08/08/2026

Geydar Dzhemal - O Neoleninismo como Doutrina Revolucionária do Século XXI

 por Geydar Dzhemal

(2003)


O espaço político da Rússia pós-soviética foi limpo com zelo de qualquer resquício de ideologia. Sistemas e métodos de análise foram substituídos pelas "tecnologias políticas", construídas sobre técnicas bastante primitivas de intriga psicológica e informativa. Como resultado, o cidadão russo médio minimamente cultivado encontra-se preso entre clichês muito pobres quanto à explicação do que aconteceu com seu país, com o mundo e com ele mesmo.

Deformada pelo mesmo clichê ideológico, aparece na cultura política de hoje a figura de Vladimir Lênin.

Este cidadão médio está convencido de que em 1991 a Rússia rompeu com o que monotonamente se costumava chamar de "herança leninista". E que agora as reformas empreendidas devolvem a Rússia ao processo liberal global, após décadas de "obscurantismo bolchevique".

Assim, apenas resta tirar o corpo de Lênin do Mausoléu e pôr um ponto final.

Ou seja, para a consciência social não há diferença entre o leninismo e a história soviética como fenômeno: o fim de um supõe o fim do outro.

Esta visão é mais uma consequência da derrota histórica do marxismo. Indubitavelmente, todo o espectro das forças contestatórias de hoje sofre, de forma distinta, o trauma produzido pelo desmoronamento da linguagem ideológica e do método de análise social que até algumas décadas atrás era dominante e universal.

Pequenas seitas contestatórias que aqui e ali ainda se apegam ao marxismo dificilmente podem enganar alguém. A bancarrota do marxismo evidencia-se pelo quão permitido e legitimado ele está. Para as classes dominantes, o marxismo já não representa nenhum perigo porque ele é incapaz de pôr em evidência seus segredos políticos, o mecanismo de seu poder econômico e político no início do século XXI.

A habitual combinação "marxismo-leninismo" converteu a primeira parte do slogan em uma espécie de bola de chumbo que arrasta para o fundo a segunda parte que o compõe. E, no entanto, a derrota estratégica do marxismo não afeta a herança de Lênin. O leninismo, na realidade, apenas sofreu um revés tático. Não foi nos tempos de Gorbachev e de Iéltsin, mas ocorreu sessenta anos atrás, no decisivo quinquênio 1928-1933. O fracasso tático teve lugar dentro da própria URSS – momento marcado pela expulsão de Trótski – assim como no plano internacional, com o fracasso definitivo da perspectiva da revolução mundial. Na Europa, a revolução ainda era possível até a chegada ao poder dos nacional-socialistas. Na França, a situação revolucionária durou um pouco mais – em 1936 o país foi sacudido por uma inusitada onda de protestos operários antigovernamentais, mas Stálin encarregou-se de frustrar esta última oportunidade. A partir do ano 1934, depois do congresso dos "vencedores", o assassinato de Kirov e os famosos montagens judiciais contra a "guarda de Lênin", o leninismo na URSS foi deslocado para a parte virtual da consciência popular, como uma ânsia quase religiosa da verdade. Na vida real, triunfou a burocracia, organizada na forma do partido, mas completamente lumpen por sua essência. Essa mesma burocracia levou a cabo o "golpe" de 1991, que não foi político, mas puramente econômico. A atual ditadura da burocracia corrompida e da oligarquia criminal não é mais do que a continuação, final e agônica do stalinismo, quando os netos – herdeiros dos "vencedores stalinistas" – continuam engordando sobre o cadáver do socialismo. Mas o fato de que o leninismo tenha sido deslocado para a ânsia coletiva das massas exploradas predetermina sua sobrevivência nos tempos pós-soviéticos. Até hoje, pelo menos dois terços da população constituem a base passiva do potencial renascimento da vontade política de tipo leninista.

A mentalidade oitocentista do marxismo tornou sua derrota inevitável. Derrota acompanhada do carnaval contrarrevolucionário – restaurador nos antigos países do Leste. O marxismo baseia-se na imagem dogmática das classes econômico-sociais, nitidamente separadas. Não apenas quanto à relação com os meios de produção e o método de distribuição da mais-valia, mas, e o que é mais importante, quanto à "superestrutura" na forma da consciência de classe, moral e objetivos históricos. Fora do contexto do discurso do papel progressista da burguesia que abre o caminho para a humanidade e da missão liberadora do proletariado, o marxismo perde seu pathos principal e, portanto, perde todo sentido. A consciência marxista, além disso, peca pelo tique próprio da época de sua aparição, que foi o "cientificismo" – culto da ciência que leva ao beco sem saída da antirreligiosidade e ao dogmatismo inaceitável para descrever a sempre viva realidade humana. A falta de consistência do marxismo está em que sua essência é metafísica e historiosófica, mas se camufla sob as vestes do determinismo materialista. Como resultado e do ponto de vista da metodologia, os predecessores filosóficos de Marx – em primeiro lugar Hegel – hoje soam como muito mais atuais!

O leninismo costuma ser considerado como a interpretação russa do marxismo. Certamente, Lênin tem a ver com o psicologismo, a passionariedade existencial e, ao mesmo tempo, um pragmatismo quase cínico. Todos eles são traços característicos do pensamento contestatório russo. No entanto, as raízes metodológicas de Lênin, enquanto intelectual político, mergulham no blanquismo. Auguste Blanqui foi um autêntico gênio do inconformismo revolucionário, incompreendido em seu tempo. Depois de passar por incríveis sofrimentos, prisões e doenças, Blanqui descobriu a suprema verdade sobre a necessidade de criar o partido dos revolucionários profissionais. Na última etapa de sua vida, já mais perto da Comuna de Paris, Blanqui aperfeiçoa sua teoria definitivamente. O partido revolucionário tem que encabeçar as massas sublevadas no momento histórico escolhido com a máxima exatidão. A essência do blanquismo não consiste na conspiração de solitários apaixonados, como pensam alguns, mas o revolucionário é para ele o sal da terra, sem o qual não existiria nem história, nem tampouco a humanidade. Lênin elevou o blanquismo à sua máxima altura. Lênin transfere o acento do proletariado como classe com missão liberadora, para os revolucionários como casta específica, como determinado tipo espiritual de ser humano, independentemente das classes ou grupos sociais que possa utilizar como instrumentos para sua causa – a revolução. Lênin queria proporcionar ao revolucionário a independência com respeito às condições econômico-sociais concretas de cada momento. O revolucionário deve possuir um método analítico que permita descobrir até suas últimas raízes a natureza e a anatomia de cada inimigo concreto. Este método consiste em "arrancar todas as máscaras até a última". Muito poucos entenderam em seu momento que esta aguda frase de Lênin supunha uma revolução dentro da própria revolução: que permitia desfazer-se do pesado lastro que pesava sobre o marxismo dogmático. O "arrancar as máscaras" de Lênin supõe, utilizando a linguagem da psicanálise, desmascarar o "Superego" coletivo de cada sociedade concreta. Em outras palavras, o método intelectual do leninismo é o corte de lâmina que põe a descoberto a anatomia da autoridade espiritual que mantém submetida a psique e a consciência das pessoas, que põe em evidência seu falso carisma e que destrói sua hipnose moral. É uma nova etapa de niilismo metafísico, dirigido contra aquilo que, do ponto de vista da verdade suprema, tem que ser destruído por completo. Ante o entrecerrar dos olhos de Lênin, os reis não apenas aparecem nus, mas desde o princípio não têm a possibilidade de "vestir-se".

O marxismo, que nasce do antropocentrismo de Hegel e Feuerbach com seu transfundo moralista burguês e protestante e, apesar de seu presumido radicalismo, acabou sendo o que era na realidade desde o princípio: um humanismo filisteu, cuja limitação ficou a descoberto na parte final do "Manifesto Comunista". O máximo que nos pode oferecer a ontologia do marxismo é a liberação do potencial criativo dos indivíduos dentro da sociedade entendida como livre associação de seres humanos. Em última instância, não é mais do que "o ser para o ser" ou "viver para viver", no qual dezoito séculos antes de Marx se esgotou o impulso do paganismo clássico. Para Lênin, por sua vez, o que existe é mentira e a única verdade é a revolução contra a mentira.

Assim é como o revolucionário se converte no operário sagrado, que transforma o potencial mítico do titã e do herói na realidade social. Fazer a revolução contra algo desde o princípio falso mobiliza todas as reservas do ser humano e lhe permite triunfar sobre a entropia. O revolucionário de Lênin é o demiurgo que trabalha com a matéria-prima – o proletariado consciente, plenamente formado (melhor se for na segunda ou terceira geração). De alguma maneira, a figura de Lênin converte-se em uma espécie de lente de aumento espiritual, em cujo foco arde o raio de toda a cultura e história russa, raio que queima a "chumbada asquerosidade" da vida em qualquer época. Lênin apoia-se na trágica experiência pessoal de seu imediato predecessor Bakunin, oponente de Marx exatamente nas mesmas questões espinhosas nas quais o marxismo e o leninismo se separam. Atrás de Lênin, assoma a figura de outro inconformista russo incompreendido. Figura de proporções e força titânicas – Nechayev, a quem Dostoiévski plasma como Verkhovenski, em seu romance "Os Demônios". O genial escritor russo trabalhava em seu romance aproximadamente pelas mesmas datas em que nascia Volodia Uliánov. Dostoiévski coloca a seu personagem não como organizador do "povo", mas como organizador de Stavróguin – "Principezinho Ivan" vermelho dos contos russos. Stavróguin, por sua vez, organiza toda uma plêiade de "rapazes russos": Kirillov, Chatov e outros.

Lênin exposto no mausoléu converte-se no fato religioso da história russa, por muito desagradados que estejam os conservadores, tradicionalistas e contrarrevolucionários russos, nostálgicos da Rússia que perderam. A bancarrota do regime soviético não fez mais do que desimpedir o campo para a nova batalha – a farsa que vive a sociedade atual russa aumentou mil vezes desde a execução de Alexander Uliánov (irmão maior de Lênin, executado como terrorista – N. do T.). A humanidade está partida entre dois polos absolutos – Riqueza e Pobreza. Já não restam classes, o lumpen desmoralizado ou lê com inveja a crônica sobre a vida dos oligarcas ou se joga sob o trem em marcha, incapaz de suportar a obtusa desesperança sem nenhuma perspectiva de futuro. Com semelhante sociedade "sem classes" não sonhava Marx. Semelhante "desclassidade" levou a uma tirania muito maior que a antiga pirâmide social. Contra esta tirania amanhã, igual que há cem e que há mil anos, só pode lutar e o fará a mesma casta – a casta dos apaixonados, daqueles que possuem a arte de arrancar "todas as máscaras até a última".