21/08/2026

Geydar Dzhemal - Terror e Revolução

 por Geydar Dzhemal

(2004)


No mundo, foi iniciado o processo de globalização. O seu caráter é mais político-administrativo do que econômico. E é levado a cabo a um ritmo cada vez mais acelerado, acima das soberanias nacionais, interesses regionais e problemas humanitários. Os acontecimentos de 11 de Setembro e a subsequente reação dos EUA confirmaram a opinião generalizada de que o instrumento da globalização é a guerra mundial. A experiência demonstra-nos que as duas guerras mundiais ocorridas no século XX foram etapas necessárias para a integração política do mundo sob a direção de um reduzido grupo de potências ocidentais. Hoje somos testemunhas de como, sobre a onda da histeria anti-islâmica, ressurgiu a nova Entente (e novamente com a participação da Rússia), cuja missão consiste em concluir a globalização à força e em tempo recorde. Está claro que as classes dirigentes das potências imperialistas, para se consolidarem, apesar das suas diferenças, e em prol do objetivo comum, também precisam de ter uma plataforma ideológica comum. Esta função de ponto comum é desempenhada pelo chamado "terrorismo internacional" – um fenômeno de origem mais do que suspeita. Vemos como explodem residências em bairros populares, como aviões caem sobre os arranha-céus cheios de escritórios, como sobre os inocentes cidadãos espalham o pó contaminado com o antraz, e ondas de pânico percorrem a maré humana, espalhando-se por todo o planeta. Quem o faz e porquê? Que fins propõem esses "terroristas internacionais"? Psicólogos, politólogos contestam em uníssono: o objetivo dos terroristas é semear o medo, mas não nos dizem: medo de quem e para quê? Se os organizadores dos atentados gastam enormes recursos, sacrificam as suas próprias vidas – então este medo tem de ter alguma finalidade? Até agora, as consequências daquelas ações destrutivas foram aproveitadas em benefício dos regimes que reforçaram o controle policial sobre os cidadãos, restringiram as liberdades, colocaram sob controlo os meios de comunicação, levaram a cabo mudanças políticas, golpes de Estado inclusive, baseando-se apenas no choque e no pânico das massas e no cassetete ideológico chamado "terrorismo internacional". Se tudo isso é levado a cabo por terroristas islâmicos, então teríamos de reconhecer que não são mais do que uma subseção dos serviços secretos do Ocidente e que realizam um trabalho suicida com o fim de reforçar o domínio ocidental sobre o mundo inteiro, incluindo aquela parte do globo ocupada pelo Islã.

Não obstante, qualquer politólogo sabe que existem dois tipos de terror. O primeiro é utilizado pelos poderosos contra a população e o segundo é utilizado contra o poder pelo ramo mais radical da oposição. Ambos os tipos de terror nunca se misturam nem copiam os seus métodos. O terror dirigido contra os poderosos tem sempre um destinatário concreto, com nome e sobrenome. É uma espécie de diálogo que os revolucionários entabulam com o poder. Para os revolucionários, não faz sentido matar pessoas aleatórias, transeuntes, simples cidadãos. Uma ação semelhante não tem sentido, desperta entre a população a animosidade e o ódio pela oposição, trabalhando para reforçar o regime. No seu tempo, o conhecido agente-provocador Azef, que trabalhava para a Okhrana czarista (Polícia Secreta), propôs ao Comitê Central do Partido Socialista Revolucionário voar uma das entradas do Palácio de Inverno. A sua oferta foi recebida com estranheza e rejeitada. "Morrerão pessoas alheias, transeuntes, porteiros, bedéis". Está claro que aquela sugestão provinha da polícia secreta czarista e tinha como objetivo desacreditar os socialistas revolucionários entre o povo.

Terroristas islâmicos existem. Foram eles que mataram o presidente Sadat, tentaram matar o seu sucessor Mubarak, liquidaram há pouco o ministro israelita do trabalho, conhecido pelas suas opiniões racistas. Cada um destes assassínios estava motivado. Cada um é um golpe afiado contra o poder. Esta tradição da luta terrorista contra os poderosos deste mundo mergulha as suas raízes nos tempos bíblicos, na luta que os seguidores do monoteísmo – os únicos que naquela noite da história encarnavam o protesto social – levavam a cabo contra a violência e a tirania que os rodeava. Este terror concreto, que tinha um claro destinatário, era a linguagem com que Jerusalém respondia à agressão por parte de Roma pagã e imperial. O mesmo modelo segue o terror político de hoje.

Existe outro terror: o que assusta a população, anula a capacidade da sociedade para a análise e a resistência, obriga os particulares a aceitar a arbitrariedade policial apresentada como medidas de segurança. Numa escala mais ampla, este mesmo terror é aplicado pelas potências imperialistas contra os povos e regimes indesejáveis: bombardeamentos de saturação, operações pontuais, operações terrestres, bloqueio econômico, isolamento diplomático – métodos para anular a vontade política e pôr de joelhos a parte opositora da humanidade. Antes chamava-se a política dos couraçados e agora a política dos "tomahawk".

Nos nossos dias, perante a falta de um método sério de análise da realidade, os politólogos utilizam banais clichês do choque de civilizações e demais imaginária emocional e anticientífica. Pecam ainda por hipocrisia especificamente burguesa, quando falam do "vegetarianismo" do Ocidente e das suas "joias caras", tais como as liberdades, os direitos humanos, etc. Ao longo da vida de uma só geração, o Ocidente "vegetariano" organizou duas guerras mundiais e cerca de duas dezenas de guerras regionais, que levaram consigo a vida de mais de 100 milhões de pessoas. Este mesmo Ocidente criou os meios mais refinados de pressão sobre o fator humano: desde os campos de concentração até à guerra informativa, que utiliza métodos sem precedentes para destruir as culturas originais e quebrar a confiança dos povos nas suas próprias tradições originais. Se falarmos concretamente das relações do Ocidente com o Islão, todo o século XX é uma contínua agressão contra o mundo islâmico. Aqui poderíamos incluir a guerra anglo-afegã de 1919, a luta contra o chamado movimento "basmachi" na Ásia Central, a guerra colonial francesa contra os movimentos de libertação em Marrocos, Tunísia e Argélia, a guerra da Itália contra a Líbia nos anos 30, a agressão britânica contra o Iraque e os países do Golfo nos anos 30-40, a invasão anglo-soviética do Irão em 1941, as guerras coloniais da Grã-Bretanha, França, Holanda nos anos 50-60 contra o Iémen, Argélia, Indonésia, Malásia, as guerras israelitas contra os árabes, a invasão soviética do Afeganistão, os bombardeamentos norte-americanos do Iraque, Sudão, Somália, e por último uma nova agressão dos EUA contra o Afeganistão já nos nossos dias. Só depois de 1945, o Ocidente exterminou em guerras locais mais de 10 milhões de pacíficos civis de religião muçulmana. Falar depois de tudo isto do "terrorismo islamista" e da "selvageria wahhabita" representa o cúmulo do cinismo. O que na realidade ocorre é o confronto social à escala planetária entre as elites corruptas e sem princípios e as classes exploradas, confronto que dura desde os tempos dos faraós e dos césares até aos nossos dias, para alcançar hoje a agudeza de uma crise escatológica.