11/06/2026

Bertrand Garandeau - A Geografia Sagrada de Dugin: A Rússia no Coração da Tradição

 por Bertrand Garandeau

(2016)


Normalmente no centro de atenção devido à sua suposta influência no Kremlin, Alexander Dugin retomou e desenvolveu o conceito geopolítico da Eurásia. Através desta noção, ele preconiza o recurso à geografia sagrada e à tradição na geopolítica contemporânea.

Para Dugin, a geopolítica não é uma ciência como qualquer outra. Se a alquimia e a magia desapareceram em favor das suas formas seculares modernas, que são a química e a física, a geografia sagrada dos antigos mantém-se viva através da geopolítica. Recordando a teoria do Heartland do geopolítico britânico Mackinder, Dugin faz da Eurásia a peça-chave da geografia sagrada. Com a Rússia no seu centro, a Eurásia encarnaria o último bastião da tradição no hemisfério norte, o único capaz de lutar eficazmente contra a modernidade.

O pensador russo sustenta que a geografia molda as ideologias, as culturas e as religiões. As civilizações das planícies, das estepes e dos desertos, propícias à expansão e à conquista, diferem, por exemplo, das civilizações das montanhas e dos bosques, que são mais propensas a preservar as tradições dos povos. Dugin também defende a pertinência da oposição tradicional talassocracia – telurocracia, utilizada para qualificar dois tipos distintos de potências: os que dominam mediante o controle do mar e os que dominam mediante o controle da terra, entendendo sempre que estes modos de dominação não são ideologicamente anódinos.

Segundo Dugin, a telurocracia encarna a estabilidade, a gravidade, a fixez e a política, enquanto a talassocracia promoveria a mobilidade, a fluidez, a dinâmica e a economia. Enquanto os impérios terrestres, muitas vezes militares, seriam de forma telurocrática, os impérios coloniais, mais comerciais, seriam mais talassocráticos. No entanto, o geopolítico ressalta que esta tipologia não se resume a uma simples oposição águas/terra e a um determinismo geográfico estrito. Existiriam assim terras marítimas (as ilhas) e águas terrestres (os rios e mares interiores). Do mesmo modo, Dugin observa que a geopolítica japonesa é do tipo telurocrático apesar do seu carácter insular, enquanto vê na potência do continente norte-americano uma talassocracia que repousa no dinamismo das suas interfaces marítimas e comerciais. Aplicando este marco conceptual, o pensador russo considera que a Eurásia, continente terrestre que iria da Europa à Ásia e cujo centro de gravidade se encontra na Rússia, poderia constituir o modelo telurocrático oposto aos atlantistas dos Estados Unidos da América.


Geografia sagrada e religiões


Para além do marco estrito da geografia, este dualismo encontrar-se-ia no seio dos sistemas religiosos. Os valores da terra transpostos para o religioso manifestar-se-iam pela profundidade, a tradição, a contemplação e a mística. O princípio atlantista seria, ao contrário, mais superficial e materialista, concedendo primazia ao rito, à organização da vida diária e até ignorando a parte divina no homem. Dugin vê assim na Ortodoxia o aspecto terrestre do cristianismo, enquanto o catolicismo e o protestantismo seriam a face atlantista. Do mesmo modo, no seio do islão, o princípio terrestre encontrar-se-ia mais em certos ramos do xiismo e do sufismo. Pelo contrário, o salafismo e o wahabismo seriam mais atlantistas pela importância concedida ao rito e pelo seu dogmatismo religioso desejoso de erradicar as espiritualidades tradicionais dos povos convertidos. Face ao protestantismo americano e ao salafismo saudita, cujas alianças geopolíticas desde 1945 Dugin assinala, o mundo russo reúne, pelo contrário, as religiões do tipo telúrico com a ortodoxia rusa, mas também o islão caucasiano e da Ásia Central.

Quanto ao judaísmo, não só não escaparia a esta oposição interna, como esta encontrar-se-ia também nas formas seculares do pensamento judeu. Dugin analisa os ramos místicos do judaísmo (hassidismo, sabbatianismo, cabalismo) como a expressão do aspecto terrestre desta religião. Ao contrário, o talmudismo representaria o aspecto atlantista, particularmente pelo acento colocado no rigor dogmático e no racionalismo. Por outro lado, recordando a influência do messianismo judeu sobre o desenvolvimento do marxismo e do bolchevismo, Dugin vê nestes últimos as formas seculares do judaísmo terrestre. Ao contrário, o judaísmo atlantista secularizado teria contribuído para a ascensão do capitalismo e do espírito burguês. O geopolítico russo vê nesta tensão interna no judaísmo a explicação de um recorrente "anti-semitismo judeu". As intenções de Karl Marx, afirmando particularmente que o dinheiro seria o Deus profano do judaísmo (A Questão Judaica), seriam a encarnação empírica do judeu místico a atacar o judeu talmudista, ou seja, uma emanação da tradição contra uma forma da modernidade.


A tradição do Norte


Atualização da eterna luta entre a telurocracia e a talassocracia, mas também fundamento subjacente da guerra entre tradição e modernidade, a oposição entre eurasismo e atlantismo não resume a visão da geografia sagrada segundo Alexander Dugin. Esta também se apoia nos dualismos Oriente - Ocidente e Norte - Sul. Para o cantor do eurasianismo, o Oriente encarna o arcaísmo, a tradição e a primazia do supraindividual sobre o indivíduo. O Ocidente representa, pelo contrário, o progresso material, a modernidade e o individualismo. Fiel às representações geográficas de numerosas tradições (bíblica, egípcia, iraniana ou mesmo chinesa), esta oposição é também corroborada pelas representações contemporâneas frequentes do "mundo ocidental" e do Oriente. No entanto, na geografia sagrada, são os valores orientais os que são superiores aos valores ocidentais. Podemos observar o exato inverso na geopolítica moderna, para a qual os valores ocidentais da democracia liberal e dos individualistas direitos do homem associados a uma estrita economia de mercado são erigidos em modelo.

Aos olhos de Dugin, o par Oriente - Ocidente não seria no entanto mais do que uma transposição horizontal tardia do par geográfico que opõe o Norte e o Sul. Terra divina por excelência, o Norte seria a terra do espírito e do ser. Se nega a ideia de um Norte puramente objetivo que apenas designaria um polo geográfico, o filósofo russo rejeita no entanto a definição do Norte reduzido a uma ideia. Certamente, a tradição primordial procederia do norte geográfico, mas esta época ficou para trás. O homem do Norte, quase divino, hoje teria desaparecido como tal, mas estaria sempre presente de modo difuso e em proporções variáveis no seio de todos os povos. O mesmo ocorre com o homem do Sul, que encarna a tendência para o materialismo e para a idolatria. Se o homem do Sul venera o cosmos, muitas vezes sob a forma da Terra-Mãe, apreende-o apenas pelo seu instinto e mostra-se incapaz de compreender a parte espiritual. Estes dois tipos de homem não se oporiam hoje frontalmente, mas sim no interior mesmo dos povos e civilizações. Em todo o caso, esta oposição não pode ser comparada a um combate maniqueu do bem contra o mal. O Norte e o Sul são complementares, o primeiro encarnando-se no segundo. No entanto, Dugin considera que o respeito da ordem divina precisa da superioridade do princípio espiritual do Norte sobre o princípio material do Sul.

Embora a oposição entre o Norte e o Sul se sobreponha à do Este e do Oeste, o estratega russo observa que o primeiro par toma uma coloração diferente de acordo com as transposições geográficas que se produzam. Diversas combinações podem ser formadas pela espiritualidade do Norte, o materialismo do Sul, o holismo do Este e o individualismo do Oeste. Dugin estabelece assim que os valores sagrados do Norte são conservados estérilmente pelo Sul, realçados pelo Este e fragmentados pelo Oeste. Quanto aos valores do Sul, de acordo com o seu meio de imersão, opacam o espírito do Norte, transformam o holismo oriental em negação pura do indivíduo, e geram um materialismo individualista no Ocidente. É sob esta última forma que a modernidade ocidental aparece aos olhos do filósofo eurasianista. Fruto da combinação mais negativa da geografia sagrada, o suposto sucesso dos países ocidentais, essencialmente situados no entanto no norte geográfico, prega valores opostos à tradição. Esta inversão dos polos constituiria uma característica da idade sombria, ou Kali Yuga, na qual o mundo se encontraria hoje.

No entanto, Alexander Dugin não considera que a salvação deva vir do Sul. Estéril por essência, este seria apenas apto para conservar fragmentos da tradição nórdica que a mística russa percebe no mundo islâmico, na India hinduísta, mesmo na China apesar da sua conversão parcial à modernidade. A salvação viria pois da aliança entre este sul conservador e os ilhéus de tradição autêntica ainda presentes no norte, e particularmente no nordeste. Dugin situa pois no mundo russo o coração atual da tradição e da luta contra a modernidade. Incluindo a Rússia, mas igualmente as suas periferias diversas, o mundo russo reuniria qualidades geográficas (estar situado no nordeste no sentido da geografia sagrada), religiosas (ortodoxia, islamismo euroasianista, judaísmo russo) e as características de uma potência telúrica que lhe permitiriam desempenhar um papel determinante na luta contra a modernidade atlantista, ocidental e oposta ao espírito do Norte.