por Aleksandr Dugin
(2018)
Prefácio à edição espanhola de A Quarta Teoria Política
“Ser” local vs “não ser” universal
A Quarta Teoria Política não tem um destinatário sociocultural definido. Ela se dirige a cada pessoa desgostosa com o estado das coisas neste mundo, a cada pessoa suficientemente profunda para tentar buscar as causas e razões deste estado. Duvidamos que os temas tratados no livro despertem o interesse das pessoas que estão contentes com tudo, que estão satisfeitas com as alternativas atuais em política, cultura, sociedade, ou que estão preocupadas apenas com sua adaptação individual ao status quo ou correção de certos tecnicismos. Mas para os profundamente descontentes este livro pode ser útil. Nesta ocasião não há grande diferença entre um europeu e um latino-americano, entre um muçulmano e um russo, entre um asiático e um africano: em todos os continentes e em todas as sociedades há aqueles que tomam consciência e sabem que hoje tudo se joga em uma carta e que todos nós devemos responder à pergunta principal – ser ou não ser. Claro que cada sociedade e cada cultura dá ao conceito “ser” (igualmente ao “não ser”) seu próprio sentido. No entanto, a Modernidade (contemporaneidade) tem um traço característico: ela está apresentando seu paradigma universal. Por isso sua estrutura é global. Esta estrutura da contemporaneidade global está nos atacando em todas as sociedades. É um desafio para todos. Antes de propor alternativas (que podem ser locais ou universais), é preciso discernir sua essência. Podemos dizê-lo de outra forma: o sujeito do conceito “ser” muda segundo o contexto cultural, enquanto que “não ser” pode ser total. O modelo global da ordem mundial nos propõe “não ser”. Aceitando-o nós estamos entrando na zona de padronização. Rejeitando-o (mas isso seria possível apenas depois que tomássemos consciência de tudo o que decidimos rejeitar) estamos reconquistando o direito de ser em toda a extensão da palavra, o direito de ser nós mesmos (salvar nossa identidade) e fazer-nos a nós mesmos (ou seja, ganhar, criar essa identidade).
Triunfo do liberalismo. O axioma da contemporaneidade
A época da Modernidade europeia (ocidental) levou e impôs a todo o mundo seu modelo universal do ser humano, do cosmos, do tempo, da história, da sociedade, da natureza. A quintessência e o esquema básico holográfico de tal imagem do universo tornaram-se ideologias políticas. Nelas, como em um espelho, refletiu-se a Modernidade como um projeto e como uma vontade. A esfera do Político é a zona da Modernidade onde ela emerge com todo seu poder e com seu caráter livre. Por isso na Modernidade tudo se assemelha à política. A mesma imagem deste mundo é um fenômeno político.
Desde o princípio da Idade Moderna as ideologias políticas se dividiram em três tipos: a Primeira (o liberalismo), a Segunda (o marxismo) e a Terceira (o fascismo e o nacional-socialismo). Estas três ideologias estão batalhando para se assemelhar ao máximo à natureza da Modernidade, nisto consiste o sentido da história política dos últimos séculos. A história é sempre a história de algumas ideias e seus choques.
O fim do século XX resume a história política da Modernidade. Depois de batalhas dramáticas e encarniçadas, revoluções e duas guerras mundiais, a Primeira teoria política está vencendo. Isto significa que a teoria mais exata manifestando a natureza da Modernidade é o liberalismo, a ordem burguesa, o capitalismo global. Este último é o paradigma básico no presente, que está resumindo a história da Modernidade política, declarando (embora um pouco prematuramente) “o fim da história”, ou seja, o fim da “guerra das ideias”. A ideia triunfante não tem mais rivais ao seu nível.
Com este axioma da contemporaneidade começa a conformação da Quarta Teoria Política. Seu marco inicial consiste no seguinte: a vitória da Primeira teoria, a qual se trata como um ato básico. Aceitamos seu direito de manifestar a natureza da Modernidade, de ser a quintessência da história da Idade Moderna. Aceitamos o fracasso de seus oponentes, que perderam a batalha pelo sentido do presente. Modernidade = liberalismo. Esta fórmula é correta. As tentativas de debatê-la fracassaram. Disso se desprende o seguinte:
- Há que reconhecer a falta de alternativas contra o liberalismo e nos deixarmos de estar arrastando por sua lógica ulterior (pós-moderna);
- Propor uma nova alternativa, baseada segundo outras regras ou outra geometria que as teorias políticas precedentes.
A Quarta Teoria Política é uma segunda escolha. A diferença principal entre ela e outras teorias antiliberais é que esta teoria não é apenas antagonista do liberalismo, já que reconhecendo a identidade do liberalismo e da Modernidade vai contra a Modernidade mesma; não apenas contra suas consequências mas também contra suas raízes. Em outras palavras, a Quarta Teoria Política é uma chamada a uma insurreição radical contra o mundo moderno, a romper seus esquemas, negar sua lógica, suas normas. Nisto a Quarta Teoria Política se solidariza com o programa da Pós-Modernidade, pelo menos com sua orientação à destruição de mitos da Modernidade através da revelação de seu cerne político-instrumental.
A Quarta Teoria Política propõe dar um passo não atrás mas adiante, e não continuar debates com os liberais acerca de tradições de socialismo, comunismo e nacionalismo (todos subprodutos da Modernidade), mas atacar as raízes da Modernidade. Na prática isto significa fundar uma alternativa radical, começando com seus postulados ontológicos, antropológicos, cosmológicos, gnoseológicos, epistemológicos e econômicos. A Quarta Teoria Política é uma tentativa de realizar a síntese da Pré-Modernidade e da Pós-Modernidade, ou seja, de tudo o que não é a Modernidade, o que era antes e o que será depois. Mas enquanto que a Modernidade é global, cada cultura tem sua própria Pré-Modernidade. Disso emana a tarefa de formar tal teoria que se fundamenta como negação universal da ameaça global (do liberalismo como ordem mundial americanocêntrica, ocidental, capitalista) volta a tradições locais e ações revolucionárias e acabará em projeto de futuro multipolar. Negando, desafia desse modo o universal do status quo, e que há que propor um projeto que daria o direito a cada cultura de ser autóctone e independente. Portanto as metas de cada participante do Quarto caminho serão parcialmente comuns (o derrubamento da hegemonia liberal) e parcialmente próprias (a formação da sociedade segundo suas tradições).
O Dasein e seu duplo
O sujeito da Quarta Teoria Política é o Dasein. Isto é um termo da filosofia de Martin Heidegger que reflete o ápice da Quarta Teoria Política como a política existencial. Não podemos tratar o Dasein como uma adição aos sujeitos das três teorias clássicas (o indivíduo no liberalismo, as classes no marxismo, o Estado e a raça no fascismo e nacional-socialismo). Dasein é o que corresponde à natureza do homem como espécie, no estado primário que antecede a todas as superestruturas filosóficas, políticas, sociais e ideológicas. Por isso o termo Dasein é uma implosão do sujeito político, a queda do homo ideologicus (e ideologizado, isso é, fascinado pelo liberalismo, convertido no “fantasma totalitário da evidência”) no fundo de sua facticidade existencial, seu encontro cara a cara com a morte.
Heidegger diz que o Dasein existe em dois estados: o autêntico (eigene) e o inautêntico (uneigene). No primeiro caso se trata de uma exceção, o passo do Dasein para o seu Sein, para si mesmo (Selbst). No segundo caso, esta é a situação habitual, quando Dasein existe no retraimento, ilegítimo, suscitando seu duplo sociológico, ou seja, das Man.
A Modernidade é a esfera da inautêntica existência do Dasein. Por isso todas as ideologias políticas da Modernidade são nada menos que modificações de das Man, os produtos da alienação da existência humana de si mesma. O indivíduo, a classe e o Estado são conceitos quiméricos de um ser perdido, abandonado pela existência. Estes são produtos da decadência, da degradação, do Untergang. Mas a filosofia de Heidegger está exortando-nos a refletir sobre o Dasein não dual: autêntico e inautêntico são os dois estados do mesmo e não duas coisas diferentes. Por isso o Dasein não é interpolado a sujeitos de outras teorias políticas, ele explode os de dentro porque o indivíduo, a classe e o Estado/a raça são suas reflexões deformadas, sombras visíveis, os simulacros. A Quarta Teoria Política implantando o Dasein não pretende transcendê-lo da história, mas o implanta como Untergang um relampejamento de consciência que pode mudar radicalmente o estado através de sua presença. Isto o podemos denominar como “um despertar para a existência” daquilo que, sendo existência, caiu no centro da inexistência e esqueceu que é existência. Mas a Quarta Teoria Política o traz às mentes.
A multiplicidade dos Dasein
A inautêntica existência do Dasein é universal, o das Man sempre é igual. O liberalismo e sua fixação com o indivíduo são o resumo do isolamento. Não há nada mais acorrentado, parecido a uma máquina e previsível que o “indivíduo livre” do modelo liberal. É uma máquina para o consumo que já não tem mais de animal quanto mais humano é. A nova ordem mundial é o reino global do das Man, da impessoalidade máxima individualizada. Por isso o ataque contra o liberalismo na esfera da antropologia política é o destronamento da inautenticidade e o despertar do Dasein existencial. Mas aqui encontramos um problema: se o destronamento do das Man é universal, qual será o Dasein despertado para as diferentes culturas? Não temos uma solução definitiva. A pergunta sobre a multiplicidade ou unidade do Dasein fica sem resposta.
Por um lado, o discípulo de Heidegger e editor de suas obras, o professor Friedrich Wilhelm von Hermann, fazendo referência à opinião de seu mestre, acredita que no nível dos Existenzial o Dasein é algo que vai unido e que em diferentes culturas há somente sua diferente manifestação, ou seja, secundárias (culturais) conformações dos Existenzial. Por outro lado, nisto podemos perceber a continuação do eurocentrismo de Martin Heidegger, quem viu o Logos e a filosofia como fenômenos ocidentais. Por isso a colocação da filosofia de Heidegger em um contexto policultural contando com sociedades asiáticas, africanas e outras muda toda a imagem e propõe a tese sobre a multiplicidade dos Dasein. Com relação à cultura russa, examinamos o tema no livro “Martin Heidegger: a possibilidade da filosofia russa”, mas algo parecido podemos encontrar em outras culturas, por exemplo em obras de representantes da escola de Quioto no Japão; ou do filósofo iraniano Ahmad Fardid ou do filósofo moderno libanês Nader El-Bizri. Para solucionar este problema importante temos que usar a lógica que Heidegger aplicou colocando o problema do monoteísmo e do politeísmo. Ele notou que não a gente, mas os deuses mesmos reunidos em seu Thing decidem se há um deus único ou há muitos deuses. É importante para um homem se aproximar na medida do possível à esfera do Divino, sem sustentar o olhar demasiadamente fixamente, tal importunação pode queimar os deuses ou até espantá-los; é que os deuses, como dizia Platão, são voláteis e prontos à fuga (esta é a etimologia filosófica das palavras gregas θεὸς “deus” e θύω “fugir”).
Por analogia temos que brindar uma oportunidade aos mesmos Dasein despertados para decidir se há um Dasein universal da humanidade ou não. Esta decisão é assunto dos Dasein, e nosso assunto é despertá-los e remeter a questão a eles. Praticamente despertando o Da-sein tratamos seu Da, isso é, sua localização espacial, um lugar que é predeterminado pela cultura e a história. Qualquer lugar é lugar de tal ou qual povo. Por isso o Dasein se desperta através de um povo. Dasein existiert völkisch.
O Dasein é plural a nível de fenômeno. Seu despertar se realiza dentro de um certo lugar (Da). Esse lugar não está vazio. Ele…
- Está ocupado pelos liberais (das Man) como uma soma de ser inautêntico, que está se manifestando em tudo – da cultura à tecnologia, da vida cotidiana à política, da moda à educação.
- Tem uma dimensão interior que corresponde a certo povo e sua cultura.
Por isso o imperativo da revolução libertadora dirigida contra a hegemonia do das Man (do liberalismo, a globalização, a americanização), sempre vai se apoiar em uma tradição cultural concreta. Por isso em cada abordagem ele estará em cada lugar, em cada Da propriamente seu. Se reduzíssemos apressadamente todos os Dasein despertados a um denominador comum, nos arriscaríamos a frustrar toda a estratégia da Quarta Teoria Política e substituí-la por uma nova versão do universalismo escolástico (o que está acontecendo com as ideias de Heidegger, se as pessoas não as compreendem de forma devida; isso o lamentaria o mesmo Martin Heidegger, pois em tal caricatura transformaram os “existencialistas” franceses suas ideias).
Pois, a Quarta Teoria Política constata a multiplicidade fenomenológica dos Dasein, isso é, aceita a tese de que Dasein existiert völkisch. Este princípio não enfraquece a união de todos os Dasein em sua contrarrestação ao inautêntico ser no regime do mundialismo/liberalismo; o inimigo está atacando de maneira global, e para vencer é necessária a coordenação dos Dasein também de maneira global, cada um dos quais está tentando despertar o ser. Mas o inimigo comum está impedindo de fazê-lo. Isto é a unidade em pressupostos. E fica aberta a pergunta sobre o problema da unidade e singularidade dos Dasein dos povos despertados. Portanto o Quarto caminho se faz segundo a sequência dialética: 1) a unidade na negação; 2) o pluralismo na afirmação; 3) a pergunta aberta sobre o horizonte superior da unidade eventual das afirmações. Pode ser que haja que envolver esta unidade máxima com termos apotemáticos, pelo estilo da “henologia” de Plotino ou da teologia negativa de Dionísio Areopagita.
A existência da Espanha Negra
Está próxima a publicação do livro “A Quarta Teoria Política” em espanhol. As explicações antes expostas acerca da multiplicidade dos Dasein já dizem que o conteúdo concreto do programa positivo da Quarta Teoria Política dentro do contexto espanhol é uma tarefa dos espanhóis mesmos. O programa negativo que consiste na análise da lógica dos processos de formação e conflito das ideologias políticas da Modernidade é universal. Neste sentido, a Espanha é parte da Europa, do projeto ocidental responsável pela degradação da humanidade, seu Untergang. A questão é: os espanhóis se dão conta nesta degradação? E aí há que buscar na cultura espanhola aquelas partes onde a compreensão da tragédia da existência humana, da catástrofe ontológica se sentem mais forte. Aqui começa a esfera da existência espanhola única. O que é a Espanha existencial?
Armin Mohler acredita que o símbolo do espírito espanhol é a defesa do Alcázar de Toledo durante a Guerra Civil.
“A defesa do Alcázar de Toledo ao princípio da Guerra Civil durou de 21 de julho a 27 de setembro de 1936. Somente o 27 de setembro os nacionalistas puderam romper o cerco dos vermelhos que sitiavam a cidade. A visita ao Alcázar de Toledo, que permaneceu intacto desde a batalha como uma demonstração da guerra, aclara como passou tudo. Um telefone arcaico sobre uma mesa, umas fotos penduradas nas paredes e o texto de uma conferência telefônica traduzido a muitos idiomas (inclusive japonês, hebraico e árabe). Tudo isto deve recordar os acontecimentos de 23 de julho de 1936.
Esse dia o coronel Moscardó, quem encabeçava a sublevação em Toledo, recebeu uma chamada telefônica desde a cidade. Seu interlocutor era o chefe da milícia vermelha que sitiava a cidade. Propôs ao coronel capitular sem demora, em caso contrário seu filho, que estava em mãos dos vermelhos, seria fuzilado. Os vermelhos deram o telefone ao filho para que confirmasse isto. Entre o pai e seu filho houve o seguinte diálogo:
Filho: Papai!
Moscardó: O que há, meu filho?
Filho: Nada, que dizem que me vão fuzilar se o Alcázar não se rende.
Moscardó: Se é certo, encomenda tua alma a Deus, dá um viva a Cristo Rei e à Espanha e serás um herói que morre por ela. Adeus, meu filho, um beijo muito forte!
Filho: Adeus, papai, um beijo muito forte!
Depois o coronel acrescentou ao chefe da milícia vermelha: Pode economizar o prazo que me deu e fuzilar meu filho, o Alcázar não se renderá jamais.
Desligou o telefone. Seu filho foi fuzilado na cidade.
Aqui os protagonistas não são massas, mas duas figuras definidas e isoladas: o coronel e seu jovem filho. A cena se desenvolve em um estilo frio que já é tão conhecido. Todas as emoções são reprimidas, cada um está desejando jogar seu papel até o fim (senão cumprir com sua missão). Mas tudo isto é animado por uma tensão profunda entre a juventude (o filho pronuncia a palavra “papai”) e a morte (a ameaça pelo lado do chefe da milícia). E ao fundo está a Espanha Negra; aquela Espanha desconhecida pelos turistas, é a terrível Espanha sob a cortina de água, com caras encharcadas, coberta por um lençol de morte”…
O que nos interessa é o contexto político, o espírito espanhol e mais exato no fundo, ante o que se desenvolve uma cena fria e dilacerante ao mesmo tempo. Interessa-nos a Espanha Negra. Ela é a protagonista. Através de ações como a do coronel Moscardó, através de todos os participantes do drama ela está se manifestando. A Espanha Negra como existência orientada à morte.
O duende: a pátria da Morte de García Lorca
Agora mudamos o registro político e passamos a outro flanco da Espanha da primeira metade do século XX, onde reina o mesmo espírito da terra, o ódio ao afastamento, ao capitalismo e a civilização mecânica, a mesma vontade de morte. A voz da “Espanha Negra” é a voz de Federico García Lorca, do poeta da morte, fuzilado durante a mesma guerra civil mas pelo campo contrário. Já não tem nenhum sentido quem foi fuzilado por quem. Todos foram chamados por uma amada, a donzela negra, a Espanha santa, a noiva majestosa do espírito quente.
Na conferência “Da Teoria e Jogo do Duende” em Buenos Aires, Federico García Lorca tratou de contar a última verdade sobre a essência da poesia. Com esforços sobre-humanos buscando uma palavra para descrever o indizível, encontrou a palavra “o duende”: um daimon recôndito e onipotente dos últimos fundos do sangue humano, declarado como a morte e como Espanha.
A teoria do Duende em muitos aspectos concorda com o conceito do Dasein de Martin Heidegger. O Duende é o que faz pasmar os reunidos em uma taberna, ouvindo a voz de uma velha cantora provincial; o que enche o corpo de uma bailarina com arrepios de outono antes dos primeiros sons do flamenco; o que permite a um toureiro ferido de morte pela última vez lançar uma olhada a sua perna ensanguentada; o que aperta os dedos de uma cigana em torno do corpo de uma criança morta e não deixa o grito surgir do peito sofrendo; o que coloca em um poeta maldito o dom de criar um mundo novo. O Duende é um espírito, mas não é algo abstrato, não é uma caricatura mitológica. É um espírito vivo, concreto; ele não conhece diferenças entre o mau e o bom; é recém-nascido mas já penetrado no ser. O espírito/o Duende é a morte, é sua corpórea, concreta, empírica manifestação. O duende significa o dono. Está unido a um lugar. Ele converte este lugar, o topos, na zona de abertura de uma explosão. É um lugar existencial, o lugar do ser-para-a-morte. Isto é o Da, o lugar do Dasein. No momento de acontecimento o ser (Sein) faz do lugar (Da) algo próprio (eigene), ou seja, devém o dono do lugar de sua manifestação, de sua parúsia. Diferentemente do anjo e da musa que vêm de fora, o Duende vem de dentro, dos últimos recantos do sangue, escreve Lorca. Ele se faz o dono do homem quando sente a morte. O duende e a morte são sinônimos, mas é aquela morte que encontra o homem quando ele desperta e devém por diante um homem verdadeiro.
Para Lorca, os topos onde reina o duende têm seu nome. Este nome é Espanha. Escreve:
“A Espanha está em todo momento movida pelo duende. Como país de música e dança milenária, onde o duende espreme limões de madrugada e como país de morte. Como país aberto à morte”.
“País aberto à morte”. Pronunciar isso é pronunciar a essência da Espanha, expressar seu Dasein, isto é, sobre a Espanha o mais espanhol que podemos imaginar. A morte e a abertura, a morte como abertura. Como Heidegger descreve Da, o lugar de Dasein, como precisamente abertura (Offene, Offenheit). Depois Lorca de modo sonâmbulo desenvolve a metáfora, apelando à metafísica do teatro:
“Em todos os países a morte é um fim. Chega e se correm as cortinas. Na Espanha. Não. Na Espanha se descorrem. Muita gente vive ali entre muros até o dia em que morrem e os sacam ao sol. Um morto na Espanha está mais vivo que em nenhum lugar do mundo: fere seu perfil como o fio de uma navalha de barbear… A Espanha é o único país onde a morte é o espetáculo nacional”.
Existir é autêntico para um espanhol, isto significa encontrar o duende, a si mesmo e sua morte. E isto significa também voltar-se a si mesmo e superar os últimos limites.
“O duende… Onde está o duende?” Lorca faz uma pergunta sobre o mapa existencial da Espanha.
“Pelo arco vazio entra um ar mental que sopra com insistência sobre as cabeças dos mortos, em busca de novas paisagens e acentos ignorados: um ar com cheiro de saliva de criança, de grama esmagada e véu de água-viva que anuncia o constante batismo das coisas recém-criadas”.
Ao Império existencial
O despertar da Espanha no contexto da Quarta Teoria Política deve ser antes de tudo uma descoberta de seu plano existencial. Sem isso tudo isto não vale nada. Em uma luta isolada a Espanha tem que encontrar-se a si mesma, ao lado contrário da Modernidade. Isso é na profundidade de seu povo, de sua etnicidade, em pedras e danças e ao mesmo tempo em grandes projetos de todas as épocas. Para uma parte da humanidade europeia a Modernidade como um sítio do isolamento global, como Untergang, é o destino; para toda esta gente o destino é desfazer-se no ar junto com os últimos suspiros da perecível civilização. Mas há outra Europa, mais profunda. Há outra Espanha. A mesma, negra, mortal, mortífera. E seu destino pode ser diferente.
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