por Jean Meyer
(2015)
Introdução
Em 1888, podia-se ler no Tserkovnyi Viestnik (O mensageiro eclesiástico) um artigo assinado A. K. e intitulado "Novaia jezuitskaya machinatzia", "Uma nova maquinação jesuíta" (1888-14, col. 277-280). Denunciava Basil Livantsky, pseudônimo com o qual não se disfarçava muito bem o russo católico Mijail Zherebtsov, autor de um livro publicado no mesmo ano, em Friburgo de Brisgau: Protoprosviter Janychev i novyi doctrinalnyi krisis v russkoi tserkvi (O P. Janychev e a nova crise doutrinal na Igreja russa). "A maquinação jesuíta" aparece de maneira recorrente sob penas russas desde finais do século XVI até nossos dias. Em cada uma das grandes crises históricas, o tema do complô tramado pelos jesuítas se manifesta: a embaixada do jesuíta italiano Antonio Possevino, em tempos de Ivan o Terrível;1 a União de Brest em 1596 e o surgimento dos greco-católicos, denunciados como "uniatas"; no Tempo dos Distúrbios com os "falsos Dimitri" e a presença dos poloneses em Moscou até 1613; a existência da Companhia de Jesus no império de Catarina a Grande, Paulo e Alexandre I, quando Roma a havia suprimido; a passagem de russos ortodoxos ao "latinismo", exemplificado pelo príncipe Ivan Serguievich Gagarin, sacerdote e jesuíta; o ativismo de vários jesuítas na Rússia e na URSS, quando a Revolução desperta em Roma a ilusão da próxima catolicização da Ortodoxia (1917-1929); um ativismo semelhante, com menos ilusões, a partir de 1989. Cada uma daquelas etapas da história da Rússia proporcionou elementos para que se perpetue e adquira uma dimensão mítica o tema da conspiração, do complô, da "maquinação jesuíta".
