16/05/2021

Libero Baluardo – Harukichi Shimoi: Vida, Amor e Guerra do Legionário Fiumano que veio do Japão

 por Libero Baluardo

(2020)


"Devemos começar o dia pensando na morte": Yamamoto Tsunetomo estabelece assim, em seu Hagakure, a linha que todo samurai deve seguir ao longo de sua existência. Um aspecto central do caminho do guerreiro japonês, que se expressa na pureza límpida com que Yukio Mishima, em 25 de novembro de 1970, enfrenta seu casamento com a morte e nos deixa a chave para entender toda uma civilização: "O valor de um homem se revela no exato instante em que a vida se confronta com a morte". A fronteira dá rosto e forma à matéria, dá beleza ao traçar seu perfil, seja uma estátua, uma nação ou uma vida. Então como contar uma história tão fascinante como a do "samurai de Fiume" sem começar pelo seu fim? Já que estamos falando de um poeta, um poeta armado, que fez do seu pensamento arte, ou melhor, ação, é bom começar onde sua maior obra termina. Sim, assim deve começar a viagem à sua descoberta: uma viagem "dantesca", uma catarse que nos levará da morte à vida, uma ascensão que, se quisermos, imita o caminho do Sol. Assim seja então, vamos começar pelo fim.

13/05/2021

Maurizio Barozzi - Em Memória de Ernesto Che Guevara

 por Maurizio Barozzi

(2017)


Faz hoje cinquenta anos, em 9 de Outubro de 1967, que um prisioneiro ferido era covardemente assassinado por ordem precisa da CIA, vinda de Washington.

Era Ernesto "Che" Guevara de la Serna, médico, revolucionário e guerrilheiro, um homem de coragem e de altas virtudes humanas.

Guevara não tinha abraçado a causa política e revolucionária por causa da paixão juvenil, da exuberância narcisista ou da ambição existencial, tanto que, como estudante, nunca se tinha juntado a nenhum movimento político.

O "Che", como foi chamado devido ao seu intercalar juvenil, tipicamente argentino, deste monossílabo para significar: "ei você", ou "ei cara", que se destacava pelo seu altruísmo e generosidade, lançou-se na política quando, durante uma viagem pela América Latina, experimentou em primeira mão a miséria, exploração e opressão a que povos inteiros foram submetidos pelos Estados Unidos e pelas suas oligarquias servis e corruptas.

10/05/2021

Pascal Eysseric – Eduard Limonov: A Morte de um Dissidente e de um Escritor

 por Pascal Eysseric

(2020)



Sergei Shargunov anunciou a morte do escritor e dissidente Eduard Limonov hoje, aos 77 anos de idade, no site da oposição russa mediazona, anúncio confirmado por um breve comunicado do partido político Drugaya Rossiya (A Outra Rússia), fundado em 10 de julho de 2010 por Eduard Limonov, após a proibição do Partido Nacional Bolchevique, em 2006. "Hoje, 17 de março, Eduard Limonov morreu em Moscou. Todos os detalhes serão dados amanhã", explicou o partido em uma mensagem publicada em seu site na internet.

Eduard Veniaminovich Savenko, mais conhecido como Eduard Limonov, nasceu em 22 de fevereiro de 1943, em Dzerzhinsk, na URSS. Jornalista, nós o descobrimos, há cerca de trinta anos, através de suas prodigiosas reportagens punks no L'Idiot International, do falecido Jean-Edern Hallier. Depois ele voltou para a Rússia. Para tentar um golpe de Estado, que falhou. Ele teve sucesso em outras façanhas. Limonov experimentou tudo. Prisão e grandes livros. Um velho companheiro de viagem do Éléments, o escritor russo veio saudar a equipe editorial durante sua última viagem a Paris, em junho de 2019, por ocasião de uma reportagem sobre os Coletes Amarelos. Limonov veio a Paris para conhecê-los, vê-los, aprender diretamente com eles. "Há uma mistura 'esquerda-direita' neles que me agrada", confidenciou-nos ele em sua última entrevista, publicada em setembro de 2019, que publicamos abaixo.


09/05/2021

Federico Mosso – Ungern: O Último Khan

 por Federico Mosso

(2019)


Obsessão Ungern. Imaculado fundo branco, é o deserto branco. A geada ataca os homens e morde-lhes os ossos. Paisagem sem limites, céu e terra se misturam, não podem mais ser distinguidos. É como flutuar sem rumo no espaço vazio, no infinito. Não há nada mais assustador do que o infinito eterno a ser enfrentado sozinho e consciente, era após era, ao longo das estações do universo imortal, sem morte, sem fim. Se você parar por muito tempo para pensar sobre isso, corre o risco de enlouquecer.

Um lobo aparece do nada. Seus olhos são azuis-acinzentados. Pára bruscamente, vira o rosto para algo que ouviu, levanta o pêlo, retira-se, desaparece. Como um trovão súbito, o rugido de um longo apito rouco irrompe no deserto branco e se eleva com intensidade no inverno da Ásia. São adicionadas batidas de tambores surdos e rítmicos. A música assustadora dos chifres e dos tambores de guerra faz o espaço tremer. Do cobertor monocromático branco começam a surgir algumas figuras em rápida aproximação; são uma multidão de cavaleiros negros em fileiras apertadas: longas são as suas lanças, altas são as suas bandeiras. Diante de todos monta o seu senhor e mestre, o Deus da Guerra. Num rugido do inferno, desumano, três mil gargantas gritam o refrão guerreiro:


"Ungern! Ungern! Ungern!"

05/05/2021

Gianluca Donati – Nem Esquerda, Nem Direita: Corto Maltese como o Anarca de Jünger

por Gianluca Donati

(2018) 


"Camarada Corto Maltese", este foi o título de um encontro cultural realizado em um círculo da CasaPound há alguns anos, desencadeando as mais desordenadas reações e indignações da família do autor das obras de Corto Maltese, o mestre Hugo Pratt. A perplexidade foi argumentada pelo fato de que historicamente, Maltese era considerado no imaginário coletivo como pertencente à "cultura da esquerda", por exemplo, Corto é filho de uma prostituta cigana, é um verdadeiro nômade (sem casa ou família), libertino de certa forma, portanto tendendo a ser "anárquico" ou "anarcoide" (e os dois termos não colidem). A intenção da discussão da CasaPound era, ao invés disso, analisar possíveis "atitudes fascistas", como o fato de que o marinheiro acreditava na camaradagem, é um anti-herói rabugento, individualista, mas pronto para ficar ao lado daqueles que sofreram injustiças, pronto para se lançar nas causas perdidas; além disso, Maltese é um amante romântico e aventureiro. Essas obras de "literatura desenhada" (como Pratt gostava de chamar), surgiram num período, o dos anos 70, em que a aventura era oposta pela política e pela crítica, porque era considerada, politicamente, "não engajada".

27/04/2021

Aleksandr Dugin - Dois Mundos, Duas Humanidades

 por Aleksandr Dugin

(2017)


Aparentemente, nossa geopolítica já está consolidada. Já se passaram 20 anos desde a primeira edição do livro Fundamentos da Geopolítica, que lançou as bases para a construção da geopolítica nacional eurasiana: o vácuo ideológico que flagelava nossa compreensão acerca de nossa própria posição na esfera geopolítica naquela época foi preenchido pelo Eurasianismo. Antes disso, o mundo era por nós mensurado por meio de conceitos ideológicos (o campo socialista vs. o capitalismo). Porém, mesmo depois que tal dualismo foi abandonado, permaneciam incompreensíveis os motivos que levavam a OTAN a continuar se expandindo para o Oriente, afinal, “já havíamos nos tornado liberais”.

23/04/2021

Dominique Venner – Evola: Filosofia e Ação Direta

 por Dominique Venner

(2008)


Considerado por alguns como "o maior pensador tradicionalista do Ocidente", Julius Evola (1898-1974) sempre teve uma relação difícil com o MSI e ao mesmo tempo exerceu uma influência definitiva nos círculos mais radicais, as FAR (Fasci di Azione Rivoluzionaria) em seu tempo e depois a Ordine Nuovo ou Avanguardia Nazionale. Evola esteve à margem do fascismo durante o Ventennio (1922-1943). Apesar de suas críticas, porém, ele quis se solidarizar com o RSI depois de 1943. Tomando como exemplo tanto Nietzsche quanto Guénon, ele cultivava à maneira do primeiro o desprezo por tudo que era plebeu e o louvor do super-homem autoconstruído. Mas ele se unia a René Guénon em sua interpretação da história como um processo de decadência e involução que levou, segundo a tradição hindu, ao Kali-Yuga, a era demoníaca que antecedia o retorno ao caos original. Ele estava preparado, entretanto, para reconhecer que certas formas políticas, mais ou menos de acordo com sua ideia hierática da Tradição, poderiam retardar o declínio. Esta foi sua interpretação do fascismo, na medida em que ele, através de sua tentativa de reabilitar valores heroicos, constituiu um desafio à sociedade moderna e ao homem massificado e sem rosto.

21/04/2021

Gonzalo Pedano – Nimio de Anquín: Nacionalismo, Geopolítica e Metafísica

 por Gonzalo Pedano

(2020)


Em janeiro de 1972, o filósofo cordobês Nimio de Anquín prefaciou uma compilação de alguns de seus escritos políticos pelo professor Máximo Chaparro. Ali ele deixa algumas chaves de análise que desenvolvemos no presente artigo, a fim de apresentar uma das leituras possíveis sobre sua filosofia política. O próprio De Anquín assinalou, nesse prólogo, que o texto A Argentina no novo Éon do Mundo não deixava margem para dúvidas sobre sua doutrina política, que ele esperava "desenvolver sistematicamente um dia". Sete anos depois, em 1979, o filósofo morreu e essa tarefa parece ter ficado pendente. Mas apesar disso, encontramos no texto acima a primeira pista a seguir: qual é o lugar da América e do nosso país no novo éon do mundo?


Geopolítica e Nacionalismo Integral


A questão não é apenas filosófica, mas geopolítica. E a resposta do autor insiste que estamos na presença de um mundo de dois mil anos que já expirou e está sendo superado - no que Hegel chamou de Aufhebung; e que nosso ser americano, nasc-ente, participa pela primeira vez desse evento universal, antes reservado apenas à Europa e à Ásia. Estamos vivendo em uma nova era ou éon, não no sentido de uma simples renovação transitória, mas no sentido radical de uma etapa totalmente nova em que o mundo, no curso de sua vida eterna, vê todas as instituições expirarem, outra etapa emergindo para reiniciar sua existência. Um novo éon, cuja principal característica é a totalidade do Domínio, ou seja, o controle e absorção em escala global de alguns Estados por outros, através do exercício da força. Não há mais nenhum continente que possa permanecer fora dessa lógica.

14/04/2021

Daniele Perra – Heidegger, Suhrawardi e Parmênides: Uma Síntese Eurasiática

 por Daniele Perra

(2019)


Em alguns trabalhos anteriores publicados no site da revista "Eurasia" foi feita uma tentativa de estabelecer uma ligação entre a filosofia de Martin Heidegger e a teosofia islâmica xiita[1]. Como Claudio Mutti relata em seu texto "Exploradores do Continente", já em 2005, durante uma conferência realizada em Teerã sobre o tema "Martin Heidegger e o futuro da filosofia entre Oriente e Ocidente", o prof. Shahram Pazouki estabeleceu uma comparação entre o filósofo alemão e a gnose islâmica do shaykh medieval Shihaboddin Yahya Sohrawardi, identificando os dois "pensamentos" como o meio ideal para a "comunicação espiritual" entre Oriente e Ocidente[2]. É também bem conhecido que o grande iranista Henry Corbin, em seu tempo, encontrou semelhanças notáveis entre a teosofia islâmica e a analítica de Heidegger. Este autor, em uma obra recentemente publicada intitulada "Ser e Revolução" (NovaEuropa 2019), teve a audácia de ir mais longe, definindo o próprio pensamento de Heidegger como uma forma de teosofia. Isto porque o filósofo de Meßkirch, como os teosofistas "clássicos", no desenvolvimento do seu pensamento usa tanto argumentos racionais como os textos da tradição religiosa (especialmente da Grécia Antiga). Agora, para estabelecer uma primeira conexão entre os três pensadores mencionados no título, pode-se afirmar com algum conhecimento de causa que eles são todos os três "pensadores iniciais". Parmênides representa o início por excelência do pensamento grego e, com isso, "ocidental". Por sua vez, Suhrawardi e Heidegger são "iniciais" no sentido de que ambos se voltam para o início: para o pensamento da Pérsia Antiga o primeiro, para o mundo grego o segundo. E é precisamente neste caminho para o "início" que a originária comunidade espiritual do mundo eurasiático é redescoberta.

10/04/2021

Aleksandr Dugin - O Novo Programa da Filosofia

por Aleksandr Dugin

(2003)


O humano e o mundo. Poderia parecer que a colocação de tal questão é relevante em todos os momentos. No entanto, tudo é muito mais complexo. O "humano" não é uma afirmação, mas um ponto de interrogação. Humano? Ah, sim? A sério? Isso seria "o humano" em essência? De verdade? Você tem assim tanta certeza sobre isso?

O "humano" tem sido entendido como significando coisas completamente diferentes em tempos diferentes, como o estágio da ascensão a partir do animal, ou como o limiar da descida do anjo... "Humano" soa estranho...Humano...

O mundo. Isto também já foi algo claro. Mas também, o que dizer, como dizê-lo... Até a palavra para mundo - mir em russo, Welt em alemão, monde em francês, dunya em árabe, etc. - em diferentes línguas nos remete a coisas diferentes. No entanto, ele sempre significou algo integral, universal, abrangente...