12/07/2026

Aleksandr Dugin - O Tempo de Lyapunov

 por Aleksandr Dugin

(1995)


Na física moderna, que explora principalmente “as condições não controladas” e os sistemas caóticos, há um termo técnico para se referir a isto – “o tempo de Lyapunov”. Este termo designa um momento, quando em um certo processo (físico, mecânico, quântico, e inclusive biológico) se ultrapassa seus limites precisos (ou probabilísticos) de previsibilidade e se entra em uma etapa caótica. Em outras palavras, a trajetória de um certo processo está subordinada a leis estritas apenas durante um certo momento em tempo real. Além deste momento, a “normalidade” se acaba e o “tempo de Lyapunov” paradoxalmente se apodera dele (ou para ser mais preciso, o “tempo positivo de Lyapunov”). As características deste “tempo” são muito curiosas. Ao contrário do tempo físico-mecânico normal, o qual é visto pela física clássica como uma quantidade essencialmente reversível (isto quer dizer que o tempo é fundamentalmente um eixo estático, adicionando uma quarta dimensão às três dimensões do espaço; em referência ao modelo educacional de Einstein), o “tempo de Lyapunov” flui irreversível, apenas em uma direção, e, consequentemente, não consiste em uma trajetória definitiva (em um espaço de quatro dimensões), mas em eventos, movimentos completamente imprevisíveis, alguns dos quais são arbitrários, acidentais, irregulares. Os processos que ocorrem durante o “tempo de Lyapunov” são caóticos em contraste com os da mecânica clássica.

Isto pode ser ilustrado com um exemplo da vida cotidiana. Por exemplo, três pessoas estão bebendo. Até certo ponto, seu comportamento é previsível: discutem sobre seus conhecidos, amigos, problemas pessoais, esportes, política, mulheres. Enquanto o nível de intoxicação aumenta, o “ruído” (assim é como os físicos modernos chamam as interferências insubstanciais no fluxo de um processo) começa a afogar a conversa. Estes “ruídos” são expressos nas repetições de certas conversas que os bêbados repetem, vão se tensionando as condições psicológicas, estouram as brigas e os conflitos, a atmosfera geral se endurece. Em certo momento, as condições alcançam um ponto de bifurcação (este é o ponto chave na “teoria da catástrofe” do reconhecido físico René Thom). Isso significa que o comportamento do trio de bêbados, e de cada um dos membros separadamente, pode arbitrariamente tomar duas trajetórias probabilísticas equivalentes. Por exemplo, dois deles adormecem e o terceiro vai para casa. Ou um agride o outro a socos enquanto o terceiro os separa. Ou os três saem à rua e brigam com os transeuntes por ninharias. Ou se separam pacificamente e retornam com suas famílias com uma consciência culpada.

Quando as pessoas se juntam para beber, o resultado final da celebração não é conhecido. Em um momento determinado, a situação se subordina a um limitado número de fatores psicológicos. Mas, quaisquer que sejam as pré-condições, se o progresso da festa continua, tarde ou cedo o ponto de bifurcação é alcançado, e o grupo entra despercebidamente no “tempo de Lyapunov”, onde todas as proporções se erosionam, onde o detalhe de um minuto pode causar uma reação massiva inadequada, onde cada ação seguinte é completamente imprevisível e carece de motivo.

Mas o que é mais interessante é que o “tempo de Lyapunov” não é um período de completa desordem, onde todos os movimentos são absolutamente arbitrários. Mais bem é algo a meio caminho entre um sistema completamente estruturado e a completa ausência de um sistema. Como restos de uma trajetória que fica, o comportamento dos bêbados está subordinado aos fragmentos de determinadas linhas lógico-psicológicas. O caos possui uma estrutura paradoxal, à qual se chama “física do processo de desintegração” ou “sistema de atratores fractais”. Consequentemente, o “tempo de Lyapunov” está sujeito a uma certa medida paradoxal, apenas mais flexível e amplamente entendível que o determinismo “de um sistema integrado” (em outras palavras, as trajetórias ordinárias clássicas e quânticas). Alguns físicos contemporâneos – em particular Ilya Prigogine, creem que o fluxo deste processo do “tempo positivo de Lyapunov” é a chave do mistério da vida. Aqui, neste estado transicional, entre uma estrutura estrita e a completa ausência de estrutura. Neste sistema caótico se encontra a combinação mágica” de lei e liberdade, modelo e evento, determinação e espontaneidade, e esta é a combinação que se chama “vida”.

Um modelo puramente lógico, racional, como o de Kant não é “capaz de compreender o objeto em si mesmo, o essencial da realidade, o qual sempre permanece inacessível e numênico. O “noumenon” permanece em silêncio. Apenas em um mundo caótico, durante o “tempo de Lyapunov”, ocorre uma transição secreta do silêncio à fala, da existência à não-existência, do racional ao irracional, e vice-versa.

É assombroso, mas as ideias de Prigogine e outros teóricos dos “sistemas dissipativos” coincidem perfeitamente com as doutrinas tradicionais da alquimia, os restos da “Pedra Filosofal” que se encontram entre as “partículas do caos ancestral”, o qual o Criador descartou durante a criação! Esta é a magnésia dos filósofos, “nossa Cibele”, “nossa Latona”.

O “tempo de Lyapunov” é um conceito muito importante em dois níveis isomórficos – a realização espiritual individual e a transformação social. Para os indivíduos, se trata de encontrar seu verdadeiro centro, o “tempo de Lyapunov” significa alcançar estados limites, entre a consciência clara do dia e o desvanecimento noturno (alcoolismo, narcóticos, etc.). Apenas neste limiar é possível alcançar este ponto mágico, espectral, onde a existência individual se une com as realidades supraindividuais – com características infracorporais também como puramente angélicas. Esta é a essência dos mecanismos de iniciação. O “tempo de Lyapunov” é uma fase da “iniciação pela morte”. Quem chegar a tomar o controle deste “conduto” poderá superar o fatal limiar dualista da vida e da morte. No nível social aparece uma imagem análoga. Cada regime, acordo social, formação político-econômica está estritamente subordinada a determinadas leis, encarnadas nas estruturas de poder, ideologias, normas internas. Mas a energia social, como qualquer energia no universo corpóreo, diminui em uma direção, “produz entropia”. Essa é a razão pela qual qualquer regime e qualquer formação social funciona logicamente e de acordo com as leis durante um determinado período de tempo. Depois de certo momento, aparece o “tempo de Lyapunov”. Como um grupo de bêbados, depois que alcançam um certo limiar, a sociedade também se volta imprevisível, caótica. Produz-se um crescimento periférico de proporções gigantescas, cujo eixo central se translada às margens.

Sem dúvida, o “tempo de Lyapunov” começou para a União Soviética em 1985. O atual presidente (observem, “imprevisível”) é o exemplo típico de uma “partícula” dentro de um sistema caótico. Diante de nós, nasce o novo sistema liberal que “dissipa os restos” do degenerado sistema socialista. Mas também, enquanto cresce, incrementa a uma velocidade alarmante a entropia, e surpreendentemente começa a se assemelhar às fases finais da sociedade soviética. Não pode ser descartado que este ciclo liberal não seja mais que transitório, pois existem certos sistemas que são inviáveis (em certas condições).

Outro aspecto importante: o colapso do sistema soviético ocorreu diante da completa passividade intelectual de seus principais dirigentes. Em outras palavras, não houve nenhum organismo social que pudesse “compreender” o significado social do “tempo de Lyapunov” em nossa situação e usasse seu precioso conhecimento para cimentar uma nova ordem social. Parecia que todos adormeceram enquanto transcorreram os eventos mais importantes. Mas a morte iniciática é distinta da morte ordinária, pois nela não se perde por completo a consciência (sendo preservada em um regime especial). O caos não deve ser apenas vívido, mas interpretado. Se isto não ocorrer, será inevitável a repetição deste caos. Outra catástrofe, outra fase de mudanças sociais, e outra sequência de “saltos dissipativos”. Ainda mais, isto se repetirá (a um ritmo mais rápido) até que a formação social assuma suas responsabilidades por este perigoso e fascinante trabalho científico e prático dentro das estruturas caóticas.

A “estabilidade” e “solidez” contemporâneas são mais fantasmagóricas e enganosas que as dos últimos dias do Sovdep (e seu retorno ao passado é pouco realista)

Nossa sociedade atual é como um espelho-incorpóreo da idiotice autocomplacente do homem contemporâneo na rua. Mas nós sabemos que o “tempo de Lyapunov” será nossa hora. Por essa razão nossas mãos se estendem… (não, não é o que estão pensando) para os livros de Poincaré, Kolgomorov, Stengers, Thom, Prigogine, Capra, Nichols, Mandelbrot, e outros autores interessantes.

Para nossa doutrina universal da Revolução, além das teorias da “Nova Direita” e da “Nova Esquerda”, também acrescentamos as da “nova física”.