13/06/2011

Não permanecer preso...

41. É preciso dar a si mesmo provas de que se está destinado à independência e ao mando; e isso no tempo oportuno. Não se deve evitar suas provas, ainda que elas talvez sejam o jogo mais perigoso que se possa jogar, e apenas provas, por fim, das quais sejamos as únicas testemunhas, sem a presença de qualquer outro juiz. Não permanecer preso a uma pessoa: ainda que seja a mais amada – toda pessoa é uma prisão, e também um recanto. Não permanecer preso a uma pátria: ainda que seja a mais sofredora e mais necessitada – de uma pátria vitoriosa, já é menos difícil desligar seu coração. Não permanecer preso a uma compaixão: ainda que seja com relação a homens superiores, cujo raro martírio e desamparo um acaso nos permitiu vislumbrar. Não permanecer preso a uma ciência: ainda que ela atraia alguém com as descobertas mais preciosas, que parecem reservadas justamente a nós. Não permanecer preso a sua própria libertação, àquela lasciva lonjura e país longínquo do pássaro, que voa sempre mais longe nas alturas para ver sempre mais abaixo de si – o perigo daquele que voa. Não permanecer presos às nossas próprias virtudes e nos tornarmos, como um todo, vítimas de alguma particularidade nossa, por exemplo, de nossa “hospitalidade”: o que é o perigo dos perigos para almas superiormente constituídas e ricas, que lidam consigo mesmas dispendiosamente, quase com indiferença, e que levam a virtude da liberalidade tão longe até que chegue a se tornar um vício. É preciso saber preservar-se: a prova mais forte de independência.


Trecho de: Friedrich Nietzche - Além do Bem e do Mal

12/06/2011

Alexander Dugin - A Distribuição de Armas Nucleares é Boa!

Por Alexander Dugin

Neste momento entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos e entre a Coréia do Norte e a Coréia do Sul esta havendo uma onda crescente de sentimentos ruins. O que isto significa? Os americanos estão dando a Kim-Jung-Il um ultimato: Desarmem-se imediatamente, cessem seu projeto nuclear e mais. E a isso Kim-Jung-Il responde com seu próprio ultimato. E está havendo uma certa baderna nas eleições de Il Terceiro; aparentemente os coreanos estão um pouco cansados de combater o globalismo sozinhos. Então o Terceiro Il, filho de Kim-Jung-Il e neto de Kim-Il-Sung foi promovido. A grande sociedade Coreana é o último reduto Marxista, socialista, se mantendo apesar da grande pressão do mundo todo. Todos à sua volta já declararam a derrota. Até mesmo a China já deu espaço para o crescimento do Capitalismo, mas os Norte-Coreanos continuam de pé.

Agora a América pretende pressioná-los com toda a sua força. O que a América quer com a Coreia do Norte? Aquele país possui poucos recursos naturais. A missão primária da América é exagerar a situação e despertar uma oposição global à Coréia do Norte. Divergindo a atenção global para que a própria América esta planejando fazer, organizar uma economia global que tenha a sua própria imagem. Obviamente a América esta errada, mas vamos dar uma olhada para o que o resto do mundo está fazendo. A Coréia do Norte esta se mantendo em oposição ao projeto de Império Global Americano e declarando categoricamente que eles não querem tal Império. Enquanto os outros países estão agindo como se isso fosse exatamente o que eles querem.

Eles dizem que a Coréia do Norte possui armas nucleares e choram como bebês falando que vão usá-los contra eles. Eles gemem e reclamam como completos idiotas, e o nosso governo russo esta entre eles.

Se os nossos líderes entendessem o que está acontecendo, eles deveriam orgulhosamente dizer o seguinte: Nós calorosamente apoiamos o Terceiro Il, apesar do fato dele não ter ganho esta última eleição, nós apoiamos o Segundo Il (Kim-Jung-Il) e o míssil dele é o nosso míssil. Se ele for lançado, nós comemoraremos; e nós o ajudaremos a ser lançado, nós até mesmo os equiparemos com outros métodos de destruição em massa.

Por quê? Por que é a melhor atitude para os nossos líderes tomar? Porque nós devemos deixar muito claro: Nós não queremos um Império Americano! Nós queremos um mundo multi-polar. E nós queremos que existam diferentes caminhos para o desenvolvimento no mundo.

Se você gosta do regime de Kim-Jung-Il, ótimo. Se você não gosta do regime de Kim-Jung-Il, também está ótimo. Se você gosta do Livre-Mercado, bom. Se você não gosta do Livre-Mercado, também esta bom. E se nós quisermos o Totalitarismo, até mesmo o Totalitarismo está bom! Por quê? Pois as pessoas são livres para escolher o seu próprio meio de desenvolvimento. E em oposição a isso está um pequeno grupo de ricos americanos, Juliet Kessen os chama de “superclan”, quem pensam que sabem o que é melhor para todas as outras pessoas (o que é melhor para bilhões de pessoas, na verdade), e estão atacando os pobres Coreanos.

Então a Europa, se continuar se dando a luxo da sua própria ignorância e covardice, logo se encontrará nos subúrbios do Império Americano. E todas as outras civilizações, ou vão estar servindo de lixão para lixo nuclear, ou vão servir de canal irrigatório para os Estados Unidos. Neste momento a Coréia está lutando por nós. Este pequeno Il, que não fora nem mesmo eleito ainda, está lutando pelo planeta inteiro.

Enquanto isso nós estamos sentados aqui fingindo que ainda não o apoiamos, ou que ainda não entendemos. Nós deveríamos de fato estar dizendo que apoiamos ele inteiramente. Pode até ser que tenhamos diferenças religiosas e estéticas ou talvez sejamos apenas indiferentes; mas não entender que a Coréia é uma semente humanitária e democrática no seio de uma ocupação Americana, é demonstrar completa e total ignorância. Ou isso ou verdadeiramente desejar a escravidão para o seu país.

O que é a Coréia do Norte? É a Liberdade! É uma ilha de Liberdade, como Cuba. É um ponto no mapa do não conformismo. Não tenho nada particularmente contra a Coréia do Sul, mas vejo que sua cultura Budista, Shamanista, Confucionista, Daoista, está agora, quase completamente dominada por Protestantes. As características que são únicas do povo Coreano estão faltando, mas na Coréia do Norte elas florescem. Os Coreanos do Norte têm até mesmo um partido chamado “Amigos do Caminho Divino”, e claro, mais importante de tudo, eles possuem um Partido Comunista.

Por causa disso, a verdadeira liberdade e a verdadeira independência, e também, o verdadeiro humanitarismo e a verdadeira democracia estão na Coréia do Norte. Se eles gostam do Regime de Kim-Jung-Il, nós precisamos descobrir o porque deles gostarem, ao invés de rir deles ou desaprová-los. A priori, o falecido Yegor Letov também era cético, mas depois ele descobriu que também gostava disso. Ele entendeu que não queria ter sua cabeça debaixo das botas Americanas, não queria ser um robô devorador de McDonald’s e totalmente dependente da Moda, jogando sapatos fora após três dias de uso. É uma ditadura da Moda , absolutamente anti-humana , uma cultura americocêntrica e pós-moderna.

Então se queremos ser livres e independentes, e se queremos manter o nosso senso de dignidade cultural e nacional, então devemos nos mobilizar em defesa da Coréia do Norte.

Você dirá: “Isso é propaganda de guerra”, não, é propaganda de paz! Se você quiser a paz, prepare-se para a guerra! Se a América se deparar com um mundo organizado, pronto para defender suas culturas individuais e meios de desenvolvimento, eles cessarão de tentar mandar em todo mundo. Mas n meio tempo nós nos acovardamos, dizemos “bom, a América não está tão certa, mas a Coréia também não.” A Coréia do Norte está absolutamente certa! É uma ótima sociedade com um regime perfeitamente bom...PARA ELES. Talvez não nos agrade de maneira alguma, mas não é problema nosso e certamente também não é problema dos Americanos!

Então penso que devemos organizar protestos imediatamente, em favor da Coréia do Norte, em oposição ao Domínio Global Americano, e claro, simplesmente implorar aos nossos chefes militares paraque dêem armas nucleares para a Coréia do Norte, assim como para o Irã, para a Venezuela e outros regimes excepcionais. Israel tem tais armas? Sim. Isreal é um bom governo, eles possuem uma bomba atômica e é bom para eles. O Paquistão tem tais armas? Sim. Você pensaria que é uma sociedade completamente sem leis, eles explodem uns aos outros, e eles têm armas nucleares também. Pegue os Hindus, os Brahmanes, os Shamans, eles comem os restos uns dos outros. Esta é a cultura deles, e eles a defendem com suas ogivas. Então deixem que a Coréia do Norte marche com uma bomba atômica também! E a Coréia do Sul será defendida pelos Estados Unidos.

Então eu penso que a diferença entre a Coréia do Norte e a do Sul vai ao âmago do coração humano. Dostoievsky disse que o coração humano é o campo de batalha entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás. Analisando os fatos, podemos dizer que hoje, o coração do ser humano está sendo a batalha entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte.

Todo o cidadão que valha o papel em que ele escreve o seu nome deveria estar do lado da Coréia do Norte, por detrás de Kim-Jung-Il se encontra a verdade.

09/06/2011

A Linguagem Proibida

"O discurso do Ocidente está intimidado porque depois da derrota da Alemanha nacional-socialista houve todo um vocabulário que foi proibido, por parte dos vencedores, e porque, por causa disso, a sua utilização culpabiliza. Ora, este vocabulário nunca foi mais do que um revestimento. Nem culpado, nem inocente. Um revestimento, nada mais (como é a própria palavra democracia, porque o conteúdo não é o mesmo em Praga ou em Paris). Assistimos então a isto: Esse vocabulário aterrorizado e maldito deixou de ser utilizado, mas as contorções às quais nos sujeitamos para o eliminar do nosso discurso, através de traduções afrouxadas deixam as suas consequências, porque acabamos por pensar de forma não menos frouxa. E o revestimento apodrece o conteúdo (…). O resultado é claro: tornamo-nos as "princesas" aterrorizadas e sodomizadas da linguagem, e, consequentemente, da acção."

Jean Cau in "Réflexions dures sur une époque molle".

08/06/2011

A Conquista da Felicidade

"O mundo pagão era duro, mas havia nele um princípio de receosa submissão às forças da natureza, às suas Leis, ao Destino. A esperança cristã fez-lhe rebentar as severas fundações. Para triunfar das velhas muralhas não bastam algumas flores silvestres, medrando as suas raízes em cada fissura, com a humidade da terra? E eis que a Esperança, desviada dos seus fins sobrenaturais, lança o homem à conquista da Felicidade, enche a nossa espécie de uma coisa parecida com orgulho colectivo que tornará o seu coração mais duro do que o aço das suas máquinas."

Georges Bernanos in "Os grandes cemitérios sob a Lua".

Espíritos Livres - Novos Filósofos

44. Depois de tudo isso, ainda preciso dizer expressamente que esses filósofos do futuro também serão espíritos livres, muito livres – tão certo quanto eles também não serão meramente espíritos livres, mas algo ainda mais, mais elevado, maior e fundamentalmente distinto, que não quer ser mal-interpretado e confundido com outra coisa? Mas, ao dizer isso , sinto quase tanto em relação a eles quanto em relação a nós, que somos seus arautos e precursores, nós, espíritos livres! – sinto a obrigação de varrer para longe de nós todo um velho e estúpido preconceito e mal-entendido que turvou como um nevoeiro o conceito de “espírito livre” por tempo demasiado. Em todos os países da Europa, assim como na América, há quem hoje cometa abusos com esse nome, uma espécie de espíritos muito estreita, aprisionada, agrilhoada, que quer mais ou menos o contrário daquilo que se encontra em nossos propósitos e instintos – para não falar que, em vista desses novos filósofos vindouros, eles devem ser antes de tudo janelas fechadas e portas aferrolhadas. Eles pertencem, para dizê-lo numa só e horrenda palavra, aos niveladores, esses falsamente denominados “espíritos livres” – como eloqüentes e escrevinhadores escravos do gosto democrático e de suas “idéias modernas”: todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes toscos e bem-comportados, aos quais não se deve negar coragem nem costumes respeitáveis, só que eles são acanhada e ridiculamente superficiais, sobretudo na sua inclinação fundamental de ver nas formas da sociedade antiga até agora existente mais ou menos a causa de toda miséria e fracasso humanos: no que, felizmente, a verdade vem a estar de pernas para o ar! O que gostariam de obter com todas as forças é a felicidade campestre do rebanho, universal, verde, com segurança, inofensividade, bem-estar, facilitação da vida para todo mundo; as duas cantilenas e doutrinas mais cantadas chamam-se “igualdade de direitos” e “compaixão para com tudo que sofre” – e o próprio sofrimento é tomado por eles como algo que se deve eliminar. Nós, os contrários, que abrimos um olho e uma consciência para a questão de saber onde e como até agora a planta “homem” cresceu nas alturas com mais vigor, somos da opinião de que isso ocorreu toda vez sob as condições contrárias, que para isso a periculosidade de sua situação teve antes de crescer até a exorbitância, sua força inventiva e dissimuladora (seu “espírito” – ), de desenvolver-se sob prolongada pressão e coação até tornar-se algo sutil ou ousado, sua vontade de vida, de elevar-se até chegar a ser absoluta vontade de poder: – somos da opinião de que a dureza, a violência, a escravidão, o perigo na rua e no coração, o ocultamento, o estoicismo, a arte de tentador e a diabolice de toda espécie, de que tudo que no homem é mau, terrível, tirânico, rapinante e ofídico serve tão bem para a elevação da espécie “homem” quanto o seu contrário: – nós até mesmo dizemos o bastante quando apenas dizemos isso, e nos encontramos, em todo caso, com o nosso falar e calar nesse aspecto, na outra ponta de toda a moderna ideologia e aspiração de rebanhos: como seus antípodas, talvez? Será de admirar que nós, “espíritos livres”, não somos exatamente os espíritos mais comunicativos? Que nós não desejamos, em cada aspecto, revelar do que um espírito que pode se libertar e para onde ele talvez seja então impelido? E quanto à importância da perigosa fórmula “além do bem e do mal”, com a qual, pelo menos, nos resguardamos de ser confundidos com outros: nós somos algo diverso dos “libres-penseurs”, “liberi pensatori”, “livres pensadores” ou seja lá como for que todos esses honrados porta-vozes das “idéias modernas” gostam de se denominar. Estivemos em casa em muitos países do espírito, pelo menos na condição de hóspedes; esgueirando- nos sempre outra vez do recanto abafado e agradável em que a afeição e desafeição , a juventude, a origem, o acaso de pessoas e livros, ou mesmo a fadiga das andanças pareciam nos cativar ; cheios de maldade para com os chamarizes da dependência que se encontram escondidos em honras, ou dinheiro, ou cargos, ou entusiasmos dos sentidos; gratos inclusive à privação e às vicissitudes da doença, pois sempre nos livraram de alguma regra e de seu “preconceito”, gratos para com deus, diabo, cordeiro, e verme entre nós, curiosos que chegam ao ponto do vício, investigadores que chegam ao ponto da crueldade, com dedos que não hesitam diante do inapreensível, com dentes e estômagos para o mais indigesto, prontos para todo ofício que exija agudeza e sentidos aguçados, prontos para a ousadia, graças a um excesso de “livre-arbítrio” com almas de fachada e de fundos, às quais ninguém vê facilmente seus propósitos últimos , com fachadas e fundos que nenhum pé deveria percorrer até o fim, ocultos sob o manto da luz, conquistadores , ainda que pareçamos, ordenadores e colecionadores desde manhã até a noite, avarentos de nossa riqueza e de nossas gavetas abarrotadas, econômicos no aprender e no esquecer, inventivos em esquemas, às vezes orgulhosos de tábuas de categorias, às vezes pedantes, às vezes corujas do trabalho mesmo em dia claro; e até, caso seja necessário inclusive espantalhos – e hoje é necessário: ou seja, na medida em que somos os amigos natos , jurados, ciumentos da solidão, a nossa própria, mais profunda, mais noturna, mais meridiana solidão: – semelhante espécie de homem somos nós, nós, espíritos livres! E talvez vós também sejais algo disso, vós, vindouros? Vós, novos filófosos?


Trecho de: Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal

06/06/2011

Uma visão tradicionalista

Por Edouard Rix
Por que combatemos? Esta é a questão fundamental que todo o soldado político deve colocar. Por contraditório que possa parecer somos tentados a responder que lutamos pela Tradição e pela Revolução. A Tradição Antes de mais não se deve confundir a Tradição com as tradições, isto é, os usos e costumes. A Tradição designa o conjunto dos conhecimentos de ordem superior referentes ao Ser e suas manifestações no mundo, tal como nos foram legados pelas gerações anteriores. Ela assenta não no que foi uma vez, num tempo e espaço determinados, mas no que é de sempre. Admite uma variedade de formas – as tradições –, ao mesmo tempo que permanece una na sua essência. Não poderíamos confundi-la com a tradição religiosa única porque ela cobre a totalidade das actividades humanas, políticas, económicas, sociais, etc. No seguimento de Joseph de Maistre, de Fabre d’Olivet e, sobretudo, de René Guénon, Julius Evola fala de uma «Tradição primordial» que, historicamente, permitiria contemplar a origem concreta de um conjunto de tradições. Tratar-se-ia de uma tradição hiperbórea, vinda do Extremo Norte, situada no começo do presente ciclo de civilização, em particular das culturas indo-europeias. Do ponto de vista de Evola «uma civilização ou uma sociedade é tradicional quando é regida por princípios que transcendem o que é meramente humano e individual, quando todas as suas formas vêm do cimo e quando ela está toda orientada para o alto». A civilização tradicional assenta então em fundamentos metafísicos. É caracterizada pelo reconhecimento de uma ordem superior a tudo o que é humano e contingente, pela presença e autoridade de elites que retiram desse plano transcendente os princípios necessários para assegurar uma organização social hierarquicamente articulada, abrindo as vias para um conhecimento superior e conferindo por fim à vida um sentido vertical. O mundo moderno é quanto a ele o oposto do mundo da Tradição que se personificou em todas as grandes civilizações do Ocidente e Oriente. É-lhe próprio o desconhecimento de tudo o que é superior ao homem, uma dessacralização generalizada, o materialismo, a confusão de castas e raças. A Revolução Quanto ao termo Revolução deve ser entendido na sua dupla acepção. No seu sentido actual, o mais correntemente utilizado, Revolução significa mudança brusca e radical no governo de um Estado, a Revolução francesa e a Revolução soviética de 1917 são uma ilustração perfeita. Não obstante, no seu sentido primeiro, Revolução não significa subversão e revolta mas o contrário, a saber, regresso a um ponto de partida e movimento ordenado em torno de um eixo. É assim que, na linguagem astronómica, a revolução de um astro designa precisamente o movimento que ele realiza gravitando em torno de um centro, o qual contém a força centrífuga, impedindo o astro de se perder no espaço infinito. Ora nós estamos hoje no fim de um ciclo. Com a regressão das estirpes, a descida progressiva da autoridade de uma a outra das quatro funções tradicionais, o poder passou dos reis sagrados a uma aristocracia guerreira, depois aos comerciantes, por fim às massas. É a idade de ferro, o Kalî-Yuga ário, idade sombra da decadência, caracterizada pelo reino da quantidade, do número, das massas, e a correria desenfreada à produção, ao lucro, à riqueza material. Ser pela Revolução hoje, é pretender o regresso da nossa civilização europeia a um ponto de partida original, conforme aos valores e aos princípios da Tradição, o que passa, reivindicando a expressão de Giorgio Freda, pela «desintegração do sistema» actual, antítese do mundo tradicional ao qual aspiramos.

Os homens entre si


"Com os clubes e as sociedades secretas, afirma Lionel Tiger, 'os homens fazem a corte aos homens'. As grandes confrarias profissionais, as corporações estudantis, as ordens, as sociedades secretas são meios de reforçar (e de exaltar) o vínculo intermasculino. Seja no colégio ou no exército, as cerimónias de iniciação, por vezes bizarras e mesmo cruéis, evoam os ritos de passagem da puberdade (com a transposição que se impõe: é-se adulto quando se detém o conhecimento ou o poder) e apertam os laços entre iniciados. Os clubes femininos, pelo contrário soçobram regularmente na desordem e nos mexericos.

(...) Tiger lembra que o homem, em relação à mulher, é ao mesmo tempo mais racional e mais irrazoável. O homem sabe que se lança por vezes em aventuras sem esperança, que enfrenta desafios extravagantes. Mas ele pensa que não deve dar o braço a torcer. Esta concepção do sacrifício inútil decorre directamente de uma ética de honra. A mulher, ela, vê as coisas de outro modo. Ela reprova ao homem o seu orgulho. Ela acusa-o de correr atrás de quimeras, e de negligenciar as suas responsabilidades familiares. Para ela, nunca se dá o braço a torcer quando se é razoável. No fim de contas, o homem é sempre uma criança. Os alemães têm uma palavra para isto: Das Kind im Manne — a criança que, no homem feito, é a memória viva de um passado sempre destinado a inspirar o futuro.

Montherlant dizia que um homem sem criancices é um monstro horrível. Nietzche, ao contrário, propunha pôr na acção a seriedade que a criança põe no jogo — quer dizer, precisamente, consideraras coisas sérias como um jogo. Daí, no homem, essa nostalgia dos lugares de infância e dos amores adolescentes — dos quais Jules Romains pode dizer que são uma mistura de angelitude e de obscenidade. As sociedades que acentuam a segurança, o conforto, às quais repugna o risco, são sociedades em que os valores masculinos estão em declínio. «Faça amor, não a guerra» é um slogan feminino que se traduz por: «Façam-nos amor, não façam guerra entre vocês».

O homem nunca acaba, como nos tempos da sua infância, de ir aos ninhos de pássaros. Não tanto pelos ninhos, aliás, mas para trepar ao alto das árvores. Ele quer sempre ir mais longe, mais depressa, mais alto. Ele tem prazer na competição, ele admira os records. A mulher pergunta «para que é que isso serve». É por isso que cabe à mulher preservar o que o homem adquiriu. A sociedade mantém-se assim — e renova-se eternamente.

Alain de Benoist in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas".

05/06/2011

O Elitismo às avessas

Por Gustave Thibon

Quando me fazem perguntas sobre a promoção social e respondo que ela deve consistir na selecção dos melhores, logo me acusam de “elitista”.

O termo é recente e implica uma cambiante pejorativa: espírito e orgulho de casta, desprezo dos humildes, etc. Redescubramos o sentido das palavras. Elite (de escolhido, eleito), segundo o dicionário, designa “o que há de melhor” nas coisas e nos seres. Assim, os grandes vinhos de Bordéus fazem parte da elite dos vinhos, os famosos “verdes” de Saint Etienne representam a elite dos jogadores de futebol, etc.

Uma vez que concordamos nisto, não é normal preferir e privilegiar o melhor? Será que, para evitar o elitismo, sou obrigado a achar tão saboroso o frango criado com hormonas em aviário como o frango criado no campo? E não é justo que, na sociedade, os melhores lugares sejam para aqueles que se distinguem pelos seus talentos e pela sua actividade e que prestam assim os melhores serviços à comunidade? Não é verdade que os exames escolares, a qualidade do trabalho e a competição profissional actuam nesse sentido? E como não pode existir sociedade sem hierarquia, não é desejável que essa hierarquia assente na selecção e na promoção dos melhores? Para dar o exemplo de casos extremos, seria elitismo suspeito recusar um posto de professor a um analfabeto ou a carta de condução a um cego?

O que me inquieta hoje é o desenvolvimento cada vez mais difundido de um novo elitismo, um elitismo às avessas, resultante de uma falsa noção de igualdade e de uma sentimentalidade transviada, que se manifesta pela preferência dada aos inadaptados, aos inúteis, aos parasitas e, até, aos malfeitores.

Vejamos alguns exemplos desta inversão de valores.

Conheço professores que afirmam que os maus alunos são mais interessantes que os alunos dotados e que recusam energicamente os velhos critérios de selecção: notas, classificações, exames, etc.

Não é verdade que a segurança social – da qual não contesto o princípio humanitário, mas o modo de funcionamento em que florescem o anonimato e a irresponsabilidade – favorece mais frequentemente os preguiçosos e os trapaceiros em detrimento dos trabalhadores que, fiéis ao seu dever, não sentem necessidade de transformar o menor incómodo de saúde em repouso imerecido e em tratamentos supérfluos?

A inflação vai roendo, em cada dia, os rendimentos e as economias dos produtores. Mas permite aos especuladores realizar lucros enormes sem realizar qualquer trabalho útil, pelo simples jogo das divisas monetárias.

Os malfeitores e os criminosos inspiram maior comiseração que as suas vítimas, uma vez que a sociedade é declarada a priori a grande, senão a única culpada. Já me referi ao caso de uma prisão moderna instalada na Córsega, onde, exceptuada a residência forçada, os detidos gozam de um conforto e de um luxo (praia privativa, centenas de hectares de parque, etc.) com que a maior parte das pessoas honestas não pode sequer sonhar…

E porque não falar também da atenção e publicidade privilegiadas de que beneficiam os marginais de toda a espécie: “hippies”, prostitutas, tarados sexuais, etc.? E do êxito das publicações e dos espectáculos que abundam nessa linha? Como se, por uma estranha perversão do paladar, a sociedade se tivesse tornado mais gulosa do que a envenena que do que a alimenta…

Termino a série destes exemplos com uma anedota saborosa. Numa universidade estrangeira, cujo nome não cito, dois professores de competência mais ou menos igual apresentam-se à escolha das autoridades académicas como candidatos a uma cátedra. Um deles é um homem perfeitamente equilibrado, o outro um grande nevrótico, titular dos vários diplomas exigidos e também de algumas depressões que comprometeram a sua docência anterior. A cátedra é atribuída ao segundo, com a justificação de que a sua natureza frágil não suportaria a provação da recusa, ao passo que o primeiro é uma pessoa solidamente estruturada para aceitar o revés sem problemas. Compreendo que haja compaixão para com um infeliz. Mas não compreendo a cruel inconsciência em relação ao seu colega, eliminado por causa da sua própria superioridade, e em relação às centenas de alunos que sofrerão mais tarde as consequências de uma escolha desumana por excesso de humanidade…

Assim se afasta a elite fundada sobre o valor para se instalar uma contra-elite: a da escumalha e do rebotalho. Se se continuar a avançar por este caminho, bastará ser superior ou simplesmente normal para merecer a indiferença, se não a suspeita e o desfavor…

Entendam-me bem: não nego que os mais fracos devem ser não só protegidos contra os abusos dos mais fortes mas também ajudados por estes; afirmo simplesmente que não deviam ser preferidos e privilegiados como tais; afirmo que a incapacidade e, com maior razão, o parasitismo e as malfeitorias não devem dar direito a tratamento de favor. Ajudem-se os deserdados, reeduquem-se os anormais, mas que as suas falhas e as suas taras não se tornem meios de chantagem e motivos de promoção.

Também sei que é difícil conservar o equilíbrio, mesmo nas sociedades mais sãs, entre os direitos do mais forte (e tomo esta palavra no seu sentido mais elevado: força da inteligência e da vontade, capacidade de acção, etc.) e o dever de socorrer os mais fracos e os transviados – entre a lei da selva que elimina implacavelmente os inadaptados e um humanitarismo deliquescente que consagra e incentiva a incompetência e o vício. Mas nem por isso deixa de ser verdade que – e esse é um dos perigos do nosso liberalismo dito “avançado” – se continuar a generalizar-se esse deslocamento da elite de cima para baixo, é toda a sociedade a correr o risco de se afundar sob o peso desta promoção às avessas que é a promoção dos inúteis e dos parasitas.

Da democracia


"Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores – em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito."

Aldous Huxley in "Sobre a Democracia e Outros Estudos".

03/06/2011

A ilusão do "novo"

Por Manuel Azinhal

Ao ouvir há pouco tempo declarações de um nosso conhecido político em que este insistia enfaticamente no apelo a “ideias novas”, “políticas novas”, “um novo discurso”, e mais não sei quantas coisas todas novas, dei por mim a pensar num talvez acaso que para mim ao menos se apresenta deveras intrigante. Qual é o adjectivo que marca presença constante na apresentação de todas as iniciativas oriundas do campo político que se convencionou situar à direita?

Não há qualquer dúvida: observando os cem anos mais recentes da vida da direita, logo nos damos conta que os seus movimentos, grupos, jornais, revistas, associações, repetem com uma frequência espantosa, nas suas designações e discursos identificadores, variantes à volta da palavra “novo”.

Que me ocorram de repente, houve (e em alguns casos mais de uma vez): Ideia Nova, República Nova, Estado Novo, Ordem Nova, Força Nova, Cidade Nova, Praça Nova, Renovação, Novo Impulso, Portugal Novo, Tempo Novo, Nova Monarquia, Nova Direita. Quando não foi Novidades, Jovem Portugal, Jovem Europa, Jovem Revolução, e mais designações afins.

Certamente poderão ajudar-me com mais exemplos. Repare-se que se considerarmos os cem anos anteriores, aqueles que vão desde a Revolução até ao esgotamento da reacção contra-revolucionária (estou a utilizar a palavra “direita” com o mesmo sentido dado por Molnar à sua “contra-revolução”) não se observa essa obsessão pelo “novo”, e em verdade ela seria impensável.

Todos os grandes autores da contra-revolução convergem na afirmação de que não querem nada de novo, mas sim o pleno reconhecimento da verdade política negada pela Revolução. Reclama-se um Rei como o tinham sido sempre os nossos reis, o respeito pelas antigas tradições e costumes.

Quem queria as novidades eram os revolucionários. Que se passou então na viragem do século, entendendo por viragem do século aquele período que se inicia com as transformações que desembocam na Primeira Guerra Mundial e se consumam com o decurso desta? Aparentemente, terá ocorrido algures um encontro entre a velha contra-revolução e os elementos de vária origem que conduziram ao fascismo e ao nacional-socialismo.

Constata-se que entre a parte final do século XIX e essa primeira parte do século XX atingiram a sua máxima glória as formulações positivistas, com o seu programa de uma “humanidade nova”, e vitalistas, com exaltantes visões de um “homem novo”.

Por Comte ou por Nieztsche, ou pelo hegelianismo como Gentile, o certo é que as elites intelectuais de então beberam de fontes bem diferentes do tradicionalismo e daí surgiu uma “direita revolucionária”.

Parece-me rigoroso distinguir um ciclo político longo de um século em que a direita intervém para reclamar contra o “novo”, e um outro ciclo da mesma duração e que se lhe segue em que a intervenção política da direita é feita invocando para si a novidade, em contraposição ao situacionismo.

Ao que fica dito pode dirigir-se a crítica da confusão de planos: as minhas reflexões misturam realidades observáveis ao nível da praxis política, muitas vezes explicáveis por meras razões de conjuntura e meros tacticismos, com considerandos mais pretensiosos atinentes à história das ideias políticas da família. Assim é, mas mesmo assim não quis deixar de partilhar as perplexidades, já que respostas satisfatórias para elas não as tenho.

Questiono-me quais as razões profundas para uma mudança tão radical que faz com que a direita geralmente repudie com indignação qualquer insinuação de ser herdeira, quando antigamente o que a distinguia, e exibia orgulhosa, era a sua condição de continuadora de uma tradição que se pretendia ininterrupta. A direita queria-se defensora do permanente, olhava desdenhosa para o “novo”. Depois passou a ter como questão de princípio discutir com a esquerda quem é que representa o “novo”.

Aquilo que aponto tem como consequência frequente que cada grupo direitista fala e começa como se o mundo começasse com ele. As suas proclamações começam logo à cabeça por esclarecer que nada os liga aos que os precederam, que não são sucessores, nem herdeiros, nem continuadores, de nada nem de ninguém, e consequentemente que a sua história é uma espécie de tábua rasa.

Um esquerdista típico tem para este fenómeno explicação fácil: a direita, perversa como é, pretende sempre esconder a sua verdadeira personalidade e fugir às responsabilidades. Está a disfarçar-se. Esta teoria, como se compreende, terá alguma verdade em situações em que a identificação significa incorrer em imediata condenação, quando não em ilícito criminal (v. g., é normal que na Alemanha pós-nazismo qualquer agrupamento de direita que quisesse legalizar-se escrevesse logo no intróito dos seus estatutos que nada tinha a ligá-lo ao regime anterior, independentemente da veracidade e da sinceridade da declaração).

Mas a explicação nada explica quando a pretendemos aplicar quer aos teorizadores que foram chamando para o seu lado a “revolução”, ou a “verdadeira revolução”, ou o estar “para além da revolução”, quer aos práticos que no terreno vão demonstrando todos os dias uma genuína vontade de começar do zero, de mistura com uma crença ingénua nas virtudes do “novo”, porque é “novo”, e uma convicção autêntica, embora palerma, de que são realmente algo de “novo”.