16/01/2013

Alain de Benoist - Ernst Jünger e a Nova Direita Francesa

por Alain de Benoist



A Nova Direita obviamente não teve que introduzir o nome de Ernst Jünger na França. Quando a Nova Direita apareceu ao fim da década de 60, o autor de Nos Penhascos de Mármore já era bem conhecido para o público francês. De fato, Jünger era certamente o escritor alemão mais famoso e mais lido desse lado do Reno. Essa situação, que sempre assombra os alemães, é explicada de múltiplas maneiras.

Jünger, em primeiro lugar, foi traduzido relativamente cedo: suas principais obras sobre a Primeira Guerra Mundial apareceram no início da década de 30, e elas imediatamente o tornaram famoso. Mas acima de tudo, a França desempenhou um papel importante na carreira de Jünger, bem como em sua vida e sua formação espiritual e literária. Desde sua escapada juvenil na Legião Estrangeira, desde a terrível experiências das trincheiras, a França jamais deixou de ocupar um lugar significativo no coração de Jünger, evidente nas muitas relações que ele manteve com pessoas francesas, sua leitura de Barrès ou Léon Bloy, mas também as traduções que ele próprio fez das Maxims de Rivarol ou textos de Guy de Maupassant e Paul Léautaud.

Finalmente, Jünger teve a boa sorte de sempre encontrar tradutores franceses de grande talento, desde Henri Thomas e Henri Plard a Julien Hervier de François Poncet, agudamente sensíveis a seu estilo e a seu pensamento para retrarar todas as suas nuances.

"Eu penso", disse Jünger em 1973, "que os franceses podem apreciar quando um alemão se apresenta enquanto tal ao invés de buscar a todo custo assumir uma face que não é a sua".

Essa celebridade, porém, foi conquistada durante um longo tempo somente às custas de certa ambiguidade. Pelo menos até por volta de 1975, o francês percebia Ernst Jünger como uma figura pertencendo exclusivamente ao mundo literário. É claro que o background político-histórico de sua obra era conhecido, mas ele não parecia ser um ator nesse período, e em relação a sua estadia em Paris sob a Ocupação, na maior parte, apenas suas relações literárias eram lembradas (Jean Cocteau, Paul Morand, Pierre Drieu La Rochelle, Sacha Guitry, Jean Giraudoux, Henry de Montherlant, Jean Schlumberger, etc.), em sua maior parte conectados ao salão de Florence Gould. Não tinha o próprio Jünger descrito Paris como "a grande cidade dos livros"? Seus escritos políticos juvenis eram completamente ignorados, ao menos pelo público geral. Os nomes de Franz Schauwecker, Hugo Fischer, Ernst Niekisch, Friedrich Hielscher, e mesmo Carl Schmitt eram também desconhecidos. Em resumo, Jünger era visto como escritor e nada mais. Ademais, o próprio Jünger estava aparentemente não só bastante satisfeito com essa situação mas contribuiu para ela à sua própria maneira, já que ele por muito tempo se recusou a permitir uma tradução francesa de seu grande livro de 1932, Der Arbeiter.

Porém, foram precisamente seus livros não traduzidos - que como consequência possuíam uma aura mítica - que rapidamente atraíram o interesse da Nova Direita. Desde o início da década de 60, eu mesmo só conhecia os livros de Jünger que já haviam sido publicados em francês. Eu havia lido, é claro, seus relatos da Primeira Guerra Mundial, mas - talvez diferentemente de alguns de meus amigos - eles não haviam me impressionado, certamente por causa de minha falta de interesse por questões militares! Nos Penhascos de Mármore (Auf den Marmorklippen) e Jogos Africanos (Afrikanische Spiele) haviam me interessado mais, bem como Heliopolis e especialmente o Tratado sobre o Rebelde ou o Recuo às Florestas (Der Waldgang). O Estado Universal (Der Weltstaat), por outro lado, me repeliu consideravelmente.

Obviamente, eu devo a descoberta do "outro Jünger" a meu amigo Armin Mohler. Seu Handbuch der Konservative Revolution, que eu tentei decifrar com meu então rudimentar alemão, foi uma revelação. Nesse vasto movimento com suas inúmeras ramificações, eu de modo algum vi uma corrente de pensamento que era meramente uma Wegbereiter do Nacional-Socialismo, como às vezes tem sido dito, mas ao contrário, um curso alternativo cujo desenvolvimento e uma melhor estruturação poderia ter talvez salvo o mundo do desastre hitlerista.

Em nossas conversas, Armin Mohler muitas vezes falava sobre Jünger, de quem ele havia sido secretário particular por muitos anos após a guerra e por quem, com base em sua própria experiência, ele nutria sentimentos um tanto quanto ambivalentes. Enquanto eu considerava o jovem movimento conservador o mais interessantes, politicamente e intelectualmente, ele não ocultava sua predileção pela corrente nacional-revolucionária. Eu era mais reservado do que ele no valor intrínseco dos conceitos de "nação" e "movimento", mas a ideia de revolução inegavelmente me seduzia.

Graças a Mohler, eu descobri que Jünger havia colaborado em publicações "neonacionalistas" ou bündisch como Arminius, Die Standarte ou Die Kommenden, que ele havia publicado Der Arbeiter e Die total Mobilmachung, que ele estava conectado ao "Nacional-Bolchevique" Ernst Niekisch. Eu descobri também os desenhos de A. Paul Weber, que me causaram grande impressão. Tudo que é bem conhecido hoje, mas à época foi, ao menos para mim, completamente novo.

Eu me apressei a comunicar minhas descobertas. Eu voltei repetidamente ao Handbuch der Konservative Revolution, ao mesmo tempo prometendo a mim mesmo publicar uma tradução. O primeiro resultado desses esforços foi a republicação pelo GRECE (Groupement d'études et de recherche pour la civilisation européenne, a principal associação do que ainda não se chamava ainda a Nova Direita) na forma de um pequeno livreto de um dos raros textos já publicados na França sobre Der Arbeiter: Marcel Decombis, Ernst Jünger et la "Konservative Revolution". Une analyse de "Der Arbeiter" (GRECE, Paris 1973). A obra de um falecido germanista, este texto foi ampliado por uma curta bibliografia e um prefácio original escrito por Armin Mohler, que apresentou a obra de Jünger como "um dos raros grandes livros desse século", mas também como um "bloco errático" entre suas obras, e qualificou sua publicação em 1932 como um "evento extraordinário". Falando de O Trabalhador e da primeira versão de O Coração Aventuroso (Das Abenteuerliche Herz), ele também disse: "Hoje ainda minha mãe não pode tocar essas obras sem começar a tremer".

Em seu Prefácio, Mohler também disse - com três repetições - que Der Arbeiter era uma obra "intraduzível". Ela, porém, acabou sendo traduzida em 1989 por Julien Hervier, sem, ademais, realmente atiçar a polêmica que Jünger havia temido por algum tempo.

Nessa época, eu ainda não havia conhecido Jünger pessoalmente. Porém, em 15 de maio de 1977, enquanto eu participava do Festival Internacional do Livro em Nice tanto pela Figaro-Magazine como pelas Éditions Copernic que tinham um stand ali (eu havia acabado de receber o Grand Essay Prize da Académie Française por meu livro Vu de Droite), eu pretendia me apresentar. Eu me virei e vi um homem de altura mediana, bastante ereto, com um elmo de cabelo branco, que vestia uma jaqueta de cotelê sobre um belo sweater de gola rolê. Eu não o reconheci de modo algum. "Olá", ele disse, "Eu sou Ernst Jünger". Eu fiquei sem palavras. Naquele dia conversamos por mais de uma hora. Fotografias foram tiradas. Uma grande e bela memória.

Enquanto isso, quase dez anos após a publicação do livreto de Marcel Decombis, eu havia reunido documentos suficientes sobre o período "político" juvenil de Jünger para escrever meu próprio estudo sobre Der Arbeiter. A primeira versão foi publicada ao fim de 1981 em Eléments, então outra, mais longa apareceu dois anos depois em Nouvelle Ecole. A segunda, que foi seguida por uma tradução de um artigo por Ernst Niekisch publicado em Widerstand em outubro de 1932 ("Zu Ernst Jüngers neuem Buche"), era na verdade uma autêntica monografia que foi depois publicada como livro em traduções espanholas e italianas. Eu fiz um esforço não só de apresentar os principais conceitos de Der Arbeiter e de traçar o desenvolvimento do autor nas décadas de 20 e 30 discutindo alguns dos marcos na história do movimento nacional-revolucionário, mas também para mostrar como o "problema do Trabalhador" continuou a reaparecer nas obras posteriores de Jünger, obviamente de diferentes formas, particularmente a evolução de suas ideias sobre a tecnologia sob a influência de seu irmão, Friedrich Georg Jünger. Eu apresentei Der Arbeiter como indispensável para a compreensão do período transicional definido como um "interregnum" entre o reino dos Titãs e o dos Deuses. Eu também fiz muitas referências ao pensamento de Carl Schmitt e à filosofia de Martin Heidegger, com os quais eu já havia então me familiarizado.

Em 29 de março de 1985, aniversário de 90 anos de Jünger, eu lhe enviei um telegrama pouco após um encontro público no qual eu havia tomado parte em Saint-Etienne. Ele me agradeceu com uma curta carta manuscrita à qual uma fotografia estava anexada. Dez anos depois, em 25 de março de 1995, eu lhe enviei uma carta que continha somente estas palavras: "Obrigado por estar vivo". Para celebrar seu centenário, o Club des Mille (a associação de apoio financeiro da Nova Direita) organizou uma tarde em sua honra em 21 de junho em Paris.

Em 1996, eu decidi devotar toda uma edição do Nouvelle Ecole a Jünger. O editorial que eu assinei ali começava com estas palavras: "O século XX é o século em que o Prêmio Nobel não foi dado a Ernst Jünger. É uma maneira tão boa de defini-lo como qualquer outra". A edição incluía uma entrevista com Jünger por seu tradutor espanhol, Andrés Sánchez Pascual; ensaios de Armin Mohler, Gerd-Klaus Kaltenbrunner, Werner Bräuninger, Marcus Beckman, Serge Mangin e Pierre Wanghen; e também a tradução de documentos de Friedrich Hielscher, Albrecht Erich Günther, Ernst Niekisch e Friedrich Sieburg.

Jünger parecia ter se tornado imortal! Ao fim de 1997, eu publiquei uma bibliografia de sua obra com um editor suficientemente corajoso (ou ignorante) para lançar esse tipo de obra, que por definição sempre encontra um público bastante restrito. Essa bibliografia, com a qual eu não estava inteiramente satisfeito, deveria ter recebido uma edição nova e bem maior, na qual eu trabalhei por anos, mas eu finalmente desisti quando Nicolai Riedel, o digno sucessor de Hans Peter des Coudres e Horst Mühleisen, publicou sua bibliografia em 2003. (Desde então meu trabalho como bibliógrafo tem ao invés se concentrado em Carl Schmitt!). No início, eu revisei as principais fases da vida de Jünger. Chegando a 1997, eu escrevi: "Tendo entrado em seu 103º ano, ele continua a escrever". Infelizmente, poucos meses depois, em 17 de fevereiro de 1998, ele faleceu. Eu prestei homenagem a ele em 7 de março em um programa da Radio-Courtoisie.

Desde então, Jünger tem sido estudado mais do que nunca. Em 7 de novembro de 1995 eu já havia tomado parte em uma conferência sobre Jünger organizada na Universidade La Sapienza em Roma sob o título "Duas Vezes o Cometa" (aludindo ao fato de que Jünger vive para ver dois aparecimentos do Cometa Halley). Eu também tomei parte em uma longa conferência sobre Jünger realizada em Milão de 20-24 de outubro de 2000, onde em particular eu tive a ocasião de conhecer o jovem filho de Nicolai Riedel, no dia antes de um concerto de Ricardo Mutti no La Scala. Ao fim de uma "peregrinação" ao Chemin des Dames, eu também fui a uma conferência sobre Jünger e a Primeira Guerra Mundial em Laon, em 8 de novembro de 1998. Danièle Beltran-Vidal, François Poncet, Isabelle Rozet, Olivier Aubertin, Manuela Alessio, e alguns outros também participaram.

Minha admiração por Jünger - pelo homem e sua obra - jamais desapareceu. Mas talvez ela tenha mudado um pouco de direção. Trinta anos atrás, eu estava repleto de entusiasmo pelo "primeiro" Jünger das décadas de 20 e 30. Com o tempo, e assim com a idade, eu indubitavelmente me tornei mais apreciador do "segundo" Jünger - do Anarca e mais ainda do Rebelde, do pensador "atemporal" que, tendo se erguido mais alto, também vê mais longe.

Eu gostaria de acrescentar aqui uma memória bastante pessoal. Em 6 de fevereiro de 1993, tendo sido convidado a participar de um debate em Berlim, eu tive a desagradável experiência de ser fisicamente atacado por um grupo de jovens militantes "autônomos" defendendo um arcaico "antifascismo" que nem ao menos sabiam que eu havia vindo falar contra a xenofobia! Retornando a Paris após uma noite gasta olhando para fotografia policiais tentando identificar meus atacantes, eu recebi um telefonema de Armin Mohler. Ele me contou que Jünger, que havia ficado sabendo do incidente, imediatamente quis saber de minha condição. Esse gesto me tocou em demasia.

Ernst Jünger provavelmente não foi um dos autores mais frequentemente citados pela Nova Direita francesa, mas não há dúvidas, como vimos, de que ele foi bastante discutido. Hoje, não há mais a necessidade de uma imagem "completa" de Jünger na França. Os vários aspectos de sua obra são agora bem conhecidos. Como Schmitt e Heidegger, ou Mircea Eliade, Jünger foi também, em um momento ou outro, o objeto de críticas na forma de denúncias. Elas emanam de espíritos sectários que não só são anacrônicos, mas somente lidam com Jünger para chegar a conclusões em conformidade com os preconceitos que eles já possuíam no início. Essas abordagens permanecem bastante minoritárias. Admissivelmente, Jünger ainda é raramente citado por intelectuais populares. É necessário ir à Itália para encontrar intelectuais de todas as opiniões, esquerda ou direita, citando Jünger constantemente (assim como eles também constantemente citam Schmitt e Heidegger). Mas os leitores do autor de Eumeswil e Caçadas Sutis (Subtile Jagden) permanecem numerosos.

Hoje, praticamente todos os livros de Jünger foram traduzidos ao francês; eles são publicados pelas maiores casas; e a maioria é constantemente reimpressa. Os Diários de Guerra (Strahlungen) foram republicados por Gallimard em suas prestigiosas séries "Pléiade", com um importante aparato crítico por Julien Hervier, a quem nós também devemos uma coleção de conversações com Jünger. A pesquisa acadêmica é coordenada pelo Centre de Recherche et de Documentation Ernst Jünger (CERDEJ), chefiado pelo Danièle Beltran-Vidal, que desde dezembro de 1996 publicou um volume anual de Carnets Ernst Jünger. O que ainda é necessário é uma tradução completa dos artigos políticos de sua juventude (eles recentemente apareceram na Itália, em três volumes) e da correspondência (especialmente a correspondência com Schmitt, Heidegger, Hielscher, Gottfriend Benn, e Gerhard Nebel), mas também uma grande biografia "definitiva" comparável à de Heimo Schwilk recentemente publicada na Alemanha.

É bastante curioso que nenhum livro de Friedrich Georg Jünger já foi completamente traduzido ao francês. Levando em consideração suas muitas conexões no mundo editorial, parece que Jünger poderia facilmente ter conseguido que algumas das obras de seu irmão publicadas na França. De minha parte, foi um erro que eu nunca fiz nada. E eu às vezes me pergunto o motivo.

Ernst Jünger teria 110 anos hoje. "As revoluções silenciosas são as mais efetivas", ele disse. Ele deve ser lido em silêncio.

12/01/2013

Aleksandr Dugin - Os Cavaleiros Templários do Proletariado

por Aleksandr Dugin


Todos participam em nossa política russa: engenheiros, intelectuais, burocratas, sem-teto, esquizofrênicos, mulheres, espiões, e muitos outros tipos. Pode ser dito com certeza que não há representantes somente de uma classe - os trabalhadores. Tomando a demagogia marxista na fé, os furiosos partidocratas da perestroika, por alguma razão, inculcaram um dogma na consciência das massas: os trabalhadores foram a classe hegemônica durante todo o período soviético, e agora eles deviam ser arrancados da política, esquecidos, marginalizados. E a sociedade ocidental, a qual muitos políticos russos estão tentando dolorosamente copiar, lidou com sucesso com a classe trabalhadora removendo-a da arena política. Quando a dominação do capital se tornou total e o capitalismo se transformou de sua fase industrial em uma sociedade informacional, pós-industrial, o grupo base do Trabalhador, o Produtor, o Criador de toda a realidade objetiva da existência humana foi completamente apagado diante de telas brilhantes de computador e da luz enganosa da propaganda.

Os trabalhadores desapareceram de nossa vida. Desapareceram das vistas, se transformaram em algo mais. O trabalho do trabalhador na época do gerenciamento e do know-how perdeu seu valor.

Pessoas sujas, oleosas, ásperas vestidas em uniformes com ferramentas feitas de ferro tosco foram dissolvidas na inexistência social. Mas isso não é nada além de uma ilusão ótica, uma miragem social habilidosamente fabricada. Nos fazem acreditar que tudo ao nosso redor evoluiu diretamente do dinheiro e seu poder ilimitado, foi manufaturado por máquinas "espertas" controladas por tecnocratas onipotentes de colarinho branco.

Não é nada assim. Como sempre, nas profundezas das fábricas centenas de milhares de organismos vivos se entretém, transfigurando matéria bruta em formas sensíveis. Como antes, nas profundezas da terra, idealistas com picaretas lutam com ossos densos da substância inercial, violando o conforto passivo e mórbido das rochas pedregosas. Sangue negro de veias subterrâneas jorra nas faces de cirurgiões dos poços de petróleo. Gigantes de ombros quadrados com faces de tijolo rolam aço fervente.

Na realidade, o Trabalhador não foi pra lugar algum. Ele simplesmente retornou ao subterrâneo. Traído pelo socialismo soviético degenerado, esmagado pelo laço estrangulador do pérfido capital, cuja dominação hoje não é formal e externa, mas absoluta e interna, ele olha taciturnamente para a odiosa realidade, sendo avidamente construída ao seu redor por charlatães de todos os tipos, raças e classes. Transformado de escravo de um funcionário de partido em escravo de um "novo russo", o Trabalhador é humilhado e sobrepujado como antes, mais do que antes.  Levado ao negro subterrâneo do socium, envenenado pelos substitutos eletrônicos de emoções e pseudoerotismos onipresentes, ele luta em uma jaula estreita, movendo, com a energia de sua agonia, uma máquina terrível com fachada de computador, que desmontaria como uma pirâmide de areia se não fosse por ele.

O mundo limpo de "novos mestres" empurra o Titã e um estado embrionário, atirando-lhe pedaços. "Aqui está seu meio litro de vodka Kremlyovskaya!"

Mas é realmente possível que todas as expectativas místicas conectadas à emancipação do Trabalho hajam sido desgraçadamente atropeladas, devoradas pelo verme gordo do experimento soviético? Pode realmente ser que as suspeitas da coincidência de sujeito e objeto no Trabalhador, que estão abalando os fundamentos do ser, se mostraram ser somente tolas metáforas moralizantes, ocultando por trás delas a prosaica vontade de poder da próxima gangue de funcionários gananciosos e ávidos por poder?

Isso não pode ser. A lamentável queda do Sovdep e seus profanos líderes é somente uma pausa, uma síncope no terrível despertar do Titã. O proletariado ainda não cumpriu sua missão histórica. Ele ainda não deu sua última palavra. Ele ainda não fez a Revolução.

Hoje é a época dos parasitas. Velhos, novos, nossos e estrangeiros. Pessoas usando e se apropriando daquilo que eles não criaram. Centristas vendendo radicais, chefes de empresas - e seus subordinados, os governantes - as riquezas de um grande país, a mídia de massa a consciência. Na disputa - guinchos e baforadas, tiros vindos pelas costas e mentiras gélidas.

Das profundezas do ser, o trabalhador russo contemporâneo soturnamente observa essa azáfama. Esquisito e concreto, tenaz como uma máquina, e lento como um pensador. Ele não crê e jamais crerá na demagogia social dos "rosas". Eles de novo? Não, chega. Para os "capitalistas", o ajuste de contas também será rápido. Somente o poderio denso e apaixonadamente melancólico do nacionalismo ascendente pode tocar esse povo sólido e temperado. Mas quando há palavreado sobre uma "dinastia reinante", "restauração de privilégios da nobreza", gonfalões, cossacos, ou "empresariado nacional", os patriotas encaram indiferença sorumbática: "Máscaras". Cada manhã, com o nascer do sol (ninguém a não ser essas pessoas tem pensado no sol por um longo tempo) eles rastejam de suas jaulas de apartamento de esposas gordas e estúpidas e bebês ranhosos, e se movem em passo ritmado para dentro do útero concreto da Produção. De modo que - labutando sem inspiração - persistentemente, ritmicamente, travam de modo ininterrupto uma batalha cósmica com a matéria, tão inflexível, crua, dura, tão venenosa. Trabalhadores sorumbáticos sabem - o demônio maligno da substância fez da frágil e delicada Vida, a Donzela do Sol, sua refém. É a forma roubada por uma bruta usurpação da matéria. Ela só pode ser salva pelo ato heróico, uma guerra obstinada, horripilante, impiedosa contra o gelo basilar da realidade.

Por muitos séculos e eras, os Titãs tem travado uma luta contra a entropia do Universo. O proletariado. A Fraternidade Proletária. A Ordem Proletária.

Após engolir Dionísio, depois de longas eras, eles ficaram saturados com sua carne. É por isso que eles consideram com tamanha reverência a santa intoxicação do Baco ressuscitado.

Em algum lugar acima deles, inconscientes do drama subterrâneo, ingênuos ou desonestos "aristocratas", intelectuais, comerciantes cinicamente usam os frutos da sangrenta batalha. Eles não confrontam a Matéria, livres dela pelo sacrifício voluntário dos Cavaleiros Templários do Proletariado. Eles engolem e dessacralizam troféus obtidos pelos vikings subterrâneos em um terrível poço com escuridão das maiores profundezas.

Mas a letargia não durará muito. Os trabalhadores estão reunindo determinação intelectual e espírito. Ninguém pode garantir longevidade para a escória delirante da política russa contemporânea. É claro, os olhos do proletariado estão fixos na Terra, sua eterna rival, eterna inimiga.

Mas mais cedo ou mais tarde ele olhará para cima e...dará seu último golpe. Com um pé-de-cabra contra a torpe órbita mortal do computador, contra a brilhosa janela de um banco, contra a face distorcida de um supervisor.

O proletário Despertará. Se Rebelará. Matará. Nem a polícia nem os falsos partidos socialistas serão capazes de segurá-lo.

Sua missão na história não está acabada. O Demiurgo ainda respira. A Alma do Mundo ainda geme. Suas lágrimas erguem um uivo sombrio à consciência escura do Criador. É um chamado. É o apito de uma fábrica. É o soar das Trombetas Angélicas.

Eles - artífices do Tártaro - novamente anseiam por sua Revolução Proletária.

Revolução Real.

Revolução Final.

11/01/2013

O Roteiro EUA-Israel: Dividir a Síria para dividir o resto

por Mahdi Darius Nazemroaya



O que está acontecendo na Síria é um sinal das coisas que virão para a região. A mudança de regime não é o único objetivo dos EUA e seus aliados na Síria. Dividindo a República Árabe Síria é o objetivo final de Washington, na Síria.

Maplecroft da Grã-Bretanha, que é especializada em consultoria em risco estratégico, disse que nós estamos testemunhando a balcanização do Estado sírio: “curdos no norte, drusos nas montanhas do sul, alawitas na região noroeste do litoral montanhoso e a maioria sunita em outro lugar.”

Nós já estamos ouvindo pessoas como o conselheiro da Casa Branca, Vali Nasr falando sobre tudo isso. As clivagens étnicas e religiosas na Síria não são demarcadas em termos puramente geográficos e o processo de balcanização poderia jogar como um processo libanização, o que significa que a Síria será dividido ao longo de violentos falhas sectárias e enfrentar um impasse político como o Líbano durante a guerra civil sem formalmente quebrá-lo. Libanização , uma forma branda de balcanização, já aconteceu no Iraque sob o federalismo.

Os eventos no Oriente Médio e Norte da África estão vendo a animação dos movimentos de massa contra os tiranos locais, como no Bahrein, Jordânia, Marrocos e Arábia Saudita, mas há também um script vicioso do Plano de Israel Yinon e suas ramificações. O Plano Yinon e esquemas semelhantes quer uma guerra Shitte-sunita artificial entre os muçulmanos como a peça central das divisões sectárias – ou Fitna em árabe – que incluem, entre cristãos e muçulmanos, árabes e berberes, árabes e iranianos, árabes e turcos, e da animosidade Turco-iraniana.

O que este processo pretende fazer é criar o ódio sectário, divisões étnicas, racismo e guerras religiosas. Todos os países que os EUA e seus aliados estão desestabilizando têm linhas divisórias naturais, e quando há animosidade tribal, étnico, confessional e religiosa é incendiado em um país, ela irá transbordar para outros países.Os problemas na Líbia têm derramado ao Níger e o Chade e os problemas na Síria estão transbordando para a Turquia e Líbano.

Egito é o local de correntes revolucionárias e contra-revolucionárias que têm mantido a maior potência árabe ocupada com a sua atenção na política interna.Enquanto o Egito está enfrentando turbulência doméstica, os EUA estão tentando jogar os militares do país e a Irmandade Muçulmana um contra o outro. Antes dos levantes o Sudão foi formalmente balcanizado por Tel Aviv e Washington através da manipulações da política de identidade, o que levou à secessão do Sul do Sudão.

Líbia foi neutralizada e dividida por vários grupos. Lebonization, como mencionado anteriormente, também tem raízes no Iraque como o Governo Regional do Curdistão (KRG), com apoio estrangeiro – especificamente o apoio externo dos EUA, Europa Ocidental, Israel e Turquia – começa a agir mais e mais como se no norte do Iraque ou Curdistão iraquiano é um país separado do resto do Iraque.

Dore Gold, presidente do Centro de Jerusalém para Assuntos Públicos e um conselheiro para primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, vale a pena citar para seus pontos de vista: “O que você tem na Síria é que o Oriente Médio está desmoronando, uma nova forma de caos está substituindo o que já existia. “Este curso é parte da ilusão dos decisores políticos israelenses que têm interesse em ver isso. Originalmente, a posição de Tel Aviv foi ignorada quando a crise começou na Síria, mas está claro agora que Israel tem interesse em ver a Síria fragmentado em pedaços e em um estado de guerra civil contínua. Isto é o que o Plano Yinon e seus sucessores, descrito como sendo os objetivos estratégicos de Israel na Síria e Líbano.

O nacionalismo curdo

Síria, como o Iraque, podem ser vistos como um ponto de pressão chave no Oriente Médio. Desordem em ambos irão criar uma crise regional. Como as coisas esquentam na Síria, o frágil Iraque também está começando a pulsar como um regional sismo vulcânico geo-político.

Para aqueles que têm dúvidas de que os EUA estão atiçando as chamas de um fogo para criar uma crise terrível no Oriente Médio ou que os eventos na Síria estão começando a ter ramificações regionais, que apenas precisem olhar para a região do Curdistão.Os combatentes curdos nacionalistas começaram a se mobilizar na Síria e na Turquia e soldados turcos foram atacados por eles.O Governo Regional do Curdistão (KRG) começou a tomar medidas importantes que significam a sua independência do Iraque.

No Iraque, o KRG é essencialmente um estado de facto com o seu próprio parlamento, bandeira, exército, regime de vistos, as forças armadas, polícia, e as leis. Em violação das leis nacionais do Iraque, o KRG fez até armas ilegais e acordos de petróleo por conta própria com os governos e entidades estrangeiras, mesmo sem tanto como notificar o governo em Bagdá. Além disso, o KRG tem impedido até mesmo as tropas iraquianas de ir para o nordeste na fronteira com o Iraque com a Síria para assegurar que o contrabando de armas e o fim ilegalidade.

Turquia, que mantém laços estreitos com a KRG, também tem incentivado esse comportamento e até mesmo tratado KRG como um governo nacional por ter contatos diplomáticos sem consultar o governo iraquiano em Bagdá. Os líderes do Governo Regional do Curdistão também estão permitindo que o seu país para ser usado como uma base de operação do Mossad contra a Síria e o Irã.

Ironicamente, a Turquia já avisou que vai tomar uma ação militar contra os separatistas curdos na Síria, enquanto Ancara está apoiando tendências separatistas entre os KRG e a divisão da Síria. Além de criar tensões entre os governos turco e iraquiano, o que teve conseqüências na Turquia. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) começou a remobilizar. O PKK afirmou que ele está no controle do distrito de Semdinli (Semzinan) na Província de Hakkari Turquia e a luta eclodiu no sudeste da Turquia.

Vítimas já começaram a surgir as tropas turcas e forças de segurança começaram a ataques indiscriminados .A lei marcial foi também declarado ena Província Hakkari de acordo com a imprensa turca.A própria Turquia enfrenta agora a sua própria luta contra as forças anti-governamentais como parece incapaz de governar seu próprio território. Um deputado da oposição turca do Partido Popular Republicano também foi seqüestrado por PKK. Primeiro-ministro turco Erdogan tentou culpar a Síria para lutar que entrou em erupção em áreas curdas da Turquia, mas ele omite o fato de que a violência na Turquia é um resultado direto da interferência turca na Síria. Se eles já não têm, as armas que Erdogan está enviando para a Síria acabará por encontrar o caminho de volta para a Turquia, onde vai ser utilizado por forças anti-governamentais.

Metas de Tel Aviv o Líbano : A Segunda Frente do Levante está aberto?

O caso do ataque ao ônibus turístico israelense na Bulgária é ameaçador para dizer o mínimo. O que é notável sobre o incidente é que Israel culpara o Hezbollah do Líbano e do Irã imediatamente, antes mesmo de uma hora passada após o ataque ou de uma investigação foi conduzida.

O que é digno de nota é que os funcionários apenas algumas semanas antes em Tel Aviv estavam ameaçando atacar o Líbano novamente, dizendo que eles iriam destruir totalmente o Líbano em uma guerra israelo-libanesa terceiro. Os comentários israelenses foram feitas por Halevy Hertzi brigadeiro-general, o comandante da Divisão 91 Tel Aviv, a apenas uma semana antes do sexto aniversário da vitória do Hezbollah contra Israel na guerra de 2006 entre Israel e Líbano.Halevy e outros líderes israelenses têm repetidamente ameaçado reduzir a cinzas o Líbano, lançando um ataque total

Aliados da Síria estão a ser pressionados em uma guerra multi-dimensional. Irã, Rússia, Líbano, Iraque, e os palestinos estão sendo colocados sob crescente pressão para abandonar seus aliados sírios. As ameaças israelenses visam colocar pressão psicológica sobre o Líbano e Hezbollah como um meio de expandir os meios de comunicação, psicológicas, econômicas, de inteligência, diplomáticas e de cerco político contra a Síria no Líbano. Sanções dos EUA contra a Síria já estão incorporando o Irã e o Hezbollah e os bancos libaneses têm enfrentado ataques cibernéticos e da pressão de Washington e seus aliados.

Olhando para o horizonte por vir : Bem-vindo ao Arco da América de instabilidade?

O cerco patrocinado pelos EUA à Síria é parte de suas tentativas de dividir a Eurásia e manter sua primazia global como uma superpotência. Washington não tem misericórdia para os seus amigos ou seus inimigos, quer e países como a Turquia e a Arábia Saudita, eventualmente, ser usado como bucha de canhão. Os estrategistas dos Estados Unidos querem que a área que vai de Norte de África e do Oriente Médio para o Cáucaso, Ásia Central e Índia, seja transformada em um buraco negro de conflitos, à la Brzezinski “Eurásia Balcãs.”

Os árabes, Irã e Turquia estão se posicionando para um grande conflito, porque os EUA estão perdendo seu status de superpotência. Tudo o que resta do estado de Washington superpotência é o seu poder militar. Para o fim de sua vida relativamente curta, a União Soviética só tinha poder militar também.A União Soviética experimentou agitação social e estava em declínio econômico antes do desabamento. A situação para os EUA não é muito diferente, se não pior. Washington está quebrado, dividido socialmente, tornando-se racialmente polarizado, e declinando rapidamente em sua influência internacional. Elites dos EUA, no entanto, estão determinadas a resistir ao que mais e mais se parece com a perda inevitáveis da condição de seu país de superpotência e seu império.

Acender a Eurásia com fogo e sedição parece ser a resposta de Washington para impedir seu próprio declínio. Os EUA tem planos de iniciar um grande fogo que vai do Marrocos e do Mediterrâneo até as fronteiras da China. Este processo tem sido essencialmente iniciado pelos EUA através da desestabilização de três regiões diferentes: Ásia Central, Oriente Médio e Norte da África. Os primeiros passos que os EUA e seus aliados da OTAN e árabes levaram a fazer isso não começou na Síria.

No Oriente Médio, este processo iniciou-se através do sítio do Iraque que, eventualmente, deu lugar à invasão anglo-americana e a ocupação do país, em 2003. Na Ásia Central, o processo começou com a desestabilização do Afeganistão durante a Guerra Fria e o apoio dos EUA para a luta entre facções diferentes, incluindo o que se tornaria o Taliban; o 11/09 apenas deu aos EUA e seus aliados da OTAN uma oportunidade para invadir. No Norte de África, finalmente os EUA e Israel balcanizaram o Sudão através de anos de pressão e operações encobertas.

Nas três regiões mencionadas acima estamos vendo a segunda onda de desestabilização agora. Na Ásia Central, a guerra no Afeganistão foi prorrogada para o Paquistão pela OTAN. Isto deu lugar ao termo “AfPak” para descrever o Afeganistão e o Paquistão como um teatro. No Norte da África, a Líbia foi atacada em 2011 pela OTAN e a Jamahiriya foi basicamente dividida por vários grupos. No Oriente Médio, essa segunda onda de operações de desestabilização tem como alvo a República Árabe da Síria como uma continuação do que aconteceu no Iraque.

Washington parece estar sonhando com este cenário: as revoltas curdas que ocorrem na Síria, Turquia, Iraque e Irã; sectárias guerras civis no Iraque consomem, Líbano, Síria, Turquia, Iêmen no fogo; instabilidade e combatem ao sangramento Argélia, Egipto, Líbia, Paquistão e Sudão; berberes e árabes lutando entre si através do norte da África; insegurança e incerteza política se espalhando na Ásia Central, uma guerra no Cáucaso Sul na Geórgia que a consome, a Armẽnia ea República do Azerbaijão; revoltas explodindo entre os balcares, chechenos, circassianos , daguestanis, inguchétios, e outros povos do Cáucaso Norte locais contra a Rússia ; o Golfo Pérsico sendo uma zona de instabilidade e Rússia em desacordo com a União Europeia ea Turquia. Tal conflagração está a ser continuamente estimulada por Washington.

Em última análise, tudo isso se destina a perturbar algumas das rotas mundiais de energia principais e suprimentos para ferir os importadores de energia para economias como da China, as grandes potências europeias, Índia, Japão e Coréia do Sul. Isto poderia forçar a União Europeia se tornar mais militarista no desespero para salvar sua economia.

Tal cenário pode ser perigoso para o fornecedor de energia como a Rússia, bem como os estados da OPEP , que teriam que escolher entre a UE e a China, se houver escassez de energia. Uma guerra de recursos – como na I Guerra Mundial – poderia ser inflamada que traria a ruína para uma grande quantidade da África e todas as regiões industrializadas da Eurásia. Isso aconteceria enquanto os EUA estariam no Hemisfério Ocidental, assistindo a uma distância segura, assim como aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, antes que os passos para pegar as peças como o benfeitor econômico de um guerra devastadora.

09/01/2013

Julius Evola - O Espírito da Civilização Romana

por Julius Evola


Com o aparecimento de cada nova obra sobre a Civilização Romana, nós experimentamos uma certa sensação de incômodo: de fato, na maior parte, nós notamos livros desse tipo somente perfunctoriamente, eles não revelam qualquer ideia nova, eles repetem os clichês de velhas interpretações "positivistas", acrescentando somente o hype retórico de comemoração, assim produzindo um efeito patético, e qualquer significado verdadeiro que possua de nossa tradição original, não é tanto iluminado por escritos similares quanto trivializado e quase profanado.

Nós ficamos, portanto, felizes em remover, pelo menos uma vez, os preconceitos desse tipo ao ler um livro bastante recente de clareza cristalina escrito por Pietro De Francisci sobre O Espírito da Civilização Romana [Spirito della civilita romana, 1940]. Acima de tudo, começando com seus primeiros capítulos, nós temos que admitir: Finalmente há uma pessoa de autoridade que acerta no alvo e sabe o que deve ser considerado essencial na Romanidade. E nós também nos encontramos concordando totalmente com a justificativa dos livros, viz., que nenhuma revolução construtiva é uma criação a partir do nada, mas possui como condições o retorno a princípios e fatores elementares, que para nós só podem ser aqueles da tradição original de Roma. E De Francisci também muito corretamente critica aqueles que quebram nossa história em duas partes: a história de Roma e seu Império de um lado, e a história da Itália do outro.

Enquanto para Corradini, como também para De Francisci, Italianidade e Romanidade são uma mesma coisa, ou dito melhor: elas devem ser uma mesma coisa, com base em uma escolha decisiva de suas próprias vocações e tradições: isso é, nós devemos exaltar, considerar como nossas, e glorificar como "italianas" apenas aquilo que é de valor para nós em nossa história, como "romanas", e não ter qualquer leniência ou mitigação em relação ao resto. De Francisci corretamente diz que trazer juventude à consciência do poder e profundidade da corrente da Romanidade que se espalha por toda nossa história medieval e moderna, eliminando ideias erradas e destruindo novos e velhos preconceitos, significa buscar uma nutrição preciosa para a força ideal de nossa revolução.

Quem não vê o abismo que separa posições similares daqueles que, não obstante como De Francisci, tiveram que ter a direção do Istituto Nazionale di Cultura fascista - nós nos referimos a Gentile, que não hesitou em afirmar o que a Romanidade é para nós, mas apenas na retórica vazia de vida e conteúdo, porque para ele a verdadeira tradição italiana é identificada com uma série de pensadores suspeitos e rebeldes heréticos partindo da Renascença, como se na própria Itália fascista nenhum outro devesse ser visto e desejado exceto aqueles envolvidos no desenvolvimento da Itália de 1870? [quando a Itália foi unificada].

Como a premissa de seu tratado, De Francisci, seguindo uma ideia de Spengler, faz a distinção morfológica apropriada entre Cultura e Civilização. Cultura, tanto como fenômeno intelectualista, quanto como refinamento das condições materiais da vida de um povo, não tem nada a partilhar com Civilização, realidade. De Francisci escreve essa passagem bastante profunda:

"Civilização não é apenas uma manifestação das atividades intelectuais dominantes mas a expressão complexa e concreta de todas as energias do espírito: é não apenas a governante do homem em sua natureza exterior, mas é ao mesmo tempo o domínio do homem sobre sua própria natureza humana, a consciência de coordenação com outros homens, de subordinação a uma certa ordem hierárquica, e de dependência a um poder supremo, divino e transcendente".

É uma construção unitária e orgânica que, enquanto tal, até mesmo permeia o campo político, isto é, ela também pressupõe uma organização política como realizadora e promotora dos valores fundamentais subjacentes na própria base da organização. E nesse ponto especial, nós vemos o contraste entre a ideia de civilização e a concepção abstrata de "cultura", como entendida em sua compreensão moderna, na qual, a cultura seria um reino para si mesma, alienada de tudo que é "político", ao invés de ser a suprema força animadora e justificadora do político, como sempre aconteceu em todas as civilizações tradicionais e, na vanguarda, admitamos agora, na civilização romana.

Agora, De Francisci estuda o antigo mundo romano exatamente em relação à "civilização" nesse sigificado preciso. Roma era eminentemente "civilização" e sua grandeza deve nos falar no sentido desse ideal unitário e anti-intelectualista. Qual era a face específica de tal civilização? Quais são os elementos fundamentais, típicos e constantes de seu "estilo"? De Francisci considera quatro acima de todos:

Em primeiro lugar, clareza e simplicidade, fundada em uma intuição precisa e certeira da realidade, e não apenas da realidade visível, mas também - é o mérito de nosso autor reconhecê-lo - da realidade invisível.

"Enquanto os romanos eram realistas, eles jamais foram materialistas: assim poucos povos como os romanos levaram consigo por séculos a convicção da existência de uma vontade e um poder transcendente, aos quais as leis devem ser adaptadas e a conduta humana conformada. Mas clareza e simplicidade são os elementos de grandeza".

Essas se refletem - como o eco de algo eterno e separado dos pequenos eventos dos indivíduos, de tudo que é pathos e sensibilidade - no elemento monumental do mundo romano. Ademais, a unidade que conjuntamente é organicidade e solidez, fundada em um equilíbrio de forças e fatores, em um elo sábio que ultrapassa e abarca todas as variedades, distinções, complicações: unidade como poder formativo e organizador.

Uma ordem resulta daí, a qual, enquanto "foi experimentada como um sistema transcendente de princípios determinados pela própria natureza das coisas" (que é a antiga concepção ariana de cosmos ou rta), é expressa em um estilo rigoroso, definido e essencial: intolerância por tudo que é desordenado, incerto, subjetivo, disperso. Precisão e clareza predominam no ethos, mas não como somente uma norma humana, mas ao invés como a objetificação rigorosa de uma realidade suprassensível.

Nesse sentido, De Francisci corretamente se opõe àqueles que preferem retratar os antigos romanos como secos, carecendo de sentimento e imaginação. O que, apenas, permanece alienígena à alma romana, era o estéril subjetivismo que se rende aos caprichos do arbitrário em que cada energia moral é dispersa e dissipada:

"Mas não por essa razão é sua interioridade menos rica, que consiste acima de tudo na adesão do espírito às normas de uma Ordem superior".

Isso é demonstrado nas três virtudes de pietas, fides e gravitas. E, como nós mesmos em outras ocasiões enfatizamos, a falta de imaginação nos romanos é mais um signo de superioridade do que de inferioridade: é para ser tomado no sentido, como diz De Francisci:

"A imaginação dos romanos não é um jogo gratuito de ousadia intelectual, não é a criação de um mundo de imagens separado da realidade, mas um instrumento para selar essa realidade em formas bem definidas, para enquadrar e organizar suas forças".

A mesma coisa deve ser apontada em relação à acusação feita contra os romanos de terem degradado o pensamento em favor da ação. Mas sobre o que é esse pensamento? Ninguém nega a simpatia escassa dos romanos por construções teóricas. Mas a ação em si, quando se prova coerente, consistente e eficaz - nota De Francisci - não porta em si mesma o testemunho de um pensamento, ou melhor, de um poder superior de pensamento? Toda a história dos romanos está aí para demonstrar que eles acreditavam nesses valores e se atrelavam firmemente a princípios que, ao longo de sua experiência, foram definidos, tornados precisos, afirmados, e até mesmo assumiram uma importância e aplicabilidade cada vez mais universais.

Na ordem do elemento estrutural, há um elemento específico na "civilização" de Roma, isto é, uma hierarquia, na qual a preeminência é reservada a valores políticos: tudo é assumido e organizado na operação do Estado. Mas nós ficamos felizes em ver que De Francisci evitou uma falsa virada dupla na qual, nesse sentido, ele termina a maior parte das interpretações modernas da Romanidade. De fato, em primeiro lugar, tal preeminência do elemento político não deve de modo algum ser entendida segundo certas pretensões políticas modernas à primazia de um poder temporal sobre qualquer autoridade espiritual. Os elementos políticos e religiosos na Roma antiga estavam em uma união indissolúvel. O ponto de partida do romano era a consciência de que forças divinas e transcendentes existem e agem por trás de forças humanas e históricas. Assim o mais alto princípio da "política" romana, e consequentemente de cada determinação de vontade e ação, era o de conformar a vida individual e coletiva ao fas [lei divina]:

"A vontade divina revelada, que é a lei suprema contra a qual não é possível se rebelar sem cometer uma nefas [pecado], ou seja, não apenas um ato reprovável mas tendo consequências mortais".

Afinal, De Francisci já havia mencionado a base religiosa da primeira lei romana em sua prévia História do Direito Romano. No novo livro ele relembra a significância profunda relativa ao fato da conexão inseparável do imperium dos líderes políticos romanos, com o auspicium [advinhação], quer dizer, com uma disciplina possuindo como pressuposição a possibilidade de entrar em relação com as forças divinas e de apresentar as direções, junto a qual eles eram capazes de confirmar e potencializar forças e ações humanas. Mesmo se De Francisci não vai além de um exame mais fundo no significado do rito no mundo antigo já há o bastante para claramente separá-lo daqueles que, nesse sentido, veem apenas "superstições" e "fatalismo obtuso" de modo a apreciar, no ius [lei] romano, apenas seu cadáver jurídico positivo.

O outro preconceito, que é muitas vezes nutrido em relação ao totalitarismo da civilização política romana, se refere a libertas [liberdade civil]. Mas, novamente, é impossível julgar o mundo antigo com medidas modernas, que então são simplesmente falsas e enganadoras. De Francisci claramente aponta todo o respeito que a Roma antiga atribuía à libertas: mas é uma libertas concreta, compreendendo em si o conceito de limites: é liberdade como a faculdade e o direito legítimo de movimento, de agir, de dispor de si, e mesmo dentro de um espaço bem definido, dentro de uma hierarquia positiva, onde cada um reconhece o seu: suum cuique. Assim o romano conheceria um equilíbrio exemplar de auctoritas [responsabilidade] ou lex [lei] e libertas ao mesmo tempo desconsiderando o conceito democrático de igualdade característico da decadência helênica, no individualismo sobrepujante com uma determinação de limites, com uma obsessão com hierarquia, com uma coordenação de atividade. E esse é outro dos aspectos, segundo o que a Romanidade permanece, por séculos, o signo e símbolo de um ideal político e tradicional superior.

Já que nós pontuamos o verdadeiramente valioso e, para muitos, iluminativo aspecto da nova obra de De Francisci nesses termos, vamos nos permitir tocar outros pontos.

Primeiro de tudo, em relação a origens: É verdadeiro que, nesse sentido, não se ouve nada sendo dito sobre eles hoje. Não obstante, quem tenha olhos suficientemente treinados pode reconhecer e discernir o que há de valor em relação a raça e forças espirituais do mundo das origens. No problema ariano na Itália, no sentido do cruzamento ou aspecto de vários símbolos e costumes - por exemplo os ritos de sepultamento ou cremação, cultos solares e cultos telúrico-maternos, etc - as relações espirituais entre Etrúria e Roma e daí em diante, pouco ou nada é encontrado no livro de De Francisci. Agora, se não se tem sucesso em ter uma, digamos, visão dramática do antigo mundo itálico, no que concerne tanto raça como espírito, não se pode de modo algum compreender o verdadeiro sentido de Roma, suas batalhas, sua missão, seu destino.

Em relação a isso, o que é igualmente ausente na obra de De Francisci é qualquer investigação do que nós chamaríamos de "história subterrânea" de Roma. Em seu livro, a atenção permanece concentrada na história no sentido comum bidimensional do termo, mesmo se examinado com acuidade inegável. A análise do aspecto mais profundo e espiritual de certas brechas sociais e certas oposições de culto em Roma não é feita. Qual foi, por exemplo, a influência que atua, na Roma antiga, através dos Livros Sibilinos? É um problema, entre muitos outros, da história subterrânea de Roma, cuja importância não é de se negligenciar.

De Francisci, como dissemos, viu claramente na conexão da vontade humana, e portanto da ação, a uma significância mais que humana, um elemento característico da realidade romana. E isso foi mais particularmente enfatizado por outros que o romano percebia essencialmente a revelação do divino não no espaço, como uma visão, mas no tempo e na história, como ação. Agora, é possível reconhecer isso, sem também reconhecer que uma história da Romanidade sempre será incompleta, se ela não se tornar, em certa medida, uma metafísica da história, ou seja, se ela não buscar abarcar um conteúdo simbólico em seu modo objetivo nas reviravoltas mais importantes e decisivas da Romanidade? O perigo de digressão e interpretações pessoais puras, aqui, naturalmente, é grande. Não obstante, é necessário fazer algo nessa direção, se a história romana deve verdadeiramente nos falar. Conhece De Francisci a famosa introdução à Lenda de Tanaquil de Bachofen? Nessa velha obra, mesmo em referência à Romanidade, há ideias metodológicas que ainda são particularmente importnates hoje.

Também, De Francisci tratou vários problemas do período imperial, tais como a importação de cultos "asiáticos" e sua significância, de um modo meramente "histórico", no sentido atual do termo. O momento racial ao nível dos elementos de civilização e culto, não foram desenvolvidos. Por exemplo: e quanto aos cultos e formas asiáticos do próprio culto imperial, remetendo, apesar da degeneração de suas expressões exteriores, a elementos de uma tradição ariana arcaica comum, na medida em que, por exemplo, certos aspectos da reforma religiosa de Augusto, de fato, trazem de volta à vida algumas ideias esquecidas ou obscurecidas pela primeira Romanidade?

Ao invés, o melhor é a análise feita por De Francisci dos vários fatores políticos e sociais e várias tentativas da restauração do período imperial tardio. Ele traz à luz a verdadeira causa da decadência: o Império universal só poderia se manter desde que o momento expansivo tivesse um momento correspondente de desconcentração e intensificação nacional-racial. Ainda que indispensável, um ponto de referência supremo e único - a autoridade imperial divina - não podia ser suficiente: seria necessário ao invés prover simultaneamente a defesa espiritual e material da raça romano-itálica como a matriz privilegiada por elementos destinados a governar e comandar o mundo. Ao invés disso, Roma aceitou o cosmopolitismo, o caos da nivelação e da desarticulação. O Império presumidamente abraçando universalmente a espécie humana sem distinção de raça, povos e tradições, com base unicamente o poder central divino e supremo, e perto de um rompimento e uma "positivação" da antiga ideia jurídica, nesse ponto se transformando em direito natural.

Sobre tal base nós tendemos a crer que contrariamente às opiniões da maioria, e pode ser dito, a julgar por alguns de seus comentários, do próprio De Francisci, o Cristianismo ou, ao menos, um certo Cristianismo, assumiu a herança tão somente dos aspectos negativos do Império. De fato, apenas nos termos do "espírito", universalisticamente, ele se propôs a unificar e reunir os povos dispersos no Império; e se, para além disso, criou no clero uma hierarquia e um poder central, ele foi criado sem quaisquer pressuposições raciais: o clero era recrutado de todas as classes e povos e, por causa do celibato, não podia constituir uma casta, não podia gerar uma tradição regular, também apoiada no sangue, como ao invés acontece em muitas antigas sociedades arianas.

Apenas na Idade Média, por meio da contribuição ário-germânica, emergiu uma certa retificação desses aspectos negativos do legado da Romanidade tardia. O ideal orgânico surgiu. O próprio Catolicismo passou a demonstrar menos os traços de uma religião universalista do que aqueles de uma fé característica do bloco guerreiro das nações arianas e europeias da "Cristandade". E é nesses termos e em formas que, como tivemos a ocasião de notar recentemente nesse jornal, hoje possuem um curioso aspecto de fatos corriqueiros e mesmo de "futurismo", que a mais pura força de nossas origens é reafirmada para além do declínio da primeira Roma.

08/01/2013

Crítica Herderiana sobre o Iluminismo: Comunidade Cultural vs Racionalismo Cosmopolita

Por Brian J. Whitton


A recente teoria social continental tem visto o surgimento de um corpo literário que representa um desafio radical para as principais preocupações e suposições do pensamento tradicional social e político do Ocidente. Embora esse desafio envolva uma série de aspectos e abranja um grupo heterogêneo de pensadores, um tema comum a todos eles é a sua oposição às tentativas de disciplinas científicas, sociais e políticas tradicionais para estabelecer programas teóricos gerais como um guia para a realização prática de uma ordem racional dentro da sociedade humana, já definida. O que é mais desagradável sobre esse projeto geral para tais pensadores, entre eles figuras como Foucault, Derrida e Lyotard, é a suposição implícita da possibilidade de estabelecer uma hierarquia nas formas de conhecimento  – uma ordenação dos discursos de acordo com sua aproximação relativa com os princípios de um discurso definitivo sobre a razão ou verdade. Sua sensibilidade especial à linguagem, e sua crença partilhada no potencial criativo infinito da atividade linguística humana, levou esses pensadores a abrir mão de tais discursos racionalistas "totalizantes" como uma forma de legitimação das práticas de exclusão que reprimem a diversidade das interpretações discursivas da verdadeira atividade linguística humana implícita em favor de um discurso dominante, repressivo. Longe de ser única para os escritores pós-modernistas do final do século XX, no entanto, esse tipo de crítica relativista dos discursos totalizantes tem alguns antecedentes notáveis ​​no pensamento social moderno. O objetivo deste artigo é examinar tal precursor dessa forma de crítica apresentada nos escritos do teórico do século XVIII, Johann Gottfried von Herder.
 
Na sua teoria histórica, Herder apresenta uma crítica radical do discurso racionalista do desenvolvimento humano cosmopolita adiantado pelos pensadores iluministas de sua época, o qual é atribuído de uma profunda sensibilidade para a importância da linguagem no processo de desenvolvimento humano histórico. Na primeira parte deste artigo descreverei a crítica de Herder à perspectiva Iluminista e as principais características da concepção particularista da comunidade cultural humana que ele desenvolve em oposição a tal perspectiva. Ao fazer isso vou sugerir alguns paralelos interessantes, que podem ser traçados entre a concepção relativista de Herder da comunidade cultural e as ideias sobre a linguagem e o desenvolvimento cultural humano apresentadas nos escritos recentes do pós-modernista François Lyotard. Eu, então, prosseguirei adiantando algumas críticas da visão relativista do desenvolvimento cultural humano e comunitário presente no pensamento de Herder.

I

Antes de considerar o pensamento de Herder em detalhes, vou descrever brevemente alguns dos principais temas do recente livro de Lyotard, A condição Pós-Moderna. Isso fornecerá a base para uma comparação entre as teorias de Herder e Lyotard mais tarde no papel. Fundamental para a compreensão da obra de Lyotard é a sua visão dos jogos de linguagem como o aspecto de definição de qualquer sistema social. Ele argumenta que: 

 jogos de linguagem são a relação mínima necessária para a sociedade existir; mesmo antes de nascer... a criança humana já está posicionada como a referência na história recontada por aqueles em torno dele, em relação ao que ela inevitavelmente encontrará em seu curso... a questão do vínculo social é por si só um jogo de linguagem".

De acordo com Lyotard, cada cultura é constituída por tais jogos de linguagem e são as formas de conhecimento as quais dão origem que regulam a vida da cultura. Em seu trabalho, ele distingue duas formas de conhecimento importantes suscitadas a partir desses jogos de linguagem no curso da história humana. Elas são a forma narrativa tradicional popular e a forma científica moderna. Conhecimentos narrativos, identificados como sinônimo de culturas tradicionais tribais, são distinguidos pela sua iminência com a vida da cultura e a maneira espontânea pela qual legitimam suas instituições de autoridade. Como o determinante dos critérios de competência social e de como esses critérios são aplicados, "do que tem o direito de ser dito e feito na cultura”, tais formas de conhecimento narrativo são parte integrante da cultura, “legitimadas pelo simples fato de que elas fazem o que fazem”. O conhecimento popular narrativo, observa Lyotard, ”não dá prioridade à questão da sua própria legitimação...  Ele certifica-se na pragmática da sua própria transmissão sem poder recorrer  à argumentação e prova".

Essa forma de conhecimento tradicional está em contraste direto com a forma científica da cultura ocidental moderna. O que define o último aparte, em primeiro lugar, de acordo com Lyotard é sua pretensão à legitimação objetiva, sua suposta capacidade de estabelecer a verdade de suas proposições através dos processos objetivos de verificação e falsificação. De acordo com essa pretensão de legitimação objetiva, apenas aqueles discursos capazes de validação objetiva que são apropriados para o corpus de conhecimento aceitável dentro da nova ordem cultural. Aqui Lyotard discerne a tendência inerente hegemônica da forma de conhecimento científico. Ele observa que “o conhecimento científico exige que um jogo de linguagem, uma denotação, seja mantido e todos os outros excluídos. [Por essa forma de conhecimento] uma declaração de valor verdadeiro é o critério determinante para sua aceitabilidade. Esse princípio torna problemático o status da forma narrativa tradicional de conhecimento dentro da sociedade moderna.

 "O cientista questiona a validade das afirmações narrativas e conclui que elas nunca estão sujeitas a argumentação ou prova. Ele classifica-nas como pertencentes a uma mentalidade diferente: selvagem, primitiva, subdesenvolvida, atrasada... Na melhor das hipóteses, são feitas tentativas para lançar alguns raios de luz sob este obscurantismo, civilizar, educar, desenvolver ".

De acordo com Lyotard, onde a forma de conhecimento tradicional da narrativa popular se presta à manifestação de uma diversidade de discursos narrativos ou entendimentos narrativos diferentes do mundo, a forma moderna e científica é, por natureza, excludente da diversidade discursiva.

É neste ponto que Lyotard observa a natureza paradoxal da forma de conhecimento científico sobre a qual a cultura ocidental se afirma. Essa cultura, ele argumenta, é em si dependente de uma forma de narrativa para a sua legitimidade final.

 "O conhecimento científico não pode compreender que ele é o verdadeiro conhecimento sem recorrer a outro tipo narrativo de conhecimento, que do seu ponto de vista não é conhecimento. Sem tal recurso, estaria na posição de pressupor sua própria validade... [do] processo sobre o prejuízo".

A principal forma que esse recurso à narrativa assume é o apelo à meta-narrativa – a história da legitimação do sujeito que se desdobra no processo da história para descobrir o seu ser com o conhecimento científico. Somente através da invocação dessa história épica da auto-realização, em suas formas duplas de desdobramento da ideia absoluta (Hegel) e da emancipação do tema concreto da humanidade (o Iluminismo), o jogo de linguagem culturalmente limitado da ciência moderna conseguiu sustentar sua pretensão de superioridade sobre outras formas de conhecimento na sociedade moderna.

No entanto, para Lyotard o advento da presente condição pós-moderna significa a morte dessa metanarrativa legitimadora dentro do domínio repressivo da forma de conhecimento científico. Os processos de deslegitimação associados com a era pós-moderna emergente, segundo ele, têm visto o declínio do poder unificador da grande narrativa e a violência que tem infligido sobre a pluralidade dos jogos de linguagem. No lugar das antigas pragmáticas “objetivas” da ciência moderna, Lyotard observa o começo do desenvolvimento de uma nova pragmática social dentro da sociedade pós-moderna, contendo a possibilidade de uma nova ideia relativista e prática de justiça — baseia-se sobre o “reconhecimento da natureza heteromorfa dos jogos de linguagem. . . [e] uma renúncia do terror, a qual assume que eles são isomorfos e tenta torná-los assim". 
 
II

Os temas abrangentes elaboradas acima, que preocupam o pensamento de Lyotard carregam uma semelhança acentuada com a ideia implícita na filosofia histórica de Herder. A ênfase na natureza essencialmente pluralista das formas culturais de conhecimento, a crítica da narrativa universal como a forma legitimadora de um discurso cultural hegemônico, particular que impede a livre expressão dos discursos culturais alternativos —são características centrais da concepção particularista de desenvolvimento cultural que Herder elabora no contexto mais amplo do seu conflito crítico com a concepção Iluminista da história dominante no seu tempo. Por sua vez, agora ao examinar as ideias de Herder, primeiro fornecerei um breve relato sobre a concepção iluminista da história que constitui o foco das críticas de Herder. Então, prosseguirei delineando a teoria de Herder sobre o desenvolvimento histórico do Volk ou nação cà medida que emerge da sua crítica da perspectiva racionalista e cosmopolita dos filósofos. Tendo feito isso, estarei em condições de indicar as semelhanças da obra de Herder e Lyotard e oferecer algumas críticas à concepção relativista de desenvolvimento humano histórico a qual Herder desenvolve como a alternativa básica à perspectiva do Iluminismo.

Nos escritos de alguns pensadores proeminentes do Iluminismo francês, encontramos articulada uma visão muito otimista da história humana como a progressão linear da humanidade em direção a uma condição de perfectibilidade inevitável. Para pensadores como Condorcet e Turgot, a história é compreendida como o avanço progressivo da humanidade em direção a uma condição iluminada da associação humana que acaba por englobar toda a humanidade, com base nos princípios da razão. De importância particular para as nossas preocupações são as premissas mais básicas sobre as quais essa concepção cosmopolita da história repousou. Subjacente a essa visão otimista da história humana é a concepção racionalista distintiva da natureza humana que caracteriza a filosofia do Iluminismo. De acordo com esse ponto de vista, os seres humanos têm acesso a certos princípios eternos, imutáveis ​​ou leis intrínsecas à sua natureza. Além disso, como observa Becker, pensava-se que, com o uso da sua razão natural, esses princípios poderiam ser compreendidos por pessoas e aplicados às questões humanos que lhes permite “trazer suas ideias e condutas e, portanto, as instituições pelas quais viviam, em harmonia com a ordem universal, natural.” Desse ponto de vista, então, a história humana envolveu a apreensão progressiva desses princípios constantes e universais da natureza humana anteriormente obscurecida pelas superstições e costumes nos quais os assuntos de todas as pessoas podem ser racionalmente organizados. 

Um corolário lógico dessa concepção racionalista da história como a progressão inexorável da humanidade a uma condição cosmopolita de perfectibilidade racional foi a tendência dos filósofos iluministas para degradar ou ridicular aquelas culturas, do passado e do presente, que não tinham consciência dos princípios da razão iluminista. Tais culturas tendem a ser vistas como etapas menores no desenvolvimento em direção a esse fim perfeito iluminista. Assim, na visão de Condorcet, foi a sorte das culturas bárbaras e ignorantes de sua época que eles poderiam adquirir esses princípios racionais do Iluminismo diretamente a partir da cultura esclarecida da sociedade europeia. “O progresso desses povos [diz ele] é provável que seja mais rápido e certo, porque eles podem receber de nós... essas verdades simples e métodos infalíveis que nós adquirimos apenas depois de um longo erro”.  


Ao elaborar essa teoria da história como a evolução da comunidade Volk, Herder apresenta uma crítica profunda aos pressupostos básicos dessa concepção iluminista da história. No centro dessa crítica está a oposição de Herder à maneira como essa perspectiva racionalista abstrai o desenvolvimento humano histórico de toda a conexão com os elementos da prática histórica humana linguística e cultural. Contra a concepção estática e a-histórica da natureza humana defendida pela filosofia do Iluminismo, Herder se opõe a uma nova consideração radical de desenvolvimento da natureza humana e da razão. Aqui, a noção de natureza humana como algo existente a priori, independente de circunstâncias históricas contingentes, é rejeitada. A natureza humana, Herder argumenta, “não é o receptáculo de uma felicidade absoluta, imutável como definida pelos filósofos; em todos os lugares atrai a quantidade de felicidade da qual ela é capaz; é uma argila maleável que assume uma forma diferente em diferentes . . circunstâncias”. A natureza humana é uma substância sempre em mudança, constantemente em desenvolvimento alterando em resposta às diversas necessidades e circunstâncias históricas.
 
Em termos dessa nova concepção histórica dinâmica do desenvolvimento humano, Herder sublinha a especificidade histórica da condição humana. Os seres humanos devem desenvolver através da luta dentro de seu ambiente natural e social. Entre as influências que afetam o seu desenvolvimento, Herder identifica o clima, ou sua localização geográfica, que exerce uma influência definitiva na sua evolução consciente. "O espírito tem variado em proporção direta ao clima e seus efeitos".

Mas, de longe, o elemento mais importante para Herder nesse processo dinâmico de transformação histórica humana é a linguagem. Ele observa que "toda a estrutura da humanidade do homem está ligada por uma gênese espiritual”, uma conexão que assume a forma da elaboração da capacidade exclusivamente humana para a fala. Como um atributo específico para os seres humanos, a linguagem é vista por Herder como a expressão central de uma única consciência humana reflexiva. No desenvolvimento da sua linguagem, os indivíduos dão forma a sua natureza interior consciente, formulando suas ideias e preconceitos através da reflexão sobre suas experiências do mundo externo. Portanto

"quanto mais experiência o homem ganha, mais ele aprende a conhecer coisas diferentes a partir de diversos aspectos e assim enriquece sua língua. Quanto mais ele repete o que aprendeu e o vocabulário que ganhou, mais permanente e fluente sua linguagem se torna. Quanto mais diferencia e classifica, mais se torna organizado. "

De acordo com Herder, o processo de desenvolvimento linguístico consciente descrito aqui, a elaboração do poder humano único do discurso consciente, só é concebível como um processo social. O desenvolvimento consciente do indivíduo é parte integrante da sua inclusão em uma comunidade linguística mais ampla, e o fluxo de palavras e imagens herdadas que ele deve aceitar em confiança. A forma ideacional da linguagem constitui a força natural integrando pessoas dentro de uma comunidade dinâmica histórica de desenvolvimento cultural que Herder identifica como nação ou Volk.  Além disso, em vez de uma estrutura permanente acima e além do indivíduo, a comunidade Volk forma uma unidade espiritual, cuja evolução histórica envolve a integração consciente do indivíduo e o social na expressão progressiva de uma única consciência nacional e cultural incorporada aos produtos linguísticos da nação.

Quais são as características específicas dessa concepção de comunidade cultural que Herder desenvolve em oposição à teoria iluminista do cosmopolitismo e, em particular, quais são os processos específicos pelos quais a personalidade cultural da comunidade Volk é atualizada historicamente? Aqui Herder salienta a educação social, entendida em termos gerais como o processo de moldagem da socialização e tradição. No decorrer da assimilação da linguagem durante a atividade social cotidiana, os indivíduos incorporam sua herança cultural. Eles entram em conexão com a história, poesia e religião da nação e com sabedoria social incorporada nessas formas culturais. A unidade famliar assume um papel vital nesse processo educacional. De acordo com Herder, o amor paternal torna possível uma educação que é social e contínua, atuando como um importante instrumento de transmissão dos valores e preconceitos para as gerações sucessivas. O pai, um pastor argumenta, é o instrutor natural da criança. "Cada indivíduo é filho ou filha. . . . Ele ou ela recebe desde os primeiros momentos de vida parte dos tesouros culturais da herança ancestral...[que ele ou ela] por sua vez, passa adiante”. Através da instrução dos pais o indivíduo está em comunhão com os “modos de sentir e pensar dos seus progenitores... Ele repete, com cada palavra recém-adquirida, não apenas sons, mas certas maneiras de olhar o mundo". 

Em virtude desse processo de educação social a cargo da família, professores e amigos, é estabelecida através das sucessivas gerações da comunidade Volk uma cadeia "de unidade e continuidade, na qual cada vínculo... [recebe e transmite] o patrimônio cultural do Volk [em um processo que implica] a linguagem e seu crescimento contínuo”. A língua nacional, como meio de transmissão do espírito cultural do Volk, conecta seus membros em uma comunidade orgânica abraçando as ideias, sabedoria e valores das gerações passadas, presentes e futuras. Além disso, essa transmissão histórica do patrimônio cultural da comunidade Volk envolve uma dimensão dialética definitiva nessa operação. Herder observa que os pais "nunca ensinam seu filho a falar sem a simultânea atividade inventiva da criança”. O processo de educação cultural é um complexo no qual cada geração, ao acolher as parcialidades da linguagem Volk, sujeita-nas a uma reavaliação e revalorização, de acordo com suas próprias necessidades e circunstâncias históricas. "As gerações se renovam em um fluxo contínuo... apesar das tendências prescritivas lineares da tradição, cada filho continua redigindo de maneira particular”. É através dessa transformação histórica da linguagem Volk que as concepções tradicionais e crenças são continuamente sintetizadas com as das novas gerações. “Os opostos auxiliam e promover um ao outro... [e] por sua reconciliação emerge um mundo novo”. Assim, a língua nacional constitui a média psicológica e viva na qual a cultura nacional é perpetuada e transformada ao longo do tempo. Como tal, constitui o órgão central na extensão histórica dos poderes criativos humanos como membros do Volk conscientes e auto-constitutivos. 

Há uma série de pontos decorrentes dessa presente consideração altamente original do desenvolvimento cultural humano, que é importante observar aqui. O primeiro é a ênfase de Herder no caráter natural internamente gerado dessa condição dinâmica da comunidade cultural. A transmissão histórica da cultura nacional é tanto genética quanto orgânica naturalmente, “genética em virtude da forma pela qual a transmissão é realizada [ou seja, através da instrução paternal] e orgânica em virtude da forma [dialética] na qual o que está sendo transmitido é assimilado e aplicado”. Os principais agentes do desenvolvimento nacional (notavelmente a língua nacional e os poderes da intenção sintetizadora) representam para Herder forças naturalmente evolutivas que se desenvelvem dentro e além do Volk, em oposição ao que ele considera como forças artificiais econômicas e políticas, externamente impostas operando e unindo pessoas do exterior. Na verdade, é um princípio básico do pensamento de Herder que as comunidades humanas, se eles são eficazes e duradouras na natureza, devam ser baseadas sobre essas forças culturais naturais e iminentes que ligam “mentes através das ideias, corações, inclinações e impulsos... e as gerações por meio de exemplos, modos de vida e educação”. 

Um segundo aspecto importante da teoria de Herder fluindo da sua concepção cultural naturalista da comunidade humana é a sua ênfase sobre a pluralidade essencial dos valores humanos e sua relatividade frente a comunidades nacionalistas históricas. Para Herder, cada nação distinta contém dentro de si sua própria perfeição independente de comparação com outras culturas, um padrão definido de acordo com as suas tradições culturais e valores específicos. Além disso, a imagem do que é moralmente certo ou errado varia de cultura para cultura, fazendo qualquer comparação entre diferentes culturas rentáveis. Na sua opinião: 

"quando o sentimento interior de felicidade se alterou, essa ou aquela atitude mudou; quando as circunstâncias externas... moldam e fortalecem esse sentimento novo, que pode, então, comparar as diferentes formas de satisfação percebidas por sentidos diferentes em mundos diferentes... Cada nação tem o seu próprio centro de felicidade dentro de si, assim como cada esfera tem seu próprio centro de gravidade”. 

Exercer julgamentos críticos das culturas passadas em termos de ideais e valores do seu próprio tempo, como os historiadores iluministas tendem a fazer, é, nessa perspectiva, fundamentalmente problemático. De acordo com Herder, cada cultura histórica representa uma manifestação distinta e única do que é especificamente humano. “Desde as pedras disformes com a quais o chinês ornamenta jardim dele, até o...ideal de beleza da Grécia, o plano de uma compreensão reflexiva humana é observável em toda parte”.
De acordo com tal concepção pluralista de cultura relativa dos valores humanos, Herder sublinha a necessidade de qualquer compreensão adequada das diversas culturas da história humana para compreender os distintos pressupostos e preconceitos implícitos na consciência cultural de qualquer comunidade nacional. No entanto, esse conhecimento não é facilmente adquirido, como Herder bem sabia. Compreensão histórica desse tipo requer o cultivo da própria capacidade de identificação complacente com a cultura em consideração. Os indivíduos devem 

"entrar no espírito de uma nação antes que... [eles] possam compartilhar até mesmo um de seus pensamentos ou ações... [Eles] devem penetrar profundamente neste século, nesta religião, nesta história inteira e senti-la dentro...[de si] – então somente...[eles] estarão aptos a entender”.

Somente ao entrar na vida de uma cultura, nas suas crenças e preconceitos expressos em seus produtos culturais, Herder sustenta, o seu valor intrínseco e importância histórica podem ser aproveitados.
Sem essa capacidade de identificação complacente da consciência cultural de civilizações diferentes da sua, os filósofos são criticados por sua insensibilidade fundamental a esses elementos cruciais da comunidade cultural humana. Em vez disso, são vistos se engajando em uma forma mecanizada de pensamento que abstrai o desenvolvimento humano e a comunidade da sua vitalidade: o mundo sensível da diversidade cultural humana. Para Herder, a consequência inevitável dessa perspectiva histórica simplista é a criação de um cosmopolitismo abstrato, uma “cultura do papel” baseada em uma concepção idealizada da vida cultural europeia do século XVIII. Ele ressalta que 

"o tom geral filosófico e filantrópico do nosso século deseja estender nosso próprio ideal de virtude e felicidade para cada nação distante, até mesmo a mais remota idade da história... [Isso] assumiu palavras para obras, iluminação para a felicidade, maior sofisticação para a virtude e, dessa forma, inventou a ficção da melhoria geral do mundo”. 

Essa condição, os filósofos acreditavam, acabaria por abraçar toda a humanidade com o progresso do Iluminismo.

Do ponto de vista de Herder, no entanto, a realização de uma filosofia geral desse tipo, com suas “axiomas racionais do comportamento humano,... trivialidades sobre o que é certo e bom; visões de todos os tempos e de todos os povos para todos os tempos e todos os povos, “só poderia ter consequências desastrosas. Tal condição cosmopolita, ele acreditava, poderia tomar nenhuma outra forma de sujeição da grande diversidade de culturas nacionais às normas limitadas culturais da sociedade europeia. Herder é particularmente sensível à maneira em que tais princípios abstratos racionalistas como a igualdade, liberdade e fraternidade podem ser invocadas para justificar uma condição de dominação manifesta de uma cultura em detrimento de muitas. “A peça de generalidades que caracterizam a nossa filosofia [iluminista] pode esconder opressões e violações da. . . liberdade dos homens e países, dos cidadãos e dos povos”. Um mundo cosmopolita do tipo proposto pelos filósofos poderia, Herder acreditava, ser um mundo onde todas as unidades criativas espontâneas de diversas comunidades culturais seriam sufocadas em favor de um ideal cultural europeu externamente imposto e a vida humana seria reduzida a uma existência monótona rotineira. Dentro dessa condição artificial onde os laços culturais internos que ligam pessoas em uma unidade criativa dinâmica são suprimidos, a base natural da criatividade humana consciente cessaria e todo o desenvolvimento humano significativo seria excluído. Para Herder, uma sociedade cosmopolita não seria mais do que uma estrutura remendada frágil totalmente desprovida de vida cujos componentes seriam ligados através de dispositivos mecânicos ao invés de laços sentimentais humanos. 

A própria concepção particularista de Herder sobre a comunidade cultural como já apresentamos, com sua ênfase sobre o caráter naturalmente gerado do Volk como uma condição orgânica de pertença cultural, representa sua alternativa humanista às implicações "desumanas" vistas como implicitas na perspectiva cosmopolita abstrata. Em oposição a crença dos filósofos na perfectibilidade infinita da natureza humana, Herder afirma o potencial natural limitado dos seres humanos para associações significativas e interação criativa.    

 “A nossa cabeça e o nosso coração não são formados por uma provisão infinitamente crescente de pensamentos e sentimentos... Essa mentalidade que engloba muito dentro da sua esfera de atividade como parte de si, alcança a felicidade, enquanto o que prolonga seus sentimentos está fadado a dissipá-los em meras palavras e nada colhe pelo sofrimento”.

Somente quando as pessoas possuem esse sentimento de unidade com o coletivonacional elas se sentem à vontade e livre para desenvolver os seus poderes criativos. Uma vez que perdem esse sentido de comunhão com a comunidade Volk, os seres humanos tornam-se alienados e não são mais capazes de agir de forma inconscientemente criativa. Assim, a tentativa de estender os domínios da socialização humana para além da unidade orgânica cultural do Volk é ultrapassar os limites naturais que limitam o desenvolvimento de afinidade consciente entre as pessoas.

Essa concepção da condição humana natural como uma das integrações conscientes na vida cultural do Volk, ou nação, foi a formação de uma influência importante sobre o desenvolvimento posterior da ideologia política do nacionalismo através da sua incorporação nos escritos teóricos de tais pensadores alemães posteriores como Fitche, Jahn e Arndt. No entanto, como é descrito na teoria de Herder sobre a comunidade cultural, essa noção de nacionalidade cultural é uma essencialmente tolerante, livre das tendências agressivas de versões políticas posteriores. Na realidade,a teoria de Herder sobre a nacionalidade cultural é, em primeiro lugar, uma teoria sobre a liberdade de todos os grupos nacionais para expressar suas identidades culturais ao máximo. Contra a preocupação do Iluminismo, com a emergência prospectiva de um mundo unificado e integrado baseado em um único conjunto de leis universais, Herder considera um mundo de diversidade cultural infinita e seus escritos representam uma celebração da divesidade cultural como a fonte de tudo o que é rico e progressivo na vida humana.

Visto dessa perspectiva, a consideração de Herder sobre o desenvolvimento histórico da comunidade Volk faz parte de uma visão mais ampla dentro do seu pensamento que envolve um processo de evolução espiritual que abraça a humanidade como um todo. A essência da maior dimensão do trabalho de Herder é capturada na sua noção de Humanität — a essência humana comum manifesta nas formas culturais de cada comunidade nacional. Herder observa que, enquanto a existência cultural humana pode ser modificado de mil maneiras diferentes, “dentro de si uma única variação sobre o tema da humanidade e tendência correspondente a desenvolve essa variante ao máximo. Assim, apesar do vasto panorama de mudança e diversidade cultural na história humana, Herder defende que a mentalidade divina tem combinado a maior multiplicidade possível com unidade. A Humanität foi dispersa por toda a terra.  

"Desde que uma forma de humanidade e uma região não puderam abranger isso, foi distribuída em milhares de formas, transmutando-se como um Proteus eterno pelos continentes e séculos.  E mesmo que não fizesse nenhum esforço para a maior felicidade do indivíduo...todavia, um plano de esforço progressivo se torna aparente”. 

O desdobramento progressivo dessa essência humana comum parece envolver um processo aparentemente interminável que, a cada nova comunidade nacional, emergem novas e únicas expressões de Humanität. Em última análise, então, dentro da perspectiva cultural relativista de Herder, a elaboração histórica das diversas formas culturais constitui um drama sem fim, “a epopéia de Deus através de todos os séculos... uma fábula com mil variações cheias de significado”. 

III

A análise anterior traz claramente a natureza dos argumentos de Herder contra as pretensões e pressupostos universalistas da concepção Iluminista da história, enraizados como eles estão em uma profunda crença no valor intrínseco da diversidade cultural humana. Agora quero indicar mais explicitamente as áreas importantes de comunalidade entre a teoria da comunidade cultural apresentada acima e a concepção relativista de desenvolvimento cultural humano formulada por Lyotard.

O que Herder e Lyotard atacam em seus escritos, embora em diferentes estágios do seu desenvolvimento histórico, é o paradigma do conhecimento cultural decorrente da filosofia do Iluminismo. Além disso, apesar das importantes diferenças nas suas origens históricas, o caráter básico e os objetivos das suas críticas ao paradigma Iluminista de conhecimento são muito semelhantes. O cerne de ambas as críticas é uma rejeição das pretensões de objetividade desse paradigma e, em consequência disso, sua pretensão de constituir uma forma superior de conhecimento senão essas formas culturais de conhecimento diferindo em virtude da sua capacidade de legitimação racional. Partindo de uma visão de uma natureza inerentemente relativa e pluralista do conhecimento cultural humano como uma construção arbitrária linguística, tanto Herder quanto Lyotard rejeitam tais reivindicações de objetividade baseadas em uma reificação artificial de uma forma cultural particular e  limitada ao status de universalidade.

Na teoria de Herder, essa pretensão de superioridade epistemológica promovida pelos filósofos iluministas se vê com base em sua crença errônea na existência de um conjunto de princípios racionais eternos e abstratos inerentes à natureza humana, que existem independentemente dos processos formativos contigentes da história . Conforme concebidos pela razão crítica dos filósofos, esses princípios racionais foram considerados ​​para transcender as superstições e mitos de épocas anteriores, formando a medida contra a qual as culturas anteriores não-iluminadas foram julgadas e, finalmente, consideradas deficientes. Ao elaborar sua concepção  histórica relacionada com a cultura sobre o desenvolvimento humano, Herder procura expor a natureza contingente das reivindicações dessa cultura iluminista à validade universal e, desse modo, revelando a verdadeira base desse discurso “universalista” nas categorias reificadas de uma cultura limitada Europeia.

Da mesma forma, na teoria de Lyotard, a reivindicação da forma de conhecimento científico moderno para a superioridade epistemológica é baseada sobre a suposta capacidade do jogo de linguagem científico de verificar suas reivindicações de conhecimento pela referência aos princípios objetivos de verificação ou prova. Além disso, é a sua incapacidade de enfrentar os rigores do teste objetivo com base nesses princípios científicos que determina a inadmissibilidade das formas de conhecimento das culturas tradicionais, para o corpo de conhecimento aceito como legítimo e significativo pela cultura científica moderna. No entanto, de forma semelhante a Herder, Lyotard enfatiza a natureza perigosa das reivindicações do discurso científico moderno de objetividade universal. Como apenas uma das muitas formas de conhecimento historicamente geradas dentro dos jogos de linguagem arbitrárias das culturas humanas, a forma de conhecimento científico moderno é, em última análise, incapaz de validar suas afirmações à objetividade em seus próprios termos. Pelo contrário, suas pretensões de superioridade epistemológica são consideradas para confiar um apelo a um discurso mais fundamental e legitimador da mesma forma narrativa que seu próprio paradigma denotativo especificamente exclui. Esse discurso legitimador acaba por ser a meta-narrativa da emancipação histórica do sujeito humano racional – o mesmo discurso universalista do Iluminismo, que é o foco da crítica de Herder. 


Para  Herder e Lyotard então, o sucesso das reivindicações da forma do conhecimento Iluminista para a legitimação objetiva só é possível através da sua reificação, por sua abstração a partir da realidade de suas origens nesses processos constitutivos da prática cultural linguística que representa a fonte comum de todas as formas de conhecimento. O estado hegemônico desse discurso cultural moderno só é sustentável na medida em que suprime sua própria natureza contingente relativa a cultura — um ato de negação que implica inevitavelmente na repressão dessas outras formas culturais historicamente diversas que apresentam a verdadeira face da sua própria  natureza limitada arbitrária. Somente com o desaparecimento dessa forma cultural racionalista moderna, eles acreditam, as implicações opressivas da demanda para a validação objetiva do conhecimento que ameaçam a perpetuação de diversas perspectivas culturais serão superadas. 
Embora as suas críticas ao paradigma Iluminista de conhecimento apresentem semelhanças notáveis​​, também é importante observar as diferenças significativas nas perspectivas de Herder e Lyotard — diferenças que emergem mais claramente nos seus respectivos pontos de vista sobre o processo de decomposição desse discurso cultural hegemônico e a natureza do mundo relativista decorrente desse processo desintegrativo. Ao traçar esses pontos de divergência dos seus pensamentos, alguma consideração precisa ser dada ao ambiente cultural diferente no qual as concepções básicas da língua e cultura adotadas por esses dois pensadores são formadas. Por isso, é o modo como essas influências contemporâneas moldam seu entendimento da língua e cultura como o meio central do desenvolvimento humano criativo que representa, em grande parte, as diferenças aludidas aqui.

No caso de Herder a crítica que ele dirige contra a forma de conhecimento cultural do Iluminismo está devidamente situada como parte de uma grande corrente do pensamento intelectual alemão da época, centrado em torno das ideias radicais do Sturm und Drang. Esse movimento de crítica literária e artística, que incluía entre entre eles figuras como o jovem Goethe e Schiller, demonstrava  a fonte de algumas das ideias centrais associadas com o movimento Romântico alemão. Mas, como Taylor observou, sua característica mais distintiva era a aspiração primordial do Sturmer und Dranger de recapturar a unidade fundamental da experiência humana fendida pela razão dicotomizada do Iluminismo. Em oposição a essa posterior bifurcação “artificial” da experiência humana nas categorias antitéticas de pensamento e sentimento, razão e emoção, e humanidade e natureza, que aspiravam a uma concepção ideal de vida como a unidade harmoniosa dos seres humanos com eles mesmos (a sua natureza espiritual ) e seu mais amplo mundo natural e social. A concretização dessa unidade com o próprio mundo era de maior importância para Sturmer na medida em que constituia a condição indispensável para a auto-expressão espiritual humana — o requisito essencial para a realização do autêntico ser humano. Além disso, a linguagem e as criações culturais geradas pela atividade linguística humana que foram identificadas como o meio essencial pelo qual essa expressiva unidade criativa  alcançou sua realização. Nas criações naturais da linguagem humana, o Sturmer acreditava, podia-se discernir a expressão estética da comunidade harmoniosa dos povos com a totalidade espiritual que formou seu mundo. 

Através das suas criações literárias pessoais, diferentes membros do Sturm und Drang tentaram articular seu profundo sentido da fragmentação contemporânea dessa unidade espiritual criativa da existência humana consequente sobre o impacto cultural do Iluminismo sobre a ordem social existente. Essa avaliação pessimista do caráter da vida cultural contemporânea também incentivou uma tendência mais generalizada entre muitos dos Sturmer a se identificarem com as formas de vida tradicional das classes mais baixas da sociedade alemã como a encarnação do seu ideal. O mundo social dos camponeses, agricultores e artesãos alemães, seus costumes e tradições culturais decorrentes de uma vida simples de interação com a natureza praticamente intocada pela “artificialidade” que afetava as classes sociais mais altas da sociedade alemã, pareceu resumir, para muitos dos Sturmer, a existência harmoniosa espiritualmente gratificante a qual eles mesmos aspiravam. Portanto, nos seus escritos, encontramos a primeira expressão da concepção idealizada do povo comum, ou Volk, e da celebração do folclore e da língua alemã que estavam se tornando temas dominantes do posterior movimento romântico alemão.  

Esses temas gerais do Sturm und Drang, receberam uma poderosa expressão no pensamento de Herder. Vimos como ele constrói uma filosofia distinta da história, que identifica a unidade orgânica natural do indivíduo e da comunidade cultural como a condição essencial para a realização desses poderes espirituais criativos que distinguem os seres humanos como seres linguísticos conscientes. Além disso, para Herder, a perpetuação desse processo de desenvolvimento cultural criativo pressupõe a preservação dessa unidade espontânea imediata dos seres humanos com o Volk e suas formas culturais tradicionais facilitadas pelo poder integrativo do desenvolvimento natural da língua nacional. Na medida em que isso ameaça fragmentar essa harmoniosa unidade natural, a forma de conhecimento artificial Iluminista não pode ter lugar dentro desses processos histórico de desenvolvimento cultural.  Ao corroer os costumes e tradições desenvolvidos organicamente sustentando o processo histórico de desenvolvimento cultural, essa forma divisível de conhecimento poderia efetivamente destruir as fundações sobre as quais a expressão contínua das diversas formas de vida cultural das espécies se assentam. Assim, Herder é intransigente na sua rejeição total do paradigma cultural “não natural” do Iluminismo em favor da preservação de um mundo pré-racionalista no qual a multiplicidade de culturas tradicionalmente desenvolvidas recebe plena expressão.  

Escrevendo em um estágio muito posterior no desenvolvimento da forma de conhecimento Iluminista e respondendo a diferentes influências culturais, a visão de Lyotard de uma condição pós-moderna relativista da diversidade cultural contrasta marcadamente com a perspectiva de Herder. Em seus escritos encontramos nenhuma noção de um possível retorno da ordem pré-moderna e não científica abrangendo as culturas tradicionais de conhecimento narrativo. Na verdade, Lyotard usa uma abordagem mais dialética, moldada por sua sensibilidade ao impacto da revolução informativa na sociedade ocidental contemporânea.  A sua avaliação das implicações dessa última para a natureza da vida na sociedade moderna — uma avaliação fortemente colorida pela influência Nietzschiana permeando seu pensamento — é o fator principal que dá forma a sua concepção do mundo pós-moderno emergente.

 [História e Teoria, Vol. 27, N° 2 (Maio, 1988), p. 146-168].