por Julius Evola
(1951)
Foi por meados do século passado que, no que diz respeito a Dante, começaram a tornar-se de domínio comum dados que atuaram como desmancha-prazeres nos estudos dantescos, destacando, do Poeta e da sua obra, aspectos inesperados e enigmáticos. Esta ação perturbadora manifestou-se sob um duplo aspecto.
Para os estudos dantescos acadêmicos e, em geral, segundo os critérios estéticos prevalecentes, a obra dantesca só deveria ser considerada à luz da «arte», e todos os elementos de caráter moral (e geralmente além disso não se via mais nada) devendo valer apenas de forma acessória e subordinada. Em segundo lugar, não se nutriam dúvidas sobre a ortodoxia católica de Dante: em Dante gostava-se de exaltar um dos maiores expoentes do pensamento católico medieval.
Ora, tanto um ponto como o outro são contestados nas pesquisas a que fizemos alusão, porque elas, em primeiro lugar, destacam uma dimensão, por assim dizer, em profundidade da obra de Dante, a considerar-se como de modo algum secundária em relação à simples obra de arte, antes pelo contrário; em segundo lugar, elas reúnem múltiplos elementos que demonstram a pertença de Dante a organizações secretas, mais ou menos ligadas à Ordem dos Templários, cuja ortodoxia católica é mais do que discutível. A iniciar esta ordem de pesquisas e revelações foram Gabriel Rossetti, que escreveu uma obra volumosa sobre o mistério do amor platônico cavaleiresco na Idade Média, e o francês Aroux, com duas obras dedicadas especificamente à obra de Dante segundo os seus aspetos ocultos e não católicos. Isto, como dissemos, por meados do século passado. Uma retomada viria a efetuar-se na mesma direção apenas algumas décadas depois, e a este respeito importa citar em primeiro lugar a obra sistemática do falecido Luigi Valli sobre Il linguaggio segreto di Dante e dei Fedeli d’amore, depois um ensaio de René Guénon sobre L’esoterismo di Dante, ensaio saído precisamente nestes dias em tradução italiana pelas edições «Atanor». A isto pode acrescentar-se a obra, também recente, de um religioso cisterciense húngaro, John, que se intitula Dante (em alemão), interessante pelo fato de ter um regular «imprimatur» eclesiástico, apesar da tese aí sustentada da pertença de Dante aos Templários. Finalmente, elementos na mesma direção encontram-se no livro Dante, escrito por Merezhkovsky no sentido de uma homenagem de reconhecimento pela hospitalidade italiana que Mussolini quis conceder a este eminente escritor russo.
Não é fácil dizer, num artigo de jornal, acerca da «outra Face» de Dante a quem não tenha familiaridade com estudos de caráter esotérico e iniciático, já que os conceitos de «esoterismo» (isto é, do conteúdo interno, recôndito de um ensino) e de «iniciação» (a qual não tem a ver nem com o misticismo, nem com o que hoje vale vulgarmente como «ocultismo») serão mais ou menos ignorados por boa parte dos nossos leitores. Limitarnos-emos, pois, a uma alusão sumária, fazendo referência sobretudo ao ensaio, agora publicado, de Guénon, para o qual remetemos quem se interessa pelo assunto.
O próprio Dante, exortando aqueles que têm o «intelecto são» a considerar a «doutrina que se esconde sob o véu dos versos estranhos», diz explicitamente de um sentido oculto na sua obra, em relação ao qual o sentido exterior e aparente é apenas um véu, e que deve ser procurado por aqueles que são capazes de o penetrar. O que Guénon destaca de modo mais nítido do que os outros autores aludidos, é que este sentido recôndito vai para além tanto da interpretação moral como da simples teologia, tendo relação com o mundo da iniciação: pelo que na obra de Dante recorrem símbolos, siglas, estruturas que sempre e por toda a parte no Oriente, no Ocidente e na antiguidade, foram usados a tal respeito. Confrontos precisos de Guénon tornam isso suficientemente evidente.
A «viagem ultraterrena» da Comédia, com as suas etapas no inferno, purgatório e paraíso, nada mais seria do que um simbolismo para os estados atravessados pelo iniciado no processo de uma transformação e de uma integração transcendente do seu ser. Algo de semelhante deve ser pensado também a respeito da Vita Nova. Não só Dante, mas também muitos autores do seu tempo, todos mais ou menos gibelinos, ao falarem de «amor» e de «mulher», na realidade entendiam totalmente outra coisa, usavam uma linguagem cifrada, tendo igualmente referência a ensinamentos e experiências de tipo iniciático.
Mais complexa é a questão das organizações secretas a que Dante pertencia e das quais teria extraído o seu esoterismo. A tese, segundo a qual Dante teria sido um Templário, é extremamente verosímil. Segundo nós, porém, devem ser rejeitadas todas aquelas aproximações de Guénon, das quais resultaria uma conexão de Dante com o que se poderia chamar o antecedente da Maçonaria; tais aproximações são artificiosas e tendenciosas, ainda que no sentido oposto daquelas já estabelecidas por Aroux, que com elas queria selar o carácter herético da doutrina secreta dantesca.
Para conhecer aquilo de que efetivamente se trata e o sentido segundo o qual a ortodoxia de Dante é duvidosa, é a uma interpretação particular das formas em luta nos bastidores do mundo medieval que nos deveríamos reportar; É o que tentámos fazer nós mesmos no livro Il mistero del Graal e la tradizione ghibellina dell’Impero e que, em vez disso, cai fora do quadro do estudo de Guénon, devido ao interesse exclusivo que este autor tinha por aquilo que tem apenas caráter abstratamente doutrinal. Seja como for, tanto em Guénon como nos outros autores, o leitor encontrará dados de caráter verdadeiramente elucidativo, quanto a um Dante até ontem ignorado e certamente não menos interessante do que o habitual, apresentando-nos dos «clichês» convencionados pelos dantistas.
