27/02/2022

Aleksandr Dugin - Introdução à Noomaquia (Lição VII) - O Logos Cristão

ÍNDICE

Lição I: Noologia
Lição II: Geosofia
Lição III: O Logos da Civilização Indo-Europeia
Lição IV: O Logos de Cibele
Lição V: O Logos de Dioniso
Lição VI: A Civilização Européia

 

por Aleksandr Dugin

(2018)

Agora falemos sobre o Logos Cristão. Por isso, agora faremos uma breve análise noológica do Cristianismo e da tradição cristã. Eu gostaria de dizer que isso não é dogmático. Estamos considerando o cristianismo como fenômeno cultural, social, político, estrutural, filosófico. Portanto, não defendemos nem acusamos o Cristianismo; lidando aqui, creio, em sua maioria com cristãos ortodoxos como eu, vamos tratar o Cristianismo da maneira correta, mas não insistindo muito em nossas preferências confessionais. Isso é uma espécie de análise noológica. Não discutimos a verdade ou heresia ou o que foi aceito como dogmaticamente correto ou herético. Tudo de que vamos falar será considerado do ponto de vista noológico, da análise estrutural.

Antes de tudo, quando consideramos o Cristianismo e a doutrina cristã do ponto de vista noológico, com base na geosofia e nos Três Logoi, poderíamos facilmente, desde o início, formular alguns princípios gerais a respeito do Cristianismo. Antes de tudo, o Logos do Cristianismo é claramente apolíneo. Antes de mais nada, temos a verticalidade. E o conceito de Deus Pai, o Pai Celestial, a Santíssima Trindade, e a transcendência do Criador diante da criação, tudo isso expressa uma espécie de Logos de Apolo tradicional que já conhecemos. Isso é pura organização vertical do espaço metafísico. Há o Pai Celestial (Pai, não Mãe) que está no Céu, que está na transcendência, que criou o mundo. Ele, portanto, se move de cima para baixo. A criação se desloca da eternidade ao tempo, do céu à terra, de Deus ao homem e às outras criaturas. Há uma lógica puramente apolínea nos princípios dogmáticos básicos. Todas as três pessoas da Santíssima Trindade são consideradas masculinas. Isso é muito importante. Deus Pai, Deus Filho, e Deus Espírito Santo. Todas as três são consideradas como figuras masculinas. Isso, no sentido simbólico, é muito importante. A relação entre a criatura e o criador é hierárquica. As coisas criadas devem ser submetidas ao criador. Portanto, isso é um tipo de hierarquia. E esta verticalidade é a característica básica da tradição cristã. Isso é parte fundamental da essência da tradição cristã. Ela é patriarcal.

20/02/2022

Anton Bryukov - Sociedade e Gênero

por Anton Bryukov

(2020) 


Anteriormente, abordamos os problemas do monarquismo social, que é um desenvolvimento da Quarta Teoria Política, teorizada pelo filósofo Aleksander Dugin. Vladimir Karpets, autor do livro Monarquismo Social, propôs o desenvolvimento teórico e ideológico da QTP, com base nos valores e experiência histórica da Rússia-Eurásia. Os antecessores da teoria do monarquismo social incluem Konstantin Leontiev e Leo Tikhomirov.

Neste artigo vamos abordar a questão do gênero. O gênero é o tipo de identidade mais importante com que uma pessoa nasce e que a molda como pessoa ao longo da sua vida. Deve dizer-se imediatamente que rejeitamos dois extremos radicais: o feminismo frenético do Ocidente decadente e as opiniões excessivamente exageradas de alguns representantes da ala conservadora. Sendo conservadores consistentes, procederemos de acordo com a lógica da história e da civilização russas. Qual tem sido a visão russa do género? Isto é o que comenta Aleksander Dugin sobre o tema da família russa.

16/02/2022

Thomas Bertonneau - Spengler e Berdyaev: Duas Teorias da Renascença

 por Thomas Bertonneau

(2018)


No século XVIII, enciclopedistas panfletários e arrogantes, querendo fazer uma ruptura com a tradição, exaltar a sua autonomia, e celebrar o que eles próprios chamaram de Iluminismo, inventaram a construção histórica tripartida de Antiguidade/Medievo/Modernidade.  Edward Gibbon e Georg Wilhelm Friedrich Hegel assumem esta sequência, tal como Voltaire e Auguste Comte.  Modernidade, o terceiro termo, funciona para tais pensadores como a designação da sua própria superclareza intelectual, que eles veem como o objetivo e consumação da história.  Hegel, tal como o seu sucessor Francis Fukuyama, acreditava que o progresso do espírito humano tinha de fato encontrado o seu objetivo nas suas próprias cogitações e intuições, após o que mais especulações seriam ociosas.  O filósofo russo Nicolas Berdyaev (1874 - 1948), escrevendo no seu ensaio sobre "O Fim da Renascença" (1922), e no rescaldo tanto da Grande Guerra como da Revolução de Outubro, rejeita a construção.  Berdyaev oferece uma previsão: "As delineações escolares da história em antiga, medieval e moderna, estão ficando rapidamente ultrapassadas e serão descartadas dos manuais".  Enquanto a construção tripartida da história provou ser bastante teimosa apesar da convicção de Berdyaev à altura, a teimosia no entanto não valida nada.  Berdyaev apresenta as suas razões.  A história moderna, um termo que Berdyaev coloca entre aspas, "está agora no fim", escreve ele, "e começa algo incognoscível, uma época histórica ainda não nomeada".  Uma época é uma ruptura na continuidade.  Se uma nova fase sem precedentes tivesse rompido com a modernidade de tal forma que "partimos de todas as costas históricas habituais", então esse desenvolvimento desqualificaria necessariamente a modernidade da sua pretensão de ser o fim e a validação de todos os processos históricos.  "O mundo está passando", afirma Berdyaev, "para um estado de fluxo".

13/02/2022

Aleksandr Dugin - A Doutrina Tradicional dos Elementos (Lição IV) - A Metafísica da Luz

ÍNDICE

Lição I: A Restauração dos Fundamentos Filosóficos da Ciência
Lição II: Continuidade e Descontinuidade dos Elementos
Lição III: Os Elementos no Mito da Caverna de Platão. Símbolos da Hierarquia Ontológica e dos Estados do Ser
Lição IV: A Metafísica da Luz


por Aleksandr Dugin

(2021)

Transcrição da comunicação do IIIº Encontro do Clube dos 5 Elementos


Para começar, gostaria de dizer que no platonismo há uma particularidade na semântica dos termos mais centrais. Nos termos que formam uma estrutura essencial da filosofia platônica. O momento central é precisamente a separação ou divisão entre mundo intelectual ou contemplativo e o mundo sensível ou perceptível, que podemos tocar ou perceber fenomenologicamente.

É interessante que há dois polos: 

o intelectual, e 
o sensível. 

Em certo sentido, porém, um se manifesta e o  outro permanece oculto. Mas quando começarmos a observar um pouco mais de perto esses termos usados para descrever, no platonismo, o mundo fenomenológico e o mundo contemplativo/intelectual, de maneira paradoxal, não encontramos termos opostos.

Por exemplo, o mundo fenomenológico/sensível, o mundo dado a nossos sentidos, se define com o termo phainesthai, phaino, phos, deixar perceber na luz. O mundo sensível é o mundo visível. Podemos vê-lo. Essa visibilidade é característica essencial do mundo estético (aisthesis), do mundo fenomenologicamente dado.

12/02/2022

Alain de Benoist - Por uma Europa Iliberal

 por Alain de Benoist

(2019)


Senhoras, Senhores, Prezados amigos,

Vou falar de um fenômeno relativamente novo que não está sem relação com o tema deste dia. É o iliberalismo. A palavra é um pouco bárbara, mas seu significado é bastante claro: designa o aparecimento de novas formas políticas que defendem a democracia, mas ao mesmo tempo desejam romper com a democracia liberal que hoje se encontra em crise em quase todos os países do mundo.

O termo apareceu no final dos anos 90 nos escritos de alguns cientistas políticos ilustres, mas foi apenas muito recentemente, em 2014, que ele se firmou junto ao grande público quando o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, declarou publicamente, durante uma Universidade de Verão de seu partido: "A nação húngara não é um agregado de indivíduos, mas uma comunidade que devemos organizar, fortalecer e elevar também. Neste sentido, o novo Estado que estamos construindo não é um Estado liberal, mas um Estado iliberal". Ele acrescentou que agora é hora de "compreender sistemas que não são ocidentais, que não são liberais e que, no entanto, fizeram certas nações terem sucesso".

O que ele quis dizer com isso? E qual é basicamente a diferença fundamental entre a democracia liberal e a democracia iliberal?

02/02/2022

Marc Eemans - As Origens da Tradição Primordial na Obra de Bal Gangadhar Tilak

por Marc Eemans

(1981)


Nos círculos evolianos e guenonianos, é facilmente feita referência à "Tradição Primordial", bem como à "Civilização Hiperbórea" e ao "Símbolo Polar", sem que fique claro o que se quer dizer com isso. Estas noções e conceitos abrangem um "Mito Fundador" ou um "Mito Mobilizador"? Não está claro. O livro fundamental de Julius Evola, Revolta contra o Mundo Moderno, nos fala de tudo isso em sua primeira parte, que se refere ao "Mundo da Tradição", sem no entanto se preocupar demais com as bases científicas concretas que o teriam fundado. Pelo contrário, Evola rejeita estas bases, a fim de apelar para noções ou princípios extracientíficos, pois para Evola "A Tradição começa onde, tendo sido alcançado um ponto de vista supraindividual e não humano, tudo isto [o ponto de vista da ciência] pode ser superado". E Evola acrescenta: "Em particular, de fato, não há mito, senão aquilo que os modernos construíram sobre o mito, concebendo-o como uma criação da natureza primitiva do homem, e não como a forma adequada para um conteúdo suprarracional e supra-histórico. Há pouca necessidade de discutir ou 'demonstrar'. As verdades que podem tornar o mundo tradicional compreensível não são aquelas que podem ser 'aprendidas' e 'discutidas'. Eles são ou não são". Na nota 6 no final desta citação, Evola apela para um testemunho de Laozi, bem como para um texto tradicional hindu, do qual ele observa a seguinte frase: "Todos os livros que não têm a Tradição como base vieram da mão do homem e perecerão: esta origem mostra que eles são inúteis e falsos.

28/01/2022

Robert Steuckers - A Era da Piropolítica está Chegando

 por Robert Steuckers

(2016)

O que os cientistas políticos querem dizer quando falam sobre “piropolítica”? Há duas fontes a serem exploradas para entender o que querem dizer; primeiro, é necessário investigar todo o mundo da teologia política, incluindo o pensamento de Juan Donoso Cortés sobre o liberalismo, o socialismo e o catolicismo (o último sendo visto como a própria Tradição) e, é claro, deve-se estudar minuciosamente a tese central de Carl Schmitt, que prova que todas as ideias políticas possuem um fundo teológico; segundo, é necessário levar em consideração a percepção de Schmitt da política mundial como uma batalha entre os elementos básicos, como a Terra e a Água. A política real, chamada em alemão genuíno como "das Politische", é necessariamente atrelada à Terra, continental, e o homem político que é realmente eficiente é um tipo de geômetra romano que organiza o território sob sua jurisdição simplesmente medindo-o.

Após as duas derrotas alemãs, em 1918 e 1945, a Terra não é mais o elemento central da política mundial, sendo substituída pela Água. Assim, nasce a nova dialética subversiva e destruidora de Land und Meer, ou Terra e Mar, em que a Água alcança a vitória no final. O diário de Schmitt, Glossarium, editado postumamente, insiste com veemência nos efeitos destruidores da “hidropolítica” norte-americana, vitoriosa e conquistadora do mundo. “Pyros” significa “fogo” em grego e representa, de acordo com Michael Marder (citado abaixo), mais um elemento básico, combinando não só a ideia de uma chama voraz e ardente, mas também os correspondentes “luz” e “calor”. Embora Schmitt reduza as possibilidades da política a dois elementos (Terra e Água), isso não significa que o Fogo ou o Ar não existam e não tenham um papel, mesmo que menos perceptível.

20/01/2022

Aleksandr Dugin - Qassem Suleimani, o Mártir do Mundo Multipolar e a Nova Geografia da Grande Guerra dos Continentes

 por Aleksandr Dugin

(2020)

O Assassinato do General Suleimani no Contexto do Apocalipse 

O assassinato do General Qasem Suleimani, comandante das forças especiais Al-Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, em 3 de janeiro de 2020 por mísseis americanos foi um momento distinto marcando um estado de coisas completamente novo no alinhamento das forças no Oriente Médio. 

Na medida em que o Oriente Médio é um espelho das mudanças globais na geopolítica mundial, este evento é de uma dimensão ainda maior que diz respeito à ordem mundial como um todo. Não é por acaso que muitos observadores interpretaram a morte do General Suleimani, um heroi da luta contra o ISIS na Síria e no Iraque, como o início de uma Terceira Guerra Mundial ou, no mínimo, de uma guerra dos EUA contra o Irã. O ataque de mísseis iranianos contra duas bases militares americanas no Iraque em 8 de janeiro de 2020, ao que parece, confirma esta análise: A morte de Suleimani é o ponto de partida da "batalha final". É exatamente assim que este evento foi percebido no mundo xiita, onde as expectativas do fim do mundo e da vinda do Mahdi, o Salvador prometido no final dos tempos, são tão fortes que afetam não apenas sua visão de mundo religiosa, mas também a análise dos eventos políticos e internacionais cotidianos. Os xiitas veem o fim do mundo como "batalha final" entre os partidários do Mahdi e seus oponentes, as forças do Dajjal. Acredita-se que os partidários do Mahdi sejam muçulmanos (tanto xiitas como sunitas, mas com exceção de correntes como os wahhabis e salafis, que são reconhecidos como extremistas, "hereges" e "takfiri"), enquanto o Dajjal, o Anticristo Islâmico, está firmemente associado ao Ocidente, em primeiro lugar e principalmente aos Estados Unidos da América. A maioria das profecias dizem que a batalha final acontecerá no Oriente Médio, e que o próprio Mahdi aparecerá em Damasco. A figura do Mahdi também pode ser encontrada entre os sunitas, mas se os xiitas acreditam que tal seja a aparência do "Imã escondido" que permanece vivo mas "escondido" até hoje, então os sunitas interpretam o Mahdi como o líder do mundo islâmico a aparecer no fim dos tempos para travar uma batalha decisiva contra o Dajjal, no qual a maioria dos sunitas vê a civilização materialista e ateísta do Ocidente moderno e, portanto, a hegemonia estadunidense como a mais agressiva vanguarda do Ocidente. 

16/01/2022

Pietro Missiaggia - Nick Land e a Atualidade do Iluminismo Escuro

 por Pietro Missiaggia

(2021)


O filósofo britânico Nick Land, nascido em 1962, conhecido como o pai dessa tendência filosófica nascida nos anos 90, na época da crise das ideologias, e frequentemente chamado de aceleracionismo, é pouco conhecido na Itália e nos países da Europa mediterrânea; somente nos últimos dois anos duas de suas obras foram traduzidas para o italiano: Colapso. Escritos 1987-1994 editado pela Luiss University Press, e O Iluminismo Escuro traduzido e editado pel Gog Edizioni. Gostaríamos de analisar alguns aspectos deste último trabalho, que representam as teorias inovadoras da Land e são muitas vezes úteis para a compreensão de nossos tempos.

O Iluminismo Escuro é um texto publicado pelo pensador britânico em 2013 em "episódios" em um dos muitos blogs da Internet frequentados pelos membros da chamada "direita alternativa" ou Alt-Right. O livro de Land tem sido frequentemente definido, por muitos comentaristas mais ou menos ignorantes, de boa ou má fé ou simplesmente politicamente corretos (um erro também cometido pelos editores da Gog), como um texto inspirador de supremacia branca, fortemente apologético em relação à eugenia e considerado a soma de um pensamento irracional, agressivo, anti-igualitário e cerebral. Neste pequeno texto analisaremos trechos do texto de Land para tentar compreender objetivamente seu pensamento e o que nele pode ser útil para nossa era, que é uma era de dissolução.

13/01/2022

Marcelo Gullo - A Comunidade Desorganizada

 por Marcelo Gullo

(2019)


Em 9 de abril de 1949, na Universidade Nacional de Cuyo, o general Juan Domingo Perón apresentou, diante de alguns dos mais importantes filósofos do mundo, um texto – síntese de base filosófica – sobre o que representava sociologicamente a terceira posição sustentada por seu governo. O discurso lido por Perón passaria para a história como “A Comunidade Organizada”. Mas, é importante entender – como o próprio Perón esclareceu nesse 9 de abril – que a Comunidade Organizada era para ele tanto um modelo ideal a alcançar como um plano em execução. Um modelo e um plano que ele mesmo havia ideado, e que como presidente da Nação, estava executando. Um modelo e um plano que ele mesmo havia ideado, e que como presidente da Nação, estava executando. Não obstante, antes de adentrarmos na recordação e na análise, para que este não seja uma mais das tantas falsas homenagens aos 70 anos da Comunidade Organizada, é necessário confessar então que esse ideal se evaporou no tempo e que a Argentina que Perón construiu se desvaneceu. Porque a única verdade é a realidade e só a verdade nos faz livres, é preciso reconhecer então que a Comunidade Organizada que Perón pensou e construiu junto ao povo argentino já não existe.