28/03/2016

Aleksandr Dugin - A Relevância do Marxismo para a Teoria do Mundo Multipolar

por Aleksandr Dugin



(Trecho do livro Teoria do Mundo Multipolar)

O marxismo e o neo-marxismo nas Relações Internacionais (RI) são extremamente úteis à Teoria do Mundo Multipolar (TMM) como arsenal doutrinário crítico do universalismo da civilização ocidental e da sua pretensão a superioridade moral baseada nos fatores de sua superioridade financeira, material e tecnológica. A civilização ocidental da era moderna optou pela via capitalista e, assim, limitou seus horizontes. Não obstante, a encarnação material do sucesso em um alto nível de desenvolvimento e de eficácia econômica das ações dos mercados e, mais recentemente, na prioridade dada ao desenvolvimento do setor financeiro, podem ser decisivos somente se aceitarmos o padrão capitalista, não só a nível material, mas também no nível dos valores sociais, culturais e espirituais. Foi o que demonstrou perfeitamente Max Weber, que identificou o capitalismo como a expressão da ética protestante, a partir do qual a recompensa do homem no decorrer da vida, por meio do sucesso e da riqueza, é um reflexo direto de sua dignidade moral. A equiparação da riqueza à moral, característica da sociedade ocidental da era moderna, possui raízes religiosas e culturais. O Capital e o capitalismo tornaram-se não só o critério do poder, mas também o critério da verdade.

O marxismo desafia semelhante abordagem e, embora reconheça a influência do Capital, rejeita sua pretensa superioridade moral. A ética marxista organiza-se de modo oposto: o Bem se encontra na classe trabalhadora (proletariado) que, sob o capitalismo, encontra-se escravizada pela parasítica classe burguesa. No marxismo, rico é sinônimo de Mal. Consequentemente, o desenvolvimento material, e a concentração de Capital em determinado país, não querem dizer nada, podendo demonstrar até mesmo que um tal pais configura-se como uma das sociedades mais injustas, más, devendo, como tais, serem rejeitadas.

Na análise das RI, tal ética marxista leva à apreciação moral do “abastado Norte” e do sistema capitalista como uma expressão histórica, geográfica e social do mal mundial. O Ocidente não só não se manifesta como um modelo a seguir, nem na Terra Prometida – na qual se encontraria a solução para todos os problemas –, como também se torna a cidadela da exploração, do engano, da falsidade, da violência e da injustiça.

Sem concordarmos com todas as conclusões dogmáticas desta abordagem acerca da revolução mundial e do papel messiânico do proletariado, a TMM aceita a abordagem marxista no que diz respeito a sua apreciação da natureza e da origem do Ocidente capitalista, denunciando-o como um modelo de exploração assimétrica que impõe os seus critérios civilizacionais (capitalismo, livre mercado, demanda pelo lucro, materialismo, consumismo, etc.) a todos os povos e sociedades. O capitalismo é o aspecto econômico-material do universalismo e do colonialismo ocidental. Ao aceitarmos a lógica do Capital, mais cedo ou mais tarde seremos obrigados a aceitar e a reconhecer o Ocidente e a sua civilização como guias, pontos de orientação, modelos exemplares e horizontes de desenvolvimento: o que está em completa contradição com a ideia de uma ordem mundial multipolar e da valorização da pluralidade civilizacional. Algumas civilizações podem aceitar a prosperidade material e a forma capitalista de atividade econômica como aceitáveis e desejáveis, mas outras podem ser que não. O capitalismo não é obrigatório e não é também a única forma de organização econômica. Pode ser aceito ou rejeitado. A equiparação do bem-estar material à dignidade moral pode ser justificada por uns e rejeitada por outros. Portanto, para a TMM, o vetor anticapitalista do marxismo, e do neo-marxismo nas RI, bem como a denúncia característica do modelo de desenvolvimento dependente, são componentes que podem ser bem aplicados. O mesmo vale para a crítica do “abastado Norte” e ao apelo à oposição ao sistema mundial. Sem esta resistência e oposição será impossível o advento do mundo multipolar. 

A principal diferença entre a TMM e a teoria neo-marxista do sistema mundial (bem como em relação aos projetos de Negri, Hardt e de outros altermundialistas) consiste no fato da TMM não reconhecer, em absoluto, o fatalismo histórico das teorias marxistas, que insistem na premissa do capitalismo como uma fase generalizadamente obrigatória e universal do desenvolvimento histórico, a qual será seguida da fase igualmente fatal e irrevogável da revolução proletária. Para a TMM, o capitalismo é uma forma empiricamente fixa de desenvolvimento da civilização ocidental-européia, enraizada na cultura desta e difundida quase em escala planetária. Mas uma análise profunda do capitalismo nas sociedades não-ocidentais demonstra, com certa consistência, a sua natureza simuladora e superficial, dotada de propriedades semânticas muito distintas e representando sempre algo atípico e diferente da formatação socioeconômica que prevalece no Ocidente moderno. O capitalismo surgiu no Ocidente e pode tanto continuar a evoluir como perecer. Mas a sua expansão para além do mundo ocidental, embora condicionada pela tendência expansionista do Capital, não tem razão de ser nas sociedades não-ocidentais onde ele projeta-se. Cada civilização possui sua própria noção de tempo, história, economia e lógica de desenvolvimento material. O capitalismo invade as civilizações não-ocidentais como perpetuador das práticas coloniais e, como tal, pode e deve ser rejeitado, ser alvo de resistência, como se se tratasse de uma agressão por parte de uma cultura e de uma civilização alienígena. Assim, a TMM insiste na luta contra o “Norte rico”, que é travada atualmente em todos os pontos do mapa da humanidade e, principalmente, no “Segundo Mundo” (a semi-periferia, nas palavras de I. Wallerstein). O mundo multipolar não deve surgir depois do liberalismo (como acreditam os neo-marxistas), mas ao invés do liberalismo. Assim sendo, a luta contra o liberalismo não deve se dar em nome daquilo que irá substituí-lo depois que este se instalar em escala planetária, mas já, de modo a não permitir que ele alguma vez se estabeleça em escala mundial. Para as civilizações não-ocidentais é desnecessário passar pela fase do desenvolvimento capitalista. Tampouco é necessário mobilizar suas populações em prol da revolução proletária. As elites e as massas dos países da “semi-periferia”, a despeito dos neo-marxistas, não estão de todo obrigados a dividirem-se socialmente e a integrarem-se nas duas classes internacionais – a burguesia mundial e o proletariado mundial –, perdendo, assim, todas as suas características civilizacionais. Pelo contrário, as elites e as massas pertencentes a uma mesma civilização devem reconhecer a sua identidade comum, cujo significado deve pesar mais que o da identidade de classe. Se em relação à solidariedade internacional da burguesia e, em menor extensão, do proletariado, os marxistas possuem alguma razão (pois se tratam de Estados capitalistas e burgueses nos quais, de fato, domina a lógica do Capital), no caso das civilizações não-ocidentais as coisas não podem ser colocadas desta forma. O topo e a base no mundo islâmico, por exemplo, estão muito mais cientes da sua cultura islâmica do que seus equivalentes classistas em outras civilizações – em particular no Ocidente. E este sentimento de comunhão, de unidade, não deve ser corroído e nem abalado (seja pelo cosmopolitismo liberal, pelo neo-marxismo ou pelo anarquismo de tipo internacionalista), devendo, ao contrário, ser fortalecido, aprofundado e preservado.

O mundo multipolar, principalmente em seu estágio contra-hegemônico inicial, deve ter como base a solidariedade entre todas as civilizações na sua oposição às práticas colonialistas e globalistas do “Norte rico”. Tal luta deve unir as elites e as massas dentro das suas civilizações, pois o critério das classes (a elite como burguesia e as massas como o proletariado) é uma projeção do padrão ocidental. Nas civilizações não-ocidentais existem, de modo empírico e evidente, estratos sociais mais altos e mais baixos, mas a sua semântica sociológica e cultural difere do modelo redutor no qual o único critério decisivo é o da posse dos meios de produção. A TMM apela à solidariedade das elites e das massas na construção dos pólos do mundo multipolar e na organização dos grandes espaços, de acordo com os caracteres culturais e históricos de cada sociedade.

24/03/2016

Claudio Mutti - A Geopolítica das Religiões

por Claudio Mutti



A geopolítica como um método de investigação não se limita a trabalhar nas relações internacionais e nos fatos militares. Entre os fatores que se busca identificar e entender, há que incluir o fator religioso.

Se o século XIX e outra vez na primeira metade do século XX a intelectualidade secular do Ocidente havia profetizado o desaparecimento progressivo e inevitável da religião como um resultado final da modernização econômica e social, a segunda metade do século XX foi a encarregada de mostrar a falta de fundamento de tal expectativa. De fato, apesar de que a modernização alcançou dimensões mundiais, desde há várias décadas as diferentes áreas do planeta se veem afetadas por um fenômeno de renascimento religioso, enfaticamente definido por Gilles Kepel como "a vingança de Deus" (1), que levou a alguns observadores a falar inclusive de "dessecularização do mundo". (2)

As implicações geopolíticas desse fenômeno se fazem evidentes quando se considera que a afiliação religiosa em geral contribui decisivamente para fortalecer o senso de identidade de uma nação ou comunidade de nações, ou inclusive, em alguns casos, para voltar a configurar a identidade. No mundo muçulmano, por exemplo, não raro se manifesta a tendência "em tempos de emergência, a individuar a própria fonte principal de identidade e de lealdade na comunidade religiosa, quer dizer, em uma nova identidade não definida por critérios étnicos ou geográficos, mas pelo Islã" (3). Na Índia, "uma nova idenidade hindu se está estabelecendo como resposta às tensões criadas pela modernização e pela alienação" (4). Na Rússia, o renascimento da religião é o produto de um "ardente desejo de encontrar uma identidade que só pode ser proporcionada pela Igreja Ortodoxa, a única que ainda não rompeu relações com o passado antigo da nação" (5).

Assim que, há vinte anos, os estudiosos da geopolítica tinham que tomar nota do aumento de peso geopolítico das religiões, que de certo modo havia substituído às ideologias do mundo bipolar. As religiões, segundo escreveu o general Jean, "desempenham um papel em alguns casos de identificação unificadora e coletiva, no fortalecimento do nacional, como na Polônia, mas em outros de divisão, como na Bósnia ou na Tchecoslováquia, e como poderia ocorrer na Ucrânia e no próprio Ocidente entre os protestantes e os países católicos, entre os dois últimos e a ortodoxia, assim como entre o cristianismo e o islã, entre o islã e o hinduísmo, e assim sucessivamente" (6). No que concerne, em particular, aos países católicos como Itália, o general se referiu à importância da doutrina social da Igreja em relação a um fenômeno como a política de imigração e a própria posição política da Itália no Ocidente.

O fator religioso volta a confirmar seu aspecto de parâmetro básico da geopolítica, quando nos fixamos na "paisagem" confessional que corresponde às zonas de crise e conflito, como Ucrânia, Iraque e Palestina.

Ucrânia é parte de uma área pluriconfessional, habitada principalmente por pessoas de religião ortodoxa e católica; seu território é atravessado pelos mesmos limites que separam o catolicismo da ortodoxia, de modo que a parte ocidental de confissão católica grega ("uniatas") olha para a Europa, enquanto que a oriental, ortodoxa, se dirige à Rússia. Trata-se assim de um típico "país dividido", se queremos reestabelecer a categoria estabelecida pelo teórico do "choque de civilizações", que insistiu no "cisma profundo que divide a cultura da Ucrânia oriental ortodoxa e a Ucrânia ocidental uniata" (7) identifica a bipartição cultural da Ucrânia com sua divergência confessional. "A linha divisória entre a civilização ocidental e a civilização ortodoxa, escreve Huntington, de fato, atravessa o coração do país (...) Uma grande parte de sua população adere à Igreja uniata, que segue o rito ortodoxo mas reconhece a autoridade do Papa (...) A população no leste da Ucrânia, ao contrário, sempre teve um forte predomínio da religião ortodoxa e do idioma russo" (8).

Inclusive no Iraque, a situação de instabilidade política se relaciona com a distribuição da população em diferentes grupos étnico-religiosos. Depois da destruição do Estado ba'athista, a divisão em três entidades separadas (xiitas, sunitas e curdos) foi sancionada por uma Constituição que estabelece uma forma federal, o que debilita o governo central, reservando a ele somente as decisões relativas à defesa e política externa. Em uma situação desse tipo, não foi difícil para os bandos terroristas apoiados pelos EUA e seus aliados no Golfo estabelecer nos territórios sunitas do Iraque um suposto "califado". Mas inclusive este fenômeno grotesco e de caricatura é objeto da "geopolítica das religiões", porque o autoproclamado "califado" do autoproclamado "Estado Islâmico no Iraque e Síria" (ISIS) está inspirado em uma ideologia sectária que tem sua origem na matriz wahhabi-salafista, da qual já nos ocupamos em outro número da "Eurasia" (9).

No que concerne a Palestina, a verdadeira natureza do regime sionista não pode ser resolvida simplesmente nos termos de uma usurpação territorial inspirada em uma ideologia nacionalista, nem pode se reduzir a uma tentativa criminosa de cometer a limpeza étnica da Palestina através da destruição e expulsão da população nativa. Em realidade, quanto ao projeto sionista é o produto de um pensamento judaico laico e secular, não obstante suas raízes se encontrem em um messianismo desviado, de maneira que é lícito assumir "que o Estado judeu não é um Estado nacionalista 'que usa a religião' para lograr seus próprios desígnios, mas que, ao contrário, trata-se de um Estado aparentemente laico utilizado pela contrainiciação para a realização de seus planos: uma falsificação da teocracia judaica e uma restauração sacrílega da soberania espiritual e temporal do povo judeu (10)." Uma perspectiva tal sugere que a resistência palestina não esgota seu significado na dimensão de uma luta trágica e heróica pela subrevivência, mas que o povo palestino está desempenhando o papel de um verdadeiro katechon, sendo colocado na defesa da Terra Santa para impedir a destruição dos Santos Lugares que impedem a reconstrução do Templo projetado pelos "fanáticos do Apocalipse". 

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1. Gilles Kepel, La revanche de Dieu, Seuil, Paris 1991.
2. George Weigel, Religion and Peace: An Argument Complexified, “Washington Quarterly”, 14 (Primavera 1991), p. 27.
3. Bernard Lewis, Islamic Revolution, “New York Review of Books”, 21 gennaio 1988, p. 47.
4. Sudhir Kakar, The Colors of Violence: Cultural Identities, Religion, and Conflict, cit. in: Samuel P. Huntington, Lo scontro delle civiltà e il nuovo ordine
mondiale, Garzanti, Milano 2000, p. 135.
5. Suzanne Massie, Back to the Future, “Boston Globe”, 28 marzo 1993, p. 72.
6. Carlo Jean, Geopolitica, Editori Laterza, Roma-Bari 1995, p. 77.
7. Samuel P. Huntington, Lo scontro delle civiltà e il nuovo ordine mondiale, cit., pp. 38-39.
8. Samuel P. Huntington, Lo scontro delle civiltà e il nuovo ordine mondiale, cit., p. 239.
9. Claudio Mutti, L’islamismo contro l’Islam?, “Eurasia”, 4, 2012, pp. 5-11.
10. Abd ar-Razzâq Yahyâ (Charles-André Gilis), La profanation d’Israël selon le Droit sacré, Le Turban Noir, Paris s. d., p. 58.

20/03/2016

Gustave Le Bon - Introdução de "Psicologia das Multidões"

por Gustave Le Bon

Tradução por A.J. Ellendersen



As grandes insurreições que precedem trocas de civilizações como a queda do Império Romano e a fundação do Império Árabe, parecem à primeira vista determinadas mais especialmente por transformações políticas, invasões estrangeiras, ou a derrubada de dinastias. Mas um estudo mais atento destes eventos demonstra que por trás de suas causas aparentes, a causa real é geralmente vista como sendo uma profunda modificação nas ideias dos povos. As verdadeiras agitações históricas não são aquelas que nos espantam por sua grandiosidade e violência. As únicas importantes mudanças das quais a renovação de civilizações resulta, afetam ideias, concepções, e crenças. Os memoráveis eventos da história são efeitos visíveis de alterações invisíveis do pensamento humano. A razão para esses grandes eventos serem tão raros é que não há nada tão estável em uma raça quanto a base hereditária de seus pensamentos.

A presente época é um desses momentos críticos em que o pensamento da humanidade está sofrendo um processo de transformação.

Dois fatores fundamentais estão na base de tal transformação. O primeiro é a destruição das crenças religiosas, políticas e sociais em que todos os elementos de nossa civilização estão enraizados. O segundo é a criação de condições inteiramente novas de existência e pensamento como resultado das descobertas científicas e industriais modernas.

As ideias do passado, embora semi-destruídas, sendo ainda bastante poderosas, e as ideias que devem substituí-las estando ainda em processo de formação, a era moderna representa um período de transição e anarquia.

Não é fácil dizer, até agora, o que um dia será formado a partir deste período, de certa forma, necessariamente caótico. Quais serão as ideias fundamentais a partir das quais as sociedades que nos sucederão serão construídas? Não sabemos no presente momento. No entanto, está claro que sejam quais forem as direções em que as sociedades do futuro serão organizadas, elas terão que contar com um novo poder, com a última força soberana sobrevivente dos tempos modernos, o poder das multidões. Nas ruínas de tantas ideias previamente consideradas fora de discussão, e hoje decaídas ou decaindo, de tantas fontes de autoridade destruídas por sucessivas revoluções, este poder, que sozinho emergiu em seus lugares, parece logo destinado a absorver os demais. Enquanto todos as nossas antigas crenças estão cambaleando e desaparecendo, enquanto os velhos pilares da sociedade estão cedendo espaço um por um, o poder da multidão é a única força que nada ameaça, e cujo prestígio se encontra em contínua ascensão. A era que estamos prestes a adentrar será, em verdade, a Era das Multidões.

Há menos de um século, a política tradicional dos Estados europeus e as rivalidades de soberanos eram os principais fatores a modelar eventos. A opinião das massas dificilmente contava, e no mais das vezes de fato não contava em absoluto. Hoje são as tradições que costumavam obter na política, e as tendências individuais e rivalidades de governantes que não contam; enquanto, ao contrário, a voz das massas se tornou preponderante. É essa voz que dita sua conduta aos reis, cujo empenho é o de tomar notas de suas elocuções. Os destinos das nações são elaborados, no momento, no coração das massas, e não mais no conselho de príncipes.

A entrada das classes populares na vida política — isto é, na verdade, sua progressiva transformação em classes governantes — é uma das características mais notáveis de nossa época de transição. A introdução do sufrágio universal, que foi exercido por um bom tempo mas pouco influenciou, não é, como se poderia imaginar, o traço distintivo dessa transferência de poder político. O crescimento progressivo do poder das massas aconteceu primeiramente através da propagação de certas ideias, que implantaram-se lentamente nas mentes dos homens, e mais tarde por meio da gradual associação de indivíduos dispostos a acarretar a realização de concepções teóricas. É por associação que multidões vieram a procurar ideias relativas a seus interesses, muito claramente definidas, embora não particularmente justas, e que alcançaram uma consciência de sua força. As massas estão fundando sindicatos diante dos quais as autoridades capitulam, uma após a outra; estão também fundando associações trabalhistas, que apesar de todas as leis econômicas tendem a regular as condições de trabalho e salários. Eles retornam a assembleias em que o governo está empossado, representantes descaradamente sem iniciativa e independência, e reduzidos no mais das vezes a nada mais que porta-vozes dos comitês que os escolheram.

Hoje as reivindicações das massas estão se tornando mais e mais nitidamente definidas, e equivalem a nada menos do que uma determinação para destruir completamente a sociedade tal como ela existe hoje, com uma visão que a faz nos remeter àquele comunismo primitivo que foi a condição normal de todas os grupos humanos anteriores à alvorada da civilização. Limitações das horas de trabalho, a nacionalização das minas, estradas de ferro, fábricas, e o solo, a distribuição igual de todos os produtos, a eliminação de todas as classes superiores em benefício das classes populares, etc., tais são estas reivindicações.

Pouco adaptadas a raciocinar, multidões, ao contrário, são rápidas ao agir. Como resultado de sua presente organização, sua força tornou-se imensa. Os dogmas cujo nascimento estamos testemunhando terão em breve a força dos antigos dogmas; isto é, a força tirânica e soberana de estarem fora de discussão. O direito Divino das massas está prestes a tomar o lugar do direito Divino de reis.

Os escritores que se beneficiam da benevolência de nossas classes médias, aqueles que melhor representam suas ideias estreitas, suas visões algo prescritas, seu ceticismo um tanto superficial, e seu egoísmo às vezes um pouco excessivo, exibem profundo alarme frente a esse novo poder que eles vêem em ascensão; e para combater a desordem nas mentes dos homens eles estão enviando apelos desesperados àquelas forças morais da Igreja pelas quais eles professavam a princípio tanto desdém. Eles nos falam sobre a falência da ciência, retornam em penitência a Roma, e nos lembram dos ensinamentos de verdade revelada. Esses novos convertidos esquecem que é tarde demais. Tivessem eles de fato sido tocados pela graça, tal operação não poderia ter a mesma influência em mentes menos preocupadas com as inquietações que assediam esses recentes aderentes à religião. As massas repudiam hoje os deuses que seus admoestadores ontem repudiaram e ajudaram a destruir. Não há qualquer poder, Divino ou humano, que possa forçar uma corrente a retornar à sua fonte.

Não houve falência alguma da ciência, e a ciência não tem responsabilidade alguma pela presente anarquia intelectual, nem pela constituição do novo poder que está emergindo do interior desta anarquia. A ciência nos prometeu a verdade, ou no mínimo um conhecimento destas relações tal como nossa inteligência é capaz de apreender; ela nunca nos prometeu a paz ou a felicidade. Soberanamente indiferente aos nossos sentimentos, ela é surda para nossas lamentações. É necessário que nos esforcemos a conviver com a ciência, uma vez que nada pode trazer de volta as ilusões que ela destruiu. Sintomas universais, perceptíveis em todas as nações, nos mostram o rápido crescimento do poder das multidões, e não nos permitem supor que ele esteja destinado a cessar sua ascensão em uma data próxima. Seja qual for o destino que ele nos reserve, nós teremos que nos submeter a ele. Todo raciocínio contra ele é uma mera e vã guerra de palavras. Certamente é possível que o advento ao poder das massas marque um dos últimos estágios da civilização ocidental, um retorno completo àqueles períodos de anarquia confusa que parecem sempre destinados a preceder o nascimento de toda nova sociedade. Mas poderia esse resultado ser evitado?

Até agora estas conscienciosas destruições de uma civilização esgotada tem constituído a tarefa mais óbvia das massas. De fato, não é somente hoje que isto pode ser rastreado. A história nos conta, que do momento em que as forças morais em que uma civilização repousa perdem sua força, sua dissolução final é acarretada por aquelas multidões brutais e inconscientes, conhecidas, com razão suficiente, como bárbaros. Civilizações até hoje foram somente criadas e dirigidas por uma pequena aristocracia intelectual, jamais por multidões. Multidões são potentes somente para a destruição. Seu governo é sempre equivalente a uma fase de barbárie. Uma civilização envolve regras fixas, disciplina, uma passagem do estado instintivo ao racional, antecipação do futuro, um grau elevado de cultura — todas elas condições que multidões, deixadas por si mesmas, têm invariavelmente demostrado-se incapazes de realizar. Em consequência da natureza puramente destrutiva de seu poder, multidões agem como aqueles micróbios que aceleram a dissolução de corpos enfraquecidos ou mortos. Quando a estrutura de uma civilização está podre, são sempre as massas que acarretam a sua perdição. É em tal conjuntura que sua missão-chefe é plenamente visível, e em que por um tempo a filosofia do número parece ser a única filosofia da historia.

Estará o mesmo destino reservado para a nossa civilização? Há fundamento para temer que este seja o caso, mas não estamos ainda em uma posição para estarmos certos disso.

Seja como for, estamos fadados a nos resignar ao reino das massas, dado que a improvidência tem derrubado, em sequência, todas as barreiras que pudessem ter mantido a multidão em cheque.

Temos um conhecimento muito sutil destas multidões que estão começando a ser objeto de tanta discussão. Estudantes profissionais de psicologia, tendo vivido longe delas, sempre as ignoraram, e quando, afinal, eles voltaram sua atenção para esta direção foi apenas para considerar os crimes que multidões são capazes de cometer. Sem dúvida existem multidões criminosas, mas multidões virtuosas e heroicas, e multidões de diversos outros tipos, também devem ser consideradas. Os crimes de multidões constituem somente uma fase particular de sua psicologia. A construção mental de multidões não deve ser aprendida meramente por um estudo de seus crimes, assim como a de um indivíduo por uma mera descrição de seus vícios.

No entanto, com efeito, todos os mestres do mundo, todos os fundadores de religiões ou impérios, os apóstolos de todas as crenças, estadistas eminentes, e, em uma esfera mais modesta, os meros chefes de pequenos grupos de homens, foram sempre psicólogos inconscientes, possuidores de um conhecimento instintivo e frequentemente muito acertado sobre o caráter de multidões, e é seu conhecimento preciso deste caráter que os permitiu tão facilmente estabelecer sua maestria. Napoleão possuía uma intuição maravilhosa sobre a psicologia das massas do país em que reinava, mas ele, em certos momentos, equivocou-se completamente quanto à psicologia de multidões pertencentes a outras raças; e é por este equívoco que ele se envolveu, na Espanha e notavelmente na Rússia, em conflitos nos quais seu poder recebeu golpes que estavam destinados dentro de um curto espaço de tempo à ruína. Um conhecimento da psicologia das multidões é hoje o último recurso do estadista que deseja não governá-las — isto está se tornando uma questão difícil — mas a qualquer custo não ser governado demais por elas.

É apenas obtendo alguma espécie de compreensão acerca da psicologia das multidões que pode-se entender o quão sutil é a ação, sobre elas, de leis e instituições, o quão impotentes elas são para defender qualquer opinião que não seja sobre elas imposta, e que não é com regras baseadas em teorias de pura igualdade que elas devem ser conduzidas, mas sim através da busca pelo que produz uma impressão nelas e pelo que as seduz. Por exemplo, deveria um legislador, desejando impor um novo imposto, escolher aquele que teoricamente seria o mais justo? De maneira alguma. Na prática, o mais injusto talvez seja o melhor para as massas. Sendo ele ao mesmo tempo o menos óbvio, e aparentemente o menos oneroso, ele será facilmente tolerado pela maioria. É por esta razão que um imposto indireto, seja o quão exorbitante for, sempre será aceito pela multidão. Sendo pago diariamente em frações de um farthing[1] em objetos de consumo, ele não interfirirá nos hábitos da multidão, e passará despercebido.

Substitua-o por um imposto proporcional nos salários ou renda de qualquer outro tipo, a ser pago em montante fixo, e sendo esta nova imposição teoricamente dez vezes menos onerosa que a outra, ela acarretaria protesto unânime. Isso resulta do fato de que um montante relativamente alto, que parecerá imenso, e consequentemente golpeará a imaginação, foi substituído pelas imperceptíveis frações de um farthing. O novo imposto pareceria brando apenas se fosse economizado farthing por farthing, mas este procedimento econômico envolve um nível de previsibilidade de que as massas são incapazes.

O exemplo que precede é um dos mais simples. Sua pertinência será facilmente percebida. Ela não escapou à atenção de um psicólogo tal como Napoleão, mas nossos modernos legisladores, ignorantes como são a respeito das características da multidão, são incapazes de apreciá-la. A experiência não os ensinou até agora, em grau suficiente, que os homens nunca modelam sua conduta sob o ensinamento da razão pura.

Muitas outras aplicações práticas podem ser feitas a partir da psicologia das multidões. Um conhecimento desta ciência lança a mais vívida luz em um número enorme de fenômenos históricos e econômicos totalmente incompreensíveis sem ela. Devo ter a ocasião de demonstrar que a razão pela qual o mais notável dos historiadores modernos, Taine, compreendeu em alguns momentos tão imperfeitamente os eventos da grande Revolução Francesa, é que jamais ocorreu pra ele o estudo do gênio de multidões. Ele tomou como seu guia no estudo deste complicado período o método descritivo a que recorrem os naturalistas; mas as forças morais estão quase ausentes no caso dos fenômenos que os naturalistas estudam. No entanto, são precisamente estas forças que constituem as verdadeiras molas propulsoras da história. Por consequência, visto meramente por seu lado prático, o estudo da psicologia das multidões merece ser experimentado. É tão interessante decifrar os motivos das ações dos homens quanto determinar as características de um mineral ou uma planta. Nosso estudo do gênio das multidões pode apenas ser uma breve síntese, um simples resumo de nossas investigações. Nada mais deve ser exigido dele do que algumas visões sugestivas. Outros hão de trabalhar no terreno mais meticulosamente. Hoje nós tocamos somente a superfície de um solo quase virgem.

[1] Farthing, originário da palavra inglesa “fourthing”, foi uma unidade monetária britânica, produzida entre 1860 e 1956, que equivalia a um quarto (1/4) de centavo ou penny.

Retirado de "Psicologia das Multidões" (Psychologie des Foules, ou The Crowd: A Study of the Popular Mind), Gustave Le Bon, 1895

12/03/2016

Eric Mader - Gnosticismo: Reconsiderando a Mãe de Todas as Heresias

por Eric Mader

Tradução por M. Oltramari



Se alguém procura uma rápida definição de gnosticismo antigo, é provável que encontre algo assim:

Gnosticismo:

Um movimento religioso que floresceu no Império Romano entre os Séculos II e VI D.C.

Identificados como hereges tanto pelos Cristãos como pelos Judeus, os gnósticos ensinavam que o mundo não foi criado pelo verdadeiro Deus, mas por um ser menor, deficiente, chamado de O Demiurgo, que rege sob sua criação, o nosso mundo, com a ajuda de poderes administrativos chamados de Arcanos. Enquanto o local do verdadeiro Deus (O Pleroma, ou “Plenitude”) se encontra além dessa criação defeituosa, sendo o objetivo do gnóstico escapar da armadilha que é esse mundo e retornar para aquele.

De acordo com os gnósticos, os seres humanos possuem uma centelha divina não pertencente a essa criação menor, mas que continuaria reencarnando aqui a não ser que fosse redimida através da gnose (o conhecimento libertador acerca das nossas verdadeiras origens). Seres humanos estavam divididos em três tipos: os espirituais (aqueles predestinados à salvação), os psíquicos (aqueles que poderiam alcançar uma forma de salvação através da gnose e várias práticas de purificação) e os materiais (aqueles que por sua natureza estavam permanentemente atados ao domínio material). Portanto, a religião gnóstica era caracterizada por um desprezo radical pelo mundo (entendido como uma prisão) e pelo corpo (a cela individual de cada um). Fontes antigas demonstram que em certos grupos esse desprezo levou a um rigoroso ascetismo, e em outros a uma rigorosa libertinagem (uma vez que as leis morais eram simplesmente parte da armadilha criada pelo Demiurgo, alguns gnósticos ensinavam que os espiritualmente liberados deviam demonstrar sua liberação quebrando tantas leis quanto fosse possível).

Gnósticos cristãos consideraram Jesus como um mensageiro do verdadeiro Deus, enviado de Pleroma para trazer os ensinamentos libertadores da gnose. Eles rejeitaram a doutrina ortodoxa de que Jesus morreu para expiar pelos pecados dos homens. De acordo com os gnósticos, o mal no mundo não resultava do pecado humano, mas da criação defeituosa do Demiurgo, ou seja, o mundo era mal porque seu criador era mal. Enquanto cristãos ortodoxos aceitavam o Antigo Testamento como parte de suas escrituras sagradas, os gnósticos viam no Antigo Testamento uma representação do Demiurgo. Somente Jesus era enviado do “Pai”, isto é, o verdadeiro Deus.

Devido ao seu rigoroso desprezo pelo mundo e sua concomitante rejeição das normas sociais, a maioria dos escolásticos entenderam que o gnosticismo foi uma religião de revolta radical. Os bogomilos na Europa oriental e os cátaros do medievo no sul da França são considerados como encarnações tardias da religião gnóstica. Uma coleção de antigas escrituras gnósticas enterrada foi descoberta perto da cidade egípcia de Nag Hammadi em 1945.

Em poucos parágrafos temos aqui um exemplo de como o gnosticismo é tipicamente definido em aulas universitárias e enciclopédias. É uma apresentação clássica sustentada em estudos modernos do gnosticismo tal como vemos em The Gnostic Religion de Hans Jonas. Pelo hábito da repetição ela se tornou mais ou menos padrão. Mas essa definição é realmente apta para descrever as crenças e práticas dos gnósticos antigos? Quão apropriada ela é em relação ao que encontramos nos textos de Nag Hammadi? Afinal de contas, a maioria dos elementos dessa definição foram construídos antes da descoberta desses escritos. Através dos escritos gnósticos existentes e disponíveis agora, os escolásticos devem ser capazes de chegar a um entendimento mais detalhado do que era possível anteriormente. As leituras que eles realizaram dos textos de Nag Hammadi mudaram o nosso entendimento acerca desse antigo movimento religioso?

Em seu livro Rethinking “Gnosticism”: An Argument for Dismantling a Dubious Category Michael Allen Williams avalia a legitimidade dessas definições usuais e as considera seriamente incompletas. Ler o seu estudo é perceber o quanto essa coisa chamada “gnosticismo” é uma amálgama de caricaturas acadêmicas modernas e aceitação desprovida de senso crítico dos escritos de heresiólogos como Santo Ireneu e Epifânio de Salamina. Talvez essa confiança fosse algo inevitável dada a falta de fontes originais de outrora. Mas agora, com a riqueza dos evangelhos e tratados gnósticos descobertos no Egito as coisas mudaram. O trabalho de Williams se propõe a revelar a dimensão das mudanças necessárias.

A metodologia geral de Williams é simples: toma as atuais apresentações acadêmicas da religião gnóstica e as compara ponto por ponto com o que nós realmente encontramos nos escritos gnósticos. E ainda: toma as apresentações que os heresiólogos antigos fazem dos gnósticos e realiza uma comparação similar. As apresentações que os gnósticos fazem deles mesmos em seus escritos corresponde às doutrinas atribuídas a eles por Ireneu? Eles correspondem ao que nós escutamos da comunidade de acadêmicos modernos? Se a resposta é não, porque?


Se Williams estiver certo, a nossa ideia de gnosticismo como uma religião antiga não estaria de acordo, em aspectos importantes, com a ideia dos próprios gnósticos antigos. A nossa compreensão das doutrinas e comportamentos gnósticos (em relação ao corpo, à sociedade, à ética) frequentemente colocou ênfase nos pontos errados. E nossa apresentação das práticas gnósticas ainda está embasada nos heresiólogos, ainda que suas descrições tenham sido desmentidas pelos escritos de Nag Hammadi.

Em suma, o gnosticismo é normalmente apresentado como uma religião de revolta e negação do mundo: uma religião adotada por estrangeiros em um estado de rebelião contra as normas sociais. Acreditava-se que os gnósticos haviam construído uma barreira entre eles mesmos e o mundo que os cercava revertendo mecanicamente os valores sociais dominantes. Essa noção dos gnósticos empreendendo um tipo de negação sistemática de tudo que a sociedade sustentava como sagrado originou-se principalmente de observações selecionadas a partir das leituras que os gnósticos faziam das escrituras hebraicas (por exemplo, eles frequentemente entendiam a serpente no Jardim do Éden de uma maneira positiva, enquanto Yahweh, entendido como o Demiurgo, era visto negativamente). Porém, como Williams aponta, esses exemplos de interpretações das escrituras gnósticas não indicam necessariamente uma atitude rebelde em relação à sociedade como um todo. Utilizando modelos desenvolvidos em estudos sociológicos de movimentos  religiosos, Williams argumenta que em muitos casos o mais provável era o oposto: os gnósticos estavam interpretando as ideias judaico-cristãs do divino de maneiras mais harmônicas com as sociedades predominantemente pagãs nas quais eles viviam. O argumento de Williams aqui é convincente.  A nossa interpretação do comportamento gnóstico como uma postura de revolta contra a sociedade nos foi empurrada pelos heresiólogos, quem, por motivos óbvios, procuravam retratar os gnósticos como rebeldes contra a ortodoxia. Portanto, é anacrônico afirmar que os gnósticos eram pervertidos sociais.

Williams considera da mesma forma a questão do “determinismo gnóstico”: a afirmação moderna, repetida frequentemente, de que os gnósticos acreditavam que a humanidade estava dividida em tipos diferentes (os espirituais, os psíquicos, os materiais) ou raças diferentes (a raça de Seth, a raça de Cain), e o desfecho doutrinal dessas divisões de que o potencial de cada indivíduo para a salvação já estaria determinado pelo nascimento. Williams demonstra que essa noção moderna do determinismo gnóstico não é sustentada pelos textos originais. Uma leitura cuidadosa dessas fontes demonstra que um indivíduo não “nasce incluído” na raça de Seth: em realidade é um status que se pode alcançar ou receber. A raça de Seth é mais uma comunidade espiritual do que uma “raça” biológica no sentido moderno. O mesmo aplica-se à divisão em três tipos: o status de espiritual de um indivíduo é considerado tendo em vista seu comportamento: é possível perder esse status ao abandonar a verdade, portanto nascer como um espiritual não é garantia de salvação. A afirmação de que os gnósticos eram elitistas no sentido de acreditarem-se predestinados à salvação (salvos em essência) é errônea. Williams demonstra que havia no mínimo tanta flexibilidade nessas noções gnósticas quanto há em doutrinas protestantes recentes acerca do eleito.

Com essas observações eu apenas arranhei a superfície desse estudo extenso e detalhado. Williams oferece uma discussão importante acerca da hermenêutica gnóstica (a sua prática de interpretação bíblica) e reconsidera as noções gnósticas do corpo e como elas estão relacionadas a diferentes doutrinas de salvação. Uma preocupação constante do seu livro -e talvez eu tenha sido irresponsável ignorando-a até agora- é a validade do próprio termo “gnosticismo”. Com base nas inúmeras desvantagens que Williams vê nesse termo -a sua ambiguidade e a bagagem que carrega- ele sugere que os escolásticos refiram-se a “tradições bíblicas demiúrgicas” quando discutem muito do que tipicamente se chama de “gnosticismo”. Ele procura demonstrar que: 1º) os povos antigos que chamamos de “gnósticos” não utilizam esse termo, e 2º) escolásticos modernos tiveram dificuldade para estabelecer um conjunto estável de características para o gnosticismo: isto é, nós ainda não conseguimos definir com clareza o que é o gnosticismo. O argumento que Williams coloca ao final é que esse termo impediu a nossa compreensão dos antigos movimentos religiosos em questão. Ele fez com que gerações de acadêmicos se agarrassem a falsos problemas e construíssem argumentos com base em pressupostos não examinados. Essa é uma acusação muito séria. Se Williams está certo ou não nessas afirmações -algo que não estou em posição de julgar- parece óbvio que seu livro trouxe muitas novidades no campo de estudos “gnósticos”. É evidente que muitas de suas novas perspectivas à respeito dos “gnósticos” se originaram diretamente da tentativa de pensar além (no âmbito acadêmico e heresiológico) do “gnosticismo” enquanto categoria.

No entanto, o livro de Williams não é apenas para escolásticos. Até mesmo um leitor ligeiramente familiar com os escritos de Nag Hammadi pode ganhar muito com a leitura dessa obra. De maneira elucidativa, ele inicia o livro com um capítulo resumindo os mitos ou doutrinas de quatro importantes tradições gnósticas: o mito do Apócrifo de João; a doutrina do professor valentiniano Ptolomeu; o mito ensinado por Justino, o Gnóstico; e os ensinamentos de Marcião. Esses quatro exemplos diferentes são tratados repetidamente em todo o estudo com o objetivo de elucidar vários aspectos. Williams estruturou Rethinking Gnosticism de uma maneira que o permitiu escrever tanto para seus colegas escolásticos como para os leitores em geral. É uma estratégia de sucesso em todos as partes, que faz com que a leitura do livro seja fascinante para qualquer um interessado em “gnosticismo”, nos textos de Nag Hammadi ou na história do Cristianismo.

03/03/2016

Eugene Montsalvat - A Direita Alternativa: Uma Autópsia

por Eugene Montsalvat



Quando o amplo movimento agora chamado "direita alternativa" pareceu surgiu por volta de 2010, as esperanças eram bem elevadas. O então editor do Occidental Quarterly afirmou que ele esperava que isso introduziria jovens conservadores a coisas como a Nova Direita europeia, a Terceira Posição, a Revolução Conservadora, o Tradicionalismo, e o anticapitalismo de direita. O objetivo de ampliar suas mentes e afastar conservadores americanos das picuinhas partidárias usuais na direção de questões mais radicais e importantes não foi atingido. Ao invés, ela levou a uma solidificação dos piores elementos do conservadorismo americano, agora repaginado como algo vanguardista. Ao invés de se tornar ponta-de-lança para o pensamento de figuras conservadoras revolucionárias ou novo-direitistas como Oswald Spengler, Alain de Benoist ou Aleksandr Dugin entrar no discurso político americano, ela se tornou um foco de atração para aqueles que querem defender o capitalismo contra populações de QI baixo, todas as suas teorias estando embasadas na terminologia mais imatura retirada dos esgotos da internet. Ao invés de levar a um novo movimento revolucionário nos EUA, simplesmente recuperou algumas das ideias conservadoras americanas mais retrógradas do passado com uma estética mais "vanguarda" projetada para atrair os elementos mais juvenis da sociedade. A direita alternativa falhou em articular as críticas necessárias à ordem atual, deixando o campo da ideologia populista nacional vazio de uma alternativa real e desesperadamente necessária. A direita alternativa em seu estado atual não tem futuro. Ela deve ser reformada com o poder de olhar para além das barreiras artificiais de esquerda e direita, barreiras definidas pela elite hostil da política americana.

Talvez o traço mais unificador das várias correntes na direita alternativa americana é seu foco nas definições biológicas de raça. Certamente, a compreensão científica das diferenças humanas possui seu lugar. Porém, uma definição meramente materialista é na melhor das hipóteses insuficiente, na pior delas contraprodutiva. No melhor caso, é um passo no longo processo de tirar uma pessoa do paradigma do igualitarismo liberal na direção de uma concepção filosófica das diferenças humanas. Nesse sentido, uma compreensão biológica da desigualdade humana deve ser vista como uma fase transitória. Sim, humanos são realmente diferentes biologicamente, porém essa concepção biológica da diferença é apenas uma compreensão superficial das diferenças humanas essenciais. Para uma compreensão mais profunda da desigualdade humana, devemos avançar para além do materialismo biológico, que replica uma compreensão racionalista e iluminista do mundo, e adentrar na doutrina Tradicionalista sobre raça, como compreendida por Julius Evola. Há um aspecto biológico, realmente, porém nós devemos também transcender na direção de um entendimento da "raça da alma" e uma "raça do espírito".

Com "raça da alma", nós podemos falar sobre as várias características espirituais que definem um certo povo. Assim, se alguém segue uma moralidade judaica, essa pessoa pode ser membro da "raça judaica da alma" ao mesmo tempo sendo inteiramente gentia em sentido biológico. Quanto à "raça do espírito", ela define como diferentes pessoas em uma sociedade se relacionam com o divino. Nas civilizações antigas, diferentes sexos e classes sociais adoravam diferentes deuses. Os patrícios romanos representam uma "raça do espírito" diferente dos plebeus romanos, e os brâmanes hindus representam uma "raça do espírito" diferente dos ksatriyas. As mulheres representam uma "raça do espírito" diferente dos homens. Certamente, nessa concepção tripartite de raça, os três aspectos de biologia, alma e espírito estão entrelaçados. Porém, isso não pode ser simplesmente reduzido à biologia da qual todas as coisas fluem. Essa obsessão com distinções científicas entre raças e a necessidade de mensurar cada diferença biológica (e eu realmente me refiro a cada diferença) está muito longe de um entendimento profundo, filosófico, das distintas essências espirituais dos povos que caracterizavam as raízes antigas de nossa civilização. Ademais, isso é patentemente pouco inspirador, já que homem algum vai atacar uma metralhadora para defender um estudo sobre QI. Os homens morrem por visões superiores e transcendentes do ser. É melhor falar sobre o espírito da nação do que entediar pessoas comuns até as lágrimas com tabelas demonstrando diferentes medições cranianas.

Na pior das hipóteses, a concepção biológica de raça leva a uma reiteração de preconceitos iluministas liberais. Ela assume, tal como os neo-ateístas representados por tipos como Richard Dawkins fazem, que todas as questões podem ser reduzidas a meras explicações racionais, científicas. Isso pode levar ao que é geralmente chamado de "elitismo cognitivo". Ela assume que o QI é o árbitro final de valor humano. Isso é absolutamente desastroso para qualquer ideologia política que busque afirmar a identidade livre e única de povos. Se um certo povo possui um QI maior, por que deveríamos ver como imoral se ele conquistar os menos inteligentes? Se este é o caso, então Hong Kong deveria governar o mundo, e nenhuma outra nação deveria se impôr. Ao invés de afirmar diferenças, o elitismo cognitivo afirma a dominação de um povo em detrimento de outros. Ao invés de afirmar o direito de todos os povos de cultivarem sua identidade étnica e cultura tal como a ideologia etnopluralista defendida pela Nova Direita europeia faz, ela involui em um tipo de triunfalismo branco onde o fato de que brancos possuem um QI maior que alguns outros povos significa que eles são superiores, e estão assim justificados em destruir outras culturas. Isso é essencialmente similar ao darwinismo social vitoriano que foi usado para justificar o domínio do Império Britânico. Enquanto alguns possam olhar para essa era como o ponto alto da civilização europeia, ele deve ser visto pelo que é: um período de exploração, tanto dos povos colonizados, como dos trabalhadores pobres das próprias nações coloniais, que lideraram o caminho para a globalização da sociedade e para a emergência do capitalismo internacional como o paradigma econômico dominante, questões que continuam a nos afetar hoje. Este tipo de raciocínio vitoriano ainda encontra ressonância nas visões econômicas da direita alternativa americana.

Entre as grandes falhas da direita alternativa americana tem sido sua incapacidade de criticar o sistema capitalista. Ele é visto como um sistema justo, suas falhas e erros ou são ignorados ou a culpa é colocada em algum outro grupo racial. Eles citarão, de modo darwiniano, que pessoas com QI mais alto ganham mais, e que nações com QI médio alto são mais ricas, então os ricos merecem tudo o que tem, e qualqeur tentativa de redistribuir riqueza é "disgênica", ainda que a vasta maioria das pessoas patrióticas, trabalhadoras e medianas se beneficiasse com um retorno, mesmo que parcial, ao Estado de Bem-Estar da América de Eisenhower, um período para o qual eles ironicamente olham com nostalgia por causa de seus valores sociais sadios. Ainda assim, o período de dominação branca europeia pelo capitalismo é visto como uma marca de orgulho europeu e o zênite da civilização europeia. Eles consideram o sofrimento da vasta maioria dos brancos sob o capitalismo antes da emergência do Estado de Bem-Estar no século XX, como narrado por autores clássicos como Charles Dickens, Jack London, Upton Sinclair ou Louis-Ferdinand Céline, como ou merecido ou irrelevante, se é que eles dão alguma consideração.

Ademais, essa combinação de fetichismo com QI e ideologia de mercado leva a uma defesa contraditória e confusa das fronteiras nacionais. Direitistas alternativos americanos reconhecem que comunidades imigrantes de países com baixo QI médio tendem a votar em favor do Estado de Bem-Estar; portanto, nós devemos controlar nossas fronteiras para salvar o capitalismo. Essa análise é ruim em vários níveis. Primeiro e mais importante, são os capitalistas americanos que trazem os imigrantes, legalmente ou ilegalmente, para cortar os salários de trabalhadores nascidos nos EUA. A mais forte oposição a propostas de fechar a fronteira ou limitar a imigração vem da própria classe capitalista americana. A liderança de companhias famosas como eBay, Google, PayPayl e Yahoo liderou esforços para convencer o Congresso a aprovar leis ampliando a imigração. A direita alternativa não consegue compreender que a oposição à interferência no fluxo de trabalho e capital entre países tem sido uma faceta fundamental do capitalismo desde a época de Adam Smith e Bastiat, que se opunham ao protecionismo mercantilista. Como o importante pensador da Nova Direita europeia, Alain de Benoist, afirmou em seu clássico ensaio, "Imigração: O Exército de Reserva do Capital": "Quem criticar o capitalismo, ao mesmo tempo que aprova a imigração, sendo o proletariado sua primeira vítima, é melhor silenciar. Quem criticar a imigração, ao mesmo tempo que silencia sobre o capitalismo, deve fazer o mesmo". Capitalismo e imigração em massa são dois lados da mesma moeda. Eles não conseguem entender que o capitalismo não aceita fronteiras, seja fisicamente ou mentalmente, no que concerne a busca pelo lucro. Se o Estado-Nação, a família tradicional, ou a religião ficarem no caminho, eles devem ser descartados. Citando Alain de Benoist novamente, em "Essa Direita que não se importa com seu povo":

"Eles ainda não entendem que o capitalismo é intrinsecamente globalista, porque ele demanda a abolição de fronteiras ('laissez faire, laisser passer!'). Por razão de sua propensão à ilimitação, ele não pode existir sem revolucionar constantemente as relações nacionais, ou sem ver as identidades nacionais como estando entre tantos outros obstáculos para a expansão do mercado globalizado. O modelo antropológico que ele leva, que é o de um indivíduo que está sempre buscando a maximização de seu próprio interesse, está tanto em funcionamento no liberalismo econômico como no liberalismo social, e os axiomas do interesse e o maquinário do lucro são pilares da ditadura dos valores mercantis".


Foi sob o capitalismo, não sob o socialismo, que o feminismo, o multiculturalismo, a teoria de gênero, e a liberação sexual encontraram suas mais poderosas expressões. Porém, ao invés de reconhecer este fato, a direita alternativa recorre à teoria do "marxismo cultural".


"Marxismo cultural" pode significar muitas coisas. Em uma interpretação extrema, é uma perspectiva altamente conspiratória que propõe que os soviéticos infiltraram vários órgãos governamentais, acadêmicos e empresariais nos EUA com o objetivo de enfraquecer os valores morais da sociedade para torná-la mais adequada para uma revolução comunista guiada pelos soviéticos. Em outra, ela pode significar a influência dos pensadores da Escola de Frankfurt na sociedade. Nós podemos rapidamente descartar a primeira, considerando que coisas como homossexualidade eram punidas severamente na URSS, e que, após uma fase inicial de liberação sexual, Stálin reprimiu essa lassidão moral, limitando o divórcio e o aborto. No Bloco Oriental, o "movimento hippie", onde existisse, era visto com suspeitas e sujeito a repressão por suas raízes americanas. As origens dessa teoria da conspiração tendem a voltar ao testemunho do dissidente soviético Yuri Bezmenov, que se tornou uma figura popular em círculos anticomunistas americanos, onde ele frequentemente coletava taxas para repetir em palestras o que as pessoas já acreditavam. Curiosamente, a direita alternativa toma as afirmações de um imigrante preenchendo um nicho no mercado americano a sério. Em contraste, não foi a KGB, mas a CIA que apoiou a arte moderna como um desafio ao "realismo socialista" de inspiração clássica na URSS, e contratou a radical Gloria Steinem como agente para este fim. De fato, a CIA recebeu muitos comunistas anti-stalinistas em seu "Congresso para a Liberdade Cultural", que foi estabelecido em 1950 para atrair esquerdistas para uma posição anti-soviética. Ademais, nós devemos notar que muitas figuras da Escola de Frankfurt culpadas pelo "marxismo cultural" em versões menos conspiratórias encontraram um refúgio do nazismo não na URSS, mas nos EUA.

A Escola de Frankfurt é considerada como uma das principais bases para o desenvolvimento da ideologia freudo-marxista, particularmente por seu notável membro, Herbert Marcuse. Outro é o pensador judeu-alemão Wilhelm Reich, que também encontrou refúgio nos EUA após perseguição nazista. No livro de Marcuse Eros e Civilização, a liberação sexual está misturada com ideias sobre libertação da alienação econômica também. Porém, Marcuse modifica a base fundamental do marxismo. A história não é mais explicada pela luta de classes, mas como uma luta contra a repressão, com o capitalismo moderno sendo o tipo mais repressivo de sociedade. Esse desvio da teoria marxista clássica mostra o motivo pelo qual a Escola de Frankfurt não foi bem recebida na URSS. Ao invés de demandarem um socialismo no qual os desejos individuais estivessem sujeitos aos objetivos de um planejamento central pelo benefício da nação, ele defende uma plena liberalização dos desejos humanos. Essa crítica provou ser popular nos campi universitários americanos e influenciou os radicais da década de 60, que defendiam uma revolução através do "rock n' roll, drogas e sexo nas ruas", em uma frase notável de John Sinclair. Porém, a ideologia da gratificação sensorial total foi completamente assimilada pelo capitalismo. Depravação na música, nos filmes e na televisão alimentou os cofres das grandes corporações midiáticas, sem mencionar a ascensão simultânea da indústria pornográfica. Na verdade, essa ideologia se encaixa perfeitamente com o capitalismo: o cliente sempre tem razão, e os desejos hedonistas se tornam ainda mais escolhas de consumo para serem satisfeitas pelo mercado. Certamente, a ideologia da gratificação sensorial ilimitada criou novos campos vastos de exploração para o capitalismo.

Ademais, essa ideologia radical da nova esquerda demonstrou um efeito maligno sobre a centro-esquerda hegemônica, que, apesar de não ser marxista, trabalhava no domínio clássico da política classista, lutando por um Estado de Bem-Estar maior e pelos direitos do proletariado (deve-se notar a imensa ironia de alguns elementos da direita alternativa olharem com saudades para os "bons e velhos dias" da América pré-1968, quando o Estado de Bem-Estaro e o poder sindical estavam em seu ápice). Abandonando preocupações caras aos corações do trabalhador médio, a esquerda hegemônica gradualmente adotou ideologias como o feminismo, o pró-imigracionismo e a libertação homossexual. Enquanto a classe trabalhadora padece com dificuldades cada vez maiores, e valores tradicionais são apagados, o capitalismo é mais forte do que nunca. Porém, a direita alternativa permanece proximamente ligada ao capitalismo, apesar de críticas a várias facetas do capitalismo, tal como a usura, desde uma perspectiva europeia tradicional vindo desde Aristóteles e dos antigos gregos, dos Pais da Igreja, e Tomás de Aquino. De fato, a história do anticapitalismo conservador é muito mais longa e profunda, mesmo nos EUA quando olhamos para figuras como Ezra Pound e Padre Coughlin, do que a história da defesa conservadora do capitalismo. Essa contradição aparente passa desapercebida pela direita alternativa.

Essa falta de vontade de transitar além da perspectiva capitalista americana trouxe algumas consequências geopolíticas para a direita alternativa. Ainda que ela ocasionalmente demonstre uma postura menos belicista que o conservadorismo americano hegemônico, normalmente tendendo a um não-intervencionismo paleoconservador, ela ainda expressa uma certa paranoia da Guerra Fria em relação ao socialismo. Em uma nota positiva, a atitude tóxica em relação a Rússia foi razoavelmente moderada, ainda que por razões do aparente masculinismo de Putin mais do que por uma consideração séria de sua política externa. E ainda assim, essa russofobia não desapareceu. Há muitos no milieu que foram enganados pela propaganda do banderismo em se alinharem com a UE e a OTAN contra a Nova Rússia. Ademais, a atitude da direita alternativa em relação ao socialismo na América do Sul ainda é uma de hostilidade e neocolonialismo. Figuras como Hugo Chávez e Juan Perón são demonizadas, e a ideologia do socialismo, ao invés do capitalismo neocolonial americano, é culpada pelos sofrimentos da América Latina. Eles exaltam aquele lacaio da CIA, Augusto Pinochet, enquanto fantasiam sobre arremessar "comunistas" de helicópteros para salvar o capitalismo. É grosseiramente hipócrita para um movimento que afirma ser nacionalista elogiar um homem que derrubou o governo de seu próprio país com apoio estrangeiro e que então entregou bens públicos para corporações multinacionais sem qualquer lealdade para com qualquer nação.

Ademais, enquanto rejeitam as tentativas mas egrégias de neocolonialismo neoconservador no Oriente Médio, eles em sua maioria subscrevem às teses oferecidas por Samuel Huntington em O Choque de Civilizações, que reduz os problemas no Oriente Médio a um choque de civilizações entre Europa e Islã. Isso ignora completamente os papeis que o colonialismo europeu, e o neocolonialismo sionista e americano posterior, desempenharam em desestabilizar a região. A maioria dos muçulmanos não estão imigrando para a Europa em prol da jihad, mas porque eles foram desenraizados pelo capitalismo, pelo colonialismo e por guerras importadas do Ocidente, e são recebidos como uma fonte de mão-de-obra pelos capitalistas ocidentais. Isso, por sua vez, leva a direita alternativa a abraçar figuras como Geert Wilders ou movimentos como a Liga de Defesa Inglesa, que atacam o Islã sem dizer uma única palavra sobre o sionismo ou o capitalismo. Eles saboreiam perversamente relatos extravagantes de estupros e assassinatos por imigrantes. Eles confundem os sintomas do problema, fundamentalmente a imigração, com suas causas raízes: a interferência americana e sionista no Oriente Médio. Alguns, ainda que certamente não todos, na direita alternativa tem chegado ao ponto de afirmar que Israel é um Estado nacionalista étnico modelo e um bastião da civilização ocidental contra o Islã. Porém, eles nem consideram por um momento o que a civilização ocidental significa hoje. Eles se aliariam a feministas, homossexuais, liberais e sionistas contra o Islã meramente porque o Islã condena esses traços que se permitiu enraizar no Ocidente. Nesse caso, eu recomendaria que eles consultassem o pensador italiano radical Giorgio Freda, que disse aos nacionalistas que quisessem defender a "civilização europeia":

"Temos falado em termos de 'civilização europeia', sem nem mesmo arranhar a superfície dessa expressão e sem verificá-la, indo às profundezas do problema: se existe, em realidade, uma civilização europeia homogênea, e quais são os coeficientes autênticos de seu significado à luz de uma situação histórica global na qual a guerrilha latino-americana adere muito mais proximamente a nossa visão de mundo do que o espanhol vassalo de padres e dos EUA; onde o povo guerreiro do Vietnã do Norte, com um estilo heróico, sóbrio, espartano está muito mais perto de nossa concepção da existência do que o trato digestivo italiano, ou o francês ou alemão do Ocidente; onde o terrorista palestino está muito mais perto de nossos sonhos de vingança do que o inglês judaizado (europeu? eu duvido)".

Dançando ao som dos slogans neoconservadores e sionistas de "defender valores ocidentais", a direita alternativa se alinhou com os elementos mais tóxicos dentro da civilização ocidental, os elementos emblemáticos da própria decadência cultural que eles atacam. É absurdo que a direita alternativa subitamente passe de atacar essas coisas para defendê-las quando são atacados por outra cultura. Ao invés de atacarem as raízes do problema, eles atacam apenas seus sintomas, e preparam o palco para mais caos no Oriente Médio e Europa.

E para coroar isso tudo, todas essas posições da direita alternativa são articuladas das maneiras mais imaturas e cruas imagináveis. O influxo maciço de pessoas de fóruns virtuais, como o /pol/ do 4chan, no milieu da direita alternativa deu uma coloração de "calouro" a seu discurso. Ao invés de bons argumentos, memes e slogans abndam, muitas vezes de péssimo gosto. Eles ridicularizam negros usando os estereótipos mais banais, ao invés de tentarem instilar um senso de nacionalismo negro que ajudaria na revolta nacionalista contra o liberalismo. Eles se referem a políticos que eles consideram insuficientemente conservadores como "cornos" ou "cornoservadores", se referindo de maneira bastante freudiana a esse fenômeno sexual. A terminologia sexual grosseira continua com referências a esquerdistas como "consolos" e afirmando que pessoas que passaram para o lado liberal foram "carimbadas", se referindo à infecção por HIV por via anal. Isso, é claro, tem apelo com crianças rebeldes, e amplia sua base de apoio entre elas, já que ler livros sérios e desenvolver ideias plenamente articuladas tem apelo entre uma porção cada vez menor da população. Porém, nenhum intelectual sério pode entreter uma ideologia baseada em piadas internas subculturais virtuais, sem contar a vasta maioria da população em geral. Como pode um trabalhador desempregado que teve seu ganha-pão destruído pela globalização e pela imigração pensar que a ideologia dessa claque virtual tem algo a lhe oferecer? É risível que a direita alternativa afirme ser a voz do populismo nacionalista. Ao contrário, quando a direita alternativa consegue ser mencionada pela mídia hegemônica, ela é usada como uma vara curta por liberais para atacar as preocupações legítimas de trabalhadores, que obviamente não tem nada a ver com isso, em relação a imigração associando-os com uma subcultura tão quixotesca quanto essa. As preocupações há muito ignoradas dos trabalhadores e patriotas merecem supostos porta-vozes melhores do que capitalistas adolescentes pueris que estão preocupados com que a imigração ameace seu neoliberalismo.

A direita alternativa não conseguiu desenvolver ideias novas e revolucionárias. No pior dos cenários, ela ameaça macular a causa do populismo nacionalista e se tornar um bicho-papão usado por liberais apenas para deslegitimar preocupações com imigração, identidade nacional e globalização. Nós devemos nos perguntar como podemos melhorar a qualidade do discurso. Em um nível bastante básico nos EUA, nós podemos ampliar o conhecimento sobre a verdadeira herança populista nacional, aquela que desafiou tanto o liberalismo social quanto o liberalismo econômico. Nós podemos nos referir aos velhos líderes sindicais que se opunham à imigração tal como Denis Kearney, e o autor socialista clássico americano Jack London. Nós podemos olhar para figuras da década de 30 como Ezra Pound e o Padre Charles Coughlin, que se opunham à usura. Ademais, nós podemos ampliar nossas mentes lendo a obra de figuras nacionalistas anticapitalistas ao longo da história do planeta, que podem ser encontradas entre movimentos como a Revolução Conservadora e a Noda Direita europeia. Também, nós podemos ousar até fazer análises nacionalistas de movimentos tipicamente considerados de esquerda, desenvolvendo sínteses ideológicas e buscando bases comuns, assim ampliando nosso apelo para esquerdistas que similarmente sentem o chamado da identidade nacional.

Finalmente, nós devemos começar a construir movimentos sérios e desenvolver think-tanks que produzam ideias sérias ao invés de memes. Precisamos começar a olhar para fora do sistema e dos confis do conservadorismo simplista americano e da regurgitação de ideias defuntas. Precisamos ver que a restauração da soberania nacional implica a restauração do controle econômico para o povo, não para corporações globais ou grandes empresários que podem voar para algum paraíso fiscal. Precisamos nos tornar autenticamente, intransigentemente revolucionários. Precisamos desenvolver a coragem de atravessar barreiras ideológicas impostas pela classe governante, encontrar a coragem de cruzar o abismo e a vontade de encarar ideias verdadeiramente radicais. Libertar a nação não é uma tarefa fácil. É uma tarefá que demandará imenso sacrifício, uma disciplina espartana, e um desprezo pela política convencional. Certamente, haverá os negadores que estarão contentes em pular na última campanha eleitoral na esperança de poderem resolver todos os nossos problemas com legislação. Haverá as massas de ideólogos perplexos enfeitiçados nas falsas dicotomias do sistema que reagirão com ira incoerente quando fronteiras ideológicas forem apagadas. Ainda assim, nossa grande tarefa está aí, e nós não vamos ser abalados.

Eu gostaria de convidá-los para participarem de uma nova iniciativa: a formação do Instituto para Estudos Nacional-Revolucionários. Por todo o mundo, a ideologia de revolução nacional, onde uma sede por justiça econômica e um senso profundo de identidade nacional se encontram, tem assumido muitas formas, mas essa corrente permanece ignorada no mundo anglófono. É agora, neste momento, quando a sobrevivência de nosso povo está sob risco, que essa luta deve começar. O futuro será nosso, ou não teremos futuro. 

27/02/2016

Daria Dugina - Ideologia Americana na Sociedade Francesa

por Daria Dugina

Tradução por Lucas Novaes



INTRODUÇÃO:

As principais características da ideologia Americana são:

- Crença no progresso universal, o qual tem seu ápice na civilização capitalista ocidental (os Estados Unidos como seu líder indiscutível);
- Individualismo completo, negação de identidades coletivas (religiosa, nacional, étnica), destruição dos valores tradicionais: gênero (política de gênero), família tradicional;
- Engenharia e desenvolvimento técnico reconhecidos como o principal objetivo, o aspecto moral é insignificante e menor;
- Os Estados Unidos e o Ocidente possuem o direito moral de ditar o caminho que o resto das nações devem seguir e viver (hegemonia americana em escala global).

ESQUERDA-DIREITA (NA POLÍTICA E ECONOMIA)

Para que possamos ver como a ideologia americana é implementada no espaço europeu, é necessário considerar o esquema do sistema político das sociedades da Europa Ocidental; a divisão entre direita e esquerda (em política e economia). O modelo da divisão política partidária esquerda-direita apareceu na Assembleia Constituinte da França (em 1789) quando o lado direito da mesa da presidência foi ocupado pelos apoiadores da monarquia, os “Cavaliers”, os conservadores, e o lado esquerdo pelos revolucionários, anti-monarquistas e os democratas radicais.

As principais características da direita na política são a proteção dos valores tradicionais, conservadorismo, defesa de sucessos  do passado, identidade nacional, religiosa e étnica. Na esfera econômica, os representantes dos partidos de direita têm como objetivo proteger a propriedade privada (a declaração da propriedade privada e o princípio superior da posse privada da propriedade coletiva; estatal, nacional, comunal), construção de um mercado mundial livre sem fronteiras nacionais e estatais.

As principais características da esquerda são a negação da identidade (étnica, religiosa), a negação dos valores tradicionais, anti-conservadorismo e universalismo. Na esfera econômica, a esquerda favorece várias formas de domínio da propriedade coletiva acima da propriedade privada (nacionalização da propriedade privada).

A FRANÇA ATÉ 1968

Até 1968, a influência da ideologia americana na França era fraca, principalmente por meio dos esforços do presidente de Gaulle, o qual consistentemente aplicou políticas antiamericanas que tinha mcomo objetivo a construção de uma Europa continental e soberana do Atlântico até os Urais (Rimland).

- De Gaulle se opôs a entrada da Inglaterra na Comunidade Econômica Europeia; a União Europeia  seria construída sem a participação dos anglo-saxões;
- Ele removeu a base militar americana do território nacional francês;
- A liberação da França dos compromissos de defesa da OTAN (cancelamento das estruturas militares da Aliança em 1966), a retirada do Planejamento de Defesa e Grupo de Planejamento Nuclear do Comitê (França continua a participar das estruturas políticas da OTAN);
- Em 1965, De Gaulle anunciou a recusa do uso do dólar nos pagamentos internacionais e a transição para um único padrão de ouro;
- De Gaulle transformou a França em uma líder do movimento não-alinhado em face dos dois blocos da Guerra Fria, França escolhe a Terceira Via (Rimland como uma zona independente);
- Desobediência ao Império Americano (condenação das ações dos EUA contra os países da Indochina), apoio a Palestina em 1967 (a condenação das ações de Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967).

O QUE ACONTECEU EM MAIO DE 1968?

A ideologia americana chegou à França em maio de 1968; estudantes radicais de esquerda participaram em demonstrações e motins, com milhões de estudantes indo as ruas. Ironicamente, nessa época, a França encarou um crescimento econômico nunca antes visto (apogeu do milagre econômico francês, conhecido como “Trente Glorieuses”).

A estrutura do "Maio Vermelho" possui diversas áreas distintas: 1) Anarquista (slogans: “Il est interdit d’interdire” – “É proibido proibir”, “Ni Dieu ni maître!” – “Nem Deus nem Mestres”), 2) Esquerda, “gauchisme” (“Travailleur: Tu as 25 ans mais ton syndicat est de l'autre siècle.” – “Trabalhador: Você pode ter apenas 25 anos, mas seu sindicato é do século passado”) 3) Esquerda liberal, a qual tinha como objetivo desestabilizar o regime de de Gaulle e removê-lo da autoridade.

Se a primeira área quase não tinha programas positivos, a segunda e especialmente a terceira área do “Maio Vermelho” possuíam uma visão clara do futuro da França, no qual a figura de De Gaulle não tinha lugar. Na França, o regime antiamericano de De Gaulle foi derrubado pelos movimentos de esquerda antiamericanos (demonstrantes de esquerda criticaram a intervenção dos EUA no Vietnam: “Imagine:! C’est la guerre et persona n’y va” – “Imagine: houve guerra e ninguém apareceu! ”). A juventude protestou contra a guerra do Vietnam e a política militar americana por ter influência da cultura anglo-saxã.

A ideologia americana apareceu na arena política francesa através dos protestos antiamericanos.

A FRANÇA DEPOIS DO “MAIO VERMELHO”

Depois de Maio de 1968, a ideologia americana começou a entrar na política francesa. Aparecia uma nova sociedade e o libertarianismo liberal se tornou a nova ideologia dominante, a qual tinha, como principal objetivo, a destruição do: 1) modelo social de esquerda (que era protegido pelo Partido Comunista Frances), e 2) o modelo moral da direita (criado por De Gaulle).

Gradualmente, as diferenças entre a esquerda e a direita foram se misturando na política e economia. A direita passou a agir apenas em prol do liberalismo burguês, do capitalismo, ignorando o conservadorismo, a esquerda – em favor do progresso e da globalização, ignorando a esfera econômica (as demandas da proteção dos direitos dos trabalhadores, superioridade coletiva sobre a propriedade privada).

A FRANÇA SOB O DITADO IDEOLÓGICO AMERICANO

Hoje, a França está sob uma verdadeira ditadura ideológica, hegemonia do “pensée unique”, a ideologia americana. Qualquer um que é contra o liberalismo de esquerda (neste caso, não está agindo sob influência do liberalismo de direita), torna-se “intocável”, marginalizado, o inimigo do sistema, suicida (indicativo da crescente atenção ao Front National, bsucas recentes em seu principal escritório durando mais de 24 horas). A ideologia dominante na França (ideologia americana) está baseada em uma combinação do liberalismo de mercado da direita e do globalismo de esquerda.

A França se tornou um país sob o controle total da ideologia americana durante a presidente de Sarkozy:

- Março de 2009 – A entrada da França na OTAN, a traição da herança gaullista, a submissão oficial da França ao controle do comando americano;
- Associação com liberais de esquerda;
- Auxiliando os EUA na derrubada de regimes anti-americanos no Oriente Médio (Líbia, 2011).

Desde 2012, Hollande tem consistentemente continuado com a política de seu predecessor (apesar de ser um representante da esquerda, Hollande ignora os valores da esquerda na economia; a taxa de desempego cresceu 10% em seu regime).

- Apoio a sanções contra a Rússia, ruptura do contrato de Mistral;
- Legalização do casamento homossexual.

ALTERNATIVA A IDEOLOGIA AMERICANA NA FRANÇA

Será que existe, hoje, na arena política francesa, uma alternativa real ao domínio da ideologia americana? Não, mas a intensa busca por ela já ocorre. A força política que se opõe à ideologia do sistema americano na França e que está  desenvolvendo alternativas é o partido Front National. A crítica da política migratória da União Européia, euroceticismo, um foco no conservadorismo e na preservação das tradições (família, casamento, religião), e a crítica da elite dominante atlantista francesa se refletem no espaço político e na vontade do povo francês, e é uma alternativa ao governo liberal de esquerda.

O Front National é percebido pelas forças políticas dominantes como uma ameaça ao sistema, um partido anti-sistema que une em seu programa os valores anti-liberais da esquerda (igualdade social, justiça, anticapitalismo) e os valores não-liberais da direita (conservadorismo, Estado forte, política anti-migração).

Em 2015, após as eleições regionais, tornou-se claro que o Front National não era apenas legítimo, mas também um força política. Isso assustou fortemente a esquerda liberal (partido socialista) e direita (partido republicano) e alavancou a criação de uma coalizão unificada da esquerda e da direita para eliminar o Front National da luta política.

24/02/2016

Sebastian J. Lorenz - Indo-Europeus: Mitologia, Antropologia e Ideologia

por Sebastian J. Lorenz


Os Mitos de "Sangue e Terra"

Desde a mais remota antiguidade, a origem nórdica tem fascinado à maioria dos povos de estirpe indo-europeia, que assinalaram ou usurparam o Norte como pátria ancestral em seu imaginário étnico coletivo. De fato, a etnografia clássica assinalava a Ilha de Scandia, por referência a um lugar indeterminado entre Escandinávia e o Mar Báltico, como "fábrica de nações e matriz engendradora de povos" (Vagina Gentium). Certamente, nas estruturas religiosas dos indo-germânicos ocupa um lugar-comum a referência a uma terra mitológica situada no norte, na qual seus deuses e heróis se forjam em uma dura luta contra a noite e o gelo eternos, utilizando poderes da natureza como o sol, o trono ou o fogo: o mito ário nasce, precisamente, da fenomenologia e simbologia solares como patrimônio da raça branca nórdica frente aos mitos da noite e das trevas das raças escuras.

E os germânicos não foram uma exceção. Mais que isso, as distintas formações étnicas surgidas, com certa simultaneidade, como reação perante a queda do Império Romano, como os godos, os suevos, os vândalos, os francos, os alamanos, os anglos, os saxões, os burgúndios ou os longobardos, assim como, posteriormente, os escandinavos (dinamarqueses, suecos, noruegueses), competiram entre si para demonstrar sua primazia, sua pureza racial, fazendo remontar suas linhagens a longas árvores genealógicas que se perdiam na tradição escandinava das lendas nórdicas. Precisamente, este orgulho genético da origem nórdica constituiu a base fundamental para a formação de unidades etnopolíticas em torno às elites germânicas que tomaram o relevo civilizador de Roma, espalhando-se por todos os rincões do Velho Continente e provocando o nascimento do estamento real e nobiliárquico que regeria os destinos da Europa durante a Idade Média como uma autêntica "aristocracia de sangue" (Geburtsadel).

Tácito, um escritor latino, ao que parece metade romano, metade gaulês, estava convicto que "os germânicos são indígenas e de modo algum estão misturados com outros povos, seja por resultado de migrações ou por pactos de hospitalidade". Nesse sentido, aderia à opinião "de que os povos da Germânia, ao não estarem degenerados por matrimônios com nenhuma das outras nações, lograram manter uma raça peculiar, pura e semelhante somente a si mesma. Daí que sua constituição física, no que é possível em um grupo tão numeroso, seja a mesma para todos: olhos ferozes e azuis, cabelos loiros, corpos grandes e capazes somente para o esforço momentâneo, não aguentam da mesma forma a fadiga e o trabalho prolongado, e muito menos a sede e o calor, se estão acostumados ao frio e à fome pelo tipo de clima e de território nos quais se desenvolvem". Devemos ter presente que Tácito utilizava a comparação racial entre romanos e germânicos com um objetivo de propaganda moralizante: a decadência e corrupção do Império Romano frente à originalidade e naturalidade dos costumes dos povos germânicos, longe do estado de barbárie e selvageria - tão humilhante para o nacional-socialismo, ainda que o próprio Hitler reconhecesse a superioridade da cultura greco-romana frente à celto-germânica - descrito pelos autores clássicos.

Não obstante, as alusões que faz Tácito aos judeus, que se constituirão na historiografia e na filosofia germânicas como antítese dos nórdico-ários, são bastante menos prosaicas: "Os costumes judaicos são tristes, sujos, vis e abomináveis, e devem sua persistência a sua depravação... Para os judeus é desprezível tudo o que para nós é sagrado e para eles é lícito o que nos repugna... Os judeus, entre si, mantêm uma enorme fidelidade, uma piedade manifesta; por sua vez, para todos os outros, tem um ódio mortal... Quando os macedônios tomaram o poder, o rei Antíoco procurou extirpar suas superstições e introduzir os hábitos gregos para transformar essa raça inferior!.

Muito tempo depois, o historiador Montanelli, também de origem itálica, narrando com sua particular ironia a invasão da Grécia pelos dóricos, povo indo-europeu considerado pelos pensadores nazistas como o melhor exemplo das essências árias, os descrevia como "altos, de crânio redondo e olhos azuis, de um valor e uma ignorância a toda prova. Tratava-se, certamente, de uma raça nórdica". E mais adiante continua sua crítica dizendo que "os dóricos tinham uma feia enfermidade: o racismo. E até nisso se confirma que se tratava de nórdicos, que o racismo sempre levaram e seguem levando no sangue: todos, até os que de palavra o negam. Por bem que fossem muito menos numerosos que os indígenas, ou talvez precisamente por isso, defenderam sua integridade biológica, não raro com autêntico heroísmo como em Esparta".

Comentários respectivos à margem, nas descrições anteriores, tão distantes no tempo, encontramos as bases que fundamentarão o mito racial do nacional-socialismo. Trata-se de povos de origem nórdica, cuja pátria originária se situaria na região europeia compreendida pela Alemanha setentrional, Escandinávia e os Países Bálticos. Sua constituição física não deixa lugar a dúvidas: altos, fortes, loiros e de olhos azuis, o clássico padrão nórdico. Por esta condição não se misturaram com outros povos, ou o fizeram com grupos da mesma família genética, celtas, eslavos, bálticos, itálicos, conservando a pureza de sua raça, inclusive quando entram em contato bélico ou colonizador com outras civilizações em busca do espaço vital necessário para assegurar sua sobrevivência racial. Por último, o racismo inato aos povos nórdicos, que ao longo da história será especialmente virulento com os povos de cor, os leva a defender sua integridade biológica, inclusive recorrendo à violência e à guerra, único ofício honrado para uma "raça ariana de senhores e conquistadores".

Os mitos do sangue e do solo (blut und boden), de uma raça nórdica herdeira da raça ária primigênia (urvolk), cuja pátria originária (urheimat) se situava precisamente no solar ancestral dos germânicos, em algum lugar ao norte da Europa, assim como a necessidade de conseguir terras suficientes que assegurassem um espaço vital (lebensraum) para a conservação, desenvolvimento e predomínio daquela raça nórdica sobre outros povos eurasiáticos, especialmente a custa dos eslavos (drang nach osten), constituem os dois axiomas fundamentais da ideologia racial nacional-socialista: raça e espaço (rasse und raum).

E, não obstante, os milhares de livros publicados sobre Hitler, nacional-socialismo, o Terceiro Reich, a Segunda Guerra Mundial e o holocausto, se limitam a estudar, desde distintas perspectivas políticas, econômicas, sociais ou militares, as consequências derivadas do mito racial nazista, sem nem mesmo entrar na análise da ideologia racial que as provocou. Fórmulas simples e concludentes como a ideia triunfante na Alemanha nazista, segundo a qual os germânicos eram os mais puros representantes de uma raça ária superior e os judeus a escala inferior da hierarquia racial bastam, em princípio, para explicar a guerra de aniquilação e destruição mais cruel que já viu a história da humanidade. Mas por trás desse simplismo, como falamos, subjazia ma autêntica ideologia racial que pretendia aplicar aos homens as mesmas leis de seleção e sobrevivência que regem a Natureza. E para isso, se adotaram uma série de medidas enquadradas em uma política biológica global e totalitária, que iam desde a eugenia ativa à reprodução seletiva, da eliminação dos elementos raciais e sociais indesejáveis à formação de uma elite racial aristocrática encarnada na Ordem das SS.

O mito ário não é, não obstante, uma invenção de Hitler e do nacional-socialismo, mas sim fruto da manipulação ideológica sobre um problema real da arqueologia e da linguística em relação com a existência das línguas e povos conhecidos como "indo-germânicos" ou "indo-europeus", dos quais os "arianos" não seriam mais que sua extrema ramificação oriental, mas aos quais se outorgou uma pureza e uma preeminência racial e atribuiu uma lendária origem nórdico-germânica. Mas o ideal racial não interessou somente aos cientistas, quase sempre próximos aos postulados ideológicos e raciais do nazismo, como Kossinna, Penka, Reche, Lenz, Fischer ou Wirth, mas também a grandes pensadores ou criadores alemães como Herder, Fichte, Hegel, Kant, Sombart, Weber, Schopenhauer, Nietzche, Wagner, Spengler, Jünger, Schmitt, Jung ou Heideger. Com estes precedentes ideológicos, de da mão de disciplinas auxiliares como a mitologia, a filologia, a arqueologia e a antropologia, os autores racistas, como Gobineau, Vacher de Lapouge, Woltmann, Chamberlain, Rosenberg, Günther, Clauss e Darré, construíram uma doutrina "ário-nórdica" que logo se identificou com a Alemanha nacional-socialista, mas que levava vários séculos fluindo pelas frágeis aberturas ideológicas do humanismo europeu.

O culto à raça ária, em suas versões germânica ou nórdica, que se foi consolidando na Europa desde princípios do século XIX, não adquiriu em nenhum dos nacionalismos racistas do continente a orientação biologista e genetista que alcançou na Alemanha. Da ideia de uma missão de domínio mundial para a salvação da humanidade, à qual o povo alemão parecia estar predestinado, se passou, sem transição alguma, à preocupação pela pureza do sangue germânico, cuja futura hegemonia universal se encontrava em perigo pelos efeitos nocivos e contaminantes de sangues impuros como o judaico, o eslavo ou o latino, messianismo racial, sem dúvida, que, não obstante não trazia sua causa de um ódio ou preconceito específico, mas de poderosas imagens coletivas que deformavam as características físicas e éticas daqueles, infra-humanizando-os e, inclusive, demonizando-os, em contraste com a beleza e honra germânicas, quando em realidade se tratava de uma manobra, muito trabalhada ideológica e filosoficamente, de proteção de determinados interesses econômicos, territoriais e militares que, finalmente, Hitler soube explorar adequadamente, se bem que com um fanatismo que, certamente, não teriam compartilhado seus principais inspiradores ideológicos.

Não obstante, a distinção entre uma "raça superior" e outras "inferiores", o racismo alemão se fundamentava em uma hierarquização racial arbitrária e cruel em cuja cúspide se situavam os descendentes de sangue nórdico-germânico. Segundo Blank (o velho e novo fascismo), "os nazistas proclamaram que a raça germânica (nórdico-ária) é portadora das melhores qualidades das raças humanas: a lealdade ao dever e à honra, valor e audácia, capacidade organizativa e potencial de criação. Quanto mais puro é o povo no aspecto racial, mais claramente pode expressar essas qualidades. Nenhuma raça na Terra está dotada das qualidades da raça germânica, que é a parte melhor, a superior, da raça nórdico-ária. Todas as outras raças são inferiores porque estão arruinadas pelas misturas com outras raças, que originaram nelas traços negativos. São inferiores aos alemães os escandinavos e os ingleses (estes últimos estão contaminados pelo espírito mercantilista e pela influência dos plutocratas); ainda mais inferiores são os franceses e os espanhóis; os seguem, em ordem decrescente, o povo italiano e o romeno, e mais abaixo, os eslavos. Entre os povos asiáticos, os japoneses são a raça eleita; abaixo deles estão os indianos e depois os coreanos e os chineses. Os negros são inferiores aos asiáticos. E nos cimentos da pirâmide racial estão os árabes, junto aos cimentos se encontram os ciganos e, por último, no fundo, à margem do conceito de raças aptas para a vida, estão os judeus, que segundo a terminologia hitlerista são "sub-humanos", "uma raça irremediavelmente viciada e que segue envenenando a outras raças viáveis".

Contudo, a definição de "ariano" na Alemanha nazista seguiu sendo tão imprecisa quanto premeditadamente vaga era também sua concepção na doutrina de Hitler, que utilizará o "arianismo" segundo as circunstâncias biopolíticas ou geopolíticas de cada momento em benefício de sua política racial e expansionista. Em princípio, a condição de "ariano" se predicava a qualquer alemão que não fosse judeu ou negro, nem de origem africana ou asiática, nem tivesse ascendentes de tais raças até a terceira geração. Mas esta circunstância pôde aplicar-se, em função dos acontecimentos da política internacional e da marcha da guerra, a todos os europeus que não tivessem tal ascendência, de tal forma que tão "ariano" podia ser um alto e loiro escandinavo, como um escuro e vivaz mediterrâneo.

Na prática quotidiana da Alemanha nazista, não obstante, a condição de "ariano" se media, não tanto atendendo a determinadas características antropológicas de origem, como ao grau em que uma pessoa podia demonstrar sua utilidade e serviço à comunidade racial alemã, de tal maneira que a pretendida pureza racial, deixando à margem o âmbito particular das SS, dependia exclusivamente do capricho da hierarquia nazista para decidir quem podia ser considerado como arianos puros ou não. Bastava que um alemão classificado como "racialmente ariano" se comportasse como um dissidente ou manifestasse qualquer dúvida perante o regime para que, imediatamente, fosse considerado como um "bastardo judaizado", ao menos de um ponto de vista espiritual e ideológico.

O antropólogo-raciólogo oficial do regime Hans F.K. Günther descrevia assim o que não sera senão um anseio: "A questão não radica em sermos mais ou menos nórdicos; a pergunta que devemos nos fazer é se temos ou não a valentia de legar às gerações futuras um mundo capaz de se purificar no sentido racial e eugênico". Tratava-se, nada mais e nada menos, que de um movimento orientado à "nordicização" (Aufnordung): "o movimento nórdico pretende voltar a despertar no povo alemão a força criadora que antes possuiu o germanismo, e isso se conseguirá por meio de um triunfo na natalidade dos elementos germânicos, isto é, de caráter nórdico". Os líderes nacional-socialistas, especialmente o próprio Hitler, eram perfeitamente conscientes de que o povo alemão não constituía uma raça pura e, muito menos, nórdica, pelo que essa foi adotada como um "modelo racial ideal" ao qual se devia chegar por todos os meios da ciência eugênica e da seleção racial. E a antropologia se converteu assim na ferramenta propagandística que clamava pela purificação da raça alemã. O ambicioso sonho nazista era transformar substancialmente a natureza biogenética do povo alemão.

Não obstante, o mito ário não foi nunca abandonado. Ao fim e ao cabo, aqueles povos ários, indo-germânicos ou indo-europeus, de origem nórdica, que com o contato com as culturas autóctones, provocaram, segundo o discurso nazista, o nascimento de grandes civilizações na Índia, Pérsia, Grécia, Roma e, inclusive, para os ideólogos afeitos ao nazismo, também no Egito pré-dinástico, China e as misteriosas culturas pré-colombianas, assim como a maioria dos Estados europeus medievais surgidos após as invasões germânicas, deviam se encontrar presentes, em maior ou menor medida, na composição biogenética de todos os povos europeus. E isso havia culminado na civilização europeia ocidental exportada a todos os continentes. Dessa forma, a "germanidade" se convertia no nexo comum que unia a todos os povos europeus e, em consequência, deviam ser os alemães, os mais puros representantes dos antigos germânicos, os chamados a cumprir a missão de unificar a Europa sob seu domínio racial e espiritual (Herrschertum).

Desde logo, as diversas ondas migratórias dos germânicos (Völkerwanderung) se estenderam desde os fiordes nórdicos até o mar mediterrâneo e as estepes russas. Eram germânicos os vândalos que passaram pela Península Ibérica e ocuparam de forma efêmera o Cartago no norte da África, como também o eram os visigodos (ou talvez fossem bálticos?) e os suevos instalados na Hispânia, os francos e burgúndios que deram lugar ao Império Carolíngio, os ostrogodos e os lombardos na Itália, os anglos, saxões e jutos que invadiram a Grã-Bretanha e, é claro, os alamanos, os saxões, os turíngios, os bávaros e outros povos que provocaram o nascimento dos países de língua alemã (Áustria e Alemanha), ou como os frísios, os holandeses, os dinamarqueses, os suecos e os noruegueses que ficaram perto de seus lugares de origem. Em todos os casos, salvo no norte da Europa, nas regiões escandinava, alemã setentrional e báltica, onde formarão o contingente humano majoritário, os germânicos se encontrarão em franca minoria em relação às populações autóctones, inferioridade quantitativa que souberam compensar privilegiadamente mediante sua constituição como uma aristocracia de sangue, uma casta senhorial e nobiliárquica somente apta para a arte de governar e fazer a guerra.

Posteriormente, se produziram vários episódios de re-0germanização da Europa: germânicos eram os povos nórdicos, conhecidos como normandos ou vikings, que voltaram a invadir as Ilhas Britânicas, ocuparam o noroeste da França (Normandia) e colonizaram a Islândia e a Groenlândia até alcançar o continente americano; germânicos nórdicos eram também os "rus" que fundaram os primeiros principados russos, os que se apossaram da ilha da Sicília e os que formaram a guarda "varyag" em Bizâncio. Germânicos, se bem que agora exclusivamente alemães, os que sob o auspício do Império e o ímpeto expansionista da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos germanizaram extensas regiões da Hungria, Boêmia, Morávia, Eslovênia, Romênia, Polônia e os Países Bálticos; germânicos prolíficos, sem dúvida, que chegaram a constituir a República dos Alemães do Volga na extinta União Soviética. E, enfim, germânicos eram também (majoritariamente anglo-saxões, escandinavos, holandeses e alemães) os europeus que colonizaram a América do Norte, a África do Sul e a Austrália.

O denominador comum a todos eles são bem conhecidos: o expansionismo militar ou colonizador, a conservação do patrimônio biogenético mediante uniões intrarraciais e o estabelecimento de uma hierarquia sócio-racial que convertia aos germânicos em uma autêntica aristocracia, nobreza de sangue, e aos "inferiores" povos coabitantes, fossem ameríndios, africanos, semitas ou aborígenes australianos, em vítimas propiciatórias dos deslocamentos, submissões, da exploração ou do extermínio.

Pois bem, voltando àqueles povos primitivos de uma suposta raça nórdica - arianos, tochários, dórios, jônios, aqueus, macedônios, trácios, dácios, frígios, ilírios, latinos, celtas, bálticos, eslavos e germânicos - observamos retrospectivamente seu insistente costume de instalar-se, como uma aristocracia de senhores e guerreiros, nas culturas euro-mediterrâneas e indo-arianas, submetendo ou escravizando a seus povoadores, mas mantendo uma autêntica separação ou segregação racial a fim de preservar suas características étnicas (dórios espartanos, patrícios romanos, brâmanes hindus, nobres germânicos), até que as implacáveis leis da convivência humana impuseram a mestiçagem racial, a hibridização cultural e, por fim, a inevitável decadência racial e espiritual que, segundo Gobineau, acaba com todas as civilizações. Milhares de anos depois, o movimento nazista se propôs a recuperar a figura nórdica do ariano criador, conquistador, dominador e escravizador. E para culminar essa obra, o povo escolhido não podia ser outro que o germânico, o mais puro dos antigos nórdicos.

O fato histórico transcendental, que provocou tal explosão ideológica, é que em torno ao 5º milênio a.C., começa a grande expansão, a Grosswanderung, desde o norte da Europa, de uns povos aparentados cultural, linguística, religiosa e, nos arriscamos a supôr, também antropologicamente. Invadirão, em sucessivas ondas migratórias, toda Europa, chegando ao Mediterrâneo e ao norte da África, assim como às atuais Turquia, Armênia, Curdistão, Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia e a parte ocidental da China. Fundarão, em contato com as populações autóctones de origem euro-mediterrânea e afro-asiática, as grandes civilizações que são fundamento do mundo que hoje conhecemos. São povos de guerreiros e conquistadores, que praticam um tipo de nomadismo depredador e que dominam a arte e o ofício da guerra, com suas armaduras, escudos, espadas e machados, a montaria de cavalo e a carruagem de combate. Se impõem com facilidade aos povos submetidos, pacíficos, sedentários e agrícolas que vivem, com escassa proteção, em vales, planícies, estepes e litorais, próximos aos mares, lagos e leitos de rio sobre os quais giram suas concepções domésticas da vida.

A chegada desses invasores implica em uma mudança notável: a sociedade se torna hierárquica, em cuja cúspide se situam os conquistadores, os quais, durante muito tempo, praticam uma separação radical, racial, social, cultural, confessional, com os indígenas, quando inauguram uma organização tri-funcional (senhores, guerreiros e camponeses ou servos) e um tipo de assentamento em forma de cidades fortificadas que se situam nos altos promontórios naturais. Os testemunhos dos povos submetidos nos legaram numerosas descrições de seu aspecto físico: altos, fortes, loiros e de olhos azuis. Descrições que, saltando as distâncias, correspondem ao tipo nórdico atual e que, obviamente, devem ter surpreendido, por pouco comuns, aos povoadores periféricos do mundo civilizado de então, de pequena ou média estatura e traços escuros. Mas, realmente, de onde vinham estes conquistadores? Quem eram? Como eram?

Uma Língua, Um Povo, Uma Pátria

Gustav Kossinna, e posteriormente também Adriano Romualdi, pensava que "a raça nórdica dolicocéfala deve ter se desenvolvido a partir dessas duas raças do Paleolítico Superior, a de Cro-Magnon e a de Aurinhaque-Chancelade, durante o começo do Neolítico ou o Mesolítico que segue à glaciação e se considera o início da Idade da Pedra". De fato, a arqueologia documenta um deslocamento do elemento cro-magnoide da Europa ocidental na direção do Báltico. Outros, como Hans F.K. Günther, negavam que a raça nórdica fosse o resultado de uma evolução, ou mais tecnicamente, de uma adaptação, do Cro-Magnon, que podia dar lugar à raça dálica ou fálica (dalo-faelid), sendo mais provável a mutação da Aurinhaque no território livre de gelo da Europa central. Mas ambos aceitaram de forma acrítica que os falantes da língua indo-europeia original pertenciam a uma raça nórdica de homens altos e loiros, que viviam na antiga região alemã e que em sucessivas ondas, invasões e conquistas levariam o progresso cultural, unido à superioridade biológica, às civilizações clássicas.

No que estavam de acordo, de Otto Reche a Hans Günther passando por Kossinna, é que foi a Europa do último período glacial o berço da raça nórdica e, portanto, dos indo-europeus, sendo ademais na atualidade, algo que passam por alto muitos autores, a região do mundo em que, à margem de outras migrações mais recentes, se encontra em maior número e com maior fidelidade o tipo humano nórdico, enquanto que a área que vai da Ásia Menor até a Ásia Central foi, frequentemente, a tumba de numerosos povos indo-europeus (hititas, anatólios, armênios, frígios, tocharianos, arianos e indo-iranianos em geral), na qual foram fagocitados deixando, talvez, sistemas linguísticos, organizações hierárquicas ou certas tradições religiosas, mas não seus traços físicos e antropológicos.

Concluindo, podemos aventurar, sempre no terreno da especulação história e não no da constatação antropológica e arqueológica, que o tipo de "homo sapiens" desenvolvido na Europa, seja o de Cro-Magnon ou o de Aurinhaque, apareceu em algum lugar da região compreendida entre os mares Báltico e Negro, originando as primeiras povoações pré-indo-europeias: as que permaneceram em seus lugares de origem, dando lugar ao tipo europeu oriental "caucásico"; as que emigraram para o sul da Europa em busca de terras férteis, que seriam os ancestrais do tipo europeu ocidental "mediterrâneo"; e as que emigraram para o norte à caça de animais conforme o gelo ia retrocedendo e descobrindo novas terras inóspitas, que seriam os antepassados do tipo europeu "nórdico". Nessa pátria secundária de neves perpétuas e tênues luzes adquiririam os traços físicos que, segundo parece, caracterizaram os povos indo-europeus que, posteriormente, certamente coincidindo com outra época intermediária de clima glacial, emigrariam novamente para o sul, chegando ao Mediterrâneo, e para o leste, alcançando o Índico, misturando-se com as populações pré-indo-europeias que lhes precederam.

A seguinte exposição não deixa de constituir mais uma hipótese, mas cumpre perfeitamente o papel de ponto de partida para compreender o complexo processo de formação e posterior migração de determinados conjuntos étnicos que a linguística englobou em torno ao conceito de "indo-europeus". Pois bem, em torno ao ano 13.000 a.C. começa o grande degelo no norte da Europa. Até o ano 10.000 a.C. os gelos já haviam se retirado até a área norte da região de Hamburgo; no ano 9.000 a.C. o gelo libera a região de Copenhague e no 7.500 a.C. a área de Estocolmo, completando-se o degelo e formando-se o mar Báltico; posteriormente, por volta do 5.500 a.C., a terra livre do gelo se eleva e as águas liberadas ocupam as zonas baixas, originando o mar do Norte e separando as Ilhas Britânicas e Escandinávia do resto do continente.

Os proto-nórdicos (pônticos, caucásicos, danubianos?) seguem às manadas de animais que migram para o norte, assentando-se na Europa setentrional, caçando e pescando, até que surge a agricultura neolítica oriunda da Ásia Menor, que penetra pelos Bálcãs e através do Mediterrâneo, alcançando o Danúbio e posteriormente o Báltico meridional. Os povoadores da cultura dos "campos de urnas" (Urnenfelderkultur) não constituem todavia um povo indo-europeu definido, mas um conjunto ainda indiferenciado dos paleo-europeus que permaneceram em seus lugares de origem, mas que até o ano 1.400 a.C. vão adquirindo uma fisionomia própria: ilírica, céltica, itálica, germânica. Começa então a grande migração para o sul, a Grossewanderung, e posteriormente, no período 1.200-1.000 a.C., partindo do Cáucaso e passando por Irã e Afeganistão, os indo-iranianos, dos quais os arianos seriam apenas um grupo diferenciado, chegam à Índia. Seu caráter guerreiro, a simbologia solar da suástica, a lembrança de uma pátria nórdica ancestral e seu característico blondismo, os converterão em um útil instrumento para construir uma mítica identificação com os jovens povos germânicos. Quanto à pátria originária (urheimat), segundo Alain de Benoist, existem atualmente duas teses majoritárias. A primeira delas é a nórdica ou germânica. Assim entenderam Hermann Wirth e Karl Penka, a quem devemos a equação "indo-europeu = dolicocéfalo loiro de olhos azuis", e para os quais a zona do Báltico não podia ser a pátria originária por estar habitada por "braquicéfalos racialmente inferiores", distintos dos autênticos arianos, "raça poderosa e enérgica como é a raça loira". Penka afirmará que "os arianos puros só estão representados por alemães do norte e pelos escandinavos, uma raça muito prolífica, de grande estatura, força muscular, energia e coragem, cujos esplêndidos atributos naturais lhes permitiram conquistar a raças mais fracas do leste, sul e oeste e impôr sua língua aos povos submetidos".

A segunda escola majoritária, que é também a mais corroborada pelas descobertas arqueológicas, defende a tese de uma pátria russo-meridional. A lituana Marija Gimbutas, seguindo este caminho, propôs as estepes do sul da Rússia, do Volga, como pátria original, utilizando o conceito da "cultura dos kurgans" (a primeira manifestação conhecida da cultura dos túmulos funerários) desenvolvida por volta do 5º milênio a.C. e que teve vários movimentos migratórios: 1) por volta do 5º milênio a.C. (ao redor do 4.400) a primeira onda alcançou a Europa balcânica e danubiana; 2) no milênio seguinte (entre o 3.500 e o 3.000 a.C.) se produz um deslocamento duplo, pelo Cáucaso rumo ao domínio indo-iraniano, por um lado, e rumo a Europa central, pelo outro; 3) no 3º milênio a.C. teve lugar uma penetração, que não seria a última, na direção do Mediterrâneo, alcançando a península anatólica e o noroeste africano.

Para Alain de Benoist, não obstante, as teorias sobre a localização de uma pátria original russo-meridional ou euro-setentrional não são irreconciliáveis. Para Ward Goodenoug, a cultura dos "kurgans" de Gimbutas não seria senão a extensão pastoril da cultura indo-europeia desenvolvida no norte da Europa; uma parte desse povo, depois de destruir a cultura paleolítica europeia, teria descido para o sul (o povo do machado de guerra) difundindo a cerâmica polida e a metalurgia do bronze. Os restos étnicos que permaneceram na Europa central formariam os contingentes das migrações posteriores. Essa teoria obteve a aprovação de um dos autores mais especializados na questão indo-europeia, James Mallory, que situa o lar ancestral em uma zona delimitada entre os rios Elba e Vístula, margeando ao norte com a península da Jutlândia e ao sul com os montes Cárpatos. Enquanto isso, a tese nórdico-europeia tem sido aceita, em datas recentes, por Harold Bender, Hans Seger, Schachermeyer, Gustav Neckel, Ernst Meyer, Julius Pokomy e, mais recentemente, por Nicolás Lahovary, Paul Thieme e Raim Chandra Jaim.

Em qualquer caso, ainda que a questão da pátria de origem dos povos indo-europeus siga sendo objeto de debates linguísticos e arqueológicos polêmicos e interessantes, a teoria sincrética que provoca menos rechaço entre os estudiosos situaria a urheimat na extensa zona compreendida entre o mar Netro e o Báltico, epicentro indo-europeu a partir do qual se deslocariam os vários povos em todas as direções, alguns deles avançando lentamente para o norte da Europa, consolidando uma série de povos nórdicos com o característico fenótipo claro e dando lugar a uma etnogênese que conformaria posteriormente os distintos conjuntos tribais proto e indo-germânicos. O outro grupo separado do tronco original, importanto também quantitativamente, se assentaria em todos os cantos do sul da Europa, adquirindo o fenótipo mais escuro típico dos povos mediterrâneos, matizado posteriormente pelas contribuições dos povos vindos do centro e norte da Europa.

O "problema indo-europeu" foi realmente uma questão de identidade estritamente europeia. Quando ainda se acreditava que a luz civilizadora vinha do Oriente, apareceram os "arianos" como povo originário e primigênio (ariervolk), cujas migrações posteriores para o Ocidente teriam colonizado toda Europa. Conforma ia se desprestigiando a crença em uma exótica origem asiática e se abria caminho para as teorias eurocêntricas mais realistas, na Alemanha, possuída por uma quase divina predestinação de sua missão universal para salvar a humanidade, se adotou o nome de "indo-germânicos", unindo as duas ramificações extremas daquele povo misterioso (indo-iranianos no leste, germânicos no oeste) que, posteriormente, fundamentando-se nas descrições físicas que os autores clássicos faziam dos indivíduos (altos, fortes, loiros e de olhos azuis), confirmadas pelas provas arqueológicas e antropológicas encontradas na Escandinávia, Alemanha setentrional e Báltico, então os nazistas cunharam a denominação exclusiva de "nórdicos", aproveitando que o Reno passa pela Germânia, como havia escrito um Tácito latino ofuscado pela decadência dos romanos frente à vitalidade dos bárbaros germânicos.

O "arianismo" teve em suas origens umas conotações românticas que pretendiam enviar uma mensagem moralizante sobre a decadência da cultura ocidental em comparação com o estado puro e virginal de uma civilização ariana anterior à história, mas não pré-histórica, senão para-histórica. O germanismo mais radical, não obstante, se apropriou da origem indo-europeia para proclamar e reivindicar seus direitos ao domínio mundial, convertendo o povo originário, mediante uma transmutação biogenética, na raça nórdica de senhores e conquistadores, selecionados naturalmente para a "arte de governar e fazer guerra". Estamos irremediavelmente diante de um autêntico "mito europeu", que começou fragilmente sua caminhada das mãos do darwinismo social para legitimar, entre as classes políticas e intelectuais, o supremacismo branco cúmplice do colonialismo depredador e das políticas discriminatórias, que faziam do europeu, especialmente dos nórdicos, o "prometeu da humanidade" (para empregar a conhecida expressão hitlerista) frente aos "escravos de uma sub-humanidade" luciferiana despossuída da evolução divina.

Dessa forma, no extremo oriental ocupado pelos "indo-europeus", nos encontramos com um povo misterioso que se denomina com o termo endoétnico "aryas", com o sentido de "nobre", ainda que haja autores, como o indólogo Paul Thieme que embaralham um termo exoétnico com o significado de "estrangeiro". Em todo caso trata-se dos conquistadores da Pérsia (Irã), Afeganistão, Paquistão e Índia. O livro sagrado Rig Veda reflete que se designavam a si mesmos com esse nome popular. O Avesta fala do Airyanem Vaejah (pátria solar dos arianos). Durante o Império Aquemênida, séculos mais tarde, os habitantes do Irã (evolução de Aryan) ainda utilizavam denominação idêntica e de alguns personagens se dizia que eram "arya-cica" (de origem ariana) ou "arya-putra, arya-kanya" (como títulos senhoriais). O nome do bisavô de Dario era Ariyaramma, e o próprio Dario se considerava "de estirpe ariana, rei dos arianos". O termo teria perdurado no nome moderno do Irã, também no da Irlanda (Eire) e no de Ironistão, nome que dão os ossetas caucásicos, descendentes dos alanos indo-iranianos, a sua pátria (em sua língua se chamam "iron"). No extremo ocidental, ademais, se conservou a denominação de "arianos" em alguns antropônimos como o celta "Ariomano", os germânicos "Ariovisto", "Ariomer" ou "Ariogais", o escandinavo "Ari", o celtibérico "Arial", o gótico "Ariarico", o latino "Ariolus" e, inclusive, os gregos "Ariel", "Arianna" e "Aris".

Um inciso. Em relação ao conceito de "indo-europeu", introduzido pelo britânico Thomas Young, tecnicamente impreciso, mas que teve a sorte de substituir ao de "indo-germânico", cuja utilização nacionalista e racista na Alemanha durante o Segundo e Terceiro Reich o condenou ao ostracismo, há que sublinhar que não deixa de ser uma construção artificiosa e imprecisa, sendo preferíveis, em qualquer caso, os de "alt-europeu" ou "paleo-europeu", no sentido de "europeu antigo", para designar o grupo étnico originário, enquanto aquele ficaria reservado ao âmbito da linguística comparada.

Fundamental na construção do mito ariano foi o romântico alemão Friedrich Schlegel, que pode ser considerado como o fundador da "indo-germanística". Estudioso do sânscrito e, por extensão, de todas as línguas indo-europeias aparentadas, em uma época em que se acreditava que a origem da raça branca estava no norte da Índia e que logo irradiou por todo Ocidente, parece que foi o criador do termo "ariano", fazendo-o derivar do sânscrito "arya", com suas notáveis correspondências no grego "aroi", relacionado com o de "aristós" (nobreza) e o de "areté" (virtude), o latino "herus" (senhor), o irlandês "air" (honrar) ou o alemão "ehre" (honra) ou "herr" (senhor). Durante todo o século XIX, os linguistas passaram da defesa da origem asiática desses povos para situá-lo em distintos lugares da Europa: a zona caucásica, as estepes russas, a região danubiana, os países bálticos, o setentrião alemão, a península escandinava, etc.

Posteriormente, o hindu Lokamanya Bal Gangadhar Tilak, baseando-se em uma série de tratados e rituais védicos (o Devayana e o Pitriyana), chegava a conclusões radicais sobre o lugar de origem dos arianos, que descreviam uma divisão do ano em duas partes, uma indeterminada e outra clara, como nas zonas polares onde se conhece um dia e uma noite de seis meses cada uma (seis meses de claridade e seis meses de escuridão, como nas regiões setentrionais). De fato, o Avesta informa igualmente que, na pátria originária dos arianos, o inverno contava com dez meses, enquanto que o verão só contava com dois. Para desenvolver sua tese, Tilak recorria também a inúmeros mitos gregos, romanos, germânicos, eslavos e indianos, que mencionavam uma região primitiva ártico-hiperbórea ou circumpolar, nas regiões próximas ao pólo ártico, caracterizada por uma noite interminável, na qual os estrangeiros conquistadores da Índia deviam ter tido seu primeiro lar.

Por sua parte, o Rig Veda descreve as lutas dos "aryas" (grandes, belos, de belo nariz) com os "dasyus" (pequenos, negros, sem nariz). Distingue entre uma "aryavarna" (cor ariana) e uma "dasavarna" (cor inimiga) ou um "krishanavarna" (cor escura). Os arianos são loiros, "hari-kesha" (de cabeça loira) ou "hari-shmasharu" (de barba loira), ou simplesmente "hari" (os loiros). Também os deuses e os heróis homéricos são descritos como loiros ou de cabelos dourados como o sol, de pele branca como a neve e de olhos com a íris azul como o céu. E assim também os latinos romanos, cujas primeiras elites (os ascendentes dos patrícios) mostravam um acentuado blondismo no cabelo ("rutilus", avermelhado, ou "flavus", loiro), olhos azuis ("caesius") e estatura elevada ("longus") que, por outra parte, impregnaram o ideal estético romano.

Dessa forma, o tipo físico predominante entre os antigos povos indo-europeus, dos arianos aos germânicos, se converteu logo em objeto dos comentários dos escritores clássicos, que eram coincidentes na notoriedade de seus corpos altos, ágeis e musculosos, pele branca-rosada, cabelos loiros ou ruivos e olhos azuis, no entanto, isso deve ser posto em relação com a novidade que seria para os olhos dos observadores mediterrâneos, de pigmentação escura, com a descoberta de traços físicos tão distintos aos seus, ainda que, sem dúvida, eram também os que correspondiam ao cânone da beleza clássica, certamente imposto pelos conquistadores nórdicos anteriores como os helenos, os ilírios e os latinos. Em qualquer caso, essas descrições corresponderiam ao elemento mais visível desses conjuntos populares multitribais, isto é, aos nobres chefes e guerreiros, dadas suas práticas endogâmicas, mas não ao resto da população, que seria o resultado de um amálgama multiétnico muito distante já do Herrenvolk (raça de senhores) glorificado pelos antropólogos afeitos ao nazismo.

Mas o mito já estava servido: o debate sobre a pré-existência de uma humanidade "ário-nórdica" superior, aberto talvez prematuramente, e fechado abruptamente pelos interesses e objetivos de uma doutrinação secular dirigida às novas gerações, formadas em uma frágil consciência europeia e presas de uma suposta culpabilidade derivada da vitimização causada por um estigma racial que não se consegue compreender, nem interpretar, pelos parâmetros humanistas e racionalistas entre os que se desenvolve, e se revolve, a mal chamada civilização ocidental.

Mas realmente, existiu um nexo intra-histórico e ideológico comum entre Darwin, Schlegel, Gobineau, Chamberlain, Wagner e Hitler? A resposta deveria ser rotundamente negativa. Não obstante, a forma pela qual Hitler, que se considerava herdeiro da refinada cultura europeia de tradição greco-romana frente à rudeza dos costumes nórdico-germânicos, soube vulgarizar, sintetizar, popularizar, ideologizar e, finalmente, explorar as constantes vitais da "arianidade" em busca de seus objetivos "bio-geo-políticos" de expansão territorial, colonização racial e dominação mundial, poderia nos fazer pensar na tangibilidade desse condutor inexorável a que chamamos destino. Algo em que crê o autor, ainda que a história, em ocasiões, esteja condenada a se repetir.

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