por Julius Evola
(1954)
Data de 1927 uma obra que deveria ter marcado uma revolução no campo dos estudos dantescos, mas que, após algumas discussões num âmbito restrito, hoje parece ter deixado mais ou menos as coisas no ponto em que estavam: sinal, este, da obtusa força de inércia própria aos hábitos e aos cânones de certa crítica oficial firmemente instalada nos postos de comando da cultura e do ensino italiano. A obra a que aludimos tinha por título: Il linguaggio segreto di Dante e dei Fedeli d’Amore e autor era Luigi Valli, nobre figura de pensador, de erudito e de homem político (foi também um dos primeiros expoentes militantes do nacionalismo), que viria a morrer não muitos anos após a saída daquele livro quase na linha de combate: no decurso de uma das suas numerosíssimas e apreciadas conferências destinadas a defender e a elucidar as suas teses. Estas dizem respeito a uma dimensão secreta e ignorada não só de Dante, mas também da literatura que se costuma designar como a dos «Fiéis do Amor» e que tem estreitas relações com o «doce estilo novo». A dizer verdade, as teses de Valli não eram novas e inusitadas senão com referência à Itália, e ao plano de rigorosa crítica em que vinham agora formuladas.
Pelo contrário, em ambientes muito fechados e não literários ou acadêmicos já se sabia há tempo deste conteúdo recôndito da literatura em questão, e no entanto também de outra face de Dante e de muitos «Fiéis do Amor». Com tais ambientes deve ter tido certamente contacto Gabriele Rossetti que, no século passado, em Londres, publicou obras de valor desigual sobre a mesma linha interpretativa: obras, que foram silenciadas e depois desapareceram. Deve-se ainda mencionar Aroux que tinha aceite as mesmas teses, porém para fins de uma acrimoniosa polêmica guelfa. Finalmente, em Itália, Perez já tinha começado a penetrar o significado verdadeiro da Beatriz dantesca, e em alguns aspectos a crítica de Pascoli tinha preparado a investigação crítica de Valli.
Em substância, eis do que se trata. Numa grandíssima parte da literatura aludida – com a Vita Nova em primeira linha – tudo quanto tem referência com a mulher e com o amor é apenas cobertura, máscara. Não se «cantavam» uma mulher e um amor reais, a linguagem erótica era um jargão convencionado, cifrado, entendido para exprimir totalmente outras coisas. E os autores daquelas poesias não eram simples poetas e cantores de um amor sob tantos aspetos maneirista, absurdo e inverosímil, mas sim os possuidores de uma doutrina secreta e os membros de organizações igualmente secretas, em larga medida, gibelinas e adversas à Igreja, conexas verossimilmente com os Templários e com correntes provençais de colorido mais ou menos «herético».
Todas as mulheres cantadas, desejadas e exaltadas por aqueles poetas, qualquer que fosse o seu nome, malgrado a eventual referência enganadora a alguma mulher real, teriam sido uma única mulher, a qual era apenas um símbolo para a «Santa Sabedoria»: na qual, por sua vez – e isto é o essencial – não se deveria ver uma abstração teológica ou filosófica personificada, mas sim um fato místico de iluminação transcendente, apto a transformar o ser e a introduzi-lo à compreensão de superiores verdades, que na religião dominante se considerava terem caído no esquecimento, terem sido deformadas ou sufocadas por preocupações políticas, militantes e temporais. Esta era, por assim dizer, a alma secreta da atitude decididamente, muitas vezes violentamente gibelina própria a Dante e a todos os principais «Fiéis do Amor».
Voltando a Valli, ele corroborou tal tese com um trabalho minuciosíssimo, cerradamente documentado, indutivo ou dedutivo ao mesmo tempo: assumindo-a como «hipótese de trabalho» ele mostrou que só com referência a ela uma quantidade de passos e de expressões que na literatura em questão aparecem absurdos e ininteligíveis adquirem um sentido claro e preciso, quanto insuspeito. Que, no entusiasmo da sua descoberta, Valli em vários pontos tenha ido além da conta, e que pela falta de bases doutrinais precisas ele nem sempre tenha podido pôr em claro aquilo de que efetivamente se tratava, é explicável e desculpável, mas se o ambiente da cultura italiana tivesse sido menos surdo, aquela sua obra deveria ter dado início a uma época nova da crítica dantesca e dos «Fiéis do Amor». O que não aconteceu. Tanto quanto nos consta, apenas A. Ricolfi retomou, reviu e integrou as teses de Valli estendendo-as à literatura provençal. Mas também os seus preciosos e documentados ensaios ficaram sem eco: a crítica oficial continuou a sua rotina, como se nada tivesse acontecido. Aliás, como surpreender-se, se os expoentes dela não têm um longínquo suspeito da ordem de ideias de que se trata?
Deve ser assinalado, no entanto, um caso curioso, a que aliás aludimos já nestas colunas falando de uma obra de Guénon sobre o Esoterismo de Dante. Como se referiu, uma assaz pouco «ortodoxa» tese de Valli é que Dante era um templário e que colorido templário tinham não poucas das suas concepções para além da indicada «cobertura» literária e amorosa. Ora, chegou-nos às mãos um livro de um religioso cisterciense, A. John, saído em Viena em 1947. Intitula-se Dante e nele a tese de Dante templário é afirmada mesmo além da conta. Esta obra, preciosa sob mais de um aspecto, traz um regular imprimatur eclesiástico.
