28/08/2015

Leonid Savin - Os Cinco Grandes, Segurança Eurasiática e Outros Projetos

por Leonid Savin



Nos idos de 2001, um importante analista da companhia bancária americana Goldman Sachs Group Inc., Jim O'Neill, usou o acrônimo BRIC para descrever as economias em desenvolvimento. Ainda que ele a tenha utilizado no contexto de um paradigma neoliberal global, a Rússia "cooptou" o termo, propondo ao Brasil, à Índia e à China construir uma cooperação multilateral. Em relativamente pouco tempo, muito foi feito para desenvolver mecanismos de interação. Posteriormente, a África do Sul se uniu aos quatro países (e o acrônimo BRICS nasceu).

Agora, os cinco países, que ocupam 26% da área territorial do planeta, representam 42% da população mundial e geram 27% do PIB mundial, são considerados como o novo ator coletivo do mundo multipolar, baseado no princípio da descentralização e na habilidade de responder aos desafios do século XXI. Como o vice-Ministro de Relações Exteriores russo Sergei Ryabkov, na sua coletiva de imprensa durante a Cúpula dos BRICS e da SCO em Ufa em 9 de julho de 2015, disse, "a prática dos BRICS não tem precedentes na política internacional", e o grupo de Estados tornou-se "um fator importante nas relações internacionais". Os BRICS estão se tornando gradativamente os novos "Oito Grandes", mas apenas na base da igualdade, da transparência e do consenso entre todos os membros.

A última cúpula em Ufa mostrou que o tom informal no qual a cooperação estava baseada não impediu a criação de uma associação internacional completa, mais democrática do que outras alianças do último século. Em Ufa, um plano para ações futuras foi aprovado - um tipo de sumário da matriz operacional dos BRICS para o futuro próximo. Ele inclui uma declaração de finalidades, a estratégia da parceria econômica e anuncia a abertura de um departamento virtual - o site oficial dos BRICS, que publicará documentos oficiais e materiais relevantes. O Banco dos BRICS foi inaugurado e uma reserva de ativos estrangeiros foi formada. Seu capital combinado é de 200 bilhões de dólares. Os primeiros projetos financiados ocorrerão na primavera de 2016, não limitados aos cinco países, mas possuindo caráter global. Essencialmente, é uma alternativa financeira ao FMI dos Rothschilds, fazendo investimentos em setores necessitados da economia real dos países, e não conduzindo transações especulativas ou fornecendo empréstimos onerosos, como o fazem bancos estrangeiros, mercados de capitais e fundos.

Também, entre os países dos BRICS a cooperação será reforçada em questões financeiras e econômicas. Particularmente, o diretor de Questões Europeias e Centro-Asiáticas Gui Congyou notou que a Rússia é uma prioridade para investimentos chineses, o que será feito não apenas em infraestrutura, mas na construção de casas baratas e em alta tecnologia também.

O ano da presidência russa dos BRICS tem sido muito dinâmico. Como o Presidente da Rússia Vladimir Putin disse em 9 de julho, "no ano da presidência russa nós conduzimos os primeiros encontros para fóruns civis, parlamentares e da juventude dos BRICS. A criação da Universidade de Rede dos Brics está em processo tanto quanto o estabelecimento do Conselho de Regiões de nossa organização".

Deve ser acrescentado que a cooperação está acontecendo agora não apenas nos campos financeiro e econômico do bloco: encontros ministeriais tem sido realizados para questões de saúde, educação, agricultura, impostos, ciência e tecnologia, seguridade social, comunicações, trabalho e emprego e cultura. A coordenação crescente entre os países afetou virtualmente todas as questões internacionais agudas, de conflitos regionais e ameaça do narcotráfico ao setor espacial e pirataria marítima. Para isso, todas as técnicas que podem tornar relações multilaterais burocráticas foram deliberadamente evitadas. Os líderes de todos os países dos BRICS concordaram com a opinião de que o atual formato antiburocrático deve ser mantido.

Isto indica o lado civil dos BRICS similarmente. A questão, abordada na Cúpula em Ufa, foi também discutida na véspera do fórum em Moscou com a participação de especialistas. Em particular, através do Conselho Empresarial dos BRICS muitos acordos foram feitos, enquanto líderes sindicais davam suas recomendações aos Chefes de Estado dos BRICS. O Presidente da Federação de Sindicatos Independentes da Rússia, Mikhail Shmakov, em uma reunião com Vladimir Putin, também assinalou a necessidade de evitar quaisquer métodos do neoliberalismo, que é o culpado por todas as crises globais atuais. Esta é uma observação importante mostrando que os BRICS estão em consenso a nível de ideologia política, um que guiará os países participantes.

Os BRICS também podem ser considerados como um clube em que os membros seguem o princípio da reciprocidade. o Primeiro-Ministro indiano Narendra Modi durante um encontro em formato maior de líderes dos BRICS indicou a importância de completar uma reforma na ONU e seu Conselho de Segurança. Segundo ele, isso ajudará a responder mais efetivamente a quaisquer chamados. Muito reveladora foi a afirmação do líder indiano sobre sanções - que apenas sanções da ONU tem qualquer poder, enquanto todo o resto é tentativa de alguns países de ditar seus termos, o que é inaceitável. Dilma Rousseff, Presidente do Brasil, também levantou a questão da reforma da ONU e da disponibilidade de participar em vários projetos da harmonização de fluxos migratórios ao controle de mudanças climáticas.

É significativo que outros países estão mostrando um interesse crescente nos BRICS. Por exemplo, no fórum financeiro dos BRICS/SCO, que ocorreu em 8 de junho, o vice-presidente do Banco de Desenvolvimento Industrial da Turquia Çigdem Içel também estava presente; ademais, a participação formal dos Chefes de Estado da SCO na Cúpula dos BRICS como convidados elevou grandemente o status do evento. Porém, excetuando a agenda oficial, os líderes puderam se comunicar em um cenário informal, discutindo um número de questões que são igualmente importantes para construir uma parceria confiável.

O Ocidente se comportou de sua maneira característica de duplicidade e guerra informacional. Por exemplo, a publicação da Bloomberg foi totalmente manipulada, como se a economia agregada dos BRICS quase tivesse alcançado a economia americana. Isto não é verdade, já que segundo o FMI só a China já ultrapassou os EUA em 2014; o Conselho de Relações Exteriores, falando de forma mais realista, apontou que os BRICS reduzirão a influência do Ocidente. Stratfor acrescentou que os BRICS e a SCO evoluíram a um tipo de plataforma para mobilizar resistência contra os EUA. Ostensivamente, analistas americanos não ouviram ou não quiseram ouvir as afirmações repetidas das primeiras pessoas e ministros de que os BRICS não estão dirigidos contra qualquer Estado ou potência, possuindo uma agenda aberta. Similarmente, a SCO foi estabelecida para resolver questões de segurança regional na Eurásia, bem como para participar na produção de energia e na criação de corredores de transporte.

Mas é claro, as duas estruturas responderão adequadamente às tentativas de solapar a soberania ou interferência em questões internas. Na cúpula, os lados chinês e russo afirmaram e reafirmaram a importância de se preservar a justiça histórica e a necessidade de resposta imediata para quaisquer esforços de se justificar fenômenos como o nazismo.

A cúpula da SCO, ocorrendo imediatamente após os eventos dos BRICS no mesmo lugar, também esteve marcada por decisões importantes. Pela primeira vez na existência da organização a recepção de novos membros, Índia e Paquistão, ocorreu. Ademais, houve um acordo para a elevação no status de participação da República da Bielorrússia ao de Estado observador da SCO. Na qualidade de parceiros de diálogo da organização, uniram-se Azerbaijão, Armênia, Camboja e Nepal. Em uma das coletivas de imprensa em Ufa, um jornalista ocidental levantou a questão dos vários problemas entre Índia e Paquistão e como eles poderiam cooperar, se permanecerem as diferenças e o potencial para conflito. O ponto é que a SCO está trabalhando em um paradigma completamente diferente ao do Ocidente, que adere à escola do realismo político, com práticas de elementos como dissuasão, confrontação, conflito de interesses e daí em diante. A SCO está desenvolvendo toda uma nova abordagem de segurança coletiva, ao mesmo tempo que respeita os interesses e soberania de todos os membros da organização. É provável que, com este formato, ela seja até mesmo capaz de ajudar a normalizar as relações entre Armênia e Azerbaijão.

Muito importante é o fato de que a adesão da Índia e do Paquistão à SCO torna esta uma aliança de quatro potências nucleares. O Presidente uzbeque Islam Karimov acrescentou que isto poderia mudar o equilíbrio de forças no mundo. Não menos relevante é a questão da participação futura da República Islâmica do Irã. Enquanto Teerã estiver sob sanções da ONU, isto não é possível. Mas, como dito pelo Ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, o Irã fez importantes progressos com diálogos entre os seis países e podemos esperar que no futuro este problema seja resolvido - a não ser que o Ocidente tente rever a estrutura dos acordos alcançados antes, como já aconteceu em outras situações.

Na cúpula da SCO um programa de cooperação na luta contra o terrorismo e o separatismo nos anos de 2016-2018 foi também aprovado (é digno notar que, nesta época, a direção do Comitê Executivo da SCO estará nas mãos da Rússia) e o desenvolvimento da Convenção da SCO para Combate ao Extremismo foi iniciado, bem como o estabelecimento do Centro de Resposta a Ameaças e Desafios à Segurança dos Estados-membros da SCO com base na Estrutura Regional Antiterrorista (RATS). A organização terrorista "Estado Islâmico" foi reputada como uma séria ameaça e todos os membros da SCO reiteraram sua intenção de combatê-la e outros extremistas internacionais.

O desenvolvimento da estratégia da SCO até 2025 foi aceita e a Declaração de Ufa foi adotada. A estratégia diz que a SCO trabalhará "em favor da construção de um sistema democrático policêntrico de relações internacionais", referindo-se também à fundação de um espaço de segurança indivisível. Também importantes são os princípios e valores designados de Estados e povos, nos quais as características históricas e a identidade de todos os Estados-membros são levados em consideração.

Em seu discurso dedicado aos resultados das duas cúpulas, o Presidente russo Vladimir Putin mostrou que está sendo feito um trabalho para "criar o Banco de Desenvolvimento da SCO e o Fundo de Desenvolvimento da SCO. A ideia de ter instituições com base na Associação Interbancária do Centro Internacional de Financiamento de Projetos da SCO é muito promissora". Ademais, o líder russo pediu um uso mais ativo das possibilidades da SCO inerentes aos BRICS.

Mas tirando o par BRICS-SCO, há muitos projetos regionais que naturalmente se unirão a ambos formatos. Assim, os líderes da Rússia e da China declararão que estão dispostos a trabalhar proximamente na implementação de dois projetos de integração - a União Econômica Eurasiana e o Cinturão Econômico da Estrada da Seda. Ademais, há relações trilaterais, tal como entre Rússia-Mongólia-China. Em paralelo à cúpula dos BRICS, os líderes dos três países concordaram em intensificar os trabalhos em uma série de frentes - da criação de projetos de infraestrutura a atividades culturais e de informação. Como o Chefe de Governo da China Xi Jinping pontuou, "é necessário formar uma comunidade de destino mútuo e promover a multipolaridade".

Os BRICS também coordenarão a defesa de sua posição dentro do Grupo dos Vinte (G20). Ademais, esta plataforma será usada para diferentes projetos dentro dos BRICS e da cúpula do G20 em novembro deste ano, a ser realizada na Turquia, continuando a discutir a preparação do banco e de outras tarefas identificadas na Declaração de Ufa.

Tudo isto automaticamente significa que qualquer tentativa de manipulação externa, mesmo sob pretextos plausíveis (por exemplo, os EUA estão ativamente promovendo o projeto de uma Nova Estrada da Seda), está destinada ao fracasso. E o mundo com a assistência dos BRICS e da SCO será mais seguro e harmonioso.

18/08/2015

Mark Hackard - O Bombardeiro da Paz

por Mark Hackard



Nos últimos meses de 2010, os EUA haviam intensificado sua campanha aérea sobre terras tribais pashtun que se situam ao longo de uma montanhosa e parcamente definida fronteira paqui-afegã. No curso de 102 dias, 58 ataques contra operativos da Al-Qaeda e do Talibã (bem como contra um número alto, porém desconhecido, de inocentes) foram realizados pela Força Aérea e pela frota de veículos aéreos não-tripulados da CIA.

Tanto jihadistas como civis são incinerados por mísseis hellfire sem muita atenção da mídia, e soldados e fuzileiros americanos que caem em combate não tem como esperar coisa muito melhor. Porém, uma morte conectada à guerra no Hindu Kush certamente atraiu atenção em Washington: a de Richard Holbrooke, o Representante Especial do Departamento de Estado para o Afeganistão e o Paquistão.

Holbrooke, responsável pela coordenação diplomática do conflito, morreu de uma aorta rompida em 13 de dezembro. Desde então, a imprensa e a administração Obama derramaram torrentes de elogios sobre esse "gigante da diplomacia americana". Mas talvez o tributo mais adequado ao homem tenha sido o papel cada vez maior de drones assassinos na execução de políticas, como relatado desde o noroeste do Paquistão. Apesar de suas experiências anteriores no Vietnã, Richard Holbrooke passou a crer firmemente em redenção por poder aéreo coercitivo. No bombardeio há progresso; no bombardeio deveremos encontrar a paz.

À luz de seu zelo missionário, as realizações e histórico de Holbrooke merecem exame. Ele foi, como o estudioso dos Bálcãs Srdja Trifkovic notou, um arquiteto central e de certas maneiras a personificação do intervencionismo americano. À parte seu status elevado em Foggy Bottom, Holbrooke representava um nexo de governo, interesses de Wall Street e influência de ONGs. Nessa capacidade, ele foi por décadas um impositor efetivo e enérgico da Pax Americana. Onde projetos geopolíticos americanos cruzavam com pontos de crise na Eurásia, Holbrooke era enviado para explorar a situação. Seus métodos de negociação consistiam principalmente na apresentação de ultimatos e punições correspondentes por desobediência.

A década de 90 seria a década em que Holbrooke ganharia sua fama. Conforme a antiga Iugoslávia se despedaçava em conflitos étnicos e religiosos, os EUA buscavam impôr sua dominação sobre a região. As guerras balcânicas daquela década foram algo brutal e complexo, mas para Holbrooke e a administração Clinton era tudo muito simples: os sérvios precisam ser diminuídos. Aqui, também, estava a perfeita oportunidade para se exercer poder americano em prol do progresso humano. Nos vales montanhosos do sudeste da Europa, os fantasmas da história só poderiam ser exorcizados com uma barulhenta demonstração de força. Como um profeta de Washington, Holbrooke iluminaria o caminho para uma Sociedade Aberta com munições guiadas por laser.

Os papeis nessa peça teatral moralista já estavam distribuídos: muçulmanos bósnios virtuosos e vitimizados, croatas mais ou menos toleráveis, e sérvios malignos, até mesmo selvagens. O fato de que o presidente bósnio Alija Izetbegovic e seu par croata Franjo Tudjman eram gangsters do mesmo molde que o sérvio Slobodan Milosevic não era registrado pelas elites da política externa americana - o roteiro já estava escrito, e tinha que ser seguido. A direção desse cenário por Holbrooke lhe garantiria seguidores no Ocidente, com os Acordos de Dayton de 1995 sendo projeto seu.

A fórmula favorita de Holbrooke de intimidação e bombardeio aéreo foi aplicada repetidamente para forçar Belgrado a se submeter às demandas americanas, primeiro de criar o Estado bósnio e então de separar o Kosovo da Sérvia em 1999. O seguinte pedido a seu colega Strobe Talbott esclarece Holbrooke, amante e libertador da humanidade, em toda sua retidão beligerante:

"Este é um momento crítico para nós pessoalmente, nossa responsabilidade para com a nação e a coisa certa a fazer. Dê-nos bombas para diplomacia. Dê-nos bombas para a paz. Precisamos bombardear para tornar nossa diplomacia efetiva. E não nos segurarmos".

Seria um erro ver tal apelo como meramente outro exemplo do dito de Clausewitz sobre a guerra como instrumento da política, pois ela está enraizada em uma visão muito mais ampla e de longo alcance. O homem criado quaker por pais judeus ateístas desenvolveu uma fé inabalável na violência redentora, a destruição revolucionária necessária para moldar um novo mundo. Nisso ele era uma alma irmã dos radicais oitocentistas e neoconservadores contemporâneos como Paul Wolfowitz. O desejo apaixonado de Holbrooke por bombas foi concedido, a influência americana na Europa justificada, e novos micro-estados muçulmanos estabelecidos nos Bálcãs.

Holbrooke usualmente explicaria suas ambições políticas no contexto de sua história familiar e etnia. Sua mãe havia fugido da Alemanha na década de 30, seu pai de Varsóvia. Um secularista convicto, como muitos outros homens assim Holbrooke ainda assim se orgulhava de sua herança judaica e evidentemente mantinha um forte laço emocional com Israel e o sionismo. E apesar de ele ter nascido em Nova Iorque, em seu coração ele se identificava com o refugiado alienado.

Por insistência da mídia, pressupõe-se que devamos associar o falecido Holbrooke fundamentalmente com compaixão e saudá-lo pro lançar seu nome por trás de inúmeras iniciativas humanitárias. Ainda assim, demonstrações públicas de virtude não retratam plenamente o espírito da carreira de Holbrooke e sua missão maior. Por trás da retórica moralista e de projetos de ajuda dignos de celebridades estava uma clara veia de animosidade em relação à cultura tradicional e os povos da Europa.

O que impulsionava Holbrooke tanto quanto simpatia por certas classes de vítimas era uma profunda hostilidade ao cristianismo, principalmente pela civilização ortodoxa, que tem permanecido significativamente fora da órbita americana. Assim, ele não foi apenas ativo mas entusiástico em garantir que a Sérvia seria pulverizada por uma campanha aérea da OTAN e roubada da província do Kosovo. Hoje o Kosovo é o maior conduíte europeu para a heroína afegã e um centro de tráfico ilegal de órgãos, além de abrigar uma das maiores bases americanas no continente. Holbrooke também nunca cansou de recomendar a entrada da Turquia na UE e era um promotor ativo de proxies jihadistas na Europa ocupada.

Se uma política provavelmente antagonizaria a Rússia, Holbrooke provavelmente a apoiaria. Da expansão da OTAN, a revoluções coloridas e programas de "sociedade civil" a tensões na Ossétia do Sul, ele consistentemente buscava interferir na periferia de Moscou. Sérvios desafiadores e os nacionalistas retrógrados no Kremlin tinham que conhecer seu lugar no Admirável Mundo Novo, e precisavam assim ser punidos e humilhados até que abraçassem sua subjugação. Se a Rússia em algum momento tivesse carecido dos meios de se defender, Holbrooke indubitavelmente teria estado pronto para implementar o modelo Kosovo no Cáucaso.

Todo o estilo e substância da obra de Holbrooke pode ser destilada em uma qualidade: não compaixão, mas agressão. A antiga prática imperial de dividir para conquistar só foi ampliada pelo discurso da ideologia dos "direitos humanos", e clipes de refugiados veiculados pela CNN serviam como desculpa conveniente para lançar mísseis contra infraestrutura civil. Onde estava, então, a lendária compaixão de Holbrooke por sérvios "expurgados" em Krajina e no Kosovo, ou por aqueles sequestrados, executados e explorados como doadores de órgãos no mercado negro? E as vítimas da Operação Força Aliada da OTAN? Elas não merecem a menor lembrança; nem, aliás, cristãos do Levente ao Timor Leste. Holbrooke tinha pouco tempo para se importar com os massacres dos timorenses na década de 70, enquanto ele estava obtendo caças contra-insurgentes para os assassinos indonésios. Isso não é pacificação, mas predação.

O teórico russo da renovação cultural Ivan Ilyn descreveu os bolcheviques que tomaram o poder em sua terra natal como aventureiros internacionalistas. Entre os supostos estadistas de nossa era, Richard Holbrooke exibia a marca do messianismo impiedoso característico de um Lênin ou Trótski. Ele, também, era um aventureiro internacionalista e o herdeiro espiritual de uma geração anterior de homens que promoveram a causa da revolução global. A morte de Holbrooke na aventura afegã é um prenúncio pouco sutil do que vem por aí: tal como o marxismo soviético, a ordem liberal marcha de seu momento de exaltação à aniquilação em meio a um terreno familiar.

Comentaristas tem lamentado o vácuo na política externa americana causado pela saída de um diplomata insubstituível. Em realidade há muito tem havido um nada sobrepujante no globalismo americano; o próprio Holbrooke, a grande máquina de demolição, incorporava este fenômeno melhor do que ninguém. Ele prestou serviços inestimáveis ao Império, tornando o mundo seguro tanto para a MTV como para os mujahedin, para a Ikea e o ELK. O que permanece é uma trilha de morte, as baixas infligidas para aproximar o homem a uma fraternidade de consumo, o composto para um futuro perfeito de liberdade e igualdade.

Richard Holbrooke proferiu estas palavras em uma entrevista em 2010 para descrever o programa político jihadista, mas ele não captou a ironia. Sua frase expõe tão bem quanto a longa guerra por democracia universal:

"É puro niilismo. Eles não representam absolutamente nada além de destruição, e eles destroem as vidas das pessoas deu ma maneira aleatória e insana".


02/08/2015

Arturo Pérez-Reverte - Os Amos do Mundo

por Arturo Pérez-Reverte



Você não sabe, mas depende deles. Você não os conhece, nem cruzará com eles em sua vida, mas esses filhos da puta o tem em suas mãos, na agenda eletrônica, na tela do computador, seu futuro e o de seus filhos. você não sabe que rosto têm, mas são eles que o vão mandar à fila de desempregados em nome de um três-ponto-sete, ou um índice de probabilidade de zero-vírgula-zero-quatro.

Você não tem nada a ver com esses fulanos porque é empregado de uma serralheria ou caixa de loja, e eles estudaram em Harvard e fizeram mestrado em Tóquio, ou ao contrário, vão pelas manhãs à Bolsa de Madri ou à de Wall Street, e dizem em inglês coisas como "long-term capital management", e falam de fundos de alto risco, de acordos multilaterais de investimento e de neoliberalismo econômico selvagem, como quem comenta a partida de domingo.

Você não os conhece nem por foto, mas esses motoristas suicidas que circulam a duzentos por hora em um furgão carregado de dinheiro vão atropelá-lo mais dia menos dia, e nem mesmo lhe restará o consolo de ir de cadeira de rodas para jogar ovos neles, porque eles não tem rosto púbico, apesar de serem reputados analistas, tubarões das finanças, prestigiosos especialistas no dinheiro alheio. Tão especialistas que sempre acabam tornando-o seu. Porque sempre são eles que ganham, quando ganham; e nunca são eles que perdem, quando perdem.

Não criam riqueza, só especulam. Lançam ao mundo combinações fastuosas de economia financeira que nada tem a ver com a economia produtiva. Alçam castelos de cartas e os garantem com espelhos e fumaças, e os poderosos da Terra perdem a cabeça de tanta bajulação só para que possam subir em seu carro.

Isso não pode falhar, dizem. Aqui ninguém vai perder. O risco é mínimo. O garantem prêmios Nobel de Economia, jornalistas financeiros de prestígio, grupos internacionais com siglas de reconhecida solvência.

E então, o presidente do banco transeuropeu tal, e o presidente da união de bancos helvéticos, e o chefinho do banco latinoamericano, e o consórcio eurasiático, e a mãe que pariu a todos, embarcam com alegria na aventura, enfiam dinheiro por um tubo, e logo se sentam para esperar essa bolada que vai fartar ainda mais todos eles e seus representados.

E enquanto sai bem a primeira operação já estão arriscando mais na segunda, que pechincha é pechincha, e juros de trocentos por cento não se encontram todos os dias. E ainda que esse jogo de espelhos especulador nada tenha que ver com a economia real, com a vida de cada dia das pessoas na rua, tudo é euforia, e palmadinhas nas costas, e até entidades bancárias oficiais comprometem suas reservas de divisas. E isto, senhores, é o paraíso.

E logo resulta que não. Logo resulta que o invento tinha suas falhas, e que isso de "alto risco" não era uma frase, mas exatamente isso: alto risco de verdade. E então todo o palanque desaba. E estes fundos especiais, perigosos, que cada vez tem mais peso na economia mundial, mostram seu lado negro. E então, oh prodígio, enquanto os benefícios eram para os tubarões que controlavam a zona e para os que especulavam com dinheiro alheio, parece que as perdas, não.

As perdas, a mordida financeira, o pagamento pelos erros desses playboyzinhos que brincam com a economia internacional como se jogassem Banco Imobiliário, recaem diretamente sobre as costas de todos nós.

Então resulta que enquanto o benefício era privado, os erros são coletivos, e as perdas tem que ser socializadas, acudindo com medidas de emergência e com fundos de salvação para evitar efeitos dominó e todos metem a mão. E essa solidariedade, imprescindível para salvar a estabilidade mundial, é paga com sua pele, sua poupança, e às vezes com seu posto de trabalho, pelo Mariano Pérez Sánchez, empregado de comércio, e pelos milhões de infelizes Marianos que ao longo e largo do mundo se levantam todo dia às seis da manhã para ganhar a vida.

Isso é o que vem por aí, temo. Ninguém perdoará um centavo da dívida externa de países pobres, mas nunca faltarão fundos para tapar buracos de especuladores e canalhas que jogam roleta russa com a cabeça alheia.

Assim podemos já ir nos preparando para o que vem por aí. Este é o panorama que os amos da economia mundial nos apresenta, com a conversa de tanto neoliberalismo econômico e tanta merda, de tanta especulação e tão pouca vergonha. 

27/07/2015

Maurizio Lattanzio - O Comunismo Aristocrático

por Maurizio Lattanzio



Uma organização social, econômica e financeira deve, em primeiro lugar, se conformar a um princípio essencial: o elemento econômico (vinculado à ordem dos meios, caracterizado, pois, por sua instrumentalidade) deve estar subordinado ao princípio político (vinculado à ordem dos fins).

Assentada esta premissa, resulta necessário em seguida delinear as linhas essenciais e as articulações estruturais próprias da organização econômica e social do Estado.

Pudera parecer estranho que, no mesmo momento em que nos enfrentamos à exigência primordial de garantir a sobrevivência de nossa espécie, se desça à delineação de modelos organizativos econômico-sociais.

Perante isso, consideramos necessário fortalecer e difundir em sua totalidade o espectro teórico que reúne e expressa nossa alteridade racial, com o objetivo, pelo menos, de transmitir instrumentos político-culturais corrosivos e devastadores àqueles Camaradas que nos sigam e continuem nossa luta, perpetuando a ontologia da comunidade do povo na qual nos reconhecemos. Porém, algo talvez mais importante hoje, resulta igualmente necessário assinalar aqueles horizontes que, prescindindo da mais ou menos imediata atualidade prática, contribuam a romper, a separar as raízes enfermas através das quais flui o reflexo condicionado que, consciente ou inconscientemente, pode todavia nos induzir a dar ouvidos aos ecos de expressões que foram e são da direita.

O modelo organizativo que determinaremos e que tentaremos acima de tudo argumentar em suas possibilidades tradicionais, possui assim uma considerável eficácia "provocadora" político-psicologicamente, ainda que sem diminuir minimamente sua rigorosa conformidade com a cultura da tradição.

A organização estatal se configura como Estado popular, forma de comunismo aristocrático de tipo espartano e de inspiração platônica, caracterizado pela abolição da propriedade em qualquer de suas formas de manifestação.

Em nenhum caso se deve confundir a organização comunista da esfera econômica com o socialismo marxista, cujas proposições podem, por sua vez, se desenvolver inclusive no marco de uma sociedade que não seja integralmente ou estruturalmente comunista.

Habitualmente, o termo "comunismo" faz referência a ideologias que afirmam concepções fundadas sobre a estatização do ciclo produção-consumo; a terra, os meios de produção são propriedades do Estado e posse do povo que os utiliza segundo objetivos fixados pelas autoridades centrais, mediante o uso instrumental da planificação das necessidades e dos benefícios.

Hoje, o termo comunismo está associado automaticamente à ideologia marxista como sua consequência necessária sob o aspecto sócio-econômico. Há uma espécie de reflexo condicionado que induz a considerar o regime comunista da propriedade e do direito como monopólio exclusivo do marxismo. Semelhante reflexo resulta sem dúvida alguma estimulado pela incontestável relevância assumida pela ideologia marxista, que, ademais, aplicou de fato este esquema social e econômico no transcurso de seu desenvolvimento histórico-político durante o século XX. Mas isto não deve nos levar a erro: é bom saber que elaborações teóricas e aplicações práticas de caráter comunista remontam a épocas muito anteriores ao nascimento do socialismo marxista. (1)

À margem do regime comunista vigente na Esparta dórica, há que recordar especialmente o "comunismo platônico" teorizado precisamente por Platão na "República".

Na "República" de Platão, o regime comunista é ademais um privilégio que corresponde - em harmonia com sua função suprema - aos guardiões (fylakes), quer dizer, aos dois primeiros estamentos formados pelos sábios e pelos guerreiros, com estrita exclusão dos artesãos e dos camponeses. O regime comunista correspondente aos guardiões não se refere somente à propriedade, senão se estende também às famílias, com o fim de cimentar a absoluta coerência ética e por outra parte o absorvente serviço ao bem comum dos membros do corpo aristocrático. As relações entre jovens e velhos - cada um dos quais podia ser respectivamente o filho ou o pai do outro - ficarão estabelecidas sob um sólido tecido de solidariedade, alimentado pela desindividualização dos laços de sangue, e estendido ao conjunto da comunidade aristocrática. As uniões serão submetidas à disciplina do Estado segundo as regras da eugenia, enquanto as mulheres (as feministas chegaram atrasadas...), uma vez confiados seus filhos desde tenra idade aos modelos educativos implementados pelas instituições do Estado, poderão reempreender sua participação ativa na vida pública. Trata-se de uma ascese vertical, um volo imperiale, uma superação radical da sufocante amálgama feita de posse e desconfiança, hipocrisias e convenções, que caracterizam as relações interpessoais na podre e infame família burguesa.

"Um dia os trabalhadores viverão como os burgueses, mas por cima deles, mais pobre e mais simples, estará a casta superior. Esta será dona do poder". (2)

É um comunismo aristocrático e ascético, antidemocrático e anti-igualitário, que, por outra parte, não deixará de encontrar uma total ressonância nas prefigurações das sociedades comunistas não-marxistas ou cidades ideais surgidas no período renascentista ou ao redor do cristianismo das origens.

No livro segundo de sua obra principal, "Utopia", Thomas Morus descreve os contornos ideais da república perfeita. É a República de Utopia, na qual está abolida a propriedade privada e o uso dos bens está permitido a cada um segundo suas necessidades. Está suprimido também o uso do dinheiro, porque os bens se estimam por seu valor intrínseco e não como mercadoria de troca; e isso, a fim de evitar processos de acumulação e fenômenos especulativos. O trabalho é um dever social para todos, enquanto que as leis são poucas, simples e de fácil interpretação para todos. Em Utopia cada qual professa livremente a religião que deseja, mas todos admitem a existência de um ser supremo, a imortalidade da alma, o prêmio da virtude e o castigo do vício.

Na Cidade do Sol - notavelmente influenciada pelos modelos políticos de Platão e Thomas Morus - Tommaso de Campanella expressa suas aspirações relativas à política de "renovação dos séculos".

Os solares vivem em uma república - a "Cidade do Sol" - regida por um rei-sacerdote, o "Metafísico", e por três magistrados (Pan, Sir, Mor), isto é, "poder", "sabedoria" e "amor", que simbolizam os três atributos fundamentais do Ser desenvolvidos na "Metaphysica". Os solares praticam uma religião natural e possuem em comum a propriedade e as mulheres, enquanto que a procriação dos filhos está submetida a normas eugênicas. Segundo Campanella, a educação deve basear-se na experiência e em provas seletivas de aptidão, não em livros, do mesmo modo sua concepção política se funda em uma visão ético-religiosa e cósmico-mágica do universo.

No século XVIII, Morelly considera que a propriedade privada havia rompido a harmonia do estado de natureza, de cuja existência histórica Morelly, ao contrário de Rousseau, estava convicto. No estado de natureza reina a mais completa igualdade (com Morelly nos encontramos frente uma teorização comunista que, ainda não sendo marxista, resulta de qualquer modo já igualitária) e a comunidade de bens; a introdução da propriedade privada corrompe os costumes humanos e destrói suas inclinações naturais. O novo estado de natureza - cuja configuração comunista está descrita na Basiliade e no Códice - se caracterizará pela valorização da agricultura e do artesanato, enquanto que leis (anti)suntuárias impedirão a excessiva concentração de riquezas e os efeitos corruptores do luxo.

A influência de Morelly será notável com relação à ala mais radical da revolução francesa e no posterior socialismo utópico.

Charles Fourier acusa filósofos e políticos de adorarem duas perversas instituições da sociedade: o comércio privado e a família. Fundadas ambas na incoerência, quer dizer, sobre a fragmentação da sociedade em pequenos núcleos adversários e concorrentes, assim como sobre a mentira.

O comércio é o câncer da economia na medida em que representa uma atividade parasitária e fraudulenta dirigida a fomentar as condições favoráveis a qualquer atividade e manobra especulativa, do mesmo modo que a anarquia da produção e da circulação, o denominado "livre-comércio", é causa das crises econômicas mundiais.

No que concerne a família burguesa, baseada no egoísmo de casal e no matriarcado, esta pressupõe o crisol da hipocrisia e do convencionalismo, da esterilização das paixões e da miséria dos sentimentos (lógico e vergonhoso epílogo a um humorístico propósito de eternidade [sic] fundado sobre um "sim" dito perante um padre ou prefeito). Permita-nos sublinhar que hoje a família é isto, em um tempo no qual, por causa da "ausência de progenitores", extinguiu-se já qualquer função educativa da família em relação aos filhos, aos quais se transmite unicamente egoísmo, vileza e oportunismo. Não podendo ser outra coisa que uns fracos. A família burguesa? Uma carcaça em putrefação...

Para Fourier, o "trabalho sugestivo" deve se desenvolver dentro de comunidades denominadas "falanstérios", que estarão formados por um número de pessoas não superior a 1.600. Estas deverão desempenhar atividades genericamente relacionadas com o território circundante, ao extremo de se dotar também de uma pequena parte de indústria e de trabalho artesanal. Hostil a toda forma de socialismo igualitário e moralista, Fourier pensava que não era necessário suprimir a propriedade privada e a desigualdade social (a renda de cada associado é proporcional a seu trabalho, a seu talento e ao capital eventualmente investido), mas isto não deveria comportar o retorno de formas de competição e exploração ligadas à propriedade privada burguesa.

O Estado popular deverá constituir o tecido organizativo-institucional que acompanhe à obra de formação do "novo homem", preciosa substância celular do nunca extinto filão áureo da raça ário-europeia. Será necessário laminar e pulverizar os sustentáculos políticos, sociais e econômicos que mantém - qual sólidas plataformas - os processos de reposição das oligarquias burguesas e plutocráticas que dominam os regimes democrático-parlamentares.

Laços de clientelismo - entretecidos de forma implacável e enérgica dentro de uma sociedade na qual o homem brilha por sua ausência e predomina o vaga-lume - atados ao redor das burocracias do Estado, do partido e do sindicato; consolidados status sociais burgueses (porque se bem é certo que a burguesia é antes de tudo uma mentalidade - nisso estamos de acordo - não é apenas isso, dado que ela se expressa simultaneamente também na ostentação do poder e do privilégio particular mediante estratificações sociais muito definidas, concretas e socioeconomicamente caracterizadas); poderosas e determinantes concentrações de riqueza econômico-financeira obtidas de qualquer modo; são as bacterias nas quais e ao redor das quais se educam e nas quais, posteriormente, se espremem para sua engorda dentro das estruturas do Estado democrático os defensores, ou melhor ainda os servos que asseguram a hegemonia social do partido único da burguesia.

Trata-se de massa gregária à qual se faz passar fraudulentamente por classe dirigente, cujo único e muito difuso traço de identidade resulta artificiosamente conferido pela adesão às convenções sociais, aos ditados das modas culturais e a esse domínio da aparência no qual se funda e encontra respaldo e reconhecimento a micromoral utilitarista e os critérios de valoração quantitativos e materialistas do "último homem". E nos referimos aqui ao inseto travestido com máscaras grotescas que, na sociedade burguesa, em meio a esforços inumeráveis, parecem dotá-lo de um semblante mais ou menos humano.

No Estado popular a formação da aristocracia política aflui à margem de qualquer condicionamento econômico ou social proveniente da sociedade civil. A qualidade do homem se valorará pela capacidade de adesão a uma visão do mundo centrada sobre valores éticos e, ali onde se deem as condições espirituais.

A relação burguesia-sociedade, quer dizer a relação existente entre ocupante e espaço de ocupação, será substituída pela relação Estado-Comunidade do Povo, onde o primeiro resulta ser o evocador e a segunda o âmbito ao qual se dirige a chamada do Estado, a qual só uma minoria de eleitos responderá, melhor ainda, poderá responder, a fim de assegurar a reposição necessária, fisiológica, orgânica da aristocracia política do povo.

Integrados nas organizações políticas do Estado, os membros da comunidade, desde a mais tenra infância, estão situados em uma posição de paridade de condições nas quais não falham, em uma palavra não pesam, pré-concebidos status econômico-sociais mais ou menos favoráveis ou posições de privilégio adquiridas por qualquer meio. A impossibilidade técnica - garantida pela regulação comunista, que, não obstante, deverá conjugar-se com o nascimento de um novo tipo humano - de acumular individualmente bens econômicos instrumentais e de consumo, impedem que os membros do Estado popular façam depender sua hierarquia dentro das estruturas estatais da posse de riquezas materiais. Assim, se desenvolverá um processo de diferenciação hierárquica, enraizada na natureza física, intelectual, ética e espiritual (melhor ainda: racial) diferente de cada qual. E não ofensivas desigualdades baseadas na riqueza e na origem social, senão autênticas hierarquias qualitativas fundadas em uma diferente morfologia ontológica.

A organização comunista do Estado popular deverá criar espaços absolutamente livres em relação aos mecanismos e às dinâmicas contratuais e mercantis que caracterizam a sociedade burguesa, ou o que é o mesmo, deverá suscitar os pressupostos técnico-estruturais idôneos a fim de coroar a obra de desintoxicação com a qual o homem será libertado do veneno inoculado pela ética mercantil judaico-burguesa. Resulta imprescindível derrubar os pilares sobre os quais a "era econômica" se consolidou e prosperou, assinalando e destruindo as instituições econômicas e sociais que, objetivamente, constituíram o humus no qual o partido único da burguesia articulou sua ditadura hegemônica.

Um Estado que pretenda realizar sua essência aristocrática e hierárquica com o objetivo de permitir a seus membros o viver uma existência orgânica, não pode prescindir de acometer a soluções radicais que, situando-se mais além do niilismo, derroguem as fórmulas econômicas mercantis: "... deve ficar esterilizado o ambiente do qual o burguês extrai vida: tal é a razão de uma regulação econômica comunista!" (3)

O regime de comunismo de bens terá a missão de eliminar o diafragma econômico e contratual que, com a afirmação burguesa, constitui o único nexo vinculante entre um homem e outro. A supressão das articulações estruturais do capitalismo, uma vez confinada a economia a uma área marginal e inessencial (ergo: instrumental), criará um espaço livre capaz de permitir ao homem assumir e expressar sua real expressão e dimensão ético-espiritual. A inexistência de finalidades individualistas alheias ao Estado, tornará natural e lógica a abolição do regime de titularidade privada dos meios de produção, da riqueza imobiliária e da concentração financeira, elementos e interesses objetivamente estranhos com relação aos fins de Estado.

Não obstante, deve admitir-se que a função desempenhada pela propriedade privada na civilização clássica ou na romano-germânica medieval (4) não foi aquela atribuída nas sociedades burguesas: ou seja, uma entidade econômica e quantitativa objetivo de exploração produtiva, propiciadora de bem-estar material e dinheiro, passaporte que permite trepar na escala dos chamados (sic) "níveis sociais". Por outra parte, não se pode negar que o quadro econômico, caracterizado por uma relação equilibrada entre produção e consumo, não era em absoluto o do atual "demonismo produtivo", senão, ao contrário, apresentava singulares analogias e pontos comuns com que, hoje, poderiam ser atualizados no contexto de uma economia de tipo comunista.

A propriedade privada, salvo para o pensamento liberal-democrático (veja-se Locke), não representou nunca um valor por si mesmo: não teve jamais um crisma de "sacralidade" e de inviolabilidade; não possuiu nunca uma autônoma e intrínseca essência capaz de lhe conferir um valor que a eleve por cima de sua função meramente instrumental. Que fique bem claro: nós niilistas-revolucionários não temos fetiches a adorar, e a propriedade privada não é outra coisa que um dos ídolos do mundo burguês. A propriedade privada é hoje a projeção organizativa e estrutural do fracionalismo individualista-burguês. Para nós, o regime jurídico ao qual se submetem os bens materiais desempenha uma função dependente - por conseguinte: relativa e instrumental - frente à categoria do Político, a qual não admite nem consente a existência de magnitudes absolutas e intocáveis sobre o plano contingente da esfera sócio-econômica.

"Ao princípio se possuía riquezas porque se era poderoso. Agora se é poderoso porque se tem dinheiro. Só o dinheiro eleva o espírito sobre um trono. Democracia significa identidade perfeita entre dinheiro e poder".

Antes propriedade e riqueza expressavam posições de poder qualificadas sob o aspecto de grandeza interior; agora as posições de privilégio são consequência da solidez do patrimônio econômico e financeiro, adquirível mediante os típicos dotes da mentalidade mercantil judaico-burguesa.

Por conseguinte, existia um vínculo orgânico e imaterial entre personalidade e propriedade, entre função desempenhada e riqueza, entre dignidade pessoal e posse de bens. Deste modo, dotando à economia de um sentido que a transcendera, ela era impedida de tornar-se autônoma e se constituir em razão de si mesma, objetivo que esmaga, afoga e extingue toda forma de dignidade, de aspirações e de sensibilidade.

Estas observações deveriam ser suficientes para demonstrar o infundado de possíveis refutações esgrimidas por quem quisera ver na utopia comunista-aristocrática do Estado popular uma torpe imitação dos regimes socialistas, mais ou menos reais, de inspiração marxista.

Mas, por rigor expositivo, resulta interessante deter-se no conceito de comunismo.

Comunismo, na acepção marxista, não é copropriedade, porque esta é um modo de ser da propriedade, assimilável ao conceito de "communio" elaborado pelo direito romano. Só uma pessoa ou uma comunidade de pessoas ou uma entidade que possua um conteúdo ontológico (6) podem ser titulares de uma propriedade.

O Estado socialista que, segundo Lênin, está destinado a terminar "na lixeira da história", não pode ser titular dos bens da nação, posto que não é mais que mera superestrutura, carente de uma essência que pudesse dotá-lo de uma realidade ideal de tipo platônico. Para os marxistas, o Estado é um aparato burocrático-repressivo, um instrumento útil durante uma fase de transição no curso da qual deveria acontecer a passagem do socialismo ao comunismo. Assim pois, na sociedade marxista, a abolição da propriedade privada é em realidade expropriação da propriedade do povo em benefício da oligarquia técnico-burocrática, em cujas mãos se realiza a coincidência entre poder político e poder patrimonial. De fato, a propriedade sem proprietário não existe: a propriedade é do povo ou da oligarquia; a propriedade atribuída a instrumentos ou a fantasmas jurídicos isentos de conteúdo humano ou ontológico (o Estado marxista) é somente uma tela que oculta a exploração do povo por parte do poder oligárquico, que concentra em suas mãos o monopólio discreto dos bens de uma nação.

Nas concepções tradicionais, ao contrário, o Estado é o espaço das formas ideais, dos arquétipos ontológicos pré-existentes e superiores à realidade concreta que foi modelada neles e por eles. O Estado, portanto, "é", não constitui um instrumento senão um centro real de poder que pode, em consequência, ser titular dos bens da nação, dos quais concede a posse aos membros da comunidade do povo, que devem empregá-los de acordo com o bem comum.

A unicidade da Tradição informal (7) se expressa sobre o plano histórico mediante formas tradicionais distintas e múltiplas, que podem apresentar umas frente a outras características aparentemente divergentes. De onde, não se pode excluir a priori que a organização econômica de um ordenamento político inspirado nos valores da Tradição pode se configurar com perfis de tipo comunista.

Uma vez estabelecida a distinção entre o plano do político e o plano do econômico, este último poderá assumir as conotações organizativas mais variadas. A essência espiritual da Tradição não acarreta necessariamente sua manifestação concreta em um marco econômico institucional e organizativamente determinado a priori. Também um marco econômico estruturalmente comunista poderá ser sustentado e alimentado, impregnado e inspirado por valores tradicionais. A vida econômica será caracterizada por relações hierárquicas e solidaristas, pela coincidência entre vocação e profissão, e pela serena consciência de viver uma existência organicamente enlaçada com o Todo e conforme à própria natureza, a qual, por sua vez, permite uma consciente e responsável aportação à consecução dos fins do Estado.

O Estado não é capitalista nem comunista, porque, voltado a vincular-se a um plano de valores transcendentes o espaço econômico, não se identifica nem pode ser reconduzido, condicionado ou definido por uma determinada forma econômica organizada. A diferença qualitativa, ao contrário, deve ser buscada na influência que o princípio econômico exerce em uma sociedade, na autonomia decisiva e operativa e na capacidade de controle que o Estado possui em relação à economia. Não há que buscá-la certamente em diferenças de caráter técnico-organizativos.

"A verdadeira antítese não é pois aquela entre capitalismo e marxismo, senão a existente entre um sistema no qual a economia é soberana, mais além da forma que esta revista, e um sistema no qual fica subordinada a fatores extraeconômicos dentro de uma ordem muito mais vasta e completa, capaz de conferir à vida humana um sentido profundo e de permitir o desenvolvimento de possibilidades mais elevadas que ela".

Não existe conflito entre sistemas econômicos tecnicamente considerados, senão entre as diferenças posições que a economia ocupa em uma sociedade e entre as diversas estruturas internas dos tipos humanos que se situam frente a ela. Resulta pois fictícia a distinção entre diferentes sistemas de produção e distribuição de bens e da riqueza - reduzindo-se esta ao mero domínio organizativo-instrumental - quando o bem-estar das massas resulta o objetivo último em torno ao qual estes sistemas fazem convergir seus esforços.

Rechaçar conscientemente e não epidermicamente o dogma do determinismo marxista, com o qual se pretende modelar o homem e suas plenitudes espirituais, culturais e políticas sobre a base de relações de produção, significa atribuir importância fundamental não à esfera econômica considerada em si mesma, senão à posição ocupada por ela, à influência por ela exercida e à atitude com a qual o indivíduo se coloca frente ao fato econômico.

Em conclusão, consideramos o projeto comunista-aristocrático do Estado popular como um elemento já adquirido dentro do patrimônio cultural tradicional; assim, consideramos positivamente uma elaboração cultural que dote de um ulterior volume teórico a esta solução organizativa.

Não há necessidade de contrapor nenhum tipo de preconceito com relação às formas econômicas que assumirá a futura Restauração tradicional; em seu interior, inclusive o esquema organizativo do Estado popular poderá propor-se como solução funcional.

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(1) - O pensamento marxiano se orienta para a construção de um sistema sócio-econômico baseado na atribuição indiferenciada e igualitária do bem-estar material (bem-estar do qual, na época das especulações de Marx, gozavam só dentro da sociedade burguesa algumas classes sociais) ao conjunto da sociedade civil, na perspectiva da abolição do Estado, da total homogeneização social e da igualdade econômica. Na Suécia, Noruega, Dinamarca, por exemplo, se realizou - em um contexto estruturalmente distinto ao imaginado por Marx - o sonho messiânico da "sociedade sem classes" aspirado pelo intelectual judeu. Nessa sociedade desapareceram praticamente as diferenças sociais ou de classe, enquanto que o desfrute generalizado dos bens materiais ultrapassou amplamente o limite do supérfluo, no âmbito de um sistema social caracterizado pela presença de uma corrupta, obesa e satisfeita (inclusive ainda que o alcoolismo e os suicídios tenham uma incidência destacada) burguesia de massas, ofuscada e embrutecida por um estupefaciente materialismo prático muito mais absorvente socialmente que o chamado "socialismo real". Não existe questão social, enquanto que a religião protestante, longe de ser o "ópio do povo", é o fermento que permite às massas burguesas sublimar no Evangelho a visão mercantil, utilitarista e materialista da vida...poderia Marx desejar algo melhor?

(2) - Friedrich Nietzsche, Vontade de Poder

(3) - F.G. Freda, "A Desintegração do Sistema". O ambiente é o conjunto das condições físicas, químicas, biológicas nas quais se desenvolve a vida de uma comunidade de organismos. Na sociedade democrática, o ambiente é o conjunto das condições ou circunstâncias institucionais e estruturais, dos mecanismos econômicos e sociais que permitem ao burguês atuar em coerência com a própria mentalidade mercantil. Bancos e indústrias privadas, contratos e usura, livre iniciativa econômica e propriedade privada, representam os veículos jurídico-institucionais estrutural e funcionalmente adequados para a expansão infecciosa e a realização operativa da mentalidade burguês-capitalista. A supressão destas instituições econômicas e destas fórmulas jurídicas determinará o desarme material do burguês, privando-o do suporte instrumental idôneo para ativar suas potencialidades mercantis. Trata-se, definitivamente, da esterilização do ambiente, ao qual, não obstante, se deverá acrescentar organicamente uma eficaz terapia destinada a apagar a mentalidade burguesa, favorecendo, ao mesmo tempo, o nascimento e a afirmação do "homem novo".

(4) - Entre os antigos germânicos, assim como na civilização clássica e na romano-germânica medieval, a propriedade - empapada por valores espirituais, religioso e éticos e organicamente integrada no tecido social - concorre funcionalmente à conservação do equilíbrio econômico da comunidade do povo. A Sippe (correspondente à gens romana) dos antigos germânicos, conhecidos e descritos por Tácito em seu De Origine, situ, moribus et populis Germaniae, reúne em um contexto de relações sociais de tipo solidarista a um grupo orgânico de famílias descendentes de antepassados comuns de estirpe divina. No interior da Sippe o indivíduo não existe como subjetividade particularista de direito, senão que a própria identidade individual está radicada no grupo do qual forma parte orgânica integrante. Os membros do grupo gentílico cultivam as parcelas de terra circundantes, que não constituem uma propriedade individual senão pertencem solidariamente, como por outra parte os bosques e pastos, à Sippe. Fustel de Coulanges (A Cidade Antiga) escreve: "Conhecemos o direito romano da época das XII Tábuas; está claro que nessa época a alienação da propriedade estava permitida. Mas existem razões que nos levam a pensar que, no que concerne à época originária da Romanidade, a terra estivera submetida a um regime jurídico de inalienabilidade". O proprietário de um bem imóvel não é nunca um particular, mas uma família ou uma estirpe: "O indivíduo - escreve De Coulanges - recebe a terra somente em posse: pois de fato pertence também àqueles que morreram e aos que nascerão". No medievo romano-germânico o regime da propriedade está fundado sobre o benefício, que é a concessão de um determinado território por parte do senhor feudal ou do soberano a um vassalo a ele subordinado, no marco de uma ordem hierárquica piramidal de conteúdo ético e espiritual. Esta concessão não comporta direitos de propriedade senão somente o usufruto do bem (terra e castelos). Por sua vez, o vassalo - à margem de prover determinadas contribuições de caráter econômico (produtos da terra, etc.) - jura fidelidade pessoal a seu senhor pelo qual se compromete a combater em caso de guerra.

(5) - Oswald Spengler, "A Decadência do Ocidente"

(6) - "Ontologia" é um conceito introduzido no vocabulário filosófico a partir do século XVIII para assinalar a "ciência do ser", obrigação que Aristóteles atribui à filosofia primeira ou metafísica. A expressão "conteúdo ontológico" pode ser referida a uma entidade que "é" enquanto objeto de estudo por parte da "ontologia". A essência - por conseguinte: a realidade - pode constituir o fundamento da titularidade de um bem econômico. A propriedade de um bem não é, portanto, prerrogativa exclusiva de uma pessoa física ou de uma comunidade de pessoas, senão que pode ser atribuída a qualquer entidade que - mais além - da fictio iuris da pessoa jurídica (sic!) - tenha uma essência e, por isso, "conteúdo ontológico".

(7) - A Tradição informal, cujo plano se situa em uma dimensão cósmica transcendente, está constituída por uma única essência; esta se manifesta, desenvolve e atualiza sobre o plano histórico no marco de formas tradicionais organicamente diferenciadas, e, em consequência, adequadas à mentalidade e às disposições espirituais da comunidade na qual se desenvolve. A Tradição informal é o Princípio metafísico imanifesto ou totalidade da Possibilidade Universal. A manifestação do princípio metafísico implica em um processo de determinação no contexto de uma forma espacial, temporal e historicamente delimitada. A Tradição informal se diferencia e formaliza em seu modo de expressão, mas é única em sua essência transcendente.

(8) - Julius Evola, "Os Homens e as Ruínas"



17/07/2015

John Romaniello - Da Mitologia à Masculinidade: Como a Jornada do Herói Pode Te Ajudar a Se Tornar um Homem Melhor

por John Romaniello



Eu quero lhes contar sobre um livro que mudará suas vidas. O livro não é novo. Na verdade, ele foi publicado em 1949 sem muito estardalhar. E ainda assim, desde sua publicação, ele causou um impacto que pode ser visto nos filmes que vemos, nos livros que lemos, e até na vida que vivemos.

Esse livro influenciou milhares de escritores e cineastas em sua obra - mas ele não é sobre filmes ou escrita. Esse livro em particular também influenciou incontáveis indivíduos em suas próprias vidas, ajudando a moldá-los em pessoas melhores, mas ele não é um livro de auto-ajuda. É um livro sobre histórias, e sobre narração de histórias - as histórias que impulsionam nossas sociedades, e a maneia pela qual as contamos. E por causa das comunalidades dessas histórias, ele é fundamentalmente um livro sobre nós, e a maneira pela qual vemos o mundo.

Mais importante ainda, é sobre como podemos nos tornar homens melhores. O livro é sobre auto-atualização em sua essência e possui uma abordagem replicável que se aplica a todo homem.

O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, é ostensivamente sobre mitos e mitologia. Mas as lições nesse livro podem nos ajudar a identificar e navegar os caminhos que tomamos para melhorar a nós mesmos e mudar nossas vidas, para nos tornarmos mais capazes de mudar, e melhores pessoas em geral.

Campbell, um professor na Universidade Sara Lawrence, estudou a sabedoria de cada cultura imaginável; ele olhou para tudo de religiões antigas à mitologia de religiões mais modernas como o Cristianismo, Judaísmo e Islã.

A pesquisa de Campbell o levou a focar em mitologia comparada; especificamente, ele olhou para o que os mitos de diferentes culturas tinham em comum, ao invés do que eles não tinham. Por todo lugar em que Campbell procurou, ele a encontrou: um único arco narrativo, a história ubíqua que cada cultura da Mesopotâmia à nossa sociedade ocidental moderna usa para transmitir informação, tradição e percepção terrena. Coletivamente, Campbell coloca essa informação em sua obra mais influente e seminal, O Herói de Mil Faces.

Pegando um termo de James Joyce, Campbell chamou esse padrão universal de monomito. Você pode conhecê-lo como a Jornada do Herói.

É um único mito, contado de mil maneiras diferentes; um único herói, com mil faces distintas. O monomito está em cada história que você já ouviu, na maioria dos filmes que você já viu - e está presente na sua vida, todo dia. E compreendê-lo pode fazer de você um homem melhor.

A Jornada do Herói e Por Que ela é Importante

O monomito começa com o personagem principal, ou Herói, em um lugar, e termina com ele em outro - tanto fisicamente como emocionalmente. Campbell afirma que este Herói é o mesmo, independentemente da história, e que ele aparece de diferentes formas. Isso é importante porque o herói pode ser a estrela do futebol ou o contado no cubículo nove. Os caminhos são diferentes, mas a jornada é a mesma.

Dentro de cada jornada, o Herói encontrará outros personagens que desempenham um papel essencial no crescimento. Campbell nomeou estes como arquétipos (o Arauto, o Mentor, a Deusa, o Trapaceiro, etc.), e eles aparecem na vasta maioria das histórias. É fácil encontrar um arquétipo uma vez que você saiba o que está procurando. Então, seja o herói Harry Potter ou Rei Artur ou Frodo, seu caminho é sempre bastante similar. Seja o mentor Dumbledore ou Merlin ou Gandalf, seu papel é sempre o de guiar o herói.

Essa estrutura aparece em todo lugar, mas é mais facilmente reconhecida em filmes e livros. Luke Skywalker começa sua jornada deixando seu lar em Tatooine, tendo grandes aventuras, e realizando seu potencial como Jedi. Os eventos podem ser diferentes, mas a jornada é a mesma assumida pelo Rei Artur. E é o mesmo exato curso que figuras proeminentes em histórias religiosas seguem. Campbell nos mostra quão preciso este conceito é, e como ele se repete de novo e de novo. E ele está acontecendo bem agora em sua vida, também.

Ainda não está convencido? Certo, vamos dar alguns exemplos e vamos olhar para os passos da Jornada do Herói. Enquanto o modelo de Campbell tem 17 fases, em prol da brevidade, eu prefiro a versão mais abreviada usada por Christopher Vogler em seu livro A Jornada do Escritor.



Agora, olhando para a figura, bem como para o esquema abaixo, você provavelmente pode ter uma boa ideia do que cada fase significa com base no nome; os exemplos servirão para convencer que tudo isso é aplicável a toda história que você já ouviu.

Fase da Jornada
Descrição
Exemplo
O Mundo OrdinárioO ponto de partida do HeróiDorothy Gale vivendo em sua fazendo (O Mágico de Oz)
O Chamado à AventuraO Herói percebe que há um mundo maior do qual ele pode fazer parteHarry Potter recebe uma carta de Hogwarts (Harry Potter e a Pedra Filosofal)
Recusa do ChamadoEm um momento de dúvida, o Herói decide não realizar a empreitadaLuke Skywalker diz a Obi-Wan Kenobi que ele não pode ir a Alderaan (Star Wars)
Encontro com o MentorOu o primeiro encontro com a figura do Mentor, ou o momento em que o Mentor encoraja o Herói a assumir a empreitadaDaniel LaRusso conhece o Sr. Miyagi (Karate Kid)
Cruzando o Primeiro LimiarO Herói passa do Mundo Ordinário ao Mundo Especial, e vê a diferença entre os doisO Narrador entra na casa de Tyler Durden pela primeira vez (Clube da Luta)
Testes, Aliados e InimigosO Herói começa a realizar tarefas que o ajudarão a se preparar para a jornada; ele também encontra amigos que o ajudarão e inimigos que tentarão detê-loFrodo deixa Valfenda com a Sociedade do Anel, e tem que aprender a como seguir na estrada conforme avança (O Senhor dos Anéis)
AproximaçãoPreparação interna e externa; usualmente inclui uma destinação imponenteNeo e Trinity reúnem um arsenal antes de partirem para resgatar Morpheus (Matrix)
O OrdálioO conflito central na história, o grande combate com o chefe, onde a possibilidade de morte é iminenteDorothy e seus amigos enfrentam a Bruxa Má em seu castelo (O Mágico de Oz)
Tomando a Espada/RecompensaTendo matado o inimigo, o Herói está livre para tomar o tesouro; às vezes é um item de grande valor, como o Santo Graal, ou uma pessoa, mas geralmente é algo mais abstrato, como o fim de uma guerraApós a morte do dragão Smaug, Bilbo e os anões estão livres para se apossarem de seu tesouro (O Hobbit)
Apotheosis e RessurreiçãoMuitas vezes, o Herói precisa apesar de todo seu crescimento, atingir um ponto de crise e se manifestar de uma só vez em um momento de iluminação chamado apotheosis; essa realização é o golpe mortal contra o velho "eu" e suas crenças, e o abraçar do novo; isso é pontuado por uma morte e ressurreição simbólicas (às vezes literais)O Narrador percebe que para que ele possa deter Tyler Durden, ele deve se matar - fazendo as pazes com sua própria morte ele aceita a mortalidade, e fica, por um momento, verdadeiramente em paz; ele atira contra si mesmo e vive, mas Tyler está morto (Fight Club)
A Estrada de VoltaO Mundo Especial, com todas as suas lições e aventuras, pode ter se tornar mais confortável que o Mundo Ordinário, e para alguns Heróis, retornar pode ser mais difícil que a partida inicialApós o Um Anel ser destruído, Frodo tem dificuldades para se adaptar a uma vida normal de hobbit no Condado (O Retorno do Rei)
Retorno com o Elixir e o Mestre de Dois MundosO Herói retorna ao lar mudado, e usa os dons recebidos e lições aprendidas na jornada para ajudar a melhorar outros; ao mesmo tempo, o Herói deve fazer as pazes com todas as mudanças pessoais pelas quais ele passou; ele deve reconciliar quem ele era com quem ele se tornouLuke, agora um Jedi, restaura o equilíbrio da Força, ajudando a trazer paz para a galáxia; concorrentemente, ele é capaz de resolver seu relacionamento com seu pai e seguir em frente (O Retorno de Jedi)
Mas a tese de Campbell não é simplesmente a de que quase toda cultura histórica encontrou uma maneira idêntica e eficaz de contar histórias; é a de que as comunalidades na narração existem porque elas são parte fundamental da experiência humana. O monomito não é apenas a estrutura de como contamos as empreitadas de heróis e personagens nas, histórias, é também como relacionamos essas histórias a nós mesmos, e, de uma maneira muito real, como compreendemos as coisas que estão acontecendo conosco.

Eu levaria isso ainda mais longe.

Eu acredito que apesar do monomito ser excepcional para narrar histórias, e portanto excepcional para explorar ideias culturais, ele pode ter um impacto tão grande quando aplicado a um indivíduo - quando aplicado a você. Colocando de forma mais direta, a Jornada do Herói é a lente perfeita pela qual ver qualquer mudança em sua vida - qualquer seja a nova jornada em que você esteja engajado, você passará por todas as fases do monomito conforme você cresce, se adapta, e finalmente cumpre seu objetivo.

Obviamente, eu não sou o único que sugere isso. Por anos, o modelo campbelliano tem sido usado por pessoas de várias áreas para ajudar o próximo a progredir; por exemplo, alguns terapeutas o usam com seus pacientes para ajudar a estruturar a psicanálise. Similarmente, ele é usado para ajudar pessoas a lidarem com o processo de pesar - afinal, as 5 fases do pesar tem seu espelho no monomito. Ainda outros o usam como esquema mental ou educação para o sucesso - ajudar pessoas a compreenderem onde elas estão na jornada não só ajuda a fornecer um senso de conforto e controle, mas também um caminho claro, tornando mais fácil, conceitualmente, ir para a próxima fase.

Como todas as mudanças em sua vida podem se encaixar nessa estrutura, quer você perceba ou não, a qualquer dado momento você estará passando por pelo menos uma dessas jornadas - e dominar a ideologia do monomito o tornará mais bem-sucedido. Porque a Jornada do Herói não é apenas uma lente para enxergar mudanças, mas também uma excelente tese operacional para impulsionar mudanças.

Aplicação Prática - A Jornada de um Marombeiro

Minha exposição a Joseph Campbell e à academia veio mais ou menos no mesmo período da minha vida. Eu era calouro na universidade e precisava de mudanças enormes na minha mente e no meu corpo. Eu estava 12 quilos acima do peso, clinicamente deprimido, e de modo geral simplesmente infeliz. Um início pouco auspicioso para minha história, mas é a verdade. Naquele ano, eu fui encarregado de ler O Herói de Mil Faces para uma aula sobre literatura utópica/distópica. Com as primeiras 30 páginas, já estava fascinado.

Naquele ponto, eu certamente não achava que encontraria uma metodologia de resolução de problemas, mas sendo um cara que era extremamente interessado em fantasia medieval e mitologia, Campbell me tocava enquanto contador de histórias. Ler o Herói foi imediatamente benéfico: ele tornou todos os outros livros que eu já estava lendo ainda mais acessíveis, e mais proveitosos. (E creia-me, aos 19, era difícil imaginar qualquer coisa que pudesse tornar reler O Senhor dos Anéis pela oitava vez ainda mais proveitoso - o Herói conseguiu isso).

Por volta dessa época, eu me matriculei em uma academia, passei por uma enorme transformação física, e mudei minha vida de várias maneiras. Não apenas construí um físico impressionante que abriu um número de portas profissionais desde modelo fitness e personal training à escrita, mas também aprendi uma variedade de lições que influenciaram cada aspecto de minha vida, e se tornaram bem-sucedidas de maneiras que eu não poderia imaginar.

Pode parecer um pouco bobo pensar que ficar em boa forma me ajudou a me sair melhor na escola e ter relacionamentos melhores, e ainda mais bobo que isso possa me ter ajudado a começar meu próprio negócio, viver a vida nos meus termos, e até escrever um livro. Mas é tudo verdade.

Talvez mais importantemente, minha transformação, e a estrada até ela, foi retraçado passo-a-passo da Jornada do Herói. Como eu disse, todas as mudanças podem se encaixar nesse modelo. Vamos dar uma olhada na minha.

O Mundo Ordinário - Eu era gordo e deprimido, mas não sabia muito mais. Como Harry Potter sob as escadas ou Frodo no Condado, meu Mundo Ordinário era minha vida quotidiana.

O Chamado à Aventura - No meu caso, foi realmente uma chamada telefônica. Naquele ponto na minha vida, eu estava trabalhando em uma loja varejista (na Gap, entre todos os lugares), e uma mulher me ligou encomendando 30 camisas pólo brancas para quando ela chegasse na loja. Resumindo, o marido dela estava abrindo uma academia a 5 minutos de distância da minha casa. Naquele momento, eu quis realizar uma mudança. Agora, "Eu preciso de 30 camisas pólo", não é tão dramático quanto "Ajude-me Obi-Wan Kenobi; você é minha única esperança", mas serviu.

Recusa do Chamado - Mudar é difícil. Às vezes o Herói tem mais medo de mudar do que de continuar a ser infeliz na sua situação, ou corpo. A maioria das pessoas que quer embarcar na jornada fitness (ou em qualquer jornada) jamais passa desse ponto; eles pensam que será difícil demais, ou que eles não podem mudar. Ou começam e simplesmente desistem. No meu caso, apesar de estar interessado em mudar, eu estava nervoso, e precisei de alguns dias antes de reunir coragem para ir dar uma olhada na academia.

Encontro com o Mentor - Heróis não conseguem fazer tudo sozinhos; todos precisamos de mentores. Quando eu finalmente entrei na academia, eu conheci o dono, Alvin. Ele tinha uma atitude encorajadora e um físico inspirador. Eu gostei dele imediatamente, e o deixei me guiar. No que concerne mudar seu corpo, este mentor não precisa ser necessariamente uma pessoa com a qual você tem contato direto; o papel de mentor também pode ser preenchido por um livro ou mesmo um site. O autor o ajudará sem mesmo conhecê-lo.

Cruzando o Primeiro Limiar - Atravessar limiares é algo que acontece ao longo de jornadas, e o primeiro é sempre o mais impactante. É o que separa o Mundo Ordinário do Mundo Especial. Quando eu me matriculei na academia e comecei a ler sobre musculação, foi como Dorothy chegando em Oz; havia tanta coisa para absorver que era intimidador.

Testes, Aliados, Inimigos - Conforme comecei minha jornada de transformação, eu rapidamente percebi que havia pessoas que queriam ajudar, e pessoas que não queriam. Algumas pessoas apoiarão seus objetivos físicos e evitarão tentá-lo; outros chamarão seus objetivos de tolos e vazios. Toda vez em que eu ia a uma festa ou jantar, eu tinha que lidar com o invariável, "Dá só uma mordida" ou "É só um gole". Essas coisas são tentadoras, mas para tornar minha transformação uma realidade, eu tinha que passar nesses testes.

Aproximação - Conforme eu me preparava para a batalha final - o verdadeiro grosso da transformação - eu tinha que me armar. Houve vários pequenos eventos durante essa época - limpar a geladeira e jogar todo o lixo fora, estocar com alimentos saudáveis, dominar a forma correta de exercícios e aprender sobre nutrição.

Ordálio Central - O Ordálio é sobre o ato da mudança, e a necessidade dela. Em relação a mudar meu corpo, este foi o programa de transformação de fato - aquele período de 16 semanas nas quais eu foquei ardentemente e fiz de meu objetivo dobrar meu corpo à minha vontade. Metaforicamente, o Ordálio é sobre a guerra entre a metade luminosa e a metade escura de nossa psique, e sua tentativa de equilibrá-las.

Apotheosis/Ressurreição - Qualquer um que tenha passado por uma grande transformação compreende que os resultados do Ordálio são bem intensos. Em quase todos os casos, você alcança uma sensação de percepção ampliada - não necessariamente iluminação suprema, mas, no mínimo, um desvelar de um mundo ou experiência previamente escondido de seus olhos. Em meu caso, essa foi a realização de que ter um bom físico era possível para mim, e que todos os benefícios de fazer parte desse "clube" eram meus. Enquanto instrumento narrativo, a apotheosis é sobre tornar-se similar a um deus, pelo menos por um momento; na maioria dos casos, isso só ocorre quando o personagem põe de lado toda resistência e se entrega plenamente à experiência. Naquele momento, você não será um deus, mas será uma fênix - seu novo e superior "eu" se erguendo das cinzas do antigo que você deixou para trás.

Tomando a Espada/Recompensa - Isso é o que você conquista após a batalha - algo para você. É quando os heróis se reúnem para dizer, "Nossa, olha o que fizemos". Pode ser uma celebração, uma cena de amor. Para mim, foi uma elevação da auto-estima e da saúde que acompanhavam meu novo corpo. Muito mais do que isso foi a crença em mim de que eu podia manifestar mudanças; eu havia conquistado isso que anteriormente eu achava impossível, o que instilou em mim uma crença inabalável de que eu poderia fazer o que quisesse.

A Estrada de Volta - Após a batalha em si terminar, o Herói deve retornar ao lar. Isso é às vezes mais difícil do que deixá-lo em primeiro lugar. A Estrada de Volta é emocionalmente atribulada, porque você teme perder tudo que ganhou durante a jornada. No meu caso, eu tive alguma trepidação de que uma vez que eu não estivesse na avidez do foco em uma transformação, eu reverteria ao meu antigo "eu".

Retorno com o Elixir - Na melhor das hipóteses, as recompensas não são apenas para o Herói, mas também para todos que o cercam. Frodo destruir o Um Anel trouxe paz à Terra-Média; Harry Potter destruir Voldemort fez o mesmo pelo mundo da magia. Bem, minha transformação infelizmente não acabou com guerras ou salvou o mundo, mas de fato ajudou várias pessoas. O ato de mudar me ajudou a me tornar uma versão melhor de mim mesmo; muitas de minhas melhores qualidades foram amplificadas. Eu me tornei mais feliz, e tornei outras pessoas mais felizes; eu também me tornei mais prestativo, mais dedicado, e (estranhamento) mais pontual. Minha transformação também inspirou outros a iniciarem suas próprias jornadas. Mais do que qualquer outra coisa, o conhecimento que eu adquiri ao longo dos anos - começando com quando eu fiz minha própria transformação - me permitiu tornar-me instrutor e autor, ajudando primeiro centenas, e eventualmente milhares de pessoas a mudarem suas vidas.

Mestre de Dois Mundos - A última fase da jornada é quando o Herói se torna o Mestre de Dois Mundos - ele é capaz de unir a luz e as trevas dentro de si. Metaforicamente, essa fase é sobre equilíbrio - sobre reconciliar quem você foi com quem você se tornou, e se permitir aceitar ambos. Para mim, foi sobre dominar a vida em meu novo corpo - compreendendo todos os benefícios que ele fornecia sem transbordar em qualquer direção. Essa foi uma continuação da Estrada de Volta, e foi sobre se mover lentamente para longe das coisas mais extremas e encontrar uma maneira de viver a vida e fazer as coisas que pessoas normais fazem, como ir a jantares e beber ocasionalmente uma cerveja. 

Eu deveria mencionar que à época em que eu realizei mina transformação física, eu não percebi que eu havia estado no que se poderia chamar de Jornada do Herói - minha familiaridade com Campbell era muito recente, e eu não fui capaz de ver os paralelos tão claramente. Não foi até eu começar minha jornada empresarial que eu compreendi que Campbell podia ser aplicado a tudo. Daquele ponto em diante, eu comecei a incorporar alguns aspectos da estrutura monomítica nos programas dos meus clientes e em minhas lições com eles; eu descobri que ensinar Campbell ajuda a transmitir informações sobre educação física, ou pelo menos a se fazer entender. E foi a partir dessa compreensão geral que eu escrevi meu livro, Homem 2.0: Engendrando o Alfa. E eu usei essa plataforma - um livro que se tornou bestseller do New York Times - para mostrar como usar a Jornada do Herói para conquistar a melhor forma de sua vida.

Fora da Academia: Outros Exemplos, e Como Campbell Te Afeta

É claro, uma jornada fitness é apenas um exemplo singular de como o monomito pode ser aplicado em sua vida. Uma vez que se conheça a estrutura geral, não é difícil planejar jornadas em todos os aspectos da vida - tudo de sua decisão a ingressar em uma universidade a seus relacionamentos amorosos.

Ele possui uma validade excepcional em relação ao amor, na verdade - simplesmente olhe para o enredo padrão de uma comédia romântica: rapaz conhece garota, rapaz perde garota, rapaz reconquista garota, poderia facilmente ser rapaz ouve o chamado da aventura, rapaz recusa o chamado da aventura, rapaz se aventura mesmo assim. Em todo caso, pela assistência de um mentor (poderia ser um amigo descolado ou uma figura parental), o Herói partirá em uma jornada de introspecção e sairá do outro lado digno da garota.

E um exemplo mais detalhado pode ser o de que você se casa, e se acomoda em uma vida conjugal (Mundo Ordinário). Sua esposa fica grávida (Chamado à Aventura). Você pira inicialmente (Recusa), mas está obviamente entusiasmado. Ao longo da gravidez, consultas com seus médicos (Encontro com o Mentor) o ajudam e a sua esposa (Aliados) a se preparar (Aproximação) para o nascimento da criança (Cruzamento do Limiar). Ser um pai é agora sua responsabilidade principal (Ordálio) e ao fim da jornada ali está seu filho - seu legado - que seguirá no mundo após você partir (Retorno com o Elixir).

Quer um exemplo profissional? Que tal isso: você perde seu emprego (Chamado à Aventura), e apesar de sentir sua perda e querê-lo de volta (Recusa do Chamado), você eventualmente decide que deseja seguir em uma nova carreira. Isso pode se dar de várias maneiras, vamos assumir que você busque a ajuda de um orientador empresarial (Encontro com o Mentor). Eventualmente, você decide começar seu próprio negócio, ou começar um blog - algo que você nunca fez antes (Atravessar o Primeiro Limiar). Há vários desafios ao longo do caminho, bem como sucessos e derrotas (Testes, Aliados, Inimigos). Siga esse passo até sua conclusão e você acaba criando algo - renda, um livro, um produto - (Recompensa) que te melhora (Apotheosis) e te permite melhorar o mundo (Retorno com o Elixir).

Fechando o Círculo

Enquanto a memória do monomito se deve certamente a sua aplicabilidade universal, talvez o maior benefício venha após ele ser aplicado. Como eu aludi acima, o próprio ato de mudança te modifica.

Esse princípio foi o que me permitiu dar o próximo passo em minha própria jornada e escrever Engendrando o Alfa como uma maneira de tornar a jornada relevante para todo homem e ajudá-los a ver o caminho que pode guiá-los a seus maiores objetivos - sejam físicos, emocionais ou sociais. O resultado tem sido um laboratório de testes no qual milhares de homens tem sido capazes de transformar suas vidas de maneiras jamais pensadas antes.

E é tudo por causa de Campbell. Compreender a Jornada do Herói é comparável ao momento no qual Neo compreende a Matrix. Isso te permite compreender o que está acontecendo e o motivo, e exatamente como você deve responder e reagir para tomar as melhores decisões possíveis. A vida desacelera, e quando isso acontece você pode acelerar e fazer escolhas melhores que finalmente levam à mudança.

Ao passar por uma enorme mudança, você irá se deparar com uma maior compreensão de si mesmo, e do que você é capaz. O sucesso é um hábito passível de ser aprendido, e o sucesso gera sucesso - quanto mais mudanças positivas pelas quais você passar, menos resistente à mudança e ao crescimento você se tornará.

Tudo que resta é uma simples pergunta: Você está pronto para se tornar o herói? Se sim, está na hora de reconhecer seu mundo ordinário, começar a jornada, e finalmente se tornar um homem melhor e a melhor versão de você.