21/06/2014

Adriano Benayon - Ucrânia e Brasil

por Adriano Benayon



Guerra e depressão

1. O móvel(objetivo) da oligarquia financeira para desencadear guerras em grande escala, bem como conflitos localizados, é ganhar mais poder, subordinando países e regiões ao império e enfraquecendo os que poderiam conter essa expansão.

2. Na 1ª e 2ª Guerras Mundiais, respectivamente França versus Alemanha e Alemanha versus Rússia (União Soviética), as potências angloamericanas só se engajaram com intensidade, no final, para ocupar espaços, estando aqueles contendores desgastados.

3. As duas grandes conflagrações eclodiram após longos períodos de depressão econômica e serviram como manobra de diversão em face das consequências sociais e políticas da depressão.

4. No Século XXI, os conflitos armados grandemente destrutivos estão tornando-se mais frequentes após o golpe preparatório: a implosão das Torres Gêmeas, em setembro de 2001. 

5. Os principais alvos têm sido países islâmicos, envolvendo a geopolítica da energia. Desde 2001 o Afeganistão está sob agressão. Em 2003, destruição e ocupação do Iraque. Ataques a Sudão, Somália e Iêmen. Em 2011 a brutal agressão e intervenção da OTAN na Líbia. Durante todo o tempo, pressão e hostilização a Síria e Irã.

6. Em 2013, a agressão à Síria foi intensificada com a invasão por mercenários e extremistas, grandemente armados, com participação das monarquias petroleiras do Golfo Pérsico, lideradas pela Arábia Saudita, e colaboração da Turquia e de outros membros da OTAN.

7. Mas, na Síria, o governo conseguiu resistir, com seus recursos e disposição e com apoio militar e político da Rússia, inclusive no Conselho de Segurança da ONU.

Ucrânia

8. O êxito, até o momento, dessa resistência, levou a potência hegemônica retornar a ataques mais incisivos contra a ex-superpotência, que busca reconstruir-se. Daí, o recente golpe de Estado na Ucrânia.

9. Ademais, Putin fortaleceu os laços econômicos e políticos da Rússia com a China e países da Ásia Central, frustrando a estratégia angloamericana de manter divididas e vulneráveis as potências capazes de alguma resistência a seu projeto de governo mundial absoluto.

10. Claro que os EUA nunca deixaram de reforçar o cerco à Rússia, desde a desmontagem da União Soviética, instalando bases de mísseis em ex-aliados de Moscou, com destaque para a Polônia. Teleguiaram a “revolução laranja” na Ucrânia, em 2004, mais um marco no enfraquecimento desse país de consideráveis dimensões e recursos naturais e população em grande parte russa.

11. Ao verem contida a intervenção na Síria – e presenciar o Irã muito pouco abalado pelas sanções e incessantes hostilizações - os EUA trataram de atingir o flanco da própria Rússia.

12. Instaram a União Europeia (UE), sua virtual satélite, a fazer ingressar nela a Ucrânia, visando a pô-la na OTAN, colocando bases militares contra a Rússia virtualmente dentro desta.

13. Entretanto, o presidente da Ucrânia, Yanukovych, constitucionalmente eleito, não concordou em aderir à UE sem discutir as draconianas condições impostas: adotar as medidas econômicas do figurino do FMI: cortar em metade o valor das pensões, suprimir benefícios sociais, demitir funcionários, privatizar mais patrimônio público em favor de plutocratas, tudo para pagar dívidas com bancos ocidentais.

14. Essas são as medidas às quais estão amarrados os pífios empréstimos que UE e EUA acabam de conceder após o golpe, desencadeado a partir de conversa telefônica entre a Subsecretária de Estado dos EUA, Victoria Nuland, e seu Embaixador na Ucrânia.

15. Utilizaram-se as redes sociais e outros meios de arrebanhar massas descontentes e as levaram à praça Maidan, ignorando elas que suas lastimáveis condições de vida vão piorar muito após o golpe.

16. A polícia foi acusada de autora dos disparos feitos por gangs neonazistas e outras extremistas, como foi constatado pela chefe das relações exteriores da União Europeia e pelo ministro do exterior da Estonia, conforme conversação telefônica entre ambos, cuja autenticidade foi confirmada pelo ministro: http://rt.com/news/ashton-maidan-snipers-estonia-946/. 

17. Isso é evidentemente omitido pela grande mídia, que só publica o que interessa aos governos dos EUA, aliados e satélites, todos subordinados à alta finança e ao big business. 

18. Ninguém deveria desconhecer que ela mente, 24 horas por dia, e ainda mais desde a destruição, por dentro, das Torres Gêmeas em Nova York, golpe a partir do qual os EUA institucionalizaram mais instrumentos totalitários de repressão.

19. Mas engana muita gente, mesmo após ter sido desmascarada inúmeras vezes, como quando se comprovou ter o Secretário de Estado de Bush, Colin Power, mentido descaradamente sobre a existência de armas de destruição de massa no Iraque, negada pelo próprio observador das Nações Unidas.

20. É ao big business que agrada o golpe na Ucrânia, após já vir lucrando, antes dele, em negócios com os oligarcas corruptos atraídos para a órbita da oligarquia financeira, principalmente britânica.

21. De fato, anunciam-se novos acordos com as petroleiras angloamericanas (Chevron etc.) para extrair xisto, pelo processo altamente poluente fracking, bem como a cessão de terras ao agronegócio norte-americano, Monsanto à frente, com intenso uso dos letais transgênicos e agrotóxicos, nas grandes extensões férteis da Ucrânia.

22. O destino dos ucranianos, se confirmado o ingresso na UE, não diferirá do que assola a Grécia, e se abaterá também sobre os russos e outras nacionalidades que vivem em territórios cedidos à Ucrânia pelo bêbado Kruchev.

23. Putin está agindo com extrema cautela, tendo-se limitado a apoiar o parlamento da Crimeia em seu desejo de unir-se à Rússia, reforçando efetivos militares na península e no mar.

24. A China manifestou-se solidária à Rússia, inclusive por estar investindo na Ucrânia, como faz em todo lugar suscetível de exportar alimentos e outras matérias-primas.

25. A renda por habitante da Ucrânia equivale a 1/3 da russa, que não é alta, e a Rússia já acolheu três milhões de ucranianos em seu território. O agravamento das condições sociais levará a maior êxodo para a Europa Ocidental, que já tem enorme desemprego.

Brasil

26. O processo aqui em curso tem semelhanças com o da Ucrânia: insatisfação com as condições de vida e com a corrupção; ignorância das causas desses males.

27. Na nova ágora da internet e redes sociais, circulam versões absurdas como a de que o governo petista tem por objetivo implantar o comunismo.

28. Na realidade, esse governo, como seus predecessores, depende do big business transnacional, cujo domínio intensifica os problemas do País: concentração, desnacionalização e desindustrialização da economia; dependência tecnológica.

29. Difundiu-se muito no Brasil vídeo em que uma jovem ucraniana defende liberdade e democracia no errado contexto das massas iludidas na Ucrânia pelos mobilizadores do golpe. Na realidade, uma peça produzida por empresa de marketing político, sob os auspícios da agência norte-americana “National Endowment for Democracy”.

30. Este e outros braços do império acionaram as ONGs a seu serviço, a par dos nazistas, conforme a tradição da CIA, desde o final da 2ª Guerra Mundial. O que se vê na Ucrânia são homicídios, vandalismo e torturas, reiteradas agora com tiros sobre manifestantes pró-Rússia.

31. O objetivo da oligarquia financeira angloamericana no Brasil, até para prosseguir apropriando-se de seus recursos de toda ordem, é intensificar a desnacionalização e demais instrumentos para enfraquecê-lo.

32. Os meios de controle da informação - inclusive espionagem eletrônica, hacking - combinam-se com a corrupção de todo o sistema institucional. A presidente é acuada para aumentar o ritmo das concessões.

33. Estão presentes as consequências das falhas estruturais da economia brasileira, que venho, de há muito, denunciando, as quais se poderão manifestar de forma aguda após julho, apesar de haver eleições em outubro.

34. A crise brasileira tem face interna - física e financeira - como o serviço da dívida: R$ 900 bilhões para 2014; e face externa: déficit nas transações correntes com o exterior acumulando US$ 188,1 bilhões em três anos (US$ 81,4 bilhões só em 2013).

35. Além disso, seus efeitos econômicos e sociais podem ser agravados pelas repercussões do colapso financeiro no Hemisfério Norte, próximo de ressurgir.

14/06/2014

Andrew Korybko - Lições e Consequências da Primeira Guerra Mundial: De Volta para o Futuro?

por Andrew Korybko



O centenário da primeira guerra mundial é um momento para uma reflexão sóbria e profunda sobre as causas e consequências desta tragédia humana. Tem havido alegações de que a aprendizagem pode ser ‘uma visão perfeita’ [‘20/20’ em inglês= fácil após a ocorrência – NT]; mas, estando hoje tão distante do evento real em si, parece que a aprendizagem através das polêmicas polarizada de hoje é míope. A história está sendo reinterpretada para marcar pontos políticos a curto prazo, e esquece-se de que a intenção britânica do conflito original era para uma transformação a longo prazo e profética do arranjo (na época, reconhecido como ‘global’) das potências européias. Claro, nem tudo saiu como previsto e aconteceram ‘zebras’ [‘dark horses’: acontecimentos inesperados; o mesmo que ‘zebras’, ‘azarões’ – NT] para contrabalançar esses planos cuidadosamente concebidos e/ou colher dividendos imerecidos. Não importa que cem anos já tenham passado; o objetivo geoestratégico é o mesmo – as Potências Marítimas devem utilizar todos os métodos (incluindo intriga e maciço derramamento de sangue) para impedir que as potências continentais conspirem contra elas. O continuum da história estranhamente mostra que as sombras do passado ainda pairam sobre a cabeça do futuro, e as lições temáticas que antecederam e que se seguiram à I Guerra Mundial ainda soam perigosamente verdadeiras hoje.

1. Temas

Enquadramento geopolítico

Comumente, diz-se que "geografia é destino"; e, em grande medida, a localização geográfica é um forte determinante da ação. Alfred Mahan e Halforth Mackinder compreenderam isso muito bem na virada do século passado.

Mahan publicou "A Influência do Poder Marítimo na História" em 1890, o qual argumentava que o poder no mar é chave para controlar a terra. Mackinder levou essa idéia um passo adiante em 1904, escrevendo em "O Eixo Geopolítico da História" que as óbvias limitações geográficas do poder marítimo exigem um forte controle sobre o Heartland [1] a fim de dominar a Eurásia. Esta foi originalmente entendida como a Ásia Central, mas mudou ao longo do tempo.

Por que importava então?

O Reino Unido e a Alemanha estavam envolvidos em uma feroz corrida de armamentos navais até a véspera da Primeira Guerra Mundial. Embora a Marinha Britânica fosse suprema, a Alemanha era claramente uma ameaça crescente para essa hegemonia. Além disso, a Alemanha e a Áustria-Hungria eram os mestres da Europa Central e a Rússia controlava o Heartland (essencialmente ’ ganhando’ o Grande Jogo). O historiador russo Nikolay Starikov brilhantemente argumenta que o Reino Unido, usando sua experiência diplomática (e esperteza) de séculos no equilíbrio do grande poder, instigou a Alemanha e a Rússia à guerra após os acontecimentos de Sarajevo para destruir seus dois inimigos maiores (em diferentes teatros da Eurásia) em um único golpe.

Por que é importante hoje?

Brzezinski, escrevendo em ‘O Grande Tabuleiro de Xadrez’ [‘The Grand Chessboard’] em 1997, adverte os americanos responsáveis pelas decisões sobre a possibilidade (à época distante, hoje mais realista) de uma aliança russo-alemã que isolasse a América da Europa e, assim, arruinasse a estratégia Euro-Asiática da América. Adaptando para a presente realidade geopolítica, faz sentido agora a razão porque existe tanta incriminação ocidental contra a Alemanha por ter supostamente começado a I Guerra Mundial – o objetivo é manter a Alemanha e a Rússia divididas e impedir sua coordenação política futura. A onda de Revoluções Coloridas destina-se unicamente a penetrar o Heartland soviético anterior e a remover a Rússia do jogo do Grande Poder. Na frente naval, os EUA estão tentando incitar a China em rota de colisão catastrófica com seus vizinhos do sudeste asiático sobre territórios marítimos disputados.

Lição

A combinação do poder sobre o mar e a terra, devidamente coordenados e aplicados em toda a Eurásia, é a fórmula básica para o controle global. Uma olhada momentânea no mapa das implantações navais e militares americanas no exterior prova facilmente as teorias de Mahan e de Mackinder sem a necessidade de palavras. Porque a geografia não pode ser alterada, essas idéias vão continuar a orientar os EUA e qualquer outro aspirante à hegemon global. No mundo de hoje, os EUA mesclaram o conceito de Balcãs Euro-Asiáticos de Brzezinski [indo das margens do Mar Negro às fronteiras da China, incluindo o Cáucaso – NT] com as táticas de agitação de massa de Gene Sharp (estimuladas por redes de mídia social) para conceber a arma das Revoluções Coloridas para executar isso

Um sistema de aliança hobbesiano

Os países entram em alianças militares uns com os outros por algum tipo de benefício percebido, que pode variar dependendo do ator. Mesmo que tais alianças não decretem de jure [de acordo com a lei – NT] defesa militar mútua, se a percepção aceita é de que essa aliança acarreta tal compromisso, então as reputação e prestígio das partes podem fortemente estar em jogo se elas não levarem a cabo sua obrigação prevista. Quanto mais os sistemas de aliança crescem, mais complicados se tornam, eventualmente amaranhando a todos que são laçados na rede. Guerras em grande escala podem começar assim, com base em erro de cálculo ou eventos periféricos.

Por que importava então?

As percepções obrigacionais envolvendo alianças desempenharam um papel importante no longo período que antecedeu a I Guerra Mundial, pois Starikov escreve que "até o início da Primeira Guerra Mundial, a aliança Entente não foi enquadrada em um Tratado!" Claramente, havia sempre uma "saída"; mas; devido à duplicidade da diplomacia britânica (também devidamente elaborada por Starikov em suas obras), a situação foi cuidadosamente enquadrada para a Alemanha e a Rússia como se não houvesse alternativa. Uma vez ativado, o emaranhado da fibrosa aliança multiplicou-se exponencialmente até que a maioria de todo o continente (e o Oriente Médio através do Império Otomano) foi envolvido em guerra total. Um evento relativamente banal no grande esquema da política contemporânea (um assassinato político na periferia continental) levou a uma grande conflagração no seu núcleo.

Por que é importante agora?

Após a Guerra Fria, a OTAN continuou a crescer inabalável, devorando os restos do Pacto de Varsóvia e parte das antigas Iugoslávia e União Soviética. Embora a defesa militar mútua não seja legalmente vinculativa na OTAN (o Artigo 5º não estipula explicitamente assistência militar, deixando que cada estado-membro tome essa decisão por conta própria), a percepção é que é. Isto significa que os EUA e seus coortes podem acabar perigosamente envolvidos em um conflito regional a fim de salvar as aparências. As ações provocativas da Turquia na Síria ou seus planos fracassados de um ataque enganador lá deveriam enviar sinais de alarme ao resto do mundo. O mesmo pode ser dito para a Polônia e a Lituânia, também membros da OTAN, em relação a seus planos de criar uma brigada conjunta com a Ucrânia, a qual não é membro da OTAN. Claramente, uma potência média em uma grande aliança pode atrair o resto dos seus vinte e sete membros a uma calamidade desastrosa. Deixando de lado a OTAN, os EUA têm um acordo de defesa mútua com o Japão, o qual tem sido incitado a provocar a China. As garantias de segurança fornecidas pelos Estados Unidos a Israel e Arábia Saudita também poderiam facilmente envolvê-los em uma guerra regional com o Irã.

Lição

As alianças militares são um tipo de acordo quase sacrossanto que os estados fazem uns com os outros, colocando seu prestígio e a vida dos seus cidadãos em risco pelos seus parceiros. Elas não deveriam ser entendidas como uma forma de afirmação política. Quanto maior é a aliança, maior é a chance de surtos não-intencionais de grave guerra e de os jogadores do meio manipularem os outros membros. É totalmente instável quando Obama, referindo-se aos Estados Unidos, conta com orgulho para a turma de graduação do West Point [academia militar do exército dos EEUU – NT] que, "Da Europa à Ásia, nós somos o centro de alianças sem rival na história das nações." Excepcionalmente perigosas são as chamadas alianças "defensivas" que só têm um histórico de ação militar ofensiva (por exemplo, as guerras da OTAN). As alianças tanto podem complicar a situação política quanto podem esclarecê-la.

Manipuladores (distantes) do equilíbrio de poder

Os conceitos de equilíbrio de poder e de Dividir para Reinar são tão antigos quanto as páginas do tempo; no entanto, igualmente tão velho é o conhecimento de que quanto mais distante o praticante dessas estratégias, menos provável é que seja afetado diretamente pelas consequências negativas de suas ações. Isso os torna mais calculistas e letais no potencial de danos que podem colher nos teatros alvos. O poder do estado manipulador de equilíbrio deve também ser levado em consideração. Se um estado forte está manipulando os mais fracos, então o risco potencial de consequências negativas diminui; da mesma forma, uma vez que fortes estados começam a manipular seus pares, o risco de consequências negativas (mesmo que os estados sejam distantes uns dos outros) aumenta dramaticamente.

Por que importava então?

O Reino Unido havia sido historicamente a prima donna do equilíbrio de poder e das políticas de Dividir para Reinar na Europa, e desempenhou perfeitamente esse papel no processo que conduziu à I Guerra Mundial. Conforme descrito por Starikov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido Edward Grey diligentemente jogou todas as potências continentais uma contra a outra a fim de que seu país colhesse os benefícios esperados de um conflito continental hobbesiano. As consequências da guerra não foram exatamente as que haviam sido antecipadas (como é fato, isso não acontece com grandes manobras estratégicas); mas, no entanto, é importante observar o impacto da interferência do Reino Unido na gênese da Grande Guerra. Sua visão de equilíbrio europeu e de Dividir para Reinar contribuiu diretamente para a tragédia, inadvertidamente ou não.

Por que é importante agora?

Os EUA substituitam o Reino Unido como equilibrador global do mundo e praticante de Dividir para Reinar. Sua nova política de ‘Liderar por Trás’ [‘Lead from Behind’] é um eufemismo para essas práticas. Eles nomeiam aliados regionais para realizar o que é percebido como sendo condições mutuamente vantajosas (para a vantagem objetiva da grande estratégia dos EUA, mas apenas para a vantagem subjetiva do ’aliado’) enquanto Washington supervisiona e gerencia eventos. A Turquia e Polônia são os principais exemplos dessa política em ação, e a influência da CIA e do FBI sobre a junta de Kiev é ainda outra aplicação dela. Mais sinistramente, as Revoluções Coloridas também podem associar seu nascimento ao de um poder manipulativo (distante) tentando gerenciar eventos regionais para seu próprio interesse. Ao manipular globalmente multidões de atores simultaneamente, surge um risco crítico de má gestão e conseqüências não intencionais. Isso é ainda mais apocalíptico devido aos avanços na tecnologia militar (armas nucleares, drones, guerra electrônica, etc.) que podem igualar o jogo entre as grandes potências manipuladoras e as manipuladas.

Lição

Poderes equilibradores e manipuladores (distantes) têm paradoxalmente visão e cegueira. Eles têm uma certa visão do que a ordem global ou regional deve parecer; mas, a fim de trazer esta idéia à fruição, muitos movimentos complicados devem ser feitos com antecedência. A cegueira decorre do fato que, quando manobras arriscadas de enormes consequências são feitas, conseqüências não intencionais de natureza variável geralmente se seguem e, mais do que provável, estas tendem a ter algum tipo de resultado desastroso para algumas ou todas as partes afetadas. Quanto mais distante e forte o poder manipulativo, mais provável que tenha visões grandiosas (e perigosas) daquilo que o futuro deve parecer e que na verdade atue sobre esses sonhos. Mesmo se este tipo de ator esteja apenas manipulando uma pequena ou média potência, se o alvo eventual for uma potência de força igual ou próxima à dele, então é o mesmo que tentar manipular o dito poder (por exemplo, a manipulação da Ucrânia pelos EUA para afetar a Rússia). Isso nunca leva a resultados pacíficos e estáveis.

2. Consequências

‘Zebras’

Essas são as consequências não intencionais que acontecem devido à manipulações e grandes planos que correm mal. Elas são impossíveis de se prever com precisão, e só às vezes podem parecer esperadas, em retrospectiva. As ‘zebras’ são as ‘cartas fora do baralho’ [‘wild cards’] que surpreendentemente alteram a dinâmica no jogo e causam uma mudança que os manipuladores originais não pretendiam. Elas aparentemente surgem do nada.

Por que importava então?

Em conformidade com o argumento de Nikolay Starikov, a intenção do Reino Unido, ao transformar os eventos em Sarajevo em uma guerra européia, era eliminar dois de seus principais rivais simultaneamente, Alemanha e Rússia. Londres se antecipara, tendo a mão livre para impor sua vontade por toda a Eurásia, de Berlim a Bagdá e do Mar de Barents até ao Mar de Bering. A história, no entanto, não foi assim, e algumas notáveis ‘zebras’ entraram em cena: 

- Os EUA entraram na Primeira Guerra Mundial e foram capazes de ter poder decisório na composição da Europa pós- I Guerra Mundial. O Reino Unido não era mais o rei do continente e, daquele momento em diante, sua influência global começou a diminuir relativamente enquanto a dos EUA aumentava. 
- O Japão, observando de longe como o fratricídio Europeu estava enfraquecendo o poder coletivo dos estados coloniais, tomou alguns territórios alemães do Pacífico e definiu seus projetos de maiores conquistas asiáticas menos de duas décadas mais tarde. 
- A Rússia levantou-se das cinzas, transformada internamente em União Soviética mas externamente semelhante às suas fronteiras imperiais. 
- Os turcos travaram o que identificam como uma guerra de independência, derrubando o Tratado de Sevres (que procurou alocar esferas de influência européia em Anatólia) e substituindo-o com o Tratado de Lausanne.

Essas quatro ‘zebras’ eram imprevisíveis em 1914; mas, em 1924, elas definiram uma parte significativa da arena internacional.

Por que é importante agora?

Assim como a estratégia britânica pelo poder, fomentando as salvas de abertura da I Guerra Mundial, levou ao surgimento inesperado de vários centros de poder, o mesmo o fez o fiasco unipolar dos EUA após o fim da Guerra Fria. A China, com a qual os EUA haviam-se aliado para conter a União Soviética, experimentou a ascensão econômica mais rápida da história da humanidade, e está a um passo de superar a economia os EUA este ano. A Rússia mais uma vez se ergueu, com Putin retornando o país ao seu status histórico de grande poder após a década de crises de 1990. Na verdade, a Rússia e a China agora estão desfrutando o melhor estado de relações mútuas em sua história. Isso os levou a coordenar as suas políticas na ONU, nos BRICS, na APEC e no Oriente Médio e Norte da África. Claramente, olhando para trás, em 1991, não foi isso que os planejadores da política norte-americana anteciparam para o seu mundo "unipolar". Na verdade, o futuro multipolar está crescendo sobre o passado unipolar, e o processo parece ser irreversível, agora.

Lição

Para citar Donald Rumsfeld, "há incógnitas desconhecidas " [‘there are unknown unknowns’], e é impossível prever que conseqüências resultarão de qualquer ação determinada. No entanto, parece que quanto maior a escala do empreendimento, quanto maior o ator que o está iniciando, e quanto maior(es) o(s) alvo(s), tanto mais provável que os resultados inesperados sejam extremamente profundos e marcantes. Pode-se assim avaliar que a "batalha pela Eurásia" dos EUA resultará consequentemente em uma miríade incalculável de ‘zebras’ que podem completamente inverter o equilíbrio de poder global.

Lenocínio político

Estados de segunda e terceira ordens (não-grandes poderes) estão sempre sujeitos a ameaças de manipulação; mas, essa ameaça torna-se um fato depois que um manipulador (distante) do equilíbrio de poder decide perseguir sua visão estratégica. Esses estados são com certeza imolados de uma forma ou de outra se eles estiverem no teatro de operações, e sua vitimização vai ser lucrativa para o estado manipulador. Isso pode assumir a forma clara de traição, de voltar atrás em promessas anteriores, ou de francamente submeter o parceiro de segunda/terceira ordem contra sua vontade ou expectativa. Estados de primeira ordem podem ter relações respeitosas com os de segunda/terceira ordem, mas uma vez que o estado de primeira grandeza vai para a ofensiva para perseguir sua visão (messiânica), essas relações imediatamente tornam-se dispensáveis e nada mais do que ‘cartas do pôquer político’.

Por que importava então?

Dois dos principais problemas no Oriente Médio assentam-se nesse período: a questão de Israel e da Palestina e as fronteiras coloniais artificiais da região. Os árabes foram encorajados a revoltar-se contra os turcos em troca de sua independência após a guerra, conforme a Correspondência Hussein-McMahon; mas, obviamente isso não aconteceu. Enquanto as raízes da questão Israel e Palestina durante esse tempo são bem conhecidas (Declaração de Balfour), menos conhecida é a traição do Reino Árabe da Síria depois da I Guerra Mundial.

O Protocolo de Damasco de 1914 serviu de base para a Correspondência McMahon-Hussein de 1915 - 1916, em que as fronteiras do futuro Reino Árabe da Síria seriam especificadas. Ele incluiria os estados modernos da Síria, Líbano, Israel, a maioria da Jordânia Ocidental e o Iraque e partes do Sul da Turquia. Falsamente, os britânicos estavam ao mesmo tempo ocupados a conspirar com os franceses para dividir no Oriente Médio em zonas coloniais através do Acordo Sykes-Picot. Mais tarde, em 1917, eles concluíram o acordo de Balfour (que se sobrepôs ao território prometido para o Reino Árabe da Síria), indicando claramente que nunca tiveram qualquer intenção de honrar suas promessas de garantir um estado árabe independente centrado em torno da Síria. A destruição e ocupação do Reino Árabe da Síria pela França em 1920 destruiu o sonho da independência síria até após 1946. Ainda assim, os francêses já haviam então deslocado forçosamente o Líbano da Síria e até mesmo entregue a província de Hatay para a Turquia em 1939, apesar de ambas as áreas terem sido historicamente parte da civilização Síria há séculos.

A traição da Síria depois da I Guerra Mundial é um caso clássico de lenocínio político, e seu legado é o desconfigurado Oriente Médio de hoje.

Por que é importante agora?

Os estados de segunda e terceira ordens estão mais ameaçados agora do que antes. A estratégia destrutiva dos Balcãs Euro-Asiáticos de Brzezinski visa especificamente os estados no Rimland [área da Eurásia no entorno do Heartland –NT], a maioria dos quais se encaixam nessa categoria (excluindo a Índia e a China). Revoluções Coloridas, por exemplo, pretendem criar um terremoto geopolítico para quebrar o Rimland Euro-Asiático e provocar o colapso do Heartland. Outras vezes, no entanto, os métodos mais tradicionais de guerra são empregados a par com decepção diplomática. O caso mais impressionante é o do envolvimento militar do Iraque no Kuwait, em 1990.

April Glispie, a embaixadora dos EUA no Iraque, na época, deu "luz verde" total a Saddam para suas ações. Depois, isso foi usado como justificativa para o assentamento de militares dos EUA na Arábia Saudita e no Golfo, para a Primeira e a Segunda Guerras do Golfo, e para o projeto para um "Novo Oriente Médio". A Primavera Árabe é apenas a mais recente iteração [repetição] dos grandes planos estratégicos dos EUA para a região; mas, se não fosse pela Primeira Guerra do Golfo (provocada por garantias enganosas que os EUA não iriam intervir, da mesma forma como os britânicos garantiram aos alemães no período que antecedeu a I Guerra Mundial), talvez nada disso tivesse acontecido e pelo menos mais de 1 milhão de vidas poderiam ter sido poupadas.

Lição

Assim como a liberdade foi falsamente prometida aos árabes para que se rebelassem contra os turcos, e Saddam foi tapeado a acreditar que o Iraque poderia anexar o Kuwait, os manipuladores (distantes) do equilíbrio de poder normalmente exploram os estados de segunda e terceira ordens exclusivamente para promover seus próprios objetivos estratégicos. Muito raramente eles realizam suas promessas ou decretam assistência a longo prazo aos seus ’aliados’. Essas pessoas e estados são objetos na busca de objetivos maiores e, sendo reconhecidos como tal, são descartados quando já não são mais úteis. Compreendendo a natureza predatória de gigolôs políticos tais como o Reino Unido e os Estados Unidos, os estados de segunda e terceira ordens podem trabalhar para evitar o destino que se abateu sobre o Reino Árabe da Síria e Saddam Hussein.

Duplicidade perigosa

A duplicidade só pode ser ’estável’ se for imposta por um hegemon global sem rival – em todos os outros casos, ou uma vez que o referido poder começar a declinar ou outros a revoltar-se contra ele (o que inevitavelmente acontece), esses padrões duplos perigosamente abrem uma caixa de Pandora de ‘zebras e azarões’ [‘black horses and black swans’]. Independentemente, estados (ou grupos de estados) que sentem que estão em uma posição de poder e influência esmagadora podem levar à imposição de padrões duplos por pura conveniência política míope. É mais fácil aplicar uma norma para os vencidos e outra para os vencedores.

Por que importava então?

A duplicidade de auto-determinação e nacionalismo étnico são talvez as mais perigosas hipocrisias do século passado. Após a Segunda Guerra Mundial, as potências vitoriosas jogaram um jogo de equilíbrio sobre o sangue étnico. Seu duplo standard destinava-se a reformular o mapa da Europa a seu bel-prazer, potencializando alguns e fragilizando outros. Ironicamente, alguns estados sentiram ambos os efeitos. Isto foi provocado pela vinculação e separação de vários grupos étnicos, unindo alguns enquanto criando diásporas [dispersões] entre outros.

Grupos étnicos que foram forçosamente divididos: 
- Alemães (Tratado de Versailles) 
- Húngaros (Tratado de Trianon)

Grupos étnicos autorizados a permanecer unidos: 
- Poloneses 
- Romenos

Falso estado: 
- Checoslováquia

Os alemães e húngaros procuraram alterar esse equilíbrio artificial da distribuição étnica; essa foi uma das causas da Segunda Guerra Mundial. Os poloneses e os romenos, enquanto sediando uma grande maioria de seus grupos étnicos dentro de suas fronteiras, tinham minorias substanciais também (ucranianos e bielorrussos na Polônia, húngaros na Romênia). Eles eram ‘estados-nação’ no sentido de que as nacionalidades dominantes eram o polonês e o romeno; mas, eles não eram estados-nação ’puros’ por causa de grandes grupos minoritários. A Checoslováquia era algo completamente diferente: uma mistura de alemães, tchecos, eslovacos e húngaros. Era uma entidade artificial criada puramente para fins políticos. A duplicidade de critérios sobre etnia predominante durante toda a Europa no pós-I Guerra Mundial eventualmente provocaria a Segunda Guerra Mundial.

Por que é importante agora?

Mais uma vez, auto-determinação e nacionalismo étnico foram liberados da caixa de Pandora, embora desta vez pelos Estados Unidos e seus aliados. Começando no Kosovo, que havia sido declarado uma "exceção" à regra: um grupo étnico agitou violentamente para obter auto-determinação (tendo recebido apoio militar internacional para isso) e a declarou unilateralmente em 2008. Naquela época, Putin disse que "a independência do Kosovo é um terrível precedente. Com efeito, ela rompe com todo o sistema de relações internacionais, um sistema que tomou não apenas décadas mas séculos para evoluir... E, sem dúvida, isso pode implicar em toda uma cadeia de consequências imprevisíveis". Ele concluiu dizendo que "em última análise, é uma espada de dois gumes, e a outra borda vai bater-lhes na cabeça, qualquer hora", o que é exatamente o que aconteceu nos casos da Ossétia do Sul, Abecásia, Crimeia, e possivelmente Donbass e a totalidade do Novorossiya... E o gato apenas começou a pular fora do saco.

Lição

A duplicidade nunca resulta em estabilidade, e carrega dentro de si as sementes e embriões para futuros conflitos e desordem. A questão é quanto tempo levará para o duplo standard amadurecer em um problema de pleno direito, e que forma e alcance a oposição a essa falsa norma vai tomar. Como pode ser visto pelos casos da Europa pós-I Guerra Mundial e pelo mundo dos dias modernos, certos padrões duplos completamente revolucionaram a política internacional e podem trazer os mais imprevisíveis dos resultados. Eles são com certeza uma receita para o desastre eventual.

Pensamentos finais

Os temas e as consequências da Primeira Guerra Mundial são ainda estranhamente verdadeiros hoje. A diferença, no entanto, é que o escopo da instabilidade e o teatro potencial de operações saltou da Europa para toda a Eurásia. Enquanto os britânicos foram os condutores privilegiados da política de equilíbrio de poder e das políticas de Dividir para Reinar do período pré-Primeira Guerra Mundial, os EUA agora herdaram esse trono. A aliança da OTAN, tendo superado sua finalidade e inchado com membros desnecessários, representa o agrupamento militar mais instável, o qual pode muito bem provocar uma guerra por erro de cálculo.

O cálculo geopolítico permanece o mesmo – o Poder Marítimo (EUA) e seus aliados não podem permitir que uma combinação de estados continentais (Rússia, China, Irã e Índia) se una para repelí-los da Eurásia. O estratagema dos Balcãs Euro-Asiáticos de Brzezinski e as táticas de Gene Sharp cindiram-se na criação de uma nova arma perigosa de guerra global – as Revoluções Coloridas. A combinação de Revoluções Coloridas com o precedente de Kosovo, realizado sob a égide da ’liderança’ de EUA/OTAN, fraturou as relações internacionais contemporâneas e carrega o potencial de minar a paz que prevaleceu durante quase 70 anos entre as grandes potências.

11/06/2014

Christian Bouchet - Identidade Latino-Americana: Mariateguismo & Magonismo

por Christian Bouchet



As formas autóctones do socialismo latino-americano são um pouco ignoradas pelos militantes europeus, sejam eles cultos ou curiosos. Isso levou à consequência nefasta de privá-los de pontos de referência e de exemplos normalmente notáveis e originais e que poderiam ser tomados e utilizados na luta política européia.

Assim Haya de la Torre, Van Marees, Mariategui ou os irmãos Magon, por exemplo, propõem cada um um enfoque original das relações entre o socialismo e a identidade.

Neste curto artigo trataremos sobre Mariategui e os irmãos Magon, porque os estudos sobre eles estão conhecendo um - relativo - empurrão devido, para o primeiro, ao centenário de seu nascimento em 1994 e para os segundos do levante zapatista.

Mariategui, um marxista nietzscheano

Nascido em Moquegua, no sul do Peru, em 1894 em uma família pobre e católica e tradicionalista, Carlos Mariategui, muito cedo órfão de pai e de saúde frágil, busca rapidamente no estudo e no misticismo compensações à dificuldade de sua existência.

Jovem jornalista, consagra seu tempo às investigações literárias estetizantes. Mas em 1919, tem que se exilar por motivos políticos. Durante cerca de 5 anos, percorrerá a Europa, interessando-se na França pelo dadaísmo e pelo surrealismo, e na Itália pelo pensamento de Gramsci.

De volta ao Peru nos finais de 1923, se junta com Víctor Raúl Haya de la Torre e participa na criação do partido pan-americano APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana) que apoiará com sua caneta e procurando criar em torno de si uma frente cultural. Com este fim, em Setembro de 1926, funda Amauta (que em quechua significa mestre de sabedoria. Escolhido para render homenagem à cultura inca). Mas aos finais de 1928, J. C. Mariategui se separa do APRA rechaçando este partido por não ser mais que populista e proclamando sua fé em um socialismo peruano que deve ter por fim uma "criação heróica". Este pouco tempo depois na iniciativa da criação do jornal sindical Labor e do partido Socialista Peruano que logra sua filiação à Internacional Comunista sob este nome e em que Mariategui é a alma até sua morte aos 35 anos em 1930.

Afirmando-se marxista, mas reconhecendo a influência recebida de Sorel, de Nietzsche e de Bergson, Mariategui foi um comunista particularmente heterodoxo (por essa razão o PSP foi, após sua morte, totalmente retomado pela Internacional). Nos movimentos políticos depois da primeira guerra mundial -liberalismo, fascismo, comunismo - examina sobretudo "o enfrentamento entre o esgotamento decadente e a novidade criadora". Na ação política, busca sobretudo "o chamado à via heróica" e "a apologia do aventureiro, do grande aventureiro". E - heterodoxia suprema - para Mariategui, o socialismo deve ser antes de tudo identitário e enraizado, e busca aproximar seu compromisso político ao passado do Peru, ao comunismo aristocrático dos incas e depois das comunidades camponesas. Assim em uma das duas únicas obras que publicou estando vivo "Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana" que apareceu na época da criação do PSP, faz do Peru profundo o lugar privilegiado da expressão da vida e da alma do povo e examina as questões de educação, religião, centralismo, regionalismo, literatura, economia, não em sua relação com o proletariado urbano, mas em relação à realidade indígena e seus laços com a terra.

Com este fim, é sem dúvida significativo que o atual Partido Comunista do Peru de A. Guzmán se reclame do "caminho luminoso do pensamento de Mariategui" e confirme assim a opinião dos politólogos e etnólogos sérios que estimam que depois de uma linguagem estereotipada marxista particularmente obscura, o Sendero Luminoso é antes de tudo um movimento de resistência indígena à modernidade ocidental.

O magonismo: um comunalismo mexicano

O magonismo como corrente ideológica organizada aparece em 1892 e desaparece, vítima da repressão, em 1916. Tira seu nome dos irmãos Ricardo e Enrique Flores Magon que - influenciados pelo exemplo dos populistas russos - criaram um círculo revolucionário anti-ianque anticlerical na região de Oaxaca. Este círculo se introduzirá rapidamente no Partido Liberal mexicano (no México do fim do século XIX os liberais eram a extrema-esquerda) onde serão a ala ativista e esquerdista.

A característica desta corrente é que seu socialismo tem sua origem no comunalismo indígena e é uma reposta autóctone à ocidentalização e à tentativa de dominação americana sobre o México. Toma a defesa - o retorno segundo os casos - da organização indígena da sociedade: democracia organizada, propriedade coletiva da terra, trabalho limitado à cobertura das necessidades, uso não capitalista dos recursos, etc.

Durante 26 anos, toda a ação dos magonistas seguirá o mesmo eixo. Sublevar as tribos indígenas, pô-las a consistir grupos armados e recuperar - ou a defender - suas terras. Para Ricardo Flores Magon, o aspecto teórico era secundário, senão inútil, e somente a ação e seu exemplo contavam.

Até 1918 - data na que Ricardo Flores Magon foi preso por um destacamento do exército ianque que atuava no México, transportado aos EUA e assassinado - os magonistas criaram numerosos grupos armados, estiveram na origem de numerosos levantamentos de tribos indígenas e participaram no movimento zapatista. Totalmente esquecidos em continuação, seu nome reapareceu - mas de uma forma quase inapreciável - quando o comandante Marcos declarou em uma entrevista que o pensamento prático dos insurgentes de Chiapas vinha na linha direta de Zapata e dos irmãos Magon.

09/06/2014

Alberto Buela - A Ética e a Justiça na Sociedade Contemporânea

por Alberto Buela



"(…) a Justiça, entre todas as virtudes, é o “bem do outro”, visto que se relaciona com o nosso próximo, fazendo o que é vantajoso a um outro, seja um governante, seja um associado. Ora, o pior dos homens é aquele que exerce a sua maldade tanto para consigo mesmo como para os seus amigos, e o melhor não é o que exerce a virtude para consigo mesmo, mas para com um outro; pois que difícil tarefa é essa." - Aristóteles

Vivemos numa sociedade regida por “modismos”. A máxima que rege o convívio social está distante de ser uma norma jurídica. Somos regidos por uma norma da “práxis”. Mesmo as normas morais têm sido postas a serviço dessa normatividade prática à qual devemos nos render e agir em conformidade com os seus desígnios. Se estivermos “fora da moda” o contexto social nos rejeita. Então devemos falar a linguagem do momento e descobrir qual o tipo de discurso que está “na moda”.

Curiosamente, está na moda falar sobre filosofia. Mais precisamente, falar sobre ética. E, de maneira não menos curiosa, todos resolveram contribuir para essa discussão, excluindo-se aqueles que teoricamente seriam os especialistas no assunto: “os amantes da sabedoria”. Assim, fala-se sobre ética na política, ética na justiça, ética na medicina, ética do discurso, e daí por diante. Políticos, juristas, advogados, médicos, jornalistas, sociólogos, publicitários e toda uma “fauna” de profissionais têm fornecido sua contribuição para discorrer sobre seus problemas que se fundamentam numa única palavra: ética. Enquanto isso, nos bastidores das discussões os anônimos “amantes da sabedoria” estão a contemplar os fabulosos resultados que derivam desse entrave.

Evidentemente, os velhos princípios da Ética, tal como estiveram evidenciados pelos antigos pensadores, não foram abandonados pela sociedade tecnológica na qual vivemos sob inspiração do pragmatismo míope decorrente dos “progressos” da ciência moderna. Entretanto, é inegável que sua compreensão prescinde o ajuste ao mundo contemporâneo que se estrutura a partir de novos paradigmas em constante mutação.

Pensemos então, naquilo que, no limite, cabe-nos discorrer nesse momento: o problema que envolve a ética e a justiça na sociedade contemporânea. Para tal, cabe entendermos de que modo compreendemos cada uma dessas coisas, para em seguida, podermos efetuar uma construção logicamente articulada dos conceitos. Partiremos do levantamento de algumas questões específicas tal como o rigor do método filosófico nos propõe, para que, se não chegarmos a uma conclusão significativa em torno do que propomos tenhamos chegado, pelo menos, a percorrer o problema de forma coerente e organizada. Comecemos pelo seguinte questionamento: o que é ética?

Se, acertadamente, concordamos com a impossibilidade de chegarmos a uma definição satisfatória  sobre o que significa a palavra ética e elegermos, pelo menos, um significado atribuído ao termo por um expoente qualquer da história da filosofia teremos, sem dúvida, dado um enorme passo. Em linhas bastante gerais, costuma-se utilizar a palavra ética como sinônimo de moral, ou seja, tudo aquilo que se refere ao modo de ser das pessoas ou ao caráter adquirido como resultado da colocação em prática de alguns costumes ou hábitos considerados bons. Logo, a preocupação da ética estaria ligada a um saber normativo.

Além disso, não podemos esquecer que o referencial central da Ética é o ser humano. Essa compreensão, no que concerne ao pensamento ético, remete-nos à idéia de pessoa cuja definição de Severino Boécio implica na percepção da razão como constitutiva da personalidade, uma  vez dito que “a pessoa é um indivíduo subsistente numa natureza racional” (Boécio apud Pegoraro, 2000: 19). Contudo, em nosso século percebemos uma dinamicidade conceitual que perpassa a idéia de pessoa tendo como idéia central a relação. Assim, o ser humano se caracteriza como ser relacional. Esse tipo de observação, traz à luz uma compreensão que vê nas relações o alicerce da personalidade, visto que a pessoa se constrói a partir de um processo, simultaneamente, relacional e temporal, numa perspectiva contextualizante que nos remete ao pensamento de Ortega y Gasset, segundo o qual “a pessoa sou eu e minhas circunstâncias” (Ortega y  Gasset apud Pegoraro, 2000: 19). Logo, “Quanto mais abrangentes e harmoniosas nossas relações, mais rica será nossa personalidade” (Pegoraro, 2000:19).

Essa preocupação com as relações sociais nos faz lembrar o pensamento de Montesquieu ao mencionar que “para alcançar o equilíbrio interno do homem e, consequentemente, o da relação social, é necessário fazer bom uso das paixões” (MONTESQUIEU, 1964: 597). Se imaginamos os indivíduos fora do convívio social, como seres isolados, enquadramo-los em um mundo imaginário no qual os conceitos de Justiça e Ética, não encontram condições de existência. Seriam os Trogloditas, citados por Montesquieu, que desconheciam o conceito de Justiça e acreditavam que podiam cuidar exclusivamente dos seus interesses e, assim, ser plenamente felizes e satisfeitos sem que fosse necessário preocupar-se com os outros. Esse tipo de pensamento exclui um dos principais fundamentos da ética: a solidariedade.

A idéia de Justiça, bem como a noção de Ética, traz em si mesma uma série de complexidades oriundas da sua natureza. Mesmo o Dr. Miguel Reale, cuja notoriedade e competência dispensa comentários, jamais esboçou uma concepção pessoal de Justiça e, aos 80 anos de idade em Nova Fase do Direito Moderno (1990) asseverou ser necessário abandonar “tanto o propósito de alcançar uma idéia universal do justo quanto o de oferecer um quadro completo de seus requisitos e perspectivas, dada a sua essencial correlação com a experiência histórica mutável e imprevisível” (REALE, 1997). Ou seja, a noção de Justiça está impregnada de temporalidade, donde resulta a imprescindibilidade da sua contextualização. Assim sendo, a Justiça de outrora não se realiza na atualidade acreditando não poder comportá-la noutro contexto senão o nosso. Entretanto, o Dr. Miguel Reale conjectura que “a Justiça assinala a perene correlação entre liberdade e igualdade no processo dialógico da história, visando a realizar a plenitude da pessoa humana em sincronia com uma comunidade cada vez mais formalmente e materialmente democrática” (REALE, 1990: 42).

Em sua Filosofia do Direito (1954) Reale destaca a Justiça como um valor fundamental por servir de “inspiração ou de base aos demais valores jurídicos, como resultado imediato da idéia de pessoa, considerada o valor-fonte de todos os valores” (REALE, 1997). Observemos não haver em tal exposição uma definição de Justiça mas, uma compreensão da sua indiscutível importância, preferindo Reale continuar fixando suas idéias no pensamento de Dante que, no De Monarchia, qualifica a Justiça como “uma proporção real e pessoal de homem para homem, que, preservada (servata), preserva a sociedade e, corrupta, corrompe-a” (DANTE apud REALE, 1997). Emmanuel Lévinas menciona também que “a Justiça só permanece Justiça numa sociedade onde não há distinção entre próximos e distantes1, mas onde também permanece a impossibilidade de passar distante do mais próximo” (LEVINAS, 1991: 126). Assim sendo, cabe dizermos que a Justiça e a Ética estão indissoluvelmente associadas por conseqüência da alteridade e da sociabilidade que fundamentam sua compreensão e podem reduzir a um núcleo comum que, grosso modo, podemos denominar de princípio da solidariedade, sem o qual não creio podermos falar em tais coisas. Desta forma, denunciamos a necessidade de existência de condições sociais para a formação de uma Ética, bem como, para a compreensão de Justiça.

Ainda que não saibamos em que consiste a Justiça, em decorrência das complexidades que permeiam a densa carga de significação que ela veicula, podemos manter a idéia de sua mutabilidade e a prescindibilidade da sua contextualização compreendendo que cabe a ela oferecer parâmetros de sustentabilidade para o convívio social pois, não creio imaginarmos a possibilidade de convivência no interior de uma sociedade injusta.

Agora cabe-nos refletir sobre a “sociedade contemporânea”. Há quem diga que estamos numa “sociedade globalizada”, Alberto Buela em Ensayos de Disenso (Sobre Metapolítica), por exemplo, faz uso da idéia de uma nova ordem mundial fundamentada na teoria da aldeia global de Busch, dizendo que “a homogeneização do mundo (…), corresponde a uma única imagem do homem, hoje, paradigmática: o homo oeconomicus dollaris” (BUELA, 1999: 43). Isso serve para determinar a teoria de que,

Los iconos de este hombre son la droga, la imbecialización rockera mundializada, el alcoholismo infantil, la pornografia visual antierótica; la colección de baratijas, el baby talk, la moda clochard, los fast foods de los Mc Donalds, el autismo musical de los Walkman, los productos light, la cultura del zapping a control remoto como sucesión de imagenes truncas etc. (Ibid.)

Fora certos exageros que percebo na afirmação do autor supracitado, encontramos uma referência aos princípios que sustentam a noção de aldeia global (pluralismo cultural ou multiculturalismo) dentro de cada nação que converter-se-á na idéia de “sociedade globalizada”. Ou seja, achamos os pilares duma sociedade que é caracteristicamente demarcada por ser uma sociedade de consumo desenfreado e, não involuntariamente, essa se define como um conjunto de indivíduos, consumidores ativos, que vivem em prol da aquisição desnecessária de bens não duráveis. Curiosamente, essa mesma sociedade tem-se desenvolvido e definhado em semelhante proporção em decorrência dessa sua necessidade de consumo. Esse tipo de argumentação abre margem para a inserção de um questionamento acerca dos avanços e retrocessos gerados pela humanidade, visto que, somos obrigados a ver e viver em um mundo resultante da mistura entre as maravilhas da tecnologia e os horrores da miséria social diante da qual ainda temos de instituir o que é correto e justo. Produzimos conhecimento e ganhamos domínio sobre a “physis” mas, continuamos sem conseguir controlar a nós mesmos.

A sociedade contemporânea é, portanto, o resultado de um processo que se origina com o renascimento e adquire o seu ápice com a automação absoluta dos meios de produção e dos elementos de estabelecimento das relações interpessoais. A mecanização do tempo instituída pela revolução industrial superou os seus próprios limites e possibilitou a abertura para novos horizontes que apontam para a digitalização do tempo numa dimensão na qual o real tem sido substituído pelo “virtual” e o tempo sofre mutações e mutilações constituindo-se, cada vez mais, em uma abstração. Diante dessa “nova realidade” temos a criação e extinção simultânea de valores. Essa crise axiológica serve de fundamento para a análise crítica dos valores morais e os parâmetros de conduta que, indubitavelmente, são os elementos constituintes da ética. O desenvolvimento da ciência e da técnica as ampliou numa velocidade espantosa e deslocou o homem da sua posição central para uma condição secundária. No processo histórico do desenvolvimento científico-tecnológico a vida humana deixa de ser o fundamento das ações cedendo espaço ao desenvolvimento do conhecimento que proporciona lucro e, sobretudo, poder.

Vivemos à luz da tecnologia que dá suporte ao desenvolvimento da civilização. E no interior dessa realidade encontramos um pequeno “feudo” chamado Brasil, no qual, o desenvolvimento e o progresso tecnológico chegaram antes que o povo tomasse consciência da sua própria existência enquanto cidadãos. Daí, em virtude do consumo, e dos problemas que dele decorrem, o indivíduo brasileiro, pré-cidadão, o homo brasiliens, viu-se atado e impossibilitado de exercer os seus poderes, sobretudo o mais importante para ele: o poder de compra. Sem poder comprar o que deseja e sem poder pagar o que comprou, sendo que o primeiro ato decorre do segundo, ele – o homo brasiliens – despertou, pela indignação, para alguns direitos que lhe eram – ou deveriam ser – pertinentes embora ele ainda não soubesse. Mas, numa atitude típica de quem desperta para o mundo, ele se vê às voltas com a sua nova realidade: a detenção de direitos. Antes era ele um portador de deveres, agora, numa ofensa direta ao que prega a ética aristotélica, ele foge de um extremo ao outro, e se põe como um portador de direitos, exclusivamente. Acha que pode tudo e nada deve, nem mesmo quando deve (…)

Conhecemos a nossa sociedade, suas características e discrepâncias; temos a idéia do que é uma ação em conformidade com a Justiça e, sobretudo, entendemos algo sobre o que se denomina ética. E é nessa ambiência que encontramos espaço para incluir uma nova indagação: que tipo de sociedade pode exigir um comportamento ético de alguém?

Ora, somente desejamos aquilo que não possuímos. Não é possível que queiramos ter aquilo que já temos. Desejamos ter coisas distintas porque não queremos coisas iguais.

Assim sendo, quando se fala da necessidade de ética na justiça, na política, etc. creio que se pede algo que não se tem. Nesse caso, busca-se, exige-se um comportamento ético das pessoas que habitam tais esferas. O mesmo ocorre quando se exige justiça. Pede-se pela sua ausência. Se ele se fizesse presente, não sentiríamos a sua falta. Só sentimos fome na ausência do alimento, sede na ausência de água, frio na ausência de agasalho e injustiça na ausência de aplicação da lei.

Daí retornamos aos modismos. Se um discurso está em conformidade com a moda do contexto, todos tendem a adotá-lo. Nesse caso, especificamente, o discurso reproduz uma tendência atual decorrente do comportamento da sociedade de consumo. Uma sociedade que ” acha que pode comprar tudo”. Que crê residir no poder de compra a única possibilidade de aquisição de todas as coisas. Uma sociedade que não compreende que determinadas coisas são adquiridas, conquistadas, e que toda conquista exige esforço. Uma sociedade que paradoxalmente vindica ética e justiça, mas não cria mecanismos para desvelar tais coisas que se encontram encobertas pelo véu da hipocrisia e da mediocridade.

07/06/2014

Entrevista com Alain de Benoist - Um Estilo de Vida entre o Presente e o Futuro

por Francesco Marotta



Uma voz fora do coro pode estimular a faculdade de apreender tudo aquilo que se passa, deixando de lado as regras e os condicionamentos a que estamos sujeitos quotidianamente. Superar as sensações e os juízos conformistas, formados graças à astúcia e aos meios de que usufruem alguns”especialistas” da informação não é usual. Sinais de uma das regras adoptadas pela sociedade que permite juízos alheios, sem lhe pôr travão. Da política às últimas eleições europeias de 2014, da sociedade de “bem estar” ocidental às formas de protesto de rua, da crise ucraniana ao funcionamento da EU, até aos culpados pelo desnorte europeu (se ao menos soubéssemos o que sabemos hoje…), decidimos pôr algumas questões a Alain de Benoist. Fazendo votos para que possa ser reparada a fissura no painel da identidade das gentes Europeias, das suas comunidades, perturbadas pelas lógicas mercantis da mundialização, na sua individualidade colectiva, a fim de lançar as bases de um redescoberto estilo, único no seu género, fundamental para o renascimento dos povos europeus. Levando em conta, logicamente, as prioridades de todos os Estados que a compõem, numa visão alheia às tendências ideológicas.

Terminaram recentemente as eleições europeias e os partidos eurocépticos tiveram uma fortíssima votação. Da Áustria à Flandres, da Grécia à Inglaterra, contando igualmente com as forças independentistas da Catalunha e da Bélgica. Em alguns casos, com a Inglaterra à cabeça, parece tratar-se de um voto contra a Europa e não contra os políticos de Bruxelas e a burocracia de Estrasburgo?

As últimas eleições europeias registaram um extraordinário crescimento dos partidos populistas, tanto que venceram em três países: A França, a Inglaterra e a Dinamarca. Entre estes partidos há semelhanças mas também numerosas diferenças. No que a isto diz respeito, de facto, os votos a favor do UKIP são claramente dirigidos contra a política de Bruxelas, mas contêm de igual modo um aspecto complementar que se pode ilustrar com a dimensão geopolítica: a Inglaterra é uma ilha que não faz parte do continente europeu. E este aspecto torna o eurocepticismo anglo-saxão muito mais radical quando comparado ao expresso pelos movimentos do mesmo género nos outros países europeus. Podemos falar de um eurocepticismo insular.

Nestes últimos anos assistimos a muitas interpretações acerca daquilo em que se tornou a Europa dos nossos dias. Algumas forças partidárias e movimentos, como a Frente Nacional francesa, visam uma saída da Euro zona. O que pensa disto?

A Frente nacional é um partido hostil, não só à União Europeia mas também à ideia geral de uma Europa politicamente unida. Pessoalmente não compartilho este ponto de vista. Sou muito crítico a respeito das actuais orientações da União europeia, mas as minhas críticas não apontam para uma questão «nacional» ou «soberanista». Creio que se deva instaurar a soberania a um nível supranacional europeu. O problema é que hoje a soberania, (política, económica, financeira, fiscal, etc.), que foi retirada aos Estados nacionais, desapareceu sem ser nem restituída nem pujantemente reafirmada a um nível superior. Por outras palavras, as soberanias nacionais desapareceram, mas a soberania da União Europeia não consegue emergir. O motivo pelo qual não emerge é reconduzível ao facto de a União europeia se ter tornado num grande corpo doente, impotente, paralisado, incapaz de se estribar na sua identidade, nem tão pouco na possibilidade de se constituir como potência autónoma, antes confirmando quotidianamente as suas orientações atlantistas, liberais e livre-cambistas. Perante este cenário, a tentação é forte para um recuo de volta aos Estados-Nação. Mas estes últimos estão a viver uma crise sem precedentes, da qual tínhamos já visto os primeiros sinais nos anos 30. Os Estados-Nação, francamente, já não estão em estado de afrontar os desafios que se apresentam a nível mundial, a começar pelo controlo do sistema financeiro. Daí advém o sentimento de inquietude actual: o retorno ao passado não leva a lado nenhum e simultaneamente o futuro parece estar totalmente bloqueado. A mesma coisa vale para o euro. Considero que a instituição de uma moeda única tenha sido uma boa ideia, mas as modalidades desta introdução foram deploráveis. Sob proposta da Alemanha o valor do euro foi fixado demasiado alto e este motivo tornou-o inutilizável pelos países do sul. Dito isto, o euro não é o único responsável dos problemas actuais: a Grã-Bretanha que não pertence à zona euro não se encontra numa situação melhor no que diz respeito aos países que dela fazem parte. Um retorno à moeda nacional acarreta, de resto, riscos, em particular de inflação e de um incremento da dívida pública (continuando esta titulada em euro). Uma desvalorização global do euro apresentaria uma perspectiva mais do que satisfatória. De qualquer modo, ainda que a moeda única desaparecesse, deveria manter-se uma moeda comum para as trocas com os países não pertencentes à União Europeia. O desaparecimento do euro não nos faria, contudo, sair do sistema capitalista!

A dependência individual da política vive de incensamento e de marketing. Não lhe ocorre que a pouca informação, de si já opaca, e a ausência de conteúdos, oferecidos como um slogan, seja na realidade a expressão de uma classe burguesa que apenas prossegue um fim particular?

A ausência de conteúdos da política actual deriva antes de tudo do prodigioso recentramento político (dos partidos políticos) a que assistimos nos últimos decénios. Este recentramento (regressão), que tornou indistinguíveis os políticos de «direita» dos de «esquerda», é uma das causas profundas do fosso que se escavou entre a classe política e o povo. O aburguesamento dos partidos de esquerda é ilustrado, à saciedade, pela sua adesão ao sistema de mercado: o partido comunista tornou-se social-democrático, o partido socialista tornou-se social-liberal. Paralelamente os estratos superiores da burguesia reagruparam-se numa nova classe social (capitalista) transnacional que tem por pátria o lugar onde possa adquirir os maiores benefícios.

A Sociedade de “Bem Estar” ocidental persiste em adoptar o mito da produtividade e do crescimento. Houve mudanças importantes. Acabou a era das grandes manifestações de rua que a que assistimos por toda a Europa? Ou em alternativa, ter-se-ão transformado em manifestações de simples descontentamento?

As grandes contestações no mundo ocidental, a que se refere, são características peculiares da modernidade. Andavam a par e passo com o empenho político e sindical do tipo «sacerdotal» que durava toda a vida associado à elaboração de grandes projectos colectivos cavalgando a onda da mobilização. A pós modernidade conceptualizou um outro modelo. A aceleração social pôs na prateleira a dimensão histórica em favor do «imediatismo». O crescimento do individualismo, que gerou o tipo antropológico narcisista e imaturo, tornou impossível o crescimento dos grandes projectos colectivos. Tudo o que era estável e duradouro foi substituído por transformações no interior de uma «sociedade líquida» (Zygmunt Bauman), onde se vive para o efémero e o fútil. As manifestações de protesto e de descontentamento não são senão episódios intempestivos sem um desenvolvimento político a longo prazo. Poder-se-ia dizer que a implosão se substituiu à explosão. Paralelamente, com efeito, a sociedade de bem-estar não cessou de crer nas virtudes de um crescimento e de um desenvolvimento permanentes, sem compreender que um crescimento infinito dos consumos materiais é impossível num sistema com recursos finitos (o nosso planeta é um espaço finito). Antigamente pensava-se que os recursos naturais fossem gratuitos e inexauríveis: hoje sabemos que não é assim. As necessidades energéticas estão continuamente a aumentar, enquanto as reservas petrolíferas se vão esgotando. Tudo isto só pode acabar de uma forma mais ou menos catastrófica. As árvores não podem crescer até aos céus e as directrizes actuais não se podem dilatar de maneira exponencial.

O que pensa dos novos impulsos populistas como é o caso do Movimento Cinco Estrelas dirigido por Beppe Grillo em Itália?

A palavra «populismo» é uma «mixórdia» utilizada hoje em dia com uma valência frequentemente pejorativa, para assinalar toda uma série de novos movimentos políticos e sociais que se afiguram como um último recurso para aqueles cidadãos desiludidos pela ineficiência dos grandes partidos políticos clássicos. O erro consiste em supor que todos estes movimentos populistas compartilham uma mesma natureza. Basta compará-los entre si para nos darmos conta de como isso é falso. A Frente Nacional, por exemplo, tem um programa económico e social claramente orientado «à esquerda», enquanto a maior parte dos outros partidos populistas europeus são nitidamente liberais. A FN é igualmente muito hostil à Nato e aos estados Unidos, enquanto numerosas formações populistas são visivelmente «atlantistas». Em conclusão, a FN professa um evidenciado jacobinismo que a leva a condenar toda a forma de regionalismo e de «comunitarismo», enquanto o Vlaams Belang, na Flandres, e a Liga Norte, em Itália, assumem uma posição oposta. Para compreender estas diferenças de orientação, é necessário começar por admitir que o populismo não é uma ideologia mas um estilo, e que tal estilo se pode conjugar com quase todas as ideologias possíveis. Não estou suficientemente informado sobre o movimento Cinco Estrelas para poder exprimir um juízo definitivo. Prefiro considerá-lo como um sintoma, entre tantos, do cansaço da classe dirigente e do crescente descontentamento popular suscitado contra «os grandes partidos de governo». É evidente, com Beppe Grillo, como o populismo pode cair na demagogia que os seus adversários lhe reprovam, mas não obstante é verdade que ele permite que muitas pessoas se exprimam de maneira directa. Quanto à demagogia, enganarmo-nos-íamos ao fazer dela um exclusivo apanágio dos movimentos populistas: a demagogia das «elites» não lhes fica a dever nada!

Há dois mil e quatrocentos anos a Comédia Nova Grega acertava em cheio. Muitas das suas figuras mais importantes, pensavam que os empréstimos transformam os livres em escravos. Parece mesmo que não se pode viver sem empréstimos ilimitados. Quem fez perder o norte aos povos europeus?

O endividamento público é o resultado directo, não só dos deficits que se acumularam um pouco por toda a parte no decurso dos anos, mas também da crise financeira que teve inicio em 2008 nos Estados unidos e que hoje se encontra ainda muito longe do seu final. Para salvar os bancos e os fundos de investimento da falência, os Estados depois de terem sido privados do da concessão de empréstimos por parte dos seus bancos centrais, endividaram-se junto dos mercados financeiros, os quais estabelecem os seus juros em função da boa vontade dos mesmíssimos Estados em satisfazer as suas exigências. Foi por este motivo que foram adoptadas políticas de austeridade em toda a Europa para sanar, em teoria, a situação. Isto só pode levar ao colapso. A austeridade diminui o poder de compra, o que consequentemente diminui a procura, o consumo e por conseguinte a produção. O decréscimo da produção manifesta-se através de despedimentos maciços, de um aumento das deslocalizações e de um aumento da taxa de desemprego. No final das contas, diminuem as receitas tributárias. Para pagar os juros sobre os seus empréstimos, os Estados são obrigados a endividarem-se cada vez mais, dinheiro esse que aumenta automaticamente o volume do empréstimo e respectivos juros. Em França, por exemplo, O Estado tem que pagar 50 biliões de euro por ano para reembolsar os juros da dívida pública (é de resto a rubrica orçamental mais onerosa do Estado a par da Instrução Pública). Isto significa um empréstimo de 800 milhões de euro por dia! É evidente que nos encontramos perante um círculo vicioso, dependente de taxas de juro usurárias e que não poderá durar eternamente.

Werner Sombart pensava que «As grandes cidades se desenvolvem intensamente, uma vez que aí reside o núcleo mais consistente dos consumidores». Nas grandes áreas metropolitanas, símbolo e local de nascimento do sistema económico moderno, é possível restaurar a vitalidade dos povos que necessitam de autonomia, encorajando-os a partir da base, com vista a uma acertada visão europeia? Confederal ou federal?

Já há alguns anos, mais de metade dos habitantes do planeta vive em grandes áreas urbanas, as quais constituem, com efeito, o coração do sistema consumista. Contudo, também as pessoas que vivem nas grandes metrópoles foram atingidas pela crise, vitimas do baixo poder de compra etc. As classes populares desaguam nas periferias, enquanto pela primeira vez as classes médias, empobrecidas pela crise, receiam vivamente a proletarização. A sorte de ambos já não se distingue claramente da do resto da população. A «vitalidade dos povos» só pode ser renovada, sob a condição de sairmos do sistema financeiro que domina não só os Estados e a vida quotidiana dos indivíduos, mas igualmente o espírito de quem quer que seja. Trata-se de sair do reino da quantidade, por outras palavras de «descolonizar» o imaginário simbólico (Serge Latouche) , pondo fim ao domínio dos valores de mercado, ao primado do valor de troca sobre o valor de uso, mas diminuindo igualmente a influência política em matéria financeira e económica. Creio que isto só se tornará possível se a Europa se tornar numa verdadeira potência soberana, que se consiga afirmar como um cadinho original e autónomo de cultura e civilização, constituindo um pólo de regulação num ressurgido mundo multipolar. Esta Europa, na minha opinião, deveria ser constituída sobre uma base de tipo federal. Mas hoje em dia ainda estamos longe disso!

Não poderíamos deixar de pedir a sua opinião sobre a crise na Ucrânia. Como avalia o desempenho da União Europeia?

Na questão ucraniana, a União Europeia demonstrou, mais uma vez, a sua incapacidade de fazer ouvir a sua própria voz como uma potência independente dos Estados Unidos da América. Os líderes europeus contentam-se em relançar os anátemas arremessados pelos Americanos contra a Rússia de Vladimir Putin, sem tão pouco sequer se aperceberem que a sua adesão às sanções contra Moscovo, os fazem correr o risco de estas se voltarem contra si próprios. Com efeito, A Europa tem muito mais a perder do que a ganhar num braço de ferro com a Rússia, a qual é hoje em dia a única grande potência mundial, juntamente com a China, capaz de concorrer eficazmente com a superpotência americana. A Europa ocidental e a Rússia são complementares sob numerosos pontos de vista, em particular no plano tecnológico e energético. Os Americanos, que estão bem conscientes do que está em cima da mesa, esforçam-se para fazer passar para o campo “ocidental” os ex-países do Bloco de Leste com o único objectivo de encurralar a Rússia e limitar a sua esfera de influência. É deplorável que os europeus aceitem participar neste projecto nefasto.

As eleições europeias de 2014 também lhe “tiraram” o sono?

Há vinte anos a Europa era considerada a solução para todos os problemas. Hoje representa um problema decorrente que por sua vez torna ainda mais graves os outros. Segundo a opinião pública, as eleições europeias de 2014 deveriam servir para mostrar o grau de desconfiança dos cidadãos face à União Europeia. De novo, um sintoma do mau funcionamento do sistema vigente. Desagrada-me apenas que os adversários da União Europeia não se apercebam o quão este mesmo descrédito em relação à Europa pode vir a constituir-se como uma ameaça para os Estados nacionais.

Fonte: geopol.com.pt

28/05/2014

Leonid Savin - A Situação Ucraniana em Resumo

por Leonid Savin


A principal tendência na mídia de massa americana e européia descrevendo eventos na Ucrânia é a seguinte: após a queda do regime Yanukovich, revoltas tiveram início, que são apoiadas, em particular, pela Federação Russa. A mídia de massa americana e européia ("ocidental") propositalmente mantém silêncio em relação ao papel que fundos e ONGs "ocidentais" desempenharam no início do atual conflito civil e seu papel na escalada do conflito.

Em geral podemos ver um número de fatores que ajudam a descrever o que está acontecendo na Ucrânia.

1 - O governo atual em Kiev é simplesmente incapaz: até agora não há oferta de qualquer plano para superar a crise e nenhum trabalho em uma estratégia para o desenvolvimento da sociedade e do Estado ucranianos.

2 - É óbvio que o poder legislativo ucraniano está paralisado por um grupo de usurpadores que usam seu poder para conseguir a adoção de leis "inventadas".

Porém, também há casos em que os "inventores" violam suas próprias "leis". Por exemplo, em fevereiro de 2014, sob a pressão do "Maidan" uma lei foi adotada que proíbe o uso de forças policiais ucranianas, de forças do serviço de segurança e o exército contra cidadãos. A lei estipulava, em particular, que essas forças não poderiam ser usadas contra cidadãos participantes de manifestações e protestos.

É digno notar que o "Maidan" é usado para descrever o centro das revoltas em Kiev. A tradução direta em inglês é "praça". Isto estando dito, o "governo" em Kiev agora usa a polícia e tropas do exército com artilharia, veículos blindados e helicópteros contra os habitantes de Donetsk, Lugansk, Kramatorsk e outras cidades no sudeste ucraniano.

3 - O principal slogan das pessoas que estiveram no "Maidan" foi "luta contra corrupção e a dominação da política pelos oligarcas". Agora o "governo" em Kiev indica oligarcas como governadores regionais, isto é, chefes das administrações regionais. Ao mesmo tempo, a corrupção se torna verdadeiramente monstruosa.

As expectativas dos cidadãos ordinários que apoiaram o "Maidan" tem sido enganadas. Quanto aos negócios na Ucrânia, deve ser dito que todos os negócios agora tem que pagar "impostos" adicionais para as assim chamadas estruturas ou corpos estatais, que não são capazes de resolver qualquer dos problemas urgentes.

A corrupção floresce agora, não apenas nos negócios ucranianos, mas também nos contratos com parceiros estrangeiros. A razão é simples: qualquer roubo pode ser agora colocado na conta do presidente Yanukovich ou em força maior.

4 - Até agora, não houve investigação das mortes no centro de Kiev em fevereiro de 2014 por "atiradores não-identificados".

O "terceiro lado" contrata "atiradores não-identificados" que matam manifestantes e policiais, tornando impossível a negociação entre os lados do conflito civil.

Essa técnica foi usada no Egito, Síria e até mesmo em Moscou 1993, onde alguns "atiradores não-identificados" estavam atirando do telhado da embaixada americana.

Voluntários médicos, que trabalharam no "Maidan" afirmaram que em verdade aproximadamente 800 pessoas foram mortas em Kiev em fevereiro de 2014. A maioria deles foi queimada na Casa Ucraniana. Isto é, o Centro Internacional de Convenções de Kiev. Os organizadores do "Maidan" agora tentam ocultar este fato. Àquela época a Casa Ucraniana estava ocupada pela organização "Auto-Defesa", chefiada por Andrey Paruby.

5 - Não há liberdade de expressão. Na medida em que o "governo" em Kiev e os oligarcas, instalados como governadores regionais, impuseram censura estrita na mídia de massa e negam entrada aos jornalistas russos, há clara evidência de desinformação e manipulação da opinião pública.

O "Ocidente" está desempenhando um papel especial: por exemplo, imagens velhas de satélite de equipamento militar russo tomadas de exercícios militares de 2013 são apresentadas agora como informações novas de inteligência sobre concentração de tropas russas na fronteira da Ucrânia.

6 - A ausência de lei e ordem, que se manifesta, por exemplo, nas ruas das cidades ucranianas. Bandos vadios de neonazistas armados tornam óbvio que a criação de um governo realmente legítimo em Kiev é um problema bastante difícil.

O linchamento de membros do parlamento e candidatos presidenciais como Oleg Tsarev em Kiev, a suspensão da campanha eleitoral por Yulia Timoshenko, e muitos outros "incidentes" sugerem que as eleições presidenciais marcadas para maio de 2014 não podem ser consideradas como qualquer outra coisa além de uma farsa.

Antes do golpe em 21 de fevereiro, a solução mais adequada para a crise política teria sido aquela baseada no acordo mediado pela Polônia, Alemanha e EUA. Isto é, a dissolução do Parlamento e a formação de um corpo legislativo interino com participação proporcional e direitos garantidos para todas as regiões ucranianas.

Desde o golpe tal cenário se complicou, se não se tornou impossível graças ao rápido desenvolvimento de um certo número de conflitos internos. O conflito entre os habitantes do oeste e do sudeste da Ucrânia; o conflito entre aqueles que se consideram apoiadores do "Maidan" e aqueles que se consideram "Anti-Maidan"; entre nacionalistas ucranianos radicais cujos líderes estão, estranhamento, em contato extremamente próximo com oligarcas judeus, e cidadãos que apoiam a continuidade do desenvolvimento do país dentro do esquema da civilização russo-eurasiana. 

8 - Como os EUA, e mesmo a UE, deliberadamente incitam a escalada dos conflitos ao mesmo tempo que levantam acusações contra a Rússia, a situação na Ucrânia está agora longe de ser resolvida. O que seria necessário seria uma intervenção mais ativa de membros do Conselho de Segurança da ONU como a China, bem como dos países da Ásia, África, America Latina, e todos os países considerando o mundo multipolar como a forma mais adequada para o desenvolvimento futuro da comunidade humana na Terra.

23/05/2014

Aleksandr Dugin - O Caminho Crimeano

por Aleksandr Dugin

Pode-se ressaltar quatro correntes importantes de eventos que aconteceram na última semana no drama ucraniano:

  • O início da campanha presidencial e a tentativa de Kiev de apresentar "o início do ciclo eleitoral", marcado por um confronto entre o grupo de Poroshenko contra o grupo de Timoshenko;
  • A tentativa do agrupamento pró-americano ilegítimo, que controla o poder em Kiev, de encontrar uma solução para a questão com formações neonazistas ("Setor Direito", o julgamento de Goran);
  • Batalha diplomática da Rússia na arena internacional pela defesa de sua posição na Criméia e pela idéia de federalização;
  • Eventos revolucionários no sudeste que se sucederam nesse fim de semana após a repressão de ativistas da sociedade civil no sudeste que não obedecem ao poder ilegítimo em Kiev.
Imitação de "eleição" e seu boicote no sudeste

Kiev luta para dar a entender que nada especial está ocorrendo agora, e que independentemente da vitória total da "revolução" Euromaidan e a derrubada de Yanukovich, o país pode ingressar alegremente no ciclo eleitoral de primavera. Pelo menos, segundo a mídia ucraniana, essa parece ser a verdade. Porém, não há razões para acreditarmos nisso, porque a suposta "eleição" se dá em um país no qual não apenas um golpe inconstitucional ocorreu há alguns meses, mas que também perdeu o amplo território da Criméia, e que tem que lidar com ondas maciças de protestos no sudeste.

Nessa situação o Ocidente possui a seguinte intenção: atrair atenção para a competição entre dois candidatos igualmente pró-americanos, Poroshenko e Timoshenko, e (mesmo relativamente) "legitimar" a eleição de maio colocando nela supostos "candidatos do leste" (Tsarev, Dobkin, Tigipko). Como a eleição se dará em circunstâncias extremas, mesmo no caso hipotético de revolução, a vitória será concedida a um candidato ocidental (porque o Ocidente factualmente - EUA/OTAN e as regiões ocidentais da Ucrânia - orquestraram o golpe de março em Kiev). Posteriormente, o novo governo organizará repressões em larga escala no sul e no leste o que pode gerar uma escalada no conflito com a Rússia. Esse é o plano tanto dos EUA como do agrupamento ilegítimo que controla Kiev e executa seu plano. Essa performance se desdobrará por sua própria lógica até maio e seu objetivo não é o resultado, mas o processo em si. O sistema existente, tanto indiretamente como inconscientemente, já é legitimado pelo envolvimento de pessoas no tema eleitoral. Isso também fortalece na mente da sociedade civil a idéia de um golpe irreversível. Porém, esse artifício é transparente para todos os observadores que seguem atentamente a situação na Ucrânia.

Primeiramente, a Rússia anunciou claramente que não reconhecerá por antecipação os resultados das eleições de maio. Segundo a perspectiva russa, não importa se as eleições de maio serão conduzidas ou quem vencerá. Nesse contexto, o fato de que Tsarev será um dos candidatos não deve ser superestimado. Moscou simpatiza com esse político anti-ocidental, mas não aposta nele: suas chances são mínimas e sua participação joga nas mãos de agrupamentos ilegais. Moscou possui atitudes positivas em relação a Tsarev, mas sua nomeação como candidato presidencial não é saudada. Se Moscou não reconhecer a eleição, governantes ilegítimos não serão capazes de estabelecer relações diplomáticas com Moscou mesmo após maio. Dado, é claro, que essa eleição geral ocorra mesmo em tais circunstâncias.

Em segundo lugar, a Rússia insiste na realização de um referendo sobre o status das áreas do sudeste da Ucrânia e sua federalização (ou confederação). A Rússia acredita que a Ucrânia deve ser "criada" primeiro e então depois realizar as eleições. Moscou compreende a situação da seguinte maneira: há duas nações, duas sociedades na Ucrânia. O oeste e Kiev se referem aos zapadentsi (termo pejorativo para os ucranianos ocidentais), o sul e o leste se referem à Rússia (e sua história, cultura, língua, religião, identidade e características sociais). Eles sempre votam de maneiras opostas: os primeiros por um candidato ocidental (pró-americano, pró-europeu) e os últimos por um candidato pró-russo. Yuschenko era um zapadenets. Yanukovich se apoiava no sudeste. O Euromaidan derrubou o oriental Yanukovich, e como resultado o golpe levou legítimos zapadentsi ao poder.

A nação unida da Ucrânia só poderia ser criada tendo consideração pelas duas identidades, mas ninguém pode fazer isso, nem candidatos ocidentais, nem orientais. Hoje em Kiev os zapadentsi se apoiam em neonazistas e proclamaram uma política que quer transformar toda a Ucrânia (excluindo agora a Criméia) em uma "Zapadenia" (um país só para os zapadentsi). Uma prova disso é a abolição da língua russa e a russofobia geral do regime. Zapadentsi radicais controlam Kiev e portanto o sudeste da Ucrânia, o que significa que pelo menos metade da população se tornará vítima de genocídio cultural e étnico inevitável. A Rússia não permitirá isso, e é por esse motivo que ela demanda a federalização primeiro, e eleições depois. Se não houver federalização e referendo sobre o status das áreas, não haverá Ucrânia com suas fronteiras atuais. É isso que Moscou e o Ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov dão a entender.

Federalização no ultimato do Kremlin a Washington

A federalização é a única condição pela qual a Rússia reconhecerá qualquer futura autoridade ucraniana. Ainda que Washington quera aceitá-lo, para pelo menos pacificar uma Moscou enfurecida com a derrubada de Yanukovich, na atual situação Kiev não concordará com a federalização de qualquer maneira. O regime assumiu o poder sob slogans nacionalistas extremistas em um frenesi russofóbico chauvinista.

Portanto, Kiev persistirá com as eleições sem referendo ou federalização. E o que fará Moscou nesse caso? Já que seu ultimato será rejeitado.

Isso nós veremos depois, mas precisamos notar um fato importante: na perspectiva de Moscou não há eleição. Isso significa que não há também para as regiões do sul e do leste da Ucrânia, que são guiadas por Moscou, e após a reunificação da Criméia, não apenas guiadas, mas depositam em Moscou sua esperança, e pela primeira vez em 23 anos realmente confiam nela. Moscou afirma com firmeza que não há eleição. Não há como o sudeste da Ucrânia não ouvir Putin, quando ele disse que eleição antes de referendo e sem federalização é efetivamente traição. Portanto, as eleições de maio serão radicalmente boicotadas pelo sudeste. Isso é apenas uma parte do ultimato de Moscou, mas não tudo que há nele.

Atlanto-Fascismo: Paradoxos da Guerra de Rede e as Leis da Geopolítica

O segundo tema da última semana é a intriga ao redor do "Setor Direito", os rumores sobre apoio de Kolomoysky, o julgamento e absolvição dos assassinos do "Martelo Branco" em Kiev, o programa pró-OTAN e liberal do "candidato presidencial" Yarosh, seu reconhecimento de colaboração com a CIA, etc.

O "Setor Direito" e o ultranacionalismo radical ucraniano em geral (algumas vezes um neonazismo direto) são a intriga do Euromaidan. Usualmente, em "revoluções coloridas" americanas, liberais e anarquistas desempenham os principais papéis. Dessa vez, os ultranacionalistas com uma direção russofóbica aparecendo sob a bandeira da UPA (Exército Insurgente Ucraniano) e com retrato dos capangas de Hitler, Bandera e Shukevych no fundo. Tal ousada solução político-tecnológica da CIA é uma repetição de esquemas similares no mundo islâmico, em que os EUA tem tradicionalmente apoiado grupos radicais wahhabis e salafis que ensaiam diferentes golpes benéficos a Washington, ataques terroristas, e outras operações extremistas. O wahhabismo e o salafismo são o núcleo do proxy atlantista no mundo islâmico, e podemos vê-lo na Líbia, Iraque, Síria, etc. Algum tempo atrás, os EUA começaram a testar a instrumentalização de movimentos de extrema-direita na Europa, bem como na Ucrânia e até mesmo na Rússia; exemplificado pelos casos de Breivik, os nacional-democratas russos, etc.

Os liberais aumentaram o fluxo de imigrantes com uma mão, e com a outra mão começaram a apoiar grupos neonazistas radicais que foram organizados para combater essa mesma imigração. O objetivo é desestabilizar a sociedade e criar as condições para "revoluções coloridas". No Euromaidan, os EUA tentaram a nova estratégia de rede de usar grupos neonazistas para ensaiar golpes em tal escala pela primeira vez, e esse também pode ser considerado como a origem do fenômeno do "Setor Direito".

Essa é a teoria e a prática da nova tendência ocidental de guerra de rede. É claro, nem todos os ultranacionalistas podem contar com apoio de Washington, da CIA e oligarcas integrados na oligarquia financeira internacional (geralmente de origem judaica, como o bilionário Igor Kolomoysky, que foi apontado pelo agrupamento ilegítimo de Kiev como "governador" de Dnepropetrovsk, ao mesmo tempo que ele é o cabeça do Congresso Judaico Europeu e do "Setor Direito"), mas apenas aqueles que se opõem aos inimigos dos EUA e da OTAN ou são leais a ambos. Agora os EUA estão lutando para manter o modelo unipolar do mundo. Ao mesmo tempo, a Rússia com mais e mais sucesso defende o modelo multipolar do mundo.

Portanto, aqueles neonazistas que se opõem a Rússia estão em uma situação privilegiada e são ativamente envolvidos nas estratégias americanas. Similarmente, Brzezinski usou a Al-Qaeda e Bin Laden no Afeganistão entre muçulmanos para promover resistência às forças pró-soviéticas. Para garantir a lealdade a seus donos, os neonazistas, tais como Goran ou Yarosh, enfatizam seu apoio à OTAN, visitam a embaixada israelense de maneira destacada e juram fidelidade a valores liberais.

É um segredo dessa semana: após um ativista do "Setor Direito" disparar três balas contra um membro da Auto-Defesa do Maidan, o quartel-general do "Setor Direito" apenas mudou discretamente de lugar. Um Goran ensanguentado que assassinou representantes da polícia de trânsito foi tranquilamente inocentado.

Nós estamos lidando com o fenômeno do atlanto-fascismo, a versão liberal do nazismo, que é acobertada pelos EUA e pelas forças oligárquicas do globalismo. À primeira vista, este é um paradoxo e uma anomalia. Mas para aqueles familiares com as regras de conduta da guerra de rede com as leis da geopolítica, é, pelo contrário, bem lógico. A rede, que foi organizada ao modo pós-moderno, envolve o uso de personagens livres de qualquer ideologia, mas que podem ser facilmente manipulados e contribuir durante as operações da rede. A geopolítica divide representantes de qualquer ideologia em dois campos: para os EUA, OTAN, União Européia, um mundo unipolar (atlantistas) e para a Rússia, multipolaridade, BRICS (Eurasianos). Quaisquer sejam as opiniões tidas por atlantistas, elas serão apoiadas pelos liberais e pela oligarquia financeira dominante no atlantismo.

E não importa que opiniões sejam professadas pelos apoiadores da multipolaridade e eurasianos, eles serão desacreditados e acusados de todos os pecados mortais.

Nesse contexto, a situação com o "Setor Direito" é uma ilustração simplesmente brilhante. Se um assassino nazista declarado apoia os EUA e a OTAN contra a Rússia, ele não é um nazista, nem um fascista, nem um assassino. Mas se um democrata ou uma pessoa sem qualquer ideologia está ao lado da Rússia, ele é automaticamente acusado de "fascismo", "nazismo", "stalinismo", etc. Muitos observadores dos eventos na Ucrânia tiveram um choque por causa dessa duplicidade. Lhes são mostrados os rufiões segurando retratos do capanga de Hitler, Bandera, e lhes dizem que aqueles são "pacíficos liberais". Os rufiões mostram uma patinadora russa, e a inscrição diz: "Essa é a face cínica e enganosa do fascismo de Putin". Há uma razão para enlouquecer. Especialmente se você assiste programas de TV ucranianos. Mas isso não é só sobre a Ucrânia. São apenas as novas regras de operações de rede segundo as leis da geopolítica.

Rússia vs. EUA: Dois tipos de brutalidade

No nível internacional, a Rússia entrou em uma batalha diplomática com os EUA. A situação é exacerbada pelo fato de que o debate está sendo travado entre duas potências nucleares. E assim, a responsabilidade de ambos os lados é imensa.

A Rússia defende a posição: a Criméia é um território russo, a Ucrânia deve ser federalizada, as eleições de maio são inválidas, Yanukovich é o presidente. Os EUA respondem: o referendo na Criméia é inválido, a Ucrânia é um Estado unitário, as eleições de maio são legítimas e as atuais autoridades em Kiev representam o país legitimamente. Nenhum dos lados pode chegar a um consenso sobre qualquer das questões.

A única diferença é que os EUA pressionam a Rússia em relação a seus interesses vitais, e a Rússia não permite que os EUA façam isso. Em outras palavras, a América está essencialmente comprometida com um ato de agressão contra a Rússia ao apoiar o golpe em Kiev. E o apoio de Washington aos grupos de Kiev é na prática um ataque. Enquanto isso, a Rússia está se defendendo e o faz de uma forma bastante dura.

Uma crueldade dos EUA e da Rússia é fundamentalmente diferente: para a América o destino da Ucrânia é algo secundário, ela não está incluída na área de interesses vitais americanos, já que ela é geograficamente distante e os EUA tem muitos desafios além da Rússia. Assim, os americanos botam pressão apenas por garantia, testando a Rússia pelo uso de contato direto. Ainda que os EUA recuem ou entreguem a Ucrânia a Moscou, mesmo nesse caso eles não perdem muito porque a Ucrânia era completamente neutra antes e estava fora de seu controle. Nessa situação, nem os EUA, nem a OTAN lutarão sob quaisquer circunstâncias. E hipoteticamente eles podem facilmente passar à posição de início.

Porém, a Rússia está arriscando tudo. A crueldade de Moscou é forçada, nessa situação; a Rússia não pode em geral recuar em relação a qualquer ponto, arriscando enfraquecer qualitativamente seu nível de segurança, porque ainda que a OTAN entre na Ucrânia ocidental e se mova na direção da fronteira oriental, a perda da Criméia e do sudeste seria um suicídio estratégico para a Rússia. Assim Moscou luta por suas idéias desesperadamente; nós simplesmente não temos oportunidade de dar passos para trás. Estrategicamente perderíamos, ainda que nos reuníssemos com o sudeste e a fronteira estivesse na linha que vai do Dnieper do nordeste (Sumy-Chernigov) ao sudoeste (Odessa). Portanto, Lavrov e Putin escolheram a plataforma mais suave para um confronto com o Ocidente. Federalização é uma chance para Kiev manter controle sobre todo seu território (excluindo a Criméia). A crueldade americana é bem previsível. A crueldade de Moscou impressiona e inspira um horror à quinta coluna e esperança aos patriotas. Mas esse jogo russo-americano apenas começou.

Sudeste da Ucrânia: O Caminho Crimeano

As coisas mais importantes que foram feitas: a revolta do sudeste nesse fim de semana, a captura da administração regional em Donetsk, Lugansk, Kharkiv e Mariupol, a impressionante mobilização em Odessa, a proclamação da República de Donetsk. Na verdade, uma coisa é clara: o sudeste se levantou. Essa é a segunda onda da revolução ucraniana, a Primavera Russa.

Durante o Euromaidan contra Yanukovich (um presidente do leste) não apenas Kiev se rebelou, mas toda a Ucrânia ocidental. A onda de capturas de administrações regionais se deu apenas no oeste. Por todo o lugar lá o poder foi capturado por forças nacionalistas e ultranacionalistas que estão em simpatia com o Euromaidan. Eles também forneceram a cena provincial de massas em Kiev. Foi uma revolta do oeste ucraniano contra o leste russo. E a primeira fase terminou com uma vitória do oeste da Ucrânia.

Até o golpe o equilíbrio de forças era: o oeste defendia rebelião e insurreição em massa, o leste defendia a ordem constitucional. O oeste era sinônimo de revolução, o leste - com paz e reação. Hoje os papéis se inverteram radicalmente. O oeste derrotou o leste em Kiev e tentou declará-lo como uma vitória da Ucrânia como um todo. Mas não há Ucrânia unida e ela não foi criada em 23 anos de história. Portanto, há apenas o oeste e Kiev ocupada pelo oeste, e o sudeste. Agora, quando a revolução do oeste se transformou em ordem (ainda que ilegal e ilegítima), há uma resposta revolucionária - a revolução do leste. Tudo se tornou oposto. De Kiev, do lacaio pró-americano Nalivayachenko, vem ordens de represálias, prisões de ativistas, supressão de insurreições civis, e o povo do sudeste decididamente tomou seu destino em suas próprias mãos. A Ucrânia ocidental atualmente possui o papel de um regime repressivo, enquanto o sudeste se rebelou, está organizando uma Veche (assembléia nacional), demanda independência, captura administrações regionais, anuncia greve geral e se recusa a obedecer Kiev. Essa é a segunda parte da revolução ucraniana, mas agora o sudeste é um símbolo de rebelião, e Kiev e o oeste são o baluarte da reação.

Qual é a causa da rebelião do sudeste? É fácil responder. Ela se rebelou contra o nacionalismo radical zapadentsy, contra a russofobia e contra os ataques dos EUA e da União Européia. Se pensarmos cuidadosamente, o sudeste se opôs a tudo isso antes, apoiando aqueles candidatos que prometeram reaproximação com a Rússia, o status da língua russa como idioma estatal, o status não-alinhado da Ucrânia internacionalmente, etc. Mas enquanto a lei e procedimentos democráticos estavam em seu devido lugar, o sudeste estava no campo legal. Após o ensaio do golpe ocidental, a legalidade foi abolida. Levou algum tempo para o sudeste perceber isso, e desde 6 de abril podemos dizer que essa percepção finalmente chegou. O sudeste rejeita Kiev, como ela é agora, se recusa a obedecer e assumiu o caminho da rebelião. Essa rebelião é contra Kiev e os zapadentsi da Ucrânia, que Kiev tenta "legitimar". A eleição em maio é o passo mais importante nesse esforço. Portanto, o sudeste se rebelou contra ela.

Se o poder em Kiev fosse diferente, as demandas do sudeste seriam relativamente moderadas. Seria tal como antes, por exemplo, uma reaproximação com a Rússia, a manutenção do status do idioma russo, a recusa a uma integração acelerada à UE e OTAN, etc. E mesmo sem federalização. Mas o radicalismo e a natureza ilegal das autoridades de Kiev após o Euromaidan não deixou alternativa para o sudeste, nem esperança de realização pacífica dessas demandas. Isso era impossível, e o povo do sudeste percebeu. Agora só há três possibilidades: a suave é o federalismo, a média é um Estado independente (Nova Rússia) e a extrema é a reunificação com a Rússia.

Mas para alcançar qualquer das três soluções, o sudeste deve defender sua independência política e militar completa. Kiev, em sua euforia ultranacionalista, definitivamente dará início a represálias contra "separatistas sudestinos instigados por Moscou". Isso significa que o sudeste vai repelir esses ataques, libertará seus líderes comunitários de custódia (tal como o Governador Popular de Donetsk Pavel Gubarev e outros), e criará autoridades independentes e unidades de autodefesa. Sem essa ação Kiev não quer ouvir falar em federalismo. O sudeste pode forçar Kiev ao federalismo apenas pelo poder. E esse poder deve ser sólido, persistente e bem organizado. Mas Kiev é apoiada pelos EUA e pela União Européia - financeiramente e politicamente até o envio de treinadores militares e exércitos privados. Portanto, a luta será desigual.

A assistência direta de Moscou é necessária para equilibrar as chances. E Moscou dará essa ajuda. E aqui nos deparamos com um paradoxo: para atingir a realização até mesmo do programa mínimo (federalização), o sudeste precisará de uma assistência direta de Moscou, quase na mesma medida em que para o programa máximo (reunificação completa) e o programa médio (Estado independente da Nova Rússia). E isso é claramente compreendido pelos próprios rebeldes: daí as bandeiras russas prevalecem em todas as demonstrações de massa e tomadas de poder. É definitivamente uma revolução russa e é abertamente conduzida sob a bandeira russa: o sudeste precisamente se vê com a Rússia, e sente que Kiev e a Ucrânia ocidental, apresentados por Bandera, Shukhevych, o Exército Insurgente Ucraniano e o "Setor Direito" e pelos oligarcas (Poroshenko, Timoshenko, Kolomoysky, Taruta, etc), é completamente alienígena, hostil, perigoso e odioso.

Portanto, é possível chegar a uma conclusão: apesar da posição moderada oficial de Moscou (Putin, Lavrov), a revolução russa do sudeste da Ucrânia é dirigida não apenas para a federalização. O objetivo é claro: o cenário crimeano. E para isso é aceitável e necessário pagar qualquer preço.