19/10/2012

Ramiro Ledesma Ramos, um Nacional-Bolchevique?

por Juan Antonio Llopart



Falar hoje sobre o Nacional-Sindicalismo e sobre seu fundador Ramiro Ledesma Ramos, é pelo menos dificultoso. O é fundamentalmente porque quase trinta anos após a morte de Franco, os historiadores oficiais, os meios de comunicação e as pessoas mais rancorosas - quer sejam de direita ou de esquerda - carentes de rigor histórico, seguem vinculando erroneamente, falsamente e em alguns casos intencionalmente, o Nacional-Sindicalismo com o regime de Franco.

Desde o 19 de abril de 1937 com a aprovação do Decreto de Unificação com o qual Franco e Serrano Súñer criaram esse híbrido denominado "FET y de las JONS", ressonou na vida dos espanhóis aquela consigna de "por Deus, Espanha e sua Revolução Nacional-Sindicalista", e ainda que certamente houvesse muito de "por Deus" e muito de por "SUA" Espanha, nada houve de Revolução Nacional-Sindicalista. O povo espanhol viveu envolto durante quase quarenta anos de parafernália Nacional-Sindicalista, porém sem a essência, o espírito e a ideologia Nacional-Sindicalista; tudo o que foi apresentado como tal foi falseado pelos elementos do regime nascente: tecnocratas do Opus Dei, monárquicos e direitistas reacionários, amparados todos eles pela Igreja Católica e pelo Exército.

Enquanto isso, os autênticos Nacional-Sindicalistas eram condenados ao silêncio. Manuel Hedilla, segundo Chefe Nacional da FE de las JONS, Ruiz Castillejos, de los Santos, Chamarro, eram condenados à morte. Félix Gómez e Ángel Alcázar de Velasco, à prisão perpétua. Outros, a vários anos de prisão...seu delito: se opor ao Decreto de Unificação e à falsificação do Nacional-Sindicalismo.

Alguns Nacional-Sindicalistas acreditaram que desde dentro do regime do general Franco conseguiriam influir sobre ele. Outros, os mais decididos na ação e no compromisso optaram pela luta clandestina [1], e os mais, aceitaram a Unificação. Essa última atitude era compreensível em uma organização que se viu incrementada de forma exagerada por elementos provenientes de partidos direitistas e reacionários, os quais pretendiam utilizar o Nacional-Sindicalismo como trampolim político, assim como para convertê-lo na guarda do cassetete dos interesses da burguesia.

É indubitável que se Ramiro Ledesma Ramos tivesse sido compreendido quando acusava a FE de las JONS de ser condescendente com a direita, se José Antonio tivesse aceitado as críticas de Ramiro e não tivesse tardado tanto em compreendê-las [2], o destino do Nacional-Sindicalismo teria sido com toda segurança outro. Ambos morreram assassinados pelo Governo da Frente Popular, porém ambos foram assassinados dia após dia, ano após ano pelo regime de Franco e depois desse, por todos aqueles que com sua camisa azul, com seus correames, e sua brilhantina fizeram da fanfarronada, do bullying e do direitismo sua base de ação, atitude essa, que nada deve de invejar a que anos atrás tivessem em Salamanca indivíduos tais como Dávila, Aznar ou Garcerán.

Ramiro Ledesma Ramos, um Nacional-Bolchevique?

Se como indiquei em ocasiões anteriores, o Nacional-Bolchevismo é a união harmônica entre as concepções mais radicais do nacional e do social, evidentemente podemos afirmar que Ramiro Ledesma Ramos era um Nacional-Bolchevique. "Eis aqui essas duas alavancas: uma a ideia nacional, a Pátria como empresa histórica e como garantia de existência histórica de todos os espanhóis; outra, a ideia social, a economia socialista, como garantia do pão e do bem-estar econômico de todo o povo" [3] afirmará com segurança Ramiro.

Desde um princípio, Ramiro e suas Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista (J.O.N.S.) aspiraram a atrair para si os trabalhadores para a causa nacional, e é que os jonsistas queriam "se dotar de uma ampla base proletária". Essa inquietude era reflexo fiel de sua extração social: proletários, camponeses e intelectuais de corte radical, com ímpeto revolucionário frente à ordem burguesa. Um dos constantes temores de Ramiro, uma de suas preocupações mais dolorosas era que confundissem o jonsismo "com uma frívola e vã tarefa de senhoritos".

Com as JONS nascia na Espanha, nas palavras de Ramiro "um movimento político, de entranha nacional profunda e grandes perspectivas sociais, melhor dito, socialistas" [4]. Ramiro tem muito claro qual é o papel das direitas e não duvida em acusá-las como um dos males maiores que apertam seu povo, ao mesmo tempo em que não duvida tampouco em denunciar o patriotismo de opereta, "já faz muito tempo que sabemos bem a que nos ater em relação ao 'patriotismo' direitista, acima de tudo o das forças mais diretamente clericais e ligadas às sacristias. Cada dia é mais evidente em nós a suspeita de que a debilidade nacional da Espanha se deve em grande parte ao "patriotismo inoperante, falso e sem valor" que até agora tem regido, incubado e orientado no setor direitista" [5].

Em Ramiro o destino da coletividade sempre vai unido a uma justa distribuição da riqueza, "A submissão da riqueza às conveniências nacionais, quer dizer, à pujança da Espanha e à prosperidade do povo" [6]. Sempre nos jonsistas houve claras consignas sociais e econômicas: "Conosco, pois os trabalhadores; A nacionalizar a banca parasitária; a nacionalizar os transportes; a impedir a ação da pirataria especuladora, e a exterminar os grandes acumuladores de produtos" [7]. O Nacional-Sindicalismo jonsista tinha muito claro quais deviam ser as aspirações básicas da coletividade: "As JONS pedem e querem a nacionalização dos transportes, como serviço público notório; o controle das especulações financeiras da alta banca, garantia democrática da economia popular; a regulação dos juros produzidos pelo dinheiro empregado em explorações de utilidade nacional; a democratização do crédito, em benefício dos sindicatos. Agrupações comunais e dos industriais modestos; abolição do desemprego forçoso, fazendo do trabalho um direito de todos os espanhóis, como garantia contra a fome e a miséria; igualdade perante o Estado de todos os elementos que interferem na produção (capital, trabalho e técnicos), e justiça rigorosa nos organismos encarregados de disciplinar a economia nacional; abolição dos privilégios abusivos e instauração de uma hierarquia do Estado que alcance e se nutra de todas as classes espanholas" [8]. Tais eram pois, as consignas das JONS. Alguém pode duvidar de sua expressividade e de seu espírito popular e revolucionário?



Ramiro, assim como outros pensadores Nacional-Bolcheviques da época, não duvida em criticar o fascismo quando este gira à direita. Dele afirma: "...triturou, em efeito, as instituições políticas da burguesia e dotou aos proletários de uma nova moral e de um otimismo político...porém, triturou também ou mesmo debilitou as grandes fortalezas do capital financeiro, da alta burguesia industrial e dos terratenentes em benefício da economia geral de todo o povo?, e ademais, vai realmente fazendo possível a eliminação do sistema capitalista e baseando cada dia mais o regime nos interesses econômicos das grandes massas" [9]. Indubitavelmente com tais afirmações é compreensível e lógico que Ramiro fosse silenciado e marignalizado pelo regime de Franco, posto que como é sabido por todos, este se apoiou para se assentar no poder precisamente nessas grandes fortalezas do capital financeiro mencionadas por Ramiro.

Para Ramiro e suas JONS eram totalmente condenáveis os fascismos de opereta, "grupos sem dimensão profunda, artificiosos, que importam o fenômeno fascista como quem importa um gênero de moda qualquer" [10]. E se mostra duro, muito duro, com esses movimentos fascistas de importação ao afirmar que: "Ali está Mosley com suas camisas, seu partido fascista e seus sonhos mussolinianos; como aqui Primo de Rivera, com outra equipe de igual natureza...tem um chefe, um Duce aristocrata, milionário, que gasta seus recursos em organizar o Partido. Assim Mosley, o inglês, que é um Sir, multimilionário e extravagante. Assim Primo de Rivera, o espanhol, que é Marquês de Estella, milionário e extra-chique. Assim Starhemberg, o austríaco, que é príncipe, milionário e tudo o mais. Todos eles são movimentos brandos, pastosos, de algodão, de boas formas, aspirantes a implantar um dito Estado Corporativo...Se caracterizam também por sua tendência notória a desconhecer toda angústia popular pois se incubam em meios sociais de privilégio, e estão ligados a todas as formas reacionárias da sociedade" [11].

Ramiro também adquire compromisso revolucionário com o campo espanhol. Suas palavras são balas dialéticas contra o capitalismo rural: "Espanhóis Campesinos: a terra é a nação. O campesino que a cultiva tem direito a seu usufruto. O regime da propriedade agrária até agora imperante tem sido um roubo consentido e perpetrado pela Monarquia e suas hordas feudais. Campesinos! Cento e quarenta e sete grandes terratenentes tem em suas mãos mais de um milhão de hectares de terra! Toda a terra é vossa. Exigi sua nacionalização!" [12].

Essas afirmações assustarão às mentes bem-pensantes da direita e da extrema-direita. Muitas dessas propostas estão totalmente esquecidas pelos partidos tradicionais da esquerda, e inclusive abandonadas pelos esquerdistas mais radicais.

"Viva o mundo novo! Viva a Espanha que faremos!". Tais eram as consignas e os gritos jonsistas. Eram sem lugar para dúvidas proclamações novas, gritos de esperança, porém acima de tudo, gritos de revolução. Sim, de revolução, porque eram homens fartos de um mundo podre, pleno de injustiças, de explorados e de exploradores, de ricos cada vez mais ricos e de pobres cada vez mais pobres. Havia uma necessidade imperiosa, popular e revolucionária: subverter a ordem burguesa. E nessa tarefa lutavam as JONS. Ramiro soube imprimir esse espírito entre seus camaradas, os quais compreendiam a necessidade de se distanciar da vulgaridade burguesa, de evitar todo o velho e todo o caduco.

Assim a primeira tarefa do Nacional-Sindicalismo "foi a de enlaçar esses dois ingredientes separados: o nacional e o social, a Pátria e o Trabalho. Ninguém pense que a adoção do termo ao mesmo tempo encantador e polêmico, da revolução nacional-proletária, fosse nos fundadores obra de tática reflexiva e cautelosa, senão consequência imediata de viver profunda e entranhavelmente a história de nosso tempo" [13]. Essas palavras de Pedro Laín Entralgo nos aproximam novamente à aspiração jonsista do social e do nacional.

Os Nacional-Bolcheviques preferiam uma aliança ou aproximação com a Rússia soviética, antes do que com as democracias ocidentais, como Grã-Bretanha, fato que os diferenciava claramente dos planejamentos de Hitler... E nesse contexto, de novo devemos recorrer a Pedro Laín Entralgo quando afirma: "Como observou com vista aguda Ramiro Ledesma, o comunismo soviético vai se convertendo cada vez mais em um nacional-comunismo. Stálin está fazendo a virada da revolução mundial proletária de Lênin à revolução nacional russa" [14]. Essas palavras podem parecer exageradas, porém Ramiro em diversas ocasiões faz afirmações parecidas: "A Rússia, com seu regime nacional-comunista, com moral de guerra, super armada, em pleno experimento de gigantescas subversões sociais, não é já, desde logo, o país revolucionário que conspira a cada dia pela revolução mundial" [15]. Ou quando afirma: "é a rotunda eficácia do Estado soviético, que oferece ao povo russo, de um modo coativo e indiscutível, a possibilidade de tomar augusta disciplina nacional. Hoje Stálin assegura seu plano econômico esgrimindo a fúria nacionalista russa" [16].

Está claro que Ramiro não era em absoluto comunista, e o mesmo nos esclarece o motivo: "Frente ao comunismo, com sua carga de razões e eficácias, colocamos uma ideia nacional, que ele não aceita, e que representa para nós a origem de toda iniciativa humana de caráter garboso. Essa ideia nacional entranha uma cultura e valores históricos que reconhecemos como nosso patrimônio mais alto" [17].

Ramiro, Falange e a Cisão

Em 13 de fevereiro de 1934 se selava entre as JONS de Ramiro e a FE de José Antonio o acordo de fusão.

Essa união nascia com fortes discrepâncias entre os próprios jonsistas. Dentro de seu seio coexistiam duas posturas, a de se opor a dita união devido ao temor e à desconfiança em relação aos falangistas por considerá-los demasiado direitizados e a de aceitar o acordo com os falangistas por crer que ambas organizações se veriam fortalecidas e se enriqueceriam. A opção triunfante foi a segunda. Logo após conhecer a decisão do Conselho jonsista, seu dirigente galego, o antigo comunista Santiago Montero Díaz, enviava uma carta a Ramiro dando baixa da organização.

Assim pois, se concretizava uma fusão marcada pela dissidência. De fato ninguém poderá negar que dentro da FE existiam núcleos fortemente direitizados com força relevante dentro do movimento.

Porém certo é também, que dentro da FE existiam igualmente reticências ante a fusão, pois não esqueçamos que em seu seio conviviam monarquistas, direitista, autênticos revolucionários e alguns futuros militantes carlistas. A principal preocupação dos falangistas era a forte carga social que imprimiam os jonsistas, em especial sua radicalidade econômica. Temiam a proletarização da FE.

Caberia aqui recordar que um dos pontos de fusão entre as JONS e a Falange Espanhola apontava o seguinte: "Se considera imprescindível que o novo Movimento insista em forçar uma personalidade política que não se preste a confusões com os grupos direitistas" [18].

Em 16 de fevereiro saía o primeiro número de La Patria Libre. Ramiro, junto com outros antigos jonsistas se haviam separado da Falange Espanhola. Com essa nova publicação pretendiam seguir na luta política desde o prisma anti-burguês e Nacional-Sindicalista revolucionário das primitivas JONS.

Os defensores da "verdade josé-antoniana" não duvidaram, nem duvidam, em desprestigiar Ramiro, em sepultá-lo na mais falaciosa crítica. Foi acusado de invejoso, foi ridicularizado pelo próprio José Antonio sobre certos "gevolucionários" em alusão ao pronunciamento de Ramiro da letra "r". Na maioria dos livros sobre o Nacional-Sindicalismo escritos por falangistas, Ramiro é considerado como um autor secundário do Nacional-Sindicalismo, do qual se perde o rastro após a cisão - para os falangistas expulsão.



Assim nos encontramos com afirmações como essa de Francisco Bravo: "Ramiro não soube se comportar com suficiente decoro". O franquista Ximénez de Sandoval, aponta: "Ledesma tinha o errôneo conceito de crer necessário para uma Revolução Nacional o tipo de chefe proletário..., de possuir justa soberba criadora" [19]. Porém se há alguém que merce um comentário à parte esse é Raimundo Fernández Cuesta, um dos principais culpados pela direitização da Falange durante esses anos, o principal lacaio da Falange franquista e o que uniu a Falange com a extrema-direita mais reacionária durante a transição espanhola; esse sujeito escreve em uma carte fechada em 9 de fevereiro de 1942 o seguinte: "O episódio da expulsão de Ramiro tem sua origem na inveja pessoal que sentia por José Antonio, nascida quiçá das diferenças de origem, ambiente e educação. Era a expressão na Falange da luta de classes, que em Espanha ameaçava todas as atividades. Isso unido à difícil situação econômica de Ramiro, lhe tornava apto para ser instrumento dos partidos direitistas, que desejavam semear cinzas em nossas fileiras" [20]. Em resumo, para o que foi o terceiro Chefe Nacional da Falante Espanhola, Ramiro, o fundador e principal teórico do Nacional-Sindicalismo, não era mais que um invejoso e um pobre homem comprado pelas direitas para provocar o descalabro no movimento falangista.

Existem numerosas opiniões sobre a cisão de Ramiro, porém quiçá seria mais correto ler o que o próprio Ramiro afirmou acerca da cisão: "Quem crer que nossa ruptura com a Falange Espanhola obedecia ao mero capricho e que carecia de dimensões profundas padece de um equívoco notório. Nós, os jonsistas, observamos as limitações ditas, vimos com clareza que era chegada a hora de mudanças radicais na orientação, na tática, e nos dirigente e, como nada disso poderia ser conseguido ali, damos de novo vida às J.O.N.S." [21].

Durante um certo tempo os enfrentamentos verbais e inclusive físicos entre alguns valentões da FE e os seguidores jonsistas de Ramiro foram constantes. "Não há dia em que algum dos dirigentes das JONS não seja provocado nas ruas por algum dos dez ou doze rufiões assalariados de que dispõe Primo de Rivera", "os ataques que os dirigentes falangistas tem lançado aos das JONS são próprios, dissemos e repetimos, de seres rufianescos, de seres residuais, que vivem alheios de toda solvência moral e de todo propósito limpo" [22].

O próprio Francisco Bravo reconhece em seu livro "José Antonio. O Homem. O Chefe. O Camarada, pág.83", que a venda e distribuição de La Patria Libre foi perseguida pelos falangistas, ao mesmo tempo que afirma que "José Antonio evitou que alguns dos nossos, excitados pelos ataques injustos do fundador das JONS, lhe dessem um tiro". Lástima que Bravo não nos indique quem dos "seus" queria assassinar o líder jonsista.

Ramiro nunca quis responder aos ataques falangistas e sempre quando se viu obrigado a fazê-lo, o fez desde as páginas de La Patria Libre.

O certo é que Ramiro, junto a Onésimo Redondo, Manuel Mateo e Álvarez de Sotomayor se reuniram na cafeteria Fuyma para comentar a situação da FE de las JONS. Em dita reunião tanto Onésimo como Mateo apontaram para a necessidade de fazer alguma coisa, posto que a situação era angustiosa. Segundo Martínez de Bedoya "José Antonio estava rodeado de senhoritos, que ocupavam cargos, ciumentos de suas atribuições, e que inclusive se haviam fixado salários". A decisão dos quatro reunidos foi a de se separarem da Falange Espanhola e reorganizar as JONS. Para isso Mateo assegurava o apoio decidido da CONS (Central Operária Nacional-Sindicalista), o que unido à adesão da delegação mais forte, a de Valladolid de Onésimo Redondo, dava garantia certa de êxito. A verdade é que uma vez convencido Ramiro, que era o mais reticente dos quatro em relação à separação, somente Álvarez de Sotomayor acabou secundando o ali decidido. Mateo se desdisse e foi nomeado (como prêmio?) por José Antonio chefe da CONS.

Onésimo Redondo decidiu na última hora se manter às ordens de José Antonio, esquecendo-se do acordado com Ramiro. Foi essa uma estratégia dos falangistas para apartar Ramiro e seus colaboradores mais imediatos da organização? Poucos foram os que seguiram Ramiro - Martínez de Bedoya, Gutiérrez Palma, Poblador, de novo se uniu a sua luta Montero Díaz. Porém o que verdadeiramente importava era que a bandeira do Nacional-Sindicalismo revolucionário voltava a estar alçada.

Ramiro prosseguiu sua atividade política e nem as agressões a seus militantes por parte dos falangistas, nem o ataque a seu local social na rua Amaniel em Madri por mafiosos a mando de Aznar e Valcárcel, nem as constantes desqualificações fizeram afetaram a ele e seus camaradas.

É necessário apontar, também, que Ramiro nunca foi muito bem visto pelos josé-antonianos, e sabemos que essa asseveração encolerizará os "puristas" da Falange. Porém o certo é que sem Ramiro o Nacional-Sindicalismo não existiria, e essa é a verdade. José Antonio ajudou a dar corpo ao Nacional-Sindicalismo - essencialmente durante os últimos meses de 1935 e até que ceifaram sua vida em 20 de novembro de 1936, porém sem o assentamento e as bases de Ramiro, a Falange não teria sido mais que uma vulgar organização ultradireitista.

Não seria justo não aceitar críticas a Ramiro, pois é indubitável que como todos errou algumas vezes. Porém quando essas críticas são tendenciosas ou quando esses ataques contra ele só demonstram um desconhecimento profundo de suas ideias, não é tão só lamentável, senão condenável.

Assim na revista Sindicalismo na qual colaboraram entre outros Sigfredo Hillers de Luque, aparece dentro do capítulo "Conversas da Baleia Alegre" um requadro entitulado "O sindicalismo de Ramiro Ledesma Ramos" - este artículo aparece reproduzido 28 anos depois, sem nenhum tipo de comentário ou de correção no número 22, correspondente aos meses de maio-julho de 1992 da revista Não Importa, órgão da Falange Espanhola Independente, pelo que creio aprovam o ali expressado - em que se afirma o seguinte: "O Nacional-Sindicalismo de Ramiro Ledesma e o de José Antonio de 1935, pouco ou nada tem que ver entre si...a separação de Ramiro da Falange, independentemente dos problemas pessoais (que de fato houve) e pelos quais se pretende explicar tudo, se deveu sem dúvida alguma a que José Antonio e Ramiro, ainda falando com as mesmas palavras, queriam coisas diferentes... Frente à progressiva radicalização fascista de Ramiro, está a progressiva radicalização sindicalista de José Antonio". É evidentemente uma opinião falangista, obviamente, mas carente de toda credibilidade no que concerne o progressivo fascismo de Ramiro, o qual não duvida em afirmar: "Não pretendem já (os jonsistas), tanto ele (Ramiro) como seus camaradas, organizar, nem remotamente o fascismo. O que nas velhas JONS havia de fascismo recolhe hoje Primo de Rivera, acima de tudo em suas propagandas últimas. Aqueles entendem que sua missão é outra".



Ramiro e os Sindicalistas da CNT

Nos escritos de Ramiro são constantes os comentários e as afirmações favoráveis em relação a certos setores da CNT. Assim no número 14 de La Conquista del Estado, aparece uma página inteira dedicada ao Congresso Extraordinário da CNT e na qual afirma Ramiro: "Temos de estar junto à CNT nesses momentos de imediata batalha sindical, nesses instantes de ponderação de forças sociais. Assim acreditamos cumprir com nosso dever de artífices da consciência e da próxima e genuína cultura da Espanha".

No número 11 de dita publicação aparece também publicado um diálogo entre Ramiro e Álvarez de Sotomayor, membro por então da CNT, no qual o dirigente jonsista afirma: "Os sindicatos únicos - CNT - mobilizam as forças operárias de mais bravo e magnífico caráter revolucionário que existem na Espanha. Gente soreliana com educação antipacifista e guerreira...quando chegue o momento de hastear as diferenças radicais, nós o faremos; porém enquanto tanto, os consideramos como camaradas e em muitas ocasiões dispararemos com eles, no afã de destruição e de morte contra a mediocridade e a palidez burguesas".

Dentro da CNT não faltaram as dissidências e as cisões, provocadas em grande medida pelas discrepâncias entre os sindicalistas revolucionários e os comunistas libertários da FAI, isso possibilitou mais contatos e encontros com elementos do Partido Sindicalista de Ángel Pestaña, e com agrupamentos locais cenetistas.

Ramiro faz desde as páginas do número 3 de La Patria Libre uma chamada "ao grupo dissidente da CNT, aos trinta, ao Partido Sindicalista que preside Ángel Pestaña... Aos possíveis setores marxistas que tenham aprendido a lição de outubro, a Joaquín Maurín e a seus camaradas do Bloco Operário e Campesino", aos quais diz: "Rompei todas as amarras com as ilusões internacionalistas, com as ilusões liberais burguesas, com a liberdade parlamentária. Deveis saber que no fundo essas são as bandeiras dos privilegiados, dos grandes terratenentes e dos banqueiros. Pois toda essa gente é internacional, porque seu dinheiro e seus negócios o são. É liberal, porque a liberdade lhes permite edificar feudalmente seus grandes poderes contra o Estado Nacional do Povo. É parlamentarista porque a mecânica eleitoral é matéria branda para os grandes recursos eleitorais que eles manejam: a imprensa, a rádio, os comícios e a propaganda cara" [24].

Foi uma chamada de Frente Unida Contra o Sistema e a ele acudiram numerosos dirigentes e militantes de base da CNT e de partidos de extrema-esquerda, entre eles, Guillen Salaya, Nicasio Álvarez de Sotomayor, Olalla, Pascual Llórente, Enrique Matorras, José Guerrero Fuensalida; Luís Ciudad...entre outros. Todos eles entenderam as consignas jonsistas de unir o nacional e o social. Juntos alçaram a bandeira da revolução proletária nacional.

Evidentemente, e lamentavelmente, hoje a CNT dista muito do compromisso revolucionário que demonstraram anos atrás seus camaradas, porém estamos seguros de que apesar disso, dentro de suas fileiras seguirão havendo pessoas que lutem pelo verdadeiro sindicalismo revolucionário.

Ramiro e Europa

Não seria em absoluto gratuito afirmar que hoje Ramiro seria um convicto entusiasta europeísta. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial ficou claro que a independência e autarquia de pequenos espaços nacionais está condenada ao fracasso; e só nos grandes espaços geopolíticos se pode articular uma alternativa global. Isso unido à unificadora raiz cultural dos europeus, faz da Europa um atraente projeto em comum.

E isso o entendeu perfeitamente Ramiro quando se pergunta: "Não é chegada a hora de que Espanha olhe e perceba os acampamentos europeus? Não é já de todo um ponto imprescindível que a Espanha entre na realidade europeia? Porque isso queremos" [25].

Alguém pode duvidar da vocação europeia de Ramiro? Repito, hoje Ramiro seria um fervoroso europeísta, um eurorrevolucionário, e isso apesar de todos aqueles supostos Nacional-Sindicalistas atuais que seguem encerrados, em pleno século XXI, no cercado privado de "SUA" Espanha.

Morte, Silêncio e Memória

No dia 29 de outubro de 1936 era assassinado Ramiro Ledesma Ramos, seu delito não foi outro que ser o fundador do Nacional-Sindicalismo. A justiça da Frente Popular e de suas milícias anarco-comunistas consistia em "fazer passear os fascistas" [26], nada a invejar àqueles, que prostituindo a camisa azul, mudaram sua filiação japista (das JAP), pela de falangista e se dedicavam a "fazer passear os vermelhos". Os sonhos e as aspirações de Ramiro morreram com ele, seu desejo de unir o nacional e o social permaneceria em um gesto belo e heroico. Em frente a sua casa natal de Alfaraz, província de Zamora, se erigiu a única lembrança à memória do fundador do Nacional-Sindicalismo. Um monolito triste, simples e pobre, inaugurado 25 anos depois de seu assassinato, nele se pode ler: "A Falange de Zamora a Ramiro Ledesma Ramos. 29 de outubro de 1936 - 29 de outubro de 1961". Essa foi a homenagem do regime franquista ao líder jonsista. Seguramente, este "esquecimento" do regime foi o melhor que poderia ter ocorrido com Ramiro e sua ideologia.



Um esquecimento que alcançou não só a figura de Ramiro Ledesma, senão também seus escritos, seus artigos de jornal, suas obras completas nunca editadas. Inclusive, já sabemos que esse "esquecimento" chegou ao ocultamento de iniciativas políticas impulsionadas por Ramiro depois da fusão com a Falange e após sua saída dela. Por exemplo, em 14 de janeiro de 1935 nascia em Barcelona um novo partido político. Seu lema: "O interesse geral sobre o interesse particular". Seus promotores: os jonsistas José Ma Poblador Álvarez e Emílio de Lasarte Rouzart. Seus fins:

Queremos: A completa unidade geográfica e política de Espanha

Queremos: A sujeição de todas as atividades econômicas, elementos de riqueza e das pessoas às conveniências nacionais, quer dizer: À pujança da Espanha e à prosperidade do povo.

Queremos: A eliminação dos partidos internacionais cujos fins representam a destruição da Espanha.

Queremos: A sindicação obrigatória de todos os produtores, dentro de um Estado Nacional-Sindicalista como base da unanimidade social espanhola.

Queremos: Que o Estado garanta a todos os trabalhadores o direito ao pão, à justiça e à vida digna.

O nome desse novo partido, que contava com o apoio e consentimento de Ramiro Ledesma Ramos, era Partido Espanhol Nacional-Sindicalista (P.E.N.S.).

O P.E.N.S. não realizou praticamente atividades. Os acontecimentos se precipitaram, o povo espanhol se encaminhava para uma inevitável guerra civil. Foi uma das últimas tentativas jonsistas de manter unificadas essas duas bases das quais falava Ramiro, a nacional e a social, melhor dito, socialista.

Muitos são os militantes da extrema-direita que celebram Ramiro por suas exaltações anticomunistas e patrióticas, porém esses mesmos elementos fecham os lhos ante suas proclamações socialistas e proletárias; ante suas críticas ao nacionalismo patrioteiro reacionário e ante seu profundo sentido de superação das velhas ideias caducas.

Qualquer pessoa conhecedora das propostas Nacional-Bolcheviques dos anos trinta, verá nas ideias e palavras de Ramiro, o genuíno representante espanhol dessa tendência... E certamente, fica claro que para os jonsistas a conjugação do social e do nacional significou a união de vontades revolucionárias procedentes da direita e da esquerda, ansiosos todos eles por uma nova Espanha e de uma nova concepção da comunidade popular.

Foram sem lugar a dúvidas os primeiros Nacional-Bolcheviques espanhóis e tal como diria o próprio Ramiro Ledesma Ramos ao final de seu genial "Fascismo em Espanha?", "tanto a ele como a seus camaradas lhes parecia melhor a camisa vermelha de Garibaldi que a camisa negra de Mussolini" [27].

Notas:



[1] A finales de 1939 se intentó reorganizar en la clandestinidad FE JONS. Entre otros participaron: Emilio Rodríguez Tarduchy, Patricio González de Canales, Nar­ciso Perales, Ricardo Sanz, Luis de Caralt, J.. Pérez de Cabo y Juan José Domínguez. J. Pérez de Cabo es fusilado, Patricio González de Canales es detenido, Nar­ciso Perales es confinado… La oposición Nacional-Sindicalista al régimen de Fran­co jamás cesaría desde el Decreto de Unificación. Siempre estuvo presente y es justo afirmarlo y reivindicarlo. Muchos fueron los Nacional-Sindicalistas que defendieron la verdad del Nacional-Sindicalismo, pero eso sería tema para otro artí­culo.


[2] “Consideren todos los camaradas hasta que punto es ofensivo para la Falange el que se proponga tomar parte como comparsa en un movimiento que no va a conducir a la implantación del Estado Nacional-Sindicalista… sino a reinstaurar una mediocridad burguesa conservadora, orlada, para mayor escarnio, con el acompañamiento coreográfico de nuestras camisas azules”. (José Antonio Primo de Rive­ra).


[3] Discurso a las Juventudes de España, pág. 20.


[4] Ramiro Ledesma Ramos. Escritos políticos (1935-1936), pág. 31.


[5] Ramiro Ledesma Ramos. Tomás Borras, pág. 689.


[6] Programa político de las J.O.N.S. JONS. Órgano teórico de las J.O.N.S., Madrid, año 1, cuaderno n° 1, Mayo de 1933, contraportada.


[7] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año I, nº 5, 16 de marzo de 1935, pág. 1.


[8] JONS. Órgano teórico de las J.O..N.S., Madrid, año I, cuaderno n° 7, Diciem­bre de 1933, pág. 335.


[9] Ramiro Ledesma Ramos, un romanticismo de acero. José Cuadrado Costa, pág. 37.


[10] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año 1, n° 4, 9 de marzo de 1935, pág. 4. [II] Ibídem.


[12] La Conquista del Estado, Madrid, año 1, n° 6, 18 de abril de 1931, pág. 6. [13] Ensayo de Pedro Laín Enlralgo en Ramiro Ledesma Ramos. Tomás Borras, págs 297-298. [14] Ramiro Ledesma Ramos. Tomás Borras, pág. 298.


[15] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año 1, n° 2, 23 de febrero de 1935, pág. 3. [16] Ramiro Ledesma Ramos. Tomás Borras, pág. 203.


[17] La Conquisto del Estado. Madrid, año 1, n” 3, 28 de marzo de 1931, pág. 2.


[18] Del documento de fusión de las JONS y FE. Reproducido en: Ramiro Ledes­ma Ramos. Escritos Políticos (1935-1936), pág. 111.


[19] Ramiro Ledesma Ramos. Biografía Política. José María Sánchez Diana, págs, 209 y 210.


[20] La Contrarrevolución Falangista. Raúl Martín, pág. 211.


[21] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año I, n° 6, 23 de marzo de 1935, pág. 1.


[22] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año I, n° 3, 2 de marzo de 1935, pág. 1, y, La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año 1, n° 6, 23 de marzo de 1935, pág. 4.


[23] Ramiro Ledesma Ramos. Escritos Políticos (1935-1936), pág. 155.


[24] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año 1, n” 3, 2 de marzo de 1935, pág. I..


[25] La Patria Libre. Órgano de las J.O.N.S., Madrid, año 1, n” 2, 23 de febrero de 1935, pág.. 3.


[26] Entiéndase por “fascista” en la terminología de estos partidos a aquellos que no piensan como ellos. En efecto, según las “mentes pensantes” de estas ideologí­as, “fascista” lo es Indalecio Prieto, Pestaña, Ramiro de Maeztu, cualquier católico o el mismo Ramiro Ledesma Ramos.


[27] Ramiro Ledesma Ramos. Escritos Políticos (1935-1936), pág. 155.

17/10/2012

Come Carpentier de Gourdon - Irã: Reino Ariano e Império Universal

por Come Carpentier de Gourdon


"Todas as antigas realizações da Mesopotâmia, Síria, mesmo do Egito, podem ser traçadas aos Aquemênidas; por sua vez suas descobertas na medicina, matemática, astronomia e ciência foram passadas para a Europa". - (John Curtis, Department of the Ancient Middle East, British Museum)

A ideia do Irã, como uma civilização federativa, ao mesmo tempo absorvendo e prevalecendo sobre os antigos reinos da Oeste e Sul da Ásia emerge com as conquistas e reivindicações universais de Ciro (Kurosh) o Grande, o fundador do Império Aquemênida em 549 a.C., mas os grandes Reis Medas, antes dele, já haviam laborado para unir as tribos do platô iraniano enquanto lançavam olhares de cobiça para a Assíria e Babilônia. De fato, os mitanianos, os hititas e os kassitas, para mencionar três predecessores ilustres, haviam construído poderosos estados "indo-iranianos" (por falta de uma definição cultural melhor) no Oriente Próximo, muitos séculos antes de Ciro. De fato os kassitas governaram a Babilônia durante a segunda metade do segundo milênio a.C.

Mais atrás na história, é agora possível traças as raízes da civilização iraniana pelo menos ao quarto milênio a.C., e não, como tem sido sustentado até então na Mesopotâmia, o suposto berço da humanidade celebrado na Bíblia, mas mais para o leste, onde é hoje a província de Kerman, no sítio arqueológico de Jiroft que só foi descoberta em 2001, não muito longe das costas do Golfo Pérsico, no rio Halil.

Os restos arqueológicos de Jiroft estão espalhados por uma vasta área de 400km por 300km e eles efetivamente representam um desafio direto à teoria da primazia da Suméria como mãe da civilização já que a sociedade de Jiroft já estava bem estabelecida, próspera e sofisticada por volta de 3000 a.C., e parece ter sucedido a uma cultura ainda mais antiga datada do sexto milênio a.C. Enquanto tal ela constitui o "elo perdido" entre sítios do Vale do Indo e do Beluchistão tais como Mehrangarh ao leste e os de Zagros e mesopotâmicos ao oeste, apoiando a tese de que uma antiga rede marítima e terrestre de trocas existia entre a Ásia Meridional e o Crescente Fértil, provavelmente se estendendo até o Egito e à Ásia Menor já que há evidência de relações comerciais entre essas áreas respectivas. Há muitas características da civilização Jiroft que a coloca acima da Suméria em termos de refinamento artístico e organização social. Significativamente o zigurate descoberto em Jiroft é o maior já encontrado e é pelo menos um século mais velho que seus paralelos mesopotâmicos.

Objetos encontrados no sítio revelaram uma rica iconografia de símbolos tais como a árvore da vida e a águia bicéfala, alguns dos quais são característicos da arte iraniana posterior enquanto outros posteriormente se tornaram familiares temas bíblicos.

Uma característica ainda mais notável do Jiroft é a existência de um sistema de escrita desde o terceiro milênio a.C., mais precisamente por volta de 2800 a.C., o que é anterior às mais antigas tabuletas deixadas pela civilização suméria. As implicações dessas descobertas, tomadas em conjunto com outras descobertas sobre culturas fluviais do Indo e do Sarasvati, espalhadas até tão longe quanto o vale do Kashmir e o Afeganistão atual, são que a "civilização" pode ter viajado do leste para o oeste ao longo do caminho do Sol ao invés de ter florescido primeiro na terra dos Dois Rios do Gênese.

De fato tem sido proposto que Jiroft é Aratta, a cidade dos sete portões, a terra mítica das origens dos sumérios que eles situavam por trás de muitas montanhas no oriente. O único nome de um rei de Aratta registrado na literatura suméria, Ensukeshdanna ou Ensukushsiranna, possui alguma analogia com o Inshusinak que era o deus principal dos elamitas do Khuzistão, no antigo sítio de Susa que depois se tornou a capital meridional dos Rei dos Reis Aquemênidas já que o próprio Ciro era originalmente o governante de Anzan, parte da velha Elam. Uns seis séculos antes de Ciro se tornar senhor da Babilônia, os monarcas elamitas de Susa haviam saqueado a cidade e tomado alguns de seus símbolos míticos, incluindo a famosa estela (kudurru) de Hammurabi, assim reivindicando a sucessão dos reis sumério-caldeus.

Os Sete Climas e as Duas Cabeças

Uma das referências mais constantes encontradas nas tradições reais iranianas faz alusão aos sete climas do mundo, que são regiões de espaço e tempo nas quais governam monarcas universais. O imperador iraniano é o "Senhor das Sete Regiões" (keshwars) e ele habita na região central, no coração da estrela de seis pontas universal (que se tornou posteriormente a Estrela de Davi) ou flor em formato de sol. Por muitos séculos a região central dessa heptarquia foi vista como estando localizada no Iraque atual como a cidade sagrada da Babilônia, com seu grande santuário de Baal Marduk, o Esagil - por mais de um milênio uma fonte de conhecimento sagrado e iniciação - considerada como o umbigo do mundo desde os tempos de Nabucodonosor II pelo menos, foi adotada como capital por Ciro e seus sucessores.

Cidades centrais anteriores havia sido Ecbatana (Hamadan), Pasárgada e Persépolis (Takht I Jamshid), as acrópoles sagradas dos governantes medas e persas. Os arsácidas e sassânidas posteriores fizeram de Ctesifonte (Madain), bastante próxima da futura Bagdá sua sede real, assim estabelecendo a base para que Bagdá se tornasse a metrópole universal dos Califas Abássidas que reivindicavam o legado cultural e geopolítico dos imperadores iranianos.

Sucessivas dinastias persas que geralmente não podiam manter sua posse sobre o Iraque tendiam a olhar para província de Fars, o coração dos primeiros reinos de seus antecessores, como o centro de seu mundo, mas eles jamais pareciam ter certeza sobre se seus ancestrais remotos vieram do Cáucaso (Azerbaijão) ou do leste do Mar Cáspio, para além do Oxus e do Iaxartes (Syr e Amu Darya). Essa ambiguidade sobre o berço geográfico do povo iraniano e da religião zoroastriana tem influenciado a história natural de diversos modos e ela explica o passado do Irã e suas tentativas contínuas de definir sua identidade em relação aos seus vizinhos do noroeste, tais como Rússia e Europa como um todo, com os quais ele reivindica uma herança "indo-ariana" compartilhada, e também em relação aos povos turcos orientais e aos chineses com os quais possui muitos séculos de relações tumultuosas, porém frutíferas.

O Crisol e o Sol Brilhante: Da Grécia à China

O império iraniano foi construído ao longo dos séculos por uma sucessão de clãs guerreiros à cavalo ("Jowanmard": guerreiro a cavalo, em farsi), muitos dos quais vieram dos altos planaltos espalhados entre os mares Cáspio e Aral. Aquele apetite por conquistas distantes permaneceu forte até o século XIX, entre os descendentes dos sármatas, medas, persas, partos, alanos e citas que se combinaram para formar a nação iraniana. Da Grécia no Ocidente à Ásia Meridional cuja região do Indo foi anexada por Dario I, a cultura iraniana continuou a ter uma influência mesmo quando não havia nenhum estado nacional poderoso para afirmar sua presença política. Se tornou mais difícil, à luz de recentes descobertas, traçar a linha entre as línguas e civilizações semíticas e indo-europeias. O akadiano que era uma "língua franca" para o Oriente e se tornou uma das línguas oficiais do Império Aquemênida parece estar relacionada à maioria das línguas indo-europeias e, por outro lado, as áreas do sul do Irã, ao longo do Golfo Pérsico e até a boca do Tigre e do Eufrates foram habitadas em meados do segundo milênio a.C. por pessoas que falavam línguas proto-dravidianas tais como os elamitas do Khuzistão, possivelmente relacionados ao brahui que sobreviveu até hoje no Beluchistão.

As muitas comunalidades entre as escrituras védicas da Índia e os textos sagrados avésticos do Irã não precisam ser repetidas já que elas tem sido bem documentadas. Os reis védicos da Índia conquistaram novos domínios seguindo um garanhão em suas migrações e reivindicando qualquer terra em que o garanhão se aventurasse, uma prática muito similar ao costume persa. No grande épico indiano Ramayana, o Rei Dasaratha, pai do herói, possui como sua segunda esposa uma princesa chamada Kaikeyi, cujo nome sugere uma origem iraniana já que persas eram usualmente designados como "kaikeyas" na Índia antiga, provavelmente como alusão à lendária dinastia Kaikus. O senhor da morte e rei do paraíso (o outro mundo: Paeri Daeza, Paradesa, Pardesh) é Yama na Índia e Yima (Jamshed) no Irã onde ele também é o pai da humanidade e o primeiro vinicultor, o alter ego do Noé bíblico.

No lado persa, o nome de Ciro "Kurus" é compartilhado por um dos clãs reais da Índia, os Kauravas, descendentes do Rei Kuru. Cambises (Kambuja) é chamado como um dos povos védicos e purânicos da Índia, geralmente localizado pelos textos antigos no norte e noroeste do subcontinente (O Reino de Camboja - na Indochina é dito ter sido fundado por eles). Tantas outras analogias atestam a um parentesco bastante antigo e duradouro entre as culturas que floresceram entre o Cáucaso e o Ganges das quais muitos iranianos e indianos modernos permanecem bastante conscientes.

A influência persa pode ter sido projetada pela aristocracia militar equestre mas ela foi levada de fato por seus comerciantes e seus famosos escribas e estudiosos, uma casta intelectual que se destacava na administração, na literatura e também na medicina. Esses foram os homens que fizeram o nome, a língua, a literatura, a música e a pintura do Irã prevalente na Ásia. Os posteriores senhores árabes e turcos do Irã e seus domínios próximos tinham que depender do poder intelectual e do conhecimento dos persas para gerenciar seus estados e não raro pegavam emprestada a língua e o estilo de vida de seus súditos, como símbolo máximo de erudição e refinamento.

Cortes persófonas, versadas no melhor da poesia, equitação, caligrafia, gastronomia, degustação de vinho, astrologia, alquimia e jogos como o xadrez floresceram da Ásia Menor ao Turquestão Oriental e da Arábia do Norte ao Deccan Indiano. Algumas das maiores dinastias do Oriente, incluindo os seljúcidas e os otomanos da Turquia, os gaznávidas do Afeganistão, os khilijis, os tughlaqs, os suris, os lodhis e mugals do norte da Índia, os bahmânidas, adil, barid e qutub shahis do sul da Índia, os sultãos de Bengala e os timúridas da Ásia Central podem não ter sido iranianos por sangue, mas eles adotaram o modo persa de vida e assim o fizeram, após eles, muitas das casas reais hindus da Índia, algumas das quais se acreditava descender os invasores citas eftalitas persianizados e mesmo (no caso de certos príncipes de Gujarat) da própria linha imperial sassânida. A fascinação permaneceu intacta até o século XIX, quando a elite nativa da Índia britânica e da Turquia osmanli ainda escreviam e compunham em persa, com antigos temas iranianos, ainda que tanto Rússia como Grã-Bretanha já tivessem tornado então o decadente reino qajar em um protetorado empobrecido. Ademais, marinheiros e comerciantes da Índia e da Árabia Oriental levaram a influência persa tão longe quanto a Malásia e o arquipélago indonésio na Idade Média.

O outro aspecto fundamental ainda que menos conhecido da enorme influência do Irã ao longo das eras é sua influência religiosa. As mensagens espirituais que emergiram a antiga terra dos Magos estão envolvidas em sigilo místico ("kitman" ou "sirr" em árabe, cobertas pela famosa "taqiyya" ou mascaramento) e seus seguidores tem sido comumente vistos como sectários que se submetem a chamados supra-racionais, mas não há como negar o poder e resiliência desses credos. À parte do Zoroastrianismo, que é agora uma reforma extremamente antiga de uma teologia mazdeana indo-iraniana ainda mais antiga, baseada na dualidade de "Ahuras" e "Daevas" ("Devas" e "Asuras" em sânscrito), nós devemos relembrar que o Zurvanismo, o Maniqueísmo, o culto dos Yazidis de Sinjar, o Mitraísmo (que literalmente invadiu o Império Romano tardio), o cisma defunto dos Mazdaquianos, o Xiismo Ismaelita, com sua versão militante há muito desaparecida dos "Assassinos", as denominações Qarmatianas e Alevi, o Xiismo "dos Doze" que é a religião oficial do Irã desde o século XVII, a fé druze do Líbano, a seita mzab do Norte da África, o Babismo e o Baha'ismo nasceram todas no Irã ou possuem fontes iranianas.

A terra que forneceu um refúgio hospitaleiro para os últimos neoplatonistas expulsos da Academia de Atenas pelos imperadores bizantinos no século VI, herdou muitas correntes do pensamento neoplatônico e neoaristotélico (ambas escolas geralmente não eram vistas como distintas no Oriente) que se tornaram parte integral de sua tradição filosófica e impregnaram muitas tariqas sufi que surgiram na Pérsia entre os séculos IX e XIX, incluindo a Karramiya, a Malamatiyya, a Hakimiya, a Melewi, a Chishti, a Naqshbandi, a Bektashi, a Alevi e os seguidores iluminacionistas "Ishraqi" de Suhravardi. Esse ilustre nativo de Suhravard no Irã, como muitas outras figuras reverenciadas do misticismo islâmico, como Beyazid Bistami, Hallaj, Jalal ul Din Rumi e Jami ou poetas "gnósticos" como Firdowsi, Saadi, Jami, Hafiz e Ruzbehan Baqli poderiam reivindicar uma filiação étnica com Salman Pak, o amigo e confidente persa do profeta Maomé que é considerado como o fundador do Sufismo segundo muitas tradições esotéricas.

O desejo de construir um estado platônico ideal permaneceu surpreendentemente vívido entre estudiosos religiosos iranianos, usualmente pela combinação da revelação gnóstica xiita com a metafísica helênica. A constituição iraniana contemporânea reflete em algumas de suas provisões a influência subjacente do pensamento político platônico.

Como nota de rodapé a esse comentário, o legado duradouro da doutrina mazdeo-maniquéia de dualidade entre luz e trevas pode ser detectada no jogo de xadrez iraniano que simbolicamente ilustra a luta eterna entre as forças brancas e negras do universo. O jogo também carrega traços da reverência indo-europeia pelo poder feminino como energia ativa (a rainha do xadrez) que dinamiza o pólo masculino de criação, absolutamente consciente, porém estático (o par Ishvara-Shakti). A luta de opostos dualísticos é muito presente na teologia e escatologia do Xiismo.

Assim, em sua forte tradição de estadismo e em suas especulações e aspirações religiosas intelectuais nós encontramos as orientações duplas do Irã para exercer sua influência e definir seu papel no mundo. O país permaneceu uma sociedade indo-europeia com roupas islâmicas, marcada pela divisão entre sábios, guerreiros e artesãos-comerciantes, uma tríade apoiada sobre uma vasta fundação campesina. A nação luta com seus recursos estratégicos para afirmar sua preponderância regional e combater o cerco de antigos e novos rivais como Turquia, os estados árabes, Israel e o eixo anglo-americano.

Esses recursos são as minorias xiitas no Líbano, Síria, nas nações do Golfo e da Ásia Central, os hazara do Afeganistão (que, com poucas interrupções tem estado sob a égide persa, ao menos ao redor do Coração, conhecido tanto pelos governantes mugais e britânicos da Índia como o "portão do Irã), os sarts do Tadjiquistão "etnicamente" persa e os "setimanos" e "duodecimanos" do Paquistão. Na Índia, onde o legado persa permanece forte e que é lar da segunda maior comunidade xiita do mundo, o vale do Kashmir chama a si mesmo de "Iran Sagheer" (Pequeno Irã) e no lado do estado ocupado pelo Paquistão, comunidades ismaelitas também mantiveram fortes laços culturais com a Pérsia.

De fato, em todos os lados, o Irã é cercado por potências árabes ou turcas, o que explica a mentalidade de cerco que o país tende a desenvolver quando um inimigo poderoso tenta reduzir seu poder ou desintegrá-lo. Desde a Renascença até a era industrial, os Xás, ainda que mantendo relações geralmente amistosas com os imperadores mugais do Hindustão tentaram conquistar apoiadores ocidentais de modo a manter os sultões otomanos afastados e enviaram diversas missões diplomáticas à Europa nesse sentido, em obediência ao axioma diplomático de que "o inimigo de meu inimigo é meu amigo". Depois eles tentaram enfrentar a penetração russa com a ajuda da Grã-Bretanha, ao mesmo tempo evitando os apetites imperiais da mesma buscando uma aliança com a França. O sentimento persistente de isolamento político e religioso nas classes governantes iranianas de fato se sustentam na realidade objetiva e justificam com plausibilidade o suposto desejo de adquirir um dissuasivo nuclear.

O afastamento entre a monarquia autocrática, porém cada vez mais secular e cosmopolita e a casta religiosa nacionalista, majoritariamente apoiada pela classe média e pelo proletariado urbano, levou à revolução de 1979 e à derrubada subsequente do Xá. As políticas anti-britânicas e pró-alemãs seguidas por Reza Pahlevi I, quando Hitler governava em Berlim refletiam um desejo de traçar um caminho modernista e secular como a única nação genuinamente "ariana", distinta tanto da ideologia comunista imposta sobre as repúblicas soviéticas da Ásia Central e o conservadorismo pró-britânico e pró-americano da maioria dos governantes árabes da época.

Não surpreendentemente, Londres, Moscou e Washington consideraram as tendências iranianas "rebeldes" inaceitáveis e o Xá foi enviado ao exílio em 1947 após ter sido forçado a abdicar em favor de seu filho mais velho. O regime republicano nacionalista proclamado por Muhammed Mossadegh em 1951 foi também rapidamente derrubado com o apoio da CIA que ajudou a restaurar o jovem Xá. Este estava geralmente contente em agir como aliado dos americanos dentro da CENTO da qual o Irã se tornou o principal pilar em 1955. Junto com Turquia e Paquistão, o Irã era parte da extensão asiática da OTAN, designada principalmente para conter a URSS e prevenir sua temida marcha em direção às águas quentes do Golfo Pérsico.

Os EUA e Israel ajudaram a construir e treinar a polícia secreta estatal, a temida Savak que efetivou uma ampla espionagem e repressão tanto contra oponentes religiosos como esquerdistas da monarquia. Aparentemente a CIA e o Mossad ensinaram a seus estudantes iranianos técnicas sofisticadas de interrogação, tortura e assassinato ainda que seja difícil crer que houvesse uma escassez de conhecimento local nesses campos.

Não obstante as políticas seguidas pelo Xá entre os anos 60 e 1979, o ano de sua queda não deve ser visto como uniformemente e servilmente alinhado com os interesses americanos. Em seguimento à milenar tradição iraniana e seu senso de destino, Reza Pahlevi seguiu uma política de liderança regional que causou incômodos a seus vizinhos bem como a seus "protetores" americanos. Sua diplomacia cada vez mais independente, sua aproximação com a URSS, sua estratégia petrolífera assertiva dentro da OPEC que levou à crise do petróleo de 1974-75 causaram espanto nas capitais ocidentais e sua iniciativa de tentar adquirir energia nuclear para uso civil e militar levantou suspeitas ainda que ninguém à época previsse que ele poderia cair e ser substituído por um regime fundamentalista anti-ocidental e anti-israelense.

Muitos na Casa Branca e no Departamento de Estado concluíram, quando o trono começou a tremer, que poderia ser melhor deixar o "ditador" iraniano ir e tentar construir uma equação satisfatória com um regime republicano sucessor mais ou menos aliado com o clero xiita.

A revolução liderada por Khomeini pôs um fim a esses cálculos equivocados quando se percebeu que a liderança religiosa vitoriosa, apoiada pela doutrina relativamente nova de "Velayat e Faghih" (governo dos sábios teólogos) não estava interessada em partilhar poder com qualquer um dos políticos ou oficiais mais ou menos pró-americanos apoiados por Washington. O autoritarismo dogmático que pelo menos desde os dias do estado sassânida, tem sido eficiente em extirpar ou marginalizar seitas cismáticas e facções heréticas serviu à nova ortodoxia de Khomeini conforme ele atuava para colocar de lado os aiatolás e clérigos menores que discordavam com sua interpretação do papel do Howzah (o seminário) no estado. Como resultado a escola Qom de teologia política se tornou suprema, apesar da senioridade dos howzahs Najaf e Karbala - mais quietistas por tradição - que à época estavam severamente restritas pela ditadura de Saddam Hussein no Iraque.

Gregos, Judeus, Árabes e Turcos: Vizinhos, Adversários e Parceiros

O Irã se define também através de sua interação turbulenta, multifacetada e milenar com quatro "nações" ou grupos étnicos. Os gregos causaram em 490 a.C. em Maratona e dez anos depois em Salamis a primeira derrota em grande escala para os exércitos aquemênidas, bloqueando assim a expansão do Império Persa na Europa antes de tomarem o trono de seus remotos primos indo-europeus através de uma série de expedições, da odisseia dos 10.000 de Xenófono à campanha de Alexandre no século IV. Subsequentemente por séculos o reino iraniano foi governado por monarcas helenizados até que os partos arsácidas reclamaram o trono de Ciro em 256 a.C., mas o legado cultural e político grego prosperou sob eles e sob dinastias sucessoras como demonstrado por diversos estudiosos como F. Cumont e J. Bidez em seu estudo dos "Magi helenizados" tais como Zoroastro, Ostanes e Hystaspes.

Os hebreus se espalharam pelo Oriente Médio sob a primazia assíria e babilônica, mas se tornaram aliados de Ciro e seus descendentes, estabelecendo prósperas colônias comerciais em muitas das cidades do império persa. Eles geralmente desfrutavam do favor e proteção dos aquemênidas cuja religião mazdeana influenciou decisivamente o judaísmo "pós-exílico" que se formou - como uma fé unificada monoteísta que ele nunca havia sido até então - quando uma colônia liderada por Esdras e Zurobabel retornou à Palestina para reconstruir o templo de Salomão, com as bençãos do "Grande Rei", no século V a.C.

A teologia, angeologia, cosmologia e escatologia zoroastrianas podem ser detectadas no judaísmo tardio, particularmente no Talmud babilônico, junto com empréstimos sumério-caldeus comuns. Por exemplo, os seis "Ameshaspenta" do Avesta se transformaram nos sete arcanjos dos últimos livros do Velho Testamento, que nomeiam apenas quatro porém. Do lado iraniano, a identificação tradicional de muitas paisagens com locais bíblicos sagrados é um legado do Islã mas ecoa a auto-imagem iraniana como a segunda terra santa que bem antes do judaísmo messiânico acreditou no nascimento do Salvador enviado por Deus (o Saoshyant) em uma caverna sob uma montanha sagrada onde os magi viriam para adorá-lo, sob a orientação de uma estrela milagrosa, e o proclamariam rei dos três mundos.

A antiga conexão com judeus foi revivida pelo Xá Mohammed Reza que estabeleceu fortes laços com Israel, recebendo aplausos dos EUA e da Europa, mas colocando outro prego em seu caixão ao fazê-lo, na medida em que suas inclinações sionistas atraíram para ele o ódio da liderança religiosa nacional e de muitos muçulmanos em casa e ao redor do mundo.

A reação que se deu sob Khomeini colocou Irã e Israel em lados opostos, mesmo que se saiba bem atualmente que diplomacia secreta e um comércio substancial de armas ocorreu durante a Guerra Irã-Iraque quando Tel Aviv viu uma vantagem em ajudar Teerã contra um Iraque baathista zelosamente pró-palestino.

Agora que o Iraque caiu e que o Irã está mais forte do que jamais foi desde a queda da monarquia, Israel está claramente interessado em esmagar o regime islâmico por meios abertos ou cobertos e busca alistar o apoio do Ocidente para alcançar esse fim, até mesmo esperando adquirir apoio árabe sunita por trás da tarefa aparentemente difícil de causar uma nova dispensação no Irã, talvez na forma de uma restauração do Império.

É significativo que um dos maiores feriados religiosos israelitas é o Purim que comemora o massacre de 75.000 persas realizado em 356 a.C. a mando da rainha Ester - esposa favorita de Ahasuerus ou Arthakshatra - e seu tio ou primo, o conselheiro judeu do rei, Mardocai, em Susa, em retaliação pelas políticas do desgraçados primeiro-ministro anti-hebreu Hamam que se acredita ter ordenado o extermínio de todos os judeus por traição, segundo o Velho Testamento. Apesar da relação geralmente simbiótica entre os antigos iranianos e o povo de Israel houve tempos de conflito os quais os judeus modernos, como de costume, lembram bem melhor do que os iranianos que não possuem qualquer tradição particular de anti-judaísmo ainda que eles ancestralmente tendam a sentir um desprezo por povos semitas. Não esqueçamos porém o sincretismo e mesmo significância simbólica do Livro de Ester que porta o nome da grande Deusa-Mãe do Oriente Médio (Ishtar), representada como o planeta Vênus e cujo parente é Mardoki (Marduk) o Deus-Pai da Babilônia. Mesmo o nome do rei persa, Ahasuerus poderia ser visto como uma forma hebraizada da divindade universal índica Ishvara, um substantivo relacionado ao deus egípcio Oser (Osíris para os gregos). É bastante possível que a história original de Ester possa ter se desenvolvido como um mito cosmológico que foi "efemerizado" pelos judeus monoteístas do século VII em um evento histórico de modo a reforçar a coesão de sua comunidade pela lembrança das atribulações e ameaças que eles tiveram que superar.

Os árabes, que ocupam a margem meridional da pátria iraniana são, como é bem conhecido, descendentes das tribos semitas da Antiguidade que partilharam das religiões médio-orientais primitivas e de seu caldeirão cultural. Eles eram normalmente satélites ou súditos dos persas mais poderosos que, sob os grandes Xás sassânidas até mesmo estenderam seu governo direto até a Arábia Oriental e às margens meridionais do Golfo até que a ascensão do Islã enviou ondas de conquistadores para fora da Península. A derrota do último Rei dos Reis zoroastriano em 642 d.C. foi seguida dentro de poucos anos pela queda de seu estado para os Califas. Menos de três séculos depois porém, os buyyids iranianos haviam entrado vitoriosamente em Bagdá e se tornado protetores dos fracos e fortemente persianizados imperadores abássidas cujo poder havia sido crescentemente solapado pelos conflitos entre facções sunitas e xiitas e pela campanha subversiva - que hoje qualificaríamos de "terrorista" - realizada pela comunidade dos assassinos.

A ascensão do poder dos assassinos ismaelitas demonstrou uma vez mais a incrível habilidade iraniana de construir movimentos clandestinos organizados dedicados a objetivos messiânicos utópicos e endurecida por zelo fanático e disciplina militar impiedosa, enquanto a influência crítica dos persas étnicos, tais como os poderosos vizires barmekids, na corte abássida demonstrava a superioridade do estadismo e experiência administrativa iraniana. De fato parece que em vários momentos na história, líderes de origem persa buscaram sob a cobertura de doutrinas muçulmanas cismáticas derrubar o domínio árabe e até mesmo o próprio Islã ortodoxo. Exemplos proeminentes que vem à mente incluem os próprios assassinos, os qarmatianos do norte da Arábia e do Bahrein no século X, os druzes da Síria e os qizilbash da Anatólia e Pérsia.

Na medida em que essa designação possui qualquer sentido no contexto oriental, os xiitas tem tendido a se situar na esquerda do espectro político vis-a-vis a maioria sunita conservadora e nesse sentido, eles tem sido um elemento constantemente revolucionário que apelava às partes pobres e oprimidas da sociedade, do Líbano à Índia.

A reafirmação formal do poder iraniano sobre o coração da Mesopotâmia do estado califal acabou durando pouco já que os invasores turcos seljúcidas tomaram Bagdá em 1055 e assumiram o papel de mestres de marionetes para califas simbólicos. Daí em diante, tribos turco-mongóis, impulsionadas pelas invasões sucessivas das hordas de Gengis Khan e Timur, desempenharam um papel importante no planalto persa e na Anatólia por mais de oito séculos. Mesmo a grande dinastia curdo-iraniana dos saváfidas, rivais muitas vezes bem sucedidos dos otomanos, teve que compor com o poderio militar das tribos turcomanas (ogúzes) que faziam uma parte importante do exército e da nobreza feudal, muitos ascendendo da condição inferior de "gholams" (escravos". Um deles acabou destronando os decadentes saváfidas para reivindicar seu lugar. As três dinastias seguintes foram assim etnicamente turcas. A província mais populosa e mais desenvolvida do país é o Azerbaijão, habitada por uma maioria turcófona e naturalmente ainda próxima de sua metade setentrional que é agora uma nação independente após ter sido conquistada pelos czares e transformada em uma República Soviética por Lênin.

Após seu golpe de estado em 1925, o General Reza Khan agiu para erradicar a influência turca no Irã, ainda que paradoxalmente sua principal influência tivesse sido Kemal Ataturk, o modernizador revolucionário da Turquia que ele considerava como modelo. Como parte de sua política "iranizadora", Reza Khan proibiu por uma lei constitucional que turcos étnicos ocupassem o Trono do Pavão e tentou retirar palavras turcas e árabes da língua nacional, assim como Ataturk "desarabizou" e "desperficou" a língua turca revivendo raízes asiáticas arcaicas.

A revolução nacionalista, porém ocidentalizadora, defendida pelos Pahlavis buscou reviver muitas características da antiga herança civilizacional e religiosa persa e enfraquecer o domínio do Islã clerical sobre a sociedade, mas suas tendências seculares e elitistas foram vistas como alógenas e decadentes (taghuti) pelas classes médias devotas e massas rurais conservadoras nas quais a influência clerical estava enraizada.

O nacionalismo iraniano moderno foi parcialmente moldado pelos grandes reis saváfidas, mas a hierarquia religiosa xiita havia sido tradicionalmente um baluarte para os pobres contra a corrupção e exploração da corte real e quando os governantes persas caíram sob uma crescente influência militar e financeira estrangeira, o clero foi percebido pelas massas como campeão da integridade e da independência do país. A revolução de Khomeini assim apareceu, mesmo aos olhos dos não-religiosos ou dos intelectuais esquerdistas iranianos, como uma reação patriótica essencialmente popular contra a cultura materialista e hedonista importada pelo estado policial do Xá, em nome das antigas "feras negras" imperialistas.

Ainda que a monarquia tivesse sido abolida pela sangrenta revolução "reacionária" dos Mulás e com ela, a política de prestígio global do Xá, a busca por hegemonia global permanece uma constante para a República Islâmica, profundamente consciente da proeminência histórica e da preponderância demográfica do país no Oriente Médio e na Ásia Central.

Os iranianos tem orgulho do capital intelectual e científico da nação que permanecem impressionante apesar do grande dreno de cérebros do Irã que inunda alguns estados árabes, a Europa e a América do Norte após a Revolução e mesmo muito antes daquele evento dramático. Os emigrantes e refugiados iranianos modernos que se sobressaem em muitos campos trazem à mente os sábios, místicos, médicos, químicos, astrônomos, viajantes, comerciantes, artistas e poetas persas que enriqueceram as sociedades do Turquestão, da China, da Índia, da Turquia, do Levante, do Egito, da Arábia e mesmo do sudeste asiático desde a Antiguidade.

Alguns dos mais famosos se situam entre as maiores mentes que pavimentaram o caminho para o progresso intelectual da humanidade. Eles incluem Al Biruni, Al Farabi, Rhazes (Ar Razi) e Avicena.

O Futuro do Irã

O Irã hoje se situa em uma encruzilhada de sua história entre dois estados ocupados pelos EUA e pela OTAN (Iraque e Afeganistão) e outras nações dominadas pelo Ocidente, incluindo o Paquistão, Azerbaijão e os estados do Golfo Árabe, com seu nêmesis israelense pairando ominosamente no fundo e procurando por cada jeito possível de desestabilizar a República Islâmica e derrubar o país.

Os únicos amigos de Teerã nesse momento, ainda que eles sejam interesseiros, se encontra ao norte e nordeste através do Mar Cáspio já que a Turquia não deve ser confiada à luz da história e da geografia. De fato Rússia e China tem fornecido um apoio fundamental e previsivelmente continuarão a fazê-lo já que eles possuem interesses importantes em jogo nas reservas de petróleo e gás do país.

A Índia, como um vizinho que partilha com o Irã de uma antipatia duradoura em relação ao Paquistão, tem tido laços tradicionalmente amigáveis com o Irã que Teerã tem cultivado, buscando em particular reviver a conexão com rica e prestigiosa comunidade parsi que permaneceu consciente e orgulhosa de sua identidade original. Porém, o envolvimento diplomático atual de Nova Delhi com os EUA lançou uma sombra sobre essa antiga e valiosa relação e não se pode confiar na Índia no atual cabo-de-guerra entre Irã e o Ocidente. A provável admissão do Irã na Organização de Cooperação de Xangai por outro lado fortalecerá sua coordenação com as duas principais potências na Ásia, China e Rússia e pode ser o único recurso contra um possível ataque americano-israelense em seu território.

Ao aplicar uma pressão implacável sobre Teerã, os americanos e seus aliados judeus podem acabar sem querer precipitando o nascimento de um mecanismo coletivo de defesa asiático que eles tem temido desde que a Rússia começou a se recuperar de seu colapso sócio-econômico e formou uma aliança com a China na virada do século.

A reação de Washington a esse realinhamento geopolítico tem se tornado cada vez mais estridente e o leitmotiv foi vocalizado novamente pelo vice-presidente americano Cheney durante sua visita à Arábia Saudita em março de 2008 quando ele disse que "o Irã era a principal ameaça à região". A afirmação demonstrou uma vez mais como o vice-presidente carece tanto de humor quanto de conhecimento de geografia já que o Irã é definitivamente o principal país na região e dificilmente poderia ser considerado como um outsider enquanto os EUA é um forasteiro ocupador e um intruso incômodo que não faz o menor esforço de ocultar suas políticas colonialistas.

Os conselheiros neoconservadores da administração Bush não fizeram mistério de seu desígnio de iniciar uma guerra entre os estados árabes do Golfo financiados pelos EUA e o Irã que tornou a situação ainda pior para os interesses americanos ao lançar esse ano uma Bolsa de Energia na ilha de Qishm no Golfo Pérsico após renunciar ao dólar como moeda para vender seu petróleo e gás. Porém até agora, os estados do Golfo liderados pela Arábia Saudita rejeitaram a sugestão sionista, percebendo o quão perigoso seria para eles, e o quão devastador para a região, atacar um Irã marcial e bem mais populoso e endurecido por batalhas.

A resposta do Irã tem sido promover um arranjo de segurança regional que excluiria potências estrangeiras (leia-se: os EUA). Dada a realidade estratégica, essa proposta é impossível de se iniciar agora, mas é difícil de acreditar que os vizinhos islâmicos da República Islâmica não vejam algum mérito a esse plano, independentemente do quanto suspeitem do regime de Teerã e dos iranianos enquanto povo.

É irrefutável que um dos maiores, senão o maior investidor na economia dos Emirados Árabes Unidos é o Irã e a influência financeira do estado persa e de seus empresários privados nesses dias de altos preços do petróleo permanece formidável, apesar das sanções e outras penalidades impostas pelas potências ocidentais. Teerã, assim, não está tão carente de opções para planejar o futuro nacional segundo seus melhores interesses. Aqui consideraremos alguns eles à luz das constantes históricas e dos desenvolvimentos contemporâneos.

Irã e Turquia

A República Turca permanece o que o Califado Otomano foi: o principal rival do Irã pela supremacia no oeste da Ásia e um competidor por influência na majoritariamente turca Ásia Central. A ascensão do Partido Islâmico (AKP) do Primeiro-Ministro R. Tayyep Erdogan não mudou essa realidade geopolítica, tornou mais aguda a divisão sunita-xiita e as ambições rivais de Turquia e Irã nas áreas fronteiriças e nos estados da Armênia, Azerbaijão, Geórgia, Turcomenistão, Afeganistão, Uzbequistão e Quirguízia. O Iraque também é um elemento de disputa entre os dois vizinhos, particularmente a zona setentrional curda que é etnicamente e linguisticamente próxima do Irã, mas se estende até o sudeste da Turquia. Tanto Ankara como Teerã combateram longas e sangrentas insurreições curdas.

Se o Irã possui vantagem incontestável no sul do Iraque, de maioria xiita, a Turquia é muito mais aceitável para seus antigos súditos sunitas na região central do Iraque que foi durante três séculos e meio uma província de seu império. Ainda que os dois governos hajam tido diálogos em 2006 e 2007 de modo a abordar apreensões mútuas, a Turquia permanece um aliado do Ocidente e mantém relações cordiais com Israel mas possui uma florescente parceria econômica com Rússia e China que é ominosa para o futuro de sua equação com os EUA e seus aliados tradicionais da OTAN. O conceito da AKP do Islã como um fator moderado na vida pública e na cultura nacional sob um governo civil é bem diferente da distribuição teocrática iraniana em que os clérigos se situam acima dos políticos laicos e dos oficiais militares.

Portanto não há probabilidade de que a conexão entre as duas repúblicas melhorará e é mais provável que futuros conflitos possam eclodir por causa das reivindicações rivais na região. Um dos maiores incentivos para a construção de relações melhores porém, é a grande necessidade da Turquia por petróleo e gás para os quais o Irã é uma fonte óbvia que poderia reduzir a vulnerabilidade de Ankara aos conflitos endêmicos no Iraque e particularmente na região curda através da qual os dutos iraquianos entram em seu território. Ankara não pode permitir que o Irã apoie seus próprios rebeldes curdos em sua guerra por secessão e assim devem tentar cultivar a amizade com Teerã.

Irã e o Mundo Árabe

Muito tem sido escrito sobre a hostilidade ancestral que existe entre persas e árabes. Porém essa observação geral deve ser matizada com a ressalva de que os árabes xiitas tendem a ser politicamente e religiosamente próximos aos iranianos, que reivindicam o papel de protetores dessa comunidade minoritária. Movimentos sunitas politicamente radicais, mas religiosamente conservadores, como o Hamas palestino ou a Fraternidade Islâmica egípcia também estão em bons termos com a teocracia iraniana, abertamente simpática a sua luta contra regimes árabes "moderados" pró-ocidentais. Há assim uma base para que o Irã exerça liderança em pelo menos certas partes do mundo árabe e assim amplie sua influência do Mediterrâneo ao Golfo Pérsico. Os reinos e xerifados da região estão atualmente tentando melhorar suas relações com a República Islâmica, com a esperança de diminuir o risco de tensões ou insurreições de suas minorias xiitas. No evento de uma derrota catastrófica e de uma saída das forças armadas americanas do Iraque e do Afeganistão - um resultado cada vez mais plausível - um realinhamento de todos aqueles estados tradicionalmente dependentes dos EUA em direção ao Irã é de se esperar, sofram eles uma "mudança de regime" ou não, como resultado do fiasco americano.

Poucos preveem uma federação islâmica multinacional ou Califado liderado por Teerã emergindo nos anos vindouros, mas o Irã provavelmente será o centro de uma aliança regional rica em energia no evento de sua gradual anexação do sul do Iraque e de suas fortes relações com a Rússia. O pilar de tal liga provavelmente seria o "cartel de gás" que Teerã, Moscou e alguns outros grandes produtores estão construindo atualmente.

Irã e Europa

As relações entre a República Islâmica e de uma União Europeia fortemente alinhada com os EUA, seja por vontade ou sob pressão, estão destinadas a serem frígidas mas, apesar das advertências americanas, alguns membros da UE tem se movido silenciosamente na direção de restabelecer relações comerciais pragmáticas com o Irã, principalmente na esfera energética. A Áustria que tem mantido relações bastante cordiais com a República Islâmica assinou um acordo para construir um duto que chegará a seu território após cruzar Grécia e os Balcãs, antes de se separar para alimentar Europa Ocidental e do Norte. Com a Rússia se tornando o principal fornecedor de energia para a UE e agindo como intermediário indispensável entre Irã e o Ocidente, uma aproximação econômica e estratégica entre a União e a Federação Russa certamente resultará no rápido declínio dos EUA e facilitará a normalização de laços entre o continente e a República Islâmica que é muito desejada pelos líderes empresariais dos principais países da UE, como Alemanha, Polônia, França e Itália.

Irã e EUA

O grande enigma para "iranologistas" e para muitos iranianos em casa e no exterior é a evolução futura dos quase trinta anos de conflito entre a República Islâmica e o governo americano. Vários períodos de melhoria relativa mais ou menos subreptícia em suas relações (às vezes mediadas por Israel), especialmente durante a Guerra Irã-Iraque e durante a Primeira Guerra do Golfo de 1991 levaram muitos a esperar que chegaria um tempo em que Teerã e Washington se encontrariam do mesmo lado da cerca em sua luta contra extremistas sunitas ou mesmo contra a ressurgente e expansionista Federação Russa.

A antiga conexão entre judeus e persas tem sido invocada como possível precedente para o que agora pareceria ser uma aliança quase anti-natural, à luz da geopolítica atual. Será que, por exemplo, uma revolução fundamentalista anti-americana na Arábia que poderia não ser mais saudita não poderia levar iranianos e americanos a se unirem contra os inimigos sunitas comuns? Será que um levante de massa islâmico similar na Turquia politicamente frágil não levaria também a uma convergência entre Washington e Teerã?

Esses não são cenários implausíveis, mas até então o Irã possui toda razão para retirar os EUA de sua área de influência e conquistar reconhecimento pan-islâmico como líder na luta contra os cruzados colonizadores ocidentais, como campeão dos palestinos e nêmesis dos opressores sionistas. Ademais um EUA enfraquecido, desacreditado e desmoralizado não é um aliado atraente para um cada vez mais forte desafiador do "status quo" como o Irã e qualquer acordo tático entre esses rivais por hegemonia regional é provável de ser oportunista e pouco duradouro. A longo prazo, a antiga nação preeminente possui uma posição bem mais forte no Oriente Médio do que os EUA cada vez mais super-estendidos e desprezados. Por outro lado, sem um apoio militar inexorável dos EUA, Israel rapidamente perderia seu status como superpotência regional e se tornaria altamente vulnerável a ataques coordenados por atores não-estatais como Hamas, Hezbollah e outras forças beligerantes apoiadas por estados ricos em petróleo e indivíduos. Se as forças americanas e da OTAN não puderem vencer no Iraque e no Afeganistão, dificilmente se poderia esperar que a Tsahal israelense poderia prevalecer indefinidamente contra campanhas de bombardeio em diversas frentes e contra operações de comandos.

Conclusão

O Irã é externamente um estado razoavelmente homogêneo etnicamente, culturalmente e religiosamente, e internamente um mosaico bastante diverso de povos na encruzilhada das rotas de seda, com uma civilização originalmente enriquecida pelos grandes estados elamitas, hititas, sumero-babilônicos, assírios, lídios e egípcios e posteriormente fertilizada por contribuições gregas, indianas, chinesas, judaicas, árabes e turcas. Como fornecedora e recipiente de cultura ao longo das eras a nação é um crisol de influências que pode apresentar uma face paradoxal e enigmática para estranhos. A famosa sutileza e inescrutabilidade persa na diplomacia está provando ser um grande desafio para aqueles que gostariam de submetê-la a seu poder.

Com sua habilidade de jogar Oriente contra Ocidente, Islã contra Judaico-Cristianismo, Turquia contra os árabes, Rússia contra UE ou China contra os EUA, a República Islâmica assumiu a sucessão histórica das dinastias arsácida, sassânida e saváfida como um pivô entre Ocidente e Ásia Meridional. No norte estão estados ricos em energia e uma Rússia nuclear com a qual o Irã está formando um compacto estratégico e econômico mutuamente benéfico. Ao sul estão petro-monarquias árabes sobre as quais Teerã possui uma antiga influência que só pode se ampliar contra um poder americano decadente. No leste, a Índia e outros membros da SAARC são parceiros culturais e comerciais tradicionais com os quais sua interação está destinada a se ampliar. A elite financeira e intelectual doméstica e expatriada é altamente ocidentalizada e fornece um elo poderoso entre a nação e o mundo euroamericano. Alguns estudiosos iranianos, como Rasool Nafisi e Ramin Jahanbegloo (em World Affairs, vol.11, número 1, Primavera 2007) acreditam que no futuro a médio prazo a influência da religião fundamentalista na sociedade iraniana está destinada a se retrair para o fundo na medida em que a jovem classe média é cada vez mais secular ou mesmo agnóstica em sua perspectiva. Esses acadêmicos estão convictos de que os dias do regime teocrático estão contados e que o país naturalmente "evoluirá" em uma sociedade "moderna", mais aberta, desde que um ataque americano ou da OTAN não a lance no caos e promova uma reação nacionalista, assim fortalecendo a militância extremista apocalíptica.

Esperemos que por uma vez as vozes da sabedoria serão ouvidas em Washington e Tel Aviv. Para o bem ou para o mal, o Irã continuará sendo um estado central na arquitetura global e poderia despertar ondas de violência através do mundo em auto-defesa, mas ele pode também, a partir de seu tesouro de gnose esotérica, fornecer perspectivas únicas em religião, espiritualidade e ciência, com base em sua herança complexa e fascinante. A magia é, afinal, uma contribuição semântica do Império do Sol Nascente.

14/10/2012

Da Geografia Sagrada à Geopolítica

por Aleksandr Dugin



Geopolítica como Ciência "Intermediária"

Conceitos geopolíticos se tornaram os principais fatores da política moderna há muito tempo atrás. Eles são construídos sobre princípios gerais que permitem analisar facilmente a situação de qualquer país e região particular.

A geopolítica em sua forma atual é indubitavelmente uma ciência mundana, "profana", secularizada. Mas talvez, entre todas as ciências modernas, ela haja salvo em si mesma a maior conexão com a Tradição e as ciências tradicionais. René Guénon disse que a química moderna é o resultado da dessacralização de uma ciência tradicional - a alquimia, como a física moderna é da magia. Exatamente do mesmo jeito se poderia dizer que a geopolítica moderna é o produto da laicização e dessacralização de outra ciência tradicional - a geografia sagrada. Mas já que a geopolítica ocupa um lugar especial entre as ciências modernas, e é às vezes categorizada como "pseudo-ciência", sua profanação não é tão realizada e irreversível, como no caso da química ou da física. A conexão com a geografia sagrada aqui é um tanto quanto distintamente visível. Portanto é possível dizer que a geopolítica se encontra em um lugar intermediário entre a ciência tradicional (geografia sagrada) e a ciência profana.

Terra e Mar

Os dois conceitos primários da geopolítica são terra e mar. Apenas esses dois elementos - Terra e Água - se encontram nas raízes da representação humana qualitativa do espaço terreno. Através da experiência da terra e do mar, da terra e da água, o homem entra em contato com os aspectos fundamentais de sua existência. Terra é estabilidade, gravidade, fixidez, espaço enquanto tal. Água é mobilizada, suavidade, dinamismo, tempo.

Esses dois elementos são em essência a demonstração mais óbvia da natureza material do mundo. Eles se situam fora do homem: tudo é pesado e fluido. Eles estão também dentro dele: corpo e sangue. (O mesmo ocorre também ao nível celular).

A universalidade da experiência da terra e da água gera o conceito tradicional de Firmamento, já que a presença das Águas Superiores (a fonte da chuva) no céu também implica a presença de um elemento simétrico e necessário - terra, a abóbada celestial. De qualquer maneira, Terra, Mar, Oceano são em essência as categorias principais da existência terrena, e para a humanidade é impossível não ver nelas alguns atributos básicos do universo. Como os dois termos básicos da geopolítica, eles preservam sua significância tanto para civilizações de um tipo tradicional e estados, povos e blocos ideológicos exclusivamente modernos. Ao nível do fenômeno geopolítico global, Terra e Mar geraram os termos: talassocracia e telurocracia, ou seja, "poder por meio do mar" e "poder por meio da terra".

A força de qualquer estado e qualquer império se baseia no desenvolvimento preferencial de uma dessas categorias. Impérios são ou "talassocráticos" ou "telurocráticos". O primeiro implica a existência de um país-mãe e colônias, o segundo de uma capital e províncias em "terra comum". No caso da "talassocracia" seu território não é unificado em um espaço terreno - o que cria um elemento de descontinuidade. O mar - aqui se encontra tanto a força como a fraqueza do "poder talassocrático". A "telurocracia", vice-versa, possui a qualidade de continuidade territorial.

Mas a lógica geográfica e cosmológica complicaria de imediato o esquema aparentemente simples dessa divisão: o par "terra-mar", por superimposição recíproca de seus elementos, dá origem às ideias de "terra marítima" e "água terrena". A terra marítima é a ilha, ou seja, a base do império marítimo, o pólo da talassocracia. A água terrena ou água dentro da terra são os rios, que predeterminam o desenvolvimento de impérios terrestres. Exatamente sobre o rio se localiza a cidade, que é a capital, o pólo da telurocracia. Essa simetria é simbólica, econômica e geográfica ao mesmo tempo. É importante notar que o status de Ilha e Continente é definido não tanto com base em sua magnitude física, do que com base na consciência peculiar típica da população. Assim a geopolítica americana possui um caráter insular, à despeito do tamanho da América do Norte, enquanto o Japan insular representa geopoliticamente um exemplo de mentalidade continental, etc.

Um outro detalhe é relevante: a talassocracia histórica está ligada ao Ocidente e ao Oceano Atlântico, enquanto a telurocracia ao Oriente e ao continente eurasiano. (O exemplo supracitado do Japão é explicado, assim, pelo efeito "atrativo" mais forte da Eurásia).

Talassocracia e Atlantismo se tornaram sinônimos muito antes da expansão colonial da Grã-Bretanha ou das conquistas hispano-portuguesas. Já desde o início das ondas migratórias marítimas, os povos do Ocidente e suas culturas começaram seu movimento para o leste desde os centros localizados no Atlântico. O Mediterrâneo também emergiu de Gibraltar para o Oriente Próximo, ao invés do outro jeito. E ao contrário, escavações na Sibéria Oriental e na Mongólia provam que exatamente aqui estiveram os centros mais antigos de civilização - isto é, as terras centrais do continente foram o berço da humanidade eurasiana.



Simbolismo da Paisagem

Além dessas duas categorias globais - Terra e Mar - a geopolítica opera também com definições mais particulares. Entre as realidades talassocráticas, há uma diferenciação entre formações marinhas e oceânicas. Assim, por exemplo, a civilização marinha do Mar Negro ou do Mar Mediterrâneo são qualitativamente diferentes da civilização dos oceanos, ou seja, potências insulares e povos habitando nas costas do oceano aberto. Divisões mais particulares existem também entre civilizações de rios e lagos, ligadas a continentes.

A telurocracia também tem suas formas particulares. Assim é possível distinguir uma civilização da Estepe e uma civilização da Floresta, uma civilização da Montanha e uma civilização da Planície, uma civilização do Deserto e uma civilização do Gelo. As variedades da paisagem na geografia sagrada são entendidas como complexos simbólicos ligados à especificidade do estado, ideologia religiosa e ética dos diferentes povos. E mesmo nesse caso, quando lidamos com uma religião ecumênica universalista, sua corporificação concreta em tal ou qual povo, raça ou estado será identicamente sujeita à adaptação segundo o contexto local sacro-geográfico.

Deserto e estepes representam o microcosmo geopolítico dos nômades. Precisamente em desertos e estepes a tendência telurocrática alcança seu ápice, na medida em que o fator "água" aqui é minimamente presente. Os impérios do Deserto e da Estepe devem logicamente ser a ponta-de-lança geopolítica da telurocracia.

Como um exemplo do império da Estepe, se pode considerar o império de Gengis Khan, enquanto um exemplo típico do império do Deserte é o Califado árabe, surgido sob influência direta dos nômades.

Montanhas e as civilizações das montanhas mais comumente representam o arcaico, o fragmentário. Países montanhosos não só não são fontes de expansão; ao contrário, eles são concentradamente as vítimas da expansão geopolítica de outras forças telurocráticas. Nenhum império jamais teve seu centro em regiões montanhosas. Daí o motivo tão repetido da geografia sagrada: "montanhas são povoadas por demônios". Por outro lado, a ideia da conservação dos resíduos de raças e civilizações antigas nas montanhas é demonstrada no fato de que precisamente nas montanhas os centros sagrados da tradição são situados. É até mesmo possível dizer que nas telurocracias uma montanha corresponde a algum poder espiritual.

A combinação lógica de ambos conceitos - montanha como imagem hierática e planície como imagem real - se tornaram o simbolismo da colina, ou seja, uma altura pequena ou mediana. A colina é um símbolo de poder imperial emergindo por sobre o nível secular da estepe, mas não alcançando o limite do poder supremo (como ele alcança no caso das montanhas). Uma colina é um local de habitação para um rei, um conde, um imperador, mas não para o sacerdote. Todas as capitais dos grandes impérios telurocráticos são situados sobre uma colina ou colinas (muitas vezes sobre sete colinas - o número dos planetas; ou sobre cinco - o número de elementos, incluindo o éter; e daí em diante).

A floresta na geografia sagrada está próxima às montanhas em um sentido definido. O simbolismo da árvore está relacionado ao simbolismo da montanha (ambas designam o axis mundi). Portanto em telurocracias a floresta também desempenha uma função periférica - ela, também, é o "local dos sacerdotes" (druidas, magos, eremitas), mas também ao mesmo tempo o "local dos demônios", ou seja, resíduos arcaicos de um passado desaparecido. Tampouco pode a zona florestal ser o centro de um império terrestre.

A tundra representa o análogo nórdico da estepe e do deserto, ainda que o clima frio o torne bem menos significativo desde um ponto de vista geopolítico. Essa "perifericidade" alcança seu apogeu com gelos, que, similarmente às montanhas, são zonas profundamente arcaicas. É indicativo que a tradição xamânica esquimó implica partir sozinho entre os gelos, onde para o futuro xamã o mundo além está aberto. Assim, os gelos são uma zona hierática, o limite de um mundo diferente.

Desde essas características primárias e mais gerais do mapa geopolítico, é possível definir as várias regiões do planeta segundo sua qualidade sagrada. Esse método também pode ser aplicado às características locais da paisagem em um nível de países singulares ou mesmo localidades singulares. É também possível traçar a similaridade de ideologias e tradições dos povos mais (aparentemente) diferentes, no evento de que a paisagem nativa seja a mesma.

Oriente e Ocidente na Geografia Sagrada

Pontos Cardeais no contexto da geografia sagrada possuem uma característica qualitativa especial. Nas várias tradições e nos vários períodos dessas tradições, a imagem da geografia sagrada pode variar segundo as fases cíclicas de desenvolvimento da tradição dada. Assim a função simbólica de Pontos Cardeais muitas vezes varia também. Não entrando em detalhes profundos, é possível formular a mais universal lei da geografia sagrada em relação a Oriente e Ocidente.

A geografia sagrada sobre a base do "simbolismo espacial" tradicionalmente considera o Oriente como "a terra do Espírito", a terra paradisíaca, a terra de uma completude, abundância, a "terra nativa" sagrada em seu tipo mais pleno e perfeito. Em particular, essa ideia é espelhada no texto bíblico, onde a disposição oriental do "Éden" é tratada. Precisamente tal compreensão é peculiar também para outras tradições abraâmicas (Islã e Judaísmo), e também para muitas tradições não-abraâmicas - chinesa, hindu e iraniana. "O Oriente é a mansão dos deuses", afirma a fórmula sagrada dos egípcios antigos, e a própria palavra "oriente" ("neter" em egípcio) significava ao mesmo tempo "deus". Desde o ponto de vista do simbolismo natural, o Oriente é o lugar em que ascende, "vos-tekeat" [em russo] o sol, Luz do Mundo, símbolo material da Divindade e Espírito.

O Ocidente possui o significado simbólico oposto. É o "país da morte", o "mundo sem vida", o "país verde" (como os egípcios chamavam). Ocidente é "o império do exílio", "o abismo dos rejeitados", segundo a expressão dos místicos islâmicos. Ocidente é "anti-oriente", o país de "zakata" [em russo], decadência, degradação, transição do manifesto para o não-manifesto, da vida para a morte, da completude para a necessidade, etc. Ocidente [Zapad, em russo] é o lugar em que o sol cai, em que ele "afunda" [za-padaet].

Segundo à lógica dada do simbolismo cósmico natural, as tradições antigas organizaram seu "espaço sagrado", fundaram seus centros de culto, locais de enterro, templos e edifícios, e interpretaram as características natural e "civilizacional" de territórios geográficos, culturais e políticos do planeta. Desse jeito, a própria estrutura de migrações, guerras, campanhas, ondas demográficas, construção de impérios, etc. foi definida pela lógica original e pragmática da geografia sagrada. Ao longo do eixo oriente-ocidente foram dispostos povos e civilizações, possuindo características hierárquicas - mais próximas ao Oriente estavam aquelas mais próximas à riqueza espiritual, sacral, à Tradição. Mais próximas ao Ocidente, as de um Espírito mais decaído, degradado e agonizante.

Obviamente essa lógica não era absoluta, mas ao mesmo tempo ela não era nem menor, nem relativa - como se considera hoje erroneamente por muitos estudiosos "profanos" de antigas religiões e tradições. Na verdade, a lógica sagrada e o simbolismo cósmico seguinte foram realizados, compreendidos e praticados bem mais conscientemente pelos povos antigos, do que se concorda em estimar hoje. E mesmo em nosso mundo anti-sagrado, em um nível "inconsciente" quase sempre arquétipos da geografia sagrada estão preservados em sua integridade, e são despertos nos momentos mais relevantes e críticos de cataclismos sociais.

Assim a geografia sagrada afirma univocamente a lei do "espaço qualitativo", na qual o Oriente representa o "positivo ontológico" simbólico, e o Ocidente o "negativo ontológico". Segundo a tradição chinesa, o Oriente é Yang, masculino, claro, princípio solar, e o Ocidente é Yin, o feminino, escuro, princípio lunar.



Oriente e Ocidente na Geopolítica Moderna

Nós observaremos como essa lógica sacro-geográfica é espelhada na geopolítica, que, sendo uma ciência exclusivamente moderna, foca apenas na situação fática, deixando de lado os princípios mais sagrados.

A geopolítica em suas formulações originais por Ratzel, Kjellen e Mackinder (e depois por Haushofer e os eurasistas russos) se absteve de conectar as características dos tipos diferentes de civilizações e estados a sua disposição geográfica. Os geopolíticos contemplaram o fato de uma diferença fundamental entre potências "insular" e "continental", entre civilização "ocidental", "progressiva" e formas culturais "orientais", "despóticas" e "arcaicas". Já que em geral a questão sobre o Espírito em sua compreensão metafísica e sagrada jamais surgiu na ciência moderna, os geopolíticos a deixaram de lado, preferindo avaliar a situação em termos mais modernos, diferentes, ao invés de através dos conceitos de "sagrado" e "profano", "tradicional" e "antitradicional", etc.

Geopolíticos estabeleceram as principais diferenças entre desenvolvimento político, cultural e industrial do Oriente e Ocidente nos últimos séculos. A imagem final é a seguinte. O Ocidente é o centro do desenvolvimento "material" e "tecnológico". Ao nível cultural-ideológico, lá tendências "liberal-democráticas", individualistas e humanistas são dominantes. Ao nível econômico, a prioridade é dada ao comércio e à modernização técnica. No Ocidente teorias sobre "progresso", "evolução", desenvolvimento progressivo da história" pela primeira vez apareceram, completamente alheias ao mundo tradicional oriental (e também àqueles períodos da história ocidental, em que uma rigorosa tradição sagrada existia ali também - como foi, em particular, na Idade Média). Coerção a um nível social no Ocidente adquiriu apenas um caráter econômico, e a Lei da Ideia e da Força gradualmente foi substituída pela Lei do Dinheiro. Gradualmente uma "ideologia ocidental" peculiar foi cunhada na fórmula universal de "ideologia dos direitos humanos", que se tornou um princípio dominante nas regiões mais ocidentais do planeta - América do Norte, e em primeiro lugar os EUA. Em um nível industrial, a essa ideologia correspondia a ideia de "países desenvolvidos, e em um nível econômico o conceito de 'livre mercado, de liberalismo econômico'". Todo o agregado dessas características, com a adição da integração puramente militar e estratégia dos diferentes setores da civilização ocidental, é definida hoje pelo conceito de "atlantismo". No século passado os geopolíticos falaram sobre um tipo "anglo-saxão de civilização" ou sobre a "democracia capitalista burguesa". Nesse tipo "atlantista" a fórmula do "Ocidente geopolítico" encontrou sua corporificação mais pura.

O Oriente geopolítico representa em si mesmo a oposição direta ao Ocidente geopolítico. Ao invés de modernização econômica, aqui (nos "países menos desenvolvidos") modos de produção arcaicos e tradicionais de tipo corporativo, manufatureiro prevalecem. Ao invés de coerção econômica, mais usualmente o estado usa coerção "moral" ou simplesmente física (Lei da Ideia e Lei da Força). Ao invés de "democracia" e "direitos humanos" o Oriente gravita ao redor do totalitarismo, do socialismo e do autoritarismo, ou seja, ao redor de vários tipos de regimes sociais, cuja única característica comum é que o centro de seus sistemas não é o "indivíduo", o "homem" com seus "direitos" e seus "valores individuais" peculiares, mas algo supra-individual, supra-humano - seja "sociedade", "nação", "povo", "ideia", weltanschauung", "religião", "culto do líder", etc. O Oriente opôs à democracia liberal ocidental os mais variados tipos de sociedades não-liberais e não-individualistas - de monarquia autoritária a teocracia ou socialismo. Ademais, desde um ponto de vista geopolítico, tipológico puro, a especificidade política desse ou daquele regime foi secundário em comparação com a divisão qualitativa entre a ordem "ocidental" (= "individualista-mercantil") e a ordem "oriental" (= "supra-individualista-baseado em força"). Formas representativas de tal civilização anti-ocidental foram a URSS, a China comunista, o Japão até 1945 ou o Irã de Khomeini.

É curioso notar que Rudolf Kjellen, o primeiro autor a usar o termo "geopolítica", ilustrou a diferença entre Ocidente e Oriente dessa maneira. "Uma típica frase de estimação dos americanos, - escreveu Kjellen - é 'siga em frente', que literalmente significa 'avante'. Nela o otimismo geopolítico interior e natural e o "progressismo" da civilização americana, sendo a forma extrema do padrão ocidental, é espelhada. Russos usualmente repetem a palavra 'nechego' [nada]. Nela se expressam 'pessimismo', 'contemplação', 'fatalismo' e 'adesão à tradição', todas características peculiares do Oriente".

Se nós agora retornarmos ao paradigma da geografia sagrada, nós veremos a contradição direta entre as prioridades da geopolítica moderna (tais conceitos como "progresso", "liberalismo", "direitos humanos", "ordem mercantil", etc., são hoje termos positivos para a maioria das pessoas) e as prioridades da geografia sagrada, avaliando os vários tipos de civilizações desde um ponto de vista completamente oposto (conceitos como "espírito", "contemplação", "resignação à força ou ideia supra-humana", "ideocracia", etc. em civilizações sagradas eram exclusivamente positivas, e assim permanecem até agora para os povos orientais ao nível do "inconsciente coletivo". Assim a geopolítica moderna (exceto para os eurasistas russos, seguidores alemães de Haushofer, fundamentalistas islâmicos, etc.) avaliam a imagem do mundo desde uma perspectiva oposta em relação à geografia sagrada tradicional. Mas assim ambas ciências convergem na descrição de leis fundamentais da imagem geográfica de civilizações.

Norte Sagrado e Sul Sagrado

Além de um determinismo sacro-geográfico em um eixo Oriente-Ocidente, um problema extremamente relevante é representado pelo outro eixo de orientação, vertical, o eixo Norte-Sul. Aqui, bem como em todos os casos remanescentes, os princípios da geografia sagrada, o simbolismo dos pontos cardeais e os continentes relacionados, possui seu análogo direto na imagem geopolítica do mundo, que ou é naturalmente construída no curso do processo histórico, ou é conscientemente e artificialmente formada como o resultado de ações propositadas dos líderes de tal ou qual formações geopolíticas. Desde o ponto de vista da "tradição integral", a diferença entre "artificial" e "natural" é geralmente bem relativa, já que a Tradição jamaias conheceu nada similar ao dualismo cartesiano ou kantiano, separando estritamente o "subjetivo" do "objetivo" ("fenomenal" e "noumenal"). Portanto o determinismo sagrado de Norte ou Sul não é somente um fator físico, natural, climático-paisagístico (ou seja, algo "objetivo") ou somente "ideia", "conceito", gerado pelas mentes de certos indivíduos (ou seja, algo "subjetivo"), mas algo de um terceiro tipo, excedendo tanto os pólos objetivo como subjetivo. Se poderia dizer que o Norte sagrado, o arquétipo do Norte, se dividindo na história na paisagem natural nórdica, por um lado, e na ideia de Norte, "nordismo", por outro lado.

A mais antiga e original camada de Tradição afirma univocamente a primazia do Norte sobre o Sul. O simbolismo do Norte se relaciona a uma Fonte, a um paraíso nórdico original, desde onde toda a civilização humana se origina. Textos irânicos e zoroastrianos antigos falam sobre o país nórdico de "Aryiana Vaeijao" e sua capital "Vara", de onde os antigos arianos foram expulsos pela glaciação, que lhes foi enviada por Ahriman, espírito do Mal e opositor do claro Ormudz. Os antigos Vedas também falam sobre o país nórdico como o lar ancestral do hindu, sobre uma Sveta-Dipa, Terra Branca jazendo no longínquo norte.

Os antigos gregos falavam sobre Hiperbórea, a ilha nórdica com sua capital Thule. Essa terra era considerada como a pátria original do deus luminoso Apolo. E em muitas outras tradições é possível detectar traços antiquíssimos, muitas vezes esquecidos e fragmentários, de um simbolismo nórdico. A ideia básica tradicionalmente ligada ao Norte é a ideia de Centro, Pólo Imóvel, ponto de Eternidade ao redor do qual gira o ciclo não só do espaço, mas também do tempo. O Norte é a terra para a qual o Sol jamais vai mesmo à noite, um espaço de luz eterna. Qualquer tradição sagrada honra o Centro, o Meio, o ponto em que contrastes se aplacam, o lugar simbólico não sujeito às leis da entropia cósmica. Esse Centro, cujo símbolo é a Suástica (enfatizando tanto imobilidade e constância do Centro, e mobilidade e mutabilidade da periferia), recebeu um nome diferente segundo cada tradição, mas ele era sempre direta ou indiretamente ligado ao simbolismo do Norte. Portanto é possível dizer que todas as tradições sagradas são em essência a projeção de uma única Tradição Nórdica Primordial adaptada a cada distinta condição histórica. O Norte é o Ponto Cardeal escolhido pelo Logos primevo de modo a se revelar na História, e cada uma de suas manifestações subsequentes somente restaurou aquele simbolismo polar-paradisíaco primevo.

A geografia sagrada correlaciona o Norte a espírito, luz, pureza, completude, unidade, eternidade.

O sul simboliza algo diretamente oposto - materialidade, escuridão, mistura, privação, pluralidade, imersão na corrente do tempo e devir. Mesmo desde o ponto de vista natural, em áreas polares há um longo Dia semi-anual e uma longa Noite semi-anual. É o Dia e Noite dos deuses e heróis, dos anjos. Mesmo tradições decaídas lembravam esse Norte Cardeal, sacral, espiritual, sobrenatural, incluindo as regiões nórdicas como o lugar de habitação de "espíritos" e "forças do além". No sul o Dia e Noite dos deuses estão fragmentados em um conjunto de dias humanos, o simbolismo original de Hiperbórea está perdido, e suas memórias se tornam partes da "cultura", da "lenda". O sul geralmente corresponde à cultura, ou seja, àquela esfera da atividade humana em que o Invisível e o Puramente Espiritual adquirem contornos materiais, endurecidos, visíveis. O Sul é o reino da substância, da vida, da biologia e dos instintos. O Sul corrompe a pureza nórdica da Tradição, mas preserva seus traços em características materializadas.

O par Norte-Sul na geografia sagrada não é reduzido a uma oposição abstrata de Bem e Mal. Ele é ao invés a oposição de Ideia Espiritual a sua corporificação material, embrutecida. Em casos normais, como a primazia do Norte é reconhecida pelo Sul, entre esses lados existe uma relação harmoniosa - o Norte "espiritualiza" o Sul, os mensageiros nórdicos dão aos sulistas a Tradição, depositam as fundações de civilizações sagradas. Se o Sul falha em reconhecer a primazia do Norte, a oposição sagrada, a "guerra de continentes" começa, e desde o ponto de vista da Tradição o Sul é responsável por esse conflito ao quebrar as regras sagradas. No Ramayana, por exemplo, a ilha sulista Lanka é considerada como um lar de demônios que roubaram a esposa de Rama, Sita, e declararam guerra ao Norte continental com sua capital em Ayodjya.

Assim é importante marcar que na geografia sagrada o eixo Norte-Sul é mais relevante que o eixo Oriente-Ocidente. Mas sendo o mais relevante, ele corresponde às fases mais antigas da história cíclica. A grande guerra de Norte e Sul, Hiperbórea e Gondwana (antigo paleocontinente do Sul) se remete a tempos "antediluvianos". Nas últimas fases do ciclo ela se torna mais oculta, velada. Os paleocontinentes de Norte e Sul eles próprios desaparecem. O signo de testemunho de oposição é passado a Oriente e Ocidente.

A transição do eixo vertical Norte-Sul para o eixo horizontal Oriente-Ocidente, típico das últimas fases do ciclo, não obstante salva a lógica e a conexão simbólica entre esses dois pares sacro-geográficos. O par Norte-Sul (ou seja, Espírito-Matéria, Eternidade-Tempo) é projetado sobre o par Oriente-Ocidente (ou seja, Tradição e Profanidade, Origem e Decadência). O Oriente é a projeção horizontal descendente do Norte. O Ocidente - a projeção horizontal ascendente do Sul. Dessa transferência de significados sagrados se pode obter facilmente a estrutura da visão continental peculiar à Tradição.



O Povo do Norte

O Norte sagrado define um tipo humano especial, que pode possuir uma corporificação biológica, racial, mas que pode também não possuir. A substância do "nordismo" consiste na capacidade do homem de erguer cada objeto do mundo físico, material, a seu arquétipo, a sua Ideia. Essa qualidade não é um simples desenvolvimento de origem racional. Vice-versa, o "intelecto puro" cartesiano e kantiano por sua natureza não é capaz de superar a frágil fronteira entre "fenômeno" e "númeno" - mas exatamente essa habilidade se encontra nas bases do pensamento "nórdico". O homem do Norte não é simplesmente branco, "ariano" ou indoeuropeu por seu sangue, linguagem e cultura. O homem do Norte é um tipo particular de ser possuindo uma intuição direta do Sagrado. Para ele o cosmos é uma textura de símbolos, cada um deles evocado desde o segredo pelo olho do Primeiro Princípio Espiritual. O homem do Norte é o "homem solar", Sonnenmensch, não absorvendo energia, como fazem os buracos negros, mas delineando-a, projetando luz, força e sabedoria a partir de seu fluxo espiritual de criação.

A civilização nórdica pura desapareceu com os antigos Hiperbóreos, mas seus mensageiros assentaram as bases de todas as tradições atuais. Essa "raça" nórdica de Mestres esteve nas origens da religião e cultura dos povos de todos os continentes e cores de pele. Traços de um culto hiperbóreo podem ser encontrados entre os índios da América do Norte e entre os antigos eslavos, entre os fundadores da civilização chinesa e entre os nativos do Pacífico, entre os loiros alemães e os xamãs negros da África ocidental, entre os aztecas de pele-vermelha e os mongóis de maças do rosto elevadas. Não há povo no planeta, que não possua um mito sobre o "homem solar", o Sonnenmensch. A verdadeira espiritualidade, a Mente supra-racional, o Logos divino, a capacidade de ver através do mundo sua Alma sagrada - essas são as qualidades definidoras do Norte. Onde quer que haja Pureza Sagrada e Sabedoria, lá invisivelmente está o Norte - onde quer que seja o ponto no tempo ou espaço em que estejamos.

O Povo do Sul

O homem do Sul, o tipo gondvânico, é diretamente oposto ao tipo "nórdico". O homem do Sul vive em um círculo de efeitos, de manifestações secundárias; ele habita no cosmos, que ele venera mas não compreende. Ele adora a exterioridade, mas não a interioridade. Ele cuidadosamente salva traços de espiritualidade, sua corporificação no ambiente material, mas não é capaz de proceder de simbolizar ao simbolizado. O homem do Sul vive por paixões e impulsos, ele coloca o psíquico acima do espiritual (que ele simplesmente não conhece) e adora a Vida como autoridade superior. O culto da Grande Mãe, da matéria gerando a variedade de formas, é típica do homem do Sul. A civilização do Sul é uma civilização da Lua recebendo a luz do Sol (Norte), preservando e difundindo-a por algum tempo, mas periodicamente perdendo contato com ela (lua nova). O homem do Sul é um Mondmensch.

Quando o povo do Sul fica em harmonia com o povo do Norte, ou seja, reconhece sua autoridade e sua superioridade tipológica (não racial!), a harmonia impera entre as civilizações. Quando eles reivindicam sua supremacia por causa de sua relação arquetípica com a realidade, emerge um tipo cultural distorcido, que pode ser globalmente definido pela adoração de ídolos, fetichismo ou paganismo (no sentido negativo, pejorativo desse termo).

Como no caso de paleocontinentes, tipos nórdicos ou sulistas puros existiram apenas em termos remotos antigos. O povo do Norte e o povo do Sul se opuseram um ao outro nas origens. Posteriormente todos os povos do Norte penetraram nas terras sulistas, fundando às vezes expressões claras da civilização "nórdica" - Irã e Índia antigos. Por outro lado, aqueles do Sul às vezes foram muito ao norte, portando seu tipo cultural - fínicos, esquimós, chuckchis, etc. Gradualmente a clareza original do panorama sacro-geográfico se tornou turvo. Mas à despeito de tudo o dualismo tipológico do "povo do Norte" e do "povo do Sul" foi preservado em todos os tempos e épocas - mas não tanto quanto como um conflito externo de duas civilizações miscelâneas, como um conflito interno dentro do esquema da mesma civilização. O tipo do Norte e o tipo do Sul, desde algum momento na história sagrada, se opõem um ao outro em todo lugar, independentemente do lugar concreto do planeta.

Norte e Sul no Oriente e no Ocidente

O tipo do povo do Norte poderia ser projetado no Sul, no Oriente e no Ocidente. No Sul, a Luz do Norte gerou grandes civilizações metafísicas como a indiana, iraniana ou chinesa, que na situação do Sul "conservador" por um longo tempo salvou a Revelação, confiada a ela. Porém, a simplicidade e clareza do simbolismo nórdico se transformou aqui em um emaranhado complexo e miscelâneo de doutrinas sagradas, sacramentos e ritos. Porém, quanto mais se dirige ao Sul, mais fracos são os traços do Norte. E entre os habitantes das ilhas do Pacífico e do sul da África, motivos "nórdicos" na mitologia e nos sacramentos estão preservados em formas extremamente fragmentadas, rudimentares e mesmo distorcidas.

No Oriente, o Norte é mostrado como a sociedade tradicional clássica fundada sobre a superioridade unívoca do supra-individual sobre o individual, onde o "humano" e o "racional" são apagados perante o Princípio supra-humano e supra-racional. Se o Sul dá à civilização um caráter de "estabilidade", o Oriente define sua sacralidade e autenticidade, o maior garantidor do que é a Luz do Norte.

No Ocidente, o Norte se expressou nas sociedades heróicas, onde tal tendência, peculiar ao Ocidente, à fragmentação, individualização e racionalização ultrapassou a si mesma, e o indivíduo, se tornando o Herói, emergiu do esquema estreito da personalidade "humana, demasiado humana". O Norte no Ocidente é personificado pela figura simbólica de Hércules que, por um lado, liberta Prometeu (a tendência ocidental, titânica, humanista pura), e por outro lado, auxilia Zeus e os deuses a derrotarem a rebelião dos gigantes (ou seja, serve às regras sagradas e à Ordem espiritual).

O Sul, ao contrário, se projeta sobre todas as três orientações segundo uma imagem oposta. No Norte, ele dá o efeito de "arcaísmo" e estagnação cultural. Mesmo as tradições mais nórdicas sob a influência sulista, os elementos "paleo-asiáticos", "fínicos" ou "esquimó" adquirem os caracteres de "adoração de ídolos" e "fetichismo". (Isso é característico, em particular, da civilização germano-escandinava na "época dos escaldos").

No Oriente, as forças do Sul são demonstradas em sociedades despóticas, nas quais a natural e justa indiferença oriental pelo indivíduo se transforma em uma negação do Sujeito Supra-Humano. Todas as formas de totalitarismo oriental, tanto tipológico quanto racial, estão ligadas ao Sul.

E por último, no Ocidente o Sul se expressa nas formas extremamente brutas e materialistas de individualismo, em que os indivíduos atomizados alcançam o limite da degeneração anti-heróica, adorando apenas o "velo de ouro" do conforto e do hedonismo egoísta. Que exatamente essa combinação das duas tendências sacro-geopolíticas gera o tipo mais negativo de civilização é óbvio, já que nela duas atitudes, já negativas em si mesmas - o Sul na linha vertical e o Ocidente na linha horizontal - se somam.



De Continentes a Meta-Continentes

Se desde a perspectiva da geografia sagrada o Norte simbólico corresponde univocamente a aspectos positivos, e o Sul a negativos, em uma imagem geopolítica exclusivamente moderna do mundo tudo é muito mais complexo, e em alguma medida até mesmo invertido. A geopolítica moderna compreende os temos "Norte" e "Sul" como categorias completamente distintas da compreensão da geografia sagrada.

Primeiramente, o paleocontinente do Norte, Hiperbórea, desde muitos milênios já não existe em um nível físico, permanecendo uma realidade espiritual, sobre a qual é dirigido o olhar espiritual do iniciado, extraindo a Tradição original.

Em segundo lugar, a antiga raça nórdica, a raça dos "mestres brancos", associada com o pólo da época primordial, não coincide com o que comumente se chama hoje "raça branca", baseada apenas em características físicas, cor da pele, etc. A Tradição Nórdica e sua população original, os "nórdicos autóctones" já há muito não representam qualquer realidade histórico-geográfica concreta. Por juízo comum, mesmo os últimos resquícios dessa cultura primordial desapareceram da realidade física já há milênios atrás.

Assim, o Norte na Tradição é uma realidade meta-histórica e meta-geográfica. O mesmo pode ser dito também sobre a "raça hiperbórea" - uma "raça" não no sentido biológico, mas em um sentido puramente metafísico, espiritual. (Esse tema de "raças metafísicas" foi desenvolvida em detalhe nas obras de Julius Evola).

O continente do Sul e todo o Sul da Tradição, também, já há muito tempo não existem mais em um estado puro, não menos do que suas populações mais antigas. De algum modo, o "sul" de certo momento em diante se torna praticamente o planeta inteiro, já que a influência do centro polar iniciático original e seus mensageiros do mundo diminuíram. As raças modernas do Sul representam um produto de múltiplas misturas com raças do norte, e a cor da pele já há muito deixou de ser um sinal distintivo do pertencimento a tal ou qual "raça metafísica".

Em outras palavras, a imagem geopolítica moderna do mundo possui muito pouco em comum com a visão principal do mundo em seu corte supra-histórico, meta-temporal. Os continentes e suas populações em nossa época se distanciaram ao extremo desses arquétipos, que correspondiam a eles em tempos primordiais. Portanto, entre continentes reais e raças reais (as realidades da geopolítica moderna), por um lado, e meta-continentes e meta-raças (as realidades da geografia sagrada tradicional), por outro lado, hoje existe não só uma simples discrepância, mas quase uma correspondência inversa.

A Ilusão do "Norte rico"

A geopolítica moderna usa o conceito de "norte" mais frequentemente com a definição de "rico" - "o rico Norte", e também "o avançado Norte". Isso conota todo o agregado da civilização ocidental, dando sua atenção básica ao desenvolvimento do lado material e econômico da vida. O "Norte rico" é rico não por ser mais esperto, ou mais intelectual, ou mais espiritual que o "Sul", mas porque ele constrói seu sistema social sobre o princípio da maximização do material que pode ser tomado do potencial social e natural, da exploração dos recursos humanos e naturais. A imagem racial de "Norte rico" está ligada àqueles povos que possuem pele branca, e essa característica se situa nas raízes das várias versões, explícitas ou ocultas, de "racismo ocidental" (em particular anglo-saxão). O sucesso do "Norte rico" na esfera material foi erguido a um princípio político e mesmo "racial" naqueles países que foram a vanguarda do desenvolvimento industrial, técnico e econômico - ou seja, Inglaterra, Holanda e depois Alemanha e os EUA. Nesse caso, o bem-estar material e quantitativo foi igualado a um critério qualitativo, e sobre essa base os preconceitos mais ridículos contra o "barbarismo", o "primitivismo", o "subdesenvolvimento" e a "untermenschlichkeit" dos povos sulistas (ou seja, daqueles que não pertencem ao "Norte rico") se desenvolveram. Tal "racismo econômico" foi demonstrado de modo especialmente claro nas conquistas coloniais anglo-saxônicas, e posteriormente sua versão embelezada foi introduzida nos aspectos mais contraditórios e grosseiros da ideologia nacional-socialista. Assim, muitas vezes ideólogos nazistas simplesmente misturavam palpites vagos sobre "nordismo espiritual" puro e "raça ariana espiritual" com um racismo vulgar, biológico, mercantilista do tipo inglês. (Aliás, precisamente essa substituição de categorias de geografia sagrada com categorias de desenvolvimento material e técnico foi também o lado mais negativo do nacional-socialismo que o levou, eventualmente, a seu colapso político, teórico e mesmo militar). Mas mesmo após a derrota do Terceiro Reich, esse tipo de racismo do "Norte rico" não desapareceu da vida política. Porém seus portadores se tornaram em primeiro lugar os EUA e seus parceiros atlânticos na Europa Ocidental. Certamente, nas doutrinas mundialistas mais recentes do "Norte rico" a questão da pureza biológica e racial não é enfatizada, mas não obstante, na prática, em suas relações com os países subdesenvolvidos e menos desenvolvidos do Terceiro Mundo, o "Norte rico" também hoje demonstra apenas soberba "racista", típica tanto de colonialistas ingleses como de seguidores ortodoxos do nacional-socialismo alemão de Rosenberg.

Na verdade, o "Norte rico" significa geopoliticamente aqueles países em que forças diretamente opostas à Tradição venceram - forças de quantidade, materialismo, ateísmo, degradação espiritual e degeneração emocional. "Norte rico" significa algo radicalmente distinto de "nordismo espiritual", de "espírito hiperbóreo". A substância do Norte na geografia sagrada é a primazia do espírito sobre a substância, a vitória definitiva e total da Luz, da Equidade e da Pureza sobre as trevas da vida animal, a arrogância de paixões individuais e o lamaçal do egoísmo mundano. A geopolítica mundialista do "Norte rico", ao contrário, significa bem-estar exclusivamente material, hedonismo, sociedade de consumo, o pseudo-paraíso artificial e não-problemático daqueles que Nietzsche chama de "os últimos homens". O progresso material da civilização técnica foi acompanhada por um regresso espiritual monstruoso da cultura sagrada, e consequentemente, desde o ponto de vista da Tradição, a "riqueza" do Norte moderno "avançado" não pode servir como critério de superioridade genuína acima da "pobreza" material e do atraso técnico do "Sul primitivo" moderno.

Ademais, a "pobreza" material do Sul muitas vezes está inversamente ligada à conservação nas regiões sulistas das formas genuinamente sagradas de civilização; isso significa que por trás de tal "pobreza" uma riqueza espiritual está às vezes oculta. Ao menos duas civilizações sagradas existem ainda hoje no espaço sulista, à despeito de todas as tentativas do "Norte rico" (e agressivo) de impor sobre todos sua própria medida e caminho de desenvolvimento. Essas são a Índia hinduísta e o mundo islamista. No que concerne a tradição do extremo oriente, há vários pontos de vista: alguns veem mesmo sob a camada de retórica "marxista" e "maoísta" alguns princípios tradicionais, que foram sempre indiscutíveis para a civilização chinesa sagrada. De qualquer maneira, mesmo aquelas regiões sulistas habitadas por povos que preservam sua devoção às mais antigas e quase esquecidas tradições sagradas, em comparação com o "Norte rico" ateizado e totalmente materialista, exibem características "espirituais", "rigorosas" e "normais" - enquanto que o "Norte rico" ele próprio, desde um ponto de vista espiritual, é completamente "anormal" e "patológico".

O "Sul pobre" em projetos mundialistas é efetivamente sinônimo do "Terceiro Mundo". Esse mundo foi chamado de "Terceiro" durante a Guerra Fria, e esse conceito supunha que os outros dois "mundos" - o capitalista avançado e o soviético menos avançado - são mais relevantes e significativos para a geopolítica global, do que todas as outras regiões. Basicamente, a expressão "Terceiro Mundo" possui um sentido pejorativo: segundo a lógica utilitária do "Norte rico", tal definição efetivamente equipara países do "Terceiro Mundo" às "bases de recursos naturais e humanos, que devem apenas obedecer, ser explorados e usados para seus propósitos. Assim, o "Norte rico" habilidosamente manobrou as características político-ideológicas tradicionais e religiosas do "Sul pobre", tentando subjugar a suas preocupações exclusivamente materialistas e econômicas aquelas forças e estruturas, que em potencial espiritual excediam em muito o nível espiritual do "Norte". Isso foi quase sempre possível para ele, já que o próprio momento cíclico de desenvolvimento de nossa civilização favorece tendências pervertidas, anormais e anti-naturais - já que, segundo a Tradição, nós estamos agora no último período do "século sombrio", Kali-Yuga. O hinduísmo, o confucionismo, o Islã, as tradições autóctones dos povos "não-brancos" se tornaram para os conquistadores materiais do "Norte rico" simplesmente um obstáculo na realização de seus propósitos, mas ao mesmo tempo eles muitas vezes tem usado os aspectos separados da Tradição para alcançar seus propósitos mercantilistas - explorando contradições, características religiosas ou problemas nacionais. Tal uso utilitário dos vários aspectos da Tradição para propósitos exclusivamente anti-tradicionais foi um mal ainda maior, do que a negação direta de todos os valores tradicionais, já que a maior perversão consiste em que o grandioso é sujeito ao insignificante.

De fato, o "Sul pobre" é "pobre" em um nível material precisamente por causa de suas atitudes espirituais, sempre dando aos aspectos materiais da existência um lugar menor e desimportante. O Sul geopolítico em nosso tempo preservou em geral uma atitude exclusivamente tradicionalista em relação aos objetos do mundo externo - uma atitude quieta, distante e, eventualmente, indiferente - em marcado contraste com a obsessão material do "Norte rico", a sua paranoia materialista e hedonista. As pessoas do "Sul pobre" normalmente habitam na Tradição, e até agora suas existências são mais plenas, profundas e mesmo mais magníficas, na medida em que a coparticipação ativa na Tradição sagrada concede sobre todos os aspectos de suas vidas pessoais aquele sentido, aquela intensidade, aquela saturação das quais há muito estão privados os representantes do "Norte rico", - tornados histéricos por neuroses, medos materiais, desolação interna,  falta de direção existencial completa, representando somente um caleidoscópio de vidro, somente uma imagem vazia.

Poderia ser dito que a correlação entre Norte e Sul em tempos originais é polarmente oposta a sua correlação em nossa época, já que é o Sul que hoje ainda preserva alguns elos com a Tradição, enquanto o Norte as perdeu definitivamente. Não obstante, essa afirmação não cobre em absoluto toda a imagem da realidade, já que a verdadeira Tradição não pode admitir em relação a si mesma uma referência tão humilhante, quanto as práticas do "Norte rico" ateístico-agressivo com o "Terceiro Mundo". O fato é que a Tradição é preservada no Sul apenas de modo inerte, fragmentário, parcial. Ela ocupa uma posição passiva e resiste, somente se defendendo. Portanto o Norte espiritual não se transfere completamente para o Sul no fim dos tempos - no Sul há apenas um acúmulo e preservação de impulsos espirituais, nunca associados com o Norte sagrado. Em linha de princípio, a iniciativa tradicional ativa não tem como emanar do Sul. E ao contrário, o "Norte rico" mundialista, conseguiu endurecer de tal modo seu efeito pernicioso sobre o planeta devido à especificidade das regiões nórdicas, predispostas à atividade. O Norte foi e permanece sendo local eletivo de força, portanto a verdadeira eficiência pertence às iniciativas geopolíticas que vem do Norte.

O "Sul pobre" possui hoje toda a prioridade espiritual perante o "Norte rico", mas ele não pode servir como alternativa séria à agressão profana do "Norte rico", nem pode oferecer o projeto geopolítico radical capaz de subverter a imagem patológica do espaço planetário moderno.



O Papel do "Segunda Mundo"

Na imagem geopolítica bipolar "Norte rico - Sul pobre" sempre existiu um componente adicional possuidor de sentido relevante e auto-sustentador. É o "segundo mundo". Sob a expressão "segundo mundo" é convenientemente compreendido para significar o campo socialista integrado no sistema soviético. Esse "segundo mundo" não era nem o "Norte rico" atual, na medida em que motivos definitivamente espirituais influenciaram secretamente a ideologia nominalmente materialista do socialismo soviético, nem o atual "Terceiro Mundo", já que como um todo a atitude em relação ao desenvolvimento material, "progresso" e outros princípios profanos residia nas raízes do sistema soviético. A URSS geopoliticamente eurasiana está localizada tanto nos territórios da "Ásia pobre", como nas terras da suficientemente "civilizada" Europa. Durante o período socialista, o cinturão planetário do "Norte rico" foi rompido na Eurásia oriental, complicando a clareza das relações geopolíticas em um eixo Norte-Sul.

O fim do "Segundo Mundo" como uma civilização especial deixa para o espaço eurasiano da antiga URSS duas alternativas - ou ser integrada no "Norte rico" (isto é, o Ocidente e os EUA), ou ser lançada no "Sul pobre", ou seja, se transformar no "Terceiro mundo". Como uma variante de compromisso, a separação de regiões (parte para o "Norte", e parte para o "Sul"), também é possível. Como sempre tem sido nos últimos séculos, a iniciativa de redistribuir espaços geopolíticos nesse processo pertence ao "Norte rico", que, cinicamente usando os paradoxos do mesmo conceito de "Segundo Mundo", fixa novas fronteiras geopolíticas e rompe zonas de influência. Fatores nacionais, econômicos e religiosos servem aos mundialistas apenas como instrumentos em sua atividade cínica e motivada de modo profundamente materialista. Não é surpreendente, que para além da retórica "humanista" falsa, as razões "racistas" invocadas para inspirar nos russos um complexo de superioridade "branca" em relação ao sul asiático e caucásico será usada cada vez mais. A isso se correlaciona o processo inverso - a rejeição definitiva de territórios sulistas do antigo "Segundo Mundo" para o "Sul pobre" é acompanhada pela jogada da carta das tendências fundamentalistas, a inclinação do povo à Tradição e o renascimento da religião.

O "Segundo Mundo", estando desintegrado, é rompido ao longo das linhas do "tradicionalismo" (o tipo sulista, inercial, conservador) e do "anti-tradicionalismo" (o tipo ativamente nórdico, modernista e materialista). Tal dualismo, que hoje está somente planejado, mas que no futuro próximo se tornará o fenômeno dominante da geopolítica eurasiana, é predeterminado pela expansão da compreensão mundialista do mundo em termos de "Norte rico"-"Sul pobre". Qualquer tentativa de salvar o antigo Grande Espaço Soviético, qualquer tentativa de simplesmente salvar o "Segundo Mundo" como algo auto-sustentador e se equilibrando na metade do caminho entre Norte e Sul (em seu sentido exclusivo moderno), não pode ser coroado com sucesso, sem por em dúvida a concepção polar fundamental da geopolítica moderna, compreendida e realizada em sua natureza real, deixando de lado todas as declarações enganosas de humor humanitário e econômico.

O "Segundo Mundo" desaparece. Não há mais lugar para ele no mapa geopolítico moderno. Ao mesmo tempo, a pressão do "Norte rico" sobre o "Sul pobre" aumenta, sendo um com uma sociedade tecnocrática materialista agressiva na ausência de um poder intermediário, que existiu até ontem - o "Segundo Mundo". Qualquer destino diferente para o "Segundo Mundo", do que a partição total segundo as regras ditadas pelo "Norte rico", é possível somente através de uma protelação radical da lógica planetária de um eixo Norte-Sul dicotômico, considerado em uma chave mundialista.



O Projeto do "Norte Ascendente"

O "Norte mundialista rico" globaliza sua dominação sobre o planeta pela partição e destruição do "Segundo Mundo". Na geopolítica moderna isso é também chamado de "Nova Ordem Mundial". As forças ativas da anti-tradição consolidam sua vitória sobre a recalcitrância das regiões sulistas, preservando seu atraso econômico e defendendo a Tradição em suas formas residuais. As energias geopolíticas internas do "Segundo Mundo" são colocadas perante uma escolha - ou serem incorporadas no sistema do "cinturão nórdico civilizado" e perder definitivamente qualquer conexão com uma história sagrada (projeto do mundialismo esquerdista), ou se transformar em um território ocupado sendo-lhe permitida uma restauração parcial de alguns aspectos da tradição (projeto do mundialismo direitista). Nessa direção os eventos hoje estão se desenvolvendo e vão se desenvolver no futuro próximo.

Como o projeto alternativo é possível formular teoricamente um caminho diferente de transformação geopolítica baseada na rejeição da lógica mundialista Norte-Sul e em retornar ao espírito da genuína geografia sagrada - tanto quanto possível ao fim da era sombria. É o projeto do "Grande Retorno" ou, em terminologia diferente, da "Grande Guerra dos Continentes".

Em suas características mais gerais, a essência desse projeto é como segue.

1) O "Norte rico" se opõe não ao "Sul pobre", mas ao "Norte pobre". O "Norte pobre" é um ideal, o ideal sagrado de retornar às fontes nórdicas de civilização. Tal Norte é "pobre" porque ele é baseado no ascetismo total, na devoção radical aos mais altos valores de Tradição, no desprezo completo do material em nome do espiritual. O "Norte pobre" existe geograficamente apenas nos territórios da Rússia, que, estando em efeito, "pelo Segundo Mundo", resistiram sociopoliticamente até o último momento à adoção final de uma civilização mundialista em suas formas mais "progressivas". As terras nórdicas eurasianas da Rússia são os únicos territórios na terra que não foram dominadas completamente pelo "Norte rico", habitada por povos tradicionais e sendo uma terra incognita do mundo moderno. O caminho do "Norte pobre" para a Rússia significa a recusa em se incorporar no cinturão mundialista, de arcaizar suas próprias tradições e de reduzi-las ao nível folclórico de uma reserva etno-religiosa. O "Norte pobre" deve ser espiritual, intelectual, ativo e agressivo. Em outras regiões do "Norte rico" uma oposição potencial do "Norte pobre" também é possível - que pode ser demonstrada em uma sabotagem radical por parte da elite intelectual ocidental ao curso estabelecido da "civilização mercantilista", na rebelião contra o mundo da finança pelos valores antigos e eternos de Espírito, equidade e auto-sacrifício. O "Norte pobre" começa uma luta geopolítica e ideológica contra o "Norte rico", rejeitando seus projetos, destruindo de dentro e de fora seus planos, mitigando sua eficiência impoluta, esmagando suas manipulações sociais e políticas.

2) O "Sul pobre", incapaz de combater por si mesmo o "Norte rico", entra em uma aliança radical com o "Norte pobre (eurasiano)" e começa uma luta de liberação contra a ditadura "do norte". É especialmente importante atacar os representantes da ideologia do "Sul rico", ou seja, aquelas forças que, trabalhando com o "Norte rico", representam "desenvolvimento", progresso" e "modernização" de países tradicionais, que praticamente significarão somente um recuo crescente dos restos da Tradição sagrada.

3) O "Norte pobre" do Oriente eurasiano, junto com o "Sul pobre", se estendendo em um círculo ao redor de todo o planeta, concentra as forças que lutam contra o "Norte rico" do Ocidente atlantista. Assim se coloca um fim para sempre às versões ideologicamente vulgares do racismo anglo-saxão, saudando a "civilização técnica dos povos brancos" e ecoando a propaganda mundialista. (Alain de Benoist expressou essa ideia no título de seu famoso livro "O Terceiro Mundo e a Europa: A Mesma Luta"; seu argumento é, obviamente, "Europa Espiritual, a "Europa dos Povos e Tradições", ao invés da "Europa dos Bens de Maastricht"). Intelectualidade, atividade e o perfil espiritual o Norte sagrado genuíno fazem as tradições se reverterem à Fonte nórdica, e erguem o "Sul" em uma revolta planetária contra o único inimigo geopolítico. A recalcitrância passiva do "Sul" adquire assim um fulcro no messianismo planetário dos "nórdicos", rejeitando radicalmente o ramo degenerado e anti-sagrado daqueles povos brancos que seguiram o caminho do progresso técnico e do desenvolvimento material. Incendeia a Revolução Geopolítica planetária, supra-racial e supra-nacional baseada na solidariedade fundamental do "Terceiro Mundo" com aquela parte do "Segundo Mundo" que rejeita o projeto do "Norte rico".

Durante a luta, a chama da "ressurreição do Norte espiritual", a chama de Hiperbórea transforma a realidade geopolítica. A nova ideologia global é a ideologia da Restauração Final, colocando o ponto final na história geopolítica da civilização - mas não aquele ponto, que os porta-vozes do Fim da História queriam colocar. A variante materialista, ateísta, anti-sacral, tecnocrática, atlantista do Fim é transformada em um epílogo diferente - a Vitória final do Avatar sagrado, a vinda do Terrível Destino, dando àqueles que escolheram pobreza voluntária um reino de abundância espiritual e àqueles que preferiram riqueza fundada no assassinato do Espírito, danação eterna e tormentos no inferno.

Os continentes perdidos são levantados dos abismos do passado. Meta-continentes invisíveis aparecem na realidade. Uma Nova Terra e um Novo Céu se erguem.

Esse caminho não é da geografia sagrada para a geopolítica, mas ao contrário, da geopolítica à geografia sagrada.