08/06/2011

Espíritos Livres - Novos Filósofos

44. Depois de tudo isso, ainda preciso dizer expressamente que esses filósofos do futuro também serão espíritos livres, muito livres – tão certo quanto eles também não serão meramente espíritos livres, mas algo ainda mais, mais elevado, maior e fundamentalmente distinto, que não quer ser mal-interpretado e confundido com outra coisa? Mas, ao dizer isso , sinto quase tanto em relação a eles quanto em relação a nós, que somos seus arautos e precursores, nós, espíritos livres! – sinto a obrigação de varrer para longe de nós todo um velho e estúpido preconceito e mal-entendido que turvou como um nevoeiro o conceito de “espírito livre” por tempo demasiado. Em todos os países da Europa, assim como na América, há quem hoje cometa abusos com esse nome, uma espécie de espíritos muito estreita, aprisionada, agrilhoada, que quer mais ou menos o contrário daquilo que se encontra em nossos propósitos e instintos – para não falar que, em vista desses novos filósofos vindouros, eles devem ser antes de tudo janelas fechadas e portas aferrolhadas. Eles pertencem, para dizê-lo numa só e horrenda palavra, aos niveladores, esses falsamente denominados “espíritos livres” – como eloqüentes e escrevinhadores escravos do gosto democrático e de suas “idéias modernas”: todos eles homens sem solidão, sem solidão própria, rapazes toscos e bem-comportados, aos quais não se deve negar coragem nem costumes respeitáveis, só que eles são acanhada e ridiculamente superficiais, sobretudo na sua inclinação fundamental de ver nas formas da sociedade antiga até agora existente mais ou menos a causa de toda miséria e fracasso humanos: no que, felizmente, a verdade vem a estar de pernas para o ar! O que gostariam de obter com todas as forças é a felicidade campestre do rebanho, universal, verde, com segurança, inofensividade, bem-estar, facilitação da vida para todo mundo; as duas cantilenas e doutrinas mais cantadas chamam-se “igualdade de direitos” e “compaixão para com tudo que sofre” – e o próprio sofrimento é tomado por eles como algo que se deve eliminar. Nós, os contrários, que abrimos um olho e uma consciência para a questão de saber onde e como até agora a planta “homem” cresceu nas alturas com mais vigor, somos da opinião de que isso ocorreu toda vez sob as condições contrárias, que para isso a periculosidade de sua situação teve antes de crescer até a exorbitância, sua força inventiva e dissimuladora (seu “espírito” – ), de desenvolver-se sob prolongada pressão e coação até tornar-se algo sutil ou ousado, sua vontade de vida, de elevar-se até chegar a ser absoluta vontade de poder: – somos da opinião de que a dureza, a violência, a escravidão, o perigo na rua e no coração, o ocultamento, o estoicismo, a arte de tentador e a diabolice de toda espécie, de que tudo que no homem é mau, terrível, tirânico, rapinante e ofídico serve tão bem para a elevação da espécie “homem” quanto o seu contrário: – nós até mesmo dizemos o bastante quando apenas dizemos isso, e nos encontramos, em todo caso, com o nosso falar e calar nesse aspecto, na outra ponta de toda a moderna ideologia e aspiração de rebanhos: como seus antípodas, talvez? Será de admirar que nós, “espíritos livres”, não somos exatamente os espíritos mais comunicativos? Que nós não desejamos, em cada aspecto, revelar do que um espírito que pode se libertar e para onde ele talvez seja então impelido? E quanto à importância da perigosa fórmula “além do bem e do mal”, com a qual, pelo menos, nos resguardamos de ser confundidos com outros: nós somos algo diverso dos “libres-penseurs”, “liberi pensatori”, “livres pensadores” ou seja lá como for que todos esses honrados porta-vozes das “idéias modernas” gostam de se denominar. Estivemos em casa em muitos países do espírito, pelo menos na condição de hóspedes; esgueirando- nos sempre outra vez do recanto abafado e agradável em que a afeição e desafeição , a juventude, a origem, o acaso de pessoas e livros, ou mesmo a fadiga das andanças pareciam nos cativar ; cheios de maldade para com os chamarizes da dependência que se encontram escondidos em honras, ou dinheiro, ou cargos, ou entusiasmos dos sentidos; gratos inclusive à privação e às vicissitudes da doença, pois sempre nos livraram de alguma regra e de seu “preconceito”, gratos para com deus, diabo, cordeiro, e verme entre nós, curiosos que chegam ao ponto do vício, investigadores que chegam ao ponto da crueldade, com dedos que não hesitam diante do inapreensível, com dentes e estômagos para o mais indigesto, prontos para todo ofício que exija agudeza e sentidos aguçados, prontos para a ousadia, graças a um excesso de “livre-arbítrio” com almas de fachada e de fundos, às quais ninguém vê facilmente seus propósitos últimos , com fachadas e fundos que nenhum pé deveria percorrer até o fim, ocultos sob o manto da luz, conquistadores , ainda que pareçamos, ordenadores e colecionadores desde manhã até a noite, avarentos de nossa riqueza e de nossas gavetas abarrotadas, econômicos no aprender e no esquecer, inventivos em esquemas, às vezes orgulhosos de tábuas de categorias, às vezes pedantes, às vezes corujas do trabalho mesmo em dia claro; e até, caso seja necessário inclusive espantalhos – e hoje é necessário: ou seja, na medida em que somos os amigos natos , jurados, ciumentos da solidão, a nossa própria, mais profunda, mais noturna, mais meridiana solidão: – semelhante espécie de homem somos nós, nós, espíritos livres! E talvez vós também sejais algo disso, vós, vindouros? Vós, novos filófosos?


Trecho de: Friedrich Nietzsche - Além do Bem e do Mal

06/06/2011

Uma visão tradicionalista

Por Edouard Rix
Por que combatemos? Esta é a questão fundamental que todo o soldado político deve colocar. Por contraditório que possa parecer somos tentados a responder que lutamos pela Tradição e pela Revolução. A Tradição Antes de mais não se deve confundir a Tradição com as tradições, isto é, os usos e costumes. A Tradição designa o conjunto dos conhecimentos de ordem superior referentes ao Ser e suas manifestações no mundo, tal como nos foram legados pelas gerações anteriores. Ela assenta não no que foi uma vez, num tempo e espaço determinados, mas no que é de sempre. Admite uma variedade de formas – as tradições –, ao mesmo tempo que permanece una na sua essência. Não poderíamos confundi-la com a tradição religiosa única porque ela cobre a totalidade das actividades humanas, políticas, económicas, sociais, etc. No seguimento de Joseph de Maistre, de Fabre d’Olivet e, sobretudo, de René Guénon, Julius Evola fala de uma «Tradição primordial» que, historicamente, permitiria contemplar a origem concreta de um conjunto de tradições. Tratar-se-ia de uma tradição hiperbórea, vinda do Extremo Norte, situada no começo do presente ciclo de civilização, em particular das culturas indo-europeias. Do ponto de vista de Evola «uma civilização ou uma sociedade é tradicional quando é regida por princípios que transcendem o que é meramente humano e individual, quando todas as suas formas vêm do cimo e quando ela está toda orientada para o alto». A civilização tradicional assenta então em fundamentos metafísicos. É caracterizada pelo reconhecimento de uma ordem superior a tudo o que é humano e contingente, pela presença e autoridade de elites que retiram desse plano transcendente os princípios necessários para assegurar uma organização social hierarquicamente articulada, abrindo as vias para um conhecimento superior e conferindo por fim à vida um sentido vertical. O mundo moderno é quanto a ele o oposto do mundo da Tradição que se personificou em todas as grandes civilizações do Ocidente e Oriente. É-lhe próprio o desconhecimento de tudo o que é superior ao homem, uma dessacralização generalizada, o materialismo, a confusão de castas e raças. A Revolução Quanto ao termo Revolução deve ser entendido na sua dupla acepção. No seu sentido actual, o mais correntemente utilizado, Revolução significa mudança brusca e radical no governo de um Estado, a Revolução francesa e a Revolução soviética de 1917 são uma ilustração perfeita. Não obstante, no seu sentido primeiro, Revolução não significa subversão e revolta mas o contrário, a saber, regresso a um ponto de partida e movimento ordenado em torno de um eixo. É assim que, na linguagem astronómica, a revolução de um astro designa precisamente o movimento que ele realiza gravitando em torno de um centro, o qual contém a força centrífuga, impedindo o astro de se perder no espaço infinito. Ora nós estamos hoje no fim de um ciclo. Com a regressão das estirpes, a descida progressiva da autoridade de uma a outra das quatro funções tradicionais, o poder passou dos reis sagrados a uma aristocracia guerreira, depois aos comerciantes, por fim às massas. É a idade de ferro, o Kalî-Yuga ário, idade sombra da decadência, caracterizada pelo reino da quantidade, do número, das massas, e a correria desenfreada à produção, ao lucro, à riqueza material. Ser pela Revolução hoje, é pretender o regresso da nossa civilização europeia a um ponto de partida original, conforme aos valores e aos princípios da Tradição, o que passa, reivindicando a expressão de Giorgio Freda, pela «desintegração do sistema» actual, antítese do mundo tradicional ao qual aspiramos.

Os homens entre si


"Com os clubes e as sociedades secretas, afirma Lionel Tiger, 'os homens fazem a corte aos homens'. As grandes confrarias profissionais, as corporações estudantis, as ordens, as sociedades secretas são meios de reforçar (e de exaltar) o vínculo intermasculino. Seja no colégio ou no exército, as cerimónias de iniciação, por vezes bizarras e mesmo cruéis, evoam os ritos de passagem da puberdade (com a transposição que se impõe: é-se adulto quando se detém o conhecimento ou o poder) e apertam os laços entre iniciados. Os clubes femininos, pelo contrário soçobram regularmente na desordem e nos mexericos.

(...) Tiger lembra que o homem, em relação à mulher, é ao mesmo tempo mais racional e mais irrazoável. O homem sabe que se lança por vezes em aventuras sem esperança, que enfrenta desafios extravagantes. Mas ele pensa que não deve dar o braço a torcer. Esta concepção do sacrifício inútil decorre directamente de uma ética de honra. A mulher, ela, vê as coisas de outro modo. Ela reprova ao homem o seu orgulho. Ela acusa-o de correr atrás de quimeras, e de negligenciar as suas responsabilidades familiares. Para ela, nunca se dá o braço a torcer quando se é razoável. No fim de contas, o homem é sempre uma criança. Os alemães têm uma palavra para isto: Das Kind im Manne — a criança que, no homem feito, é a memória viva de um passado sempre destinado a inspirar o futuro.

Montherlant dizia que um homem sem criancices é um monstro horrível. Nietzche, ao contrário, propunha pôr na acção a seriedade que a criança põe no jogo — quer dizer, precisamente, consideraras coisas sérias como um jogo. Daí, no homem, essa nostalgia dos lugares de infância e dos amores adolescentes — dos quais Jules Romains pode dizer que são uma mistura de angelitude e de obscenidade. As sociedades que acentuam a segurança, o conforto, às quais repugna o risco, são sociedades em que os valores masculinos estão em declínio. «Faça amor, não a guerra» é um slogan feminino que se traduz por: «Façam-nos amor, não façam guerra entre vocês».

O homem nunca acaba, como nos tempos da sua infância, de ir aos ninhos de pássaros. Não tanto pelos ninhos, aliás, mas para trepar ao alto das árvores. Ele quer sempre ir mais longe, mais depressa, mais alto. Ele tem prazer na competição, ele admira os records. A mulher pergunta «para que é que isso serve». É por isso que cabe à mulher preservar o que o homem adquiriu. A sociedade mantém-se assim — e renova-se eternamente.

Alain de Benoist in "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas".

05/06/2011

O Elitismo às avessas

Por Gustave Thibon

Quando me fazem perguntas sobre a promoção social e respondo que ela deve consistir na selecção dos melhores, logo me acusam de “elitista”.

O termo é recente e implica uma cambiante pejorativa: espírito e orgulho de casta, desprezo dos humildes, etc. Redescubramos o sentido das palavras. Elite (de escolhido, eleito), segundo o dicionário, designa “o que há de melhor” nas coisas e nos seres. Assim, os grandes vinhos de Bordéus fazem parte da elite dos vinhos, os famosos “verdes” de Saint Etienne representam a elite dos jogadores de futebol, etc.

Uma vez que concordamos nisto, não é normal preferir e privilegiar o melhor? Será que, para evitar o elitismo, sou obrigado a achar tão saboroso o frango criado com hormonas em aviário como o frango criado no campo? E não é justo que, na sociedade, os melhores lugares sejam para aqueles que se distinguem pelos seus talentos e pela sua actividade e que prestam assim os melhores serviços à comunidade? Não é verdade que os exames escolares, a qualidade do trabalho e a competição profissional actuam nesse sentido? E como não pode existir sociedade sem hierarquia, não é desejável que essa hierarquia assente na selecção e na promoção dos melhores? Para dar o exemplo de casos extremos, seria elitismo suspeito recusar um posto de professor a um analfabeto ou a carta de condução a um cego?

O que me inquieta hoje é o desenvolvimento cada vez mais difundido de um novo elitismo, um elitismo às avessas, resultante de uma falsa noção de igualdade e de uma sentimentalidade transviada, que se manifesta pela preferência dada aos inadaptados, aos inúteis, aos parasitas e, até, aos malfeitores.

Vejamos alguns exemplos desta inversão de valores.

Conheço professores que afirmam que os maus alunos são mais interessantes que os alunos dotados e que recusam energicamente os velhos critérios de selecção: notas, classificações, exames, etc.

Não é verdade que a segurança social – da qual não contesto o princípio humanitário, mas o modo de funcionamento em que florescem o anonimato e a irresponsabilidade – favorece mais frequentemente os preguiçosos e os trapaceiros em detrimento dos trabalhadores que, fiéis ao seu dever, não sentem necessidade de transformar o menor incómodo de saúde em repouso imerecido e em tratamentos supérfluos?

A inflação vai roendo, em cada dia, os rendimentos e as economias dos produtores. Mas permite aos especuladores realizar lucros enormes sem realizar qualquer trabalho útil, pelo simples jogo das divisas monetárias.

Os malfeitores e os criminosos inspiram maior comiseração que as suas vítimas, uma vez que a sociedade é declarada a priori a grande, senão a única culpada. Já me referi ao caso de uma prisão moderna instalada na Córsega, onde, exceptuada a residência forçada, os detidos gozam de um conforto e de um luxo (praia privativa, centenas de hectares de parque, etc.) com que a maior parte das pessoas honestas não pode sequer sonhar…

E porque não falar também da atenção e publicidade privilegiadas de que beneficiam os marginais de toda a espécie: “hippies”, prostitutas, tarados sexuais, etc.? E do êxito das publicações e dos espectáculos que abundam nessa linha? Como se, por uma estranha perversão do paladar, a sociedade se tivesse tornado mais gulosa do que a envenena que do que a alimenta…

Termino a série destes exemplos com uma anedota saborosa. Numa universidade estrangeira, cujo nome não cito, dois professores de competência mais ou menos igual apresentam-se à escolha das autoridades académicas como candidatos a uma cátedra. Um deles é um homem perfeitamente equilibrado, o outro um grande nevrótico, titular dos vários diplomas exigidos e também de algumas depressões que comprometeram a sua docência anterior. A cátedra é atribuída ao segundo, com a justificação de que a sua natureza frágil não suportaria a provação da recusa, ao passo que o primeiro é uma pessoa solidamente estruturada para aceitar o revés sem problemas. Compreendo que haja compaixão para com um infeliz. Mas não compreendo a cruel inconsciência em relação ao seu colega, eliminado por causa da sua própria superioridade, e em relação às centenas de alunos que sofrerão mais tarde as consequências de uma escolha desumana por excesso de humanidade…

Assim se afasta a elite fundada sobre o valor para se instalar uma contra-elite: a da escumalha e do rebotalho. Se se continuar a avançar por este caminho, bastará ser superior ou simplesmente normal para merecer a indiferença, se não a suspeita e o desfavor…

Entendam-me bem: não nego que os mais fracos devem ser não só protegidos contra os abusos dos mais fortes mas também ajudados por estes; afirmo simplesmente que não deviam ser preferidos e privilegiados como tais; afirmo que a incapacidade e, com maior razão, o parasitismo e as malfeitorias não devem dar direito a tratamento de favor. Ajudem-se os deserdados, reeduquem-se os anormais, mas que as suas falhas e as suas taras não se tornem meios de chantagem e motivos de promoção.

Também sei que é difícil conservar o equilíbrio, mesmo nas sociedades mais sãs, entre os direitos do mais forte (e tomo esta palavra no seu sentido mais elevado: força da inteligência e da vontade, capacidade de acção, etc.) e o dever de socorrer os mais fracos e os transviados – entre a lei da selva que elimina implacavelmente os inadaptados e um humanitarismo deliquescente que consagra e incentiva a incompetência e o vício. Mas nem por isso deixa de ser verdade que – e esse é um dos perigos do nosso liberalismo dito “avançado” – se continuar a generalizar-se esse deslocamento da elite de cima para baixo, é toda a sociedade a correr o risco de se afundar sob o peso desta promoção às avessas que é a promoção dos inúteis e dos parasitas.

Da democracia


"Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores – em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito."

Aldous Huxley in "Sobre a Democracia e Outros Estudos".

03/06/2011

A ilusão do "novo"

Por Manuel Azinhal

Ao ouvir há pouco tempo declarações de um nosso conhecido político em que este insistia enfaticamente no apelo a “ideias novas”, “políticas novas”, “um novo discurso”, e mais não sei quantas coisas todas novas, dei por mim a pensar num talvez acaso que para mim ao menos se apresenta deveras intrigante. Qual é o adjectivo que marca presença constante na apresentação de todas as iniciativas oriundas do campo político que se convencionou situar à direita?

Não há qualquer dúvida: observando os cem anos mais recentes da vida da direita, logo nos damos conta que os seus movimentos, grupos, jornais, revistas, associações, repetem com uma frequência espantosa, nas suas designações e discursos identificadores, variantes à volta da palavra “novo”.

Que me ocorram de repente, houve (e em alguns casos mais de uma vez): Ideia Nova, República Nova, Estado Novo, Ordem Nova, Força Nova, Cidade Nova, Praça Nova, Renovação, Novo Impulso, Portugal Novo, Tempo Novo, Nova Monarquia, Nova Direita. Quando não foi Novidades, Jovem Portugal, Jovem Europa, Jovem Revolução, e mais designações afins.

Certamente poderão ajudar-me com mais exemplos. Repare-se que se considerarmos os cem anos anteriores, aqueles que vão desde a Revolução até ao esgotamento da reacção contra-revolucionária (estou a utilizar a palavra “direita” com o mesmo sentido dado por Molnar à sua “contra-revolução”) não se observa essa obsessão pelo “novo”, e em verdade ela seria impensável.

Todos os grandes autores da contra-revolução convergem na afirmação de que não querem nada de novo, mas sim o pleno reconhecimento da verdade política negada pela Revolução. Reclama-se um Rei como o tinham sido sempre os nossos reis, o respeito pelas antigas tradições e costumes.

Quem queria as novidades eram os revolucionários. Que se passou então na viragem do século, entendendo por viragem do século aquele período que se inicia com as transformações que desembocam na Primeira Guerra Mundial e se consumam com o decurso desta? Aparentemente, terá ocorrido algures um encontro entre a velha contra-revolução e os elementos de vária origem que conduziram ao fascismo e ao nacional-socialismo.

Constata-se que entre a parte final do século XIX e essa primeira parte do século XX atingiram a sua máxima glória as formulações positivistas, com o seu programa de uma “humanidade nova”, e vitalistas, com exaltantes visões de um “homem novo”.

Por Comte ou por Nieztsche, ou pelo hegelianismo como Gentile, o certo é que as elites intelectuais de então beberam de fontes bem diferentes do tradicionalismo e daí surgiu uma “direita revolucionária”.

Parece-me rigoroso distinguir um ciclo político longo de um século em que a direita intervém para reclamar contra o “novo”, e um outro ciclo da mesma duração e que se lhe segue em que a intervenção política da direita é feita invocando para si a novidade, em contraposição ao situacionismo.

Ao que fica dito pode dirigir-se a crítica da confusão de planos: as minhas reflexões misturam realidades observáveis ao nível da praxis política, muitas vezes explicáveis por meras razões de conjuntura e meros tacticismos, com considerandos mais pretensiosos atinentes à história das ideias políticas da família. Assim é, mas mesmo assim não quis deixar de partilhar as perplexidades, já que respostas satisfatórias para elas não as tenho.

Questiono-me quais as razões profundas para uma mudança tão radical que faz com que a direita geralmente repudie com indignação qualquer insinuação de ser herdeira, quando antigamente o que a distinguia, e exibia orgulhosa, era a sua condição de continuadora de uma tradição que se pretendia ininterrupta. A direita queria-se defensora do permanente, olhava desdenhosa para o “novo”. Depois passou a ter como questão de princípio discutir com a esquerda quem é que representa o “novo”.

Aquilo que aponto tem como consequência frequente que cada grupo direitista fala e começa como se o mundo começasse com ele. As suas proclamações começam logo à cabeça por esclarecer que nada os liga aos que os precederam, que não são sucessores, nem herdeiros, nem continuadores, de nada nem de ninguém, e consequentemente que a sua história é uma espécie de tábua rasa.

Um esquerdista típico tem para este fenómeno explicação fácil: a direita, perversa como é, pretende sempre esconder a sua verdadeira personalidade e fugir às responsabilidades. Está a disfarçar-se. Esta teoria, como se compreende, terá alguma verdade em situações em que a identificação significa incorrer em imediata condenação, quando não em ilícito criminal (v. g., é normal que na Alemanha pós-nazismo qualquer agrupamento de direita que quisesse legalizar-se escrevesse logo no intróito dos seus estatutos que nada tinha a ligá-lo ao regime anterior, independentemente da veracidade e da sinceridade da declaração).

Mas a explicação nada explica quando a pretendemos aplicar quer aos teorizadores que foram chamando para o seu lado a “revolução”, ou a “verdadeira revolução”, ou o estar “para além da revolução”, quer aos práticos que no terreno vão demonstrando todos os dias uma genuína vontade de começar do zero, de mistura com uma crença ingénua nas virtudes do “novo”, porque é “novo”, e uma convicção autêntica, embora palerma, de que são realmente algo de “novo”.

A Soberania do Povo

"O que é a soberania do Povo? A soberania do Povo é a tirania irresponsável e anónima. É a tirania dos partidos políticos. É a tirania das manobras dos clubs e dos grupos. É a tirania do acaso eleitoral. É a tirania do voto conquistado ou pela compra, ou pela vigarice, ou pela ameaça, ou pelo interesse mesquinho de uma coterie. É a tirania do Número contra a Razão. É a tirania do Número contra a Inteligência. É a tirania do Número contra o Saber. É a tirania do Número contra a Bondade. É a verdadeira tirania da Força contra o Direito.

A soberania do Povo é a negação do próprio Povo, porque é a sua sujeição à mais cobarde das tiranias: a do Número irresponsável e anónimo. Quem governa, no Povo soberano? O voto. Quem decide sobre a Guerra e sobre a Paz? O voto. Quem resolve os problemas da Instrução, da Higiene, da Defesa nacional, do Fomento, das Colónias, da Ordem, da Moral? O voto. Quem julga o Passado do Povo? O voto. Quem prepara o Futuro do Povo? O voto. Mas quem é o voto? O voto é a mistificação legal. Quem governa, no Povo soberano, é a mistificação."

Alfredo Pimenta

02/06/2011

O mundo é do risco

"Pois se o Dinheiro não solicita ainda o reconhecimento público da sua soberania, é menos por astúcia e prudência do que por sua insuperável timidez. Os que escapam ao seu império conhecem a sua força, topam-no à distância. Ele ignora totalmente, a deles. Os santos e os heróis sabem o que ele pensa, e ele não tem nenhuma do que podem pensar dele, ao certo, os santos e os heróis. É verdade que o exclusivo amor ao dinheiro nunca fez mais do que maníacos, obcecados que a sociedade mal conhece que lamuriam e apodrecem nas regiões tenebrosas, como agáricos. A avareza não é uma paixão, mas um vício. O mundo não é do vicioso, como imaginam as castidades torturadas. O mundo é do Risco. Isto é coisa para fazer rebentar a rir os sensatos cuja moral é a da poupança. Mas esses, se não arriscam eles próprios, vivem do risco dos outros. E sucede também, graças a Deus, que morrem disso. Certo engenheiro obscuro decide bruscamente, com estupefacção dos seus conhecidos, passar a fabricar um pássaro mecânico, certo ciclista aposta, na hora do vermute, pilotar essa curiosa máquina, e não são necessários mais de trinta anos para que caiam sobre a cabeça dos Poupantes, caídas do céu, bombas de mil quilogramas. O mundo é do risco. Amanhã o mundo será de quem arriscar mais, correr mais firmemente o seu risco."

Georges Bernanos in "Os grandes cemitérios sob a Lua".


01/06/2011

Nacionalismo em Marcha

Por Ernst Jünger

Nós auto-denominamo-nos nacionalistas – uma palavra que nos foi consagrada através do ódio à populaça inculta, aos pedantes e a um exército de oportunistas e farsantes. O que é odiado, o que é rechaçado pelas superficiais correntes do progresso, do liberalismo e da democracia, tem pelo menos a vantagem de não ser comum. Nós não exigimos o comum. Nós rechaçamos o culto das verdades comuns, dos direitos humanos comuns, das obrigações comuns, do direito ao voto comum, da baixeza comum – consequência última de tudo o que é comum. As características e as exigências comuns, são as características e as exigências das massas. Quanto mais comum é algo, menor é o valor que contém. Rever-se e apoiar-se nas massas, equivale a acreditar que a força do próprio peso é um mérito em si e não das leis da gravidade. A ideia de valorizar a Humanidade como o bem mais alto e puro, equivale a considerar que a essência do indivíduo é unicamente a sua pertença a uma determinada espécie de mamíferos. O comum é contado e pesado, o particular é valorizado e apreciado. A vontade comum significa ser incapaz de encontrar um valor específico em si mesmo, por si mesmo. Significa, na melhor das hipóteses, ter razão objectivamente, intelectualmente, cientificamente, comummente… A vontade particular, significa ser a medida de si mesmo, sentir a própria responsabilidade, reconhecer a própria força espiritual. O nacionalismo moderno, o sentimento básico de um novo género de homem cansado até ao vómito da oca fraseologia da Ilustração, quer o particular. Ele não quer massa e extensão, mas sim o que permanece mais profundamente próprio interior: vigor espiritual. Ele não quer demonstrar os seus direitos mediante estudos científicos como faz o marxismo, mas antes demonstrá-los com a sua própria existência, queira ou não a ciência. Ele não quer uma meticulosa medição de peso e medida dos seus direitos, mas somente o Direito que possui a vida para viver, e que forma uma unidade inquebrantável, de destino, com a sua própria existência. Ele não quer o domínio das massas, quer, isso sim, o da Personalidade, cuja ordem se define no conteúdo dos valores interiores e da energia viva. Ele não quer nenhuma igualdade, vazia de justiça e liberdade, que só fundamenta exigências, sem sentir a sorte de se ser o que se é. O nacionalismo moderno tão pouco se rege por alguma ideia de independência que vagueie pelos espaços vazios, nem um qualquer “espírito livre” prefere, pelo contrário, o firme compromisso. Ele não quer o socialismo das exigências, mas o do dever: o socialismo de um mundo duro e estóico, em que cada um esteja disposto a sacrificar-se pelos demais. A mãe deste novo nacionalismo é a Grande Guerra. O que literatos ou intelectuais escrevam sobre ela não tem para nós qualquer interesse. A guerra é o resultado do sangue: aqui pouco importa o que os homens tenham para dizer sobre ela. O tristemente famoso manifesto pacifista dos literatos, não conseguirá eliminar a Guerra nem o que esta criou. É quanto muito uma bandeira ao vento, dependente da brisa que sopre em cada ocasião. Aquele que procure mesurar a guerra com uma maior ou menor superficialidade, tem um interesse unicamente psicológico. O núcleo da juventude alemã não viveu a guerra nos cafés nem em cómodos escritórios. Ele pode ter estado no Inferno, porém, é próprio da alma fáustica não sair com as mãos vazias nem sequer do Inferno. Barbuse, o intelectual pacifista francês, pode ter visto ali o que quiser, mas nós vimos aquele fogo dantesco com uma intensidade infinitamente maior.

Nós não voltamos dali com um mero niilismo. Acima do poder da matéria, manifestou-se-nos o poder da Ideia. Para além do horror das vítimas, reconhecemos o verdadeiro valor do homem e da força do seu posto. Mais claramente que as vermelhas chamas do fogo da guerra, vimos brilhar a luz da Vontade. Granadas, nuvens de gás, veículos blindados, tudo isto pode ser essencialmente brutal e cobarde, para nós é unicamente a aparência externa, o tétrico pano de fundo de que um novo homem, uma nova visão, havia nascido. Mais, assistimos a este nascimento em todos os povos da Europa, pois a guerra não só afectou os alemães. Este novo nacionalismo não é um fenómeno que se limite apenas à Alemanha. Em todas as partes vemos, diferenciada pelas características de cada povo, aquela força, força nascida do sangue, que exige novas formas. Alegremo-nos todos, gritemos uns aos outros “Sede fiéis ao que sois!”, pois nós preferimos viver num mundo cheio de sentido a viver numa papinha movediça, sem carácter, sem forma e sem personalidade. Porém, acima de tudo devemos recordar: que a guerra nos tocou da forma mais dura. É necessário um tempo para tomar consciência, após termos sido ofuscados daquela maneira pelo mais horrendo, no entanto, devemos esperar, que, passando o tempo, cresça a semente, e a nossa colheita será a mais rica. A guerra é a nossa mãe, ela gerou-nos no ardente regaço das trincheiras como uma nova raça, e nós reconhecemos com orgulho a nossa origem. Daí que os nossos valores sejam heróicos, os valores do guerreiro e não os do tendeiro que pretende medir o mundo com o seu diminuto padrão. Nós não queremos o útil, nem o prático, nem o cómodo, senão o necessário: aquilo que o Destino exija. O soldado alemão chegou da frente, está desfilando. Direita, esquerda, e ao centro. Concedamos tempo às colunas para definir a direcção da marcha, cada um para si mesmo. Acabará por acontecer que todos iremos em direcção ao mesmo ponto. A nossa bandeira não é vermelha, tampouco negra, vermelha e dourada, nem negra, vermelha e branca, a nossa bandeira é a bandeira de um novo grande Reich, que nasceu dos nossos corações e que somente desde eles pode ser cosida. Chegará o dia, em que poderá ondear livremente. A nossa tradição comum é a guerra, o grande sacrifício. Permaneçamos conscientes sobre o sentido desta tradição.

Neste escrito, no qual te saúdo como irmão, companheiro de luta e amigo, e ao qual se seguirão muitos mais escritos, ficam abarcados os quatro pilares do nacionalismo moderno. Eles correspondem à atitude de uma juventude que não é doutrinária, tão pouco liberal nem reaccionária, e que também recusou a mentalidade dessa revolução de demagogos e charlatães. Esta juventude conquistou a consciência, nas paragens mais horrendas do mundo, mundo esse em que os velhos caminhos já acabaram, sendo hora de abrir novos. Nós saudamos aquele sangue que não se queimou na luta, mas que se transformou em brasas e fogo. O que aí não foi destruído, está à altura de qualquer luta. Nós saudamos os que vêm, aqueles que serão unidos pela profundidade dos velhos rigores. A marcha está a caminho, em breve as linhas convergirão numa só e imparável coluna. Nós saudamos os mortos, cujos espíritos permanecem nas nossas consciências. Não, não podem ter morrido em vão. Alemanha, saudamos-te!

Os apátridas

"O accionista, hoje, é mundial: de um continente a outro, o seu comportamento é idêntico. O mesmo sucede com o consumidor, que se preocupa muito pouco com o lugar de produção dos bens que adquire e que, onde quer que se encontre, privilegia os fornecedores com os preços mais baixos. Assim, o cidadão, cuja existência está ligada ao território nacional, é vítima da sua própria esquizofrenia, dado que as suas escolhas, na qualidade de consumidor ou, se for esse o caso, de accionista, alimentam e reforçam um capitalismo mundializado que implica a diminuição da sua própria soberania. O individualismo, fundamento da economia liberal, triunfa na esfera das trocas e faz recuar em toda a parte o sentimento de solidariedade colectiva. Muitas vezes os mais ricos, esquecidos do que devem aos Estados em que nasceram, em que foram criados, formados, educados, em que estabeleceram a sua prosperidade, deslocalizam facilmente rendimento e património para lá das suas fronteiras, dirigindo-os para onde os impostos são mais baixos. Exemplo puro de dissociação individual, o desejo de enriquecimento que têm leva-os a repudiar a sua própria cidadania. O internacionalismo mercantil que professam faz deles apátridas."

Jean Peyrelevade in O Capitalismo Total.