por Ivan Ilyin
(1933)
"Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova em mim um espírito reto". Salmo 51:10
Através de todas as grandes discórdias dos nossos dias, no meio da catástrofe, da tragédia e da perda, nos conflitos e tentações, devemos lembrar de uma coisa e viver por ela: a manutenção e a propagação de um espírito de serviço cavalheiresco. Primeiro e acima de tudo dentro de nós mesmos, e depois, dentro dos nossos filhos, dos nossos amigos e dos afins. Devemos proteger este espírito como algo sagrado; devemos fortificá-lo naqueles em quem confiamos, nos que confiam em nós, e naqueles que buscam a nossa direção. Isto é o que devemos defender nos nossos líderes e pastores, insistindo e até exigindo. Este espírito é como o ar e o oxigénio da salvação nacional da Rússia, e onde ele acaba, implanta-se imediatamente uma atmosfera de podridão e decadência, aberta ou oculta no Bolchevismo.
As décadas que experienciámos são tais que os homens habituados à indiferença declarada, a posições tíbias, não podem ou não querem fortificar-se a si mesmos e tomar uma decisão, e tiveram a sua sentença assinada antecipadamente. Eles estão condenados à humilhação e à lama, e as suas forças vitais serão usadas pelos tentadores deste mundo. Em todo lugar onde não há vontade, a vontade dos filhos da perdição ocupará o campo. Em qualquer lugar onde a consciência está em silêncio e a cobiça divide a alma em dois, o Bolchevismo conquista, e em todo lugar onde a crua ânsia de poder de alguns irrita a insaciável ambição de outros, prepara-se a sedução, a desintegração e o triunfo do inimigo. Por toda parte onde o espírito cavalheiresco se enfraquece ou desaparece, o desastre espera-nos. É o que há agora e o que será de agora em diante.
Em qualquer posto que um homem possa ocupar, este dever (se a causa em si não for vergonhosa) tem esta ideia para dar sentido à sua causa, consagrando-a não como uma profissão, mas como um serviço, o serviço à Causa unificada de Deus na terra. Ao contrário do próprio sujeito, que possui os seus interesses pessoais, simpatias e desejos, a causa de Deus tem o seu caminho transcendente de necessidade e exigência. E assim os interesses pessoais do homem e o interesse transcendente da sua Causa podem separar-se a qualquer momento, e colocar o homem na tentação do seu próprio interesse. A qualquer momento, um homem pode encontrar-se na posição de um mercenário, não sabendo que caminho tomar, ou na posição de um traidor, que prefere o seu interesse ao transcendente. O espírito da cavalaria compõe-se da lealdade firme à trajetória transcendental.
Há homens que não veem a Causa de todo e não compreendem as exigências do transcendente. Só sabem do seu próprio negócio, do sucesso pessoal, e tudo o resto para eles é apenas um meio para esse fim. Toda a sua atividade acaba por ser servilismo e traição, e pelas obras destes arrivistas, aduladores, subornadores e temporizadores pereceram e perecerão todas as organizações humanas e instituições. A venalidade é o seu credo – não importa para que vendam a Causa, seja por dinheiro, honras ou autoridade, e não importa o que estava oculto na sua alma por detrás da traição: niilismo aberto (como entre os Bolcheviques) ou uma sentimental falta de carácter e a justificação da sofística (característica dos filisteus pré-Bolcheviques).
Há outros homens que conhecem as exigências da Causa e da Transcendência, mas tratam-nas com indiferença formal, como se fossem um dever pesado e desagradável inevitável – sem amor, inspiração ou criatividade. A sua atividade é "serviço", mas o seu serviço é simplesmente cumprir a próxima "ordem" ou "elemento"; trabalham como assalariados, e na melhor das hipóteses não amaldiçoam o seu trabalho, como escravos, sobrecarregados por todos os seus esforços. O destino da Causa não lhes faz diferença. As exigências da Transcendência, por mais que sejam nomeadas – a Igreja, a Pátria, a Ortodoxia, o Exército, a Ciência, a Arte – são apenas fardos e cargas. Eles não estão dedicados à Causa de Deus na terra. E das obras destas máquinas insensíveis, destes homens indiferentes e "servidores do tempo", todas as organizações humanas começam a esvaziar-se internamente e a desaparecer, desencantando e irritando todos os que entram em contacto com elas, provocando a censura e a tensão de uma atmosfera de protesto destrutivo.
Agora como nunca, a Rússia precisa de homens capazes não de servilismo mas de serviço. Homens que não só veem a Causa e compreendem as exigências da Transcendência, mas que se dedicam à Causa de Deus na terra. Homens que não só não são indiferentes e insensíveis, mas que estão inspirados e inspiram os outros – homens que não cedem os interesses da Causa nem por dinheiro, honras e autoridade, nem por qualquer pedido ou favor – incorruptíveis no sentido mais amplo e mais elevado desta palavra. Estes são os homens para quem o dever não é um trabalho árduo e uma obrigação repulsiva, porque na sua alma, a obrigação está coberta pela devoção pessoal, e o dever foi submerso num interesse apaixonado pela causa. Estes são os homens que estão, claro, contentes com qualquer sucesso pessoal, mas para eles, o seu próprio sucesso permanece sempre um meio para servir a vitória da Causa de Deus. Estes são os homens que não temem a responsabilidade precisamente porque estão totalmente imersos na Causa, e não buscam de forma alguma a fortuna pessoal, e o progresso a qualquer preço. Estes são homens de carácter e valor cívico, os homens da ideia de vontade, os voluntários para a Causa Nacional russa. Os homens convocados como organizadores da Rússia.
O espírito cavalheiresco compreende, antes de mais, a aceitação voluntária e principal da dificuldade e do perigo em nome da Causa de Deus na terra. E devemos admitir que se a vida sempre espera isto de nós – e mesmo no momento mais feliz nos propõe os fardos, responsabilidades e perigos ligados a cada passo – então, após o colapso militar da Rússia na Grande Guerra e da sua derrota na Revolução, todo o seu renascimento e a sua restauração vão depender da tarefa de encontrar na nossa terra um grupo de homens de espírito e capacidade de serviço. Um quadro incorruptível, e portanto que não vende nada aos estrangeiros ou aos inimigos internos da Rússia; leal no amor e na consciência, e, portanto, capaz de reunir à sua volta a confiança e dedicação de todos os corações fiéis à Pátria; cavalheiresco, e portanto chamado ao serviço e à organização da salvação pública.
A essência cavalheiresca necessária para a Rússia é, antes de mais, não uma infração mas a abnegação. Nenhum dos partidos políticos contemporâneos é cavalheiresco, porque todos buscam o poder e os benefícios que isso acarreta. O que a Rússia precisa é de um grupo de homens com renovada e nobilitada motivação política nas suas almas. Só os novos homens podem criar um novo regime; "novo" não no sentido da idade, do nome ou da sempre corruptora "posição revolucionária", mas no sentido de direção da vontade e de força de vontade; de direção transcendente e de inquebrantável força. Aquele que ao longo destes anos de desastres, tragédias e perdas foi incapaz de encontrar dentro da sua alma novas fontes de razão política e da atividade política – fontes religiosas, patrióticas e heroicas – concebendo anteriormente a Rússia (independentemente de serem de esquerda ou de direita) como um campo para o avanço da sua carreira privada – é um homem inimigo da Rússia que traz o seu veneno e a morte desde o seu coração, quaisquer que sejam os programas e palavras de ordem que use como cobertura. Fora do espírito cavalheiresco de serviço nacional, tudo está sem rumo, é nocivo e feito em vão; fora dele, ninguém libertará ou restaurará nada, só vai criar novas discórdias, um novo caos e uma nova guerra civil para a ruína da Rússia e para alegria dos seus adversários imemoriais de todo o mundo.
Eis porque aqueles que se afastam de toda a "política" estrangeira e soviética, de todas as intermináveis "iniciativas" (no estrangeiro) e "compromissos" traiçoeiros (na clandestinidade), de todas as misturas e conflitos dos partidos políticos, estão no caminho certo. No entanto, este distanciamento dificilmente significaria a negação da soberania; nem tudo coincide com a falta de sentido político e a falta de vontade. Pelo contrário, todo o seu significado consiste em acumular sentido político e vontade política e na purificação transcendental da alma, na concentração da capacidade de compreensão da alma e das forças mais nobres. Esta abstinência do frívolo e prematuro, da vaidade e das intrigas da política partidária, é imperativo precisamente para fixar o começo de uma nova abordagem ideacional e volitiva da soberania em geral e do Estado russo em particular – o caminho cavalheiresco.
Para isso deve começar-se pelo estabelecimento de uma máxima indiscutível que sustém que a ruína da Rússia foi trazida e condicionada pelo facto de os homens russos possuírem uma cavalaria insuficiente, e a partir de então sucederam-se todos os erros e os crimes que assaltaram a Rússia, todas estas correntes de impotência, de fraqueza de coração, cobiça, cobardia, venalidade, traição e selvajaria. E estes erros e crimes repetir-se-ão; e estas correntes de cobardia e fraqueza de coração derramar-se-ão – até que a Rússia prepare um curso de renovação espiritual e religiosa; até que os homens de estilo cavalheiresco e carácter cavalheiresco surjam e fechem fileiras. E quando isto tiver lugar, então vai encontrar-se e fortalecer-se a nova tradição soberana, por agora dispersa e perdida, mas que se concebeu muitos séculos antes no espírito da Ortodoxia russa, uma tradição que perdurou através das fases de construção da grandeza nacional russa. Esta é a tradição do voluntarismo estatal religiosamente enraizado que renasceu nas terras russas há dez anos.
Isto é o mais elementar e importante. Se não existir, então também não haverá uma Rússia, será a discórdia e o caos, a vergonha e a desintegração. Agora é o momento em que devemos tomar este caminho e começar a nossa renovação, hoje em dia, sem hesitação nem demora.
