por Werner Brauninger
(1994)
“Anelamos do fundo do nosso coração a vitória do nacional-socialismo, conhecemos o melhor das suas forças, o entusiasmo que o leva; conhecemos o sublime dos sacrifícios que lhe são consentidos fora de toda a dúvida. Mas sabemos também que não poderá abrir-se um caminho combatendo… mais do que se renunciar a todo aporte residual saído de um passado terminado”[1]. Estas frases foram escritas por Ernst Jünger durante o verão de 1930. Por que, pergunta-se hoje, Jünger não encontrou o caminho aderindo ao movimento desse homem, aparentemente capaz de transportar e de impor as ideias de Jünger e do “novo nacionalismo” na realidade do poder e da política? Minha intenção, no que segue, não é uma análise meticulosa, profunda, sistemática da história das ideias. Aponta apenas a mostrar como uma personalidade individual e carismática do temperamento de Ernst Jünger, que celebrou seus 100 anos em março passado, pôde manter sua originalidade na era da Kampfzeit da NSDAP.
I
Ernst Jünger e Adolf Hitler
O juízo emitido por Jünger sobre Hitler variou ao longo dos anos: “Este homem tem razão”, depois “este homem é ridículo”, ou “este homem é inquietante” ou “sinistro”[2]. Em 1925, Jünger pensava ainda que a figura de Hitler despertava indubitavelmente, como a de Mussolini, “o pressentimento de um novo tipo de chefe”[3]. A descrição de um discurso do jovem Hitler por Jünger comunica-nos muito nitidamente esse “fluir”: “Eu mal conhecia o seu nome quando o vi num circo de Munique onde ele pronunciava um dos seus primeiros discursos… Naquela época, fui arrebatado por algo diferente, como se experimentasse uma purificação. Os nossos esforços incomensuráveis, durante quatro anos de guerra, tinham conduzido não apenas à derrota, mas à humilhação. O país desarmado estava cercado por vizinhos perigosos e armados até aos dentes, estava despedaçado, atravessado por facínoras, saqueado, sugado. Era uma visão sinistra, uma visão de horror. E eis que um desconhecido se levantava e nos dizia o que era preciso fazer, e todos sentiam que ele tinha razão. Ele dizia o que o governo deveria ter dito, não literalmente, mas no espírito, na atitude, ou o que o governo deveria ter feito tacitamente. Via o abismo que se abria entre o governo e o povo. Queria preencher esse fosso. E não era que pronunciasse um discurso. Encarnava uma manifestação do elementar, e eu acabara de ser arrebatado por ela”.[4]
Depois de ter recebido de Hitler um exemplar do seu livro autobiográfico e programático, o famoso Minha Luta, Jünger enviou-lhe todos os seus livros de guerra. Um desses exemplares de homenagem, mais precisamente Fogo e Sangue, traz uma dedicatória de 9 de janeiro de 1926: “A Adolf Hitler, Führer da Nação! - Ernst Jünger”. Mais tarde, no mesmo ano, Hitler anuncia a sua visita a Jünger em Leipzig; ela, de qualquer forma, não teve lugar devido a uma modificação de itinerário. Depois, Jünger escreveu a propósito deste acontecimento: “Sem dúvida, essa visita se teria desenvolvido sem resultados, tal como o meu encontro com Ludendorff. Mas certamente teria trazido desgraça”[5]. Em 1927, Hitler ter-lhe-ia oferecido um mandato de deputado da NSDAP no Reichstag. Jünger recusou. Considerava que a composição de um único verso tinha maior interesse do que a representação de 60.000 imbecis no Parlamento.
As relações entre os dois homens arrefeceram claramente a seguir, sobretudo depois de Hitler prestar o “juramento de legalidade” em outubro de 1930 perante o Tribunal do Reich em Leipzig: “Presto aqui juramento perante Deus Todo-Poderoso. Declaro que, quando chegar legalmente ao poder, criarei tribunais de Estado no quadro de um governo legal, a fim de que sejam julgados segundo as leis os responsáveis pela desdita do nosso povo”. A isto acresce que Jünger e Hitler não julgavam da mesma maneira a questão dos atentados com bombas perpetrados pelo movimento camponês de Landvolk no Schleswig-Holstein.
Jünger criticava Hitler e o seu movimento por serem muito pouco radicais; ao cabo de alguns anos, finalmente o escritor julgava o condottiere político como um “Napoleão do sufrágio universal”[6]. No entanto, permaneciam de acordo sobre o objetivo final: o combate incondicional contra o Diktat de Versalhes e contra a decadência liberal, o que implicava a destruição do sistema de Weimar.
Jünger: “Nós mobilizámo-nos do modo mais extremo nesta grande e gloriosa guerra para defender os direitos da Nação, sentimo-nos hoje também chamados a combater por ela. Todo o camarada de combate é bem-vindo. Constituímos uma unidade de sangue, de espírito e de memória, somos ‘o Estado dentro do estado’, a falange de assalto, à volta da qual a massa deverá fechar fileiras. Não gostamos de longos discursos, um novo século que se forja parece-nos mais importante do que uma vitória no Parlamento. De vez em quando, organizamos festas, para deixar o poder desfilar em fileiras apertadas, e para não esquecer como se faz mover as massas. Centenas de milhares de pessoas já vêm participar nessas festas. O dia em que o Estado parlamentar se desmorone sob a nossa pressão e nós proclamemos a ditadura nacional, será o nosso mais belo dia de festa”[7]. Mas quando um partido nacional toma realmente o poder e derruba o sistema de Weimar, Jünger arroga-se o direito de dizer sim ou não, caso a caso, ao que ocorria diante dele.
Em 1982, Jünger respondeu à pergunta sobre o que reprovava realmente a Hitler: “A sua atitude resolutamente contrária ao direito a partir de 1938. Estou ainda plenamente de acordo com Hitler na sua política nos Sudetos e na sua anexação da Áustria. Mas reconheci bem cedo o caráter de Hitler…”[8]. A inquietação de Jünger era a salvação do Reich e não a sorte de uma pessoa. Um ano depois do colapso do nacional-socialismo escreve: “Poucos homens nos tempos modernos suscitaram tanto entusiasmo entre as massas, mas também tanto ódio como ele. Quando soube a notícia do seu suicídio, tirou-se-me um peso do coração; por vezes tinha receado que fosse exposto numa jaula numa grande cidade estrangeira. Isso, pelo menos, foi-nos poupado”[9].
II
O “novo nacionalismo”
Favorecido pelas suas altas condecorações militares ganhas na Primeira Guerra Mundial, assim como pela notoriedade dos seus livros de guerra, Jünger torna-se a figura simbólica do “novo nacionalismo”. À volta deste conceito reuniram-se entre 1926 e 1931 algumas revistas, nas quais não apenas Jünger escreve numerosos artigos, mas é coeditor delas. Estas revistas chamam-se Standarte, Arminius, Der Vormarsch e Die Kommenden. Os editores eram Franz Schauwecker, Helmut Franke, Wilhelm Weiss, Werner Lass, Karl O. Paetel, etc. Entre outros autores destas publicações citemos, por exemplo, Ernst von Salomon, Friedrich Hielscher, Friedrich Wilhelm Heinz, Hans Johst, Joseph Goebbels, Konstantin Hierl, Ernst zu Reventlow, Alfred Rosenberg e Werner Best. No curso desses últimos anos da República de Weimar, é típico notar que esses “rebeldes”, situados entre a extrema-direita e a extrema-esquerda, se encontravam permanentemente com comunistas oficiais ou dissidentes, com nacional-socialistas fiéis ou hostis ao partido. Entre esses obscuros círculos de debates, estava a Gesellschaft zum Studium der russischen Planwirtschaft (“Sociedade para o estudo da economia planificada russa”). Esperava-se sobretudo, frequentando este círculo, conhecer a opinião de Ernst Jünger.
É interessante conhecer o destino ulterior dos homens que rodeavam então Ernst Jünger e que eram os principais protagonistas dos fundamentos teóricos desse “novo nacionalismo”: Helmut Franke caiu em combate, comandando uma canhoneira sul-americana; Wilhelm Weiss foi promovido a chefe de serviço na redação do Völkischer Beobachter e, mais tarde, a chefe da Associação Nacional da Imprensa Alemã; Karl Otto Paetel preferiu emigrar; Friedrich Wilhelm Heinz chegou a comandante do regimento “Brandenburg”, ao qual estava especialmente confiada a guarda da Chancelaria do Reich; e o doutor Werner Best chegou a ser oficialmente, de 1942 a 1945, ministro plenipotenciário do Reich nacional-socialista na Dinamarca, depois de ter desempenhado altas funções no Reichssicherheitshauptamt (Chefia de Segurança do Reich). Assombra-se hoje ao comprovar quão variados e diferentes eram os caracteres e os tipos humanos desses ideólogos do “novo nacionalismo”. Todos estavam unidos por um sentimento existencial, o do “realismo heroico”, termo que muitas vezes Ernst Jünger utilizou para definir a atitude fundamental da sua visão do mundo[10]. De fato, uma atitude tal encontra-se na maior parte dos teóricos desta época, compreendidos, por exemplo, um Oswald Spengler (Preussentum und Sozialismus, Der Neubau des Deutschen Reiches), Arthur Moeller van den Bruck (Das Dritte Reich) e Edgar Julius Jung (Die Herrschaft der Minderwertigen).
Jünger queria unir-se a esta falange olímpica publicando por sua vez uma espécie de “obra padrão”. Na publicidade de um editor descobre-se o anúncio de um livro de Jünger que se intitularia Die Grundlage des Nationalismus, mas que nunca apareceu. Se o livro tivesse sido impresso, sem nenhuma dúvida seria hoje a fonte por excelência. A obra deveria ter incluído também um ensaio intitulado “Nationalismus und Nationalsozialismus”, que só apareceu em 1927 na revista Arminius. O cúmulo neste ensaio é a proposição de fazer do nacional-socialismo um instrumento de ação política prática (“no movimento de Hitler encontra-se mais fogo e sangue do que aquilo que a chamada revolução foi capaz de suscitar no curso de todos estes anos”) e fazer do nacionalismo, que Jünger reclamava para si, o laboratório ideológico. Desde 1925, Jünger exortava no seu apelo “Schliesst euch zusammen!” (Cerrem fileiras!) aos grupos rivais a formar uma “Frente nacionalista final”[11]. Mas esta frente jamais viu a luz, “o apelo ficou sem eco, desvaneceu-se nos discursos mesquinhos de secretários de associação que queriam ter absolutamente a última palavra” (Karl O. Paetel).
À medida que a aversão de Jünger pela democracia crescia, a sua rejeição de Hitler aumentava também. Enquanto esses hereges desenvolviam entre si um grande número de “teses especiais sobre o nacionalismo”, tanto e tão bem que nenhuma unidade real podia emergir, a NSDAP de Hitler corria de vitória eleitoral em vitória eleitoral. Formulando e afinando as suas especulações, muitos intelectuais do “novo nacionalismo” tinham verdadeiramente perdido contacto com as realidades. Ernst von Salomon descreve as debilidades do nacionalismo teórico de maneira muito colorida no seu Questionário: “Nunca se insistirá bastante ao dizer como as emoções intelectuais desses homens combativos pertencentes ao ‘novo nacionalismo’ se extinguiram em silêncio. À parte o número ridiculamente débil de assinantes de algumas revistas, ninguém se fixava neles, e nós alcançávamos um alto grau de excitação quando, por acaso, um grande diário da capital evocava em algumas linhas uma ou outra produção de um de nós”[12].
III
O Dr. Goebbels
As relações entre Jünger e o Dr. Joseph Goebbels merecem um capítulo particular. Os dois homens encontravam-se ocasionalmente nas sociedades berlinenses patrocinadas por Arnolt Bronnen ou em veladas privadas entre nacional-revolucionários. Na maioria dos casos, trocavam provocações ou frases cínicas. Jünger fez saber a Goebbels que preferia de longe o tipo do “soldado-trabalhador prussiano-alemão” ao do “pequeno-burguês de camisa castanha” que proliferava nas fileiras da NSDAP ou da SA. Várias décadas mais tarde, Jünger recorda: “Goebbels convidou-me. Especialmente em 1932, para assistir a um dos seus discursos perante trabalhadores, em Spandau. Não esperei o fim do seu discurso, saí antes, e soube depois que houve um tumulto formidável na sala. Goebbels estava decepcionado: deram a este Ernst Jünger um lugar de honra, mas quando as coisas começam a aquecer e as cadeiras voam, já não estava lá. Goebbels esquecia intencionalmente dizer que eu tinha vivido muitas outras batalhas para além desta rixa de salão”[13].
Em seus diários, Goebbels frequentemente deixa registrada sua decepção perante Jünger, a quem teria querido ver aderindo ao NSDAP. A 20 de janeiro de 1926, o futuro ministro da propaganda escrevia: “Acabo de terminar ontem a leitura de Tempestades de Aço de Ernst Jünger. É um grande livro, brilhante. A potência do seu realismo suscita em nós espanto. Impulso. Paixão nacional. Fervor. É o livro alemão da guerra. É um homem da jovem geração que toma a palavra para nos falar da guerra, acontecimento profundo para a alma, e que provoca um milagre ao descrever-nos o que passa na sua interioridade. Um grande livro. Por detrás deste texto, há um homem de uma peça”. Cinco meses mais tarde, percebe-se já uma decepção: “Estou preocupado com o ‘novo nacionalismo’ dos Jünger, Schauwecker, Franke, etc. Fala-se e passa-se ao lado dos verdadeiros problemas. E falta lá a coisa mais importante, em última instância: o reconhecimento da missão do proletariado” (Goebbels, Diários, 30 de junho de 1926).
Três anos depois, Goebbels rejeita definitivamente Jünger: “As minhas leituras: Das abenteuerliche Herz (O Coração Aventureiro) de Jünger. Não é mais do que literatura. Lástima por Jünger, de quem acabo de reler Tempestades de Aço. Esse era verdadeiramente um grande livro, um livro heroico. Porque por detrás dele tinha vivência de sangue, uma vivência total. Hoje, enclausura-se e recusa a vida, e os seus escritos não são mais do que tinta, literatura” (Goebbels, Diários, 7 de outubro de 1929). Este ajuste de contas durará até ao colapso do Terceiro Reich, quando no último momento, Goebbels proíbe à imprensa alemã mencionar o 50º aniversário de Jünger.
IV
O retiro
Hans-Peter Schwarz escreve no seu livro consagrado a Jünger, Der Konservative Anarchist: “Um fenômeno que merece reflexão: nos anos 1925-1929, quando nenhum observador objetivo teria dado a menor possibilidade ao nacionalismo revolucionário na Alemanha, Jünger desempenhou-se como o arauto desta ideia: mas, quando, por um golpe de sorte fatídico, um Estado nacionalista, socialista, autoritário e capaz de se defender, começou a impor-se com uma evidência terrível, os seus interesses pelas atividades concretas diminuem a olhos vistos. Com efeito, depois das eleições de setembro de 1930, não havia mais do que um único movimento político que podia reivindicar o sucesso e pretender realizar essa visão do estado: a NSDAP de Adolf Hitler”[14].
O retiro de Jünger da política não se devia de modo imediato ao auge em potência da NSDAP. Vários fatores desempenharam o seu papel. Entre eles, o resultado dos seus estudos sobre o fascismo italiano. O fascismo (regime) não teria sido, aos seus olhos, nada mais do que “uma fase tardia do liberalismo, um procedimento simplificado e resumido, simultaneamente uma estenografia brutal da concepção de Estado dos liberais, que, para o gosto moderno, tinha chegado a ser demasiado hipócrita, demasiado verboso e, sobretudo, demasiado complicado. O fascismo, tal como o bolchevismo, não estão feitos para a Alemanha: eles atraem-nos, seduzem-nos, sem poder satisfazer-nos, contudo, e devemos esperar para o nosso país que seja capaz de gerar uma solução mais rigorosa”[15]. Terá Jünger adivinhado esta evolução para o Reich?
Com a instalação de Jünger em Berlim, começa o seu retiro. Desde então, não deixou mais de se dar o papel de um observador à distância. Desde o declinar das revistas Vormarsch e Die Kommenden nos anos 1929 e 1930, abandona muito ostensivamente a redação de artigos políticos. Rememorando esta etapa da sua vida, comentou o trabalho editorial como segue: “As revistas são como ônibus, utilizam-se enquanto se tem necessidade deles, e depois desce-se”. E: “Hoje já não se pode preocupar com a Alemanha em sociedade; é preciso fazê-lo na solidão, como um homem que abre picada com um machete na selva virgem, e que não é animado mais do que por uma esperança: que outros, em alguma parte da espessura, procedam ao mesmo trabalho”16. Jünger tinha percebido que as suas atividades de política quotidiana não tinham mais sentido; consagrava-se mais e mais aos seus livros. Obras tais como Das abenteuerliche Herz, Der Arbeiter e Die totale Mobilmachung (“A mobilização total” — do qual infelizmente não se reteve mais do que um slogan) tornaram-no célebre fora dos círculos estreitos que se interessavam pela política.
Outro motivo que justificava sem dúvida o retiro de Jünger: a sua amizade com o nacional-bolchevique Ernst Niekisch, cuja revista, Widerstand, tinha publicado alguns artigos de Jünger. Niekisch era um solitário da política, caprichoso e excêntrico, posto a bom recaudo pelo Estado nacional-socialista por razões de segurança interior (sem dúvida com razão, do ponto de vista das novas autoridades). Num artigo intitulado “Entscheidung” (Decisão), Niekisch advogava muito seriamente pela “injeção de sangue eslavo nas veias alemãs, a fim de curar a germanidade das influências romanas vindas da Europa do sul e do oeste”[17]. Esta ideia rara não precisa de comentários da minha parte. Mas sem dúvida Jünger não estava atraído pela orientação para o leste preconizada por Niekisch, nem pelo seu anticapitalismo lapidar; o que o atraía secretamente nesse homem inclassificável, era a tenacidade com que aquele defendia a “pureza da ideia”.
Como se quisesse clarificar as coisas para si mesmo, Jünger, em Nos Penhascos de Mármore (que contém traços autobiográficos indiscutíveis), explica-nos porque é que tinha trabalhado por um desejo de participar na política ativa: “Há épocas de decadência em que se desvanece a forma de vida profunda que em cada um de nós está desenhada de antemão. Quando perdemos os seus vestígios, vacilamos e cambaleamos como seres a quem falta o sentido do equilíbrio (…). Enquanto o instante foge para não voltar mais, balançamo-nos em épocas remotas ou em utopias fantásticas (…). Ansiávamos pela realidade e ter-nos-íamos metido no gelo e atirado ao fogo para matar o tédio”[18].
V
A “zona das balas na nuca”
A ruptura definitiva entre os nacional-socialistas e Jünger teve lugar depois da aparição de Der Arbeiter. Herrschaft und Gestalt (1932). Em numerosos escritos nacional-socialistas esse livro foi criticado com uma severidade inaudita; ter-se-ia tratado de um “bolchevismo crasso”. Thilo von Trotha escreveu no Völkischer Beobachter: “Pois bem! Ei-las aqui, as intermináveis charlas da dialética! Joga-se durante trezentas páginas com todos os conceitos possíveis e imagináveis, repetem-se indefinidamente, acumulam-se tantas contradições e, no fim, não fica, sobretudo para a nossa jovem geração, senão um enigma incompreensível: como um soldado da frente como Ernst Jünger se pôde converter neste homem que, saboreando o seu chá e os seus cigarros, adquire uma semelhança desesperante com esses intelectuais russos de Dostoievski que, durante noites inteiras, discutem e discutem os problemas fundamentais do nosso mundo”. Thilo von Trotha acrescenta que Jünger não vê “a questão fundamental de toda a existência, o problema do sangue e do solo”. Em Jünger, pensa von Trotha, cumpre-se a tragédia de um homem “que perdeu o caminho para os fundamentos primordiais de todo o Estado”. Conclusão de von Trotha: não é a era do Trabalhador que está a emergir, mas a era da raça e dos povos.
No entanto, apesar desta crítica severa e violenta, von Trotha afirma que Jünger continua a ser “um dos melhores guerreiros da sua geração”, mas é para lhe perdoar a sua atitude fundamentalmente individualista: “(os literatos nacional-revolucionários) passam a sua existência à margem da grande corrente da vida alemã, ritmada pelo sangue; buscam sempre adeptos, mas permanecem condenados à solidão, a ficarem frente a si mesmos e às suas construções na sua torre de marfim… e observar-se-á sem cessar e com espanto que continuam a querer representar a juventude alemã, desconhecendo os fatos reais, de modo completamente incompreensível. A ‘elite espiritual’ da juventude alemã não é literária, segue fielmente o verdadeiro Trabalhador e o verdadeiro Camponês: Adolf Hitler”[19]. A crítica atinge o seu ápice numa fórmula cheia de fantasia: com a sua obra, Jünger aproximar-se-ia da “zona das balas na nuca”. Na conclusão de um artigo de Angriff, um diário animado por Goebbels, encontra-se uma frase mais concreta e mais comedida, mas não menos exterminadora: “o senhor Jünger, com esta obra, terminou para nós”.
Estas críticas emanam, no entanto, dos nacional-socialistas mais inteligentes, mas elas não caem do céu, não eram fruto do acaso. Refletem uma comprovação política feita de agora em diante pelas autoridades do Partido: os nacional-revolucionários são relutantes a toda a disciplina de partido e querem levar uma vida privada oposta aos critérios ditados pelos nacional-socialistas.
VI
No reino do Leviatã
Nesta época, as críticas dos nacionalistas já não tocam Jünger. Tinha-se afastado demasiado da política quotidiana. A “revolução nacional” de 1933 não lhe tinha feito qualquer efeito. A realidade do III Reich não era para ele mais do que os últimos sobressaltos do mundo burguês, não era senão uma “democracia plebiscitária”, última consequência nefasta das “ordens saídas de 1789”[20]. Para poder prosseguir o seu trabalho no isolamento, deixa Berlim e instala-se em Goslar. Antes dessa partida, o novo Estado não se pôde impedir de cometer algumas buscas à família Jünger.
De uma dessas buscas passou um eco à imprensa da época: nos Danzinger Neusten Nachrichten de 12 de abril de 1933 pode ler-se: “Como se soube a seguir, com base numa denúncia procedeu-se a uma busca no domicílio do escritor nacionalista Ernst Jünger, que ganhou no fogo, como oficial, a Ordem Pour le Mérite, durante a guerra mundial, que escreveu vários livros sobre esta guerra, entre eles uma obra de grande sucesso, Tempestades de Aço, e que, no último livro de sociologia e de filosofia, Der Arbeiter. Herrschaft und Gestalt, reivindica ideias coletivistas. A busca não permitiu descobrir objetos ou papéis comprometedores”. A última entrega da revista Sozialistische Nation não poupava os seus sarcasmos: “Não se encontrou nada, exceto a Ordem Pour le Mérite”. Jünger não deixa pairar qualquer dúvida, faz saber claramente que não tinha intenção de participar de nenhum modo nas atividades culturais do Terceiro Reich, como antes nas da República de Weimar. As suas cartas de recusa à Academia de Escritores da Prússia tornaram-se célebres, tal como a sua resposta breve e seca à rádio pública de Leipzig, que o tinha convidado para uma transmissão. Desejava simplesmente “não participar em tudo isso”. A 14 de junho de 1934 escreve à redação do Völkischer Beobachter: “No suplemento ‘Junge Mannschaft’ de 6 e 7 de maio de 1934 verifiquei que tinham reproduzido um excerto do meu livro Das abenteuerliche Herz. Como esta reprodução não traz qualquer menção da fonte, fica a impressão de que eu pertenço à vossa redação como colaborador. Este não é o caso, há dois anos que não utilizo mais a imprensa como meio. Neste caso particular, convém ainda assinalar que estamos perante uma incongruência: por um lado, a imprensa oficial atribui-me o papel de um colaborador titular, enquanto que por outro, se proíbe por comunicado de imprensa oficial a reprodução da minha carta à Academia de Escritores de 18 de novembro de 1933. Eu não pretendo de modo algum ser citado o mais frequentemente possível na imprensa, antes aspiro a que não subsista a menor ambiguidade quanto à natureza das minhas convicções políticas. Com os meus melhores cumprimentos, Ernst Jünger”.
Fato significativo: de 1933 a 1945, Ernst Jünger não recebeu a menor distinção honorífica nem beneficiou da menor homenagem oficial: “Não acha curioso que eu não tenha obtido o menor prêmio sob o III Reich, tanto que se pretende que teria sido tão precioso para os nazis? Se tal tivesse sido o caso, teria sido coberto de prêmios e distinções”, observava Jünger mais de sessenta anos depois dos acontecimentos.
A vida de Jünger foi relativamente apaziguada de 1934 até à guerra. Devemos-lhe vários livros imortais deste período, durante o qual confirmou a sua comprovação: o nacional-socialismo tem a sua fase heroica para trás de si. Sem regresso. O que restava disso? A sua predileção pelas estruturas hierárquicas, claramente delimitadas. Em 1982, Jünger reconhecia: “Certo, tenho fraqueza pelos sistemas de ordem, pela Companhia de Jesus, pelo exército prussiano, pela corte de Luís XIV. Tais ordens impõem-se-me”[21].
Ernst Jünger permaneceu fiel a si mesmo durante toda a sua existência. É assim que Karl O. Paetel, outrora militante “nacionalista social-revolucionário”, numa excelente biografia consagrada ao seu amigo imediatamente depois da última guerra, responde às críticas de maneira definitiva, por séculos e séculos: “O guerreiro tornou-se pacifista? O admirador da técnica, um inimigo do progresso técnico? O niilista, um cristão? O nacionalista, um burguês cosmopolita? Sim e não: Ernst Jünger tornou-se em certa medida esse segundo homem sem nunca deixar de ser o primeiro. Em nenhuma etapa no caminho da sua existência Ernst Jünger se converteu, jamais queimou o que adorava. As transformações não são rejeições nele, mas frutos de aquisições, de ampliações de horizontes, de complementos; nunca se trata de voltar atrás, mas de prosseguir o mesmo caminho ao amadurecer, sem se deter nos pontos de repouso. É assim que Ernst Jünger encontrou a sua identidade, chegou a ser o diagnosticador do nosso tempo, afastado de todo o dogma no seu perguntar como nas respostas que sugere”.
Notas
[2] E. Jünger, Strahlungen, Die Hütte im Weinberg, Jahre der Okkupation, p. 615 (ed. DTV, 1985)
[3] Jünger, “Abgenzug und Verbindung”, en Standarte, 13/9/25
[4] Ver nota 2, pp. 612
[6] Ver nota 2, pp. 444
[8] Jünger, entrevista en Der Spiegel, N°33, 1982
[9] Ver nota 2, p. 616
[11] Jünger, “Schliesst euch Zusammen”, en Die Standarte, 3/6/26
[12] Ernst von Salomon, Der Fragenbogen, p. 244, 1952.
[13] Ver nota 8.
[15] Jünger, “Über Nationalismus u. Judenfrage”, Suddeursche Monatshefte, 27, N°12, 1930
[16] Jünger, Das abetteurliche Herz.
[17] Ernst Niekisch, Entscheldung, p. 180 ss.
[18] Jünger, Sobre los acantilados de mármol, Barcelona, 1962, pp.38-39
[19] Del Völkischer Beobachter (ed. bávara), 22/10/32
[20] Jünger, Strahlunger. Kirchhorster Blätter, p. 298 (DTV, 1985).
[21] Ver nota 8
