07/11/2015

Katehon - Parceria Transpacífico

por Revista Katehon

Tradução Maurício Oltramari



A Parceria Transpacífico (TPP - Trans-Pacific Partnership) possui como objetivo minar a influência dos países do BRICS. Além disso, o tratado ameaça transformar-se no maior instrumento de influência das corporações multinacionais, não apenas na região, mas a nível mundial.

Nos Estados Unidos, chegou-se a um consenso para o estabelecimento da Parceria Transpacífico. É o maior acordo de livre comércio incluindo a América, Austrália e o sudoeste asiático
.
Estas são as doze nações:

Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Singapura, Estados Unidos, Vietnam.

É esperado que sua abrangência alcance um território habitado por 400 milhões de pessoas, representando 40% da economia mundial. O acordo é acompanhado por fortes críticas dos especialistas devido à atmosfera de mistério que o cerca. De fato, o texto do documento ainda não foi publicado.

O estabelecimento da Parceria Transpacífico foi feito em segredo. Ele inclui doze países dos dois lados do Pacífico. O centro, é claro, é ocupado pelos Estados Unidos da América, que busca fortalecer sua influência na região. Não é segredo que no mundo moderno a economia é um dos instrumentos utilizados para alcançar dominação geopolítica. Em primeira instância, o acordo da Parceria Transpacífico é um golpe desferido contra a China.

A Parceria Transpacífico está estabelecida como uma união econômica. No entanto, esse tipo de associação sempre traz implicações geopolíticas. Vamos entender porque foi necessário estabelecer associações naquela região. Doze estados, que entraram na parceria para formar um anel de abrangência transcontinental que se estende do polo Norte ao polo Sul. Incluindo 40% do comércio mundial. Oficialmente, os membros da parceria buscam a derrubada das barreiras comerciais. Porém, vamos observar quais são as consequências dessa união na esfera militar. Um passo importante na eliminação de barreiras – um espaço comum para a aviação civil. Para a comodidade dos voos livres é necessária a criação de uma zona identificada para a defesa aérea comum. Se isso ocorre, os americanos poderão mover-se secretamente pelo extenso espaço aéreo e atacar zonas internas da China, sem aproximar-se da costa do país.

Isso implica cortar os meios de expansão da China em direção ao Sul. Um envolvimento da Malásia na área onde os EUA dominam permite controlar o estreito de Malaca, que serve como rota comercial para a Europa e por onde passa o fornecimento de petróleo para o Japão. Portanto, a China é privada da oportunidade de tornar-se mais forte no pacífico. Finalmente, a Parceria Transpacífico é o próximo passo executado pelos Estados Unidos para ditar sua vontade à Eurásia, e é a chave para conseguir a hegemonia mundial. O controle direto não pode ser obtido nas circunstâncias atuais. O que resta é confiar na artimanha do isolamento. A mais de meio século atrás os americanos construíram uma zona de influência no atlântico e no mediterrâneo. Agora é hora de tentar limitar a Rússia na área do pacífico. Nesse sentido, um cordão é a figura ideal para tentar empurrar e encurralar alguém.

Barack Obama: “Nós precisamos fazer todos os esforços para que os Estados Unidos estabeleça os princípios da economia mundial. Afinal de contas, se não formularmos as regras do comércio internacional, quem o fará? Evidentemente, a China.”

A atmosfera de mistério pode ser explicada. De acordo com especialistas, o acordo irá inevitavelmente destruir o negócio americano, levará ao aumento do desemprego e fará com que os países participantes tornem-se reféns das corporações multinacionais. A história nos relata alguns precedentes. A visita de Nixon à China foi em 1972. Antes que os Estados Unidos tivessem a tarefa de transferir a disputa –que na época era frente à União Soviética-  em direção à China, seu antigo aliado geopolítico. Os americanos investiram energicamente na economia chinesa. O número de americanos empregados na indústria caiu de 25% do total de empregados para 17%. Vinte anos depois a situação ficou ainda pior. Os indicadores caíram para 10%. Isto resultou no encerramento do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio no começo dos anos 90. Muitas das industrias dos EUA transferiram-se para o Canadá e México. O mesmo está acontecendo agora. Porém, na zona de comércio não há apenas um país ou dois, mas doze países. Os EUA sacrificando os interesses de seus próprios cidadãos para satisfazer as ambições geopolíticas de companhias multinacionais.

“O governo dos EUA é uma marionete, que está a favor e serve àqueles que possuem o dinheiro. Os principais acionistas do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos. Esse acordo, que legaliza a posição privilegiada e os direitos das corporações multinacionais, que, se acordo iniciar-se, irão ditar seus termos aos países.” 

A aliança econômica tem como objetivo minar a influência dos países do BRICS, especialmente China, Rússia e Índia. O histórico pacto entre os países do Círculo do Pacífico demonstra o quanto a Índia –apesar de seus esforços para modernizar e abrir sua economia, a terceira maior da Ásia- acabou ficando para trás de seus vizinhos no que diz respeito à derrubada de barreiras comerciais.

A Índia ficou de lado enquanto ocorriam as longas negociações das doze nações que compõem a Parceria Transpacífico, ao mesmo tempo em que as autoridades do país focaram-se em promover outras parcerias comerciais. E ainda, um tratado de investimento entre os EUA e a Índia avançou timidamente enquanto os dois países discutiam à respeito dos direitos de propriedade intelectual e acessibilidade de mercado. Um acordo de livre comércio ficou estagnado por anos, com ambas as partes relutantes em abrir seus mercados agricultores.

À medida que seus maiores parceiros comerciais juntaram-se em blocos com tarifas reduzidas, a Índia arriscou-se a ficar isolada dos principais mercados em um momento em que o Primeiro Ministro Narenda Modi tenta acelerar o crescimento econômico e integrar o seu país nas redes de fornecimento globais.

Além disso, o acordo comercial ameaça tornar-se o maior instrumento de influência de corporações multinacionais, não apenas na região, mas também à nível mundial.

A razão pela qual o povo desses países ditos “democráticos” não saberá dos termos, até que quatro anos tenham se passado nesse acordo secreto, que seus governos assinaram, é que eles terão assinado para autorizar as corporações multinacionais a processar os seus respectivos governos (os pagadores de impostos), potencialmente por cifras assustadoras. Não em uma corte jurídica democrática na qual o público tenha elegido os juízes ou elegido as pessoas que apontariam os juízes. Ao invés disso, serão eleitos três árbitros, selecionados de acordo com algo chamado de “convenção CIADI”, e “a convenção CIADI estabelece que a maioria dos árbitros não deve compartilhar a nacionalidade das partes que discutem a causa” – em outras palavras: a maioria dos árbitros será de origem estrangeira; todos os árbitros, com exceção de um, serão escolhidos por corporações multinacionais, e o árbitro que não for escolhido por estes, não será necessariamente escolhido pelo país em a empresa está estabelecida. De qualquer maneira, apenas um dos árbitros poderá possivelmente ser escolhido pelo país em que a empresa está estabelecida.

Se o árbitro não corporativo acaba sendo selecionado por um país estrangeiro, então o país que disputa a causa não será representado em todos esses processos, que podem estabelecer multas que irão impactar profundamente a nação processada e enriquecer a corporação à frente do processo. Isso não significa necessariamente que a multa, se houver, será maior do que ela deve ser, mas simplesmente que não há contabilidade democrática no processo de determinar qual multa será imposta ao país processado.

Ademais, as decisões tomadas nesse cenário, diferente das decisões dos trinunais -nas quais é possível recorrer à sentença- não serão passíveis de recurso.

Além disso, nessa Parceria do Transpacífico nenhuma nação irá possuir o direito de processar qualquer corporação multinacional, enquanto estas podem, no proceder do acordo, processar unicamente a um governo nacional.

Finalmente, através da criação da Parceria Transpacífico o governo dos EUA está matando dois coelhos numa cajadada só. Por um lado, ele permite que as multinacionais estejam unidas por tempo indeterminado à elite americana. Por outro lado, tenta manter seu lugar como hegemonia global. Liberalismo americano requer sacrifício. E as vítimas são pessoas comuns, como as que saíram para protestar em todos os estados dos EUA, do Oregon à Carolina do Norte.  

Esaúl R. Álvarez - New Age: Pseudo-Espiritualidade e Contra-Tradição

por Esaúl R. Álvarez

Tradução por Maurício Oltramari



“What shall we use to fill the empty / Spaces where we used to talk? / How shall I fill the final places? / How shall I complete the wall?”. Pink Floyd, Empty spaces, do álbum The Wall (1979).

Tanto por parte da “elite cultural” de nossa sociedade como por parte dos meios que formam e dirigem a opinião do grande público, o fenômeno da new-age recebeu pouco ou nenhuma atenção. Desde sua pretendida superioridade intelectual se considera este um assunto de importância muito menor, algo pouco sério e próprio de frikis, carente de relevância social e pouco digno de tratar.

No entanto para qualquer observador atento a realidade do dia a dia contradiz este esquecimento voluntário, que como um véu de censura não reconhecido se impõem sobre o tema. O certo é que a new-age, sob a forma de uma pseudoespiritualidade vaga e confusa, está cada dia mais presente na vida cotidiana das pessoas e exerce sobre o imaginário do cidadão ocidental uma influência muito maior que todas as elucubrações teóricas provenientes de prestigiosos acadêmicos.

É evidente que boa parte deste “esquecimento” nasce da soberba intelectual com que o racionalismo exclusivista despreza tudo aquilo que não se inclui em seu âmbito. Esta pretendida superioridade que o cientificismo e o racionalismo mostram por qualquer exposição que transcenda seu reducionismo materialista impede abordar seriamente o estudo deste movimento em seu verdadeiro alcance social e analisá-lo como merece enquanto filho da pós-modernidade e fenômeno claramente antitradicional. 

Portanto, esse silêncio por parte dos meios considerados “sérios” não fazem outra coisa senão ocultar e mascarar uma realidade que está aí para qualquer um que consiga ver um pouco além da ficção elaborada por estes mesmos meios e que exerce uma influência social inegável.

Ao referir-nos à ocultação da new-age nos meios de opinião “sérios” que demonstram aquilo que deveria ser de interesse geral, nos encontramos em realidade diante da continuação da clássica divisão da existência moderna em uma “zona de luz”, dominada pela racionalidade exclusivista, e uma “zona de sombra”, na qual reinam o irracionalismo e a superstição e aonde não existe o mínimo rigor intelectual.

É preciso advertir que essa zona de sombra é consequência direta e inevitável do exclusivismo racionalista enquanto marginaliza regiões completas da existência humana por não considerá-las dignas de receberem atenção e serem estudadas quando vistas da centralidade do paradigma. Desse modo essa zona de sombra, que é como um negativo do iluminismo positivista e pragmático, fica abandonada nas mãos dos amigos do mistério e do oculto dando a oportunidade para que desenvolvam todo tipo de falsidades, pseudomitos e novas superstições. É nessa zona de sombra evidentemente aonde se desenvolve e habita a new-age, nutrindo-se de todos aqueles restos da experiência humana que a racionalidade hegemônica não assume, rechaça, despreza. 

Não é casual, portanto que o auge do ocultismo, o espiritismo e demais correntes obscurantistas como magia, bruxaria, adivinhação, assim como a recuperação de tradições antigas já extintas -correntes e modas que estão todas na origem da moderna new age-, teve lugar precisamente o tempo que triunfava violentamente o iluminismo e a deusa razão na Europa, nem tampouco que se reivindicaram  naquele período como uma espécie de primitiva “contracultura”, que defendia um “espaço de liberdade” frente ao puritanismo da época. Tampouco surpreende que aquelas incipientes correntes ocultistas pretendessem acabar com o dogmatismo religioso da mesma forma que se continua hoje a reivindicação por parte de todas as correntes new-age: uma nova era de pluralidade e liberdade. A partir de demasiados estrados temos escutado a mesma promessa...

Certamente essas pseudodoutrinas são muito mais inimigas de uma espiritualidade verdadeira que do cientificismo ou o materialismo reducionista, tendências das quais em realidade a new-age está repleta. Ou seja, ainda que possa parecer chocante à primeira vista, o obscurantismo e a superstição avançam a partir do ateísmo filosófico e racionalista e do preconceito antirreligioso.

Nada disso ocorre por casualidade e o papel sociopolítico que a “zona de sombra” do paradigma racionalista exerceu na história do ocidente não pode ser menosprezado, apesar do silêncio por parte da “ortodoxia intelectual”. E é assim ainda que a face que nos mostra a new-age seja sempre mutável: desde os “espíritos” incorporados daquelas já distantes sessões mediúnicas do século XIX até os mais modernos extraterrestres. 

Basicamente o papel exercido por esta zona de sombra foi duplo: 

De um lado oferecer um âmbito de expressão -e portanto de distensão- para tudo aquilo que a racionalidade hegemônica negava ou ignorava.

De outro lado, socavar a tradição autêntica e impedir qualquer aproximação séria ao tema. A new-age supõem a democratização da espiritualidade segundo o conhecido proceder moderno de mesocratização e de “igualar por baixo”.

*

Mas para ver a dimensão social que possui a new-age no mundo atual devemos analisar em primeiro lugar seu status de “conhecimento alternativo” com respeito ao paradigma epistemológico normativo imposto pelo núcleo iluminista e racionalista da modernidade. 

Já explicamos em outro momento como uma série de ideologias novas se apropriou no começo do século XIX do paradigma moderno definindo a nova episteme cultural e apontando assim quais seriam a partir de então os conhecimentos aceitáveis - a “zona da luz”- e quais deviam ser considerados inaceitáveis e ficavam portanto excluídos. Por mais surpreendente que possa parecer é só à sombra dessa episteme materialista e positivista -e anti tradicional- que a new-age pode desenvolver-se, simplesmente porque aonde existe uma tradição espiritual forte e sã -que abarca de modo compreensivo toda realidade humana em sua diversidade e serve de marco geral a qualquer conhecimento particular a superstição que impõem a new-age não tem lugar [1].

Pode apreciar-se então de que modo a new-age encontra acomodação na “zona de sombra” da qual já falamos. Se as ideologias políticas modernas e as preocupações de índole econômica ocupam o polo racional e a “zona de luz” do paradigma moderno, tudo aquilo que se considera mais pessoal e interior, psicológico ou emocional, esse enorme “espaço vazio” que deixou atrás de si o trabalho de destruição da pós-modernidade, fica do lado da zona de sombra. Prova disso é que não se trata em público desses temas, eles ficam relegados ao âmbito do privado, como a religião mesmo, segundo o ponto de vista profano.

Por esta razão a new-age se encontra nessa zona muito próxima às “novas psicologias” e com muita frequência elas se influem mutuamente. Em realidade, devido à carência de princípios teóricos instáveis, nada diferencia uma da outras, se trata unicamente de uma questão de prestígio social [2].

Resumindo, a new-age se situa -junto a outras disciplinas de conhecimento- à sombra da razão exclusivista no intento de preencher todos os vazios -sociais e anímicos- que atormentam ao homem moderno e é a cara oculta do paradigma moderno, cara oculta que de maneira paradoxal apresenta-se como um conhecimento “alternativo” que pretende revolucionar o paradigma em si mesmo.

New-age e a pós–modernidade

Antes de tratar os aspectos interiores que caracterizam a new-age, e que a configuram como uma pseudoespiritualidade dirigida a suplantar a espiritualidade autêntica e impedir o acesso dos homens e mulheres dessa época à esta espiritualidade, vamos analisar o seu caráter de sintoma cultural da pós-modernidade, pois a new-age constitui um de seus frutos mais acabados e como tal, alimenta o processo de desestruturação social e individual –a nível psíquico- em que está imerso o mundo ocidental.

Talvez o traço que mais se destaca à nossa vista em todo este aparente caos que é a new-age seja seu pronunciado ecletismo: um verdadeiro conjunto desordenado aonde se mesclam crenças, ritos e superstições das mais diversas procedências dando lugar a uma estrutura de aparência informe e difícil de definir. Esta aparência caótica, aonde se juntam desordenadamente ideias de toda procedência deve considerar-se como um “sinal dos tempos” próprio da globalização e da pós-modernidade. Mais adiante veremos que esta característica emparenta a new-age com outros fenômenos culturais não menos característicos deste momento histórico, mas que aparentemente são independentes e distantes.

A respeito de seu caráter de mosaico cultural, resulta evidente que um movimento como é o da new-age, só pode ter lugar em uma sociedade na qual as próprias tradições foram devastadas e, se não desapareceram por completo, são na melhor das hipóteses rechaçadas em massa pelos membros de sua sociedade, tal como é o caso da sociedade atual. A new-age é dessa forma uma consequência direta e previsível da perda das tradições e da extrema dissolução social que a pós-modernidade acabou por conduzir.

De maneira evidente a pós-modernidade inoculou um profundo auto-ódio no mundo desenvolvido em relação à própria “herança cultural” e um sentimento de inferioridade que se expressa neste afã através do progresso. Tudo isso se apresenta de manifesto através do pronunciado rechaço pelo passado, pela história e inclusive pelas mais simples tradições e folclores, por parte dos mesmos cidadãos ocidentais, completamente esvaziados de toda identidade grupal ou sentimento de pertencimento a uma coletividade. Neste sentido, é inegável que um dos objetivos evidentes do projeto da modernidade é o de converter o homem em uma mônada, atomizá-lo, o que só pode ser conseguido amputando-lhe as raízes e doutrinando-o pelo individualismo e o egoísmo mais extremos, ou seja, privando-o definitivamente de sua história e seus antepassados [3]. 

É só através desse processo de “apagar” a identidade pessoal que é possível preencher o vazio de identidade com formas culturais pré-fabricadas pela “indústria cultural” global, que elabora um mosaico a base de peças alheias e exóticas. Esse processo de esvaziar o próprio e destruir toda herança cultural para preencher o vazio com tudo aquilo que seja estranho e distante é o que temos denominado em outras ocasiões “cultura do palimpsesto” [4].

Esse esvaziamento da identidade social que padeceu o Ocidente ao longo do último século teve por efeito desconstruir o cidadão ocidental enquanto sujeito social e político -como parte de uma coletividade- fato pelo qual o sujeito se vê impelido a buscar fora de sua sociedade a identidade e a comunidade que esta lhe nega. Tudo isso se conecta com a ilusão, tão extensa quanto falsa, de que é imprescindível a autoconstrução ativa de uma identidade “a bel-prazer” por parte do sujeito. 

O ecletismo “multicultural” da new-age é igualmente inseparável de outros caracteres da pós-modernidade, como por exemplo, a inclinação, tão exagerada como superficial, do homem ocidental pelo exótico. Esse pronunciado gosto pelo estranho, distante e exótico que apresenta a sociedade ocidental –e que supõem toda uma rareza histórica- é resultado direto da demolição da própria cultura, acompanhando desse sentimento de desenraizamento e des-identificação com o próprio passado. Certamente, e tanto a nível individual quanto coletivo, quando ama-se o próprio dificilmente abre-se a porta para o alheio. 

É assim que deve analisar-se o fenômeno, centrifugador e sintomático aonde se encontra, do turismo de massas e essa irrefreável necessidade do homem moderno por imiscuir-se nas demais vidas e culturas.

O fenômeno do turismo de massas é em sua dimensão psíquica bastante distinto das clássicas “férias” ou o “veraneio” de outrora e certamente ambos fenômenos designam o protótipo do homem de sua época. É preciso considerar em primeiro lugar que o verão -o período entre a colheita e a vindima para os povos europeus tradicionais- é o tempo do descanso por antonomásia. As “férias” eram um fato próprio do proletariado que aproveitava esse tempo para regressar a sua origem -a que de maneira comum se referia como o “povo”-, juntar-se com a família e sobretudo poder entregar-se a um ócio ou a uma moleza que o embrutecedor ritmo de trabalho fabril lhe impedia durante o resto do ano. Desse modo as “férias” eram entendidas sobretudo como uma liberação e uma desconexão do ritmo urbano da máquina, que permitia recarregar as energias.

No entanto, a natureza do atual turismo que alguns chamam cultural, mas que seria mais acertado qualificar de compulsivo, não é em absoluto uma fuga do stress urbanita ou do ritmo antinatural de trabalho que consome o tempo, como se pretende. E não o é porque o homem pós-moderno carrega a sua velocidade e o seu ritmo de máquina aonde quer que vá, de tão interiorizados que estão. Isso é uma mostra contundente do nível de centrifugação psíquica que padece o ocidental atual: o turismo compulsivo é uma atividade de índole profundamente rajásica e superficial, completamente exterior que se intenta justificar com os mais grosseiros argumentos como “viajar é aprender de outras culturas”, o que nos torna mais sábios e melhores... O mito da cultura como acumulação de experiências e informação.

Por outro lado a obsessão por ver e tocar de maneira efêmera uma realidade distante, que pouco nos incumbe e da qual nada entendemos -ao modo de quem visita um zoológico, mas de algum modo especular, pois quem está fora do lugar é o turista, o que converte o mundo em um grande parque temático- só se sustenta pela obsessão complementária de registrar todas essas experiências e vivências, pois sem essa perversão da memória aquela obsessão careceria de sentido.  Por isso não é de estranhar-se que frequentemente nossos contemporâneos regressem de suas compulsivas e centrifugadoras atividades turísticas ainda mais esgotados e estressados do que partiram. Tudo isso daria sem dúvidas para mais reflexões, começando pela simples constatação de que o homem moderno se aproxima do mundo já como um mero espectador e o vê como um espetáculo mais, sem participar dele.

Resumindo, a febre pela viagem que sacode o mundo ocidental, ainda que esteja muito adornada de multiculturalismo, cosmopolitismo e solidariedade com os povos “em desenvolvimento” -bonito eufemismo para dizer que estão à caminho de tornarem-se iguais a nós- não pode ocultar o auto-ódio, a decepção e a frustração frente à realidade social e cultural. É o modo mais acabado pelo qual o ocidental infecta o resto do planeta, aparentemente de forma pacífica, sem a violência das armas, mas com a violência do dinheiro e da soberba cultural. Estamos frente a um homem sem centro, um átomo sem rumo que se move segundo os ditados que lhe mostra o mercado e a imprensa dominical, as poderosas deidades que escrevem seu destino e dizem ao homem o que é digno desejar e consumir na nova ordem mundial. 

Tanto a ânsia por buscar [5] -pouco importa se se trata de “novas experiências” de consciência ou novos lugares- como o interesse exclusivo pelo exterior e pelos fenômenos -que devem em todo caso ficar convenientemente registrados- denotam a origem comum que emparenta ambos fenômenos: a febre turística e a new-age.

Estamos, portanto diante de manifestações de uma mesma realidade, o desenraizamento e a centrifugação, tendências que não duvidamos em incluir como parte de um problema psicológico maior que aprisiona o homem moderno.

II

New-age e pseudo-espiritualidade

Até aqui temos visto de que modo a new-age está enraizada com as tendências mais dissolventes e próprias da pós-modernidade:

Aproximar o que é mais distante, ao que se outorga uma áurea especial como se fosse melhor por ser estranho e exótico.

Distanciar e desprezar o próprio, o qual se despreza em primeiro lugar por ser próprio.

De fato parece haver uma inclinação não somente para culturas e tradições distantes no espaço senão também e talvez especialmente aquelas distanciadas no tempo, o que leva a tentar reconstruir ou ressuscitar restos de tradições desaparecidas, com a conseguinte perversão das mesmas pois não podem ser compreendidas em absoluto a partir da perspectiva moderna. De outro lado enquanto se carece da necessária continuidade em sua transmissão pode dizer-se que qualquer trabalho que se faça com as mesmas está destinado ao fracasso e é em si mesmo contratradicional.

Os exemplos mais evidentes do que dizemos são os casos do Egito e a nova e surpreendente moda do neopaganismo. Ambas tendências possuem uma forte presença nos círculos new-age. No caso do Egito é particularmente significativo, pois parece recorrer todo o ocultismo e a “zona de sombra” a partir de sua própria origem, lá pelo século XVIII -o “século das luzes”...- até a atualidade. Egito e seus deuses parece que nunca passam de moda, e sua estatuária tem sido reivindicada tanto por tendências relativamente ingênuas que não passam do ridículo como por desvios ocultistas maléficos sob todos os aspectos.

A “revitalização” de entidades passadas não deixa de encarnar sérios perigos, pois todas as tradições advertem que os deuses passados e vencidos se convertem em demônios para as civilizações que os substituem. Isto, além de servir de reflexão para mais de um incauto, é suficientemente significativo acerca de que influências empurram e movem toda essa nova espiritualidade tão vaga como inquietante e que como dizíamos surgiu curiosamente nos tempos do mais radical iluminismo ilustrado.

A respeito da moda neopagã pouco se pode acrescentar mais que no melhor dos casos –se excluímos o caso das possíveis influências maléficas- não passa de ser, em razão da morte de dita tradição e a consequente perda de sua cadeia iniciática a mais de um milênio, não nos esqueçamos, uma mera farsa. Farsa que custa crer que alguém possa realmente tomar de maneira séria [6].

Ademais, de maneira muito frequente esses intentos de recuperação de tradições pretéritas escondem um pouco dissimulado anticristianismo e com ele uma vez mais o ódio ao passado.

À margem do caráter anticristão de muitos desses movimentos neopagãos não se pode negar a evidente contradição que encerra o fato de considerar o próprio passado do ocidente como indigno e obscuro, uma idade de trevas e horror, e ao mesmo tempo louvar e idolatrar as culturas mais estranhas e distantes, que o ocidental médio está muito distante de compreender convenientemente... Até esse extremo chega a falta de sentido da ideologia relativista, o multiculturalismo dissolvente e o auto-ódio ocidental. 

A espiritualidade progressista

No entanto, de todas as confusões modernistas das quais se nutre a new-age, a que melhor define sua essência antitradicional é a penetração no discurso pretensamente espiritual da noção de progresso. Essas ideias progressistas dirigidas para a espiritualidade devem ser rechaçadas e desmanteladas em toda ocasião, pois frequentemente as encontramos intoxicando inclusive tradições verdadeiras. Para rebatê-las devemos nos fixar antes de tudo nos fundamentos sobre os quais se assenta toda tradição espiritual verdadeira. Como é conhecido, ainda que se esqueça com muita facilidade, a ciência moderna se ocupa do estudo do mundo manifestado, ou seja, do “domínio dos fenômenos”.

A metafísica, no entanto não se dirige e nem presta atenção aos fenômenos, pois se ocupou sempre e em todas as partes do estudo dos “princípios”, que são eternos, deixando aparte o estudo dos fenômenos e não confundindo nunca ambos marcos de realidade, como inclusive a filosofia antiga deixa claro.

Assim, em virtude de seu campo de estudo, ambas disciplinas -que podemos resumir como Physis, ou seja, da natureza, e metafísica- enxergam a realidade em direções diferentes para não dizer opostas, como os dois rostos do Deus Jano. Metaforicamente se diria que uma olha para cima e a outra para baixo. A metafísica, assim como todo conhecimento que ela elabora, direciona a sua vista ao eterno -representado tradicionalmente pelos Céus- enquanto que a física ao contrário -entendida no sentido que definimos- possui forçosamente a vista dirigida ao mundo material, isto é, o mundo da corrupção e da mudança.

De tal maneira que pode-se dizer que se a metafísica atende ao eterno e invariável, a ciência atende exclusivamente -e o matiz é importante- às mudanças e aos fenômenos, que estão sujeitos ao tempo, isto é, o reino da manifestação grosseira, pois trata de desentranhar as regras de funcionamento do mesmo. Isto a converte, a partir da perspectiva do homem tradicional, que nunca perde de vista a presença do eterno no mundo, em um conhecimento por si só muito inferior. 

Em outras palavras a ciência estuda o exterior, aquilo que está sujeito à lei do tempo e da mudança. A metafísica atende ao interior, aquilo que apesar da sempre mutável manifestação interior, permanece não afetado e constante.

Então, a ideia de progresso só pode aplicar-se, como resulta evidente pelo que temos dito, ao nível dos fenômenos e nunca por definição ao nível do noúmeno, aonde não possui lugar e nem sentido. Sendo o noúmeno não afetado é impossível que exista “progresso” algum, não só ao que se conecta a Ele mesmo senão tampouco sequer desde sua perspectiva. Isto é, em relação com o noúmeno não se pode falar de progresso algum, menos ainda de “progresso espiritual” como pretendem os modernos da new-age, pois a partir da perspectiva do Único incondicionado, toda manifestação -apresente-se como se apresente- vale nada e a distância entre qualquer ente manifestado e o Uno não manifesto é sempre a mesma, todo o progresso que se queira não encurta em nada esta distância [7].

Em resumo, é preciso dizer que desde o ponto de vista da metafísica -o que equivale a dizer desde a perspectiva tradicional- a ideia de progresso é um simples absurdo lógico e ademais uma impossibilidade ontológica. O progresso só é concebível em termos de mudança e, portanto no nível exclusivo dos fenômenos grosseiros.

O resultado é que o progressismo e o evolucionismo são por si mesmos contrários a qualquer verdade metafísica, por isso não é possível de nenhum modo uma “espiritualidade progressista” nem tampouco uma “evolução” nem um “progresso” espiritual e o emprego destes termos põem em manifesto a ignorância absoluta de quem os emprega.

Em definitivo, progressismo e espiritualidade autêntica são conceitos incompatíveis e a aplicação de qualquer concepção progressista a uma doutrina espiritual é sempre uma perversão materialista e pura obsessão pela aparência e o mais exterior, isto é, todo o contrário a qualquer espiritualidade autêntica que põem a atenção na dimensão interior. Todo progressismo é uma negação implícita dos princípios espirituais e, portanto uma oposição flagrante a todo critério ou verdade tradicional. E assim deve ser denunciado qual quer “progressismo” que trate de assentar-se no âmbito espiritual e de intoxicar seus ensinamentos com suas superstições particulares.

*

A conclusão de tudo o que temos dito até agora é que a colcha de retalhos da “nova espiritualidade” é por muitas razões uma forma cultural perfeita para o estado de coisas atual, a pseudoespiritualidade ideal para os tempos da confusão generalizada, em uma sociedade marcada pela decomposição de toda referência cultural, um mundo sem história aonde não há passado nem tradições e no qual este e aquele podem reinventar-se de novo a cada momento.

Frente à desolação espiritual e comunitária em que se encontra o Ocidente a new-age responde de forma grotesca a necessidades humanas básicas, sociais e espirituais, preenchendo o vazio deixado em seu caminho pela ditadura da racionalidade exclusivista e sua reduzida e esterilizante visão mecânica e “pragmática” da vida humana.

Isto situa a new-age em seu verdadeiro contexto histórico, pois vem a preencher -de forma certamente grotesca e ademais perigosa- o vazio deixado pelo desmembramento das tradições autênticas da sociedade. É a reação previsível ao desmantelamento de todos os mitos que alimentavam e mantinham viva a alma da sociedade ocidental: o homem da pós-modernidade, privado tanto a nível comunitário como a nível pessoal e emocional de uma “alma”, busca preencher essa carência entregando-se aos exotismos mais disparatados e participando de pseudotradições que nem compreendem nem lhe são de proveito algum.

III – Californismo e contraculturas

“New-age” e contracultura.

Depois de tudo que foi dito até agora não pode estranhar que a new-age se difunda de forma especialmente exitosa precisamente entre aqueles setores sociais que apresentam um estado mais avançado de dissolução social e intelectual e que são em geral os que abraçam mais explicitamente os ideais de globalismo, o multiculturalismo e o rechaço de toda identidade, em definitivo os ideais mais próprios da pós-modernidade. E tais setores costumam ser precisamente aqueles que se apresentam como “progressistas”, “alternativos” e inclusive frequentemente como “antissistema”.

Não se trata de uma simples coincidência. Faz-se necessário advertir a “unidade de projeto” que subjaz sob a aparente diversidade de movimentos sociais e “modas culturais” que, ainda que se disfarcem de reivindicativos e “alternativos” -ou precisamente por isso- formam parte das forças do globalismo.

Não se deve esquecer sobretudo que no Ocidente a decomposição social e intelectual é muito mais avançada entre a juventude, esvaziada por completo de identidade e de tradições e doutrinada desde sua infância -por parte da educação obrigatória e os mass media- na “cultura do palimpsesto”, o rechaço por todo o passado -começando pela cultura de seus próprios pais- e a consideração de todo vestígio de identidade coletiva como o mais grave perigo para a “paz social”. 

Em definitivo e como acontece frequentemente, são os setores sociais mais progressistas, aqueles que conformam a vanguarda cultural e a “contracultura” os que supõem a ponta de lança da pós-modernidade, também no que diz respeito a pseudoespiritualidade por mais paradoxal que possa parecer. Assim, mais do que perfilar-se uma “alternativa” à grotesca ordem cultural e espiritual atual tal e como dizem representar, o que supõem em realidade é um preocupante presságio do que está por vir.

É entre esses grupos “alternativos” que a new-age encontra o terreno abandonado para propagar suas fantasias sob a forma de pseudomitos e se estende sem oposição nem trava, a não ser um materialismo ou ateísmo radicais cada vez mais infrequentes e que ninguém mais realmente leva à sério, a exceção de algum grupúsculo marxista tão recalcitrante como irrelevante.

Por outro lado cabe destacar que os escassos grupos sociais que ainda podem ser qualificados de “resistência” ao “globalismo cultural” e à ditadura do politicamente correto -que costumam ser desqualificados como reacionários-, como, por exemplo, aqueles que mantém uma rede comunitária forte ou uma identidade religiosa/cultural firme -como podem ser os muçulmanos e algumas comunidades cristãs, em particular ali aonde são minorias- tendem a considerar como um patrimônio valioso suas raízes culturais e suas tradições, e por isso se encontram muito mais protegidos das influências dissolventes do globalismo e da new-age.

Nos encontramos portanto, diante de outro claro exemplo de “cultura underground” ou “contracultura” -nascida em setores marginais e “malditos”, de escassa cultura e nula intelectualidade- que foi elevada à categoria de “cultura dominante” e a fenômeno social de massas -o mainstream, no jargão pós-moderno-.

Este é o aparente paradoxo: na pós-modernidade a “contra cultura” constitui a “cultura do poder” e a ideologia mais estendida entre os submetidos. E ainda, além de tais movimentos pseudoculturais serem um signo do estado de decomposição da sociedade atual, cumprem um papel estratégico decisivo na tarefa de aculturação daqueles que a eles se submetem, rompendo qualquer resto identitário comum que possa servir de resistência à “nova ordem” global.

Cabe questionar assim mesmo de que maneira um “fenômeno de massas” que foi divulgado durante décadas a partir das mesmas estruturas de poder através do cinema, a televisão e a imprensa, pode ser considerado “alternativo” ou “contracultural”. Como certamente a inocência e a facilidade com que o cidadão corrente se deixa embaucar e manipular.

Há que começar a considerar o movimento new-age como uma “ideologia de poder” elaborada para entretenimento e doutrinamento das maiorias e dirigida sobretudo para aumentar a confusão mental dos sujeitos e impedir a dissidência de qualquer tipo pelo conhecido método de oferecer um meio de expressão adequadamente canalizado para o descontentamento daqueles que se dizem “críticos” ou “desconformes”. Uma vez mais comprovamos de que maneira a periferia social do paradigma -a classe média- é dirigida como um rebanho para “regiões” onde seu inconformismo e afã revolucionário fica reduzido a uma moda de consumo... Aqui todo protesto é mera aparência.

O exemplo paradigmático do que dizemos é sem sombra de dúvidas o conhecido fenômeno OVNI e seu corolário, o mito extraterrestre, uma farsa que terminou por contagiar, como se se tratasse de uma pandemia, a mente da maioria e nossos contemporâneos até conseguir converter-se em uma “verdade” inquestionável. Estamos sem dúvida diante de um dos “mitos” centrais de todo o movimento new-age. Esse exemplo nos dá uma ideia não só do nulo rigor intelectual em que se move a new-age senão sobretudo de sua periculosidade e sua maldade, ao servir como instrumento para inocular nas pessoas comuns ideias completamente desviadas e distanciadas da verdade.

Mas novamente, graças à ditadura do relativismo, aqui tudo vale e qualquer ideia pode ser defendida ainda que carecendo em absoluto de argumentos. Em todo caso, não se deve esquecer a ajuda decisiva que proporcionam para a propagação e implantação de semelhantes “ideias” as estruturas de propaganda e manipulação do poder.

*

O contexto cultural da “new-age”: o “californismo”

Em relação ao pretendido caráter contracultural com que se reveste socialmente a new-age pode ser interessante adicionar algo mais. Resulta bastante chamativo que todos os atuais movimentos sociais alternativos -desde a luta pelos direitos dos animais até as modas mais estrafalárias, e em ocasiões diretamente perversas, que se possa imaginar- assim como também a maioria das “contraculturas” que apareceram durante a segunda metade do século XX -ou o que é o mesmo, desde o fim da segunda guerra mundial-, provenham todos de uma zona geográfica muito concreta: a costa oeste dos Estados Unidos e mais especificamente da região da Califórnia. Essa circunstância não passou despercebida para a cultura popular e originou a alcunha californismo para agrupar todas essas novas tendências e “culturas”.

A análise minuciosa da Califórnia como centro gerador e difusor de todos esses movimentos “contraculturais” -e de suas respectivas modas de consumo no mercado global-, ainda que pendente de realização, conduz inevitavelmente à identificação deste região como um autêntico centro “contratradicional”, e quiçá não seja exagerado dizer que se trate do principal centro de difusão da “contratradição” a nível mundial, nesses tempos finais.

Além de seu papel real como centro gerador e difusor de “contraculturas”, valores e formas de vida dissolventes e antitradicionais, a Califórnia possui um importante valor simbólico, geralmente ignorado, que é evidente, para cumprir esse papel.

Na realidade, atendendo ao simbolismo tradicional e aplicando as regras da Geografia Sagrada, se o Japão é “a terra do sol nascente”, a Califórnia não pode ser mais que “a terra do sol poente”. Califórnia é a terra última, o Finis Terrae de nossa civilização, e não só em sentido geográfico -o velho occidens latino, o horizonte final, a terra dos mortos e última fronteira de uma civilização- senão também em um sentido histórico, pois esta foi curiosamente a última terra conquistada pelos europeus, depois da grande dispersão europeia das eras mercantilista e industrial, da qual o episódio da conquista do Oeste Distante oferece um magnífico testemunho.

A conquista do Oeste Distante resulta ser desde essa perspectiva uma representação tão real como dramática dessa “cultura do palimpsesto” que citamos em algumas ocasiões, com sua promessa de “Novo Mundo” levantado, neste caso concreto, sobre o ermo deixado pelo genocídio dos indígenas. Em verdade aqui os europeus predicaram, como em nenhuma outra parte, com o exemplo se impondo mediante a estratégia colonial de “terra queimada” e suplantando tanto cultural como demograficamente aquilo que existia. Um exemplo radical de niilismo poucas vezes visto na história da humanidade.

A esses apontamentos de ordem simbólica ainda devemos acrescentar como dizíamos antes, o decisivo papel da Califórnia como centro difusor das contraculturas mais próprias do pensamento débil e a pós-modernidade, e em definitivo de todos os valores que podem qualificar-se de antitradicionais.

Neste influente papel de criador de gostos, modas e correntes sociais de todo o tipo, costuma destacar-se que está precisamente ali o maior núcleo econômico-industrial da forma espetacular por antonomásia, o cinema, do qual a Califórnia tem sido ao longo do século XX seu maior centro a nível mundial e segue sendo em boa medida, se não já em sentido quantitativo -dizem que foi superada por Bollywood-, é em nível qualitativo, dada sua influência ideológica e cultural sobre o imaginário coletivo ocidental.

Sempre foi reconhecido esse poder de influência, pois durante todo o século passado esta indústria foi empregada como um instrumento de propaganda a serviço do colonialismo cultural e comercial. Relembremos que a recriação espetacular da realidade é absolutamente imprescindível para a manutenção da atual “cultura da imagem”, na qual as ideias entram mais do que nunca pelos olhos [8] na hora de doutrinar e embaucar ao moderno homem espectador.

E um detalhe mais de índole simbólica: não parece casual a extravagante denominação “meca do cinema” que se deu a este lugar, uma determinação que é claramente uma blasfêmia e que, a tenor das influências psíquicas que ali são geradas, dali partem e se estendem sem freio, parece indicar um reconhecimento, sequer inconsciente, de que nos encontramos frente a um autêntico centro contrainiciático.


Como outro exemplo brilhante de “cultura do palimpsesto” e traço central do californismo encontramos o culto à juventude, ao corpo e à saúde. Tudo isso constitui uma prova mais da fixação no mais exterior. Cabe agregar que o corpo é o traço mais exterior da persona, portanto o mais sujeito a mudança, o mais impermanente. Apegar-se à impermanência, ademais de ser uma fonte segura de infelicidade, dor e frustração, é exatamente o ensinamento contrário ao que pôde transmitir qualquer tradição espiritual em qualquer tempo e lugar.

Vemos agora a relação invisível a primeira vista que existe entre essa fixação e o menos essencial e a “nova espiritualidade” que vê só os fenômenos em lugar do eterno.

Quase o mesmo poderia-se dizer da ideia de “saúde” que promove o californismo e que longe de buscar a simplicidade e o natural como anuncia, não é mais que um programa de reengenharia corporal com diferentes graus de violência sobre o corpo que começam pela escravidão da dieta, seguem pela academia e acabam na sala de cirurgia... Tudo  tremendamente artificioso e experimental. Nessa contracultura o corpo se converte em mais um espaço de aplicação da ditadura tecno-industrial, uma outra zona de domínio.

Quanto ao conteúdo de seu imaginário e seus valores o californismo tem chamado a atenção inclusive a nível popular por apresentar a vida humana como uma espécie de adolescência eterna, que nunca deve acabar e em que qualquer traço estável -que proporcione estabilidade ou raízes ao sujeito, como a família- deve ser rechaçado por ser uma atadura.

Essa característica é interessante simbolicamente, pois descreve em poucos traços ao “homem do fim dos tempos”, enquanto ser desarraigado, parado no tempo, sem passado, e por isso mesmo sem futuro. Esse homem sem passado nem futuro, sem raízes nem frutos, que é como a erva que cresce no telhado (Sal. 128:6), representa, como já temos apontado em alguma ocasião, a inversão exata do nômade das origens.

Por outro lado e fazendo uma breve revisão histórica, é especialmente relevante que tais movimentos “contraculturais”, começaram sua difusão massiva precisamente depois da Segunda Guerra Mundial. E novamente pode-se por como exemplo disto o já citado fenômeno OVNI que desempenhou um papel decisivo de doutrinamento de massas durante as décadas cinzentas da guerra fria.

O papel que exerceram certos movimentos sociais de protesto, como o movimento hippie ou a subcultura rock com todas as suas maldições calculadas, na difusão de todas essas pseudoculturas antitradicionais foi fundamental e é poucas vezes denunciado. A relação entre o “hippismo” dos anos 70 e as mais atuais modas naturista e vegana é certamente indiscutível,, mas também o é o vínculo que tiveram aquelas contraculturas com a espiritualidade “light”, o já citado neopaganismo, a magia e inclusive o satanismo. Os vínculos são certamente inegáveis.

E não se pode considerar superficialmente o fato de que todas essas ideologias antitradicionais e que conduzem à dissolução definitiva do “corpo social” tenham seu principal foco de geração e difusão na costa oeste dos Estados Unidos. A partir desse ponto de vista a Califórnia adquire umas conotações simbólicas, históricas e culturais verdadeiramente sinistras e dificilmente igualáveis por qualquer outra região desse planeta. Nisso podemos ver ademais o que realmente significa a consumação da promessa de uma terra nova para o paradigma da modernidade.

Portanto, apesar de sua enorme diversidade e sua aparência caótica, californismo e new-age são fenômenos inseparáveis, tanto em sua origem histórica e geográfica como nos princípios ideológicos que impõem um pouco em todas as partes, todos eles condutores à dissolução da identidade social e pessoal.

IV – A Grande Cerimônia da Confusão

Finalmente tentaremos esboçar algumas conclusões acerca das implicações profundas que supõem um fenômeno social tão extenso, e tão pouco definido, como este da nova espiritualidade “alternativa”. Para começar enumeraremos de forma muito breve as conclusões que chegamos até o momento.

Em primeiro lugar temos mostrado que a new-age se desenvolve na “zona de sombra” do paradigma materialista e racionalista em que nos encontramos e que não duvidamos em identificar com a própria modernidade. É por isso um movimento confuso e obscuro, de mensagens calculadamente ambíguas e inclusive contraditórias, que evita sempre ser estudado e categorizado. É parte de sua essência impedir ser adequadamente definido.

Em segundo lugar temos visto que esta pseudoespiritualidade, inteiramente exterior e superficial, possui inegáveis traços pós-modernos -o gosto pelo exótico, o igualitarismo democrático, a falta de rigor frente a unidade e coesão doutrinais de toda tradição autêntica, a liberdade pessoal e o juízo próprio como direitos irrenunciáveis, a negação de todo princípio de autoridade e portanto o rechaço de todo verdadeiro mestre, etc...- o que a converte não só em um acabado “signo dos tempos” presentes com uma enorme dívida com o ponto de vista protestante da espiritualidade -que teria diante de tudo um interesse sociológico-, senão também na “forma religiosa” -pseudoreligiosa em realidade pois é uma falsificação das formas religiosas verdadeiras- mais idônea para os tempos da pós-modernidade, tão democráticos e opostos a qualquer dogmatismo... E posto que essa pseudoreligião ocupa o espaço que nas sociedades tradicionais ocupava a religião, substituindo-a, a new-age se erige na “falsa doutrina” própria dos últimos tempos. Por isso não surpreende em absoluto que seus seguidores sejam partidários de maneira cada vez mais explícita de abolir as velhas religiões e substituí-las por uma nova “religião universal” -na qual supomos que cada um poderia praticar e participar à sua maneira em virtude do princípio de liberdade individual- que nos será “vendida” como mais um “progresso” sem dúvida, na atual espiral descendente que segue a civilização moderna...

Por último podemos advertir que, contrariamente ao que se pensa, essa “nova espiritualidade” não só debilita o combate ao paradigma civilizatório da modernidade senão que se nutre dele e ao mesmo tempo o fortalece. O fortalece em particular devido a seu caráter  “antitradicional”, perceptível sobretudo em sua intenção de falsificação e substituição das tradições autênticas, atacando-as a partir do exterior ou intoxicando-as a partir do interior sob o pretexto de re-inventá-las e modernizá-las. Portanto não é exagerado dizer que a “nova espiritualidade” é hoje o maior inimigo de toda verdadeira espiritualidade assim como de toda aquele que persiga sinceramente uma aproximação à Verdade última.

Nos encontramos portanto diante de uma influência maléfica de primeira ordem cujas sugestões estão desviando muitos do caminho autêntico.

Por isso, para quem possa pensar que nossos argumentos resultam um tanto exagerados  iremos em seguida recorrer ao simbolismo tradicional -universal e eterno- para comprovar sem sombra de dúvida o caráter maléfico e infernal de toda nova espiritualidade.

Começaremos indicando que o ecumenismo globalista e a definição ideológica e doutrinal que é própria a todas essas pseudoreligiões, características que propiciam que a new-age seja uma colcha de retalhos que abarca todo tipo de ideias, algumas delas contraditórias entre si, convertem essa massa supersticiosa em uma espécie de “Frankenstein cultural”, de aspecto certamente grotesco, que, como é bem conhecido é um signo diabólico per se.

Relembremos que frequentemente se representou ao diabo mediante uma imagem simiesca devido ao seu empenho em imitar e substituir o sagrado para confundir os homens. Por isso o diabo foi chamado em algumas ocasiões “o mico de Deus”. Porém,  como a teologia tradicional tem expressado frequentemente, o grotesco, a feiúra e o desequilíbrio são caracteres próprios do diabo, caracteres que lhe resulta impossível ocultar a pesar de todas as suas elaboradas artimanhas na hora de emular e suplantar a Tradição e a Verdade.

Assim, não podendo apresentar a harmonia e beleza da verdade por causa de seu desequilíbrio e maldade interiores, em seu afã de substituição o diabo não pode evitar delatar-se ao mostrar algo tosco e grotesco, ridículo, em sua imitação. Estas características devem ser sempre consideradas a modo de signo e que só os incautos podem passar por alto e tomar assim tal imitação simiesca por uma manifestação da Verdade mesma.

É assim, como um signo próprio da “contratradição” como devemos interpretar a desordem profundamente inscrita no “mercado espiritual” que é a new-age e de forma mais geral em todas as contraculturas que formam parte dessa tendência que temos denominado californismo.

Antes de continuar observemos por um momento a seguinte ilustração que mostra um detalhe gravado “O cavaleiro, a morte e o diabo” de Alberto Durero, uma de suas três “Estampas Mestres”.

Como se pode apreciar o diabo do gravado é representado mediante uma figura disforme, carente de ordem e harmonia e portanto, de beleza, composto por uma mescla grotesca de características próprias de diferentes animais, isto é, mostra uma confusão de diversas naturezas. Nota-se a tradicional pata de cabra que assoma na parte inferior da ilustração, e que sempre tem sido considerada um dos traços mais distintivos do diabo.

A new-age guarda uma grande analogia com a figura diabólica anterior e pode-se dizer que é, em boa medida, sua expressão cultural. Ambos, à maneira daquele engendro humanoide da novela de Mary Shelley, estão compostos de restos de cadáveres -resíduos psíquicos das tradições desaparecidas que agora se pretende reviver e devolver à vida- e de retalhos pseudointelectuais de todo tipo: desde magia e espiritismo decimonônicos à teorias e hipóteses científicas modernas, tudo isso mesclado em uma inextricável confusão. É isso que esconde a colcha de retalhos pseudodoutrinal da new-age.

Ademais cabe destacar que, em tanto que é uma pseudodoutrina própria do fim dos tempos, a new-age cumpre seu papel de dar voz aos “mortos” -de um modo certamente perigoso- ao servir de vitrine para todo tipo de restos psíquicos de antigas tradições que tem permanecido de algum modo latentes. Os usos perversos de ferramentas e conhecimentos tradicionais como podem ser a astrologia ou o Tarô, assim como o emprego de outros métodos de invenção recente e ainda mais inquietantes e sinistros demonstram tudo isso. E é nesta confusão que a dissolução do mundo psíquico do homem atual se faz mais manifesta.

Já foi dito em algumas ocasiões que para que um projeto falso e maléfico -como o do diabo- possa estender-se e dominar aos homens é preciso que contenha alguns traços de verdade -que extrai das tradições verdadeiras- e colocá-los à serviço da mentira. Isso se deve não só à necessidade por parte do diabo de aperfeiçoar sua capacidade de engano mas a uma razão mais profunda, de caráter ontológico: a mentira não pode existir nem durar por si mesma de nenhum modo pois não possui ser próprio, existe e é animada enquanto reflexo, muito distorcido ou falso, da verdade, que desse modo forçosamente a antecede da dimensão ontológica. É assim como toda mentira é uma imitação e uma suplantação de uma verdade, e por isso em último termo da Verdade.

Imitação e suplantação que é também da Tradição, enquanto expressão no mundo desta Verdade não manifestada, com o objetivo de confundir aos homens e mulheres do fim dos tempos e impedir seu acesso à verdadeira senda espiritual, privando-lhes assim do conhecimento dessa Verdade última.

Portanto a pseudoespiritualidade está muito longe de ser um fenômenos inocente e sem consequências para aqueles que o seguem, tal e como nos pretende fazer crer a cultura do relativismo. Como vemos se trata de um fenômeno muito mais elaborado do que poderia parecer à simples vista e por isso mais perigoso que o simples e bruto materialismo positivista, tão próprio do paradigma moderno, que era uma negação grosseira, e no fundo emocional, de toda espiritualidade. Aqui estamos diante de outra coisa, diante de um grau mais acabado de deformação: uma versão infernal -inferior e invertida- da espiritualidade.

De fato, a ideologia racionalista, positivista e materialista poderia distanciar muitas pessoas da senda espiritual, mas a new-age lhes oferece algo pior: uma interpretação desviada -materialista e pseudopositivista- da espiritualidade e com ela uma senda equivocada na qual perder-se: que é muito mais elaborado e maligno que um materialismo ou um cientificismo puro e simples. Não devemos esquecer que a new-age, ao mesmo tempo que oferece seus próprios caminhos e ensinamentos de uma nova perspectiva, ataca e desprestigia as tradições autênticas a fim de destruí-las e pervertê-las.

E quiçá por isso mesmo não surpreenda tanto que, a pesar da beligerância com que o laicismo progressista e o racionalismo positivista atacam as tradições antigas, a new-age seja consentida e apresentada as vezes incluso como um “necessário retorno à espiritualidade” por parte da civilização ocidental. 

Como percebemos há muito mais que uma simples falsidade, estamos diante de uma substituição da Tradição a fim de confundir e extraviar aos homens. Essa é a preocupante realidade que se oculta detrás dos aparentemente inocentes valores do ecumenismo e do multiculturalismo que nos são apresentados em cada nova reinvenção através da new-age e com o que tratam de seduzir-nos as diversas modas e contraculturas que adota o californismo, a imagem mais acabada da pós-modernidade.
  
*

Notas:

[1] Como se pode ver a fragmentação do conhecimento -e da sociedade- propiciada pelo novo paradigma científico não é independente do giro antimetafísico. 

[2] Há que notar que a psicologia moderna é uma (pseudo) ciência de toda forma liminar com relação ao paradigma moderno, por isso carece de um objeto de estudo, assim como de uma metodologia, claros e definidos. Isso é importante no momento de se adaptar às realidades sociais em constante câmbio, na sociedade pós-moderna, tendo em conta que a “ciência psicológica” é antes de tudo uma ferramenta de manipulação social. Em todo caso, pela razão já destacada de dirigir-se e tratar em parte a aspectos interiores –como emoções, medos e inseguranças, isto é, a “zona de sombra”- da experiência humana fica relegada à periferia do paradigma.

[3] Os antepassados, peça fundamental para a identidade dos povos tradicionais.

[4] Os defensores do globalismo o chamam de maneira eufemista “multiculturalismo”, quando em realidade o que há é um genocídio cultural, uma destruição sistemática de todas as culturas humanas, começando pela própria, para alcançar uma mescla informe que é de algum modo o reflexo análogo do caos primigênio em que estava sumida originalmente a manifestação universal. Não há tal convivência de culturas na desordem pós-moderna, mas sim uma substituição das culturas ancestrais pelos desvalores da dissolução.

[5] Frequentemente os sujeitos mais imbuídos da new-age usam esse termo de “busca” para suas experimentações arbitrárias e inclusive referem-se a si mesmos como buscadores. Delatam com isso a verdadeira natureza de seu “conhecimento”, pois só busca aquele que está perdido.

[6] Pensemos, por exemplo, nas celebrações cada ano mais populosas em certos monumentos megalíticos e todas as pseudocrenças e superstições que isto propicia nos seus arredores... Realmente uma nova pseudoreligião. Em todo caso imitar alegremente a uma casta sacerdotal como fizeram os druidas parece ser, ademais de muito significativo dos tempos em que vivemos, algo mais sério que uma simples pantomima. Mas precisamente o que caracteriza a idiotez moderna é que estas irreverências se abordam com total despreocupação...

[7] Em todas essas considerações seguimos a René Guénon.

[8] Não é descartável o advento de um novo modo de analfabetismo e idiotez devido a esta “deformação visual” do caráter do novo homem espectador cuja capacidade para adquirir ideias por outros meios, sobretudo os que afetam a faculdade racional, vai minguando paulatinamente. Quanto à isso a moderna “cultura visual” –da qual o cinema é o melhor expoente- é a inversão exata da linguagem simbólica das artes visuais tradicionais, mas este tema nos distanciaria do objetivo do presente artigo. 

31/10/2015

Angel Millar - O Tradicionalismo é Revolucionário? Um Olhar para a Propaganda Contemporânea

por Angel Millar



O Tradicionalismo é uma ideologia revolucionária, como o pensador, ocultista e Tradicionalista Julius Evola afirmava? Ele é uma forma de conservadorismo ou de pensamento "reacionário"? Ele é ao menos político? E, se sim, quando?

Ainda que Evola fosse também crítico do fascismo - e tivesse inimigos no partido por causa disso - graças às atividades políticas de Evola, e mais especialmente por sua associação com elementos do partido fascista italiano durante a Segunda Guerra Mundial, alguns Tradicionalistas consideram Evola como uma "ovelha negra". Este é especialmente o caso com Tradicionalistas mais tendentes para a esquerda hoje, bem como com aderentes estritos aos escritos e caminho de René Guénon.

Se o Tradicionalismo é revolucionário, então Evola é um radical mesmo nesse meio.

Diferentemente de Guénon e de muitos daqueles que o seguiram (como Titus Burckhardt, que se converteu ao Islã, tomando o nome Ibrahim Izz al-Din) Evola era essencialmente "um Tradicionalista sem uma tradição". Ele não se converteu a, ou praticava, qualquer das grandes religiões.

Ao invés disso, ele estava interessado no Hermetismo, nas religiões europeias pré-cristãs, no ocultismo (em alguma medida), e outros campos esotéricos.

O que ocupava Evola, parcialmente em sua própria prática e parcialmente em seus escritos políticos, era a redescoberta e redespertar da autêntica Tradição Europeia, ainda que neste sentido ele também olhasse para o Budismo, para o Hinduísmo, para o Islã, e outras tradições orientais, tentando encontrar conexões nelas.

Em essência, Evola não tinha uma tradição porque a Europa estava sem uma tradição.

O catolicismo havia retido alguma vitalidade para Guénon, ainda que ele, como Evola, tivesse passado a considerá-lo como corrupto, decadente e distorcido por valores modernos e "liberais". Ele carecia, em sua opinião, da possibilidade de iniciação.

Guénon também se voltou para a Maçonaria e para a Teosofia. A primeira, fundada em Londres em 1717, havia sido originalmente uma fraternidade emergida da guilda de pedreiros daquele país. Ela tinha (e ainda tem) um ritual de iniciação em três graus, baseado no daqueles pedreidos, porém misturado com simbolismo bíblico, geometria sagrada e filosofia jusnaturalista.

Dentro de poucas décadas, porém, a fraternidade havia se espalhado pela Europa, se dividindo em várias facções. Muitas dessas absorveram aspectos do hermeticismo, da alquimia, do rosacrucianismo, do misticismo cristão, e por aí vai. Guénon esteve envolvido na manifestação mais esotérica da Maçonaria e escreveu um livro sobre o assunto.

Ainda que ele mantivesse um certo respeito pela Maçonaria, Guénon seguiu adiante, na direção do Islã. Para Evola a Maçonaria não era uma opção. Influenciado pelos Protocolos dos Sábios de Sião (um texto antissemita e antimaçônico, criado pela polícia secreta czarista no fim do século XIX), Evola acreditava que sionistas e maçons estavam por trás da revolução global e da derrubada da Tradição.

Os Protocolos foram um texto extremamente popular e influente na época, tanto na Europa como nos EUA, e, em certa medida, no Oriente Médio. Evola não o aceitava sem algumas críticas, e, de fato, sabia que ele era forjado. Mas, para o esotérico, o que importava não era sua validade histórica, mas que ele oferecia, em sua opinião, uma "premonição profética", e, enquanto tal, fornecia um vislumbre sobre a situação conflituosa do mundo. (De fato, Evola pensava que o sionismo e a maçonaria poderiam também algum dia vir a se tornarem vítimas das forças anti-Tradicionais).



Para Evola, o mundo moderno era um de ruínas, e ele se situava contra ele. É claro, ele havia visto as ruínas literais na Europa com a Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

Mas as ruínas físicas eram menos ofensivas para o pensador italiano do que as espirituais. (Enquanto todos os outros procuravam abrigo, Evola gostava de caminhar durante ataques aéreos, para poder testar a si mesmo). O que havia realmente sido destruído era um caminho de vida integral.

O desenho acima mostra o homem evoluindo em um guerreiro espartano, e então, ultrapassando seu ápice, se tornando um banqueiro ou empresário de algum tipo. Então ele se torna um escravo do computador ou da televisão - do entretenimento - e então subsiste como mera ovelha.

O pensar, o corpo e o espírito, estão em declínio radical, a imagem parece dizer. Desistimos de nossa independência porque abrimos mão de nosso poder, e vice-versa.



Para Evola, a era contemporânea era provável de se provar uma mera transição de um ciclo de tempo e ser para outro. A era moderna é o que Tradicionalistas - tomando um termo hindu - chamam de "Kali Yuga" (a Idade das Trevas). Desprovida de autêntica conexão espiritual, densa e material, ela pode, conjectura-se, desabar sob o próprio peso, abrindo caminho para uma nova era dourada.

É imperativo, então, que o homem da Tradição navegue na tempestade ou, como diz Evola, "cavalgue o tigre" da era turbulenta. Ele deve permanecer um homem que incorpore sabedoria primordial, mesmo enquanto os excessos e a preguiça do ciclo acenam para ele.

No gráfico abaixo, o Tradicionalista, nos é dito, assume responsabilidade enquanto no capitalismo e no socialismo, o indivíduo não o faz.



Socialismo é "onde você espera em filas de pão". Capitalismo é "onde filas de pão te esperam". Muitos, especialmente na direita republicana americana, diriam que é por isso que o capitalismo funciona, e por que deveria ser aplaudido. Você terá pão...à sua conveniência. Mais do que você pode comer.

O Tradicionalismo, assim, não é conservadorismo. Este busca apenas preservar o estado atual das coisas, ou voltar o relógio uns cinquenta ou cem anos em algumas áreas (tal como aborto ou sexualidade). Aquele quer retornar a um modo mais autêntico e primal de vida, e, assim, pode ter mais em comum, às vezes, com a esquerda que pratica yoga e meditação, acredita em alimentação orgânica, e por aí vai.

(O Tradicionalismo, enquanto tal, não é uma ideologia inerentemente política [e Guénon se opunha à mistura entre política e espiritualidade], mas em sua rejeição da massificação, do conformismo, da hierarquia baseada em graus de riqueza, ele se torna político - apesar de haver Tradicionalistas de Direita e de Esquerda).

Deixando o texto de lado, as imagens preenchem um vácuo: as filas de pão do capitalismo são ruins porque o que elas oferecem é impessoal e carente de sabor, tradição, natureza e mesmo nutrição. A comida não é comida. O pão na fila de pão capitalista está repleto de ingredientes que nos fazem mal.

"Tradição" aqui significa humanidade, uma elevação da pessoa. Receitas foram transmitidas ao longo de gerações. Mães ensinaram filhas a cozinhar, pais ensinaram filhos a pescar, caçar, se defenderem, defenderem sua família, e por aí vai. É comunidade. Você come o pão com aqueles que você ama. Com o pão feito em um fogão a lenha você sente o trigo, o solo e o fogo. Ele alimenta a alma, não apenas o estômago (que é a razão pela qual ele ainda é vendido nas padarias mais caras das cidades grandes, ainda que pão barato esteja disponível virtualmente em cada esquina).



"Comida" incapaz de nutrir é uma das manifestações do Kali Yuga. O declínio do espírito, do espartano à ovelha é outro. Mas Tradicionalistas dizem que nem tudo está perdido. Precisamos, na opinião deles, "cavalgar o tigre" nesta era, para resistir até uma nova era dourada que está por vir.

A crença em uma era melhor vindoura pode bem ser revolucionária (Marx acreditava que o capitalismo daria lugar ao socialismo, e então à era dourada do comunismo, na qual seríamos alegadamente livres), ainda que o Tradicionalismo não defenda geralmente qualquer "ação direta" para se chegar lá, como protestos, revoltas, etc.

Porém, para Evola "revolução" significa um retorno à origem, não uma transição radical ao "progresso". E este é indubitavelmente o caso para muitos Tradicionalistas (da esquerda ou da direita) hoje. Daí, Evola diz em Homens Entre as Ruínas:

"Joseph De Maistre ressaltou que o que é necessário, mais que uma contrarrevolução em sentido estrito e polêmico, é o 'oposto' de ma revolução, nomeadamente uma ação positiva inspirada pelas origens. É curioso como as palavras evoluem: afinal, revolução, segundo seu significado original latino (re-volvere), se referia a uma movimentação que levasse novamente ao ponto de partida, às origens".

29/10/2015

Angel Millar - Mishima: A Estética da Ação

por Angel Millar



Já se passaram mais de quatro décadas desde que Yukio Mishima - dramaturgo, samurai moderno, nacionalista, fisiculturista, e de modo geral um enigma japonês - desencadeou uma onda de choque por todo o Japão cometendo seppuku, o suicídio ritual do samurai. Porém, hoje, ele está de volta à vista do público. Julho viu o lançamento do filme 11.25 O Dia em que Mishima Escolheu seu Destino de Koji Wakamatsu, e a primeira exibição solo em um museu público do Japão, do fotógrafo e colaborador de Mishima, Kishin Shinoyama, foi inaugurada.

Shinoyama capturou algumas das imagens mais controversas do dramaturgo japonês, em uma coleção de fotografias chamada Barakei (Ordálio [ou Tortura] por Rosas). O próprio Mishima esteve intimamente envolvido em conceitualizar as imagens, e, em grande medida, elas são uma meditação na qual os fantasmas mentais emergem, meio pensados, meio sentidos. Tiradas em um preto-e-branco granuloso, as fotografias justapõem o corpo musculoso de Mishima com esculturas e pinturas barrocas e desenhos do corpo humano.

Em uma fotografia, Mishima está envolvido em uma mangueira de jardim, como se oprimido pela mundaneidade em si. Em outra, ele está amarrado a uma árvore, em imitação a São Sebastião, com seu corpo perfurado por flechas. Parte erotismo, parte auto-idolatria, parte contemplação da mortalidade, através de Barakei, o autor japonês se impulsiona dos mundano reino do erotismo, para além do véu da morte, para se demorar entre os anjos.

O espírito de Barakei pode ser considerado tântrico - aquela prática hindu e budista da unio mystica pela união sexual. Mas parece, em todos os sentidos, ser uma fusão de estética e ideias tanto ocidentais como japonesas. Quando jovem, Mishima havia sido frágil e pouco atlético. Mas ele resolveu forjar para si mesmo um novo e masculino corpo, e passou à prática do fisiculturismo (que havia sido introduzido no Japão por soldados americanos - os vitoriosos da Segunda Guerra Mundial) e do kendô. Talvez por causa do desprezo de Mishima pelo corpo frágil, Barakei possui uma insinuação de militância. Tradicionalmente, no Tantra, em contraste, o devoto era às vezes obrigado a realizar a união sexual com um membro do sexo oposto que ele achasse feio. Aparentemente isso tinha como objetivo libertar o devoto de tomar a aparência das coisas por sua substância.

Na cultura japonesa clássica, porém, a relação entre aparência e essência é enfatizada. O pintor em tinta pratica pintar um único círculo, com um único gesto e uma única exalação. Se ele perder a concentração mesmo que por um segundo, isso ficará evidenciado no círculo, que sairá ovalado, ou terá uma protuberância. Aparência e espírito estão, para o japonês clássico, interligados.

Sensualidade e espiritualidade profundas estão conectados, não necessariamente exclusivamente pelo prazer - como se encontra na religião persa, o zoroastrismo, onde as riquezas são vistas como reflexo dos céus - mas também por emoções mais obscuras, e mesmo através da morte. Notavelmente, o japonês ukiyo era um termo budista, significando fadiga (uki) da vida (yo). Porém seu significado se transformou, se tornando associado com os distritos de prazer de Edo (Tóquio), e suas cenas de bebedeira, cortesãs, e todo o resto. O mundo flutuante, neste sentido, era o mundo do prazer temporário - refletindo a existência temporal do homem. Enquanto gênero, impressões xilográficas lidando com os distritos do prazer se tornaram conhecidas como ukiyo-e, literalmente "imagens do mundo flutuante".

Em Mishima: Uma Visão do Vácuo - uma obra particularmente pomposa sobre o dramaturgo - Marguerite Yourcenar liga as poses de Mishima no Barakei ao Hagakure, um manual samurai do século XVIII que recomenda que o guerreiro medite sobre sua morte iminente, para que ele não mais tema a morte. O Hagakure lhe ordena imaginar ser "cortado em pedaços ou mutilado por flechas" entre outras mortes medonhas. Assim, é fácil imaginar que Mishima posando como santo perfurado por flechas era uma influência dessa tradição. Porém, isso parece ignorar a mensagem de Mishima: i.e., que as ações - especialmente as ações militares - são estéticas, não mecânicas ou puramente práticas.

A mensagem de Mishima - jamais berrada dos telhados - está inteiramente de acordo com a história e sensibilidade japonesas. Muitos samurais - incluindo o célebre Miyamoto Musashi - foram artistas e calígrafos, além de espadachins. Ademais, influenciados pelo Zen Budismo, os japoneses há muito tem considerado as diferentes artes como revelatórias ao praticante do mesmo satori (entendimento) ou kensho (compreensão da verdadeira natureza do eu), não raro em uma revelação momentânea durante a prática. Arranjo floral e a arte do guerreiro, enquanto tais, não são duas coisas diferentes. Como diz o Hagakure, "É ruim quando uma coisa se torna duas. Não se deve procurar por nada além no Caminho do Samurai. É igual para qualquer coisa chamada de Caminho. Se isso é compreendido dessa forma, o samurai se torna capaz de ouvir sobre todos os caminhos e ficar cada vez mais de acordo com o seu próprio".

O "caminho" (Do) de Mishima o levou de escrever a atuar em filmes (onde ele interpretou personagens como mafiosos e detetives), a formar seu próprio exército privado. A Tatenokai (Sociedade do Escudo) consistia em cem homens jovens. Mishima disse a ter formado para dar aos estudantes - que não se encaixavam facilmente no novo zeitgeist marxista - um lugar seu. Mas, mesmo aqui, a preocupação estética de Mishima o levou a desenhar os uniformes, se inspirando nos uniformes mais clássicos dos exércitos europeus. (Os "úniformes rígidos nos fazem pensar na Alemanha e na antiga Rússia", ressalta Yourcenar).

Na realidade, a Tatenokai não era uma unidade de combate. Seu propósito primário pode ter sido, de fato, puramente estético: lembrar Mishima e despertar o Japão para a ideia de que ainda poderia haver um modo de vida espiritual, estético e ao mesmo tempo masculino na era moderna - não um "caminho" como na palavra inglesa, mas como no Do japonês ou no Tao chinês. Notavelmente, Mishima era insistente de que seu exército não deveria se envolver em baixarias e atividades pequenas: "Sem demonstrações de rua para nós, sem placas, sem coqueteis molotov [...] sem apedrejamentos", ele determinou. "Até o último momento desesperado, nos recusaremos em nos comprometer à ação. Pois somos o exército menos armado, e mais espiritual do mundo".

Em 1970, Mishima e membros da Tatenokai entrar na Estação Ichigaya das forças de auto-defesa do Japão. Mishima apareceu na sacada, discursando para os soldados abaixo sobre como o Japão havia se tornado materialista e decadente, ainda que suas palavras logo fossem abafadas pelos sons dos helicópteros da imprensa. Finalmente, longe das vistas, ele cometeu seppuku, abrindo seu estômago com uma espada samurai.

O Japão ficou constrangido com o suicídio público de Mishima, e, em alguma medida, ainda sente certo desconforto em relação ao dramaturgo. Isso é compreensível. Mas devemos parar para refletir que, no Ocidente pelo menos, os heróis da era moderna, não raro, morreram de overdoses, afogados no próprio vomito ou assassinados em tiroteios. E, não infrequentemente isto é visto como virtualmente admirável - prova de sua sinceridade. Isso obviamente só é prova da superficialidade bárbara dessas pessoas que encontram entretenimento na morte.

Apesar de seu suicídio - e estilo muitas vezes extravagante (o que é extremamente não-nipônico) - as obras de Mishima são consideradas clássicas. Mesmo no Ocidente, seus livros são leitura obrigatória para quem frequenta cursos de literatura japonesa na universidade. É possível separar o homem de sua arte, e sua morte da mensagem de sua vida: que as ações são estéticas, e que a masculinidade, em seu ápice, é espiritual; preocupada, como deve ser, com valores e beleza, força interior e disciplina.

Alberto Buela - A Pós-Modernidade

por Alberto Buela



O termo pós-modernidade nasce no domínio da arte e é introduzido no campo filosófico há uma década por Jean Lyotard com seu trabalho A Condição Moderna (1983). A noção se difundiu amplamente, mas em geral seu uso indiscriminado conduz a uma confusão, já que em realidade pode-se distinguir três atitudes pós-modernas.

A primeira, a daqueles filósofos que vão no esteio da escola neomarxista de Frankfurt; os Habermas, os Adorno, os Eco, etc., que criticam a modernidade naquilo que lhe faltou levar a cabo como projeto moderno dos filósofos do Iluminismo. Em uma palavra, sua crítica à modernidade radica em que não completou seu projeto. E assim podem afirmar: "fieis aos ideais da Ilustração para trabalhar pelas Luzes de hoje" (J. Derribar: L'autre cap); "É necessário retomar o projeto do Iluminismo" (A. Finkielkraut: La défaite de la pensée).

A segunda, é a daqueles representantes do pensamento débil, os Lyotard, Scarpetta, Vattimo, Lipovetsky, etc., que defendem um pós-modernismo inscrito na modernidade. Quer dizer, são os autores que em sua crítica à modernidade propõem uma desesperançada resignação. Mas sem abandonar sua confiança na razão entendida ao modo moderno. Assim poderá afirmar Lipovetsky: "Não joguemos fora a criança junto da água do banho: as perversões da razão prometeica não condenam sua essência. Se a razão moral amarra o cabo, só a razão instruída pode nos aproximar ao porto" (G. Lipovetsky: O Crepúsculo do Dever).

Seu mérito estiva em que a perspicaz descrição de uma realidade alienante que envolve o homem de hoje, como o é o poder quase onímodo dos meios de comunicação com sua capacidade de "dar sentido" às coisas e notícias que valoradas e analisadas em si mesmas carecem de sentido". A obsessão pelo novo, que o torna intercambiável com o verdadeiro, o domínio da publicidade, que ao pôr o ser à venda confunde a existência com a mercadoria. A manipulação da natureza pela técnica, considerada falsamente como um instrumento eticamente neutro.

Estas duas atitudes se caracterizam mais exatamente como uma crítica à modernidade, do que como uma proposta de superação da mesma.

Em nossa Argentina atual onde a imitação tilinta por todas as partes, os que "trabalham de filósofos" - Grondona, Sebrelli, E. Díaz, López Gil, O. Terán, Marí, etc. - se balançam alegremente estre essas duas correntes sem entender nada (Cfr. os suplementos culturais do "Clarín" e do "La Nación").

Finalmente, a terceira atitude é a daqueles pensadores como R. Steuckers, G. Fernández de la Mora, M. Tarchi, P. Ricoeur, G. Locchi e outros que submetem a crítica a modernidade com um rechaço da mesma. Não sucede neste caso como no denominado "pensamento débil", que é um filho desencantado da modernidade, pelo contrário aqui a oposição é frontal e ademais se oferecem propostas de superação.

Se bem este pós-modernismo, que poderíamos chamar forte, apresente algumas variantes nietzscheanas e neo-pagãs como no caso de O. Mathieu, G. Faye, J. Esparza ou A. de Benoist, basicamente, se caracteriza por uma busca e defesa insubornável da identidade dos homens e dos povos. Uma crítica fundamental ao mundialismo e ao projeto político do atlantismo.

Agora bem, em nossa opinião, a crítica à modernidade tem que ser dirigida aos relatos ou discursos que ela elabora com pretensão de universalidade. Destes grandes relatos da modernidade faremos referência a seis: A ideia de progresso indefinido, o poder onímodo da razão, a democracia como forma de vida, a subjetivação do cristianismo, o afã do lucro e a manipulação da natureza pela técnica.

O século XVII se caracteriza pelo intenso e rápido progresso das ciências da natureza, onde Bacon e Galileu destacam como particularmente fecundos enquanto métodos investigativos: a experimentação e o cálculo matemático. Este progresso imenso em um domínio do saber levou o homem moderno a postulá-lo para todo o campo do saber e do obrar humano como princípio incontrastável do progresso indefinido. 

Já com o Renascimento, século XV, Deus deixa de ser o centro da reflexão para passar a ocupar seu lugar o homem enquanto sujeito. Quer dizer, o homem passa a ser considerado como criador de um mundo próprio cujo espírito e dignidade se revelam nas obras-primas da Antiguidade Clássica.

E qual é o instrumento que permite a este homem o acesso a este ideal do progresso indefinido? Uma faculdade que lhe pertence por direito próprio: a razão. E especificamente, a razão calculadora exaltada pela ciência matemática como órgão idôneo para a descoberta das leis que regulam a experiência e constituem a estrutura racional do mundo. A atribuição de um poder onímodo à razão por parte do homem moderno, foi a partir deste momento um fato normal, natural e evidente.

A democracia como forma de vida é um dos últimos relatos da modernidade. Começa a se constituir em paradigma universal a partir do último quarto do século XVIII, e é a Revolução Francesa sua grande propulsora. E é a versão liberal da sociedade política a que dá origem à democracia moderna, não se apercebendo que a democracia é uma forma de governo, como o são a monarquia ou a aristocracia, e que portanto, reduzir o homem a tão somente à forma de vida democrática, é espartilhá-lo e privá-lo das múltiplas e variadas formas de vida que o homem se dá e pode dar a si mesmo para existir plenamente.

A subjetivização do cristianismo nasce com o livre exame das escrituras propelido pela Reforma Protestante do século XVI encabeçada por Lutero e Calvino, e se consolida com o primado da consciência do filósofo Descastes, para quem a descoberta da verdade é obra pessoal da razão que atua e vive em cada indivíduo. O "penso, logo existo" é a única verdade inquestionável a que chega a razão cartesiana. Esta subjetivização do cristianismo produziu como resultado uma cristandade partida em seitas como a que hoje vemos na América. Para benefício exclusivo dos pastores-empresários e endividamento dos fieis que os seguem.

O outro grande movimento gestado no século XVIII, junto ao progresso das ciências naturais, é a formação dos Estados nacionais sobre a ruína do Estado feudal e o aparecimento de uma nova classe: a burguesia. Movida, não já pelos ideais cristão-cavalheirescos da Idade Média, senão pelo espírito de lucro. (cfr. W. Sombart: Luxo e Capitalismo).

O último dos grandes discursos da modernidade é a manipulação da natureza (incluindo o homem) pela técnica. Este relato quer significar que a instrumentação prática do poder onímodo que se outorgou à razão pode fazer com a natureza e com o homem o que queira. Sustentando que a pauta moral está justificada por seu próprio progresso.

Estes grandes relatos da modernidade colapsaram. Não tanto pela crítica que lhes foi feita desde uma ótica pré-moderna, senão pelas consequências contraditórias a que os mesmos chegaram.

Assim, o progresso indefinido das ciências físico-naturais foi detido pela quebra da física clássica por parte dos Einstein, dos Plank e dos Heisenberg. Assim como pela falta de um progresso moral correspondente, para não falar em retrocesso, do homem contemporâneo.

O poder onímodo da razão foi quebrado não só pela descoberta do inconsciente (Freud) mas também pela função desmascaradora do irracional (Nietzsche) e pela captação emocional dos valores (Scheler).

A democracia como forma de vida foi frustrada não só pelo fracasso dos governos social-democratas, como ainda pela afirmação de outras possibilidades de organização política, fora do marco do capitalismo liberal (de Marx a Gaddafi). E em nossos dias a luta dos povos (de croatas a curdos) seguindo seus ideais nacionalistas para seguir existindo na história.

A subjetivização do cristianismo, a opção preferencial pelos pobres da Igreja Católica que supera o âmbito individual para se inserir enraizadamente no domínio social. A mensagem, em última instância iluminista, da Teologia da Libertação dos anos 70-80, está sendo substituída hoje pela teologia do marginal na América Hispânica. Desde o campo filosófico a consolidação definitiva da fenomenologia e seu lema de "ir às coisas mesmas" terminou no psicologismo subjetivista.

O espírito do lucro parece não quebrado ainda. Mas a desconformidade com ele, por parte dos povos dependentes, é algo manifesto; apesar da publicidade insistente do modelo de globalização neoliberal. De tanto viver com "o nariz colado no vidro" - neste caso o da televisão - e não poder adquirir nenhum dos produtos que como panacéias nos oferece o Primeiro Mundo por carecer de meios, faz com que a opção de vida seja mais e mais a marginal ou informal.

Por último, a manipulação da natureza e do homem pela técnica concluiu na alienação e dependência do homem em relação a seus próprios produtos. O homem não só como escravo, como também ao se sentir produto da técnica, começa a reagir da única maneira possível: com serenidade para com as coisas. Se dá conta, como observou agudamente Heidegger, que "podemos usar os objetos técnicos, servir-nos deles de forma apropriada, mas mantendo-nos ao mesmo tempo tão livres deles que em todo momento possamos nos livrar deles" (cfr. M. Heidegger: Serenidade).

Estamos assistindo ao nascimento de uma nova época, a quebra dos paradigmas abarca todos os domínios. Começando pela tão falada quebra do equilíbrio ecológico. A confusão das funções é total (o político é empresário, o esportista é pensador, o santo é assistente social, os imbecis são filósofos, etc).

Não existe uma visão totalizadora do homem, do mundo e de seus problemas, mas retalhos, visões parciais e conjunturais. O homem está forçado a se perguntar novamente por si, a tratar de encontrar a si mesmo, e isso não é fácil, mas não lhe resta qualquer outra saída genuína.

Está obrigado a instaurar um novo enraizamento no mundo, que se funde na preferência de sua própria ecúmene cultural e em seu pertencimento a um solo. Do contrário, se transformará em um homúnculo.