por Geydar Dzhemal
(2010)
Apocalipse – amanhã!
Os contornos da guerra, a revolução e o mundo
1
A crise atual não é mais do que a pequena cãibra que sacode a pele do animal agonizante que está morrendo. Esse animal é a civilização mundial. Esta civilização não é composta apenas pelo formato liberal da "civilização humana", arraigado nas megacidades do Ocidente impregnadas de especulação e falsidade. O globalismo é essa quimera que, assim como o animal mitológico, possui as asas da águia, garras de leão, cabeça humana e a cauda de serpente. Ou seja, que além da megacidade ocidental, fazem parte do globalismo atual as selvas da África, as favelas de Taipé industrial, as montanhas do Tibete, os desertos, nos quais, assim como há mil anos, se levantam as tendas dos beduínos. Tudo isso faz parte da estrutura global, unida pela infinita multitude de vasos capilares – desde as mesmas tendas dos beduínos até os arranha-céus de Manhattan!
2
O atual mecanismo das forças produtivas exige a polarização deste mundo complexo entre aquela parte em que apenas consomem e aquela em que só produzem. Com a particularidade de que no segmento do mundo que consome praticamente desaparece ou se transforma o conceito de "salário". Desde os desempregados até os top managers, as pessoas ali recebem uma renda. Essa renda não é mais do que o crédito que os credores fornecem para que se possa viver sem aperto.
Entre esses dois polos encontram-se as zonas "cinzas": em umas só se produzem as matérias-primas, em outras não produzem nada. Também existem zonas em que apenas "produzem" pura política. Por exemplo, as residências estudantis das grandes universidades do Terceiro Mundo. Ou as selvas da Colômbia.
3
Atualmente, o governo mundial encontra-se diante de um dilema. Semelhante polarização entre os que só comem e os que só trabalham, apesar de seu aparente caráter ultramoderno, reproduz um modelo de sociedade extremamente arcaico. A Rússia viveu a mesma situação nos tempos das "almas mortas" de Gógol. Atrás das fachadas dos paralelepípedos dos edifícios de escritórios, iluminados pelas luzes de néon dos principais centros mundiais, aparece o grosso perfil de Oblómov ou o amargurado rosto de Sobakévich, devorando com abnegação o esturjão (personagens de latifundiários russos, donos dos servos da gleba, camponeses – N. do T.). Atrás das multidões de trabalhadores que desfilam disciplinadamente para os escritórios e as luminosas e antissépticas fábricas sul-coreanas ou taiwanesas, transparece a figura do servo sujeito à servidão da gleba. No mundo atual, está amadurecendo o conflito que mergulha suas raízes nos tempos da construção das pirâmides faraônicas.
4
Enquanto semelhantes "tesouras" socioeconômicas existirem e puderem de vez em quando fechar-se, cortando o pescoço grosso dos especuladores bursáteis, o governo mundial não pode passar ao seguinte formato de civilização, que supõe a nova ordem de possibilidades tecnológicas – a disposição dos recursos energéticos ilimitados em qualquer ponto da superfície terrestre, as possibilidades ilimitadas da transformação da matéria, as possibilidades ilimitadas da manipulação do fluxo da informação, as possibilidades ilimitadas da conexão simultânea entre um número ilimitado de assinantes etc. Semelhante nível tecnológico supõe a independência garantida de quaisquer crises e comoções, a eliminação pela raiz da própria possibilidade de desafiar o Sistema.
O mencionado dilema consiste na necessidade de decidir entre a mobilização total do fator humano que ainda fica fora da megacidade ocidental (e trata-se da maioria dos humanos que agora mesmo habitam o planeta!), ou não menos total expulsão desse fator humano para fora do marco da história – para a província mundial, para o deserto, para o supergueto, onde, segundo o plano do governo mundial, a maioria das pessoas necessariamente perderá a aparência humana.
5
Temos a prova de que o governo mundial provou e experimentou ambas as abordagens.
A mobilização do fator humano no Terceiro Mundo teve lugar no sudeste da Ásia – o aparecimento dos assim chamados "tigres", o suposto milagre econômico da Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, o antigo Hong Kong... Desse milagre econômico encarregou-se o Japão, ao qual nos anos 1960 se encomendou levar a cabo de uma maneira reduzida e paródica seu sonho pré-beligerante de reunir sob seu comando toda a Ásia do Sul, "oito esquinas sob o mesmo teto". (O Japão, derrotado em 1945, não obstante, seguiu formando parte do grande Ocidente, no qual, depois da revolução Meiji, o imperialismo britânico, que protegia o Mikado, o introduziu "de mãos dadas".)
Nos anos 1980, aos "tigres" da Ásia sudoriental uniu-se a China neocomunista. Precisamente a China hoje se converteu no principal polígono do globalismo para mobilizar o fator humano não ocidental no formato da pós-modernidade. A China atual tornou-se, na prática, no polo da produção dos produtos de consumo da megacidade. No entanto, já ficou claro que seguir desenvolvendo este modelo e estendê-lo sobre o resto do Terceiro Mundo tem mais perigos e gastos que vantagens.
A China está sentada sobre o vulcão da revolta social que vai esquentando. A ativação das massas, por enquanto, está sustentada pela experiente burocracia do Partido Comunista Chinês. Precisamente por isso o Ocidente decidiu conservar a burocracia comunista na China depois do desmoronamento do campo socialista. (Outro motivo, pelo qual o governo mundial havia escolhido o sudeste asiático como polígono da modernização, era a ausência nesta região do fator islâmico importante.)
Em outros "tigres" industrialmente desenvolvidos, a ausência da burocracia comunista é compensada com a ditadura do capital industrial, mal camuflada com a folha de parra das "democracias asiáticas".
Mas está claro que a experiência da China e da Coreia do Sul não pode ser estendida sobre todo o Terceiro Mundo sem o risco da explosão político-social generalizada.
6
A experiência da expulsão da humanidade para o supergueto foi adquirida pelo governo mundial na atual África negra. Depois de um breve período de animada mobilização nos anos 1960, quando sob a influência da URSS grande parte do continente entrou na época de transformações anticoloniais, esta parte da humanidade ficou praticamente expulsa para fora do marco da história. Pôr o ponto final em seu destino, em primeiro lugar, impede a presença do fator islâmico, que luta ativamente no continente africano contra o tribalismo, o arcaico e o genocídio interno.
No entanto, a experiência com a marginalização do continente inteiro agradou ao governo mundial como exemplo a seguir na neutralização da humanidade não ocidental.
7
Agora mesmo, o maior perigo para o governo mundial está representado pelo desafio lançado pelo Islã político. Este sistema teológico-político rejeita frontalmente toda a ordem dos valores ideológicos ocidentais, tanto em sua versão da metafísica tradicional, baseada no panteísmo e no domínio da casta clerical na esfera espiritual, como em sua versão do liberalismo e ateísmo laicos, dentro de cujo marco o homem é considerado como o valor supremo autossuficiente, que não tem nenhum outro objetivo que não seu próprio bem-estar.
O Islã político rejeita a economia especulativa, a injustiça social, a usurpação dos conhecimentos nas mãos da classe dos governantes privilegiados, ou seja, tudo o que constitui os principais mecanismos do Sistema ocidental.
Como resposta, o Sistema elabora o plano para neutralizar o Islã político, que já hoje se converte na esperança ideológica das massas não muçulmanas do Terceiro Mundo e de muitos intelectuais do próprio Ocidente.
Esta neutralização é levada a cabo através do projeto do "Califado". Os geopolíticos ocidentais aprendem, em primeiro lugar, da experiência do último Califado – o Império Otomano, que permitiu neutralizar o Islã como a força que desestabilizava a ordem mundial e converter o Califado no sócio de fato do Ocidente para controlar a comunidade muçulmana mundial.
8
A expulsão das quatro quintas partes da humanidade para fora do marco da história, a criação do supergueto seguindo o exemplo da África central atual, à qual se unirão a América do Sul e a Ásia, trará como consequência que o Ocidente fique sem uma fonte importantíssima do bem-estar econômico. O florescimento do Ocidente baseia-se na alienação do recurso humano da parte não ocidental da humanidade, o que é possível enquanto existir o sistema econômico global.
A liquidação das ambições políticas do Terceiro Mundo, a decisão de não utilizar em seu âmbito as tecnologias de mobilização social, inevitavelmente levará ao desmoronamento do bem-estar econômico da maior parte da população do próprio Ocidente. O mito do bilhão de ouro (refere-se à parte da população mundial que, segundo Fukuyama, poderá seguir "no barco do progresso" – N. do T.) se esfumará desde o momento em que a massa principal dos seres humanos for recolhida no supergueto planetário. Neste caso, a maior parte do bilhão de ouro resultará ser de chumbo.
Uma vez que isso ocorra, aparecerão as condições para a nova explosão revolucionária das massas ocidentais. Ameaça similar foi superada com sucesso pelo governo mundial graças às consequências da Segunda Guerra Mundial e a criação da "cortina de ferro". Pela primeira vez desde a destruição do socialismo no Ocidente, aparecerão as condições para a revolta social massiva precisamente no momento quando o governo mundial aparentemente possa, por fim, resolver o problema da "história sem crises".
9
A instabilidade neste caminho vai se aguçar ainda mais porque a divisão da civilização mundial na megacidade e no supergueto exigirá suprimir os EUA em seu papel de líder mundial e, ao mesmo tempo, de gendarme mundial. Os EUA jogam este papel precisamente porque aparecem como um certo centro que apela a toda a humanidade, demonstrando ao mesmo tempo a oposição crítica ao "velho Ocidente". Depois que a maior parte do mundo perder, seguindo os planos do governo mundial, seu sentido histórico e político, os Estados Unidos serão desmontados como projeto independente, e seu recurso tecnológico-militar passará a ser controlado diretamente pelo Sistema.
Ainda mais importante que o desaparecimento dos EUA da cena política como líder será a supressão de sua função de gendarme. Desde o momento em que o imperialismo americano deixar de exportar ideologicamente sua democracia sobre as baionetas de seus fuzileiros navais, surgirá a nova onda de ativação de colossais forças de protesto. Precisamente neste período poderia começar a guerra civil mundial entre os recursos político-organizativos do Sistema e a parte mais ativa da humanidade, situada perante o perigo de ficar fora da história. A esperança da vitória nesta guerra baseia-se na aliança da humanidade não ocidental com as massas de novo radicalizadas da megacidade ocidental – a parte perdedora dos antigos bilhão de ouro.
10
Toda esta perspectiva combina-se com o desmoronamento geral do liberalismo. Não se trata de tal ou qual direção particular da consciência liberal: sua versão de extrema-direita em forma do nazismo ou sua versão de extrema-esquerda em forma do marxismo-leninismo.
A bancarrota afeta a todo o clube liberal enquanto a união daquelas forças sociais que se assentam sobre os três pilares da Época Moderna: o homem é a realidade autossuficiente, além da qual não há nada; ele mesmo cria e desenvolve sua razão, que o converte no centro do Universo; o único objetivo deste homem racional e autossuficiente é seu bem-estar e felicidade, em cuja perseguição não existe nenhum limite.
O final do liberalismo como a força diretriz da Época Moderna leva a que frente a frente se posicionem os dois polos fundamentais da humanidade: a elite governante tradicional, que mergulha suas raízes na autocracia faraônica, e o fundo radical, cujo principal argumento sempre foi a teologia de Deus único.
Em outras palavras, na época pós-liberal lutarão entre si os dois tipos eternos de consciência humana: os tradicionalistas, orientados para a sua própria perpetuação, e os radicais, que se orientam para o final da história e o Reino futuro. A Força contra a Justiça!
Esta polarização causará a explosão escatológica da unidade do gênero humano, porque na guerra civil mundial o enfrentamento será muito mais radical que na época da luta de classes, ditadura do proletariado ou mesmo os conceitos racistas do super-homem ariano – todos esses enfrentamentos anteriores haviam nascido da ideia liberal da competição dentro do Homo Sapiens.
Amanhã, a questão será colocada da seguinte maneira: os que ganharem serão propriamente os homens da realidade vindoura; os que perderem saem da esfera do significado global, e portanto, deixam de ser homens. A consciência do dia de amanhã, sua posse – esta é a aposta da guerra civil mundial, cujas primeiras descargas já soaram.
1. Sociedade
A crise da sociedade é determinada pelo fato de que a maior parte dos seus membros tende para o bem-estar, enquanto o verdadeiro objetivo da sociedade é muito distinto.
Os homens habituaram-se a pensar que a sociedade é a medida de tudo – do sentido da vida, do bem-estar, do sucesso… Ninguém pensa a si próprio fora da sociedade; os que se atrevem a fazê-lo são considerados proscritos.
Ainda Aristóteles afirmava: “O homem é um animal social”. Dois mil e tal anos depois, Lénine acrescentou: “Não se pode viver em sociedade e ser livre dela”. Estes dois exemplos bastam para demonstrar que nunca ninguém pôs em causa o próprio princípio da sociedade!
Será que ninguém? Cristo o fez! Porque a união dos seus seguidores não é mais do que a alternativa direta à sociedade daquele momento – a irmandade daqueles que buscam o sentido.
Justamente a incompreensão da natureza da sociedade – incompreensão que nos é incutida desde o nascimento – cria falsas ilusões em todo o tipo de pessoas, desde os conservadores até aos revolucionários, de que a sociedade pode ser “boa” ou “má”, de que a sociedade pode ser “corrigida”, de que a “má” sociedade é a responsável pelo aparecimento das “más” pessoas, etc.
Para as pessoas, a sociedade de facto transformou-se em deus ou no seu efetivo substituto, ao qual rezam e do qual esperam a solução de todos os problemas da existência. Mas, qual ídolo cruel, indiferente ao sangue que se derrama a seus pés, a sociedade ignora os desejos daqueles que “a compõem”; a sociedade existe para outros propósitos.
Ao contrário de um animal, o homem, lançado na natureza, não sobreviveria um dia ou levaria uma existência miserável, que nem os animais ao seu redor invejariam. À sua volta reina o caos gélido, o movimento que vai do plasma ardente do princípio da criação ao zero absoluto no seu final. Os animais sobrevivem graças ao nicho ecológico que possuem. O homem não o tem. Encontra-se no meio da terra atravessada pelos ventos, a descoberto.
A sociedade é um mecanismo impiedoso para a alienação da alma humana, que extrai os sumos da energia vital de cada um de nós, convertendo-os no pagamento pela vida, o pagamento ao ser impiedoso.
O tempo humano no seu sentido fundamental é o pagamento pelo Ser. A sociedade está condenada a cobrar do homem coletivo este preço numa quantidade que não para de crescer, pelo que se vê obrigada a aumentar por todos os meios o valor de cada unidade do tempo individual. Por isso, ao longo de toda a sua história, a sociedade obriga os homens a sacrificar-lhe cada vez mais a sua natureza humana, a mobilizar-se em nome da fantasmagórica proteção e conforto.
A crise atual é apenas um episódio dentro da crise total, que nasce da inevitável contradição entre os objetivos pessoais do homem e a essência do mecanismo social completamente indiferente perante estes objetivos.
1.1. O Poder
A crise do poder consiste em que ele se realiza a si próprio através da violência, provocação e mentira, sem ter nenhuma outra motivação fundamental que esteja fora do quadro dos interesses materiais do próprio poder.
Para os homens, o poder foi sempre a combinação do mistério, do perigo e da proteção paternal. Em diferentes momentos, predominava um ou outro destes componentes.
A chegada do tirano acentuava o perigo que procedia de cima; o poderio e o esplendor do império despertavam nos homens a sensação de algo inalcançável, sensação própria dos fundamentos do poder. Mas, ao mesmo tempo, todos estes momentos eram atravessados pela esperança de que o poder fosse bom e misericordioso e não desejasse o mal a estas “pobres pessoas”.
Nas épocas antigas, nem sequer se separava o poder da divindade. Os problemas começaram a surgir quando, para se opor ao meio exterior, para compensar a sobrevivência da alma nua no espaço aberto, a sociedade começou a exigir a cada ser humano concreto cada vez mais e mais.
Num momento dado, muitos, expulsos dos seus ancestrais torrões às urbes desumanas, começaram a perguntar-se: “Até que ponto se pode tomar pela bondosa autoridade paternal a força que os obriga a renunciar à sua acostumada natureza humana?”
Os homens enfrentaram-se com o que hoje chamam de “o recurso administrativo” – começaram as sublevações, afogadas em sangue.
Perante a desestabilização social vinda de baixo, o poder respondeu separando “o divino” do “profano”: libertou as mãos para exercer uma agressão potencialmente ilimitada contra o tecido social.
Durante milénios, os homens confundiram duas coisas essencialmente distintas: por um lado, as relações entre o escravo e o senhor; por outro – as relações entre o poder e os governados.
Tanto o escravo como o amo pertencem ao espaço humano. O poder é um fator não humano. É o órgão da sociedade que garante que os sumos vitais dos homens continuarão a alienar-se em quantidade cada vez maior como pagamento pela existência.
Num certo sentido, o poder põe a descoberto a verdadeira natureza da sociedade, o seu carácter mecanicista e desumano. O segredo do poder existe na medida e até quando os homens não descobrirem a natureza da sociedade, enquanto conservarem a ingénua ilusão de que a sociedade são eles.
A crise do poder consiste em que, a partir de um determinado momento da mobilização da sociedade, este poder já não pode mostrar aos governados a sua verdadeira natureza.
Durante uma certa etapa, o poder vê-se obrigado a criar a aparência de autogoverno, que se converte no atributo das tecnologias políticas ao serviço do processo de mobilização social.
Por outras palavras, o poder vê-se obrigado a criar nos humanos uma falsa representação dos mecanismos do seu funcionamento, ou seja, tem que falsificar conscientemente a consciência das massas.
A última fase da crise chega quando já não são os homens “de baixo”, mas os próprios portadores do poder de cima que voltam à velha confusão no que diz respeito às relações humanas entre os senhores e os escravos: começam a ver-se a sério a si próprios como os amos, quando continuam a ser simples executores no funcionamento desumano do mecanismo social.
1.2. Civilização
A crise da civilização consiste em que, a partir de algum momento, no seu interior começa a crescer a quantidade de “bárbaros” interiores – aqueles que não aceitam as bases desta civilização e buscam aliados fora dela.
O homem nunca se enganaria acerca da “boa” natureza da sociedade se, após ter nascido, pudesse encontrá-la de forma abstrata. Mas perante as pessoas concretas, a sociedade aparece sempre de uma forma totalmente concreta: como civilização, que fala uma determinada língua, maneja determinados símbolos, apela a determinados valores.
A concretização da sociedade sob a forma de uma determinada civilização cumpre um papel fundamental: proporciona identificação ao homem lançado ao mundo.
Por outro lado, a civilização conecta com esta identificação os conceitos universais.
De modo que não é o homem quem contempla o cosmos, mas o grego que contempla o universo grego, o russo o mundo cristão ortodoxo, o chinês contempla a existência, dividida entre o céu e a terra, onde ele é o eixo unificador de ambos.
Precisamente a coincidência do universal com a própria identificação concreta faz com que o homem aceite a sua sociedade como algo dado sem mais.
No entanto, os ossos enterrados na tumba não têm nenhuma identificação civilizacional. Ao morrer, o homem deixa de ser grego, russo, chinês e converte-se no homem em geral. Ou seja, naquele que era ao nascer.
A natureza do homem em geral contradiz o simbolismo e o específico de qualquer civilização, que programa e aprisiona espiritualmente o seu rebanho humano. Por isso, a nenhuma civilização agrada “o homem em geral”, considera-o um bárbaro, expulsa os seus sinais de todos os lados. “O homem em geral” penetra de contrabando no quintal das civilizações naquelas zonas onde estas chocam e se misturam, onde fica a descoberto o relativo de cada programa civilizacional em separado.
Dentro da civilização, arde sempre a revolta daqueles cuja inata intuição de homens mortais não os deixa acreditar totalmente nos categóricos dogmas da consciência civilizacional.
Então a civilização opta pelo fraude. Declara-se liberal e pan-humanista. Põe a andar todos os símbolos concretos e diz aos recém-nascidos: “Como veem, agora coincido com a vossa eterna e invariável essência de simples homens. Os meus valores são os de todos os homens: comer, amar, divertir-se…”
Aqui começa o último ato da crise da civilização, pois a inata consciência do homem mortal não lhe permite aceitar tampouco esta mentira – a mais monstruosa de todas as havidas!
“A civilização humana” opõe-se ao verdadeiramente humano com muito maior nitidez do que a civilização da Babilónia, do Egito ou a civilização Maia.
Então a civilização humana universal, para definir aqueles que não estão de acordo com ela, passa de utilizar o termo “bárbaros” a usar o termo “radicais”…
1.3. Hierarquia. Autoridade sagrada
A crise da hierarquia consiste em que motiva a sua existência com justificações tecnológicas, suprimindo ou ocultando o significado religioso inicial.
Por que, pela sua posição, uns homens estão acima de outros? Por que, além da desigualdade de bens e posição social, existe a desigualdade essencial, espiritual dos indivíduos? Será que os que têm o direito de dirigir o meu destino são melhores do que eu? E se for assim, que critérios decidem que sejam “melhores”?
Estas perguntas atormentaram sempre os homens. E pensadores muito distintos, desde Platão até Goethe e Lessing, tentaram dar as suas respostas.
A hierarquia de uma sociedade dada depende sempre da hierarquia dos objetivos humanos. No mundo tradicional, distintos objetivos na vida não são iguais. Uma coisa é aprender e conservar a “Lei suprema”, de cuja observação depende o equilíbrio de todas as coisas e tendências; outra muito distinta, por exemplo, é dedicar-se ao comércio ou fabricar objetos para o uso quotidiano. O estudo da lei é coisa da casta superior – dos sacerdotes, que por isso estão feitos de um barro especial. Como reza a sabedoria tradicional, os sacerdotes estão feitos da cabeça do “grande ser”.
A casta guerreira realiza como seu objetivo supremo a paixão, que na sua expressão inferior se exprime na violência e na destruição, e na superior – no amor, que equivale ao sacrifício.
O terceiro estamento – os mercadores e os artesãos – dedicam-se à “troca de produtos”, a sua ocupação é a produção e a distribuição dos bens materiais.
A evidente desigualdade destes objetivos vitais justificava a superioridade ou a subordinação daqueles que perseguiam estes objetivos. As castas e as corporações formavam-se seguindo rigorosamente a correspondência com estes objetivos. Um homem com inclinações criminosas não podia fazer parte da casta dos sacerdotes, enquanto que o homem incapaz de se sacrificar ou de, pelo menos, mostrar o valor guerreiro, não podia aceder à casta dos passionários.
A sociedade atual caracteriza-se, em primeiro lugar, pelo facto de todos os objetivos aparecerem não no seu aspeto íntegro natural, mas como pálidas imitações ou paródias do que eram no passado.
A lei hoje converteu-se num produto de legislação parlamentar, motivada pelos acordos nos bastidores entre distintos grupos elitistas com os seus interesses particulares.
O amor degenerou até ficar na atividade de fundos humanitários e organismos de beneficência; a coragem foi substituída pela superioridade tecnológica do poder de fogo, capaz de reduzir a escombros um bairro inteiro num só dia.
E a “troca de substâncias” com o meio material submeteu-se por completo aos jogos do acaso da economia “de ar”, levados a cabo nos mercados bolsistas.
O único estamento que sobreviveu foram os sacerdotes, à custa de terem saído, graças a uma série de comoções sociais, fora do quadro da sociedade. Eles converteram-se nos semimitológicos “habitantes do Olimpo”, que “vivem entre os humanos, mas não se misturam com eles”. Os sacerdotes entregaram a lei profanada às instituições liberais mundanas, e agora, do ponto de vista da sociedade, encarnam os “valores eternos” convertidos em completamente abstratos.
Significa isto que, com o desaparecimento da hierarquia religiosa, a sociedade se tornou igualitária? Não! A sociedade atual está hierarquizada ao máximo, mas o critério da superioridade de uns sobre outros está determinado pela participação no poder, desprovido de qualquer pretensão de justificação espiritual.
1.4. Estado
A crise do Estado está em que ele não acrescenta valor a nada produzido sob o seu controlo, mas, pelo contrário, aumenta o preço próprio de qualquer produto.
O Estado é uma das categorias mais obscuras e enredadas da politologia contemporânea. Deve-se a que o Estado atual, de facto, se identificou com o poder. Mas nem sempre foi assim.
O Faraó, o César e outros tiranos que representavam o “Grande Ser” na Terra nunca foram o Estado. Quando Luís XIV – o “Rei Sol” – disse, de forma leviana: “O Estado sou eu”, não pensava, como creem os nossos ingénuos contemporâneos, usurpar as prerrogativas de semelhante estrutura celestial despersonalizada e aumentar assim o seu estatuto real. Pelo contrário. O pobre rei tentava declarar o seu talante democrático e dizer que entre ele e o seu povo, a França, não havia nenhuma separação.
A essência original do Estado consistia em que ele aparecia como a barreira entre o fator não humano do poder e o fator estritamente humano dos governados. O Estado nasceu do estamento dos servos libertados, do lumpen favorecido e dos parentes pobres que formaram o cortejo parasitário dos grandes homens. O seu objetivo consistia em cortar o acesso aos solicitantes.
Na sociedade onde a hierarquia ainda possuía o seu carácter natural, todos os projetos e todas as ordens se cumpriam mediante a transmissão direta de cima para baixo. Só pensar o que teria acontecido com as maiores façanhas históricas, como, por exemplo, as campanhas de Alexandre Magno ou a conquista de ambos os continentes americanos, se delas se tivesse encarregado o Estado!
O Estado existe exclusivamente como o mecanismo que corta a interconexão dos “governados” com os “governantes”. É o aparelho cuja função consiste em cortar o “acesso à pessoa” (na sua origem – à realeza, N. do T.). Desde o princípio, o Estado aparece como uma excrescência parasita sobre qualquer projeto.
A sociedade organizada hierarquicamente, na realidade, não precisa do Estado. Nela, as funções da execução das ordens, repressão armada, juízo e poder executivo conservam o carácter social.
Nas circunstâncias atuais, o fator não humano do poder funde-se com o Estado como estrutura parasita. Na medida em que a natureza do Estado continua a ser destrutiva.
Como consequência, o Estado entra em contradição não só com os de baixo, aos quais corta a conexão com os de cima, mas também com os de cima, sendo, em teoria, o seu instrumento.
O conflito do Estado com os de cima converte-se numa das principais fontes das comoções políticas, porque, num determinado momento, fica claro que o Estado se converte numa particular instituição antieconómica. Se o objetivo de qualquer instituição económica é a produção de novos valores, a única função do Estado passa a ser a criação de novas despesas.
1.5. Nação
A crise da nação baseia-se em que, enquanto união dos homens, se constrói sobre as bases que permanecem como algo externo à verdadeira essência humana.
No passado, ao formar os humanos, a civilização não precisava de se apoiar na ideia da “nação”. Mais ainda, a civilização destruía e negava qualquer particularidade arcaica.
O simbolismo que impregnava a visão do mundo do homem tradicional deslocava a pertença étnica para a periferia mais longínqua da consciência.
A chegada da civilização “humana universal” mudou tudo. Os símbolos verticais que dirigiam o homem da Terra ao Céu ficaram destruídos. Paralelamente, com maior força, surge a pergunta da identificação particular: “Quem és e de que parte és perante a imensidão do mundo?”
A “civilização humana” substituiu o sistema vertical dos símbolos por outro horizontal. Melhor dito, já não se trata de símbolos, porque não contêm nenhuma analogia com a realidade superior.
A nação atual não é um fenómeno étnico. Trata-se de uma união artificial dos homens construída pelo Estado, que investe nesta construção e na manutenção da consciência nacional gigantescos recursos. Somos testemunhas da farsa de uma presunta tensão dramática entre dois “polos”: por um lado, está a falsa união, baseada nos mitos construídos e nos emblemas roubados ou inventados; por outro lado – “o universal”, que apela ao mais banal e baixo da natureza humana. O homem-massa desdobra-se entre a fidelidade à sua nação e a lealdade à universal “Cidade de não-Deus”.
Tanto a nação como a civilização representam as forças antiespirituais. Externas com respeito à consciência inata do homem mortal. Não fazem parte da sua subcortiça, do seu interior mais profundo.
A nação e a civilização estampam o seu selo de dois lados distintos sobre o homem que entra no mundo como “tabula rasa”.
A diferença está em que a nação reúne as pessoas, apelando ao passado, a algum acontecimento traumático, do qual presumivelmente nasce a sua atual unidade. Assim, a nação francesa nasce do trauma da revolução de 1789, a estadunidense – da guerra das colónias pela independência, corrigida mais tarde com o trauma acrescido da Guerra Civil, a nação britânica surge da guerra entre o rei e o parlamento, etc.
O problema desta falsa consciência está em que, inevitavelmente, tem que estar atada ao trauma que origina todo o sistema situado no passado e que, por um lado, o tempo todo se desfoca na perceção das sucessivas gerações e exige gastar mais esforços na sua manutenção, e, em segundo lugar, entra em contradição com as novas técnicas de mobilização da civilização global.
Mas a civilização pretende abrir a perspetiva para o futuro. É evidente que, sendo ambas as pretensões falsas, aquela que atrai com uma promessa, tacitamente, resulta mais forte do que a que se baseia no mitificado dia de ontem.
1.6. Terreno militar
A crise da força armada está em que a violência é uma operação tecnológica que não corresponde com a natureza humana daqueles que se veem obrigados a dedicar-se a ela.
A violência e o derramamento de sangue atravessam toda a história humana. A história humana realiza-se através da violência que o espírito exerce sobre o corpo. Trata-se de um facto religioso, confirmado por todas as tradições.
Como ação do espírito, a violência foi sempre coisa de pessoas espirituais. Unicamente os adeptos do Amor, entendido como sacrifício próprio, tinham o direito de a exercer.
A violência sempre tinha representado a parte exterior negativa do sacrifício apaixonado.
Assim era quando constituía a função da tradicional corporação dos guerreiros, que reunia nas suas mãos toda a esfera que tinha a ver com o castigo, a recompensa e a destruição. Na sociedade tradicional, os guerreiros serviam precisamente ao espírito, entendido como a lei invariável.
Depois de o Céu se ter afastado muito da “Terra” e a santidade ter abandonado radicalmente a instituição do poder, para a cúpula da sociedade, a casta dos passionários tinha-se convertido num estorvo.
Agora, a violência, para o poder, não é o método para escrever a história. A violência converte-se, em primeiro lugar, na técnica da extração de recursos vitais suplementares da biomassa humana.
Ainda durante a passagem das soberanias feudais às monarquias absolutistas burocráticas, ficou claro que os homens de honra e da espada não tinham lugar na nova ordem.
O Estado-monstro precisava da força da coação, organizada como mecanismo, como algo que reflete a natureza não humana do próprio poder. A disciplina de pau, as colunas desfilando, o movimento das massas humanas, assemelhando o movimento das partes do mecanismo infernal bem engrazado – é o que assegurou aos novos impérios coloniais a vitória militar sobre a coragem individual e as artes bélicas dos guerreiros das sociedades tradicionais.
O exército moderno não tem nada a ver com o espírito do heroísmo viril e o severo sacrifício. (Onde estes momentos ainda existem, o exército não é moderno.)
Trata-se da organização burocrática que se mede pela relação da quantidade de destruição que pode causar com respeito à quantidade de dinheiro que é preciso gastar para levar a cabo esta destruição. Trata-se de uma questão tecnológica, resolvida pelos tecnocratas de uniforme, totalmente protegidos perante o risco de uma resposta.
No entanto, a falsificação dos aspetos fundamentais da vida humana não pode substituir por completo a verdadeira realidade. A violência falsificada, realizada pelo lumpen mercenário, parte os dentes ao tropeçar na violenta resposta dos novos guerreiros, que cortam o passo à mentira universal.
Perante os nossos próprios olhos, as unidades guerrilheiras do TSAHAL, que se enfrentaram com sucesso ao exército britânico profissional, converteram-se no bem treinado agregado burocrático de extermínio ao serviço do estado sionista. Quando parecia que nada se lhe podia opor, este Golias foi posto em causa pela sacrificada luta do Hezbollah – a organização armada do povo.
2. Consciência
A crise da consciência deve-se ao seu carácter secundário com respeito ao simples facto da existência, pelo que se faz necessário rever uma e outra vez o seu conteúdo.
“A existência determina a consciência” – isto sabe-o qualquer um. Não somente os cidadãos ex-soviéticos, mas todo o mundo ocidental fundamenta-se em que o importante é a realidade objetiva. A consciência não é mais do que o bom espelho que reflete o mundo. É a isso que habituaram a humanidade ocidental os três séculos do Iluminismo e do racionalismo.
Por outro lado, esta representação existe na nossa cabeça. Aí, na nossa cabeça, também “vive” a presumível realidade objetiva. O homem não pode sair da sua consciência com a mesma facilidade com que sai das suas calças.
Como resultado, os homens encontram-se com uma irresolúvel contradição. Estão encerrados dentro da consciência como numa prisão da qual não há escapatória. Qualquer manifestação da sua atividade – desde a descoberta de um teorema até aos voos a Marte – é uma atuação da sua consciência. Ao mesmo tempo, eles supõem que a consciência (da qual não há maneira de sair!) – é um reflexo passivo de “algo” verdadeiro, que existe fora deles.
Para sair desta contradição, os homens inventaram a “ciência”. Graças à “ciência”, podemos considerar que o que está na nossa cabeça é “o que há na realidade”. “Ciência” é um truque psicológico graças ao qual podemos estabelecer o sinal de igualdade entre a consciência e a realidade.
Não obstante, a consciência é incapaz de alcançar a realidade. Seja o que for essa realidade “a sério”, introduz a consciência em armadilhas novas cada vez. Por isso, faz falta adaptar continuamente o conteúdo da nossa cabeça à existência que muda continuamente. Há apenas 200 anos, o fogo na chaminé ardia graças à específica substância combustível que presumivelmente continha a matéria – o flogisto. Mais tarde, durante uns cem anos, esta ideia converteu-se numa curiosidade da história da ciência. Hoje, alguns cientistas começam de novo a falar do flogisto.
A consciência humana recorda o cachorro que tenta agarrar a si próprio pela cauda. Os homens superam continuamente a sua própria consciência, em referência ao desconhecido com que voltam a encontrar-se.
A essência de qualquer crise consiste exatamente nisso: no conflito interior que vive a consciência humana. Dando um passo mais, podemos afirmar que a crise, que atravessa todas as épocas e civilizações, deve-se a que a consciência continua sem poder pronunciar a última palavra sobre a sua verdadeira natureza.
2.1. Tradição
A crise da tradição está em que, em aparência, ficou para trás, mas na realidade continua a governar o mundo. Em aparência, o homem atual está livre da tradição, mas na prática é o seu escravo absoluto, além disso desprovido do impulso para a liberdade. A crise da tradição exprime-se em que, para a sua conservação e continuidade dentro da sociedade humana, tem que expulsar do seu seio a maioria dos humanos, convertendo-os em profanos.
O mundo contemporâneo costuma contrapor-se à tradição. No mundo tradicional, cada movimento do ser humano, cada objeto que utiliza, tem o significado que remete para a realidade superior. O que está em baixo reflete o que está em cima.
A essência da atualidade é precisamente a rutura com semelhante visão da vida. Tudo é racional, cada passo do homem dá o resultado nesta vida. Para darmos conta do abismo que nos separa da tradição, é suficiente comparar dois enfoques tão excluyentes como a arte religiosa e o design industrial.
Mas, além disso, temos a pós-modernidade. Na sua perspetiva, desintegra-se a própria racionalidade, perdem significado até os objetivos muito claros. A pós-modernidade descobre incoerências nos objetivos que a humanidade se propunha há pouco. A felicidade universal, a civilização das máquinas, a conquista da natureza, etc. Resulta que, para conseguir todos estes bens, é preciso destruir tudo o que é especificamente humano.
O homem pós-moderno está desiludido com respeito ao sentido. Encontra-se submerso no caótico mar da informação, cujo mosaico não forma um quadro coerente. Como resultado, é muito mais obediente do que ontem e anteontem foram os seus pais e avós: eles perseguiam determinados fins, ainda que fossem falsos, e mediam a sua vida em relação com esses fins.
Ainda mais obediente é o homem pós-moderno em comparação com os homens da tradição. Por geral, costuma apresentá-los como totalmente determinados pela rotina. Dogmas estritos, ideias escassas e ridículas sobre o universo, o céu baixo e enfumaçado da “Idade das Trevas” – é como nos o apresenta o manual de história… Outra falsa imagem!
Precisamente os homens da tradição criaram aquele grande universo, no qual o homem pós-moderno se sente como um minúsculo inseto perdido. Os homens da tradição não somente aceitavam os significados que lhes desciam “de cima”. Também se rebelavam contra esses significados. O homem pós-moderno pisca os olhos assustado quando lhe perguntam pelo significado.
A tradição hoje vive nos clubes das elites. Neles, os donos da vida têm suficiente valor para se propor os objetivos que sobressaem bastante do campo de visão das massas. Eles não creem naquilo que obrigam a crer os demais com ajuda dos meios de comunicação.
O homem pós-moderno, expulso da tradição, converteu-se em cera nas mãos do poder que conservou o secreto vínculo com a tradição. É incapaz de lançar o seu desafio a nenhum dogma – porque para ele os dogmas já não existem. Não se pode desafiar algo indeterminado. Unicamente resta confiar na decisão da vontade alheia.
2.2. Filosofia
A crise da filosofia deve-se a que ela é incapaz de superar a hipnose da ideia do positivo em qualquer forma e começa a destruir-se no instante em que põe o positivo em dúvida.
Para o homem comum, a filosofia é a sabedoria sobrante que não tem nada a ver com as suas necessidades. Nem sequer suspeita que todo ele, desde a sola dos seus chinelos chineses até à lata de cerveja na sua mão, são um subproduto da filosofia.
Se a ciência pretende resolver a “equação com duas incógnitas” – a consciência e o mundo exterior, a filosofia, além disso, organiza a ciência.
Os filósofos destacaram-se como a oposição aos sábios religiosos que pretendiam conhecer os últimos segredos. O filósofo procura apresentar o universal na forma do mais concreto e imediato. Portanto, o seu ponto de partida é sempre o objeto presente, que se possa tocar com as mãos.
Inclusive para Platão, considerado o mais espiritual de todos os filósofos, também é assim. Por isso, a principal ideia de Platão era o próprio Ser, também definido como o Bem supremo.
Os filósofos orientam-se sempre para o positivo concreto. A medida deste positivo é a experiência humana. O ser como deleite, a sensação do jardim paradisíaco – é o critério não pronunciado de qualquer reflexão filosófica.
É por isso que não há tanta diferença entre os profundos místicos e os liberais superficiais. O filósofo é incapaz de imaginar outro ponto de partida que não seja a vivência positiva pessoal.
Desgraçadamente, em última instância, semelhante enfoque não resulta perfeito. Ao princípio, a filosofia criticava com sucesso a religião, e por algum tempo até parecia que tinha ganho. Mas, ultimamente, a religião passou à contraofensiva. O princípio do positivo não basta para contestar a pergunta sobre o sentido. A religião, ocupando-se do sentido, de uma ou outra maneira, assinala o limitado da própria ideia do ser. Os filósofos, no fim de contas, são incapazes de explicar o facto da morte, e ainda menos de a superar.
Uma vez que as autoridades religiosas se retiraram da vida quotidiana ao empíreo celestial, o poder encarregou os filósofos da organização da sociedade laica. Os filósofos não conseguiram cumprir este objetivo, do que nos dá testemunho a crise da filosofia na forma do pós-modernismo. Como última palavra da filosofia contemporânea, temos Francis Fukuyama, quem insinua que a absoluta maioria dos humanos que vivem agora estorvam na boa organização da sociedade do futuro. Não estaria a mais desfazer-se deles de algum modo.
2.3. Ciência
A crise da ciência deve-se a que, como método, não pode existir sem o culto do objetivo, o que a leva a criar cada vez mais mitos novos acerca da realidade exterior.
Muitas pessoas, sem excluir os cientistas atuais, creem que a ciência é o sinónimo do materialismo. Como que o método científico se baseia na experiência e na interpretação prática dos resultados desta experiência.
A ciência avança às apalpadelas, passinho a passinho, movendo a mão com os dedos estendidos na escuridão e arrancando ao desconhecido partícula atrás de partícula de verdadeiro conhecimento.
Semelhante enfoque recorda vivamente o relato de como cinco cegos apalpavam o elefante. Um deles, ao agarrar a trompa, dizia que o elefante é um ágil e elástico tubo. Outro, agarrado à pata, assegurava que é uma poderosa coluna que se eleva, etc.
Claro está que a ciência começa por uma representação abstrata geral do que é o mundo (ou deve ser). A seguir, põe-se a demonstrá-lo. Se a demonstração não resulta, a ciência, a regañadientes, corrige um pouco a ideia original e segue demonstrando.
Assim, a representação do universo que existe há milhares de milhões de anos, de facto, surgiu no século XIX e não pela via experimental, porque pela via experimental é indemonstrável. Esta ideia passou à razão científica dos mitos hinduístas mal compreendidos, e depois começaram a demonstrá-la com a ajuda de radiotelescópios e sincrofasotrões. A teoria de Darwin da descendência do homem do macaco também desce de um mito xamânico. Diferentes conceitos totémicos da descendência do homem de diferentes animais são populares entre distintos povos primitivos. Embora Darwin, para fundamentar este mito xamânico, elaborou a teoria inteira da seleção natural. Quando, no século XX, foram descobertos falhas nesta teoria, substituíram-na pela teoria dos saltos e mutações, etc.
A ciência, no seu sentido atual, foi criada pelos talentosos idealistas-pagãos, como Copérnico ou Giordano Bruno, em nome da luta política contra a igreja. Hoje, converteu-se num instituto mitológico independente – o poderoso meio de controlo da consciência das massas. Porque o homem comum crê que os “milagres” tecnológicos que o rodeiam estão criados pela ciência. Nem sequer suspeita que o desenvolvimento das tecnologias não somente não se apoia na visão científica, mas que muitas vezes a contradiz.
2.4. Ideologia
A crise da ideologia deve-se a que está completamente alienada das necessidades espirituais e existenciais daquelas pessoas às quais apela e que deveriam ser as suas portadoras.
A ideologia aparece pela primeira vez no seu significado atual de partido com a Revolução Francesa de 1789. Então, os franceses dividiram-se entre os “realistas” (partidários do rei) e os republicanos. Os republicanos e os monárquicos já tinham existido antes na própria Inglaterra dos tempos de Cromwell ou na antiga Roma. Mas, por então, não se tratava de uma ideologia. As divisões políticas apoiavam-se em motivos religiosos.
Nos nossos tempos, a ideologia não precisa de nenhuma justificação superior que saia fora do quadro da vida quotidiana. A discussão acerca da construção das vivendas ou sobre os impostos converte-se em parte da ideologia. A esquerda de agora demonstra a sua esquerda exigindo cobrar o imposto progressivo aos ricos. Outras ideias não lhes fazem falta.
Os programas ideológicos dos partidos praticamente não se diferenciam entre eles. O acordo muito estrito na sociedade atual sobre o que se pode dizer e o que não lhes impede diferenciar-se. 99% dos temas tratados pela grande cultura nos nossos tempos não se podem introduzir no diálogo político: seria desafiar o politicamente correto!
Passaram aqueles tempos em que se falava da ideologia proletária ou burguesa. Então, acreditava-se que a ideologia se dirige aos grupos humanos reais, que não se parecem com outros, e que expressa os seus interesses particulares. Hoje, dá-se por sentado que todas as ideologias se dirigem às mesmas pessoas e são o motivo para a competição entre as marcas dos partidos. O eleitorado divide-se entre os partidos seguindo o mesmo princípio que os fanáticos dos clubes de futebol. Com o mesmo sucesso, se pode falar das ideologias de “Spartak” ou de “Chelsea”.
Claro está que isto não significa que a sociedade atual se compõe das mesmas bolas de bilhar com as caras humanas pintarrajeadas em cima. O mesmo que no passado, distintos e inclusive incompatíveis grupos humanos opõem-se entre si. Se pudessem falar em seu próprio nome, o mundo teria distintas versões do futuro. Teria as perspetivas alternativas, relacionadas com estes distintos tipos humanos.
Justamente por este motivo, o poder impede falar aos portadores da diferença, tapando-lhes a boca com as ideologias aceites e benditas. É uma forma de terapia psiquiátrica que o poder aplica à população como ao paciente do hospital psiquiátrico.
2.5. Cultura
A crise da cultura deve-se a que, para poder funcionar, tem que jogar rebaixando o significado dos símbolos que maneja, passando do pós-religioso (humano universal) ao “pop” e mais abaixo.
O principal problema da cultura é o mesmo que o do dinheiro – sempre falta e sempre permanece em estado de inflação.
Qualquer um entende o que é a inflação do dinheiro. Significa que hoje por um rublo se pode comprar menos do que ontem. Mas o que significa a inflação da cultura?
Ponhamos um exemplo alto desta inflação. Por um lado, temos o famoso quadro de Da Vinci, e – por outro, o livro de Dan Brown “Código Da Vinci”.
Num extremo, uma carga colossal de suposições, mestria sem parangão, que dá como resultado uma obra-prima. À volta desta obra-prima discute-se ao longo dos séculos, nascem as controvérsias…
No outro extremo, temos uma falsificação pop que leem no metro para matar o tempo. É o exemplo de “alta” inflação, porque “baixa” é o sorriso de Gioconda no saco de plástico do supermercado.
A cultura nasce dos símbolos religiosos repensados em chave humana. O pintor pinta por encargo da igreja a Virgem Maria, escolhendo como modelo uma simples rapariga. Depois, vem o crítico e explica que a Virgem Maria não é mais do que um pretexto para elevar a simples feminilidade humana. Assim é como começa. Termina com a cultura de massas, na qual os símbolos originais terminam por se decompor.
Desde o momento da sua aparição, a cultura converte-se no instrumento para expulsar as pessoas correntes da esfera dos significados religiosos superiores. Se para o homem comum a religião está relacionada com a ética, com o que se deve fazer, a cultura concentra a sua atenção sobre a estética, sobre o que é belo. É uma estratagema para obrigar o homem a amar-se a si mesmo em vez de amar a Deus.
A cultura liberta da ética porque acostuma a pensar que “o homem é um conceito amplo”. Que o homem o contém tudo. E, em última instância, tudo lhe está permitido. De modo que, se há um lugar na cultura para Plácido Domingo, porque não vai haver para Sukachev (cantor pop russo – N. do T.).
Desde o princípio, a cultura imitou a religião. Só que, como a sua principal justificação, introduziu a ideia do “valor”. É um conceito mercantil, do dinheiro, que de novo relaciona a cultura com a baixa esfera das finanças. E à medida que o conteúdo da cultura sofre a inflação, os preços da cultura vão subindo. Aumenta cada vez mais o atrativo de investir nela.
Entretanto, as massas perdem o seu último contacto com “o alto”…
2.6. Informação
A crise da informação reflete-se em que o signo (ao contrário do símbolo) não tem nenhuma relação com a compreensão, de modo que o aumento do fluxo da informação leva à diminuição da soma geral dos conhecimentos.
O erro mais estendido (que nem sequer Sócrates pôde evitar) consiste em pensar que o “conhecimento” necessariamente é o “conhecimento da verdade”, isto é, daquilo que há na realidade. Sócrates chocou os seus contemporâneos e obrigou a citá-lo às intermináveis gerações dos filósofos que viveram depois dele, afirmando que a única coisa que sabia é que não sabia nada!
No entanto, não é assim. Sócrates, ao contrário, sabia muitas coisas, o que lhe tinha permitido, por exemplo, fazer a sua famosa declaração. Pelo menos, sabia o que era aquele conhecimento que ele considerava que lhe faltava. Por outras palavras, Sócrates tinha certo quadro do mundo que compreendia.
É o mais importante. O conhecimento não é o reflexo exato daquilo “que há a sério”. A realidade fora de nós é problemática. Talvez nem sequer exista, tal e como suspeitava Kant. O que sim, de certeza que existe, é o conhecimento. E o que é? Em essência, é o mesmo a que se referia Sócrates, ainda que um pouco distinto. O conhecimento é quando sabemos que sabemos. É simplesmente a compreensão.
A compreensão é contrária à diferenciação. O computador não compreende o que está a fazer. Dentro dele, decorrem as operações de distinção, que não se diferenciam em nada dos processos químicos ou físicos. “O estado” do computador é o mesmo que o de qualquer objeto inanimado.
A compreensão, em primeiro lugar, é a correspondência consigo mesmo como aquele que compreende. O homem que, numa fotografia, reconhece uma paisagem ou a cena da sua própria vida, atravessa neste reconhecimento por duas fases. Primeiro, distingue, isto é, reage perante um sinal; a seguir, entende o que está a mirar. Esta compreensão necessariamente inclui a presença de si mesmo neste ato de reconhecimento. Na realidade, a compreensão é exatamente o autêntico conhecimento. Todo o demais pode ser falsificado.
A informação não tem nada a ver com este estado da compreensão. Reduz-se, em última instância, à diferenciação dos sinais. A letra “a” simplesmente é esta letra e nenhuma outra. As pinceladas de cores de um quadro fora da compreensão não formam uma imagem inteligível, mas seguem a ser um conjunto de manchas. Os programas para os computadores escrevem-se com base nos princípios desta distinção; a compreensão acrescenta-a o utilizador. É justamente o que converte em absurda a ideia do intelecto artificial. Por muito rápido que semelhante “intelecto” possa realizar as operações de distinção, na realidade, não se vai diferenciar de uma pedra. Unicamente o homem vivo possui esta compreensão, porque sabe que está separado daquilo que está a perceber. O problema da informação está em que, ao expulsar o conhecimento da esfera espiritual, mata no homem o seu específico estatuto de “conhecedor”. Hoje, o fluxo da informação reduz qualquer comunicação separada ao nível da mancha de cor. E o caos não se transforma num quadro. Até há pouco, ainda todos os dados que recebia o homem formavam para ele parte do seu quadro do mundo. Hoje, o homem afoga-se no mar da informação, que para ele permanece completamente alheia e, em última instância, desprovida de qualquer significado.
2.7. Educação
A crise da educação consiste em que o seu objetivo é converter os homens num elemento funcional da sociedade, roubando-lhes a possibilidade de realizar a sua verdadeira natureza.
Quando explicamos a necessidade da educação, normalmente dizemos: “Sem ela não se pode ser um homem completo”. Ao nosso modo de ver, a educação é o caminho para descobrir e realizar o potencial humano, para converter o recém-nascido como “tabula rasa” não num Mowgli, menino da selva, mas no representante completo da sua civilização.
Aqui é onde se encontra a pedra de toque. O que é o que se reproduz mediante a educação – pessoa ou sistema? Por geral, pensamos que pessoa, que só pode descobrir-se depois de ter assimilado o quadro do mundo e o conjunto de conhecimentos profissionais alcançados pela nossa sociedade. Mas não menos fundamentada é a posição do sistema que precisa reproduzir-se, formando os correspondentes membros da sociedade a partir do material humano em bruto.
Que o segundo ponto de vista está mais perto da verdade, confirma-o a rebelião de cada nova geração jovem contra o estreito quadro da matriz na qual a estão a meter. No homem, desde o princípio, há algo que se resiste a aceitar a visão do mundo, a forma de pensar, que o seu meio social lhe impõe desde o momento do seu nascimento. Claro que as forças para se rebelar só bastam durante os anos jovens, quando o processo da formação e da “congelamento” do produto final ainda não se completou.
No entanto, o sistema não quer tolerar nem sequer esta protesta limitada pela idade e as possibilidades. Pelo que a educação atual representa uma armadilha para a rebelião adolescente.
A educação atual já não oferece de maneira autoritária o quadro rígido do mundo, quando os erros na sua assimilação se castigam batendo nas mãos com a régua. Agora, a educação oferece para escolher várias variantes de resposta, uma das quais é a correta. A assimilação do quadro do mundo desenvolve-se na forma do jogo, no qual a jovem criatura deve adivinhar a resposta correta, como o número premiado na loteria. Neste formato de educação, desaparece a imagem do mundo, mas também se dissipa a protesta contra ela – não há nada contra o que protestar. Na realidade, tampouco surgem conhecimentos profissionais: pois se os conhecimentos sobre o mundo circundante se adivinham como no jogo do casino, como resultado, não pode surgir um homem que realmente saiba algo.
Mediante semelhante educação, o sistema consegue um resultado específico: por um lado, na vida, entram hiperconformistas, desprovidos de qualquer estímulo para ter uma posição própria e que percebem tudo o que ocorre como o movimento da roda da fortuna – haverá sorte/não haverá sorte. Esta nova geração veria os manuais de colégio dos seus pais e avós como a mais enlouquecida conspirologia! Por outro lado, o sistema recebe como novos membros da sociedade a não profissionais. Não podem realizar nenhum trabalho produtivo ou criação organizada. A única esfera em que podem encontrar aplicação é o consumo e as relações sociais caóticas baseadas nele. Devido a semelhante enfoque, a maioria destas pessoas está condenada a ser fracassados profissionais e a depender do crédito para o seu consumo. Pelo que o sistema obtém neles o “fundo social” perfeito: parasitas que dependem do crédito. Mas, por outro lado, com a ajuda de semelhante material humano, o sistema não pode resolver nenhum projeto sério, não pode empreender nenhuma inovação fundamental.
Desta maneira, a nova educação pós-moderna leva inevitavelmente o sistema ao estancamento civilizacional. E é por isso que os centros científicos adiantados do Ocidente confiam cada vez mais na exportação dos cérebros do Terceiro Mundo, onde a transmissão dos conhecimentos ainda não sofreu a decomposição pós-modernista.
2.8. Ética
A crise da ética está em que já não faz parte dela a ideia do dever, substituída pela moral, entendida como observação do código de conduta no meio dado.
A fase mais precoce na formação do membro da sociedade é quando lhe dizem que deve fazer algo. Todos devemos fazer algo. Mas o mais interessante é o conteúdo deste princípio. O que é o que devemos fazer? Por regra geral, o homem-massa confunde a ética com a moral. A nível popular, acredita-se que a ética é o nome científico rebuscado para se referir à moral.
E o que é a moral? É o que mais ou menos toda a gente entende. A moral é o conjunto das regras de conduta aceites. Simplesmente é “o costume”.
Mas a moral muda de uma época a outra, de uma sociedade a outra. Todos os críticos da moral sempre assinalaram o seu carácter relativo. A ética, por sua vez, não é um conjunto de regras acostumadas, que são obrigatórias porque todos as seguem. É o que o homem deve fazer só, sem ninguém mais, porque responde perante a sua própria alma e perante Deus.
A sociedade sempre tentou submeter a ÉTICA (como o dever e a responsabilidade do homem perante o sentido supremo da vida) à MORAL (como conjunto de regras aceites por todos). A ética foi posta ao serviço da moral: tens que cumprir com as regras comuns… porque respondes perante os demais que também as observam. Não perante ti, nem perante Deus – mas perante os que já estão a jogar seguindo estas regras… A sociedade sempre temeu a ética como ao fogo, porque o homem que responde perante a sua própria consciência resulta que, quiçá, não deve nada à sociedade. Mais ainda, a ética pode obrigar a um homem (e a mais de um!) a enfrentar-se aos mesmos fundamentos da moral aceite e àqueles para os que esta moral é útil. Por isso, desde os tempos mais antigos, as escolas éticas incomodaram as elites, por isso, no Império Romano, se perseguia os cristãos, que tinham posto a ética sobre a moral.
As sociedades de hoje estão impregnadas da ideia dos valores. Os valores antepõem-se ao preço como algo espiritual. No entanto, o valor e o preço são dois conceitos que se situam sobre o mesmo eixo. Quando a civilização se converte em global e os códigos morais regionais se fundem num só conjunto liberal politicamente correto, proclama-se-lhe como possuidor de um determinado valor espiritual – o valor eterno. A lealdade com respeito a esta nova moral humana universal converte-se no conteúdo da ética contemporânea. Assim, a civilização global pensa superar o desafio, lançado pelo “homem ético” – o habitante mais inquieto do espaço atual, que de vez em quando tem o costume de se converter em revolucionário.
3. Homem. Crise do estatuto ontológico
A crise do homem consiste em que o homem mesmo unicamente é possível como o instrumento ao serviço de um superobjetivo, que se sai do quadro da sua existência individual, enquanto o seu estatuto na sociedade contemporânea se reduz ao indivíduo “atascado” no seu “eu”.
Nas dimensões da grande história, a crise do homem pode observar-se por como ia mudando ao longo dos séculos a interpretação do aforismo grego “O homem é a medida de todas as coisas”. Quando estas palavras foram pronunciadas, supunha-se que o homem representava uma espécie de “chavezinha de ouro” que abria a infinita caixa do Universo. O homem é aquele que leva em si todos os nomes e significados de tudo o que é, nele está escondida a compreensão, sem a qual todo o variado conteúdo do mundo é o mesmo que nada, uma casa sem dono. O homem é aquele espelho no qual o Universo se mira para reconhecer a si mesmo. E com isso – ou graças a isso – o homem sempre permaneceu como a coisa menos definida do mundo. Na mesma época em que apareceu o primeiro aforismo, os gregos criaram o segundo: “o homem é um bípede sem penas”. O que quer dizer que o homem se opõe ao mundo sem formar parte do mesmo. É como se tivesse que se definir a si mesmo seguindo o argumento da obra que representa, onde o argumento o tem que descobrir ato após ato. Daí nasce o grande drama da indeterminação do estado humano, que os sábios sintetizaram nas três perguntas sacramentais: Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?
Não é que para o homem atual estas perguntas tenham perdido o significado, – é que já nem sequer se colocam! O seu horizonte, a sua realidade total é a sociedade global, que contém tudo e fora da qual não há nada. Além disso, o homem atual não se opõe à sociedade como faziam os revolucionários no passado. Menos ainda se opõe ao “Cosmos” no sentido mitológico, porque para o habitante liberal das megapolis atuais este cosmos já simplesmente não existe. A moral atual ensina ao indivíduo que “opor-se à sociedade não é produtivo”. Com isso, entende-se que, se transgredires a moral do conformismo absoluto, podes ser excomungado do consumo ou passar a um nível muito mais baixo de participação no mesmo.
Na realidade, a definição do homem hoje reduz-se ao seu estatuto dentro do consumo. O homem que consome os bens materiais mais elementares, que se podem comer ou com os que se pode agasalhar, encontra-se na escala mais baixa da hierarquia. O homem que consome as marcas que indicam os tipos glamorosos de comida e vestimenta, encontra-se substancialmente mais acima, etc.
O homem ficou dissolvido no caldo social. Já não é uma sólida partícula perante o vento do tempo. É mais bem a molécula do tépido caldo que só se identifica a si mesma através do meio. É a etapa mais dura da crise do homem, porque dentro dele segue viva a partícula adormecida da sua verdadeira essência humana – a princesa adormecida no bosque encantado da megapolis.
3.1. Crise de identidade: missão na terra
A crise de identidade exprime-se em que o homem só se encontra em relação com os signos externos e já é incapaz de se concentrar naquilo que exprime a sua essência profunda.
Para muitas pessoas, a pergunta “porquê?” nem sequer se coloca. São como os nadadores que têm como objetivo chegar até à meta final. Estão introduzidos no meio concreto e resolvem um número interminável de pequenos problemas que nem sequer lhes deixam a possibilidade de colocar a pergunta sobre o sentido global.
E se, de vez em quando, conseguem abstrair-se do afã quotidiano tomando uma caneca de cerveja com um amigo do alma, então a pergunta “porquê?” que segue a flutuar no ar encontra a sua resposta nos clichés acostumados: os filhos, a família costumam ser as mais fáceis e evidentes. Para pessoas mais complicadas, à enésima caneca, podem surgir também “os interesses nacionais”. Por comum, os contertúlios procuram não fazer caso à inconsciente sensação de que todas estas respostas fáceis, banalizadas – não são mais do que a imitação da resposta à pergunta, em última instância – são uma soberana estupidez.
Intuitivamente, o homem deseja estar na Terra “para algo”. Por outras palavras, precisa de uma missão. Por muito que esteja aturdido pela vida quotidiana, segue viva nele a necessidade de que a sua vida “não seja sem mais”. É o que os homens precisamente tentam exprimir quando começam a falar do patriotismo e dos interesses nacionais: desta maneira, tentam apelar à história.
Um dos crimes mais sérios da sociedade contemporânea contra os homens que nela vivem – é a sua exclusão da história. As reflexões sobre o fim da história são a pedantaria de altura de um professor destinada às elites. Para eles, a história “já terminou” ou “ainda não terminou” no sentido de que a pergunta segue: terão já os poderosos submetido toda a humanidade ou ainda não?
Enquanto isso, o resto da humanidade está à beira de cair da história no sentido literal da palavra – de se converter em “ninguém”, nos que “vivem sem mais”. E tão somente nos limites da nebulosa humana se acende a desesperada luta por permanecer na esfera do sentido, de possuir uma missão, de participar na história.
Uma das formas da compensação humana pelo sem-sentido é a proliferação das seitas neoespiritualistas, às quais se costuma denominar conjuntamente com o termo “New Age” (“Nova Época”). O traço característico de todas estas seitas consiste na união do “misionismo” (todas estas seitas têm certa grande missão conspirológica que cumprir na Terra) com a falta de sentido e a precariedade infantil do conteúdo da sua doutrina. As seitas surgem à volta de uma frase arbitrariamente interpretada das Sagradas Escrituras, de algum ritual absurdo, inventado sabe-se lá por quem ou simplesmente em torno de algum homem que se proclamou salvador…
A sociedade mal luta com estas seitas, dado que a falsificação do sentido e da missão que praticam satisfazem plenamente as elites atuais.
3.2. Perda da soberania da personalidade. Crise do ego
A crise da personalidade consiste em que, para a sua afirmação, precisa da sanção por parte da sociedade/Estado, cuja legitimidade é, por sua vez, fictícia.
No maravilhoso poema de Pushkin “Anchar” o senhor envia o escravo para que lhe traga os frutos de uma árvore venenosa. Depois de cumprir a missão, o escravo envenenado arrasta-se até à sua cabana. É um momento muito importante: o escravo tem um lugar onde morrer. Cada noite, os seres agotados pela exploração social voltavam ao seu miserável catre, e voltavam ao seu interior, aos esconderijos do seu coração, para poder permanecer aí por um breve momento a sós consigo mesmos.
Este retorno ao refúgio espiritual do próprio coração é uma condição indispensável para renascer perante as novas provas, para reunir as forças e poder aguentar os sofrimentos e as humilhações da vida real.
Ao homem atual, tiram-lhe este refúgio espiritual. Não lhe deixam a possibilidade de se refugiar em si mesmo, realizando a imigração interior para fugir do mundo do absurdo e do gasto inútil do tempo e dos esforços. O espaço mediático, publicidade, Internet, relações profissionais e sociais enchem cada vez mais esse espaço dentro do homem, onde, em teoria, não deveria haver nada mais do que silêncio, nada, exceto o mistério do seu incognoscível Eu. O homem converte-se na fita de Möbius: o exterior nele suavemente converte-se no interior. Tem medo de ficar a sós consigo mesmo, porque o encontro com o seu eu não o ressuscita, não lhe dá novas forças. A viagem para dentro de si mesmo envenena o homem atual, como a viagem em busca dos frutos da árvore anchar tinha envenenado o escravo do poema de Pushkin.
Há que reconhecer algo assombroso – a árvore da vida nos corações dos homens converteu-se para eles em anchar, e os seus frutos converteram-se em venenosos.
Aterrorizados, os homens correm para o exterior, para o socium, para a publicidade e as diversões, para as reuniões do partido e as movidas dos clubes, eles pedem a todo este ruído exterior a defesa perante os frutos venenosos do seu próprio Eu.
A psicanálise ajuda-lhes ativamente. Freud sugeriu às elites – e eles aproveitaram-na – que há que condenar a verdadeira essência do homem e mantê-la acorrentada e atrás das grades, como a um maníaco furioso. O que na realidade constitui a consciência inata, que impede aceitar a ditadura do mundo – ditadura condenada por todos os profetas, incluindo Jesus Cristo, como a mentira total! – converte-se na psicanálise no inconsciente agressor interior, chamado “Isso”.
Os psicanalíticos – herdeiros profanos dos clericais – não ensinam a submissão; dentro do sistema do absurdo controlado que eles oferecem aos homens atuais, a submissão representa um luxo excessivo.
3.3. A crise do estatuto (crise do ego social)
A crise do estatuto significa que o homem não pode ver a si mesmo como um ser completo fora da sua função social ou profissional.
Sou uma criatura tremulante ou tenho direitos? – perguntava-se Rodion Raskólnikov, passeando com os andares incertos pelas ruas de São Petersburgo. A única maneira de o saber era matando a velha prestamista. Porque a alternativa no seu interrogatório compunha-se de duas posições autoexcludentes. Hoje, Rodion Románovich aparece como um estranho. Do ponto de vista atual, claro que tem direitos, mais ainda – tem todos os direitos. E justamente por isso é uma criatura tremulante. Entre o uno e o outro não deve haver nenhuma contradição.
Para Raskólnikov, “ter direito” significava equiparar-se a Napoleão, que se colocou por cima de todos. Para o homem atual, “ter direito” significa justo o contrário. Significa a impossibilidade do aparecimento mesmo de Napoleão sob aspeto humano. Para a sociedade atual, “Napoleão” é Hitler, que queimou nos fornos 6 milhões de judeus. O homem atual, que naturalmente não pode ser ninguém mais do que a “criatura tremulante” e leva este estatuto com dignidade, há uma multitude de direitos de todo o tipo. Mas todos estes direitos adquirem tanto mais volume, brilho e profundidade, quanto menos empenho se põe na sua realização.
Existem os direitos, e existe a regra não escrita de que a sua excessiva realização balança em excesso o barco social. E, em geral, leva a um desequilíbrio perigoso. Porque o que é o direito para um liberal – tentem dizer a Napoleão a frase preferida dos atuais defensores dos direitos, que “o teu direito de agitar os punhos acaba onde começa o nariz de outro!”
Mas se todos os direitos se limitam mutuamente desta maneira, convertem-se em já nem sequer virtuais, mas numa particular renúncia a si mesmo, numa espécie de tentação pseudorreligiosa, um particular mosteiro de altruísmo social.
Claro está que o estatuto do tremuloso possuidor de direitos está destinado às massas. Pois, no seu sentido original, ter direito significava algo muito próximo a “poder” (na linguagem corrente também agora significa o mesmo: “tenho direito” – significa “posso”).
Mas a palavra “poder” é a raiz que em muitos idiomas coincide com o termo que designa “o poder”: “power”, “puissance”. Os possuidores do poder são aqueles que podem fazer algo; aqueles que podem.
No entanto, os possuidores dos direitos na sociedade atual não podem fazer nada.
O poder, por definição, saiu-se hoje fora do quadro do direito, deixando todos estes maravilhosos direitos aos arrependidos raskólnikov, que de joelhos pedem perdão a todos os que tinham ofendido ao longo dos últimos mil anos.
A obrigação do homem-massa consiste na sua voluntária renúncia do direito que se lhe reconhece. Se segue persistindo em exercer os seus direitos, a consciência social, pela boca dos meios de comunicação, no melhor dos casos, situa-o como um neurasténico possuído, como um patético palhaço. De maneira que a educação do ego socialmente responsável das novas gerações de cidadãos correntes consiste na aceitação consciente da falta de direitos real combinada com a hipócrita afirmação do domínio absoluto da liberdade social.
3.4. A crise da casta
A crise da casta consiste em que, sendo uma realidade, deixa de ter a relação direta com a organização funcional da sociedade.
Quantas vezes teremos escutado a pergunta dirigida a nós: “É que estás feito da farinha de outro custo?” Ou, ao contrário, a afirmação sobre aqueles, cujas façanhas em atuais circunstâncias parecem surpreendentes e impossíveis: “Sim, aqueles homens estavam feitos de outra madeira”.
As Sagradas Escrituras ensinam-nos que o homem está feito de barro, entendendo o barro não de maneira literal, mas como certa substância, de que na realidade está feito todo o demais. Só que há “barro” de distintas classes, coisa que as Sagradas Escrituras não se esquecem de mencionar. Há barro húmido, grosso, o lodo do fundo do rio; há barro seco, sonoro, do que se fazem nobres produtos de cerâmica, que soam quando se tocam. O barro, ou a farinha, de que estão feitos os homens tem muito distinta qualidade. Mas não se diferencia ao acaso, mas seguindo certa ordem cósmica. Alguns homens estão feitos de barro de tal tipo, que só podem trabalhar com o suor da sua testa. O barro de outros os predestina, por exemplo, para o comércio ou para a minuciosa fabricação de refinadas joias.
Na sociedade clássica, considerava-se que os representantes espirituais, os sacerdotes, estão feitos de barro de máxima qualidade celestial (“os brâmanes estão feitos da cabeça de Brahma”). O destino destes homens era levar em si o sentido da Lei eterna, que governa o universo e observar que o mundo dos homens não se desviasse deste caminho. Aos guerreiros, reservava-se a função do exercício da violência, porque a violência é a manifestação da paixão. Os guerreiros estão feitos de barro ignífugo. O fogo está desatado no seu interior, sem o romper e sem se sair para o exterior se não for com a permissão do poder supremo.
E nós – sem dúvida, feitos de barro – temos algo que ver com esta ordenada classificação? Ou talvez todas essas diferenças foram inventadas pelos antigos cheios de preconceitos e ignorância, e todos os homens na realidade são iguais? Ponhamos que um é mais cobarde, outro mais avaro ou mais generoso, o terceiro é um introvertido que tende a pensar nas coisas que não interessam a ninguém mais… Mas todas estas diferenças são como a distinta cor dos olhos ou a estatura: não exercem nenhuma influência sobre a vida real.
A verdade está ali e ali. Sim, seguimos a nascer como guerreiros, mercadores e visionários espirituais. E, por desgraça – essas diferenças já não têm nada a ver com o que a sociedade nos obriga a fazer na vida. O homem atual não tem casta – ou, como se costuma dizer usando a gíria sociológica – está desclassado – não porque de repente todos começaram a nascer “da mesma farinha”, mas porque as funções sociais estão construídas de tal modo que não coincidem com a natureza humana.
O atual burocrata de uniforme – em lugar do guerreiro; o atual especulador – em lugar do comerciante; o atual tecnocrata – em lugar do mestre grémial; o artista atual, que com orgulho oferece ao público um urinol – em lugar de um clarividente e criador de obras-primas…
A casta foi deitada fora da sociedade, mas a sua realidade segue a viver ilegitimamente na clandestinidade.
3.5. A crise da libido (ocaso do amor)
A crise da atração sexual está relacionada com a perda da experiência intuitiva da unidade do eros e da morte e o desaparecimento no homem atual da experimentação trágica do orgasmo como a rutura com a existência quotidiana.
Para o homem comum, a atração sexual representa a única maneira de contactar com algo sobre-humano e inclusive sobrenatural. Os homens sempre divinizaram a energia erótica e a trataram com medo, porque esta força, por um lado, vive neles e, por outro lado, escapa-se do seu controlo.
Muitas vezes, a libido (atração sexual) confunde-se com o amor. A essência do amor está no autossacrifício. A predisposição de se sacrificar por uma causa nobre, pelos seres queridos, por aqueles a que se referia Cristo quando disse “sacrificar a alma pelos amigos”… Isso tem a ver com a vontade espiritual, que hunde as suas raízes no coração humano.
Ao contrário da nobre paixão pelo sacrifício próprio, a atração sexual assemelha-se à eletricidade, que atua independentemente de conhecermos ou não a sua existência. É uma força mais bem não humana que sobre-humana. Não em vão utilizámos a palavra eletricidade: o mesmo que existe o mais e o menos, que criam a diferença de potência, na esfera biológica também existem cátodo e ânodo na forma dos princípios masculino e feminino.
Na sociedade na qual predomina o “terceiro sexo”, é impossível imaginar-se o drama do sentimento erótico, que constituía um dos eixos da cultura clássica. Para o homem atual, que, do ponto de vista, por exemplo, de um oficial das guerras napoleónicas, seria um degenerado biológico, a problemática das obras amorosas de Shakespeare é incompreensível. Justamente por isso, a cultura liberal pós-moderna aprecia tanto Tchekhov, quem mostra muito bem o derrube da polarização e a crise da virilidade no intelectual (“intelligentsia”) da mudança de século.
A oposição dos sexos talvez seja a coisa mais cósmica que se manifesta de maneira evidente no homem. Aquilo que mais lhe permite aproximar-se do homem ao elemento cósmico. O masculino e o feminino no seu aspeto simbólico atravessam toda a realidade: a terra e o céu, forma e matéria, ponto e extensão…
Estamos rodeados pelos exemplos desta oposição binária e a levamos no nosso interior.
A energia do sexo na sua manifestação prática rompe a experiência da existência quotidiana banal, que para a maioria dos homens equivale a sonhar acordado. A união do homem e da mulher leva a um clarão, que os expulsa da realidade profana e os introduz, ainda que seja por um instante, numa experiência paradoxal e ameaçadora.
Justamente por isso, a sociedade atual tende a banalizar o sexo ao máximo, a convertê-lo num artigo de consumo sem perigo. A principal tecnologia do liberalismo triunfador é o ataque à oposição dos sexos, à identidade de género. Em primeiro lugar, há que desapossar o homem da sua qualidade específica, após o qual também a natureza feminina se deforma sem esforço. O unissexo, que cria o liberalismo, leva a que a energética sexual abandone o espaço humano e os homens perdem a última oportunidade de contacto com algo que supera a sua cotidianidade sem sentido.
3.6. A crise dos sexos
A crise das relações entre os sexos consiste em que no espaço social deixa de atuar abertamente a força sobre-humana que regula a inevitável e natural “guerra dos sexos”.
Todas as religiões constatam que entre o homem e a mulher há uma guerra permanente que não cessou nunca. Quando Deus expulsava Adão e Eva do Paraíso por desobediência, tinha-lhes advertido: “E semearei a discórdia entre vós”.
No paraíso, o homem e a mulher encontram-se submersos no sonho da felicidade primordial. O meio não se lhes opõe, e eles tampouco sofrem o trauma da sua fundamental diferença com respeito a ele. Por isso, antes do pecado original, andam nus, sem conhecer a vergonha, porque não representam um segredo um para o outro.
A humanidade, lançada ao cru mundo, em seguida sofre o desapiedado do meio. Nestas condições, de imediato se manifesta a oposição diametral dos significados, próprios do masculino e do feminino. Ambos interpretam de maneira distinta o mundo circundante, têm diferente escala de valores, objetivos que muitas vezes não coincidem. O principal objetivo da mulher é a segurança; para o homem, é o desafio, o constante enfrentamento com o meio.
O armistício entre os sexos unicamente é possível quando existe um superobjetivo, determinado pela perspetiva religiosa. A religião oferece ao homem e à mulher a possibilidade de coincidir sobre uma plataforma comum, de regular a irreconciliável oposição dos sexos. Claro está que não se trata só da família e dos filhos. Mais bem, a família faz-se possível depois de se assinar o armistício.
Aquilo para o que o homem e a mulher fazem as pazes, e possivelmente, inclusive uma aliança, é a compreensão que lhes proporciona a religião de que todas as formas e valores da existência quotidiana são ilusórias e têm um fim, que a morte reina sobre tudo. E que unicamente a saída fora deste quadro finito pode justificar os duros sofrimentos da vida quotidiana.
A sociedade liberal é única no sentido de que, pela primeira vez na história, não aposta pela pacificação dos sexos através do princípio superior, mas que, ao contrário, aposta por acender a confrontação entre os sexos. Claro está que isto se faz com o acompanhamento das lamentações politicamente corretas, com a sugestão desde as idades mais tenras para provocar o nojo ante o “sexismo”, através da vacinação da tolerância, que leva tão longe, que às crianças desde o jardim de infância lhes ensinam a fazer xixi como as meninas.
Como resultado, qualquer escritório da megápole ocidental assemelha-se a um pote com escorpiões, onde os homens e as mulheres vivem em permanente tensão de mútua desconfiança, de suspeitas e intrigas, com base justamente na diferença de sexo. Entre eles, continuamente se interpõem denúncias judiciais acerca dos olhares mal lançados, acusações de chantagens sexais e demais delírios paranoides, que o liberalismo contagia aos seus seguidores que perderam toda a naturalidade.
Ao mesmo tempo, nem no Cáucaso, nem na Índia, nem no Iraque tomariam por homens e mulheres a estes representantes do “plâncton de escritório”: tão longe se distanciaram da imagem dos seus antepassados Adão e Eva.
O unissexo liberal não resolve o problema da guerra entre os sexos através da ditosa tolerância, ao contrário, converte a paz entre o homem e a mulher em praticamente impossível.
3.7. Crise da geração. Crise da estirpe
A crise das relações entre as gerações deve-se à perda da sucessão histórica de “pais” e “filhos” experimentada de maneira imediata, o que provoca a coexistência de distintas idades dentro do mesmo movimento browniano sobre o mesmo plano temporal.
A jovem geração deve desafiar os seus progenitores. Sem o qual os jovenzuelos que entram na vida não poderão converter-se em verdadeiros homens. No fim de contas, nos pais é em quem se sintetiza a imagem da mentira, que intuitivamente percebem as almas ainda não estragadas pelo meio social.
Para poder lançar o desafio aos pais, faz falta que a geração dos maiores tenha a aparência de uma força independente, que possui o seu próprio rosto. Faz falta que a geração dos maiores seja vista pelos seus filhos como os amos da vida, responsáveis pelo que ocorre.
Quando Ulrike Meinhof e Andreas Baader atuaram de uma forma extremamente dura contra a sociedade alemã dos anos 1960 em que viviam, motivava-os a luta contra os seus pais, responsáveis pela Segunda Guerra Mundial, que levou à derrota e à escravização da Alemanha. Para os movimentos radicais de esquerda das duas gerações de pós-guerra, o problema dos pais era quase o dominante, que deslocava para o segundo plano as questões de classe e económicas.
Hoje, algo assim seria dificilmente repetível. Não há pais! A confrontação entre as gerações diluiu-se até fazer desaparecer os limites nítidos entre “os maiores” e os seus descendentes que entram na vida.
Além disso, a atual geração que cresce não tem a sensação de que a imagem dos seus pais tem a ver com os “amos da vida” que respondem por algo. Mais bem, ao contrário, as pessoas maiores são vistas como marginais com opiniões ridículas, e se respondem por algo, é unicamente pela inutilidade das vidas que viveram.
A mentira, contra a que há que atuar, hoje perdeu a tradicional associação com a gerontocracia que não deixa respirar. Nos tempos soviéticos, a ditadura dos anciãos nitidamente opunha-se às ansiosas esperanças da juventude. Fazia falta a presença do instituto político do komsomol, para aproveitar a conflituosa energia da jovem geração.
Nos nossos dias, tudo o que é “juvenil” tem um insuportável sabor de falsidade e de “programação”, impensáveis no passado, quando a juventude era o sinónimo da autenticidade.
Dentro do movimento browniano da megápole, os pais e os filhos, a juventude, as pessoas de meia-idade e os pensionistas compõem a mesma mistura agitada regularmente: todos por igual estão desprovidos das orientações, todos se encontram nas mesmas condições existenciais do lumpen marginalizado. As gerações não só perderam a cara, nem sequer conseguem elaborar as máscaras simbólicas que há pouco ainda funcionavam (a ditosa “geração dos sessenta” na URSS, etc.).
A sociedade liberal tirou aos homens outra orientação, tirou-lhes a possibilidade tanto de protestar, como “de tomar o exemplo”, baseando-se na herança histórica. Outra possibilidade a menos de compreender algo! Outra porta para a liberdade tapada…
4. Política
A crise da política consiste em que a luta entre os interesses de grupo substitui o enfrentamento entre os principais tipos de consciência.
A esfera da política é a esfera do enfrentamento entre os distintos tipos de consciência, que têm os seus representantes, ou sujeitos da política, representados por “clubes políticos”. Até ao começo da Época Moderna, os principais sujeitos enfrentados, que representavam distintos tipos de consciência, eram, por um lado, os clericais; por outro – o poder real, que se apoiava sobre a tradicional casta militar. Desde o início da Época Moderna, os clericais e a nobreza fundiram-se num só clube tradicionalista, ao qual começou a opor-se o clube liberal – a boémia e as pessoas de profissões liberais, que, a partir de um certo momento, se manifestaram como o fator social independente. A casta militar, ao abandonar a organização hierárquica, transformou-se na autorreprodutível comunidade dos radicais, e, com o transcurso do tempo, também o lumpen das megápoles – a maioria silenciosa – se tinha convertido no fator político. Os liberais praticamente encheram toda a tabela periódica dos elementos da política atual – desde os marxistas até aos fascistas. No entanto, as suas desesperadas tentativas de influir sobre as velhas elites, manter o controlo sobre o lumpen e utilizar os radicais como instrumento, tropeçam com a diplomacia secreta da classe dirigente tradicional, que facilmente ganha os partidos políticos com as suas ambições. Nos últimos tempos, além disso, como outro desafio aos liberais, a religião voltou ao cenário da luta política, e fez-o não desde cima, mas desde baixo, como ocorria na Europa nos tempos dos anabatistas. A crise da política provém da sua dupla natureza: por um lado, o aspeto cénico, relacionado com as figuras públicas; por outro lado, os corredores da burocracia anónima, que levam aos escritórios dos clubes dos verdadeiros amos da vida.
4.1. Crise da autoridade
A crise da autoridade consiste em que a sua própria natureza exige apelar ao sobre-humano, enquanto que na organização da sociedade atual é um tabu.
A autoridade tradicional baseia-se na presunção da conexão direta entre a ordem clerical e o Ser Divino. Essa autoridade hoje escondeu-se na sombra. Para o primeiro plano passou a restituição demagógica do antigo lema romano: “Voz popular – voz de Deus”. Ao “povo” colam-se figuras e instituições, presumivelmente legitimados pela sua própria eleição. Mas, em quanto este povo “divinizado” põe em dúvida o facto de que presumivelmente legitimou o sistema que o oprime, em seguida recebe as cacetadas e até tiros dos burocratas de uniforme, as forças de segurança do estado, que protegem o “acesso à pessoa” (na origem, o acesso à “pessoa real” – N. do T.). Hoje, a “autoridade” dos regimes baseia-se no medo coletivo, o espantalho do terrorismo, o fantasma da guerra civil e não tem nenhum conteúdo independente crítico. Enquanto que a autoridade da Igreja mantém-se graças à sua aparente permanência fora do quadro dos assuntos mundanos.
4.2. Crise do objetivo político e do projeto político
A crise do objetivo político (exceto o projeto revolucionário) deve-se a que a sua estratégia vai dirigida a limitar as possibilidades do homem, da absoluta maioria dos homens, dentro do quadro do “contrato social” (espaço social).
A típica característica dos programas eleitorais e dos discursos dos políticos é a sua indubitável falta de conexão com os problemas quotidianos reais e das perguntas essenciais, relacionadas com aquelas modalidades da consciência que se refletem nos clubes políticos. Por outras palavras, dentro do discurso político – de direitas e de esquerdas – a espessa névoa da mentira oculta tanto a alta filosofia, como a concreta verdade e os detalhes do que ocorre na rua. Os políticos, apoiando-se nos meios de comunicação, jogam com a sociedade como com uma criança difícil de manejar: colocam-lhe falsos problemas, ameaças imaginárias, e, se faz falta, acompanham-no com as encenações para o consumo dos meios como ilustrações – crimes, explosões terroristas, etc. Hoje, tudo se converteu em político – desde um escândalo familiar até aos sucessos desportivos. Desta maneira, a política está felizmente divorciada do seu principal conteúdo, e, como projeto político, figura a promessa do partido, compreensível unicamente para os especialistas e que não interessa a ninguém. Assim, o partido pode prometer como o seu grande objetivo global a redução dos tipos da hipoteca, nas proporções, além disso, que são importantes para a estatística, mas não para as pessoas reais.
4.3. Crise do protesto
A crise do protesto reflete-se em que se reduz ao descontentamento com o particular e casual, em vez de se opor à ordem das coisas.
O carácter dual inato da natureza humana sempre gerou o protesto. Por um lado, o homem está programado pela matriz da consciência da civilização, dentro da qual se converte no homem; por outro, está a sua consciência noumenal, que apela ao incondicionado, protesta contra a mentira, sobre a que a priori se baseia qualquer civilização. Ao longo dos milénios, o protesto exprimiu-se com um carácter religioso.
Os liberais submeteram a poderosa energia do desacordo espiritual e, através da doutrina de Hegel-Marx sobre a alienação e desumanização, ofereceram às forças contestatárias a versão pseudorreligiosa da visão do mundo global, na qual os objetivos globais foram mudados, e os acentos deformados. Isto inevitavelmente levou ao derrube da ideologia da esquerda liberal, da que o marxismo fazia parte como um sistema organizado. Mas, bem ou mal, o último, pelo menos, proporcionava a possibilidade de se pôr de acordo dentro do seu quadro a forças muito distintas, sem excetuar os radicais, obrigados a utilizar esta linguagem. Hoje, o potencial energético do protesto mundial não possui uma linguagem unitária e um sistema de referência ideológica unido, que faria possível coordenar os esforços das distintas forças contestatárias ao longo do mundo. O que coincide com a crise geral do liberalismo que dá como resultado que, para o primeiro plano dentro do establishment oficial, saia o seu flanco de extrema-direita, que às vezes apela ao populismo fascista… Por outro lado, os radicais, deixando de lado os movimentos subculturais do alterglobalismo, tendem cada vez mais a voltar à plataforma religiosa da crítica da ordem estabelecida.
4.4. Crise da hierarquia territorial, das soberanias e vassalagens
A crise das soberanias territoriais deve-se ao seu carácter casual, historicamente determinado e, de facto, podem dividir-se e recompor-se seguindo a vontade das forças extraterritoriais, por exemplo, corporações multinacionais.
So soberania – é a herdeira jurídica da época feudal. Os estados nacionais, formados nos séculos XVIII-XIX, salvo raras exceções, eram governados pelos monarcas. Para os começos do século XVIII, toda a Europa estava governada pelo mesmo clã familiar dos príncipes germânicos, e a grande Eurásia, pelo clã familiar alternativo dos Timúridos (os cães turcomanos – herdeiros de Tamerlão), aparentados além disso com os Gengisidas. De modo que, atrás do mosaico das soberanias feudais, ocultava-se um particular globalismo “de tipo familiar”. Tampouco foi uma exceção o Império Russo, onde, sob a aparência da família boiarda russa dos Románov, governavam os mesmos príncipes germânicos. O resultado da Primeira Guerra Mundial pôs fim a este idílio. Os príncipes esconderam-se atrás dos cenários da democracia com os seus parlamentos e partidos. Após o que, as soberanias tinham perdido a sua função: proteger os direitos feudais das suas dinastias – e converteram-se numa desculpa para os nacional-demagogos obterem os estatutos políticos internacionais para os seus povos, ou melhor, as suas marcas representativas. Os amos da vida não o podem tolerar de nenhuma maneira. Por isso, hoje, coloca-se o fim do estado nacional. Alguns poderiam pensar que esta jogada nos introduz na era pós-estatal. Mas nada disso! O estado, como recordamos, é o instituto parasitário que rompe a intercomunicação entre os governados e os governantes. O princípio territorial, pelo menos, deixa uma sombra de possibilidade para os eleitorados limitados por uma ubicação concreta de lhes exigir as contas aos políticos eleitos territorialmente. Mas a eliminação das fronteiras tira o sentido ao sistema eleitoral. O novo nomadismo, a globalização dos fluxos migratórios, mata o município e o governo local. Mas o estado fica na forma da burocracia internacional, que não responde perante a população e só obedece ao clube político, que une as elites tradicionais.
4.5. A crise da participação no diálogo (fim da ilusão da sociedade unida)
A crise da inter-relação entre o cima e o baixo na sociedade vê-se na crescente incomunicação dos de baixo, aos que se lhes corta a possibilidade de formular a sua mensagem aos de cima, isto é, a expulsão dos de baixo do sistema de comunicações.
Nos tempos dos faraós, a civilização proporcionava o conceito da unidade humana dentro do quadro da civilização. O último agricultor tinha relação com o faraó, ainda que fosse como uma minúscula parte derivada dele. O discurso liberal de esquerda, baseado no conceito do proletariado e que tinha apostado pela luta de classes, fez mossa na ilusão da sociedade comum, que tem um objetivo comum. Os atuais tecnólogos políticos ativamente tentam apresentar o mundo pós-marxista e pós-socialista também como pós-clasista. Mas cada vez ficam menos argumentos para isso. Na maior parte do mundo, rapidamente se desacredita o nacionalismo como ponto de união. O nacionalismo é desafiado pelas irmandades e diásporas dos emigrantes, pelos velhos separatismos locais (irlandeses, bascos, albaneses, curdos, etc.). Por último, o enfrentamento social entre os de baixo e os de cima está a crescer. A segunda resposta ao desafio da luta de classes, depois do nacionalismo, foi a teoria da “sociedade aberta” da democracia liberal. Mas, à medida que a globalização avança, reduz-se drasticamente a necessidade da demagogia democrática e do processo eleitoral, substituídos pela administração direta e a pressão da força bruta.
Na situação em que Fukuyama fala de que a maior parte da população da Terra sobra, Popper converte-se em algo antiquado e ridículo. Por enquanto, o homem corrente da megápole, obnubilado pelo entretenimento desportivo e o Superego que ainda funciona, não está preparado para aceitar a segunda edição da luta de classes na sua versão pós-marxista neorreligiosa. Em qualquer caso, a ilusão da sociedade unida com um único objetivo humano universal de que “todos vivam bem” está a esgotar os seus últimos dias.
4.6. A crise da representação dos significados por parte dos partidos políticos
A crise do partido político hoje consiste em que se converteu num pilar tecnológico do processo eleitoral, que, por sua vez, está controlado pelo cimo da sociedade que está por cima dos partidos.
O partido parlamentar de hoje é o instrumento do clube liberal, através do qual os liberais alongam os seus tentáculos ou para os cérebros das elites tradicionais, tentando vender-se caros como os seus aliados, ou para os cérebros da maioria silenciosa, oferecendo-se como guias em meio de um mundo hostil. As plataformas destes partidos definem-se, mais bem, pelos psicólogos sociais e corroboram-se desde o ponto de vista das idiossincrasias eleitorais, enquanto que os seus líderes não se diferenciam em nada das estrelas do show-business. Os partidos políticos atuais chocam com as crescentes ambições da burocracia internacional, que cria um espaço de direção no qual as organizações do partido não têm nada que fazer. É por isso que os liberais de direita de orientação nacionalista convertem-se no bastião de resistência perante todas as unificações supranacionais regionais como a Comunidade Europeia.
4.7. Fracasso da ideologia da direita
A crise da ideologia de direitas deve-se a que destacava o grupo dos beneficiários dentro da perspetiva histórica baseando-se nos critérios casuais e discutíveis (raça, nação, riqueza, herança).
A ideologia da direita liberal, num certo momento, alcançou dimensões populistas e tentou apelar à grande indústria nacional, ameaçada pelo desenvolvimento do capital especulativo, a crescente influência dos mercados bolsistas. Na realidade, os liberais de direita baseavam-se na ideia perfeitamente marxista, que opunha o trabalho produtivo a todas as demais atividades pagas. Num momento dado, as elites tradicionalistas do clássico velho Ocidente baralharam a ideia: “E se apostarmos nos populistas de extrema-direita?” – no entanto, a desagradável experiência da Primeira Guerra Mundial fez que este clube se voltasse muito precavido, e decidiram apostar pela aliança com as democracias financeiras (o mais engraçado é que, como sistema, a totalitária URSS estalinista era tão democracia financeira como os Estados Unidos!). Como resultado, os populistas de direita foram derrotados militarmente, o que reduziu a plataforma de direita até ao formato do individualismo conservador liberal-direitista, que, em resumidas contas, tem poucas possibilidades de triunfar e inclusive nos EUA precisa de ser estimulado com a injeção do fundamentalismo batista.
4.8. O fracasso da ideologia de esquerda
A crise da ideologia de esquerda está em que, antes ou depois, se vê obrigada a delegar a preocupação pela distribuição igualitária dos bens no Estado, que é, em si, um parasita social.
O liberalismo de extrema-esquerda, que partia de uma bela, quase de Zenão, aporia, de que o trabalho produtivo sempre produz mais mercadorias das que se possa consumir, construiu sobre ela o projeto comunista da superação da “alienação”. Na realidade, tinha surgido uma democracia financeira de tipo burocrático de partido, na qual unicamente a abundância dos elementos folclórico-exóticos impede ver a profunda identidade entre os EUA e a URSS. A economia da URSS, em essência, não era mais do que especulação com o dinheiro não líquido, pela que havia que pagar com os sumos vitais reais dos recursos do trabalho. De facto, o problema económico da URSS reproduzia a menor escala a colisão da crise atual: por um lado, a economia especulativa do consumo, onde o estado burocrático aparecia como o sujeito unido; por outro lado – o polo económico do trabalho produtivo, que simplesmente não podia seguir as experiências especulativas do Gosplán. A URSS aparecia como a China e os EUA num só sujeito.
Precisamente a combinação da ideia comunista da superprodução dos bens materiais com o enfoque financeiro-especulativo para o crédito desta produção levou à inevitável desconstrução de todo o esquema, porque, como beneficiário real no polo do consumo, encontrava-se a burocracia responsável pelo projeto da esquerda e que, em algum momento, precisava de sair desta contradição!
5. Economia
A crise da economia está em que o seu verdadeiro objetivo não consiste em criar os bens e serviços materiais em benefício dos homens, mas na utilização dos homens contra os seus interesses tanto materiais como espirituais.
Economia é uma das esferas mais polarizadas e contraditórias da atividade humana. Os seus polos principais são, por um lado, a “troca dos elementos” entre o homem e o meio material, e por outro – os processos das relações entre os homens medidos quantitativamente. Ponhamos que a produção dos bens materiais necessários para manter a vida física pertence ao primeiro polo, enquanto que a management da produção, ciência, serviços, cultura, ócio, etc. pertence ao segundo polo. Ao longo de todos os tempos, existiu o problema de como equilibrar esses polos; da sua oposição e correlação nasceu “a terceira esquina” – a esfera de papel, ou de ar, dentro da qual se leva a cabo o jogo com os valores de um polo e do outro. A tendência geral do jogo consistiu na relativa redução do valor do segmento material (“troca de elementos”) com o crescimento do valor do polo humano da economia. Como resultado, tinha nascido a economia do puro consumo, estreitamente relacionada com as operações especulativas das bolhas de ar.
5.1. A mentira global da ciência económica
A crise da ciência económica deve-se a que se empenha em converter no seu principal objeto de estudo a lei da procura e da oferta, enquanto que o mais importante na compreensão da economia é a possibilidade de dirigir os recursos humanos.
Marx enganava-se, ao dizer que, antes de fazer qualquer coisa, o homem deve comer, vestir-se e ter um teto sobre a cabeça. A coisa está em que estas necessidades básicas fundamentais são a condição prévia para a existência de qualquer tipo de sociedade, inclusive da mais arcaica e pouco desenvolvida. Se existe a sociedade, o homem já tem comida e defesa perante o meio. Outra coisa é ver que peso quantitativo na balança geral dos esforços ocupa o cumprimento destas condições. No entanto, a sociedade não se desenvolve paulatinamente da não-sociedade através do trabalho e da autoorganização que evolui. A sociedade é-lhe dada ao homem desde o exterior (pelo “herói cultural”) e, como resultado, faz-se possível o trabalho, a autoorganização e a comida com o teto, assim como todo o demais. A economia em todas as etapas teve um sentido político e metafísico e nunca existiu como um meio pragmático para satisfazer as necessidades (neste sentido, a “economia” aparece unicamente na fase pré-social entre as tribos degradadas, que dependem completamente do nicho ecológico em que vivem). O principal motivo da crise económica é a contradição entre as possibilidades da economia (num sentido amplo) e os imperativos da política. Assim, para assegurar a sobrevivência da sociedade humana, faz falta mobilizar todos os recursos humanos existentes ao nível mais alto da organização da megápole, o que, devido a uma série de fatores geopolíticos e sociais, é impossível (Fukuyama).
5.2. A crise do capital humano
A crise do capital humano está determinada pelo facto de que, quanto mais caro é o tempo do trabalhador, tanto mais relativa e periférica é a sua participação no processo criador.
Qual é a essência do processo de mobilização, que se costuma denominar o “progresso histórico”? É a relação entre o tempo das pessoas e os critérios aplicados a esta relação. Por exemplo, na antiguidade, o tempo vital do faraó valia o mesmo que o tempo vital do seu povo: ele “custava” tanto, como todos os seus súbditos juntos (50/50). Nos tempos sucessivos, a dinâmica social levou à possibilidade de que distintas figuras sem estatuto pudessem jogar com o preço do tempo individual, e o equilíbrio monarca/os demais ficou roto. O valor do tempo vital do monarca, e mais tarde também das elites que o rodeavam, começou a baixar com respeito ao valor do tempo do conjunto da população. Como foi crescendo o valor do tempo destas pessoas particulares de lá de baixo? Também se determinava em relação ao tempo do habitante concreto com respeito à quantidade das pessoas ocupadas em mantê-lo.
Por exemplo, um agricultor na Antiga Roma custava como cinco escravos seus mais *x* quantidade dos libertos mais o trabalho daqueles que recolhiam a sua colheita, os que a levavam ao mercado, etc. Para assegurar a vida de um representante atual da classe média que vive na megápole, trabalham direta ou indiretamente várias milhares de pessoas: desde a longínqua Jacarta, onde fabricam para ele os chinelos, até Hollywood, onde fazem para ele os filmes, desde os cabeleireiros e canalizadores até aos seus subordinados na empresa. Naturalmente, que cada um nesta multidão de “novos escravos” e “novos libertos”, por sua vez, apoia-se no inúmero de homens semelhantes, sem os quais não poderia subsistir. No entanto, fica claro que atrás do operário da fábrica de sapatos em Jacarta há muito menos gente e de peso muito menor, do que atrás de um manager de Paris. O estatuto do desempregado hoje também constitui uma forma de trabalho, porque, em assegurar a subsistência de cada desempregado, está ocupada uma multidão de pessoas – em particular, os funcionários de segurança social.
O preço do tempo vital, à hora de valorar o capital humano, varia com grande desigualdade. O ótimo para a economia global (mas absolutamente utópico!) seria que a vida de cada um dos 6 mil milhões de seres humanos estivesse assegurada pelo resto dos demais 6 mil milhões. Seria a capitalização absoluta do recurso humano. Como é impossível, a sociedade da informação representa um paliativo: cada um dos incluídos na rede, está assegurado por todo o resto dos utilizadores. Desta maneira, o tempo que cada um permanece em estado interativo, capitaliza-se praticamente sem limite segundo o número das terminais – o estatuto ao que se reduz ao participante humano da rede. Mas está claro que a absoluta maioria das pessoas necessariamente ficam fora do quadro da sociedade da informação. Neste caso, a sua mesma existição funciona destrutivamente sobre o sistema da capitalização virtual e surge a questão de como resolver o problema com este lastro humano.
5.3. Contradição entre o trabalho materializado e o trabalho vivo
A crise do trabalho vivo consiste em que o seu peso específico dentro do valor geral do tempo vital do indivíduo baixa precipitosamente à medida que se vai passando às formas “progressivas” e inovadoras da economia.
Tudo o que nos rodeia é o trabalho materializado ou, por outras palavras, trabalho morto, produzido pelas gerações passadas. Mas não só são os martelos e as casas, mas também as estrelas, mar, praias, etc. Isto é, aparentemente a natureza. O que não deve estranhar-nos, se compreendemos que não podemos ver a onda ou a pedra senão é através do prisma da civilização ou da cultura. Não contemplamos as estrelas da mesma maneira que o fazia um romano há dois mil anos. Para nós, são objetos energéticos com os que podemos estabelecer relação de alta tecnologia. O oceano representa ilimitadas fontes das proteínas que contém a toda a tabela periódica dos elementos de Mendeleiev, etc. (sem mencionar a infinita quantidade das vias marítimas que oferece). O trabalho materializado inclui também a maneira de perceber qualquer fenómeno, que permite utilizar este fenómeno (ponhamos, a faixa de areia da praia numa ilha para sacar ganâncias do turismo). De modo, que vemos como a consciência social dominante neste momento inclui como componente o trabalho materializado, e, portanto, a maneira de valorar tudo o que são os recursos produtivos. Isto é que, num certo sentido, o trabalho morto valoriza-se a si mesmo, porque uma das suas dimensões é a consciência social elaborada para este momento. Mas para que tudo isso se ponha em movimento (o martelo bata no prego, os surfistas cheguem à praia de areia, etc.) há que aplicar a este trabalho morto o trabalho vivo das pessoas que existem neste momento. Dado que em cada momento concreto existe o desfasamento entre o indivíduo e a sua consciência social, também se produz o conflito ideológico e tecnológico entre como os protagonistas do trabalho vivo valoram o seu próprio tempo e como valora o seu tempo a consciência social. E não se trata tão somente da questão do “salário digno” pelo trabalho realizado.
5.4. Crise do dinheiro
A crise do dinheiro consiste em que, como sistema quantitativo, tem a tendência própria para o crescimento, não relacionada com a subida de preço real do valor conjunto das forças produtivas.
O dinheiro representa a forma mais abstrata da quantidade, porque a unidade monetária possui um conteúdo quantitativo variável, que aumenta e diminui dependendo dos fatores pouco previsíveis e num período do tempo muito curto. Além disso, o conteúdo quantitativo da unidade monetária não só se ajusta ao valor dos bens consumidos, mas ao preço de outras unidades monetárias que existem paralelamente. E o jogo com estas relações cria um recurso quantitativo que pode ser investido nos bens reais. A essência do dinheiro está em que é a forma de contar o valor social do tempo vital alienado. Mas, devido a que os sistemas monetários desconectados do mundo material tendem ao crescimento ilimitado das quantidades que movem, como resultado, o valor conjunto de todo o dinheiro começa a superar o preço social tanto do trabalho morto, como vivo de toda a humanidade para este momento concreto. Por outras palavras, se contarmos o preço de leilão de cada palácio, cada barraca, cada pá, satélite, etc., que há sobre a terra, e se calcularmos o valor social do tempo vital de todos os habitantes da megápole mundial mobilizados na economia global, teremos uma determinada cifra. E se contarmos toda a massa monetária, incluindo o preço dos papéis de valores, letras de câmbio, ações sobre as ações, etc., o seu valor superará em muitas vezes o valor conjunto de todas as forças produtivas. A saída da situação consiste em que o colosal sobrante tem que ser redistribuído a favor de um pequeno grupo de pessoas, que utilizará este sobrante de dinheiro não no consumo, que levaria à total desvalorização, mas para financiar os superobjetivos políticos globais, como, por exemplo, a mudança da consciência social, a criação da sociedade da informação e, por suposto, a guerra, que é o projeto de civilização que mais dinheiro move.
5.5. Crédito e usura
A crise do crédito consiste em que “o progresso” exige conceder os créditos ao consumo em vez de à produção.
Está claro que o crescimento da base material da economia, a sua chamada parte “real”, está limitado pelos fatores muitas vezes insuperáveis. Não se pode converter a Albânia ou a Roménia em França, apesar de todas as investidas financeiras, porque o dinheiro entrará em contradição com a consciência social destes lugares (forças produtivas regionais), assim como com as condições específicas do trabalho vivo aí. Se nos imaginarmos o mesmo objetivo irreal com respeito a todo o mundo (ponhamos que o mundo é “Albânia” virtual, e temos que convertê-lo em “Francia” também virtual), encontraremos-nos com o mesmo problema: o mundo não pode passar de um degrau a outro no plano material, apesar de todo o sobrante do potencial da investida que o governo mundial tenha nas suas mãos. Desta maneira, a necessidade do crescimento económico, que compensa “o pagamento de aluguer pelo Ser”, é impossível por motivos objetivos.
Então, os governantes fazem a jogada contrária: substituem o crescimento real pelo virtual. A economia especulativa, que cria o excesso da massa monetária, é um dos meios de aumentar a fictícia capitalização do valor da civilização global. Outro meio, mais eficaz, consiste em criar a sociedade da informação, onde o tempo de cada um, através da rede interativa, se encerra no tempo de todos, o que permite um jogo sem limites com o seu valor, que se converte assim em totalmente virtual. A sociedade da informação representa a última fase do desenvolvimento da usura.
5.6. A crise do trabalho produtivo
A crise do trabalho produtivo (não confundir com o “vivo”) consiste em que unicamente é rentável nas zonas de próxima catástrofe humanitária e, em última instância, nas condições do retorno à aberta escravatura.
A crise do trabalho produtivo consiste, em primeiro lugar, em que o seu valor – a sua parte no preço global do tempo humano – se vai reduzindo sem remédio sobre o fundo do crescimento dos preços no sector do consumo. De tal maneira que, para ser rentável, o trabalho produtivo deve concentrar-se nas regiões com a infraestrutura muito primitiva, que permite ao produtor sobreviver com uma escala de valoração do seu tempo, que é impossível nos lugares avançados da megápole mundial. Por outras palavras, um desempregado de Nova York gasta para viver bastante mais do que um engenheiro no Sudão ou inclusive na Bielorrússia.
No entanto, a expulsão do trabalho produtivo para a periferia da civilização, devido ao interesse dos organizadores da economia em reduzir o custo do tempo daqueles empregados neste trabalho, entra em contradição com o rumo geral para o aumento da mobilização dos recursos humanos incluídos na nova economia. De modo que, em última instância, a economia “intelectual” prevê a supressão do trabalho produtivo, o qual, por motivos evidentes, é impossível fazer por completo. Provavelmente, o desfasamento entre o possível e o desejável encher-se-á com o retorno à escravatura na nova fase do desenvolvimento da alta tecnologia.
5.7. Crise das relações entre o proprietário e o beneficiário
A crise da propriedade privada está em que hoje não tem nenhum conteúdo político e social, enquanto que a relação do proprietário com a sua propriedade tem cada vez mais um carácter casual (através das ações).
Uma pergunta muito séria com respeito à sociedade global é a de quem nela é o beneficiário. Observamos como a roda da fortuna sobe ao cimo a casuais arrivistas do movimento browniano, a alguns representantes do lumpen que se fazem com milhares de milhões. Mas no seu destino pessoal não há nada fixo. Depois de ter permanecido na cumeeira, podem terminar na prisão ou ser postos em busca e captura internacional. O dinheiro, apesar das ilusões dos analíticos pobres, não tem nenhum poder político. Mais ainda, na sociedade atual, mudou o princípio da propriedade, a forma da relação com a produção. Pode-se ser acionista de uma grande e próspera empresa, mas não receber os dividendos durante anos por decisão do conselho diretivo, que quer, por exemplo, destinar todos os ganhos ao desenvolvimento. As novas regras de jogo tiram ao proprietário conjunto as possibilidades de defender seriamente a sua própria atuação económica. Ao mesmo tempo, os círculos que não têm os direitos jurídicos sobre as propriedades sérias, têm a capacidade de mobilizar para os seus projetos uns recursos inesgotáveis. De modo que, no mundo atual, praticamente não funciona o oficialmente proclamado princípio da propriedade privada, e as múltiplas leis sobre os impostos, herança, etc. não são mais do que uma cortina, que tapa o estatuto dos que estão por cima da lei, os quais possuem o segredo de permanecer sempre no cimo – trata-se do clube tradicional, que, depois de uma série de graves sobressaltos, se retirou fora do quadro da sociedade aberta e transparente.
5.8. Crise do consumo e dos bens materiais
A crise do consumo consiste em que o próprio consumo hoje representa muito mais um instituto de cultura, do que a satisfação das necessidades vitais.
O ocidental de agora mesmo consome muito mais do que lhe permite a sua percentagem na produção dos bens reais, entendido à maneira marxista. Em primeiro lugar, vive a crédito, que compensa graças à crescente capitalização do seu tempo vital, que se consegue graças a que cada vez mais pessoas participam na sua manutenção. Por outras palavras, todos na megápole, apesar da sua vontade, convertem-se em parasitas sociais. No entanto, o homem não pode ocupar mais de um determinado número de metros quadrados de vivenda (sem ter em conta os milionários-arrivistas) e não pode consumir mais de um número determinado de calorias. Uma das vias para aumentar as despesas com os créditos são os luxos excessivos: lanchas, carros, férias, etc. Mas esta via tem muitas despesas para a produção. Oferece muitas mais perspetivas o consumo dos mitos, conceitos, marcas. Se antes (no século XIX) o nome da empresa se associava com determinadas mercadorias (por exemplo, ao dizer “Zauer”, o senhor referia-se a um rifle de caça de qualidade), hoje, o logótipo da empresa converte-se no símbolo do estilo, separado da classificação da mercadoria. A DAEWOO coreana fabrica não só automóveis, mas também os computadores, tanques, pistolas, etc., convertendo-se em perspetiva num símbolo do génio técnico coreano. As companhias de show-business dão o seu nome a perfumes e casacos, “Krupp” pode converter-se num estilo de moda masculina. Se olharmos a distribuição das despesas do dinheiro emprestado nas despesas vitais de um yuppie atual, veremos que o valor dos bifes que come é de 1%, fitness e solário – 10%, férias de luxo – 30%, e o resto das despesas destina-se ao pagamento daquelas marcas dos casacos, restaurantes e agências de turismo, com as que trata. Na prática, ao aproveitar o tempo do homem-massa, a consciência social entrega os créditos para pagar a si mesma, tendo cada vez menos conteúdo desde o ponto de vista do significado real.
6. Tempo
A crise do tempo consiste em que é, por um lado, a única propriedade real das pessoas, e por outro – o objeto de usurpação por parte da sociedade.
O tempo não existe! Pelo menos, esta foi a intuição de alguns místicos, visionários, que alcançaram a compreender a natureza absolutamente subjetiva do tempo. Em efeito, que é o tempo? A erosão das pedras, o nascimento das novas ilhas, que emergem de debaixo das águas, acendimento e desaparecimento das estrelas no insondável espaço cósmico? Quem demonstrou que este movimento caótico da matéria tem algum conteúdo temporal?
O tempo existe porque existe a morte como o final da vida humana individual. Desde o nascimento e até ao último suspiro – tantos milhões de golpes do coração. Cada golpe de coração é um grão de areia que cai ao fundo do relógio de areia.
Na antiga Babilónia, inventaram o segundo. Pegaram em mil jovens sãos, mediram o seu pulso em estado de repouso. O tempo médio, durante o qual se produzem 60 pulsações do coração, converteu-se num minuto. Dos segundos humanos formam-se os milhares de milhões de anos da existência do cosmos. O coração vivo é o medidor do tempo do Universo. O tempo unicamente está em nós, não está na pedra, não está no éter sem estrelas!
Na realidade, a sensação do tempo é a presença direta do fim dentro do movimento que ainda não cessou. A morte dentro da vida. É justamente o que converte a nossa existência em grandiosa, é o que compõe a base da compreensão humana, que, por sua vez, se converte na chave do sentido universal.
O ouro é o presumível equivalente do verdadeiro valor, o dinheiro autêntico. Mas que custaria o ouro se não estivesse diretamente relacionado na consciência humana com a ideia da morte adiada, com a ideia da vida eterna? O ouro só define o facto mais importante da realidade social – o nosso tempo que não tem preço.
Os irrepetíveis segundos, graças à sociedade, têm um preço. O verdadeiro ouro é o tempo – a principal substância inapreciável que está na base de todo o criado pelo homem.
Por tudo o que temos nesta vida – desde as grandes ideias até ao bem-estar material – pagamos com o nosso próprio tempo, que existe unicamente porque é finito. O tempo infinito é impossível!
E esse tempo aos homens roubam-lho! Roubam-no os especuladores, políticos, polícias, rouba-o o sistema, que transforma a energia vital de milhões de corações no “recurso” da civilização.
O segredo do progresso consiste em que a sociedade joga com a valoração do tempo humano. O tempo de uns vale uma miséria, o tempo de outros, que não são melhores, ao parecer vale uma fortuna. Mas tanto os uns, como os outros, de todos os modos, devem pagar ao inumano Moloch, ao sistema, que tem os seus próprios objetivos, que de nenhuma maneira coincidem com os objetivos humanos.
A crise do tempo descobre-se em que cada vez mais humanos devem pagar cada vez mais por poder levar uma existência humana normal.
6.1. O tempo como método para medir o indeterminado com o finito
A crise da ideia do tempo consiste em que não há outras demonstrações da sua existência, salvo a experiência subjetiva biológica do indivíduo.
Em verdade, o tempo só é real no teatro. Aí há o primeiro ato, segundo e assim sucessivamente, há a passagem de uma situação a outra. E além disso, cada cena sucessiva nasce da anterior.
O rei Lear agita-se entre as suas filhas, porque, ao princípio do drama, renunciou ao poder e dividiu o seu reino entre as herdeiras. Os problemas de Lear não teriam surgido, se não fosse por esse primeiro passo.
Intuitivamente, a consciência do homem tende a atribuir à natureza inanimada o específico da ação teatral, estendida a uma duração de incontáveis anos no tempo. Assim, nascem todo o tipo de “histórias da Terra”, “histórias das galáxias” e inclusive a “história” do próprio tempo. Naturalmente, por história, sempre se entende o relato com argumento, no qual se sucedem os episódios.
Mas não pode haver nenhuma demonstração real de que qualquer estado do cosmos é a consequência do estado anterior. Assim é como o vemos nós. Nós somos os que sobrepõem sobre “a sucessão de fotogramas” a rede de causa-efeito, o que nos permite falar do drama da existência do Universo e, propriamente, do tempo universal.
Mas todas estas imagens podem-se “numerar” noutra ordem muito distinta e inventar para elas outra motivação de causa-efeito, ou prescindir dela: vê-las simplesmente como um conjunto dos estados da existência sem relação.
O tempo só existe dentro de nós. Donde provém, pois, esta necessidade de impor a experiência do tempo ao meio, no qual claramente não existe nada parecido à nossa intuição subjetiva do finito?
Para a humanidade, dado que ela existe não como uma caótica massa de indivíduos, mas como a sociedade estruturada, a diferença entre o cosmos e o meio social não existe. A assim chamada natureza só pode ser percibida através do prisma da consciência social. Não nos damos conta de que inclusive os fenómenos, que parecem afastados da nossa vida como o mar, o éter, as estrelas são concentrações das elaborações filosóficas, fora das quais os fenómenos para nós simplesmente não existem. Portanto, tudo o que cai no nosso campo de visão, faz parte do Universo antropogénico, simplesmente do mundo, criado pela vista humana. E se é assim – semelhante mundo existe enquanto tem uma Testemunha. O finalismo do homem – finalismo da humanidade – … finalismo de todo o ser.
Donde vem a ideia do começo e do final? Está claro que da reflexão sobre o nascimento e a morte. Mas captar o indeterminado através do prisma do organismo finito não é suficiente. Ainda há que medir esta indeterminação. A duração indeterminada compõe-se dos humanamente determinados “quantos” do tempo, pulsações do coração.
Mas este quanto unicamente se converte na unidade contável da conceção do tempo graças a que a morte particular se põe em relação com uma determinada quantidade das pulsações do coração, ponhamos, alguns milhões.
Na pausa de cada duplo golpe do pulso está presente o limite adiado, mas inevitável da existência. Justamente este limite converte-se na medida para contar o indeterminado, que se transforma nas épocas que sucedem umas às outras.
A crise do tempo descobre-se ao mesmo tempo que o problema da periodização desta indeterminação. O passar de contar a vida do Universo de milhares de anos a milhares de milhões dá testemunho da inflação do fator humano no tempo, porque no enfoque científico contemporâneo já não existe a relação da vida humana com a “vida” da Terra, Sol, etc. Dentro dos milhões de anos, a medida como a pulsação do coração converte-se em algo assim como o cêntimo turco.
6.2. O esquecimento da morte pessoal
A crise do tempo vital consiste em que a omnipresente socialização expulsa da consciência do homem o mais importante para ele: a certeza de que inevitavelmente morrerá.
A sociedade como o mecanismo inumano luta à morte com a mesma fonte de que provém a ideia do tempo. A ideia do tempo nasce do limitado da existência humana do indivíduo. Cada homem na sua imediata experiência de viver através de cada golpe do seu coração sabe que este coração se parará antes ou depois. Precisamente a aparente indeterminação do número dessas pulsações ao longo da vida humana diferencia-se da indeterminação da série natural de números. A série natural de números não tem o último número, mas a vida do homem mede-se, na realidade, com o número finito das pulsações do coração, e existe “a última pulsação”. Esta última pulsação tinge todas as precedentes.
O objetivo da sociedade consiste em eliminar da psique humana esta diferença, fundir a sensação do final pessoal, converter as pulsações do coração em aritmeticamente indeterminadas como o número na série natural de números.
A sociedade, devido à sua essência mecanicista, tende ao sucedâneo da imortalidade, que a razão social entende como duração indeterminada. A isso se deve que, para a sociedade, não existe nada fora do seu quadro, nada exceto a própria sociedade. O homem é religioso na medida em que conhece a sua limitação. A sociedade não quer saber nada da sua limitação. A religião para ela também é uma função da sociedade.
Por isso, a sociedade procura eliminar o sentido do tempo da consciência individual dos seus membros.
O engenho dos ideólogos atuais vai dirigido, em primeiro lugar, a desmontar o conceito do tempo como a dinâmica do movimento que vai de um começo a um final. Intuitivamente, eles sabem que a duração sem argumento perde a qualidade do tempo. Daí o discurso sobre a pós-história.
O habitante da megápole converte-se em parte do meio, numa função da sociedade. Além de não se opor ao mundo que o rodeia, também no interior deixa de perceber a diferença entre os outros homens e o espaço funcional inanimado. Cada um converte-se no quanto da sociedade, que participa em multidão de conexões, perdendo a sensação do centro interior, do ponto de toque interior, relacionado com a experiência do carácter próprio irrepetível, da própria finitude, que assegura a vontade para a liberdade e o sentido. E sem esta vontade é impossível a fé como a expressão mais espiritual e subjetiva da personalidade.
A ideia de morte pessoal dilui-se no esmagamento da testemunha interior, da consciência, que se encurrala no estatuto de “Isso”, e a consciência social inunda os ilhéus que ainda se mantinham secos na vivência interior do homem. A situação extrema é a fita de Möbius – quando a fronteira entre o exterior e o interior desaparece.
Dentro do ritmo televisivo, a memória histórica cabe no formato que não supera uma semana de duração. Graças aos meios de comunicação, a sociedade atual vive submersa no estado de “hoje permanente”. O tempo não existe. Foi suprimido da vida da sociedade e da pessoa.
Nada recorda ao homem a sua morte pessoal. A morte do outro (“não tu”) ontem hoje para ti já não existe.
6.3. História mundial como argumento dramático
A crise da história deve-se a que se dilui a realidade dos personagens que atuam nela. São substituídos pela realidade dos processos, tendências, etc. O que leva à entropia do argumento como eixo do drama histórico mundial.
O principal drama da existência política da pessoa dentro do tempo é a correlação – instável e bastante problemática – entre a biografia e a história.
A biografia do indivíduo pode representar-se como a duração biológica vazia desprovida de sentido do berço à tumba, um conjunto de clichés: nasceu, casou-se, teve filhos, reformou-se, morreu.
Mas esta biografia pode ser transformada num argumento dramático.
O argumento da vida pessoal é impossível sem a sua inclusão no argumento da história e a projeção nela do argumento histórico.
O destino de Hamlet e do rei Lear, inclusive o drama amoroso de Romeu e Julieta só podem ser narrados dramaticamente se se apela ao pathos global do meta-argumento detrás de cena, graças ao qual cobram sentido as grandes perguntas, colocadas por estes personagens.
A história, por sua vez, existe sobre distintos níveis argumentais.
O primeiro nível – a transformação de um número limitado de homens, que vivem num espaço isolado. O segundo nível – a história da tribo, na qual podem inscrever-se ou não as biografias individuais dos membros da tribo.
Mas quando esta tribo sai-se fora do quadro do seu cronotopo e converte-se no denominador da história mundial, muda bruscamente a valoração histórica do tempo de todos os que participaram neste salto.
A última vez, isto ocorreu com os árabes depois de Maomé.
Os amos da vida lutam em duas direções.
A primeira frente – a luta por mudar o argumento.
A segunda frente – a luta por expulsar da história (argumento) ao maior número possível de gente e povos: se no argumento entram demasiados “alheios”, a liderança do dramaturgo e do diretor – papéis usurpados pelas elites, põe-se em questão.
Um simples exemplo. No ano 1918, na Rússia, o movimento branco lutava para que o chefe do exército Sorokin, o anarquista Makhno, o ex-bandido Kotovski (na Guerra Civil encabeçou o 2º Exército de Cavalaria Vermelha, – N. do T.) ficassem como figuras não-históricas junto com os milhões de outros anónimos cinzentos. Em correspondência, a luta dos vermelhos era para que a vida dos homens, cuja existência histórica não significava mais do que a vida do ouriço no bosque, se convertesse numa narração lendária e educativa nos manuais de história para as futuras gerações.
Então ganharam os vermelhos.
Agora os brancos mudaram o argumento e tomaram a desforra: estão a apagar a narração lendária, expulsando os seus heróis da história. As elites por todos os meios tendem a recuperar o papel do dramaturgo, de o usurpar e de se desfazer dos argumentos sobrantes.
6.4. A crise do passado
A crise do passado consiste em que deixa de ter relação pessoal com o membro vivo da sociedade e converte-se num mitologema que não obriga a nada.
A história religiosa em qualquer das suas variantes converte as origens da humanidade em algo espiritualmente próximo e conectado à vida quotidiana dos contemporâneos.
É tão certo para o conceito bíblico de Adão, como para o mito grego. Outra coisa ocorre quando a história converte-se no património dos cientistas liberais.
Graças aos seus esforços, o génesis da estirpe humana separa-se do homem concreto de hoje.
Dentro do contexto da história científica liberal, pode-se falar com o mesmo sucesso do paleolítico que de se há vida em Marte.
O homem perde a relação referencial com o grande passado.
A presença do passado na forma de argumento e conceito caracteriza a consciência monoteísta. A presença do passado na forma de uma interminável fila de antepassados (que, sem embargo, são os teus antepassados!) é a característica da consciência pagã.
A consciência profana do homem atual está desprovida da ideia de que o passado tem um sentido que se refere pessoalmente “a ti” – ao homem em meio da atualidade.
Para a maioria silenciosa naquela parte do mundo, controlada pelos liberais, não há nem o Primeiro Homem (Adão) como o antepassado espiritual dos que vivem atualmente, nem a sucessão dos antepassados que se perde na lonjura e que protegem os altares do lar (o paganismo romano neste aspeto não se diferenciava em nada do chinês).
Para os homens que compõem essa maioria silenciosa, o passado em geral não existe.
Semelhante estado do fundo social lumpenizado satisfaz ao clube liberal.
Porque põe a ênfase no aumento do preço do presente. Mas dentro do contexto do eixo do tempo, este preço também é relativo.
Quanto mais alta é a capitalização do passado, tanto mais problemático é realizar as ambições parasitárias dos liberais.
Os historiadores liberais destroem a história do povo, do país, da pessoa. Põem em dúvida as datas, nomes, acontecimentos, a sua ordem sucessiva e a sua importância.
Sob a aparência do ceticismo irónico, estão a minar o passado e o sagrado – como a base e o sentido.
E o sentido é aquilo que os homens buscam agitadamente nas vésperas dos grandes cataclismos.
Muitas vezes revestem estas buscas de formas inapropriadas, convertem o passado em estampas adocicadas. Algo que para os liberais é ainda mais fácil de destruir, pois não se trata mais do que de quadros bonitos, nos que nem o próprio profano crê até ao final, ainda que com gosto os pendura na parede.
6.5. Entropia da esperança. Renúncia a investir na descendência
A crise do futuro reflete-se em que a esperança como forma de valorar o tempo vital para a maioria dos representantes do fundo social começa a ter cada vez menor perspetiva temporal, reduzindo-se da esperança do futuro para os netos até à esperança no próprio dia de amanhã.
Os liberais de esquerda, ao igual que os seus companheiros de outros sectores da “frente”, também estiveram a parasitar sobre a dinâmica de mobilização do meio social.
Eles elegeram para apelar à maioria silenciosa outra estratégia, mudando bruscamente a ideia religiosa pagã do culto aos antepassados do “ontem” para o “amanhã”, introduzindo o culto das futuras gerações.
Na realidade, tratava-se de uma estratégia a curto prazo, pois os sociopsicólogos demonstraram que o interesse do homem comum pela sua descendência só se mantém até à segunda geração.
A conexão psicológica dos tempos, dirigida ao futuro, perde-se com muito maior facilidade e rapidez do que se se dirige para o passado.
Realmente, a base da investida na descendência tem a sua origem na religiosidade pagã clássica.
O chinês está interessado na descendência, para que lhe reze e alimente com a sua energia, uma vez que se converta em espírito. Uma vez convertido no antepassado morto, o chinês converte-se numa espécie de “interface” da humanidade viva para o Grande Ser.
Os chineses, por exemplo, compravam com o dinheiro real (moedas) o dinheiro especial de papel, que queimavam durante as festas, dedicadas aos mortos, para fazer um presente financeiro aos seus antepassados.
No entanto, os liberais de esquerda, naturalmente, não podiam tolerar o trasfondo religioso no conceito da apelação aos descendentes (embora, por exemplo, durante a revolução russa, fosse evidente) e trabalhavam incansavelmente para a profanação e a banalização da mesma ideia do projeto dirigido ao futuro.
Com Khrushchov, a banalização do tema da investida no futuro alcançou a sua cumeeira.
A maioria silenciosa em todas as partes era recetiva ao discurso socialista das futuras gerações: os emigrantes na América deslocavam-se até lá para realizar um trabalho impossível e viver nuns condições tremendas também pelos seus filhos e os seus netos.
O caso é que, para o lumpen desclassado, excluído do programa mitológico, mais do que os seus descendentes, importa-lhe outra coisa psicologicamente muito mais operativa – a esperança.
Os filhos não são mais do que o eufemismo técnico da esperança, como um prego, sobre o que a poder pendurar materialmente.
A maioria silenciosa foi expulsa de um meio estável, que sempre se reproduz nas mesmas condições. Está desprovida dos valores estamentais e da linguagem estamental.
O primeiro elemento importantíssimo para conservar a conexão com o mundo, o critério de reconhecimento para a maioria silenciosa é o nacional-patriotismo.
Mas se além disso lhe obrigam a abandonar a pátria (como no caso da emigração) ou aceitar o sistema de opiniões internacionalista (como ocorria nas condições do socialismo soviético), como segunda linha de defesa fica a esperança.
A esperança no dia de amanhã, melhor do que o de hoje – é o produto psicoideológico de maior sucesso, que não está utilizado nem pelos tradicionalistas (têm a eternidade), nem pelos liberais (têm o presente), nem pelos radicais (não creias, não temas, não peças).
6.6. A bancarrota do futuro
A crise do conteúdo da civilização mundial consiste em que o conjunto dos homens que vivem agora mesmo já não tem “bolsos” para a pagar: a superestrutura especulativa através do instrumento dos créditos “comeu” o património da humanidade com uma geração pela frente.
À medida que por múltiplos canais se leva o fecho do circuito de todos com todos no processo económico global, desaparece a diferença entre o exterior e o interior no plano existencial e realiza-se a desvalorização do material humano.
O tempo do manager vale milhares de vezes mais do que o tempo do antigo escravo, porque sobre o manager se fecham milhares de pessoas, que asseguram o seu funcionamento, enquanto que o escravo mantinha a sua existência só, e além disso transformava o seu tempo no preço do tempo de outro.
Mas, como figura existencial, o manager comparado com aquele escravo é como uma bolha de sabão ao lado de uma bola de ferro.
Dentro do manager não há conteúdo autenticamente humano.
E, portanto, encontra-se muito afastado de qualquer possível analogia com o macrocosmos arquetípico – o Grande Ser.
Enquanto que o objetivo da metahistória, desde o ponto de vista do clube dos senhores – é a aproximação e a identificação com o Grande Ser, na que, de uma ou outra maneira, têm que participar todos os seres humanos, incluídos neste megaprojeto chamado o fenómeno humano.
Mas, será que se pode comparar a realidade metafísica do interativo das bolhas de sabão, por muitas que sejam e por muito alto preço virtual que se lhes atribua, com uma só bola de ferro, não digamos com uma pirâmide inteira dessas bolas?
As bolhas de sabão são mais móveis e vistosas, mas a humanidade como projeto, apesar do aumento do seu preço coletivo, não se aproxima, mas que se afasta do seu arquétipo.
E, portanto, com o aumento da proteção tecnológica, a sociedade debilita-se muito mais no seu conjunto.
A humanidade converte-se num enorme tronco podre ou, se se quiser, gólem, ao que o seu criador, de um momento a outro, vai tirar o papelito com a inscrição mágica – o seu programa – da boca, após o que este monstro se desintegrará num monte de barro inútil.
A última contradição da história humana resulta ser a inflação metafísica da substância humana: o valor do tempo alienado nos números absolutos pode ser enorme, mas não cobre o valor da conservação da humanidade como coletivo organizado.
6.7. A ânsia do final e o “reino milenário”
A crise coletiva da humanidade consiste em que a sua existência física não tem sentido fora do projeto religioso da saída da história para uma nova realidade com outras leis fundamentais.
Os estudiosos da maçonaria, de vez em quando, encontram a menção dos misteriosos cento e quarenta e quatro mil justos vestidos com roupas brancas, que, segundo a tradição maçónica (e não só esta tradição!), salvar-se-ão da destruição da humanidade e entrarão na seguinte Idade de Ouro. Sobre esta cifra não se pode dizer nada, exceto que é o número sacramental de doze, multiplicado por doze. Mas os “justos vestidos com roupas brancas” é uma ideia mais definida. Sob este termo, escondem-se as elites religiosas superiores (representantes espirituais de todas as confissões no nível mais esotérico), que se sacudirão o pó da velha humanidade dos seus pés, para atravessar a pausa do eclipse do mundo e passar ao seguinte éon. Aí, converter-se-ão na semente da nova humanidade, da nova realidade.
Assim é a versão cíclica das mortes e renascimentos na consciência religiosa pagã. Quando os problemas, criados pela crise interna do “humano, demasiado humano”, impedem a futura existência não somente de uma civilização concreta, mas de todo o género humano, os papas de todas as tradições mundiais decidem a questão de como afogar os problemáticos humanos como molestos cachorros e abrem outro capítulo com as pesadelas ainda por vir, que esperam às gerações ainda não nascidas.
Para que revolver nos arquivos maçónicos? Os filósofos e sociólogos atuais, que não pecam de inclinações ocultistas, reflexionam em voz alta sobre que noventa por cento da humanidade deixou de ser útil e deve ser eliminado. Claro está que os dez por cento que ficam não são os cento e quarenta e quatro mil justos. A julgar pelos factos, Fukuyama e os filósofos-canibais similares só estão iniciados na primeira etapa do plano…
Existem dois mitos sobre o final, dois conceitos da transfiguração. Um deles é o elitista que acabamos de mencionar. É o mito que pertence aos partidários do anticristo, que confiam na sua vitória. Cento e quarenta e quatro mil – é o número dos correligionários de satanás, o exército do reino subterrâneo escondido de Agharta, cujo monarca oculto aos olhos humanos sairá à superfície antes da chegada do caos.
Existe outra versão: o anticristo será derrotado. Derrotado por aqueles que guardam fidelidade ao Deus Único, aqueles para os que a permanente crise do humano não é o signo da sua imperfeição, mas a indicação da atuação de Deus entre os homens.
Não haverá “justos”. Haverá segunda vinda de Messias-Cristo junto com o esperado Mahdi, quem encabeçarão o exército dos crentes dispostos ao sacrifício e destruirão o subterrâneo de Agharta… O Universo inundar-se-á com os torrentes de luz, as águas de Jordão fluirão para trás e, pelos mil anos até ao Juízo Final, a realidade física converter-se-á na flor mais bela do ser – pela primeira e última vez, antes de desaparecer e deixar o passo à Eternidade…
