aí... Que a mariquice mental não entende além destes janotismos!
("O Debate": 01/12/1973)
Ainda Sobre o Herói e sua Conceituação
Em apostila à teoria - que por aqui expendemos, no passado número - sobre o que seja o Herói, tratemos de fornece a público, e de comentar a... preceito, a tal "Receita para fazer um herói", que Reinaldo Ferreira houve por bem aviar e que tanto êxito auferiu nas Centrais do nosso esquerdismo intelectual. Reza assim:
"Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a
fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto."
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a
fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.
Serve-se morto."
A inconsistência desta perversa interpretação do herói, entendido como um tipo obcecado, e obsessivamente dominado, por uma idéia fixa - maníaco irracional de vocações suicidas - saltará logo à vista do leitor, pois não lhe dá senão uma imagem extremamente cortical, e ainda assim, caricaturalmente deformada, da exterioridade heróica.
A má-intenção do poeta - que, desde início, se propõe desígnios eminentemente satirizantes - leva-o a confinar e a cristalizar todas as variantes do heroísmo, numa única modalidade que tem sempre por desfecho a morte física do herói.
Ora, quando o nosso poeta sustenta que o herói serve-se morto, está a generalizar situações, a padronizar circunstâncias, e como tal, a explorar um filão que lindamente quadra à ementa que alinhou.
Só que o heroísmo afina por uma gama de diapasões humanos muito mais rica; e nem sempre o herói se serve morto à mesa da Vida.
Nem sempre tem esse inconveniente - que de um inconveniente se trata, para a classe bem-pensante, isso de o heroísmo algumas vezes se pagar com a vida. E, neste capítulo, bem importa dar ouvidos a Rainer Maria Rilke, que é o primeiro a contrabater, em termos lapidares, essa estreita aceitação da morte, que caracteriza os anti-heróis de toda a sorte. Diz ele: "Quando alguém morre, nem só isso é a morte. Morte é quando alguém vive e não o sabe. Morte é quando alguém está privado de morrar. Muita coisa é morte: em nós, diariamente, há morrer e nascer."
E, já agora, escutemos outrossim a preclaríssima palavra de Ezra Pound, quando aponta a dedo os tempos e lugares por "onde os mortos caminham/e os vivos são feitos de cartão."
Como observa, e bem, um dos nossos mais avisados pensadores cristãos, "outra coisa não é a morte senão que é da Vida, até porque nascer é aparecer para morrer imortalizado".
Ora, nesta ordem de idéias, a morte pode não ser mais do que um detalhe ("La mort, c'est un détail!"), coroador da existência.
De onde resulta que o heroísmo, longe de ser "um vôo cego a nada" (como pretendem os sequazes de Reinaldo Ferreira), será, com maior força de verdade, "um vôo iluminado a tudo"!
Na presença da morte, o herói coloca-se perante toda a sua vida. Singulariza-o aquele poder de decisão e tenacidade, que consiste na exaltação do viver em plenitude, contraposto a todas as áureas mediocridades: Dom Quixote levando sempre a melhor, à pusilanimidade do Sancho seu escudeiro.
Concluindo. O herói é um ser, simultaneamente, rico de reclusão interior e de expansão ativa; ao mesmo tempo, em estado de sonho e de vigília; tanto se encerra como se descerra. E, como niguém mais, sabe restituir o real ao seu próprio mistério.
É no herói, sobretudo nele, que repousa a esperança de vivos e mortos.
("O Debate":08/12/1973)
A Frente do Espírito
"Cruzou as mãos sob a cabeça e ficou olhando as vigas escuras do teto, na obscuridade, além do alcance da lâmpada de cabeceira. Estaria esperando pela morte agora? Ou por um êxtase selvagem dos sentidos? As duas coisas pareciam sobrepostas, quase como se o objeto do desejo do seu corpo fosse a própria morte. Mas, fosse o que fosse, a verdade era que o tenente nunca antes experimentara uma liberdade tão completa.
Ouviu o ruído de um carro na rua, sob sua janela, o cantar dos pneus derrapando na neve acumulada ao longo da rua. A buzina ecoou nas paredes mais próximas...Escutando, teve a impressão de que a casa erguia-se em uma ilha solitária no oceano de uma sociedade que prosseguia incansável como sempre na sua atividade de todos os dias. À sua volta, vasta e desordenada, estendia-se a terra pela qual ele chorava. Ia dar a vida por ela. Mas o grande país, pelo qual estava disposto a se destruir, daria atenção à sua morte? Não sabia, e não fazia diferença. Seu cambo de batalha era sem glória, um campo onde ninguém poderia realizar façanhas valorosas, a linha de frente do espírito."
(Yukio Mishima, trecho de "Patriotismo")
01/11/2010
Conservação do que é Enfermo
"Trabalhar com uma consciência tão radicalmente tranqüila na conservação de tudo que é enfermo e doente, quer dizer, trabalhar real e verdadeiramente no pioramento da raça européia...
Tais são os princípios que têm dominado até agora, com sua 'igualdade perante Deus', o destino da Europa, até que acabou formando-se uma espécie diminuída, quase ridícula, um animal de rebanho, um ser dócil, enfermiço, medíocre, o europeu de hoje".
(Friedrich Nietzsche)
Tais são os princípios que têm dominado até agora, com sua 'igualdade perante Deus', o destino da Europa, até que acabou formando-se uma espécie diminuída, quase ridícula, um animal de rebanho, um ser dócil, enfermiço, medíocre, o europeu de hoje".
(Friedrich Nietzsche)
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