por Geydar Dzhemal
(2004)
Para falar da essência religiosa da revolução, não seria demais recordar o conhecido conto das Mil e Uma Noites, em que um pescador tira do oceano com sua rede um cântaro selado com o selo de Salomão. Quando quebra o selo, do cântaro sai um gigantesco e horrendo gênio (ifrit), que diz ter estado encerrado dentro durante três mil anos. O gênio conta ao pescador que durante os primeiros mil anos de encarceramento pensava dar a quem o libertasse todo o ouro do mundo, durante os segundos mil anos pensava cumprir todos os desejos de quem o libertasse e durante os últimos mil anos – matá-lo. Os iniciados costumam interpretar a história com o gênio como uma parábola da influência que a tradição de Abraão exerce sobre a história e o destino da humanidade. Devemos pensar que o gênio (ifrit) representa na tradição islâmica a força ctônica destrutiva, energia de ordem inferior. Está preso no cântaro de barro – substância da qual foi criado o primeiro homem. Para entender a história do ponto de vista do monoteísmo é muito importante compreender que a energia destrutiva de colossal potência está encerrada dentro da matéria úmida e inerte.
Nós – a “humanidade de barro” contemos uma enorme energia que a “elite mundial” nos extrai através das camadas sutis da pirâmide social, sob um severo e implacável controle. Esta energia é necessária para assegurar a continuidade do “ser humano coletivo” no tempo. O “homem coletivo” sobrevive imerso no tormentoso oceano da entropia cósmica. Sua própria posição central na estrutura do cosmos é um desafio das leis físicas. A sobrevivência biológico-social da humanidade, seu dia a dia exige gigantescos gastos de energia. Dentro do processo histórico “normal” os gastos energéticos são mais paulatinos e dosados. Tradicionalmente a sociedade se constrói seguindo o esquema piramidal. O cume encerra a energia que borbulha embaixo em sua base. De vez em quando a “tampa”, o cume da pirâmide salta e o gênio se libera do barro – da substância. A pergunta é – que força libera o gênio, esse agente provocador alquímico, que quando se une à humanidade a transforma em uma bomba nuclear?
Com toda segurança podemos afirmar que antes da aparição de Abraão, há quatro mil e quinhentos anos, a história não havia conhecido as revoluções no sentido atual do termo. Nos diz isso a história do profeta Noé. A Bíblia e o Alcorão nos contam que durante um longo lapso de tempo Noé pregou entre seus compatriotas, mas fracassou em sua missão e, seguindo a ordem de Deus abandonou a terra, arrasada pelo dilúvio. Esta história nos ilustra acerca dos resultados da luta do espírito contra a matéria nos tempos anteriores a Abraão. Com Abraão a coisa muda – ele já tem claramente gravado na consciência que a estrutura piramidal da sociedade sempre e inevitavelmente está coroada pela figura do tirano. Fica claro que a sociedade em seu estado “natural” está baseada na mentira. Antes dele apenas uns poucos humanos excepcionais tinham a consciência nítida desta verdade.
Com a chegada de Abraão a ação daqueles chamados “enviados de Deus” cobra outro significado histórico. Aparece o sentido da história que nasce do enfrentamento de dois princípios irreconciliáveis, de duas forças – uma branca e outra negra.
Antes de Abraão o enorme potencial da energia antientrópica contido no “barro úmido” se liberava muito lenta e paulatinamente, mas com o aparecimento na cena histórica dos profetas – enviados de Deus, chega aquele princípio que faz com que o processo se dispare. Começa a aceleração que libera a energia em jatos. Esta aceleração tem a ver diretamente com o conteúdo profundo, místico e “energético” da revolução. O monoteísmo o converte em um fenômeno social. A essência espiritual do homem, seu eixo íntimo, aquilo que faz que ele seja um sujeito, entra em conflito com a estrutura mesma da realidade, com os princípios básicos da ontologia. Princípios que compõem o ser, que determinam a lógica do universo. Contra esta lógica se rebela o “sussurro secreto do Espírito Santo”. Deste sussurro nos falam os místicos e gnósticos cristãos e muçulmanos. No Alcorão, na surata “Noite do Decreto”, se diz: “A noite do Decreto é melhor que mil meses, para ela descem os anjos e o Espírito para cumprir todos os mandamentos.”
A revolução é a ação do Espírito Santo, é um mistério religioso que teria sido impossível fora do marco religioso do monoteísmo. A intervenção do Espírito Santo na História é a principal causa e a força motriz da revolução. No terreno teológico o Espírito Santo é o patrimônio exclusivo do monoteísmo, distinto ao “pneuma” dos platônicos precisamente porque constitui o contraponto a tudo o existente.
Os homens de agora não compreendem algo que ainda no século XIX era evidente: a revolução tem a ver diretamente com a religião, revolução é um mistério religioso, impossível fora do marco religioso do monoteísmo. Possivelmente a perda da consciência nítida da origem religiosa da ação revolucionária começasse primeiro na Rússia e devido à intensiva penetração das doutrinas ocidentais pseudorrevolucionárias. Já os decabristas deixaram de entender as raízes religiosas da rebelião social, da insurreição, por culpa de suas posturas ilustradas, típicas da mentalidade maçônica da França pós-revolucionária.
E, no entanto, a meados do século XIX aparece na Rússia um gênio descomunal – Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, um revolucionário religioso que mudará radicalmente o destino espiritual da Rússia. Na personalidade, a consciência e a obra de Dostoiévski se fundem dois aspectos do mesmo fenômeno – religião e revolução. Se equivocam os que pensam que Dostoiévski “se corrigiu”, que após sua passagem pela prisão e os trabalhos forçados, deixou de pensar na revolução. Na realidade Dostoiévski abraçou o ideal do socialismo religioso, intimamente ligado para ele à doutrina do papel messiânico do povo russo. Um estudo detido da mensagem contida em suas obras nos demonstra que Dostoiévski intuiu e logo descreveu a diferentes tipos humanos que protagonizaram a revolução russa. Hoje devemos sublinhar que o leito por onde transcorreu a revolução russa foi em muito maior medida determinado pela apaixonada intuição de Dostoiévski, que pelas teorias do socialismo econômico que nunca passaram além do nível exterior da formação intelectual e nunca alcançaram os níveis mais profundos do inconsciente coletivo.
Na Rússia que se estava aproximando do ano 1917 se deram alguns fatores específicos pelos quais o arquétipo sagrado da revolução coincidiu totalmente com o Outubro Vermelho. Em primeiro lugar, na Rússia se dava um fenômeno único – em seu território atuavam seitas antinomistas gnósticas (surgidas a raiz do cisma – “Raskol” do ano 1666 – N. do T.), cujos adeptos acreditavam que deviam lutar contra o mal que lhes rodeava sobre uma base mística, religiosa. Em segundo lugar na Rússia se dava outro fenômeno único – a presença de “judeus pobres”, cujo genótipo coincidia com o genótipo dos zelotes, seita escatológica judaica que pouco menos de dois mil anos antes se havia enfrentado aos romanos. Em terceiro lugar na Rússia atuava um grupo de intelectuais que previamente havia passado pelo seminário, tais como Chernichevski, Dobroliubov ou também Stalin. Pertenceram à camada mais pobre do clero, muito próxima ao povo simples. Entre eles se produziu uma paradoxal explosão de fé religiosa, expressada através da negação direta das manifestações conformistas e dogmáticas desta fé – na negação da igreja, catequese e culto. A conjunção destes três fatores religiosos provocou a explosão revolucionária na Rússia.
Desgraçadamente, muito logo a essência religiosa da revolução chocou com sua forma exterior dogmática e pseudorrevolucionária. A causa fundamental, a raiz da derrota da revolução estava na fossa aberta entre sua essência religiosa e sua maneira antirreligiosa de ver a si mesma, devida ao conteúdo dogmático marxista. Devido ao mesmo motivo as prioridades estratégicas se foram desviando da Komintern para a defesa dos interesses da URSS, o que por sua vez criou a nomenklatura – burocracia que pôs seus interesses de classe por cima dos interesses da revolução mundial. De ter existido na Rússia uma teologia da revolução de acordo com sua verdadeira causa, a “nova burocracia” não teria podido desviar o potencial revolucionário para um projeto local.
Os líderes da Revolução Russa tampouco acertaram ao escolher o eixo da expansão revolucionária, porque se guiaram pelos postulados dogmáticos do marxismo. Avançar seguindo a direção de “Varsóvia e Berlim” foi um crasso erro – a Rússia não tinha capacidade real para abrir-se a passagem até a Europa Central, para superar o lastro da zona limítrofe – países da Pequena Entente, criada em suas fronteiras ocidentais. Ao criar suas teorias no século XIX tanto Marx como Lenin viam a Europa como o centro do mundo e pensavam que a revolução devia vencer nos países mais “desenvolvidos” e “adiantados”.
A Primeira Guerra Mundial acabou com o eurocentrismo. De ser o umbigo do mundo a Europa passou a ser um trecho secundário, quase um beco sem saída – coisa que nem Marx, nem Engels podiam saber a meados do século XIX.
Não obstante a revolução poderia ter triunfado já em sua primeira etapa, se tivesse apostado integralmente pela liberação das massas coloniais do sul da Eurásia – em primeiro lugar pela liberação dos povos da Índia Britânica, pela derrubada do xá do Irã e o apoio aos elementos antiburgueses no movimento islamista da Turquia. Com esta estratégia se teria rompido todo o sistema de controle global do Ocidente sobre o resto do mundo.
Naquele momento histórico era ainda impossível passar ao sistema de controle neocolonialista ao que finalmente se passa no ano 1961. Se poderia ter evitado aquela manobra quitando-lhe ao Ocidente das mãos os recursos aportados pelos impérios coloniais.
O Ocidente não podia impor à Rússia sua política pela via militar, porque até a invenção da bomba atômica ainda faltavam 20 anos.
A revolução mundial poderia ter ganho a batalha se a Komintern chegasse a controlar os gigantescos recursos da Eurásia do Sul e do Norte. O projeto era perfeitamente viável, e não em vão em seus últimos anos de vida Lenin disse: “O caminho que sigam a Rússia, a China e a Índia (Índia Britânica de então que também incluía atuais Paquistão e Bangladesh – N. de G. Dzhemal), marcará a direção que siga o resto do mundo.” Mas a oportunidade já havia passado. A visão falsa, eurocentrista da revolução, derivada do marxismo ateísta jogou um papel decisivo no fracasso.
Na atualidade a revolução segue presente na Rússia. Como consequência de uma terrível guerra informativa o povo russo sofre o choque mental, que produz o cansaço e a apatia. Mas a revolução, que até agora permanecia adormecida em um nível puramente subjetivo, psicológico agora se situou no plano objetivo. A atual crise do sistema de controle colonial na Rússia faz que a revolução estoure inevitavelmente. Não foi nenhuma casualidade que a iniciativa revolucionária passara ao vizinho sul da Rússia – Irã, onde a revolução abertamente se proclamou como religiosa. Hoje a revolução está batendo às portas da Rússia e se vai converter no fator decisivo para o processo revolucionário do século XXI.
