15/03/2014

John Médaille - O Capitalismo como Sistema Anti-Natural

por John Médaille



Desde que o capitalismo surgiu no final da Idade Média e veio a dominar tanto a produção como a política no final do século XVIII, tem havido um vigoroso debate sobre exatamente qual é a natureza do capitalismo. Central para esses debates tem sido a questão da relação do capitalismo com o Estado, e particularmente a questão de se o capitalismo era um inimigo ou um filho do Estado. Não tem havido falta de grandes nomes nesse debate: Smith, Marx, Mill, Mises e muitas outras grandes mentes contribuíram com pesados tomos sobre o tópico. Porém eu creio que a honra de formular a questão nos termos mais elegantes e sucintos deva ir para Sorin Cucerai em seu breve, mas poderoso ensaio, "O Medo do Capitalismo e Uma de suas Fontes", na edição de maio de Idei in Dialog. O sr. Cucerai é um filósofo libertário na Romênia, e seu artigo é importante porque é o olhar mais cândido dirigido ao capitalismo que eu já vi vindo de um libertário austríaco. Em não mais que algumas poucas páginas, e em algumas poucas poderosas frases, o sr. Cucerai captura a essência do capitalismo e sua relação com o Estado. Os argumentos de Sorin são dirigidos primariamente aos "anarco-libertários" que, como os marxistas, gostariam de um "esvanecimento do Estado". Porém, a realidade histórica é que sob regimes "conservadores" o Estado cresce tão rápido - ou até mais rápido - do que ele o faz quando sob regimes liberais ou social-democratas. De fato, apenas os comunistas puderam fazer o Estado crescer mais rápido que os conservadores, e eles o fizeram crescer até que ele ruiu sob seu próprio peso, um feito que os conservadores na América estão tentando duplicar, e podem até conseguir fazê-lo. Certamente, algo estranho ocorre aqui. Uma realidade histórico tão penetrante e poderosa não pode ser ignorada em nome da ideologia. Porém, deve ser notado que ao "defender" o capitalismo, o sr. Cucerai levanta questões que desafiam sua própria legitimidade. De fato, Marx em seus ataques ao capitalismo nunca disse nada tão negativa sobre aquele sistema quanto o sr. Cucerai em sua "defesa". É importante compreender o argumento do sr. Cucerai em sua elegante simplicidade. Eu o sumarizo como segue:

1 - Os homens naturalmente buscam acesso direito aos meios de subsistência, usualmente na forma de sua própria terra ou ferramentas.

2 - Este acesso torna o homem menos dependente de seus vizinhos e portanto menos dependente dos mercados.

3 - Mas o capitalismo é a condição de dependência do mercado para a própria subsistência. Portanto, "a condição fundamental para a existência de uma ordem capitalista é a ausência de autonomia individual no sentido de dever a fonte da própria comida", e de forçar as pessoas a buscarem uma fonte monetária de subsistência. Essa não é uma condição natural, como o é a de possuir a própria terra, porque "As pessoas não buscam instintivamente por uma fonte de renda monetária". Elas o fazem apenas porque são forçadas a fazê-lo.

4 - "O capitalismo é tornado possível apenas se esse processo natural é interrompido por um instrumento que garanta que ninguém poderá ter acesso a comida e abrigo a não ser que uma renda monetária seja usada como intermediária".

5 - "Portanto, a ordem capitalista não é natural. Tal ordem pode ser mantida apenas se houver um arranjo institucional que impeça o indivíduo de não participar de relações comerciais através da agência de dinheiro".

6 - Este "arranjo institucional" é um governo que demanda que as pessoas paguem impostos e taxas apenas sob a forma de dinheiro. Apenas o Estado pode realizar essa função coercitiva da qual o capitalismo depende. "A fonte de renda adquire proeminência sobre a fonte de comida; as relações comerciais são onipresentes porque, basicamente, é impossível evitá-las".

7 - O Estado é necessário por outra razão, nomeadamente que "a livre competição é tão anti-natural quanto o próprio capitalismo". Na ausência do Estado, o comércio seria uma questão de "busca de renda", um comportamento que apenas a regulamentação governamental pode impedir.

8 - Paradoxalmente, a "liberdade e prosperidade do capitalismo" são possíveis apenas "ao se negar às pessoas o acesso direito a comida e abrigo". De modo a ter essa "liberdade" capitalista, devemos ser alienados de nossa própria natureza. Mas se isso é feito, então "o rompimento criado entre nós e nossa natureza - e entre nós e a natureza em geral - abre um espaço previamente desconhecido para a liberdade humana e é uma forma de civilização".

9 - Por causa dessa alienação fundamental da natureza, "qualquer indivíduo que vive na ordem capitalista é um ser fundamentalmente precário, de uma fragilidade radical. É a precariedade daquele que não possui chão firme sob seus pés".

O que é notável nessa cadeia de pensamento é que ela pode ser lida como um ataque ou como uma defesa do capitalismo. De fato, é difícil discernir, de dentro do próprio argumento, como que ele vai terminar. O sr. Cucerai oferece apenas uma defesa instrumental do capitalismo, nomeadamente que ele resultará em mais bens e salários mais altos. À parte do fato de que esse "consequencialismo" é moralmente suspeito, na melhor das hipóteses, há uma questão sobre se a base de comparação aqui é válida; seria necessário comparar a subsistência e segurança de uma economia baseada no salário com o de uma economia baseada na propriedade, isto é, da economia "anti-natural" do sr. Cucerai com uma mais natural. Nós sabemos que na Inglaterra do século XVI, antes do capitalismo passar a dominar as relações sociais, um trabalhador comum poderia prover sua família por 15 semanas de trabalho, e um trabalhador especializado por 10. Um século depois, após o cercamento das comuns e o confisco dos mosteiros, que instantaneamente converteram a Inglaterra em um país capitalista, esses números se tornaram 40 semanas e 32 semanas, respectivamente. Ademais, em uma economia global, é necessário, pesar os salários dos trabalhadores em fábricas em situação de escravidão antes de formular um juízo sobre essa questão. Ademais, o simples fato da questão é que nações que se alimentaram confortavelmente por milênios antes da vinda dos capitalistas se encontraram esfomeadas sob a "liberdade" do sr. Cucerai.

Mas deixando essa questão de lado, podemos abordar a força dos argumentos do sr. Cucerai. O primeiro ponto é que este é basicamente um argumento aristotélico, mesmo que ele chegue a conclusões opostas a Aristóteles, em sua divisão da economia em trocas "naturais" e "anti-naturais". Para Aristóteles, a troca necessária era aquela para prover o lar, enquanto a troca anti-natural tinha somente o dinheiro como seu objeto. O primeiro tipo de troca era "natural" no sentido de ter um limite natural. Por exemplo, um homem comprando pão para sua família comprará o que é necessário e nada mais. Mas um homem cujo objetivo não é o pão, mas dinheiro, poderá comprar cada fatia de pão e cada grão de trigo de modo a encurralar o mercado e definir o preço para sua própria vantagem. Como não há limite para essas trocas, Aristóteles as definiu como "anti-naturais".

O segundo ponto que podemos notar é quão bem os argumentos estão de acordo com a história efetiva do capitalismo. O simples fato histórico é que o capitalismo e o governo crescem juntos; quanto maiores as entidades empresariais, maior o governo necessário para protegê-las. Esse fato já havia sido notado por Adam Smith em 1776, em A Riqueza das Nações, três-quartos do qual é devotado a documentar a relação incestuosa entre o grande governo e a grande empresa.

O terceiro ponto é que o sr. Cucerai dá ao libertarianismo algo que ele normalmente não possui, nomeadamente uma teoria do governo. Daí a performance do governo pode ser julgada contra aquele padrão de sua função adequada. É possível não concordar com a definição do sr. Cucerai da função do governo, mas pelo menos o padrão é explícito; a questão agora cai sob a intencionalidade humana e pode ser assim controlada, pelo menos em princípio. Para os anarco-libertários especialmente, o governo é detestado em si mesmo e daí toda questão de governo se torna uma questão "ou tudo ou nada". Mas enquadrar a questão dessa forma sempre funciona para a vantagem do "tudo" do Estado, já que em tempos de crises simplesmente não há niilistas suficientes para votar pelo "nada". Assim, o acréscimo de poder estatal é sempre e em todo lugar a consequência não-intencional do libertarianismo.

O quarto ponto é que o sr. Cucerai descreveu corretamente a natureza excessivamente limitada por regras da competição e da troca, e o fato de que regras devem ser externas ao mercado. De fato, competição, adequadamente entendida, só funciona em um esquema mais amplo de cooperação, e essa cooperação é expressada em obediência a regras que são impostas por instituições de consentimento comum. Pense em um jogo de futebol. É certamente uma competição, e uma violenta aliás. Porém, ele não pode ocorrer fora do esquema de cooperação, nomeadamente, que todos os jogadores estarão limitados pelas regras e julgados por árbitros que não são eles mesmos jogadores no jogo. A não ser que o jogo pare quando o árbitro jogue a bandeira amarela, o jogo não pode realmente começar. Sem o árbitro não pode haver jogo, mas apenas guerra, que continuará até que um lado seja completamente derrotado ou até morto, ponto no qual tanto o jogo como a competição terminam.

O quinto ponto é que o sr. Cucerau identificou corretamente a monetização como fundacional para o capitalismo. Uma confirmação histórica desse ponto vem do "imposto sobre cabana" que os ingleses impunham a suas colônias africanas. O objetivo desse imposto não era receita; de fato, provavelmente custava mais para coletá-lo do que ele gerava em rendimentos. Ao contrário, seu objetivo era forçar os africanos a buscar algo que eles nunca precisaram antes: um emprego. O clima suportava a população em relativo conforto com níveis relativamente reduzidos de trabalho, e os africanos, deixados a seu próprio alvedrio, estavam felizes com esse arranjo. Mas um imposto monetário os forçava a buscar emprego nas minas, plantações e fábricas inglesas. O objetivo do imposto sobre cabana não era receita, mas trabalho. Finalmente, podemos notar que o sr. Cucerai certamente nos deu uma descrição acertada do capitalismo, e todas as discussões de qualquer sistema devem começar com uma descrição precisa. Porém, é uma descrição que deixa de fora um elemento crucial, um elemento que flui da descrição mas que o sr. Cucerai não aborda. Eu retornarei a este ponto um pouco depois. Tudo isso estando dito, nós ainda não podemos determinar se o capitalismo sob essa descrição é uma coisa boa ou ruim. De fato, nós realmente queremos um sistema que aliena o homem de sua própria natureza e resulta em uma "fragilidade radical", um arranjo social em que nós "não temos chão firme sob nossos pés"? Há um caráter sombrio, orwelliano à descrição do sr. Cucerai em que "liberdade é escravidão", em que o homem tem que ser um escravo assalariado para ser livre; em que lhe tem que ser negado o acesso ao fundamento de sua liberdade (isto é, a propriedade) para que ele participe em mercados "livres". Mas seria essa uma definição adequada da liberdade? É até mesmo uma definição adequada de economia? Eu creio que o autor cometeu dois erros fundamentais: um, ele reduziu todos os mercados a mercados monetários, e; dois, ele confundiu "livre mercado" e "capitalismo" como se eles fossem o mesmo, quando em verdade mais normalmente eles são coisas opostas uma à outra. Um mercado de trocas puramente "monetário" é problemático de diversas maneiras. A primeira tem a ver com a natureza do dinheiro, que deveria ser meramente a unidade de medida para todos os bens em circulação em uma dada economia. Porém, o dinheiro pode muito facilmente ser manipulado à parte do mercado para bens reais e serviços. Os americanos provara, além de qualquer dúvida, que trilhões de dólares em riqueza financeira podem ser criados sem ter qualquer relação com riqueza real. Homens que contribuíram não tanto quanto um grão de trigo para a comunidade recebem bilhões da bolsa comum em recompensa por sua falha. E isso foi feito por homens operando em mercados basicamente desregulados. O dinheiro, como unidade de contabilidade, é uma abstração, e quanto mais abstrata uma economia se torna, isto é, quanto mais monetizada, mais facilmente ela pode ser manipulada pelos que possuem conhecimento privilegiado sobre as mecânicas de abstração, e uma economia completamente monetizada é a mais fácil de manipular. A verdade é que o homem opera em diversos mercados simultaneamente, a maioria dos quais não são monetizados, e todos os quais servem como cheques sobre os outros. Quando todos os mercados são monetizados, todos os mercados falem, e falem decisivamente, sem qualquer esperança de recuperação.

O primeiro mercado em que operamos é a economia de presentes da família e da comunidade. Nós somos primeiro chamados à existência pela já pronta comunidade da família, e dessa comunidade recebemos uma variedade de presentes. Nosso ser, certamente, mas também o presente de nosso nome, nossa família, nossa linguagem, nossas primeiras percepções morais, nossas primeiras experiências de amor e pertencimento, e daí em diante. Essa economia de graça (presentes) é a economia primária, e toda outra atividade econômica e social deve ser julgada desde o ponto de vista do quão bem ela serve à família. Sem esse cheque, realmente não há jeito de saber se a economia "funciona" em qualquer sentido concreto. Uma economia completamente monetizada erode essa economia de presentes da família sobre a qual toda a ordem social depende. Para além dessa economia familiar, há economias de serviço comunitário, economias de atividade política (em que votos são o meio de troca), economias religiosas, e daí em diante. Todas essas dependem da economia de produção e troca (note ambos termos), e daí são postas em cheque por esta economia, ainda enquanto elas fornecem cheques para as economias de troca e produção. O sr. Cucerai afirma que o capitalismo "abre um espaço previamente desconhecido para a liberdade humana". Mas o que ele não menciona é que isso deve ser um espaço bem pequeno, um ocupado pelo possuidor de terra e capital apenas. É por isso que chamamos a isto de "capitalismo". De fato, o próprio fato de negar acesso aos meios de subsistência à maioria dos homens significa que uns poucos acabarão em posse da vasta maioria desses meios. Esse ponto flui naturalmente da própria descrição do capitalismo pelo sr. Cucerai, mas é o ponto crucial que ele deixou de lado, e sem o qual sua descrição não pode ser considerada completa.

Não apenas é essa concentração de capital uma moral ruim, é economia ruim e teoria social ruim. É economia ruim porque toda teoria de mercado se baseia na hipótese do "vasto número de firmas", que afirma que a produção está espalhada por um número tão vasto de firmas que nenhuma firma, ou nenhuma possível combinação de firmas, pode ter qualquer influência sobre preços de mercado; isto é, elas são todas tomadoras de preço ao invés de fazedoras de preço. Quando você tem consolidação em qualquer indústria, toda a base do livre mercado rui, e monopólio e oligopólio são os resultados. Mas essa é apenas uma parte do problema. Eu vou passar por cima da afirmação absurda do sr. Cucerai de que você pode ter, simultaneamente, um aumento nos preços de produção e uma queda nos preços de consumo, como se estes não fossem dependentes dos primeiros, para notar que salários em ascensão não são a norma no capitalismo. De fato, nos EUA desde 1973 o salário médio permaneceu estável, ainda enquanto a produtividade para todas as classes de trabalho aumentou dramaticamente mo mesmo período. Isso significa que os trabalhadores estão produzindo mais bens, mas devem comprá-los com as mesmas recompensas. Como isso não é possível, a economia recorreu a três paliativos para manter o consumo. O primeiro é colocar mais membros da família para trabalhar, e trabalhar por mais horas. O segundo é aumentar o papel e tamanho do governo para absorver mais da produção. E o terceiro é a simples usura (crédito ao consumidor); ter a classe que é sobre-compensada - isto é, a possuidora de capital - simplesmente emprestar o excesso a consumidores para absorver os bens excedentes. Mas todos os três métodos alcançaram seus limites lógicos. A família está trabalhando tão duro quanto pode (para o detrimento da vida familiar que a economia deveria servir), o governo não pode expandir muito além sem descobrir aqueles limites de expansão que os soviéticos descobriram, e o sistema de crédito entrou em colapso. Não há mais para onde possamos ir sem desafiar o sistema. O sr. Cucerai assume aumentar salários em um livre-mercado. Defensores capitalistas assumem que o "contrato livre" é suficiente para garantir esses salários ascendentes. Mas Adam Smith notou os problemas dessa teoria:

"Não é, porém, difícil prever qual dos dois partidos deve, sobre todas as ocasiões ordinárias, ter a vantagem na disputa, e forçar o outro a uma concordância com seus termos. Os mestres, sendo menos em número, podem se combinar mais facilmente... Um senhorio, um fazendeiro, um mestre de manufatura, ou comerciante, ainda que eles não empregassem um único trabalhador, podiam geralmente viver um ano em cima do estoque que eles já haviam adquirido. Muitos trabalhadores não poderiam subsistir uma semana, poucos poderiam subsistir um mês e quase nenhum um ano sem emprego".

Assim Smith identifica os salários reais como o resultado de uma relação de poder entre mestres e trabalhadores e não como resultado de forças puramente "econômicas"; é poder, não produtividade, que é arbitrada em um contrato salarial. Um CEO americano recebe 500 vezes o que o trabalhador de linha recebe não porque ele é 500 vezes mais produtivo, mas porque ele é 500 vezes mais poderoso. A costureira em uma fábrica recebe uma ninharia não porque sua produtividade é baixa, mas porque seu poder é medíocre. O poder de negociar um salário vem apenas com o poder de dizer "não" aos termos oferecidos, e esse poder vem apenas da posse de uma alternativa ao salário. E apenas a propriedade confere esse poder. Onde os trabalhadores tem sua própria propriedade e podem fazer seu próprio caminho no mundo, qualquer contrato salarial que eles aceitem provavelmente será justo, um que recompense equitativamente sua produtividade. Mas na ausência de uma alternativa real, não há negociação real; você não pode negociar se você não pode dizer "não". O que um livre mercado realmente requer é homens livres, e o que os homens precisam para serem livres é acesso a seus próprios meios de subsistência, que é precisamente o que o capitalismo lhes nega. O fundamento adequado da liberdade é o seu próprio chão, o próprio chão que o sr. Cucerai quer cortar dos trabalhadores. O que é negado à massa de homens deve recair sobre uma minoria de homens, homens que serão então os mestres da sociedade e os verdadeiros donos do governo, cooptando-o para seus próprios fins. Foi isso que aconteceu. Quanto maiores as pilhas de capital reunidas em umas poucas mãos, mais grossos os muros do governo necessários para proteger esse capital, e capital e governo se combinam para limitar a liberdade, para restringir a propriedade. O capitalismo, portanto, não deve ser confundido com livre mercado, mas ser identificado como seu inimigo mortal, e confundir um com o outro é deixar de compreender a realidade da vida econômica, social e política modernas. O sr. Cucerai deve ser elogiado por seu olhar quase impávido sobre o capitalismo, mas ele deve ser criticado porque, no último minuto, ele exitou, ele se afastou das consequências lógicas de sua própria descrição para pular o ponto crucial sobre o qual a discussão como um todo deve se voltar. Ele foi até à beira e deu as costas há tão apenas um fio de cabelo de distância da verdade. Mas não podemos dar as costas, pois apenas se tivermos a coragem de olhar para as coisas como elas são podemos esperar ter a força de torná-las o que elas devem ser.

13/03/2014

Anthony Ludovici - As Cinco Virtudes Cardinais Femininas

por Anthony M. Ludovici



Na mulher eu reconheço algumas das principais virtudes que garantem a continuidade da espécie humana no planeta:

(1) Constância irrefletida frente as demandas da vida;

(2) Interesse incansável nos processos da vida e sua multiplicação (que em suas ramificações menores leva àquela preocupação intensa por todas as questões humanas, que, na linguagem injuriosa, é chamada de 'um amor pelas fofocas');

(3) Uma capacidade para bravura desesperada em defender ou socorrer vida humana;

(4) Uma capacidade para devoção unidimensional a sua prole (que em suas ramificações menores não raro se manifesta na virgem, e na solteirona de todas as idades, como uma devoção unidimensional a um propósito, uma idéia ou uma causa);

(5) Uma capacidade para pureza ou castidade corporal, que no tipo mais apaixonado de mulher se baseia em um instinto de se resguardar até que seu coração e suas afeições sejam capturadas (isso em suas ramificações espirituais leva à obstinação, conservadorismo ou fanatismo intelectuais. Assim, a cidadela de opiniões de uma mulher, como sua cidadela corporal, só está sujeita a capitulação quando seu coração e suas afeições são domados).

Essas cinco virtudes cardinais da mulher constituem sua reivindicação eterna à glória e o respeito; em cada uma delas ela é uma senhora natural, uma virtuosa talentosa. Essas virtudes tem tanto valor para a espécie humana, que elas lançam sombra sobre cada catálogo de defeitos e vícios que pudesse ser levantado contra elas por um Weininger ou um Schopenhauer, e aquela que as possuir pode até se dar ao luxo de perdoar um Weininger ou um Schopenhauer.

Nobres como essas virtudes são em si, elas podem ainda reivindicar a mais alta sanção e testemunho que um caráter humano pode receber - a sanção e testemunho da própria sobrevivência humana, sem a qual nenhuma virtude no mundo pode esperar durar ou prevalecer, e pelo lado da qual o mero aplauso e aprovação de uma ou muitas gerações de homens não é mais que um par de foles soprando vento.

Para apreciar essas virtudes da mulher com seu justo valor, porém, uma geração mais forte e mais vital de pessoas é necessária do que qualquer uma que já apareceu, na Inglaterra pelo menos, pelos últimos 250 anos. O próprio fato de que, no dia atual, o consenso geral de opinião entre homens concederia à mulher um conjunto bem diferente de virtudes é sinal suficiente da decadência que ocorreu.

Hoje, por exemplo, um Parlamento de ingleses ou anglo-saxões falaria, ao enumerar as virtudes da mulher, sobre:

(1) Sua influência moralizante na sociedade;

(2) Seu altruísmo (o que quer que isso signifique);

(3) Seus poderes de auto-sacrifício (isso é o resultado de valores doentios e uma confusão de pensamento...);

(4) Sua intuição (um grande mito, o resultado do hábito feminino de dizer a primeira coisa que entra na cabeça, e que, segundo as leis do acaso, deve estar certo às vezes);

(5) Se humanitarismo (um equívoco malicioso) - todas essas qualidades fracas ou pelo menos fictícias, que nenhuma mulher de sangue jamais faria mais do que fingir possuir, e que fizeram Huxley dizer que a 'virtude da mulher era a mais poética ficção do homem'!

Se, porém, escolhermos nos fixarmos nas cinco virtudes cardinais que deriva diretamente do grande impulso vital dentro dela, e pensar nas muitas virtudes úteis menores que emergem delas, nós temos uma lista que, se menos açucarada que a de cima, é ao mesmo tempo mais dura e mais compatível com a realidade.

Do (1), que chamamos de a constância irrefletida frente as demandas da vida, podemos ver os seguintes como derivativos:

(a) A constância da mulher frente as circunstâncias (e portanto o homem) que lhe permitem confrontar as demandas da vida;

(b) Seu senso intensamente acurado de auto-preservação, quando o perigo que a ameaça não é promotor de vida. Isso explica sua cautela, sua sagacidade em suspeitar do que não é familiar, e seu nervosismo em espaços públicos, ou em plataformas de trem, em navios, e na vizinhança de cavalos indóceis, etc.

(c) Seu rápido reconhecimento do fato de que um dado ambiente não pode garantir as demandas da vida, daí sua mobilidade, tratabilidade, docilidade, amenabilidade, e prontidão para seguir sob grande risco pessoal, até o tempo em que ela haja encontrado o ambiente que possa assegurar as demandas da vida. Em todas as comunidades em que casamentos são difíceis devido ao excesso de mulheres, as garotas demonstram uma tendência a frequentemente mudarem de ambiente, e são bastante inconscientes que ao assim fazer elas estão aplicando táticas que são calculadas para lhes permitir corresponder às demandas da vida. Assim, elas deixarão o lar para estudar economia política ou letras, e quando isso não der certo elas passarão a cuidado infantil ou enfermagem, e se isso não der certo elas tentarão trabalho de secretária, dando como razão a cada mudança que o trabalho anterior "não as satisfazia". Se a pressão econômica compelir, elas vão é claro ser forçadas a permanecer em uma ocupação, quer ela satisfaça as demandas da vida ou não, mas aqueles que podem se dar ao luxo, como regra, permanecerão inquietas até que encontrem um ambiente que lhes prometa fertilização.

(d) Sua habilidade de resistir a quaisquer números de inconveniências e desconfortos, desde que as demandas da vida estejam garantidas para ela, daí seu estoicismo na pobreza ou quaisquer outros tipos de incômodos, apesar do fato de que seus filhos partilham disso; daí sua alegre coragem naquelas inconveniências vitais conectadas com a existência nas quais as demandas da vida estão sendo preenchidas: doença, o barulho incessante de muitas crianças, o trabalho duro que um número de filhos impõe sobre uma mãe pobre, etc., etc.

(e) Sua habilidade de tratar toda vida emocionalmente. A própria qualidade da constância irrefletida perante as demandas da vida envolve uma atitude impulsiva frente a elas. Eu usei a palavra "irrefletida" de propósito. É porque a mulher não pausa para refletir sobre se é adequado ou expediente ou correto que ela deva realizar uma certa ação para corresponder às demandas da vida que se pode confiar tão constantemente nela para que ela a realiza com precisão. Se ela refletisse, isso pressuporia hesitação, portanto atraso, portanto possivelmente inação. Mas deve ser lembrado que essa atitude é puramente emocional, e já que o negócio da vida, com as várias relações que a família cria, é basicamente uma questão de emoções também, e não das faculdades reflexivas ou racionais, segue que a tradição ou história da vida mental da mulher está majoritariamente confinada ao jogo e exercício das emoções. A vida, ao menos no que concerne a mulher normal, é uma questão de afeição, de ligação e devoção, primeiro ao homem de seu coração, e finalmente aos filhos de seu sangue. Onde se deve esperar dela ser experiente, habilidosa e versátil, portanto, é precisamente nessa esfera das emoções, pois apenas elas são capazes de dirigir aquela forma irrefletida de ação que as demandas da vida impõem sobre ela. Uma senhora do sentimento, portanto, não podemos esperar que ela seja tão capaz em reflexão.

Do (2), que chamamos o interesse incansável nos processos da vida e sua multiplicação, podemos ver as seguintes derivações:

(a) A prestatividade e prontidão femininas a serem usadas em todas as circunstâncias na casa de um vizinho, amigo ou parente, em que ela entre em contato próximo com as questões mais sérias da vida, nos momentos de parto, doença grave, e morte, e particularmente em momentos de grandes tumultos domésticos, tais como tempos de discordâncias sérias, e todas as ocorrências trágicas entre casais. O fato de que essas virtudes envolvem necessariamente um amplo interesse em questões humanas, que um amor do escândalo é uma contraparte quase inevitável delas, não é difícil de visualizar.

Os males da fofoca, porém, são grosseiramente exagerados. Todas as pessoas decentes, humanas e amantes da humanidade se regozijam no escândalo, e eu jamais encontrei uma mulher digna de ser conhecida que não fosse uma fofoqueira inveterada. "O estudo apropriado da humanidade é o Homem", disse Pope, e ele estava inteiramente correto. Mas o que é a fofoca, e a discussão exaustiva de seus conhecidos, parentes e amigos, senão uma descrição essencial daquele "estudo apropriado"? Maridos que não simpatizam com o amor de suas mulheres por escândalo, e que se recusam a jogar conversa fora com elas sobre a vida alheia, são usualmente homens inumanos e estreitos, homens do tipo que fazem bons engenheiros, matemáticos, químicos e marinheiros ou exploradores. Esses homens vão esperar que suas mulheres percam o fôlego quando eles discutem esporte ou algum outro tema fútil tão remoto quanto possível da humanidade, e ainda assim demonstrarão impaciência se suas mulheres discutirem as relações maritais de seus vizinhos.

(b) Essa virtude torna as mulheres muito observantes das pequenas características humanas. E se as mulheres são, via de regra, tão boas mímicas e imitadoras, é em parte devido ao interesse com o que elas observam outros homens e mulheres (a outra razão para seu poder de imitação eu darei mais abaixo). As mulheres frequentemente tirarão as conclusões erradas dos traços que elas observam - isso eu não nego - mas o ponto interessante é que elas usualmente observam os traços.

Do (3), que chamamos bravura desesperada na defesa e socorro da vida humana, nós podemos ver os seguintes derivativos:

(a) A prontidão para correr risco mortal por seu próprio filho (muito comum); por um marido (muito raro, exceto nos primeiros momentos do casamento, quando os filhos ainda não chegaram); por uma criatura humana amada de qualquer tipo.

(b) Uma certa ousadia estúpida e desastrada em enfrentar grandes desvantagens em prol de alcançar um propósito vital (uma mulher atacará um homem com o dobro do seu tamanho e três ou quatro vezes mais fortes nesses momentos).

(c) Uma capacidade para um ódio virulentamente implacável para com inimigos, enganadores ou traidores daqueles que ela ama.

(d) No âmbito do espírito, uma prontidão para realizar um feito insano de intrepidez para defender ou promover uma idéia (Miss Emily Davidson naquela maravilhosa correria na direção do cavalo do Rei no Derby de 1913. Nós abominamos a causa pela qual ela lutava, mas honramos e admiramos a unidimensionalidade singular com a qual ela ela e as outras militantes sufragistas lutaram por isso).

Do (4), que chamamos uma capacidade para devoção unidimensional a sua prole, podemos ver as seguintes derivações:

(a) A tenacidade de propósito da mulher em servir e cuidar daqueles que ela ama.

(b) Sua infatigável industriosidade em prol daqueles que dependem dela, de modo que ela é capaz de, como um cavalo, trabalhar até a morte, desde que ela ame e saiba que é amada.

(c) No âmbito espiritual, sua capacidade para adesão fanática a uma causa, crença, fé e seu duro antagonismo àqueles que se opõem a essa causa ou fé.

(d) Seu orgulho em sua prole e sua consequente tendência a subvalorizar ou desprezar a prole alheia. Quando esse sentimento é estimulado a seu zênite pelo fato de que a prole alheia calha de ser a prole da ex-possuidora do amor de seu homem, tem-se as crueldades inauditas da madrasta. Assim, na natureza da mulher o bem se funde ao mal, e o mal se funde ao bem...

Tudo conectado com essa virtude é de imediato tão útil à raça, e tão único e inesquecível como experiência individual, que parece apenas adequado pausar por um momento aqui para insistir em um ou dois de seus traços mais marcantes. Deixando de lado os primeiros meses e anos quando a única força entre a indefesa e dependente vida e a morte, ou pelo menos negligência, é precisamente esse instinto materno, esse cuidado ciumento, quando a infância inarticulada não pode nem reconhecer, devolver agradecimentos, nem, o que talvez cause mais perplexidade, realizar todos os mil e um serviços que são alegremente realizados de modo a promover seu crescimento e seu conforto; deixando de lado, também, aqueles momentos de vigília silenciosa, da sentinela insone, em que, durante tempos de perigo, cada respiro é uma oração, e cada sorriso uma canção de graças; nós gostaríamos mais particularmente de nos concentrar naquele período da tenra infância, naquela idade da língua enrolada e passo incerto, quando a maior parte daquilo que vai ser de utilidade para a vida, e de fato a maior parte daquilo que jamais é esquecido na vida, é aprendido ao lado da mãe. Não que gostaríamos de reduzir a importância do primeiro período, cujo aspecto mais importante é, talvez, a alegria que é sentida por cada lado em simplesmente desempenhar seu papel designado, mas sim porque no período posterior ambos os lados são conscientes dessa mesma alegria, e estão em posição de prolongá-la, transmutá-la e preservá-la, até muito após aquela idade em que as posições se invertem, e a dependência começou do lado da outrora protetiva mãe.

Há no filho de uma boa mãe um espírito tão confidente, tão receptivo, tão perfeitamente confiável, que possivelmente em nenhuma outra idade estão os pré-requisitos para uma boa educação tão completamente presentes do que naqueles primeiros anos de vida em cuja aurora uma dobra da saia da mãe ainda oferece uma quantia substancial de apoio para pernas que ainda estão aprendendo a portar poder e equilíbrio. O que acontece então, e como acontece, obviamente nunca será adequadamente lembrado, pois lições são dadas e lições são aprendidas sem esforço consciente suficiente de qualquer lado para o método ser tomado objeto de um conhecimento exato. Mas o resultado é gradualmente tornado manifesto pela maravilhosa transformação de um pequeno animal não-articulado, cujo horizonte completo está limitado por comida, sono e exercícios aparentemente despropositados, em uma criatura que pode expressar seus desejos, demandar explicações das coisas, aprender a reconhecer as primeiras regras de comportamento decente e, o que é mais, lançar sua própria luz fresca sobre os problemas da existência. E se o que é aprendido posteriormente possa, do ponto de vista da utilidade material, ter um aspecto mais imponente e menos caótico, certamente nada que ele deixou de aprender nesse período jamais será adquirido em qualquer fase subsequente de sua existência. Não pode ser dito que ele dominou qualquer sistema definido de pensamento, ou que ele memorizou algum fato particular notável; não se pode nem dizer que ele aprendeu a paciência e gentileza que sua mãe constantemente exibiu em seu cuidado dele. Não obstante, ele aprendeu coisas que, em verdade solene, podem ser ditas sem preço.

Que não seja suspeito, porém, porque podemos encontrar apenas vaga fraseologia para nosso propósito, que queremos reivindicar para essa educação inicial um caráter indispensável que ele realmente não possui. O que é então que torna quase impossível dar uma descrição mais estreita dela sem perder toda noção de sua magnitude e importância? É o fato de que dessa educação são derivadas aquelas qualidades de coração e mente que, ainda que dificilmente alguma vez referidas nos momentos críticos na vida de um homem, estão não obstante entre as armas mais poderosas e úteis da vida. O homem que teve uma boa mãe aprendeu a sentir uma certa confiança em seus próprios esforços, porque o melhor nele foi diligentemente buscado, encorajado e aflorado; ele adquiriu uma certa sanguinidade e coragem vigorosas porque, tendo começado tão bem a vida, sob luz matutina tão gloriosa, ele é consciente do calor armazenado dentro de si, no qual ele pode se apoiar em seus momentos de solidão, tristeza e problema; mas, acima de tudo, ele foi impelido ao mundo com pelo menos uma experiência sólida, uma impressão inapagável da bondade e beleza humanas, e isso, enquanto lhe dá um critério perpétuo de valor e crítica, escudando-o do baixo e mundano, também o previne de alguma vez sentir aquele desespero e dúvida sobre si mesmo e seus semelhantes que em momentos de profundas tribulações paralisa o esforço e preclui a possibilidade de esperança.

É a isso que se resume o equipamento com o que uma mãe amorosa pode dotar seu filho. À parte das alegrias derivadas das profundas emoções filiais, e daquela relação singular de uma mãe para com seu filho, estes estão entre os principais benefícios que a relação necessariamente envolve. A maioria dos grandes homens da história devem sua grandeza parcialmente a esse equipamento; a maioria dos grandes homens na história - Schopenhauer, Byron, de Quincey - cujo relacionamento com suas mães não foi ideal, revelam em suas obras os efeitos dessa deficiência; e aquele que se aventura a questionar que aqui, de fato, eu pus o dedo no que é quintessencial na educação que uma boa mãe dá a seu filho, e incapaz de substituição satisfatória por qualquer outros meios em sua ausência, é um daqueles infelizes de quem a vida subtraiu essa mais preciosa de todas as bençãos.

É aqui que a mulher se destaca; é aqui que ela pode desafiar toda competição, e é nesse papel que o melhor nela, e algo do melhor na humanidade, é desenvolvido e sustentado. Qualquer outra coisa que ela possa fazer sempre será inferior a isso, e aqueles que, por falsificações e apelos à vaidade, a convençam enquanto ela ainda é jovem de que há vocações melhores que, ou pelo menos tão boas quanto, a maternidade para ela são inimigos não apenas da mulher, mas também da espécie.

Do (5), que chamamos a capacidade para pureza corporal ou castidade, que está baseada em um instinto para resistir à fertilização até que o coração e a afeição estejam comprometidos, podemos ver as seguintes derivações:

(a) A tendência da mulher a uma certa dignidade e orgulho, que chega a seu zênite no momento do mais caloroso apelo feito pelo amante que não conseguiu conquistar seu coração e afeto. Isso, do lado espiritual, leva a um poder de renitência contra o convencimento e persuasão, que frequentemente torna uma mulher um poderoso e confiável aliado em um movimento secreto ou intriga secreta.

(b) Como as demandas da vida tornam necessário, uma vez que a mulher abandone sua atitude de casta resistência, para se render plenamente e sem reservas ao macho, há em toda mulher uma certa sequiosidade, uma certa docilidade, uma predileção marcada em favor da subserviência e subordinação àqueles que conquistaram seu afeto, o que torna a mulher a mais naturalmente constituída seguidora, discípula, serva que é possível encontrar.

Do lado espiritual, isso faz dela agudamente sujeita a direção e orientação, a receptividade, a sugestão e imitação. Mas vendo que essa sequiosidade, imitação, seja em relação a opinião, modos ou moda, é o reverso de produção original e envolve uma ausência ou uma fraqueza do poder iniciador da personalidade, estamos obrigados a reconhecer na mulher, como consequência direta de sua rendição física e psicológica necessária, uma vez que a atitude de castidade tenha sido abandonada, uma falta de poder originador, uma falta daquela atitude da mente que toma e não espera ser tomada, e que está por trás de toda emancipação, agressão, originalidade e inventividade masculinas. Essa, de fato, é a outra razão que antes dissemos que ainda daríamos para o poder de imitação da mulher. Assim Arabella Kenealy chama o instinto sexual "na garota normal, responsivo ao invés de iniciativo".

Dessa quinta virtude, que, quando a atitude de castidade é abandonada, se torna convertida em sujeição e submissão, é assim derivada a elasticidade da mulher, sua plasticidade, sua prontidão para assimilar e se formar segundo o padrão de outro, e sua habilidade de se adaptar às circunstâncias.

Em todos esses derivativos das cinco virtudes cardinais da mulher podemos traçar a conexão certa, mas indireta, com o primum mobile vital em sua natureza, que é sua preocupação profunda com a vida e sua multiplicação. Pelo mesmo princípio, portanto, deveria ser possível enumerar os vícios cardinais da mulher e suas manifestações auxiliares. Pois se as virtudes de uma criatura são o resultado de seus instintos, sua formação corporal e as funções que ela tem que realizar, seus vícios devem certamente ter uma origem similar

11/03/2014

Aleksandr Dugin - A Guerra Contra a Rússia em sua Dimensão Ideológica

por Aleksandr Dugin


A Guerra Vindoura como Conceito

A guerra contra a Rússia é agora a questão mais discutida no Ocidente. Ela é ainda uma sugestão e possibilidade. Ela pode se tornar realidade dependendo das decisões tomadas por todas as partes envolvidas no conflito ucraniano - Moscou, Washington, Kiev, Bruxelas.

Eu não quero discutir aqui todos os aspectos e a história desse conflito. Eu proponho ao invés a análise de suas raízes ideológicas profundas. Minha visão dos eventos principais está baseada na Quarta Teoria Política, cujos princípios eu já descrevi em meu livro sob o mesmo nome aparecido em inglês pela Editora Arktos há poucos anos atrás.

Assim, eu vou estudar não a guerra do Ocidente com a Rússia avaliando seus riscos, perigos, questões, custos ou consequências, mas o significado ideológico da mesma em escala global. Eu vou pensar no sentido de tal guerra e não na guerra em si (real ou virtual).

Essência do Liberalismo

No Ocidente moderno há uma ideologia dominante - o liberalismo. Ele possui muitos tipos, versões e formas, muitas tonalidades, mas a essência é sempre a mesma. O liberalismo possui em sua estrutura fundamental interior os seguintes princípios axiomáticos:

* Individualismo antropológico (o indivíduo é a medida de todas as coisas);
* Progressismo (o mundo ruma a um futuro melhor, o passado é sempre pior que o presente);
* Tecnocracia (o desenvolvimento técnico e a performance eficaz são tomadas como a maneira mais importante de julgar a natureza da sociedade);
* Eurocentrismo (sociedades euro-americanas são aceitas como a medida padrão para o resto da humanidade);
* Economia é o destino (a economia de mercado é o único sistema econômico normativo - todos os outros tipos devem ser reformados ou destruídos);
* Democracia é o governo das minorias (se defendendo contra a maioria sempre predisposta a se degenerar em totalitarismo, "populismo");
* Classe média como único ator social realmente existente e norma social (independente do fato de a pessoa já ter alcançado esse statos ou estar a caminho de se tornar classe média, representando por um momento uma classe média hipotética);
* Unimundialismo, globalismo (seres humanos sendo essencialmente o mesmo, com apenas uma distinção - o indivíduo - o mundo deve ser integrado em base individual, cosmopolitismo - a cidadania global).

Esses são os valores nucleares do liberalismo, a manifestação de uma das três tendências originadas no Iluminismo, lado a lado com comunismo e fascismo, que propunham interpretações alternativas do próprio espírito da Modernidade. Durante o século XX, o liberalismo venceu seus rivais e após 1991 se tornou a única ideologia dominante em escala global.

A única liberdade de escolha no reino do liberalismo global era entre liberalismo de direita, liberalismo de esquerda ou liberalismo radical, incluindo liberalismo de extrema-direita, liberalismo de extrema-esquerda e liberalismo ultra-radical. Assim, o liberalismo foi instalado como sistema operacional das sociedades ocidentais e de todas as outras sociedades que se encontravam na zona de influência ocidental.  Ele é a partir de certo momento o denominador comum para qualquer discurso politicamente correto, o marco daqueles aceitos pela política oficial ou relegados à marginalidade. A própria sabedoria convencional se tornou liberal.

Geopoliticamente, o liberalismo estava inscrito no modelo americanocêntrico em que anglo-saxões são o núcleo étnico e a parceria euro-americana atlantista, a OTAN, representava o núcleo estratégico do sistema de segurança mundial. A segurança mundial era equiparada com a segurança do Ocidente e em última instância com a segurança americana. Assim, o liberalismo não é apenas poder ideológico, mas também político, militar e estratégico. A OTAN é liberal em suas raízes. Ela defende sociedades liberais, lutando pelo liberalismo.

Liberalismo como Niilismo

Há um ponto na ideologia liberal que é responsável por sua crise atual. O liberalismo é profundamente niilista em sua essência. O conjunto de valores defendidos pelo liberalismo está essencialmente ligado à tese central - liberdade, liberação. Mas a liberdade na visão liberal é uma categoria essencialmente negativa: ela reivindica ser livre de (J.S. Mills), não livre para. Isso não é secundário, é a essência do problema.

O liberalismo é luta contra todas as formas de identidade coletiva, contra todo tipo de valores, projetos, estratégias, objetivos, fins e daí em diante que seriam coletivistas, ou pelo menos não-individualistas. Essa é a razão pela qual um dos mais importantes teóricos do liberalismo, Karl Popper (seguindo F.v. Hayek), definiu em seu importante livro "A Sociedade Aberta e seus Inimigos" (considerada por Soros como sua Bíblia pessoal) que liberais devem combater qualquer ideologia ou filosofia política (de Platão e Aristóteles a Marx e Hegel) que pretendesse propor para a sociedade humana algum objetivo comum, valor comum, sentido comum. Qualquer objetivo, qualquer valor, qualquer sentido na sociedade liberal (sociedade aberta) deve ser estritamente individual. Assim, os inimigos da sociedade aberta (a atual sociedade ocidental pós-1991 e norma global para o resto do mundo é considerada como sendo precisamente esse modelo liberal de sociedade aberta) são concretos. Os principais inimigos são o comunismo e o fascismo (ambos derivados da mesma filosofia iluminista, com conceitos não-individuais centrais - classe no marxismo, raça no nacional-socialismo, Estado nacional no fascismo). Assim, o sentido da luta do liberalismo frente às alternativas modernas existentes (fascismo ou comunismo) é bastante óbvio. Os liberais afirmam libertar a sociedade do fascismo e do comunismo, das duas principais versões modernas (explicitamente não-individualistas) do totalitarismo. A luta do liberalismo no processo de liquidação das sociedades não-liberais é bastante significativa: ela adquire seu significado do fato da própria existência de ideologias que explicitamente se negam a aceitar o indivíduo como máximo valor. É bastante claro contra o que essa luta é. É a "liberação de" que é objetivada. Mas o fato de que a liberdade (como concebida pelos liberais) é uma categoria essencialmente negativa não é percebida claramente aqui. O inimigo está aqui e é concreto. Esse próprio fato dá ao liberalismo conteúdo concreto. Eis uma sociedade que não é aberta e sua própria existência factual é suficiente para justificar o processo de liberação.

Período Unipolar: Ameaça de Implosão

Em 1991 quando a URSS, último oponente do liberalismo ocidental, caiu, alguns ocidentais (como Fukuyama) proclamaram o Fim da História. Muito logicamente: não havia mais inimigo explícito da sociedade aberta - assim não havia mais história, que foi durante a Modernidade precisamente a luta entre as três ideologias políticas (liberalismo, comunismo e fascismo) pela herança do Iluminismo. Estrategicamente, assim começa o momento unipolar (Ch. Krauthammer). Esse período de 1991 a 2014, com ponto médio no ataque de Bin Laden ao World Trade Center - foi efetivamente o período de dominação global do liberalismo. Os axiomas do liberalismo foram aceitos pelos principais atores geopolíticos - incluindo China (na economia) e Rússia (na ideologia, economia e sistema político). Havia apenas liberais e quase-liberais, não-ainda liberais, liberais não-suficientemente-liberais e daí em diante. As exceções reais e explícitas eram poucas (Irã, Coréia do Norte). Assim, o mundo se tornou liberal, a nível ideológico e axiomático.

Esse foi precisamente o momento mais importante na história do liberalismo. Ele derrotou seus inimigos, mas ao mesmo tempo os perdeu. O liberalismo é essencialmente a liberação, a luta contra o que não é liberal (ainda ou de forma alguma). Assim, o liberalismo adquiriu de seus inimigos o seu sentido real, seu conteúdo. Quando a escolha é não-liberdade (representada na sociedade totalitária concreta) ou liberdade muitos escolhem liberdade, sem refletir pelo quê ou para fazer o quê é essa liberdade. Quando existe a sociedade não-liberal o liberalismo é positivo. Ele começa a mostrar sua essência negativa apenas após a vitória.

Após a vitória de 1991, o liberalismo avançou para sua fase implosiva. Depois de ter derrotado o comunismo bem como o fascismo ele estava sozinho. Sem inimigo para combater. E este era o momento para iniciar o combate interno, o expurgo liberal das sociedades liberais, tentando exterminar os últimos elementos não-liberais - sexismo, politicamente incorreto, desigualdade entre sexos, quaisquer resquícios de dimensão não-individual em instituições como Estado, Igreja e daí em diante. Assim, o liberalismo precisa de inimigos dos quais liberar. Do contrário, ele perde seu conteúdo, seu niilismo implícito se torna muito saliente. O triunfo absoluto do liberalismo é sua morte.

Esse é o sentido ideológico da crise financeira do início do novo milênio e de 2008. Os sucessos e não as falhas da nova economia puramente financeira (do turbocapitalismo segundo G. Lytwak) são responsáveis por seu colapso. A liberdade para fazer qualquer coisa que você quiser, mas apenas em escala individual, provoca implosão da personalidade. O humano passa ao reino infra-humano, a domínios sub-individuais. E aqui ele encontra a virtualidade. Como sonho sub-individual, a liberdade de tudo. Isso é a evaporação do humano. O Império do nada como a última palavra da vitória total do liberalismo. O pós-modernismo prepara o terreno para essa reciclagem pós-histórica auto-referencial do sem-sentido.

Ocidente necessitado do Inimigo

Você pode perguntar aqui: que raios tem tudo isso a ver com a guerra (presumidamente) vindoura com a Rússia? Eu estou pronto para responder isso agora.

O liberalismo venceu em escala global. É o fato de 1991. E ele começou imediatamente a implodir. Ele chegou ao ponto terminal e começou a se liquidar. A imigração em massa, os choques de culturas e civilizações, a crise financeira, o terrorismo virtual, o crescimento do etnismo são marcas do caos que se aproxima. Assim esse caos ameaça a Ordem. Qualquer tipo de ordem, incluindo a ordem liberal em si. Quanto mais o liberalismo tem sucesso mais ele se aproxima de seu fim. E do fim do mundo presente. Aqui estamos lidando com a essência niilista da filosofia liberal, com o nada como o princípio (me)ontológico interior da liberdade de. Arnold Gehlen, antropólogo alemão, definiu justamente o homem como "ente desprovido", Mangelwesen. O homem em si mesmo é nada. Ele toma tudo que compõe sua identidade da sociedade, da história, do povo, da política. Assim, se ele retorna a sua pura essência ele pode reconhecer ali nada. O abismo está oculto por trás das ruínas fragmentadas de sentimentos, pensamentos vagos, desejos nebulosos. A virtualidade de emoções sub-humanas é um véu tênue e por trás dele há escuridão absoluta. A descoberta explícita dessa base niilista da natureza humana é a última conquista do liberalismo. Mas este é o fim. E é o fim também para aqueles que usam o liberalismo para seu próprio proveito, que são beneficiários da expansão liberal, os mestres da globalização. Qualquer ordem cai em tal emergência de niilismo. A ordem liberal também.

Assim, de modo a salvar o mando dos beneficiários do liberalismo eles precisam dar um certo passo para trás. O liberalismo adquirirá seu sentido apenas ao lidar novamente com a sociedade não-liberal. Um passo para trás é a única maneira de salvar os resquícios da ordem, de salvar o liberalismo de si mesmo. Dessa forma a Rússia de Putin aparece no horizonte. Não antiliberal, não totalitária, não nacionalista, não comunista. Ao invés, não ainda liberal o suficiente, não plenamente liberal-democrata, não suficientemente cosmopolita, não tão radicalmente anti-comunista. Mas a caminho de se tornar liberal. Passo a passo. No processo de ajuste gramsciano à hegemonia, no transformismo.

Mas na agenda global do liberalismo (EUA, OTAN) há necessidade de um outro ator, de uma outra Rússia que justifique a ordem no campo liberal, que ajude a mobilizar o Ocidente que se desintegra por problemas internos, que atrase a irrupção inevitável do niilismo interior e assim salve o liberalismo de seu fim logicamente próximo. É por isso que eles precisam tanto de Putin, da Rússia e da guerra. É a única solução para impedir o caos no Ocidente e salvar os restos da Ordem.

A Rússia nesse jogo ideológico deve justificar a própria existência do liberalismo, porque ela é o inimigo que dá o sentido à luta da sociedade aberta, que a ajuda a consolidar e a continuar a se afirmar globalmente.

O Islã radical (Al-Qaeda) era outro candidato para este papel, mas tal inimigo carecia de estatura. Ele foi usado, mas em escala local. Ele justificava as intervenções no Afeganistão, a ocupação do Iraque, ajudou a derrubar Gaddafi, a começar a guerra civil na Síria. Mas ele era fraco demais e ideologicamente primitivo para representar o desafio real que os liberais demandavam.

A Rússia - inimigo geopolítico tradicional dos anglo-saxões - é muito mais séria como oponente. Ela se encaixa bem a quaisquer demandas - a história e memória da Guerra Fria ainda estão vivas na memória. O ódio pela Rússia é mais fácil de provocar por meios relativamente pequenos. É por isso que penso que a guerra com a Rússia é possível. Ela é ideologicamente necessária como último meio de adiar a implosão final do Ocidente liberal. Um passo para trás.

Para salvar a Ordem liberal

Considerando diferentes camaradas desse conceito "guerra com a Rússia", eu sugiro alguns pontos.

A guerra com a Rússia ajuda a adiar a desordem comum em escala global. A maioria dos países estando envolvidos na economia liberal, partilhando os axiomas e instituições da democracia liberal e sendo dependentes ou diretamente controlados pelos EUA e OTAN, se consolidará uma vez mais ao lado do Ocidente liberal em sua cruzada contra o Putin não-liberal. Isso pode servir como reafirmação do liberalismo como identidade positiva quando essa identidade está se dissolvendo por sua essência niilista.

A guerra com a Rússia fortaleceria a OTAN e acima de tudo as suas partes européias que serão obrigadas uma vez mais a considerar a hiperpotência americana como algo positivo e útil. Com medo dos malignos russos que avançam, os europeus se sentirão novamente leais aos EUA, seus salvadores. Dessa forma o papel de liderança dos EUA na OTAN será reafirmado. A União Européia está se desintegrando. A ameaça comum dos russos pode impedir um eventual racha pela mobilização das sociedades de forma a tornar as pessoas mais dispostas a defender suas liberdades e valores sob pressão do Império de Putin

A Ucrânia e a junta de Kiev precisam da guerra para justificar e cobrir todos os erros cometidos pelo Maidan a nível jurídico e constitucional, para suspender a democracia (que impediria seu governo nos distritos majoritariamente pró-russos do sudeste) e instalar o governo e ordem nacionalista por meios extralegais.

O único país que não deseja guerra agora é a Rússia. Mas Putin não pode permitir que o governo radicalmente anti-russo fique com a população russa e tantas zonas pró-russas. Se ele permitir, ele estará acabado a nível internacional e doméstico. Assim, relutantemente ele aceita a guerra. E uma vez entrando nela não haverá outra solução para a Rússia além de vencer.

Eu não gosto de especular sobre os aspectos estratégicos da guerra. Eu deixo isso para outros analistas qualificados. Eu gostaria de formular algumas idéias relativas à dimensão ideológica dessa guerra.

Enquadrando Putin

O significado dessa guerra contra a Rússia é o último esforço de salvar o liberalismo de implodir. Assim sendo, os liberais precisam definir a Rússia de Putin ideologicamente - obviamente a identificando com o inimigo da sociedade aberta. Mas no thesaurus das ideologias modernas há apenas três versões principais. Liberalismo, comunismo e fascismo (nazismo). É bastante claro que o liberalismo é representado por todos, exceto a Rússia (EUA, OTAN, Euromaidan, junta de Kiev). Logo, sobram comunismo e fascismo. Dessa forma, Putin é o comunista soviético da KGB. Essa imagem será vendida para o tipo mais estúpido de público ocidental. Mas alguns aspectos de reação patriótica da população pró-russa e anti-banderita (defesa de monumentos de Lênin, retratos de Stálin e memórias da Segunda Guerra) podem confirmar essa idéia. Nazismo e fascismo estão muito longe de Putin e da Rússia moderna, mas o nacionalismo russo e o imperialismo russo serão evocados na construção da imagem do Grande Mal. Assim Putin é nacionalista, fascista e imperialista. Isso vai funcionar para outros ocidentais. Putin pode ser ambos - comunista e bolchevista ao mesmo tempo, assim ele será representado como nacional-bolchevique (mas isso é um pouco complicado demais para o público ocidental pós-moderno completamente ignorante). É óbvio que na realidade Putin não é qualquer dessas coisas - nem comunista, nem fascista, nem ambos ao mesmo tempo. Ele é politicamente realista (no sentido das Relações Internacionais - é por isso que ele gosta de Kissinger e Kissinger gosta dele em retribuição). Ele não possui qualquer ideologia. Mas ele será obrigado a se encaixar no quadro ideológico. Não é sua escolha. Essas são as regras do jogo. No curso da guerra contra a Rússia Putin será enquadrado e este é o aspecto mais interessante e apaixonado da situação.

A idéia principal é que os liberais tentarão definir Putin ideologicamente como a sombra do passado, como vampiro, "às vezes eles voltam". Essa é a própria razão do passo atrás para prevenir o liberalismo da implosão final. A mensagem central é que o liberalismo está realmente vivo e cheio de força porque há algo no mundo do que todos nos devemos ser libertados. A Rússia se torna o objeto de liberação. O objetivo é liberar a Ucrânia (Europa, humanidade) da Rússia, e no fim liberar a própria Rússia de sua identidade não-liberal. Assim temos o inimigo. Tal inimigo dá ao liberalismo a razão de existir uma vez mais. A Rússia é o desafio do passado pré-liberal lançado no presente liberal. Sem esse desafio não há mais vida no liberalismo, não há mais Ordem no mundo, tudo se dissolve e implode. Com tal desafio o gigante decadente do globalismo adquire novo vigor. A Rússia está aqui para salvar os liberais.

Mas de modo a fazê-lo a Rússia deve ser ideologicamente enquadrada como algo pré-liberal. Dessa forma ela será comunista, fascista ou pelo menos nacional-bolchevique. Essa é a regra ideológica. Assim lutar com a Rússia, apenas considerar lutar ou não lutar, há uma tarefa mais profunda que isso - enquadrar a Rússia ideologicamente. Isso será feito por dentro e por fora. Eles tentarão obrigar a Rússia a aceitar ou o comunismo ou o nacionalismo ou simplesmente tratarão a Rússia como se fosse comunista ou nacionalista. É um jogo de enquadramento.

Rússia Pós-Liberal: Primeira Guerra da Quarta Teoria Política

O que eu proponho na conclusão é o seguinte.

Nós precisamos combater conscientemente quaisquer tentativas de enquadrar a Rússia como potência pré-liberal. Precisamos não permitir que os liberais se salvem do fim que se aproxima fatidicamente. Precisamos não atrasar isso, mas acelerar esse fim. De modo a fazê-lo, precisamos apresentar a Rússia não como entidade pré-liberal, mas como força revolucionária pós-liberal que luta pelo futuro alternativo para todos os povos do planeta. A guerra russa não será por interesses nacionais, mas pelo mundo multipolar, por dignidade real e liberdade positiva real - não liberdade de, mas liberdade para. A Rússia nessa guerra se tornará o exemplo da defesa da Tradição, dos valores orgânicos conservadores, da liberação real precisamente em relação à sociedade aberta e seus beneficiários - a oligarquia financeira global. Essa guerra não é contra os ucranianos ou contra parte dos ucranianos. Não é contra a Europa. É contra a (des)ordem liberal mundial e nós não vamos salvar o liberalismo, vamos matá-lo de uma vez por todas. A Modernidade estava essencialmente errada. Nós estamos no ponto terminal da Modernidade. Para aqueles que assumiram para si o destino da Modernidade ou que permitiram que isso fosse feito inconscientemente, esse será o verdadeiro fim. Mas para aqueles que estão do lado da verdade eterna da Tradição, da Fé, da essência humana espiritual e imortal, este será um Novo Começo.

A luta mais importante agora é a luta pela Quarta Teoria Política. Ela é nossa arma e com ela vamos impedir o enquadramento de Putin como os liberais desejam fazer e reafirmar a Rússia como primeira potência ideológica pós-liberai lutando contra o liberalismo niilista em prol do futuro aberto multipolar e verdadeiramente livre.

09/03/2014

Aleksandr Dugin - Carta ao Povo Americano sobre a Ucrânia

por Aleksandr Dugin



Nessa hora difícil de sérios problemas em nossas fronteiras ocidentais, eu gostaria de me dirigir ao povo americano de modo a ajudá-los a compreender melhor as posições de nossos patriotas russos que são partilhadas pela maioria de nossa sociedade.

Diferença Entre os Dois Significados de Ser Americano (na perspectiva russa)

1 - Nós distinguimos duas coisas: o povo americano e a elite política americana. Nós amamos sinceramente o primeiro e odiamos profundamente o segundo.

2 - O povo americano tem suas próprias tradições, hábitos, valores, ideais, opções e crenças que são suas próprias. Essas dão a todos os direito de ser diferente, de escolher livremente, de ser o que se deseja ser ou se tornar. É um traço maravilhoso. Ele concede força e orgulho, auto-estima e segurança. Nós russos admiramos isso.

3 - Mas a elite política americana, acima de tudo no nível internacional, são e agem muito contrariamente a esses valores. Eles insistem na conformidade e consideram o modo de vida americano como algo universal e obrigatório. Eles negam a outros povos o direito à diferença, eles impõem sobre todos os padrões das tais "democracia", "liberalismo", "direitos humanos" e daí em diante, que em muitos casos não tem nada a ver com o conjunto de valores partilhados pelas sociedades não-ocidentais ou simplesmente não-norteamericanas. É uma contradição óbvia frente aos ideais e padrões interiores da América. Nacionalmente o direito à diferença é garantido, internacionalmente ele é negado. Assim pensamos que há algo de errado com a elite política americana e seus padrões duplos. Onde hábitos se tornaram normas e contradições são tomados por lógica. Não podemos compreender, nem podemos aceitar: parece que a elite política americana não é americana de forma alguma.

4 - Então eis a contradição: o povo americano é essencialmente bom, mas a elite americana é essencialmente má. O que sentimos em relação à elite americana não deve ser aplicado ao povo americano, e vice-versa.

5 - Por causa desse paradoxo não é fácil para um russo expressar corretamente sua atitude frente aos EUA. Nós podemos dizer que o amamos, podemos dizer que o odiamos - porque ambos são verdades. Mas não é fácil sempre expressar essa distinção claramente. Ela cria muitas incompreensões. Mas se você quiser saber o que os russos realmente pensam sobre os EUA você deve sempre ter em mente isso. É fácil manipular essa dualidade semântica e interpretar o anti-americanismo dos russos em um sentido impróprio. Mas com esses esclarecimentos em mente, tudo que você ouvir de nós será entendido muito melhor.

Breve Revisão da História Russa

1 - A Nação Americana nasceu com o capitalismo. Ela não existia na Idade Média. Os ancestrais dos americanos não experimentaram uma Idade Média americana, mas uma européia. Assim este é um traço da América. Talvez essa seja a razão pela qual os americanos sinceramente pensem que a nação russa nasceu com o comunismo, com a União Soviética. Mas este é um equívoco absoluto. Somos muito mais antigos que isso. O período soviético foi apenas uma curta época em nossa longa história. Nós existíamos muito antes da União Soviética e seguimos existindo após a União Soviética. Portanto, para compreender os russos (e os ucranianos também) vocês devem levar em consideração nosso passado.

2 - Os russos consideram a Ucrânia como sendo parte da Grande Rússia. Isso o foi historicamente - não por conquista, mas pela gênese do Estado Russo que se iniciou precisamente em Kiev. Ao redor de Kiev nosso povo e nosso Estado foram construídos no século IX. É nosso centro, nossa amada primeira capital. Depois nos séculos XII-XIII diferentes partes da Rússia Kievana eram mais ou menos independentes com dois rivais principais - os principados ocidentais de Galitsia e Wolyn e o principado oriental de Vladimir (que posteriormente se tornou Moscou) existindo. Todas essas áreas eram povoadas pela mesma nação, eslavos orientais, todos os quais eram cristãos ortodoxos. Mas os príncipes do oeste eram mais participativos na política européia e tiveram mais contato direto com o cristianismo ocidental e relativamente menos com os ramos orientais. O título de Grão-Príncipe era mantido no leste pela realeza que era considerada mestra da totalidade da Rússia (não sempre de facto, mas de jure). No período mongol, o oeste bem como o leste de nossos principados russos foram mantidos sob a Horda Dourada. A Rússia oriental era mais ou menos sólida e seu poder cresceu ao redor da nova capital, Moscou. Após a queda dos tártaros, o domínio do Principado de Moscou se afirmou como um hegemônico regional que foi confirmado pela queda do Império Bizantino. Daí a doutrina de Moscou como a Terceira Roma.

O destino da área ocidental foi bem diferente. Ela foi incorporada primeiro em um Estado Lituano, que depois se tornou polonês. Os russos ortodoxos do oeste foram postos sob domínio católico. Os principais principados iniciais - Galitsia e Wolyn foram fragmentados e perderam qualquer traço de independência. Algumas partes sob a Lituânia, outras sob Áustria e Hungria, uma terceira pertencendo à Romênia. Mas tudo que nos concerne agora é apenas a metade direita da Ucrânia moderna. A metade esquerda era povoada por cossacos - a população nômade comum a todas as terras da Novorossiya, espaço que inclui leste e sudeste da Ucrânia e sudoeste da Rússia. A Criméia à época estava sob domínio otomano.

3 - O crescimento do Império Moscovita integrou primeiro todas as terras cossacas (Novorossiya) e pouco a pouco outros territórios povoados por russos ocidentais, libertando-os dos poloneses e alemães. Os príncipes moscovitas acreditavam que eles estavam restaurando a Velha Rússia, a Rússia de Kiev unificando todos os eslavos ortodoxos - orientais e ocidentais nesse único Reino.

4 - Durante os séculos XVIII e XIX a unificação das terras russas ocidentais foi conquistada e após muitas batalhas os imperadores moscovitas finalmente tomaram a Criméia dos turcos otomanos.

5 - Na Primeira Guerra Mundial os alemães conquistaram as terras russas ocidentais. Isso não durou muito. Após isso veio a Revolução de Outubro e o Império foi fragmentado em muitas partes com novas nações chegando à existência. Houve uma tentativa de construir uma nação ucraniana por diferentes pessoas - Petlyura, Makhno e Levitsky que tentaram fundar três efêmeros Estados. Esses Estados foram atacados por Brancos e Vermelhos e lutaram entre si. Finalmente, os bolcheviques restauraram as terras do Império Czarista e proclamaram a União Soviética. A União Soviética então criou artificialmente a República Ucraniana consistindo de Rússia Ocidental (Galitsia, Wolyn) e Rússia do Sul (Novorossiya). Depois, na década de 60 acrescentou-se a República da Criméia a ela. Assim, nessa República estavam unidos três grupos étnicos principais: russos ocidentais, os descendentes dos principados de Galitsia e Wolyn; a população cossaca e grão-russa da Novorossiya; a Criméia povoada por grão-russos e o resto dos tártaros pré-russos. Essa República Socialista Soviética da Ucrânia foi criada pelos bolcheviques e foi a origem da Ucrânia moderna. Essa Ucrânia declarou independência em 1991 após se separar da URSS. Mais do que isso, a declaração de independência provocou essa separação.

6 - Assim os ucranianos modernos possuem três linhas de ascendência - russos ocidentais, cossacos, grão-russos e uma pequena minoria tártara na Criméia.

Identidade Ucraniana e as Duas Opções Geopolíticas

1 - A contradição da Ucrânia consiste na multiplicidade de identidades. Logo após a declaração do novo Estado - a Ucrânia moderna em 1991 - a questão da identidade pan-ucraniana surgiu. Tal Estado e nação jamais existiram na história. Assim a nação teve que ser construída. Mas as três identidades principais eram muito diferentes. A Criméia povoada por grão-russos junto a maior parte da Novorossiya que eram claramente atraídas para a Federação Russa. Os russos ocidentais afirmavam ser o núcleo de uma "nação ucraniana" muito específica que eles imaginaram de modo a servir sua causa. Os russos ocidentais que parcialmente apoiaram Hitler na Segunda Guerra Mundial (Bandera, Shukhevich) possuíam e ainda possuem uma forte identidade étnica na qual o ódio pelos grão-russos (bem como aos poloneses em menor escala) possui um papel central. Isso pode ser traçado à rivalidade antiga dos dois principados feudais russos projetada em tempos imperiais e seguida pelos expurgos de Stálin. Esses expurgos foram dirigidos contra todos os grupos étnicos, mas os russos ocidentais o leem como vingança dos grão-russos contra eles (Stálin era georgiano e os bolcheviques eram internacionalistas). Assim a identidade escolhida do recém fundado Estado da Ucrânia era exclusivamente russa ocidental (puramente Galitsia/Wolyn) sem lugar para uma identidade grão-russa ou novorossiya.

2 - Essa particularidade foi expressada em duas opções geopolíticas opostas: ocidental ou oriental, Europa ou Rússia. As terras ocidentais da Ucrânia eram favoráveis à integração européia, as orientais e a Criméia a favor de fortalecer relações com a Rússia. Os homens da Galitsia era dominantes na elite política apresentando a Ucrânia com uma única identidade - uma ocidental - e negando qualquer tentativa do sul e do leste de expressar sua própria visão. Na Ucrânia Ocidental o anti-sovietismo estava profundamente enraizado bem como havia certa complacência com as idéias de Bandera e Shukhevich, que eram considerados heróis nacionais de uma nova Ucrânia. O ódio pelos grão-russos era dominante e toda retórica xenofóbica anti-russa era saudada.

3 - No leste e no sul os valores soviéticos ainda eram sólidos e a identidade grão-russa era, por sua vez, o sentimento dominante. Mas o leste e o sul eram passivos e seu poder político era limitado. Ainda assim, a população regularmente expressava sua escolha dando seus votos a políticos pró-russos ou pelo menos não tão abertamente russofóbicos ou pró-ocidentais.

4 - O desafio para políticos ucranianos, portanto, era como manter essa sociedade contraditória unida sempre se equilibrando entre essas duas partes opostas. Cada parte demandava escolhas completamente irreconciliáveis. Os ocidentais insistiam em uma direção européia, orientais e sulistas em uma russa. Todos os presidentes da nova Ucrânia foram impopulares, quase ao ponto de serem odiados, precisamente porque eles eram incapazes de resolver esse problema que não tinha qualquer solução real. Nessa situação, os ocidentais eram mais ativos e vigorosos e parcialmente tiveram sucesso em impôr sua versão de uma identidade pan-ucraniana sobre todo o espaço político do país - com a ajuda considerável da Europa Ocidental e acima de tudo dos EUA.

Eventos e Seu Significado

1 - Agora nos aproximamos da crise atual. A Revolução Laranja de 2004 foi feita por ocidentais que desafiaram a vitória legal de Victor Yanukovich, que era considerado o candidato do leste. Uma terceira rodada de eleições (contra todas as normas democráticas) foi imposta pela força de modo a dar o poder ao candidato ocidental (Yuschenko). Quatro anos mais tarde, novas eleições deram ao presidente ocidental apenas 4% dos votos e o candidato oriental Yanukovich foi eleito. Dessa vez a vitória foi tão óbvia que ninguém poderia desafiar.

2 - Yanukovich liderava a política do equilíbrio. Ele não era realmente pró-russo, mas não respondia a todas as demandas do Ocidente também. Ele não tinha muita sorte ou eficiência, tentando enrolar Putin e Obama, desapontando a ambos bem como a ucranianos de qualquer lado. Ele era um oportunista sem qualquer estratégia integral real, o que era quase impossível de desenvolver em uma sociedade com uma personalidade e identidade fraturadas. Ele reagia mais que agia.

3 - Em seguida, quando ele deu um hesitante e relutante passo em direção à Rússia, se abstendo de assinar o tratado preparatório para uma futura entrada na UE, a oposição (ocidentais) se revoltou. Foi por isso que o Maidan aconteceu. A revolta foi inicialmente aquela do oeste contra o leste e o sul. Assim, seus traços russofóbicos e nostálgicos nazi eram essenciais para sua existência.

4 - A oposição recebeu apoio imenso dos países ocidentais - acima de tudo dos EUA. O papel da América em todos esses eventos foi decisivo e a vontade de derrubar um presidente pró-russo foi demonstrada por representantes americanos como sendo firme e forte. Agora o fato de que os snipers que mataram a maioria das vítimas nas revoltas não eram de Yanukovich foi exposto. É claro que eles eram uma parte do plano americano para revolução na Ucrânia e uma parte de uma conspiração para escalar o conflito.

5 - A oposição do Maidan pôs em prática uma revolução, derrubou Yanukovich que fugiu do país para a Rússia, e ilegalmente assumiu o poder em Kiev. Ocorreu um golpe que levou a junta completamente ilegal ao poder.

6 - Os primeiros passos dos ocidentais após a tomada do poder foram:

* Declaração do desejo de ingressar na OTAN;
* Ataques ao uso do idioma russo;
* Um apelo para serem aceitos na UE;
* Uma recusa a permitir a Rússia a continuar tendo uma base naval em Sevastopol (Criméia);
* A indicação de oligarcas corruptos como governadores no leste e sul da Ucrânia.

7 - Em resposta a essas coisas Putin assumiu o controle sobre a Criméia com base nos decretos do único presidente legal da Ucrânia, Yanukovich. Ele também recebeu permissão do Parlamento Russo para enviar o Exército Russo para a Ucrânia. Autoridades da Criméia foram reconhecidas por Moscou como os representantes de sua terra e Putin claramente recusou quaisquer relações com a junta de Kiev.

8 - É aqui que estamos agora.

Curto Prognóstico

1 - Aonde isso vai levar? Logicamente, a Ucrânia como ela existiu durante esses 23 anos de sua história deixou de existir. Isso é irreversível. A Rússia integrou a Criméia e se declarou garantidora da liberdade de escolha do leste e sul da Ucrânia (Novorossiya).

2 - Assim, no futuro próximo haverá a criação de (pelo menos) duas entidades políticas independentes correspondendo às duas identidades previamente mencionadas. A Ucrânia Ocidental com sua posição pró-OTAN e ao mesmo tem uma ideologia ultra-nacionalista e a Novorossiya com uma orientação pró-russa (e pró-eurasiana, aparentemente sem qualquer ideologia, como a própria Rússia). O oeste da Ucrânia protestará tentando manter a posse do leste e do sul. Isso é impossível por meios democráticos, então os nacionalistas tentarão usar a violência. Após um certo tempo, a resistência do leste e do sul crescerá e/ou a Rússia vai intervir.

3 - Os países dos EUA e OTAN apoiarão por todos os meios os ocidentais e a junta de Kiev. Mas na realidade, essa estratégia só vai piorar a situação. A essência do problema está aqui: se a Rússia interferir nas questões do Estado em que a população (a maioria) considera essa intervenção ilegítima, a posição dos EUA e da OTAN será natural e bem embasada. Mas nessa situação, a população do leste e sul da Ucrânia saúda a Rússia, espera por ela, apela para que a Rússia venha. Há um tipo de guerra civil na Ucrânia agora. A Rússia apoia abertamente o leste e o sul. Os EUA e a OTAN apoiam o oeste. Os ocidentais estão tentando conseguir que toda a Ucrânia afirme que nem toda a população do leste e do sul está feliz com a Rússia. Isso é bastante verdade. Também verdade é que nem toda a população do oeste está satisfeita com o Setor Direito, Bandera, Shukhevich e o governo de oligarcas. Assim, se a Rússia invadir as partes ocidentais da Ucrânia ou Kiev isso poderia ser considerado como um tipo de agressão ilegítima. Mas a mesma agressão é nas circunstâncias atuais a posição dos EUA de tentar ajudar a junta de Kiev a assumir o controle do leste e do sul. Isso é percebido como um ato ilegítimo de agressão e provocará dura resistência.

Conclusão

1 - Agora aqui está o que quero dizer ao povo americano. A elite política americana tentou nessa situação, bem como em outras, fazer com que os russos odeiem os americanos. Mas ela falhou. Nós odiamos a elite política americana que traz morte, terror, mentiras e derramamento de sangue por todo lugar - na Sérvia, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria - e agora na Ucrânia. Nós odiamos a oligarquia global que usurpou a América e a usa como seu instrumento. Nós odiamos a duplicidade de sua política, onde eles chamam de "fascistas" a cidadãos inocentes sem qualquer característica que se assemelhe à ideologia fascista e com o mesmo fôlego negam a hitleristas declarados e admiradores de Bandera os qualificativos de "nazi" na Ucrânia. Tudo que a elite política americana fala ou cria (com pequenas exceções) é uma grande mentira. E nós odiamos essa mentira porque as vítimas dessa mentira não somos apenas nós, mas também o povo americano. Vocês acreditam neles, vocês votam neles. Vocês tem confiança neles. Mas eles os enganam e os traem.

2 - Nós não temos interesse ou desejo de ferir a América. Nós estamos longe de vocês. A América é para os americanos, como o Presidente Monroe costumava dizer. Para os interesses americanos e nenhum outro. Não para os russos. Sim, isso é bastante razoável. Vocês querem ser livres. Vocês e todos os outros merecem isso. Mas o que raios você está fazendo na capital da antiga Rússia, Victoria Nuland? Por que você interfere em nossas questões domésticas? Nós seguimos o Direito e a lógica, linhas da história e respeitamos identidades, diferenças. Isso não é uma questão americana. Não é?

3 - Eu tenho certeza de que a linha de separação entre os americanos e a elite política americana é bastante profunda. Qualquer americano honeste que estude calmamente o caso chegará à conclusão: "que eles decidam por si mesmos. Nós não somos similares a esses estranhos e selvagens russos, mas que eles sigam seu próprio caminho. E nós seguiremos o nosso". Mas a elite política americana tem outra agenda: provocar guerras, se intrometer em conflitos regionais, incitar o ódio entre diferentes grupos étnicos. As elites políticas americanas sacrificam o povo americano em causas que estão distantes de vocês, que são vagas, incertas e finalmente muito ruins.

4 - O povo americano não deve escolher estar com os ucranianos (russos ocidentais) ou com os russos (grão-russos). Não é essa a questão. Estejam com a América, a América real, com seus valores e seu povo. Se ajudem e nos deixem ser quem somos. Mas a elite política americana toma as decisões no seu lugar. Ela mente para vocês, ela os desinforma. Ela mostra fotos falsas e eventos ensaiados com explicações completamente imaginadas e comentários imbecis. Eles mentem sobre nós. E eles mentem sobre vocês. Eles dão a vocês uma imagem distorcida de si mesmos. A elite política americana roubou, perverteu e falsificou a identidade americana. E eles nos fazem odiá-los e eles os fazem nos odiar.

5 - Essa é minha idéia e sugestão: vamos odiar a elite política americana juntos. Lutemos com eles por nossas identidades - vocês pela americana, nós pela russa, mas o inimigo em ambos os casos é o mesmo - a oligarquia global que governa o mundo usando vocês e nos esmagando. Vamos nos revoltar. Vamos resistir. Juntos. Russos e americanos. Nós somos o povo. Nós não somos seus marionetes.

08/03/2014

Philip Coppens - Vladimir Vladimirovich Putin & O Império Eurasiano dos Últimos Tempos

por Philip Coppens



"A Rússia sempre se percebeu como um país eurasiático" - Presidente Vladimir Putin, novembro de 2000.

"...uma admissão revolucionária, grandiosa, epocal, que, em geral, muda tudo. A profecia de Jean Parvulesco se cumpre... Haverá um milênio eurasiano" - Aleksandr Dugin, pensador e autor russo.

O principal agente, senão esperança, para mudança global é Vladimir Putin, segundo o visionário escritor francês Jean Parvulesco. Parvulesco afirma que - quer saibamos ou não nos encontramos na encruzilhada da "grande história", onde uma era totalmente nova está para nascer.

Para tal novo período começar, o velho precisa primeiro morrer. Para Parvulesco, esse é o velho "sistema democrático" do politicamente correto, que ele sente ter agora alcançado seus limites e não ser mais suportável. Ele se tornou "um pesadelo total e permanente". Muitos se questionarão como o "novo mundo" deve vir. O melhor exemplo do que pareceu ser um colapso súbito, quase instantâneo é visto na queda da URSS, duas décadas atrás. Ela ilustra que impérios poderosos podem, de um dia para o outro, desaparecer completamente, tornando necessário que uma nova sociedade e estrutura sejam construídas do zero.

Quando notícias do colapso da União Soviética apareceram na televisão, o sistema já havia implodido. Foi apenas a revelação pública de sua morte; a desintegração do sistema comunista já havia ocorrido. Segundo Parvulesco, o colapso da "Europa democrática" já havia ocorrido também, e nós estávamos agora nos anos entre seu colapso e a aceitação pública de seu fim - e o início de uma nova Europa.

Para Parvulesco, a evidência do colapso desse sistema é aparente na história política recente da Itália e da Alemanha, e em alguma medida da França e Grã-Bretanha. Mas em cada caso ele sente que a mesma situação abissal transpirou: um "imenso deserto espiritual", a desolação da "social-democracia". Uma versão local do que ele vê como uma "conspiração global", mas uma que falhou e logo será enviada de volta para o "buraco negro" de onde veio.

Parvulesco sabe o que escrever na certidão de óbito; mas ele também sente que ele sabe o que a Nova Europa será: o "Império Eurasiano dos Últimos Tempos". Ele nomeia nossos tempos como um interregnum onde o que aconteceu à Rússia é efetivamente evidência de que mudança política dramática é possível. A União Soviética foi o primeiro dominó a cair, com os outros na Europa logo em seguida.

Poderia ele estar certo? Em 1976, Parvulesco publicou "La Ligne Géopolitique de l'URSS et le 'Projet Océanique Fondamental' de l'Amiral G.S. Gorchkov" (A linha geopolítica da URSS e o 'projeto oceanográfico fundamental' do Almirange G.S. Gorchkov), que ele chamou "pesquisa político-revolucionária". Nela ele escreveu que a URSS acabaria mudando o curso da história. E mudar o curso da história é, para Parvulesco, o único objetivo que a política deve ter.

Parvulesco portanto fornece um interessante tipo de profecia. Conquanto a maioria dos profetas preveem o fim do mundo em um dado tempo, seu tipo de profecia traz mais detalhes sobre o tipo de mudança e o como. Quanto ao tempo, é muito do tipo "quando for a hora certa".

Assim, o que deve acontecer? Parvulesco afirma que por toda a Europa há grupos geopolíticos atuando - muitas vezes clandestinamente - estabelecendo as bases para a agenda eurasiana. Como o Projeto para um Novo Século Americano, há outros think-tanks trabalhando - e considerando a quantidade de notícias em jornal de que não são objeto, muito mais secretamente - para fazer emergir uma nova Eurásia. Apesar de seu caráter secreto, Parvulesco foi capaz de pôr as mãos em um artigo chamado "O Pacto Eurasiano Imperial". Parecida à idéia posta em prática pelos neocons após o 11 de Setembro (uma agenda que afirmava querer levar paz ao mundo pelo uso do poder bélico americano), esse grupo afirma que, "é o confronto de nossas doutrinas imperiais e católicas [universais] com realidade político-histórica atual [...]]] que verá a emergência final do Grande Império católico que constitui nosso objetivo final, o Imperium Ultimum, o Regnum Sanctum, que deverá comportar, em princípio, três fases operacionais [...]".

A primeira fase é a criação de um Eixo Paris-Berlim-Moscou, esta é considerada como sendo o eixo ao longo do qual essa grande mudança vai ocorrer. Esse eixo ligará o destino de três nações (França, Alemanha e Rússia).

A segunda fase é a integração do que era tradicionalmente conhecido como Europas Ocidental e Oriental, junto de Rússia, Sibéria, Índia e Japão.

A fase final envolve o que é chamado a destruição da "conspiração democrática global", liderada pelos EUA, incluindo uma liberação revolucionária de seu povo, após o que a América como um todo (Norte e Sul) se tornarão uma só entidade. Nós só podemos imaginar se o presente impulso dos EUA de expandirem o NAFTA e criar uma União Norte-Americana são passos nessa direção.

O fim da superpotência planetária que são os EUA é previsto como um ato de autodestruição, uma guerra civil continental parecida com a primeira Guerra Civil. A extrema insatisfação dentro dos EUA, a disparidade extrema entre a comunidade religiosa arquiconservadora e a mais liberal, significa que ser eleito presidente com uma agenda genuína (ao invés de uma de estilo total, mas nenhuma substância) é quase impossível. Para Parvulesco, será primariamente a comunidade católica e ex-européia dos EUA que levará a América a seu novo destino - e causar o fim da atual "conspiração global". Haverá uma nova Europa, mas também uma nova América.

No final, a mudança é um processo social, mas ele não raro precisa de um símbolo. Hitler se tornou a face da Segunda Guerra Mundial, Lênin - mais do que Marx - do comunismo, etc. Assim qual é a nova face da Europa, e quem é o criador desse novo Império Eurasiano? Para Parvulesco, esse "messias" já está aqui: Vladimir Putin. Ainda que Putin não seja mais presidente, sua influência como Primeiro-Ministro Russo permanece virtualmente onipresente.

Vladimir Putin permanece a face da Nova Rússia, um país com um vasto território e recursos naturais que é capaz de manter a Europa refém, a nível energético, caso ele queira fazê-lo.

Quem é Vladimir Vladimirovich Putin? Essa é uma questão que muitos em um universo fora do de Parvulesco também se perguntam. Visto por uns como instrumento do sucesso da KGB, para Parvulesco Putin é a emanação direta dos grupos revolucionários secretos das Forças Armadas da União Soviética. Esses, ele acredita, estão tentando tornar sua batalha secreta de longa data aberta e pública, movendo de um tipo de governo por trás das cenas, para um tipo mais aberto de governo.

Enquanto alguns teóricos da conspiração afirmam que a CIA e várias sociedades secretas como a Skull & Bones são os verdadeiros controladores da política americana, Parvulesco diz que a situação na URSS não era muito diferente. Governada de longa data por mediadores políticos cujos agentes estariam agora entrando em cena para levar o curso da política russa na direção que eles tentavam guiar por trás das cenas por um número de décadas.

Diferentemente dos EUA em que a "conspiração" é normalmente sem face, Parvulesco lista duas pessoas como os conspiradores-mor da Rússia. Um era o chefe do Serviço de Segurança Soviético (GRU) e outrora Comandante-em-Chefe do Pacto de Varsóvia, General S.M. Stemenko (morto em 1976), o outro era o Marechal N.V. Ogarkov, ex-Chefe de Estado Maior do Exército Soviético, que morreu em 1994, que segundo rumores teria estado por trás de uma tentativa de golpe que falou, que por sua vez levou a um tipo de contra-conspiração que levou Mikhail Gorbachev ao poder.

Parvulesco está convicto de que se essa contra-conspiração não tivesse tido sucesso, o fim da URSS teria vindo vários anos antes, com uma transição da URSS para a Nova Rússia que teria sido muito mais dura. De fato, ele sublinha que anos antes do fim efetivo da URSS, o regime estava em coma, à disposição para ser tomado, assim como - aos olhos de Parvulesco - a Europa Ocidental (e os EUA) estão agora.

Parvulesco não está sozinho em sua avaliação desses dois homens. O especialista de inteligência francesa Pierre de Villemarest que escreveu a história da GRU, chamada de "o serviço secreto mais secreto dos soviéticos", diz que o General Sergei Matveevich Stemenko foi "um dos primeiros geopolíticos da URSS, talvez até o primeiro". Ainda que Villemarest chamasse Stemenko de soviético, ele se considerava efetivamente um "Grão-Russo". "Para essa casta", escreve Villemarest, "a URSS era um Império que foi convocado a dominar o continente eurasiático, não apenas dos Urais a Brest, mas também dos Urais à Mongólia, da Ásia Central ao Mediterrâneo".

O "sonho" da Rússia à la Stemenko pode ser visto como um mero retorno aos dias em que a Rússia era um verdadeiro império, antes dos dias da Revolução Bolchevique. Mas para Parvulesco, isso em si é parte de um quebracabeças maior e mais intrigante - uma missão.