por Jean Meyer
(2015)
Introdução
Em 1888, podia-se ler no Tserkovnyi Viestnik (O mensageiro eclesiástico) um artigo assinado A. K. e intitulado "Novaia jezuitskaya machinatzia", "Uma nova maquinação jesuíta" (1888-14, col. 277-280). Denunciava Basil Livantsky, pseudônimo com o qual não se disfarçava muito bem o russo católico Mijail Zherebtsov, autor de um livro publicado no mesmo ano, em Friburgo de Brisgau: Protoprosviter Janychev i novyi doctrinalnyi krisis v russkoi tserkvi (O P. Janychev e a nova crise doutrinal na Igreja russa). "A maquinação jesuíta" aparece de maneira recorrente sob penas russas desde finais do século XVI até nossos dias. Em cada uma das grandes crises históricas, o tema do complô tramado pelos jesuítas se manifesta: a embaixada do jesuíta italiano Antonio Possevino, em tempos de Ivan o Terrível;1 a União de Brest em 1596 e o surgimento dos greco-católicos, denunciados como "uniatas"; no Tempo dos Distúrbios com os "falsos Dimitri" e a presença dos poloneses em Moscou até 1613; a existência da Companhia de Jesus no império de Catarina a Grande, Paulo e Alexandre I, quando Roma a havia suprimido; a passagem de russos ortodoxos ao "latinismo", exemplificado pelo príncipe Ivan Serguievich Gagarin, sacerdote e jesuíta; o ativismo de vários jesuítas na Rússia e na URSS, quando a Revolução desperta em Roma a ilusão da próxima catolicização da Ortodoxia (1917-1929); um ativismo semelhante, com menos ilusões, a partir de 1989. Cada uma daquelas etapas da história da Rússia proporcionou elementos para que se perpetue e adquira uma dimensão mítica o tema da conspiração, do complô, da "maquinação jesuíta".
Em 1926 ou 1927, a religiosa russa e greco-católica Catalina Abrikosova, destinada a morrer na prisão de Butyrki (Moscou) em 1936, escrevia: "Será que em Roma se darão conta do espanto e da repulsão que se sente aqui pelos jesuítas? É algo inexplicável, algo como um pânico. Sua vinda à Rússia será sempre considerada como um gigantesco complô católico. É preciso entender a psicologia da atitude russa frente aos jesuítas".2 Em 1907, o católico francês Joseph Wilbois, instalado na Rússia, assinalava: "Nunca esqueçam que se vê o catolicismo romano como a religião polonesa. Acontece que os poloneses estão mais distantes dos russos que os franceses dos alemães, e a estátua de Minin e Pozharski sobre a Praça Vermelha parece defender Moscou contra as tropas inimigas e a fé estrangeira".3 Pelo mesmo motivo, que Roma mande jesuítas poloneses à Rússia lhe parece uma aberração. Dez anos antes, o P. C. Tondini havia explicado que a União perseguida pelos missionários católicos, muitas vezes jesuítas, era "o objeto de aversão e horror" na Rússia.4
Dostoiévski pode nos servir de guia.
O exército negro do papa romano
Em outubro de 1873, no Diário de um escritor, Dostoiévski anuncia que "Roma vai entender que chegou o momento de acabar com os grandes deste mundo [...] o Papa saberá sair ao encontro do povo, a pé e descalço, pobre e nu, com seu exército de vinte mil jesuítas hábeis para cativar as almas".5 Seria a última mutação do imperialismo romano. Para os russos que designam o catolicismo como a "fé polonesa", ser russo é ser ortodoxo; no entanto, na nobreza, ao longo do século XIX, dão-se casos, ilegais por certo, de passagem da Igreja ortodoxa à romana. A presença dos jesuítas até 1820, os "chers coquins" de Catarina a Grande, a chegada de franceses fugindo da Revolução contribuem para o que, se bem não é estatisticamente importante, não se esquece nem se perdoa. Assim, "descarrilada hacia a perversão católica", possivelmente por Joseph De Maistre, "Madame" Sofía Petrovna Svechina tem que sair da Rússia em 1815. Seu salão parisiense pode ser considerado como um dos primeiros focos do unionismo contemporâneo que sonha com a reunião das igrejas; ali seu sobrinho político, o príncipe Ivan Serguievich Gagarin opta pelo catolicismo em 1842. Sua entrada com os jesuítas no ano seguinte causou tremenda indignação na Rússia. Foi ordenado sacerdote em 1848, sob o nome de Jean-Xavier Gagarin. Em 1856, fundou, com seus compatriotas Ivan M. Martynov S. J. e Evguenii Balabin S. J., a revista Etudes, que a Companhia de Jesus segue publicando até hoje; em 1858 criou a "Obra Cirilo e Metódio" para lançar pontes entre ortodoxos e católicos. Ligados a este grupo, o conde Gregorio P. Shuvalov (1804-1859), os jesuítas Stepan S. Dzhunkovskii e Astromov, o P. Leontii Nikolai são outros tantos conversos russos. Vladimir S. Pecherin, que se converte na Bélgica, em 1840, e se torna sacerdote barnabita, explica em sua autoanálise que se abraçou o catolicismo, "uma das múltiplas razões era um medo exagerado da Rússia, mais bem de Nicolau".6
O czar não perdoa ao ex-professor da Universidade de Moscou e castiga sua "perversão católica" com a privação da nacionalidade russa e de todos os seus direitos cívicos. Acontece o mesmo a Gagarin e aos outros "traidores". "Latinizar" é um crime castigado pela lei, da mesma maneira que converter-se ao judaísmo ou ao Islã. Esses homens querem sua pátria, mas não a aceitam como é. Pecherin é o único que pensa de outro modo e chega a dizer em uma de suas poesias: "Que doce é odiar a pátria / e esperar sua pronta destruição".7
Gagarin diz que não foi convertido pelos jesuítas, mas que deve o princípio de sua mudança a Chaadaev. Turgueniev, que o visita no noviciado dos jesuítas, anota: "Ele não tem culpa, a culpa é nossa, isto é minha, e do metropolita Filareto, de Muraviev e da letargia na qual se encontra nossa ortodoxia".8 O exilado Alexander Herzen escreve: "Os protestantes que vão ao catolicismo, a verdade, creio que estão loucos, mas não posso criticar os russos. Os russos podem ir ao catolicismo por desesperança, enquanto não apareça na Rússia a alvorada de uma nova época".9 E também que Gagarin "fugiu para o catolicismo para não asfixiar-se".10
Isso não o podem entender nem admitir Alexei Stepanovich Khomiakov (1804-1860), Yuri Samarin, amigo íntimo de Ivan Gagarin, até a entrada daquele na Igreja romana, o conde Dimitri Tolstoi, autor de Le catholicisme romain en Russie (Paris 1863-1864), e o grande Fiodor Dostoiévski. No princípio da crise oriental que levaria à guerra da Crimeia, publicou-se em Paris a tradução do panfleto de Andrei Iván Muraviev, Questions religieuses d'Orient et d'Occident. Parole de l'orthodoxie catholique au catholicisme romain; o P. Gagarin S.J. lhe respondeu de maneira muito agressiva antes de que, por sua vez, interviesse o eslavófilo Khomiakov: convencido de que a Rússia, por ser ortodoxa, possui tudo o que necessita, queria limpar sua teologia de todo latinismo: "A diferença entre a Igreja e as confissões ocidentais é tal que dificilmente se pode encontrar um ponto de acordo".11 Não tinha palavras suficientemente duras para o cristianismo ocidental, seja católico, seja protestante, afirmando que o catolicismo romano era "a única verdadeira praga da humanidade".12 Há que dizer que pouco antes, por ocasião da guerra da Crimeia, o arcebispo de Paris, monseñor Sibour, havia chamado à "cruzada" contra a Rússia "cismática": "A guerra que a França vai fazer à Rússia não é uma guerra política mas uma guerra santa; não é uma guerra de Estado a Estado, de povo a povo, mas uma guerra de religião". Em 1855, Khomiakov respondeu com A l'occasion d'un manedement de Monseigneur l'archevêque de Paris, ao dito pelo prelado: "A causa sagrada, a causa agradável a Deus, é a necessidade de rejeitar o erro de Fócio, domá-la [fala da Rússia], quebrá-la com uma nova cruzada".13 Depois Khomiakov publicou, no mesmo ano L'Eglise latine et le Protestantismo au point de vue de l'Eglise d'Orient, uma crítica muito dura ao P. Gagarin S.J. e a seus semelhantes que tentavam "fazer passar os papas por uns admiradores apaixonados do culto grego". O jesuíta russo lhe respondeu indiretamente em um livro publicado em março de 1856, na hora da derrota russa na Crimeia, cujo título provocador escandalizou os ortodoxos: La Russie sera-t-elle catholique? Em 1860, Yuri Samarin mandou cinco cartas contra os jesuítas ao P. Iván Martynov S.J.
O starets Ambrosio de Optino, a quem Dostoiévski visitou em várias ocasiões e tomou como modelo para o starets Zósimo de seu romance Os irmãos Karamazov, escreveu:
Depois de perturbar e indignar a quase totalidade do universo, ao perseguir interesses humanos por conduto da Inquisição e as intrigas malignas dos jesuítas, os romanos seguem perturbando e ofendendo os ortodoxos na Turquia com suas missões, que não se preocupam em converter os turcos à fé cristã mas que se empregam em desviar os gregos e os búlgaros ortodoxos de seu caminho reto, por todo tipo de meios e artifícios que não podem ser agradáveis a Deus [...] É razoável pretender a união com estas pessoas? Há que se maravilhar do zelo e da abnegação aparentes dos missionários latinos e das irmãs de caridade? Não são mais que lamentáveis heróis que não buscam converter a Cristo, mas submeter os homens a seu Papa.14
Nem Khomiakov, nem Ambrosio são um fenômeno isolado; não são "um cometa caprichoso no ciclo dos astros da ortodoxia". Tampouco Dostoiévski (1821-1881), a quem podemos considerar como seu aluno. Vinte anos depois da guerra da Crimeia, em 1873, sente que o papa Pio IX segue animado pelo ódio latino de monseñor Sibour contra a ortodoxia:
O tema da conjura católica já o tratei amplamente [...] o quid dos acontecimentos atuais em toda a Europa está na conjura católica. De onde procede esse ânimo belicoso que raia a paixão e leva o catolicismo inclusive a defender a ortodoxa Turquia contra a cismática Rússia? [...] Nem na Inglaterra, nem na Hungria existem hoje inimigos tão acérrimos da Rússia como estes belicosos clericais. Não já algum prelado, mas o próprio Papa falou com alvoroço do triunfo dos turcos e profetizou um porvir pavoroso para a Rússia. Esse ancião moribundo que ainda se chama chefe da cristandade não teve reparo em confessar publicamente que as vitórias dos turcos lhe produzem sempre alegria. Tão tremendo ódio resulta compreensível assim que se reconhece que o catolicismo romano está efetivamente fazendo a guerra.15
Em setembro de 1877, em seu Diário de um escritor, os acontecimentos balcânicos lhe inspiram estas reflexões: a guerra contra a Turquia é pela verdadeira cristandade e a Rússia, como o Cristo das nações, se sacrifica de maneira desinteressada pelos búlgaros, os sérvios e todos os eslavos do Sul:
O caminho começa em Roma, e arranca do Vaticano, onde o ancião moribundo, o chefe dos jesuítas que o rodeiam, faz já muito tempo marcou esse rumo. Ao colocar-se a questão do Oriente, compreenderam os jesuítas imediatamente que havia chegado o momento propício [...] Mas a parte essencial da luta consistirá em que com ela se resolverá o milenar problema católico, vindo a ocupar seu posto, por vontade da providência, o cristianismo oriental.16
Em março de 1876 trata de Roma, do papa e de seus jesuítas em "Forças moribundas e forças nascentes":
E não nos levamos com o catolicismo as mais incríveis surpresas? De repente, quando lhe fez falta, vendeu a Cristo pelos bens terrenos e estabeleceu o dogma de que "o cristianismo não pode subsistir sem o poder temporal do Papa", criando assim um novo Cristo, que já não se parece nada com o antigo e que cedeu à terceira tentação demoníaca, a do poder mundano: "Tudo isto te darei se me adorares!" [...] É a ressurreição da antiga ideia romana do império do mundo, que nunca morrerá no catolicismo romano [...] Dessa sorte se consumou a troca do verdadeiro Cristo por um império profano. E no catolicismo romano se cumpre verdadeiramente.17
Por isso Dostoiévski pode falar do "Cristo russo", ortodoxo, como o verdadeiro Cristo, e considerar que os russos que passam da ortodoxia, da única e verdadeira Igreja, à confissão romana, a do papa e de seus jesuítas, consomem uma monstruosidade imperdoável e deixam de ser russos. Shatov, em Os demônios, recorda a Nikolai Stavroguin que disse: "quem não é russo ortodoxo, não pode ser russo". O czar Nicolau II não havia dito outra coisa.
O príncipe Gagarin e O Idiota
Em junho de 1876, Dostoiévski recorda com tristeza, no Diário de um escritor, que os russos no estrangeiro se distinguem ou por seu liberalismo e sua adesão às esquerdas e extremas esquerdas, ou bem se convertem em uns conservadores europeus autênticos, ao ponto de se converterem ao catolicismo. Os define como "os mais consumados negadores da Rússia [...] destruidores, inimigos da Rússia".
E assim nos encontramos com dois tipos de russo civilizado: o europeu Bielinskii, que ao mesmo tempo que nega a Europa, se credencia de russo em altíssimo grau, e o autêntico nobre russo, príncipe de Gagarin, que depois de se tornar europeu estimou necessário não só converter-se ao catolicismo, mas até meter-se a jesuíta. Qual dos dois é o maior inimigo da Rússia? Qual dos dois se conservou mais russo? [...] não há russo algum que se torne seriamente europeu como conserve ainda que fosse um pingo de russo.18
"O autêntico nobre russo": efetivamente, Iván Gagarin (1814-1882), filho do príncipe Gagarin e de Barbara Pushkin, pertencia a uma das melhores e mais antigas famílias da Rússia, cuja linhagem remontava a Riurik, o fundador da primeira Rus, pelos príncipes de Starodub-Vladimirski. O chefe dos Gagarin (décima sétima geração depois de Riurik) foi o príncipe Mijaíl "a" Gagara... Iván, o futuro jesuíta, era amigo de Piotr Chaadaev, Alexander Pushkin, Dolgorukov, Saltykov, Samarin, Volkonskii, alguns dos melhores espíritos da Rússia; fez uma carreira diplomática na Europa, entre 1833 e 1842 e seu Diário cobre ditos anos, até sua entrada na Igreja católica: dupla traição, à Rússia e à verdadeira Igreja. Em uma carta a Maikov, Dostoiévski afirma que "quem perde seu povo e seu espírito nacional, perde a fé de seus pais e a Deus [...] Toda a missão da Rússia se resume na ortodoxia, na luz que vem do Oriente".19 Por isso lhe perturba tanto o "renegado" Gagarin, que aparece em O Idiota, como Pavlischev. O príncipe Mishkin se horroriza ao saber que seu admirado Pavlischev "abraçou o catolicismo".
Não é aquele Pavlischev quem teve uma história singular?... com um abade... o abade... esqueci seu nome, mas isso fez muito ruído disse o "dignitário", esforçando-se para recordar.
O abade Gouraud, um jesuíta, respondeu Iván Petrovich. Sim, aí estão nossos homens admiráveis e dignos de estima! No entanto, Pavlischev tinha nascimento e fortuna, era camareiro e... teria se mantido no serviço... mas de repente abandona suas funções e todas suas relações para abraçar o catolicismo e fazer-se jesuíta. O fez com entusiasmo e quase com espetáculo. Francamente morreu a tempo... sim, todo o mundo o disse então...
O príncipe não se aguentou mais.
Pavlischev... Pavlischev converteu-se ao catolicismo? Impossível! Gritou em um tom de espanto.
[...] disse o velhinho em um tom importante; além disso essa gente tem uma maneira de pregar que tem tanta... elegância, tanta personalidade... e sabem assustar. Me assustaram, o confesso. Foi em 1832, em Viena; mas não sucumbi, fugi, ha! ha! Palavra de honra, tive que fugir.
Pavlischev era um homem de claro engenho e um verdadeiro cristão -disse de repente o príncipe-. Como podia aceitar uma fé que não tem nada de cristã? O catolicismo -agregou com olhos chispeantes, olhando ao redor como se tratasse de ofuscar a todos ao mesmo tempo- não é mais que uma fé não cristã.
-Bom, isso já é ir longe demais- murmurou o pequeno velho, olhando surpreso a Iván Fyodorovich. Como pode ser o catolicismo uma religião não cristã?
-Em primeiro lugar, é uma religião não cristã- disse o príncipe de novo, com grande agitação e excessiva veemência. Isso em primeiro lugar; em segundo lugar, o catolicismo romano é inclusive pior que o ateísmo... essa é minha opinião! O ateísmo só prega a negação, mas o catolicismo vai mais além; prega um Cristo deforme, um Cristo ao qual caluniou e difamou, o contrário de Cristo! Prega o Anticristo, juro e asseguro que assim o faz!... não é nem sequer uma religião, mas claramente uma continuação do Sacro Império Romano, e tudo nele se subordina a essa ideia, começando pela fé mesma... Não, senhor, não! Não é só uma questão de teologia, o asseguro. Nos afeta muito mais perto do que você supõe... É necessário que nosso Cristo brilhe em oposição às ideias vindas do Ocidente, nosso Cristo, conservado por nós e desconhecido deles. E fazê-lo, sem cair passivamente no laço que nos tendem os jesuítas.20
Em suas Anotações, Dostoiévski escreve que Palischev é Gagarin e que o abade Gouraud é o jesuíta De Ravignan, quem teve um papel importante na decisão do príncipe. Afirma que Gagarin "odeia, não as condições na Rússia, mas ao povo russo". Quanto aos jesuítas... em maio-junho de 1877, Dostoiévski lhes dedica o parágrafo IV em Diário de um escritor, intitulado "O exército negro.-A opinião das legiões como novo elemento de civilização". A propósito do Kulturkampf levado por Bismarck contra a Igreja católica, profetiza que "este exército negro declarará simplesmente a guerra à Alemanha no momento crítico". Imagina os jesuítas manipulando a França contra a Alemanha: "Sabem que de vencer a França, serão os donos de tudo e poderão enquistar-se ali para sempre".
Mas os jesuítas revolucionários não procedem de um modo legal, mas desusado. Este exército negro está fora da Humanidade, fora da civilização e se governa a si só. É um status in statu, é o exército do Papa que só anseia o triunfo de sua ideia... ainda que se afunde todo o demais, se se atravessa em seu caminho; ainda que pereça tudo o que não esteja com ele: cultura, humanidade, ciência! Com certeza aspiram a fundir de novo a França em um molde novo e definitivo [...] para depois lhe dar uma Constituição nova que haja de estar sempre sob a tutela jesuítica.21
Em setembro de 1877, Dostoiévski trata outra vez do Kulturkampf e diz que Roma prepara uma contraofensiva para que Bismarck não reduza o papa de soberano universal a mero patriarca europeu. Como a questão do Oriente se atravessa justo naquele momento (guerra russo-turca a propósito da Bulgária), teme que o papa e seu exército negro se aproveitem da crise: "E ainda que a Europa inteira haja de se afogar em torrentes de sangue... que importa? Em troca, triunfará o Papa... o que para o romano vicário de Cristo é tudo". Outra vez o tema da conjura católica.22 Em outubro do mesmo ano, lhe dedica o capítulo III de sua crônica a "Os clericais romanos na Rússia" e denuncia a "inclinação dos poloneses para os turcos e seu secreto anelo de agravar a situação da Rússia mediante a agitação revolucionária". Considera "chocante" e "odiosa" essa atuação de "certo partido que desde o interior da Rússia" trabalha de acordo com os inimigos da Rússia. "Há não poucos elementos romano-clericais que se ocultam sob distintas roupagens. Hoje já está inteirado e escreve todo o mundo da conjura clerical mundial... a conspiração vaticanista". A notícia da candidatura do cardeal Ledochovski, "que, naturalmente, é polonês", para a sede pontifícia lhe parece confirmar a existência de "a conjura clerical": "depois de eleito papa, só se preocuparia com a existência de sua Polônia".23
Em novembro de 1877, desenvolve a ideia de que os hereges latinos são piores que os pagãos porque Roma "falseia a Cristo". "O catolicismo vendeu a Cristo ao abençoar os jesuítas e aprovar sua máxima de que o fim justifica os meios. Toda a doutrina cristã a empregou exclusivamente na aquisição de bens terrenos e no logro da soberania do mundo".24 Em sua última obra, Os irmãos Karamazov, os jesuítas seguem presentes, ainda quando o Grande Inquisidor da lenda escrita por Iván não é um discípulo de Inácio de Loyola. Tanto o P. Dirscherl S.J. como Fülöp-Miller sublinham que o inquisidor tem todas as características do jesuíta arquetípico de Dostoiévski. Por isso Fülöp-Miller não duvida em dizer que o grande escritor é "o maior inimigo que haja surgido contra a Sociedade de Jesus desde Pascal... porque considerava os jesuítas como os representantes mais importantes do espírito católico, homens que por sua sabedoria mundana, sua hábil dialética e sistema ético foram os primeiros em dar armas espirituais à sede católica de poder".25 Em Os irmãos Karamazov, o autor dá forma ao material acumulado durante os sete anos do Diário, sobre o tema do catolicismo e do jesuitismo. Assim, no romance, Iván Karamazov publica um artigo muito comentado sobre a Igreja e o Estado no qual afirma que Roma deixou de ser uma Igreja, ao se converter em Estado há mil anos: "Não é simplesmente ultramontanismo, é archi ultramontanismo! Mais além dos sonhos do papa Gregório VII!"26 E o padre Paisii de comentar: "Isso é Roma e seus sonhos. Essa é a tentação do terceiro diabo". Esse diálogo, no qual Dostoiévski ordena sua visão da Igreja católica, é, de certa maneira, o prelúdio ao "poema" do Grande Inquisidor.27
Aliosha Karamazov reage com emoção ao que seu irmão faz dizer ao Inquisidor: que os papas tomaram a espada de César para assumir o poder sobre toda a terra: "Isso é aplicável a Roma, e ainda assim, não a toda Roma; [...], os piores católicos são os inquisidores e os jesuítas! [...] Conheces os jesuítas? [...] Eles não são outra coisa que o exército de Roma para o futuro universal império terreno, com um imperador..., o pontífice romano". Iván, ao se despedir de Aliosha menciona o "catolicismo romano com seus exércitos e seus jesuítas", antes de lhe dizer: "Não pensarás tu que eu vou me ir agora lá com os jesuítas para me somar a eles, os que corrigiram as proezas d'Ele!"28 Não faria o que o outro Iván, o príncipe Iván Gagarin. Pôr-se ao serviço do Anticristo.
O Anticristo na cultura russa
Cesare G. DeMichelis demonstrou em 1988 que na tradição cultural russa, desde a visita do jesuíta Antonio Possevino, até os tempos soviéticos, se identifica o Adversário com a imagem do papa e de seu representante e melhor soldado: o jesuíta. Na hora da União de Brest, em fins do século XVI, surge essa versão do papa-Anticristo que retomam, no princípio do século XX, personagens tão diferentes como D. Merejkovskii, A. Lunarcharskii ou N. Bujarin. Em 7 de março de 1930, Nikolai Bujarin publicou na Pravda um artigo: "Finansovii kapital V mantii papy", ou seja "O capital financeiro debaixo do manto do papa". Segundo Stephen Cohen, este alegado histórico bem documentado contra os papas, a Inquisição e os jesuítas, desenvolvia uma sutil analogia entre a obediência absoluta imposta pela Companhia de Jesus e o stalinismo.29 Ou seja, Stalin como "papa-anticristo" e a OGPU como a ordem jesuíta... Alguma vez, alguém havia perguntado a Lenin se, ao fundar o Partido, não se havia inspirado em Inácio de Loyola, e em 1920 Evguenii Zamiatin em sua obra teatral Ogni sviatogo Dominica (Os fogos de Santo Domingo) havia evocado a Cheka sob a forma dos jesuítas.
DeMichelis assinala como, em fevereiro de 1582, quando o P. Possevino S.J. regressava a Moscou, os mercadores ingleses residentes na cidade entregaram ao czar Iván um panfleto protestante sobre o "papa-anticristo". Possevino conta como certos ingleses, "totalmente hereges", haviam sugerido ao czar "maldades sobre o Pontífice Máximo" que teve que refutar durante seu debate público com Ivan o Terrível, no Kremlin.30 Foi a União de Brest (1596), com a agravação consequente do antagonismo entre as Igrejas e as eternas guerras entre Rússia e Polônia, a que popularizou o tema do "papa-anticristo" e o gravou com a equação católico-jesuíta-polaco nas mentalidades, no inconsciente coletivo ortodoxo e russo.31
Com toda razão DeMichelis pode afirmar que "este processo complexo, ao mesmo tempo histórico-político, histórico-militar e religioso-cultural, tem uma importância decisiva na evolução da temática".32 Dita temática não desapareceu de todo em 2014, pelo menos, em certos círculos da Igreja Ortodoxa da Rússia. O grosso livro A ortodoxia e o cristianismo ocidental. Manual para os seminários e escolas conciliares, publicado em 1995 pela Academia Religiosa Moscovita se faz eco da "maquinação jesuíta", latina e romana. A memória ortodoxa, agravada e dolorida, não esqueceu nada, nem o abominável saque de Constantinopla em 1204 pelos cruzados, nem o Falso Dimitri e seus jesuítas poloneses, e se indigna ao ver como os jesuítas poloneses organizam, depois do desaparecimento da URSS, a província russa da Companhia de Jesus.33 A Igreja católica com seus jesuítas, por ser o adversário histórico e mais antigo, cristaliza de forma admirável, todas as angústias e fobias da Igreja Ortodoxa Russa.
A "maquinação jesuíta"
Antes de que aparecesse o mito dos Protocolos dos Sábios de Sião que pretendiam dominar o mundo, depois do mito dos templários e dos rosacruzes, mas antes do mito da conspiração maçônica, nasceu o mito incombustível do complô jesuítico. Desde os primeiros dias, em tempos de seu fundador, a Companhia de Jesus despertou sentimentos ambivalentes de admiração e ódio, reverência e aversão, aos quais se misturaram a malícia e a calúnia. Como botão de amostra está o famoso apócrifo, Monita secreta Societatis Jesu, publicado pela primeira vez em Cracóvia em 1614, por um suposto sacerdote de nome Heronym Zahorowski. Não teve muita difusão no século XVII, mas conheceu ulteriormente grande fortuna: traduzido ao espanhol em 1712, ao francês em 1719 como Instructions secretes, ao inglês em 1723, foi utilizado pelo parlamento francês em sua ofensiva contra os jesuítas na segunda metade do século XVIII, e também pelos enciclopedistas. Publicado na Espanha em 1881, foi reeditado em Oviedo em 2000 com o título ¡Pobres Jesuitas! Monita secreta o instrucciones reservadas al lector.
Por certo, Yuri Samarin, em suas cartas contra os jesuítas, cita as Monita.34 O motivo oficial de sua expulsão da França em 1762 era que constituíam um Estado no Estado e bem poderiam destruir a monarquia. No artigo Jesuítas da Enciclopédia, D'Alembert lhes atribui todos e cada um dos assassinatos e intentos de assassinato de vários reis da França. Nicolas de Bonneville publica em Londres, em 1788, Les Jésuites chassés de la Maçonnerie et leurs poignards brisés par les Maçons; o autor assinala que "hoje, como bem se sabe, há jesuítas na Rússia, Suécia e Dinamarca".
No século XIX coincidem curiosamente denúncias de direita e de esquerda: assim, certos contrarrevolucionários pensavam que a revolução francesa era a obra do complô jesuíta internacional; que os jesuítas queriam destruir os reis e a sociedade para assegurar seu poder. Na casa de frente, Jules Michelet e Edgar Quinet atribuíam, em 1843, a restauração dos Bourbons em 1815 ao complô jesuítico. Esses dois autores pensavam que a Companhia de Jesus havia tendido suas redes sobre o mundo inteiro e que, ao serviço de uma autoridade supranacional, o papado, funcionava como um verdadeiro exército para fazer uma guerra de morte à república e ao progresso. A mesma monarquia de Julho combateu os jesuítas por seu apoio aos legitimistas. Em 1844-1845, Eugenio Sue popularizava o mito daquele complô em seu Le Juif errant.35
A lógica da teoria do complô é que encontra um sentido para a História e, além disso, serve a interesses políticos evidentes de mobilização e radicalização do combate político. Hitler o disse sem rodeios em Mein Kampf: "A arte de sugerir ao povo que os inimigos os mais díspares pertencem à mesma categoria é o feito de um grande chefe".
Quanto a Charles Maurras (1868-1952), o fundador da Action Française, lançou o mito do Complot des Quatre Etats confédérés (protestantes, maçons, judeus e métèques), mito adotado com entusiasmo por todos os que colaboraram com os nazistas, na França ocupada do marechal Pétain.
Hoje em dia, a rede está saturada por textos que mantêm a mitologia negra da Companhia de Jesus. Como botão de amostra, estão os textos do ativíssimo Eric Jon Phelps, autor norte-americano de Vatican Assassins. The Diabolical History of the Society of Jesus, livro enorme publicado por conta do autor em 2001 e outra vez em 2004. Entre os crimes que atribui aos jesuítas se encontra o assassinato do presidente Kennedy. Hoje na rede, afirma que o governo de Washington está controlado por eles:
Vejam como o governo americano utiliza seu poderio militar, político, financeiro para manter o poder temporal do Papa. Não somente no Haiti -Aristide era um peão completo do Papa e da Ordem dos jesuítas-, em todas as partes. A Rússia é outro exemplo [...] Israel também. Rothschild controla os judeus, sua família tem uma aliança com o general dos jesuítas desde 1876. Assim Roma controla o governo israelense. O controla através do Mossad [...] O que não sabem os muçulmanos é que são utilizados pelos jesuítas para reconstruir seu próprio templo em Jerusalém. Lhes gostaria de tê-lo reconstruído para o Papa, para que possa se sentar nele e ser o Anticristo do livro de Daniel, capítulo 9. É o que vejo vir.
Até os encontra detrás do "naufrágio do Titanic, com a criação da White Star Line, JP Morgan e demais". E termina dizendo, como Dostoiévski e certos ortodoxos do século XXI, que os jesuítas são ateus.36 "Estes documentos nos explicam o que se esconde detrás desta dominação mundial dos jesuítas, o porquê de tal maquinação bárbara e oculta por parte dos jesuítas que controlam a Maçonaria e que não reconhecem mais autoridade que o Vaticano e o império de Roma e Jerusalém como governo mundial".
Assim começa um longo texto intitulado L'Ordre des Jésuites. Illuminés! Star Wars pour le Reich. Le Pape qui est soumis à l'Ordre des Jésuites, un Ordre occulte qui siège au Vatican. O leitor descobre, entre outras maravilhas, que Abraham Lincoln foi assassinado pelos jesuítas, e também Malcolm X, quem lutava contra o aliado dos jesuítas, Martín "Lucifer" King... "Desde 1868 eles controlam os Estados Unidos". Conclui com as Monita secreta de 1614.37 Se fecha o círculo.
Na Rússia hoje
O jesuíta Constantin Simon começa seu artigo "How Russians See Us: Jesuit-Russian Relations Then and Now" com a anedota seguinte encontrada em Izvestia de 26 de maio de 1994: o jornalista Alexei Chelnokov se topa com jovens neonazistas moscovitas e os entrevista; para que entenda bem suas atividades, um deles lhe explica: "Não somos um partido político. Mais bem somos uma antiga ordem religiosa jesuíta".38 Tal qual. Precisamente nestes anos, a Igreja Ortodoxa da Rússia se queixava do "proselitismo" realizado pelos "missionários" católicos, em geral, e pelos jesuítas, em particular. A cultura soviética não havia melhorado em nada a ideia que os russos podiam ter dos jesuítas, se um recorre à definição da palavra "jesuíta" oferecida pelo muito oficial dicionário da Academia Soviética de Ciências, Slovar sovremennogo russkogo iazika (Dicionário da língua russa contemporânea): "um membro de uma ordem religiosa católica, uma organização eclesiástica militante, servindo de baluarte ao papa e à reação". O artigo cita Herzen: "os jesuítas, estes sinistros monges-soldados, guardiães da fronteira entre o papismo e a Reforma". As definições, no mesmo dicionário, de "jesuitismo", "jesuítico" e outros derivados não diferem das correspondentes em um dicionário francês ou espanhol: "hipocrisia, duplicidade, astúcia, traiçoeiro". O historiador soviético D.E. Mijnevich, em seu livro Ocherki iz istorii katolicheskoi reaktsii (iyezuity) (Ensaio sobre a história da reação católica-jesuítas), define desde a primeira página a Companhia de Jesus como "o baluarte da mais negra reação, do obscurantismo mais inveterado, da imoralidade mais suja".
Mas para aqueles jovens neonazistas, os jesuítas formavam uma organização secreta e internacional de conspiradores militantes e agressivos, algo como os cavaleiros Templários, ou Teutônicos, monges-soldados para os quais todos os meios eram bons, começando pela violência.
Encontrei em Ogoniok e em Komsomolskaya Pravda, entre 1992 e 1995 predições alarmistas tão logo chegaram notícias que os jesuítas poloneses desembarcavam em Moscou: Eram dois, nada mais! Foi suficiente para que se antecipasse que em breve uma rede de colégios jesuítas ia cobrir a Rússia, oferecendo além de uma escolaridade gratuita, desjejum e comida. Uma jornalista, presumindo haver realizado trabalho de arquivo, anunciou que pela quinta vez na história a Sociedade estava a ponto de conquistar o sistema educativo russo. Em 1994, o bispo de Magadan denunciava a presença de seiscentos jesuítas, repartidos em toda a Federação da Rússia: eram naquele então menos de trinta.
"Pela quinta vez"... Não sei se Svetlana Kirillova começava sua contagem a partir do P. Antonio Possevino S.J., mas a memória amarga do clero ortodoxo tem registrado cada um dos desencontros, para não dizer mais, entre a "latinidade" e a ortodoxia. Não esquece nem perdoa que, no século XX, Roma haja esperado, em palavras de um jesuíta, "a conversão prometida, que tanto anelamos, dessa Rússia à qual Nossa Senhora tomou a seu cargo", segundo o anunciado em Fátima em 1917;39 conversão que com a queda do czar pareceu muito próxima para certos dirigentes católicos, ilusionados com a ideia de que um concordato podia ser negociado com os bolcheviques. Entraram em cena dois jesuítas, o estadunidense Edmund A. Walsh, membro da American Relief Administration e diretor da missão vaticana, missões que combatiam a fome na URSS, em 1922-1923, e o francês Michel d'Herbigny, jesuíta de todas as confianças do papa Pio XI. Especialista das relações entre a Igreja católica e a ortodoxa, o bispo d'Herbigny manifestou uma soberana torpeza, tipicamente europeia e romana, que levou a empresa ao desastre. Subestimou tragicamente, durante vários anos, a hostilidade do regime contra a religião em geral e creu que a ruína da Igreja ortodoxa abria as portas à sua Igreja. Em 1926, havia mandado dois jesuítas para abrir um seminário em Odessa. Depois os bispos que consagrou foram presos e em 1929 compreendeu seu erro. Seus labores deixaram nos ortodoxos a convicção de que Roma havia tentado de maneira maquiavélica tomar o lugar da Igreja ortodoxa, precisamente quando Lenin, depois Stalin a estavam destruindo de diversas maneiras.40
Tudo isto deixou um pesado contencioso com a Igreja ortodoxa da Rússia, que nem o Concílio de Vaticano II, nem a famosa Ostpolitik de Paulo VI lograram liquidar. Depois da segunda guerra mundial a Revista do Patriarcado de Moscou, Pravda, Literaturnaya Gazeta e demais diários e revistas soviéticas seguiram sua dupla linha política e religiosa, denunciando a política do Vaticano como uma "traição permanente dos princípios do cristianismo" e como uma empresa "colonialista". Assim no número de novembro de 1960, a revista do Patriarcado publicou um longo artigo de A.F. Shishkin sobre "O Vaticano e sua luta pela paz, a amizade entre os povos". Segundo Shishkin,
a história da Igreja romana manifesta a inutilidade dos intentos do Vaticano por justificar a atividade não eclesiástica da Cúria romana invocando motivos de ordem religiosa e moral [...] O catolicismo político não põe em prática o ensinamento cristão do amor à paz e ao próximo [...] A atividade política do Vaticano nos últimos cinquenta anos serve a interesses não eclesiásticos.
Mais adiante expunha que essa praga, o catolicismo político, seguia roendo os papas, os cardeais e "o corpo da Igreja católica romana. Se manifesta na primeira e a segunda guerra mundial e em seu apoio à 'guerra fria'". Concluía que "com a bênção do papa João XXIII a imprensa católica não cessa em sua luta sistemática contra os movimentos de libertação dos povos coloniais e a ideia de coexistência pacífica". O "colonialismo" do Vaticano era um dos temas preferidos da propaganda soviética que denunciava as atividades dos "missionários" católicos e em especial dos jesuítas. Literaturnaya Gazeta de janeiro de 1961 diz, a propósito dos jesuítas, que "a rapacidade ganha a Igreja católica. Seus políticos em sotaina se lançam nas aventuras mais arriscadas e desesperadas. Quando o colonialismo vive seus últimos dias, quando nada pode salvar a ordem antiga, brandindo a cruz, eles chamam a seus antigos escravos a obedecer". Não há diferença entre a imprensa ortodoxa e a comunista.
Em 1962, o historiador L. Vyshnevskii escreve em seu livro A União de Florença e o destino histórico da Rússia um parágrafo que se chama "Dos planos antirrussos do Vaticano e de seus fiéis servidores, os Jesuítas".41 O mesmo afirma, em 1973, que "os Jesuítas queriam uma Rússia governada pelo Papa romano e os Jesuítas [...] O sangue de Pushkin, evidentemente, está sobre a sotaina negra do jesuíta Gagarin".42 Em 1985 ainda, a Pravda chamava a intensificar a propaganda ateia e em 24 de novembro de 1986, Mikhail Gorbachev afirmava em Tashkent que havia que lutar com resolução contra a religião. A ortodoxia era o mal menor, frente a um catolicismo que conspirava com os inimigos da URSS. O líder da perestroika mudou depois de parecer, posto que em 1988, por ocasião do milênio do cristianismo eslavo, reconheceu "os erros cometidos no passado pelos dirigentes soviéticos para com a Igreja" e anunciou uma lei sobre a liberdade de consciência. Em 1 de dezembro de 1989, João Paulo II recebeu um Gorbachev que, em 5 de julho em Paris, havia anunciado que havia sido batizado...
Em 1991, Roma procede à reorganização da Igreja católica de rito latino nas repúblicas da Bielorrússia, Rússia e Cazaquistão que alojam comunidades católicas de origem polonesa e alemã. Em 14 de maio, em Fátima, João Paulo II agradece à Virgem "haver guiado os povos do Leste hacia a liberdade". Roma institui a arquidiocese de Minsk e Mogilev e cinco administrações apostólicas, destinadas a se tornar dioceses, entre as quais a de Moscou, algo que não podia ser do agrado da Igreja ortodoxa. Menos ainda se se pensa que se mandou a Moscou ao monseñor Tadeusz Kondrusiewicz, um polonês de 76 anos, nascido na Estônia, ou na Bielorrússia. As novas circunscrições eclesiásticas da Sibéria e Cazaquistão devem, certamente, atender aos católicos poloneses, bálticos, ucranianos, bielorrussos e alemães deportados por Stalin e seus sucessores, sem fazer proselitismo entre os ortodoxos. Mas o patriarca Alexei suspeita e denuncia o "proselitismo", consequência lógica destas "estruturas missionárias paralelas, a ortodoxia foi praticamente eliminada da Ucrânia ocidental".43 Nada para facilitar o diálogo entre as Igrejas, muito para reaquecer o fantasma do complô jesuíta.
A abertura, em 1991, da Academia de teologia católica Tomás de Aquino em Moscou, com várias extensões em toda a Rússia e a presença majoritária de jesuítas contribui para a suspeita; os jesuítas abrem um seminário em São Petersburgo, com os P. P. Bernardo Antonini e Jean-Marie Glorieux, em 1993; desenvolvem centros de ensino em várias cidades da Rússia europeia, e um grupo de jovens jesuítas russos se ativa na Sibéria: desenvolvem contatos com as universidades de Novossibirsk. Nesta cidade cujo bispo católico é um jesuíta, abrem um seminário... Em 1992, a Companhia de Jesus é a primeira ordem religiosa católica a receber a legalização oficial, com tudo e personalidade jurídica. Por mais prudentes que sejam os jesuítas, não podem rejeitar as pessoas que querem entrar na Igreja católica. Não que sejam muito numerosas, mas é suficiente para fundamentar a acusação de "proselitismo" e os velhos reflexos seguem vivos; pouco depois da legalização da Companhia, Literaturnaya Gazeta publicou estes versos: "Desprezando a cultura e a ciência / inspirando o ódio e o medo / os jesuítas esquentam suas mãos / nas fogueiras onde ardem suas presas".44
Por isso os arciprestes Arkadi Shatov, Alexander Shargunov, Valentín Asmus, o monge Kirill (Sajarov) e outros eclesiásticos mandam uma carta ao Patriarca Alexei II, em 1995, alertando sobre a expansão da Igreja católica romana na Ucrânia, Bielorrússia e Sérvia. Dizem que na Rússia a penetração ocorre de maneira mais dissimulada, mas é preocupante a cooperação entre "alguns religiosos e não religiosos e aquelas estruturas que se dedicam a fazer labor proselitista na Rússia". Denunciam a atividade de propaganda escrita e radiofônica dos católicos e, em especial, dos jesuítas.
"Se lhes ouve defender as fatais crenças católicas, fazem apologia dos santos latinos". Contagiaram sacerdotes ortodoxos como aquele que disse em um programa de rádio: "Quanto aos católicos, lhes direi com franqueza que para mim são tão ortodoxos como aqueles que se chamam ortodoxos [...] Se tem a impressão de que o Vaticano formou dentro da Igreja Ortodoxa da Rússia um grupo de religiosos que lhe são fiéis e que servem à causa escandalosa da reunificação [...] A atividade destes sacerdotes representam uma grave ameaça à existência da Igreja ortodoxa. Pedimos a Vossa Santidade tomar medidas contra a penetração do catolicismo jesuíta em nossa Santa Igreja".45
Quanto ao patriarca, suspendeu um tempo, no mesmo ano de 1995, a comunhão com Bartolomeu de Constantinopla, acusado de latinizar e de ser papista. Era a consequência dos esforços do "papa polonês", João Paulo II por se acercar à Ortodoxia. Se dizia que Karol Woytila e Lech Walesa, dois poloneses, como responsáveis pela destruição da URSS, eram os dignos herdeiros do rei da Polônia, Segismundo III e do Falso Dimitri, que no princípio do século XVII se haviam instalado no Kremlin com seus sacerdotes poloneses e jesuítas. Woytila, servente do Vaticano, era um "rei jesuíta", como o Falso Dimitri... e o papa que havia alentado Solidarnosc mandava jesuítas a Moscou!
O principal problema entre Roma e Moscou consiste em que a Igreja ortodoxa, como instituição, não reconhece para os católicos um eventual direito a exercer seu ministério na Rússia, porque é um território canonicamente ortodoxo, e tampouco concede aos russos o direito a "latinizar". Por isso pressionou o governo russo e a Duma, em tempos de Boris Yeltsin, para revisar uma lei de liberdade de consciência considerada como demasiado liberal, quanto aos "romanos" e aos protestantes. Com a chegada à presidência de Vladimir Putin, as pressões deixaram de ser necessárias. Em 9 de setembro de 2000, o presidente aprovou a nova Doutrina de Segurança Informativa da Federação da Rússia. O ponto III assinala como ameaça à segurança e aos "outros interesses da federação da Rússia, a expansão econômica, demográfica e religioso-cultural dos Estados limítrofes". O ponto IV diz que cabe ao Estado proteger a segurança nacional, o que inclui "a defesa da herança cultural, moral, espiritual e das tradições históricas". O ponto VI confia ao Estado "a contraposição à influência negativa das organizações religiosas e dos missionários estrangeiros".46
Exercendo sua função de defensor da ortodoxia, o Estado expulsou da Rússia, em 19 de abril de 2002, a Yierzhy Mazur, bispo católico de Irkutsk na Sibéria. Pouco antes, a Duma havia pedido à Secretaria de Relações "deixar de outorgar vistos aos representantes do Vaticano [...] que violam as liberdades religiosas do povo russo ao praticar seu proselitismo [...] cometem uma agressão espiritual". A moção foi votada por 66 % dos deputados. A maioria das 200 (algumas fontes dizem 300) paróquias católicas não eram realmente novas, mas ressuscitadas, mas o fato de que só 15 % dos sacerdotes fossem russos explica a sensação de "agressão" e "invasão", especialmente quando se trata de poloneses e jesuítas. A eleição de um jesuíta como papa, no princípio de 2013, se presta a soberbos delírios sobre a eterna atualidade da "maquinação jesuíta".
Em conclusão, a realidade histórica dos "reis jesuítas" e poloneses, na Rússia durante o Tempo dos Distúrbios, engendrou o mito incombustível do complô jesuíta contra a Rússia e sua Ortodoxia: perdura até a data. Bem disse Sigmund Freud que a razão não pode nada contra as psicoses coletivas. Estamos em presença de uma reivindicação polêmica de uma memória dolorosa que não termina. Portanto, é inseparável da teoria explicativa da "maquinação"; não nos fala de história, mas de mitos ligados à identidade. Hoje em dia, a identidade nacional russa, pelo menos, a que buscam juntos o Estado e a Igreja ortodoxa, segue frágil. Explicam essa fragilidade pela ameaça jesuíta que busca desde sempre a "conversão a Roma". A análise da teoria do complô manifesta que a questão de fundo é a relação entre o Estado, a sociedade e a nação.
