21/11/2016

Alexander Dugin - Sobre os Identitários, a Tradição e a Revolução Global

por Aleksandr Dugin



Considero que os identitários são aliados quando rechaçam a modernidade, a oligarquia global e o capitalismo liberal mortífero para as culturas étnicas e as tradições. 

A ordem política moderna é essencialmente global e se baseia puramente na identidade individual. É a pior ordem possível e deve ser totalmente destruída. 

Quando os identitários militam por uma reafirmação da Tradição e das antigas culturas dos povos europeus, têm razão. Mas quando atacam os imigrantes, os muçulmanos, os nacionalistas doutros países (baseado em conflitos históricos), quando defendem os EUA, o atlantismo, o liberalismo ou a modernidade, quando consideram a raça branca (a que criou a modernidade) como a raça superior e afirmam que outras raças são inferiores, estou em total desacordo com eles. 

Mais do que isso, não posso defender brancos contra não-brancos apenas por ser branco e indo-europeu. Reconheço a diferença de outros grupos étnicos como uma coisa natural e rechaço qualquer hierarquia entre os povos, dado que não existe, e não pode existir, uma medida universal para a comparação das sociedades étnicas e os sistemas de valores. 

Tenho orgulho de ser russo, exatamente como os estadunidenses, os árabes, os chineses, e os africanos estão orgulhos de ser como são. É nosso direito e nossa dignidade afirmar nossa identidade. Não a de uns contra outros, mas a de uns ao lado dous outros, sem ressentimento para com os outros ou remorso em relação a si.

Não posso defender a nação, porque a nação é um conceito burguês imaginado pela modernidade para destruir as sociedades tradicionais (Império) e as religiões para sua substituição por pseudo-comunidades artificiais baseadas na identidade individual. Atualmente, a nação está sendo destruída pelas mesmas forças que a criaram no primeiro período da modernidade. As nações têm cumprido seu papel de destruidor de identidades orgânicas e espirituais e agora os capitalistas destroem seus próprios instrumentos para fazer possível a globalização. 

Devemos atacar o capitalismo como um inimigo absoluto, responsável tanto pela criação da nação como simulacro da sociedade tradicional, como de sua destruição atual. A razão da catástrofe atual tem suas raízes nos fundamentos ideológicos e filosóficos do mundo moderno. E a modernidade que era branca e nacional em sua origem tornou-se global finalmente. É por isso que os identitários devem escolher seu campo real: a Tradição (o que inclui sua própria tradição indo-europeia) ou a modernidade? O atlantismo, o liberalismo, o individualismo, são as formas do mal absoluto para a identidade indo-europeia, são incompatíveis por si. 

Se os identitários realmente amam sua identidade, eles converter-se-ão em eurasianos e unir-se-ão aos tradicionalistas, aos inimigos do capitalismo de todos os campos políticos, raças, religiões ou culturas. Ser hoje anti-comunista, anti-muçulmano, anti-oriental, pró-yankee, atlantista, significa pertencer ao outro lado, estar ao lado da Nova Ordem Mundial e da oligarquia financeira. Mas é uma atitude ilógica porque as consequências da globalização destroem todas as identidades exceto as individuais, e fazer uma aliança com aqueles que a apoiam significa trair a própria essência da identidade cultural.  

O problema com as esquerda é diferente. É positiva em sua oposição a ordem capitalista, mas carece da dimensão espiritual. A esquerda se apresenta habitualmente como uma via alternativa para a globalização, que é a razão de sua oposição aos valores orgânicos, às tradições e à religião. 

Seria bom ver aparecer algo como “identitários de esquerda” que por um lado defendessem a justiça social atacando o capitalismo, e por outro, defendessem as tradições espirituais atacando a modernidade. 

O inimigo é único, é a ordem global liberal do capitalismo da hegemonia norte-americana (que também é dirigido contra a verdadeira identidade americana)

Nós ganharemos se unificarmos nossos esforços.

18/11/2016

Eugene Montsalvat - Precursores Iranianos da Quarta Teoria Política

por Eugene Montsalvat



Os antepassados intelectuais da Revolução Iraniana, Ahmad Fardid, Jalal Al-e-Ahmad e Ali Shariati, partilham de muitos pontos em comum com a Quarta Teoria Política. Bebendo da herança intelectual comum de Martin Heidegger, eles desenvolveram uma crítica da hegemonia ocidental. Em muitos casos, as ideias expostas por estes pensadores iranianos prefiguram a Quarta Teoria Política, ainda que em uma aplicação especializada ao Irã. O Irã apresenta um exemplo de uma revolta política e intelectual contra a hegemonia liberal ocidental que está fora das categorias da segunda e terceira teorias políticas (comunismo e fascismo), mas ainda assim puxa influências importantes delas e as recontextualiza na estrutura singular da essência histórica iraniana.

Os antepassados intelectuais da Revolução Iraniana fundiriam com sucesso o pensamento mais radical do século XX com a tradição islâmica do Irã para desenvolver uma síntese autenticamente revolucionária. Como na Quarta Teoria Política, Heidegger desempenha um papel fundamental, como o filósofo de um novo começo, que anuncia o retorno a uma essência autêntico. A fundação do pensamento heideggeriano iraniano foi estabelecida por Ahmad Fardid, como Ali Mirsepassi nota em “Islã Político, Irã e o Iluminismo”:

“O pensador cujo trabalho mais contribuiu para estabelecer as bases para um discurso político heideggeriano no contexto iraniano foi Ahmad Fardid (1890=1994). Ele foi a principal autoridade em filosofia alemã e particularmente em Heidegger da década de 50 em diante. Finalmente, ele contribuiu bastante para a evolução dos discursos intelectuais que culminaram na Revolução Iraniana de 1979. Sua obra envolvia revestir o par Oriente-Ocidente em uma linguagem de concepções filosóficas emprestadas de Heidegger. Em uma veia historicista, ele defendia que a ‘verdade’ dominante da era havia sido, desde o século XVIII, a de uma civilização ocidental que roubou todos os ‘países islâmicos’ e ‘nações orientais’ de suas ‘memórias culturais’ e de sua própria ‘confiança histórica’. Essa posição é constituída primeiramente por uma afirmação anti-iluminista de que o crescimento da vazia e externalista civilização ocidental é uma ameaça direta à vitalidade de culturas locais não-ocidentais, e em segundo lugar a afirmação de que essa ameaça deve ser confrontada pela reivindicação do que é uma memória cultural apagado e pela tomada de um passado roubado” (pg. 30-31)

Como na Quarta Teoria Política, Fardid usa Heidegger para desafiar a dominação unipolar da ideologia ocidental clamando por um retorno a um modo “autêntico” de ser. Este grande retorno do Ser no momento em que a história é mais sombria, no momento em que passamos através da escuridão do “niilismo ocidental”, recebe uma interpretação iraniana particular de Fardid. Citando Mirsepassi novamente:

“Em um remodelamento do relato de Heidegger sobre o declínio ocidental e a necessidade de recuperar a experiência grega do ‘ser’, Fardid relocaliza a experiência espiritual original e autêntica da humanidade em um Islã/Oriente nebuloso. Em efeito, as modificações de Fardid transferem o papel da ‘nação espiritual no meio’ da Alemanha ao Irã, dentro da mesma problemática do cerco da Guerra Fria e da modernidade secular ‘universal’. Neste dilema é necessário abandonar Gharb (o Ocidente) tanto enquanto ontologia como enquanto modo de vida. Curiosamente, de modo a fazê-lo, é primeiro necessário descobrir a ‘essência do Ocidente’ como pré-requisito para uma vez mais resgatar a autêntica essência islâmica. Isso, naturalmente, não é diferente da ideia de Heidegger de uma ponte para de volta ao Ser através de uma desconstrução da tradição dominante. Os termos da necessidade de uma obediência espiritual socialmente embasada mudaram, mas a necessidade permanece a ideia determinante”. (pg. 119)

É precisamente este retorno do Ser, chamado Ereignis por Heidegger, que jaz no coração da Quarta Teoria Política, como Dugin afirma:

“Heidegger usou um termo especial Ereignis, o ‘evento’, para descrever este súbito retorno do Ser. Ele ocorre exatamente à meia-noite da noite do mundo, no momento mais sombrio na história. O próprio Heidegger vacilava constantemente sobre se este ponto já havia sido alcançado, ou ‘ainda não’. O eterno ‘ainda não’.

A filosofia de Heidegger pode se provar como o eixo central ligando tudo ao seu redor, indo da reconcepção da segunda e terceira teorias políticas ao retorno da teologia e da mitologia.

Assim, no coração da Quarta Teoria Política, em seu centro magnético, está a trajetória da aproximação do Ereignis (o ‘Evento’), que incorporará o retorno triunfante do Ser, no exato momento em que a humanidade esquecê-lo, de uma vez por todas, ao ponto em que os seus últimos traços desapareçam”. (“A Quarta Teoria Política”, pg. 29)

Para Fardid, o Ser iraniano, seu controle sobre sua própria narrativa histórica e destino, estava se perdendo sob as influências intelectuais perniciosas do Ocidente, que ele chamaria de “Ocidentoxicação”. Outro grande pensador iraniano, Jalal Al-e-Ahmad, definiria essa “Ocidentoxicação” assim: “o agregado de eventos na vida, cultura, civilização e modo de pensamento de um povo sem apoio em tradição, sem continuidade histórica, e sem gradiente de transformação”. O livro de Al-e-Ahmad “Ocidentoxicação”, se provaria um guia intelectual para a crescente resistência. Ele estava respondendo ao regime modernizante pró-ocidental do Xá, que viu uma cultura iraniana enraizada sendo destruída pelos valores do Ocidente, que se apresentavam como valores universais para toda a humanidade. A “ocidentoxicação” traria a obliteração do passado iraniano e do futuro se não fosse impedido. Como na Quarta Teoria Política, há uma crítica comum da pretensão ocidental a uma civilização global, que seria equivalente à morte do Ser, como Dugin aponta:

“Globalização é equivalente ao fim da história. Ambos caminham juntos. Os dois estão semanticamente ligados. Sociedades diferentes tem histórias diferentes. Isso significa diferentes futuros. Se nós vamos criar um ‘amanhã’ comum a todas as sociedades existentes no planeta, se vamos propor um futuro global, então primeiro precisamos destruir a história daquelas outras sociedades, destruir seus passados, aniquilar o momento contínuo do presente, virtualizando as realidades que são construídas pelo conteúdo do tempo histórico. Um ‘futuro comum’ significa deletar as histórias particulares. Mas isso significa que não haverá quaisquer histórias, nem seus futuros. O futuro comum é futuro nenhum. A globalização é a morte do tempo. A globalização cancela a subjetividade transcendental de Husserl ou o Dasein de Heidegger. Não haveria mais nem tempo, nem ser”. (Quarta Teoria Política, pg. 165)

De modo a desenvolver seu ataque contra a modernidade ocidental, Al-e-Ahmad puxou influências da Revolução Conservadora alemã, particularmente de Ernst Jünger, cuja obra ele traduziu ao persa e de quem ele diria, “Jünger e eu estávamos ambos explorando mais ou menos o mesmo tema, mas de duas perspectivas diferentes. Estávamos abordando a mesma questão, mas em dois idiomas”. Al-e-Ahmad buscou transfigurar a modernidade, reconhecendo a presença inevitável da tecnologia, mesmo que destrutiva, mas utilizando-a a serviço de um Estado xiita revitalizado. Como os conservadores revolucionários alemães, Al-e-Ahmad não recuou à mera reação, ele percebeu que era impossível fugir para um passado pré-tecnológico, ao contrário ele apontou a uma terceira posição entre subjugação pelo poderio técnico do Ocidente e um recuo ao primitivismo, questionando “Devemos permanecer os meros consumidores que somos hoje ou fecharemos nossas portas à máquina e à tecnologia e recuaremos às profundezas de nossos caminhos antigos, ou haverá uma terceira possibilidade?”. A “terceira possibilidade” implicada seria canalizar a modernidade para destruir seus efeitos tóxicos. Al-e-Ahmad afirmou sua vontade de “colocar (na máquina) um arreio como se fosse um animal de carga... e imprimir nela a vontade humana”. A tecnologia deveria estar subordinada, não mais uma força de atomização social e degeneração cultural, mas um instrumento de construção. As forças titânicas da modernidade seriam capturadas para dissolver a modernidade e retornar à essência da civilização iraniana. Neste contexto, Al-e-Ahmad se torna um conservador revolucionário iraniano. Conservadores, que seriam defensores da cultura islâmica no contexto iraniano, liderarão a revolução, ao invés de se opor a ela. O projeto continental da Eurásia assume uma posição conservadora revolucionária similar ao fundir revolução e tradição, como afirma Dugin:

“Eu estou convicto de que a história política bem logo nos forçará a esclarecer nossas posições e polir nossa retórica para torna-la mais precisa. Não temos escolha além do conservadorismo: nós seremos empurrados em sua direção desde fora, bem como de dentro. Mas do que faremos com o espírito da revolução, a vontade, a chama abrasadora de rebelião que secretamente jaz no coração russo e perturba nosso sono, nos convidando a segui-la até terras distantes? Eu penso que devemos investir nossa força continental em um novo projeto conservador. E que seja esta a nova edição de nossa Revolução, a Revolução Conservadora, a Revolução Nacional em nome de um grande sonho...” (“Putin vs. Putin”, pg.157)

Outro grande pensador iraniano que articulou uma visão de revolução fundindo influências do Islã xiita, do Terceiro Mundismo e Heidegger foi Ali Shariati. Shariati adaptou as ideias de “Ocidentoxicação”, afirmando em “Shieh, Yek Hezb-e Tamam” (Xiismo, um Partido Completo), “Eles [o Ocidente (farang)] poluíram nosso mundo com seu capitalismo e nossa religião com suas igrejas! Eles ensinam a nossos modernistas o dandismo [gherti-bazi], danças, coquetéis e meras liberdades sexuais em nome da civilização... Eles lentamente insuflaram as profundezas de nossos corações e mentes e nossa fé racional e religião progressiva, prática e humana. Eles escureceram e arruinaram tudo que previamente considerávamos caro a nós: a alma [ruh], a intercessão [shefaat], a invocação [tavasol], a confiança [velaayat], e o martírio”. Para combater as influências tóxicas do Ocidente, Shariati iria expor um xiismo de libertação, chamado de “Xiismo Vermelho”, assim chamado pelo sangue dos mártires. Assim, Shariati invoca a herança revolucionária dos xiitas que resistiram à ocupação mongol do Irã:

“Este foi o início da explosão, bem simples e rápido! A hoste vai ao povo e chamando as massas xiitas, exclama que o governante mongol está pedindo suas mulheres. Qual é sua resposta? Eles dizem ‘Nós preferimos morrer a sermos assim tão aviltados! Nossas mulheres para nossos inimigos serão nossas espadas’. O resultado é inevitável. As massas se decidiram. Eles matam todo o grupo de uma só vez. Como eles sabem que não há como voltar atrás, como eles sabem que já escolheram a morte, eles param de titubear. A escolha da morte lhes dá tamanha energia que sua pequena aldeia se revolta contra aquele regime sanguinário e vence. Os aldeões tomam a cidade, lutando contra o exército mongol e os decretos dos pseudo-clérigos da religião do Estado. Eles são vitoriosos. Seu grito: ‘Salvação e Justiça!’ e ‘A destruição do poder dos governantes mongóis e da influência dos sacerdotes da religião dos governantes e dos grandes proprietários da classe governante’. As vítimas da ignorância do pseudo-clero e os prisioneiros da opressão dos mongóis continuam se unindo às fileiras dos rebeldes. Sabzevar se torna um centro de poder; como um fogo que se espalha por arbustos secos, os guardas revolucionários xiitas, que desfrutam do apoio de guerreiros rurais e campões das massas, e tem a ideologia do Sheikh Khalifeh a do Sheikh Hassan e de tipos similares de homens missionários justos, bem informados e de saber, engolem todo o Khorasan e o norte do Irã e inflamam até o sul do país. E pela primeira vez, um movimento revolucionário baseado no xiismo alavita, contra a dominação estrangeira, a enganação interna, o poder de senhores feudais e ricos proprietários, teve um levante armado, liderado por camponeses há sete séculos, sob a bandeira da justiça e a cultura do martírio, pela salvação da nação escravizada e das massas despossuídas.

E esta foi a última onda revolucionária do xiismo alavita, o xiismo vermelho, que continuou por sete séculos a ser a chama do espírito da revolução, da busca pela liberdade, e pela justiça, sempre se inclinando para o povo comum e lutando impiedosamente contra a opressão, a ignorância e a pobreza”. (Xiismo Vermelho vs. Xiismo Negro)

Shariati deu uma essência explicitamente religiosa à posição de libertação nacional. Enquanto ele adotou muito da retórica e ideologia da libertação terceiro-mundista da esquerda, Shariati se recusou a ser aprisionado pela dicotomia capitalista/comunista, condenando concepções econômicas da vida como insuficientes, afirmando:

“Ambos estes sistemas sociais, capitalismo e comunismo, apesar de diferirem em configuração exterior, consideram o homem como um animal econômico... a humanidade está a cada dia mais condenada à alienação, mais afogada neste louco vendaval de velocidade compulsiva. Não só não há mais ócio para o cultivo de valores humanos, grandeza moral, e aptidões espirituais (mas isso também) fez com que os valores morais tradicionais declinassem e desaparecessem também”.

Ao invés ele deu precedência a uma força apocalíptica unindo povo, ideologia e Deus em um poder coerente de renascimento espiritual, assim ligando libertação nacional e refundação espiritual. Mirsepassi resume a crítica de Shariati à modernidade, citando suas afinidades com Heidegger:

“A principal crítica da modernidade em sua obra é o ataque ao que ele chamou de ‘cosmo materialista’, onde ‘o homem se torna um objeto’. Em contraste, o Islã mostra ‘um laço fundamental, uma relação existencial (entre o homem e o mundo), ao considerar os dois como surgindo de uma ‘única origem (sublime)’.’ Isso reproduz quase palavra por palavra a filosofia central de Heidegger, que também sentia que um pano-de-fundo religioso onipresente, havia esvanecido e deixado as pessoas atomizadas em relação a seu elo ontológico com sua comunidade. O propósito de Shariati, então, era trazer este elo explicitamente ao quotidiano político das vidas dos iranianos, como uma recuperação da sociedade islâmica ideal e unificada. Ele objetivava superar o desenraizamento cultural na vida quotidiana infligida pela existência moderna. Pensando nessa linha, ele representava a dominação do Irã pelo Ocidente menos em um sentido político ou econômico e mais em termos de uma infestação ocidental na sociedade iraniana. Novamente, então, foi necessário dividir a sociedade contemporânea entre a autêntica e a inautêntica, ou Gharbzadegi”. (“Islã Político, Irã e Iluminismo”, pg. 127)

Ao buscarem um retorno a uma unidade espiritual entre homem e Deus, Shariati partilha de uma afinidade com Tradicionalistas como Evola ou Guénon, mas ele se aproxima deles em um contexto bastante revolucionário, que parece partilhar mais com os proponentes da libertação terceiro-mundista entre a esquerda. A recusa de Shariati em aceitar as barreiras impostas pela dicotomia “esquerda-direita” ocidental pressagia a Quarta Teoria Política. Tal como Shariati fundiu tradição islâmica e revolução, assim o faz a Quarta Teoria Política, que busca “unir direita, a esquerda e as religiões tradicionais em uma luta comum contra o inimigo comum. Justiça social, soberania nacional e valores tradicionais são os três principais princípios da Quarta Teoria Política”. Ao articular uma resposta que toma influências do Islã e do pensamento radical do século XX ao colonialismo e exploração ocidental, conduzidos com a aquiescência de uma elite iraniana cosmopolita, Shariati e outros criaram um precursor da Quarta Teoria Política para o Irã, afirmando a essência espiritual do Irã contra a dominação da ideologia unipolar.

À época da Revolução Iraniana de 1979, apenas Fardid permanecia vivo do trio de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati. Porém, suas ideias exerceram uma influência definitiva sobre a oposição ao Xá Reza Pahlavi, sob o qual um regime modernista e ocidentalizante governava, ajudado pelas forças repressivas da brutal polícia secreta SAVAK. A oposição popular e islâmica mobilizou milhões, culminando na expulsão do Xá. Após sua chegada no Irã, o próprio Khomeini visitou o cemitério em que muitas das vítimas do Xá haviam que haviam caído na revolução foram enterrados para prestar tributo a seus sacrifícios. O “xiismo vermelho” do martírio havia conquistado uma vitória crucial. Após a Revolução, o Irã seria reconstituído, não nas bases das ideologias modernas do comunismo ou do capitalismo, mas segundo sua própria tradição islâmica. Em face das disputas por poder da Guerra Fria, o Irã traçaria um caminho independente, pressagiando a visão multipolar da Quarta Teoria Política. Ademais, o Irã eventualmente desenvolveria um programa nuclear, subjugando o poder da tecnologia à vontade do Estado islâmico, um desenvolvimento que Al-e-Ahmad certamente aprovaria.

Intelectuais como Al-e-Ahmad, Fardid e Shariati plantaram as sementes do poder iraniano, um poder baseado em sua essência histórica, em um mundo multipolar. Sua integração orgânica das antigas tradições de seu país com as ideias mais revolucionárias do século XX fornece um mapa para os partidários da Quarta Teoria Política. A obra de Fardid, Al-e-Ahmad e Shariati é um excelente exemplo do que deve ser feito em todo país que busca construir a base intelectual para sua libertação do globalismo ocidental de modo a garantir seu futuro em um mundo multipolar. Eles mostraram o caminho para a renovação das grandes civilizações tradicionais em uma era de forças culturalmente destrutivas emanando do Ocidente.

17/11/2016

Aleksander Dugin - O que acontece com a Europa?

por Aleksander Dugin



Para entendermos corretamente a natureza da crise atual precisamos fazer uma breve análise da situação. Sugiro três níveis: 

- Ideologicamente,

- Economicamente,

- Geopoliticamente.

A ideologia liberal é a fonte do problema

Ideologicamente o problema é o liberalismo como única ideologia imposta à Europa e ao resto da humanidade pelo mundo anglo-saxão. O liberalismo afirma somente a identidade individual e proíbe qualquer tipo de identidade coletiva ou orgânica. Então, passo a passo, o liberalismo nega a religião, a nação e a associação de gênero a fim de estabelecer um indivíduo completamente livre de qualquer tipo de holismo. O gênero é o núcleo do problema político porque os liberais insistem no caráter facultativo do gênero, um gênero como eleição individual (antes a luta estava próxima da religião como opção individual ou da nação como escolha individual). O outro ponto importante é a imigração. O liberalismo nega-se a reconhecer identidades religiosas ou culturais, assim como as de gênero: assim, um imigrante não é considerado como portador de uma identidade diferente, mas um indivíduo numérico e atomizado. O liberalismo destrói qualquer identidade coletiva. Logicamente o liberalismo destrói a identidade europeia (com a chamada tolerância e as teorias dos direitos humanos). Junto com a destruição intensiva da identidade sexual acelera o fim da sociedade como tal. O fim da Europa está garantido pelo próprio fato da aceitação do liberalismo como ideologia dominante.

O último passo no desenvolvimento do liberalismo será negar a identidade humana coletiva. Assim sendo bem vindos ao trans-humanismo. Essa é a agenda liberal para o amanhã.

O liberalismo é uma ideologia niilista. Ele insiste na liberdade de qualquer tipo de identidade, mas nunca sugere algo positivo. Na última competição com as ideologias totalitárias – o comunismo e o fascismo – o liberalismo era concreto e atrativo porque negava o totalitarismo concreto considerado como uma alternativa. De fato, foi uma alternativa. Mas quando os totalitarismos foram superados, a natureza niilista do liberalismo revelou-se. Ele só pode negar. Não pode afirmar nada. Não é a ideologia da liberdade positiva, é a ideologia da liberdade negativa. Antes não era tão explícito, agora é. 

O liberalismo se tornou totalitário. Você não tem liberdade de não ser liberal. Você deve ser liberal. Você pode optar por ser liberal de esquerda, liberal de direita, ou liberal de centro. Pode ser – em casos extremos – liberal de extrema-esquerda ou liberal de extrema-direita. Mas sempre é liberal. Se você é julgado pelos liberais como não liberal, você está acabado – etiquetado como extremista, terrorista e assim sucessivamente. Os liberais podem tolerar, mas só as pessoas tolerantes. Se você não é tolerante (no sentido liberal), você é intolerável. 

O que podemos fazer para opor-se ao liberalismo? No século XX houveram duas opções: o comunismo (socialismo) e o fascismo. Ambos fracassaram historicamente – política, filosófica, militar e economicamente. Agora existem como simulacros. São ou marginais ou manipulados pelo liberalismo: daí o liberal-comunismo do pós-modernismo, anarquistas e trotskistas ou liberal-fascistas que servem aos liberais para promover sua causa exatamente como o fundamentalismo islâmico é utilizado como arma dos EUA. Assim, a minha ideia para opor-se ao liberalismo (primeira teoria política), não é a segunda teoria política (o marxismo), ou a terceira (o fascismo), mas a quarta. Eu desenvolvi essa ideia no livro A Quarta Teoria Política, traduzido em muitos idiomas. Temos que lutar contra o liberalismo, refutando-o e desconstruindo-o totalmente. Ao mesmo tempo, temos que fazer isso não em nome da classe (como no caso do marxismo) ou em nome do Estado-Nação ou da raça (como no fascismo), mas em nome da unidade orgânica do povo, da justiça social e da democracia real. Os liberais interpretam a democracia como o domínio das minorias. Necessitamos restaurar o sentido original do termo: a democracia é o governo da maioria, da maioria orgânica, maioria que partilha uma identidade em comum – que é a laocracia, governo do povo, como a unidade histórica e cultural.

O capitalismo financeiro é uma catástrofe 

Economicamente, o problema está no capitalismo financeiro que finge superar o setor real da indústria em favor da tecnologia dos mercados financeiros virtuais. Tal capitalismo é monopolista e cria bolhas no lugar de desenvolver a infraestrutura econômica. Essa economia se baseia nas especulações financeiras (do tipo de George Soros) e alimenta a ilusão do crescimento infinito. Isso contradiz a realidade. A classe média não está crescendo mais. O crescimento dos mercados financeiros não corresponde com o crescimento do setor real. Por toda a atenção nas instituições financeiras que promovem a deslocalização do setor real até os países do Terceiro Mundo no curso da globalização é o caminho até o abismo. 

As primeiras ondas da crise já passaram, mas novas ondas virão em breve. O colapso econômico dos países do sul da Europa como a Grécia, e num futuro próximo Itália e Espanha, é só o pico visível da imensa catástrofe. A unidade europeia se baseia na aceitação total da logística do capitalismo financeiro. Só a luta da Alemanha agora, a fim de manter a economia em contato com as realidades industriais, se recusa a embarcar no trem que vai para o nada. Essa é a razão da histeria anti-alemã na Europa e nos EUA. A economia alemã pode ser a última economia real, o resto são economias virtuais.

Portanto, temos que reconstruir a Europa sobre bases econômicas alternativas. 

O crescimento infinito não é mais que uma ilusão liberal. A caída da classe média é a severa realidade. A maneira de sair disto é a revisão completa dos mitos do capitalismo financeiro.

O Atlantismo é um mal 

Geopoliticamente a Europa é hoje uma entidade atlantista. A teoria geopolítica criada pelo inglês Sir H. Mackinder declara que há dois tipos de civilizações – a civilização do Mar (Seapower) e a civilização da Terra (Landpower). Ambas estão constituídas sobre sistemas de valores opostos. O Seapower é puramente mercantil, modernista e materialista. O Landpower é tradicionalista, espiritual e heroico. Esse dualismo corresponde ao par conceitual de Werner Sombart: Händlres e Helden. A sociedade europeia moderna está plenamente integrada na civilização do mar. Isso se manifesta na hegemonia estratégica norte-americana e na OTAN. 

Essa situação impede que a Europa se converta numa entidade geopolítica independente. Mais profundamente, perverte a natureza geopolítica da Europa como entidade continental – Landpower. 

Portanto, há uma necessidade de mudar a situação e restabelecer a estratégia do Landpower baseada na verdadeira soberania europeia. Em vez do atlantismo, a Europa necessita converter-se numa potência estratégica continental.

Europa e Rússia 

Se nós resumirmos os pontos podemos logicamente deduzir onde estamos nas relações entre a Europa e Rússia. 

No presente a Rússia é: 

- Relativamente hostil ao liberalismo (mais inclinada ao tradicionalismo e ao conservadorismo). 

- Economicamente, está tratando de liberar-se da ditadura do Banco Mundial e do FMI. 

- Geopoliticamente, continental e anti-atlantista. 

Essa é a razão pela qual a Rússia está sendo atacada – em Ucrânia, em Moscou, em todas as partes. 

O recente assassinato do liberal Boris Nemtsov foi uma provocação que serve para demonizar a Rússia cada vez mais aos olhos do Ocidente. Os liberais, a oligarquia financeira mundial e atlantista (os EUA e a elite financeira), tratam de provocar hostilidade entre a Rússia e a Europa, assim como tratam de salvar seu trêmulo império promovendo conflitos étnicos. A guerra na Ucrânia é o primeiro passo na série de conflitos étnicos em solo europeu. A elite liberal mundial planeia a guerra étnica não só na Ucrânia ou Rússia, mas na Alemanha, França, no leste da Europa e em outros lugares. O império liberal trata de salvar sua hegemonia, que se desmorona, nos dividindo. 

Temos que resistir a fim de construir uma Europa melhor, a Europa verdadeiramente europeia. E em tal situação a Rússia é o amigo e os EUA é o inimigo. Temos que trabalhar numa aliança russo-europeia, não porque os europeus gostam da Rússia ou os russos gostam dos europeus. A razão é diferente: temos que estar juntos para salvar a cada um de nós do perigo que nos ameaça. 

12/11/2016

Eugene Montsalvat - Degeneração e a Geração Eu: A Decadência da Juventude Revolucionária

por Eugene Montsalvat



Revolução, violência política, de fato toda violência é um jogo para o homem jovem. Jovens rebeldes determinados forjaram nações, como vimos ao longo da história. Mas esses homens foram verdadeiros revolucionários, fanáticos dispostos a sacrificar tudo, eles incorporavam a descrição de Nechaev, "O revolucionário é um homem condenado. Ele não tem interesses pessoais, negócios, emoções, ligações, propriedade ou nome. Tudo nele é completamente absorvido no único pensamento e na única paixão pela revolução".

Tal devoção é rara no Ocidente moderno. Ademais, quando ela vem em formas estrangeiras, tal como o militante islâmico ou o guerrilheiro latino-americano ela se torna o grosseiro "radical chic" de rebeldes universitários que vestem camisetas de Che Guevara ou keffiyehs manufaturados em fábricas capitalistas escravagistas. Todo espírito pseudo-revolucionário juvenil existe hoje inteiramente dentro dos parâmetros do capitalismo, desenraizado, commodificado, certamente não-ameaçador à ordem estabelecida. A parafernália da revolução é apenas um instrumento de marketing por valor de choque. Isso aponta para uma questão maior, que a pose de resistência ao sistema foi já totalmente integrada ao sistema.

Nós devemos perguntar como chegamos a essa sitação. Jean Thiriart oferece uma possível explicação, o RPG juvenil revolucionário tomou o lugar das iniciações à masculinidade em sociedades modernas. A rebelião é apenas uma fase pela qual se passa antes da sua integração plena na sociedade burguesa. Como ele escreve em "Pretorianos Políticos ou o Preço Humano do Poder Militante":

"Aqui lidarei com o culto juvenil.


O adolescente deve passar por uma marca psicológica em cujo curso ele é obrigado a se afirmar para ingressar no mundo dos adultos. Em sociedades primitivas (África e Amazônia, por exemplo) essa passagem é objeto de um ritual preciso, formal, imutável, indisputável. Após passar pelos testes (geralmente testes de coragem e/ou leves mutilações), o adolescente se torna um homem. Uma vez feito isso, seu caráter como adulto não é mais contestado. Sociedades primitivas são melhor organizadas que as nossas, nesse esquema específico. Muito depois, na antiguidade grega por exemplo, os ritos de adolescência eram igualmente bem definidos, bem ritualizados da maneira mais oficial possível.



Hoje, tudo isso é deixado para a iniciativa pessoal. A sociedade plutodemocrática não se preocupa com estes problemas importantes. Assim, os próprios adolescentes criam os ritos: trotes estudantis, pornografia verbal, alcoolismo juvenil e, é aqui que nosso interesse aparece, participação em um culto 'durão'.



O fenômeno neonazista pós-guerra é assombrosamente comum entre jovens. Não há qualquer questão de uma opção filosófica aqui, mas uma cativação por um ritual mágico. Cada maravilhamento assombrado é ligado aos souvenirs da SS e do NSDAP. Assim, certos jovens que passam pela crise obrigatória de afirmação em relação a seus status de adulto, frequentemente criam cultos juvenis.



A máquina de propaganda sio-americana apresenta estes cultos juvenis como cultos políticos. Essa exploração é bastante lucrativa para os sionistas, para os milieus judaicos fanáticos da extrema esquerda. É a perpetuação do mito do 'perigo fascista' justificando suas próprias ações. É o pretexto para demandar mais centenas de milhares de marcos da República Federal Alemã. Todos os pequenos círculos de assim chamados estudantes 'nacionalistas' igualmente se revelam como estes cultos juvenis. É por isso que a população desses grupos é extremamente mutável. A juventude permanece ali no máximo 1 ou 2 anos em geral, o período de sua crise. Uma vez ultrapassada a marca, ele se crê adulto, ele deixa o culto juvenil e se integra bem à sociedade adulta e burguesa...



É necessário se resguardar contra confundir o culto juvenil com o culto político. O primeiro se caracteriza por sua indisciplina interna, o adolescente deve se afirmar e ele ingenuamente sustenta que a indisciplina é uma marca de maturidade, e pela ausência de uma ideologia política nova e original. O culto juvenil é barulhento, sem hierarquia funcional e procurando elementos mágicos em um passado supostamente prestigioso. Ele é feito e desfeito constantemente, seus membros são passageiros efêmeros".



A sociedade plutodemocrática ocidental moderna não fornece quaisquer ritos reais para a passagem à idade adulta, por isso a juventude desenvolve os seus próprios, que geralmente envolvem adotar comportamento pessoalmente arriscado ou ultrajante, os quais apesar de talvez colocarem o participante sob risco através da violência, uso de drogas ou promiscidade, representa risco absolutamente nulo para o regime governante. Uma vez que a juventude se canse dessa fase, eles deixam suas caras universidades onde lhes foi permitido brincar de revolucionário e em troca assumem uma dívida imensa, e ingressam no mundo corporativo para pagá-la.


Ademais, podemos notar o aspecto individualista dessas rebeliões adolescentes. Ao se pavonearem com a camuflagem da extrema-direita ou da extrema-esquerda eles realmente só enfatizam sua separação de seus compatriotas, ao invés de buscarem forjar laços com a sociedade ao seu redor como precursores de uma mudança política, eles se alienam das mesmas massas que eles gostariam de liderar. Na realidade, essa é uma forma de chamar atenção, comum entre jovens ocidentais cujos pais os ignoraram para perseguirem suas carreiras. Essa busca por atenção não raro tem um componente sexual, se torna um "pavonear-se" para atrair uma parceira, como notamos na fetichização do nazismo nas subculturas punk ou gótica.

Ademais, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, nós temos visto movimentos políticos estudantis cujo objetivo preciso é o individualismo radical, disfarçado de comunismo ou socialismo. Assim, encontramos declarações como a do radical dos anos 60 John Sinclair que demandou, "Ataque total contra a cultura por todos os meios necessários, incluindo o rock and roll, drogas, e sexo nas ruas". As raízes desse estilo de pensamento estão no movimento situacionista, que influenciou a subcultura punk (o empresário dos Sex Pistols Malcolm McLaren foi influenciado pelo movimento de forma significativa). O situacionismo emergiu da esquerda anti-autoritária na França para defender atacar o capitalismo através da construção de "situações", para citar Debord, "Nossa ideia central é a construção de situações, quer dizer, a construção concreta de atmosferas momentâneas de vida e sua transformação em uma qualidade passional superior". Essas situações tomam a forma de uma libertação e experimentação individual radical, movimentos artísticos de vanguarda e a celebração do lazer. Enquanto o situacionismo se situava na esquerda comunista, ele replicava o individualismo capitalista, como Kazys Varnelis observa:

"O situacionismo pode ter começado como um movimento antiburguês, mas já que ele era fundamentalmente burguês em sua defesa da experiência individual, quando ele havia finalizado sua crítica tudo o que sobrou foi melancolia. Finalmente, mesmo a ideia da Internacional Situacionista era estranha à ideologia. Organização, mesmo a sua própria, era inaceitável. O fim do situacionismo diz tudo: um alcoólatra solitário se suicidou com um tiro no coração. Raoul Vaneigem uma vez escreveu 'a saciedade de conveniências e elementos de sobrevivência reduz a vida a uma única escolha: suicídio ou revolução'. À época em que o movimento situacionista havia se esgotado, estava claro que a revolução demandava esforço demais.

Enquanto Debord apontava uma arma para seu peito no Loire, a indústria situacionista, liderada por Greil Marcus, estava girando com força total. Como Steven Shaviro escreve em seu excelente comentário sobre a abordagem equivocada de Marcus sobre Michael Jackson:

'O próprio situacionismo, não apesar de, mas precisamente por conta de sua crítica virulenta de toda forma de produto cultural, se tornou um dos 'memes' ou 'marcas' de maior sucesso comercial do final do século XX'.

Deliberadamente obscuro, o situacionismo era legal, e assim a ideologia perfeita para a geração do know-how. O que poderia ser melhor para provocar conversa no Starbucks local ou na cantina da empresa, especialmente uma vez que o livro de Marcus, que traçava um dúbio fio vermelho entre Debord e Malcolm McLaren, chegou às gráficas? Rock n'roll + política neoliberal disfarçada de esquerdismo: uma mistura perfeita. Para a geração que virou a dulta com o situacionismo-via-Marcus e a era ponto.com, trabalhar em escritórios como os da Razorfish ou Chiat/Day era a mais elevada forma de diversão. Bastante pop-tarts para charettes no meio da noite e um bocado de design colorido garantiam que trabalho e vida haviam finalmente se fundido no local de trabalho ponto.com. Ou pelo menos em teoria. A realidade era Como Enlouquecer seu Chefe.

Hoje, o situacionismo parece mais popular do que nunca, servindo como a justificativa mais recente para a cidade neoliberal. Ao invés de uma ideia mais ampla de um coletivo, o situacionismo luta pelo direito de não trabalhar (mas como viveremos? A Amazon fará remessas grátis após a revolução?).

Ao invés de convocatórias cansativas em prol de justiça social, o situacionismo demanda o direito à ludicidade ébria, ao jorro de semen sobre paralelepípedos. Tudo isso sua menos como Utopia e mais como Amsterdã, Dublin, Praga ou qualquer cidade europeua invadida por universitários americanos bêbados no verão.

Se um Debord embriagado teria aprovado, temo dizer que isso não parece liberação para mim, parece inferno".

Na perspectiva geopolítica mais ampla esses grupos da Nova Esquerda influenciados pelo situacionismo na verdade ampliaram o poder do capitalismo americano na Europa. O maio de 1968 quebrou a força do governo gaullista, que vinha afirmando sua independência em relação a OTAN e perseguindo políticas econômicas dirigistas que solapavam a força do capitalismo internacional. Devemos notar, de passagem, que o líder neoesquerdista David Cohn-Bendit tinha ligações com a CIA também. Como Alain de Benoist notou o maio de 68, longe de instilar disciplina revolucionária, promoveu a atomização individualista e a satisfação mercadológica de desejos hedonistas:

"O grande erro foi crer que ao atacar valores tradicionais eles poderiam lutar melhor contra a lógica do capital. Havia sido ignorado que estes valores, bem como o que restava de estruturas sociais orgânicas, constituía o último obstáculo para a expansão planetária dessa lógica. O sociólogo Jacques Julliard fez uma observação bastante correta sobre isso quando ele escreveu que os militantes de maio de 68, quando denunciavam valores tradicionais 'não notaram que estes valores (honra, solidariedade, heroísmo) eram, de forma bem próxima, os mesmos que os do socialismo, e ao suprimi-los, eles abriram caminho para o triunfo de valores burgueses: individualismo, cálculo racional, eficiência'.

Mas houve também outro maio de 68, de inspiração estritamente hedonista e individualista. Longe de exaltar uma disciplina revolucionária, seus partidários queriam acima de tudo 'proibir o proibir' e 'desfrute sem impedimentos'. Mas, eles rapidamente perceberam que isso não fazia uma revolução nem 'satisfazer estes desejos' os colocaria a serviço do povo. Ao contrário, eles compreenderam rapidamente que estes seriam mais garantidamente satisfeitos em uma sociedade liberal permissiva. Assim, todos eles naturalmente se bandearam para o capitalismo liberal, o que não foi, para a maioria deles, ausente de vantagens materiais e financeiras".

De modo geral, a Nova Esquerda continuou o trabalho do capitalismo ao reforçar os valores individualistas do Ocidente e removeu as últimas barreiras no caminho da dominação de desejos consumistas em todas as esferas da vida. Nas instâncias em que a Nova Esquerda ocidental se apaixonou por revolucionários do Terceiro Mundo, isso tomou a forma de um escapismo orientalista rumo a fantasias exóticas que não tinham nada em comum com as perspectivas de stalinistas convictos como Che Guevara ou Mao Zedong. A solidariedade de hippies americanos para com revolucionários camponeses vietcongues parece patentemente absurda. O Vietnã foi vencido em nome do coletivismo radical, da virtude militar ascética e da libertação nacional, não do libertinismo sexual e do ofender os próprios pais. É claro, pode-se notar exceções legítimas no meio da Nova Esquerda, como a Fração do Exército Vermelho, da Alemanha Ocidental, que realmente incorporou a disciplina exaltada por guerrilheiros até a morte.

Concluindo, podemos dizer que o espírito revolucionário da juventude foi sabotado pelos valores ocidentais contra os quais ele deveria estar travando um conflito revolucionário, nomeadamente individualismo, egoísmo, hedonismo, a recusa da autêntica disciplina revolucionária. O potencial revolucionário da juventude foi transformado em mais um mercado. O sofrimento e sacrifício de combatentes ao redor do mundo se tornaram acessórios para jovens alienados pavonear seu "individualismo", que na realidade não é nada além de conformismo à vasta gama de opções oferecidas pelo capitalismo. Outro sinal da degeneração da "Geração Eu". A verdadeira revolta vindoura deve necessariamente varrer essa falsa rebelião que satura a juventude ocidental, junto a todos os outros falsos valores do Ocidente. 

11/11/2016

Paul Craig Roberts - A Classe Trabalhadora Venceu a Eleição

por Paul Craig Roberts



A eleição presidencial americana é histórica, porque o povo americano foi capaz de derrotar os oligarcas. Hillary Clinton, uma agente da Oligarquia, foi derrotada apesar de uma campanha midiática virulenta contra Donald Trump. Isso mostra que a mídia e o establishment político dos partidos políticos não tem mais credibilidade com o povo americano.

Resta a ser visto se Trump é capaz de selecionar e indicar um governo que servirá a ele e seus objetivos de restaurar empregos americanos e estabelecer relações amistosas e respeitosas com Rússia, China, Síria e Irã.

Resta a ser visto também como que a Oligarquia responderá à vitória de Trump. Wall Street e a Reserva Federal podem causar uma crise econômica de modo a colocar Trump na defensiva, e eles podem usar a crise para forçar Trump a apontar um dos seus como Secretário do Tesouro. Agentes da CIA e do Pentágono podem causar um ataque de falsa bandeira que perturbariam relações amistosas com a Rússia. Trump pode errar e manter neoconservadores em seu governo.

Com Trump há, no mínimo, esperança. A não ser que Trump seja obstruído por julgamento ruim em suas indicações e por obstáculos colocados em seu caminho, devemos esperar um fim para o conflito orquestrado por Washington com a Rússia, a remoção dos mísseis americanos na fronteira russa com Polônia e Romênia, o fim do conflito na Ucrânia, e o fim do esforço de Washington de derrubar o governo sírio. Porém, realizações como essas não implicam a derrota da Oligarquia americana. Apesar de Trump ter derrotado Hillary, a Oligarquia ainda existe e ainda é poderosa.

Trump disse que ele não vê mais sentido na OTAN 25 anos após o colapso soviético. Se ele seguir nessa opinião, isso significa uma grande mudança política nos vassalos europeus de Washington. A hostilidade anti-russa dos atuais funcionários da UE e da OTAN teria que acabar. A chanceler alemã Merkel teria que mudar de cores ou ser substituída. O Secretário-Geral da OTAN Jens Stoltenberg teria que ser dispensado.

Nós não sabemos quem Trump selecionará para servir em seu governo. É provável que Trump não esteja familiarizado com as várias possibilidades e suas posições em temas. Realmente depende de quem está assessorando Trump e que conselhos estão dando a ele. Uma vez que vejamos seu governo, nós saberemos se podemos estar esperançosos pelas mudanças que são agora uma possibilidade.

Se a oligarquia for incapaz de controlar Trump e ele for, de fato, bem sucedido em limitar o poder e orçamento do complexo militar-industrial e em manter o setor financeiro politicamente responsável, Trump pode ser assassinado.

Trump disse que ele colocará Hillary na prisão. Ele deve primeiro colocá-la para julgamento por traição e crimes de guerra junto com todos os neoconservadores. Isso limparia o caminho para a paz com as outras duas principais potências nucleares sobre as quais os neoconservadores buscam hegemonia. Apesar de que os neoconservadores ainda teriam contatos no "Estado oculto profundo", seria mais difícil para os vermes organizar operações de falsa bandeira ou um assassinato. Elementos no complexo de segurança/militar ainda poderiam orquestrar um assassinato, mas sem neocons no governo um encobertamento seria mais difícil.

Trump tem mais entendimento e sagacidade do que seus adversários percebem. Para um homem como Trump arriscar adquirir tantos inimigos poderosos e arriscar sua riqueza e reputação, ele devia estar sabendo que a insatisfação popular com o establishment dominante significava que ele poderia ser eleito presidente.

Nós não saberemos o que esperar até vermos quem serão os Secretários e Secretários-Assistentes. Se for a equipe "de sempre", saberemos que Trump foi capturado.

Um resultado duradouro feliz dessa eleição é o descrédito total da mídia americana. A mídia previu uma vitória fácil da Hillary e até o controle do Senado americano pelo Partido Democrata. Ainda mais importante para a perda de influência e credibilidade da mídia, apesar do ataque midiático virulento contra Trump ao longo de todas as primárias presidenciais e da campanha presidencial, a mídia não teve efeito fora das costas nordeste e oeste, os palcos do 1%. O resto do país ignorou a mídia.

Eu não achava que a Oligarquia permitiria uma vitória de Trump. Porém, parece que os oligarcas foram enganados pela propaganda de sua própria mídia. Certos de que Hillarya venceria, eles não estavam preparados para pôr em prática planos de roubar a eleição.

Hillary caiu, mas não os Oligarcas. Se Trump for aconselhado a ser conciliador, a estender a mão e levar o establishment para seu governo, o povo americano será desapontado novamente. Em um país cujas instituições foram tão completamente corrompidas pela Oligarquia, é difícil conquistar mudança real sem derramamento de sangue.

10/11/2016

Keith Preston - O Verdadeiro Perdedor de Ontem: O Humanismo Totalitário

por Keith Preston



Ao contrário do que, sem dúvida, muita gente está pensando, a vitória de Trump não parece ser uma vitória da direita sobre a esquerda, do racismo sobre o antirracismo, ou do conservadorismo social sobre o liberalismo social (ou libertarianismo). Quando várias eleições locais e regionais, bem como referendos, são examinados, e quando as diferenças demográficas dos resultados da eleição presidencial são analisadas, uma imagem um pouco diferente emerge. Considerem estes fatos:

- Trump venceu fazendo campanha à esquerda de Clinton em política externa e política comercial, estendendo um ramo de oliveira para a Rússia, atacando os planos de Clinton de derrubar Assad na Síria, e repudiando as políticas econômicas neoliberais do marido de Hillary. Hillary, por outro lado, fez campanha como uma intervencionista em política externa e defensora do statuos quo corporativo liberal em relação a política comercial.

- Trump se saiu incomumente bem entre minorias raciais (para um republicano), particularmente homens negros e hispânicos.

- Uma maioria significativa dos seus eleitores expressou discordância ou apreensão em relação a algumas das posições mais direitistas de Trump em relação a imigração, legalidade e política econômica.

- Independentes se saíram incomumente bem nessa eleição (relativamente falando) com o esquerdista Green Party e o social-liberal Libertarian Party causando mais danos a Clinton do que a Trump. 

- Oito de nove referendos pró-maconha passaram.

- Um referendo californiano demandando que atores pornô usem camisinha falhou.

- O xerife Joe Arpaio do condado de Maricupa, Arizona, uma grande celebridade conservadora, perdeu sua cadeira.

- As provocações anti-Rússia dos democratas falharam como estratégia eleitoral.

- Carolina do Sul, um estado vencido por Trump, elegeu o primeiro senador negro desde a Reconstrução para um mandato completo.

- Trump empacotou sua campanha nos momentos finais como uma "revanche" do proletariado.

- Evidências indicam que Trump teria perdido se ele estivesse disputando contra Bernie Sanders ao invés de Hillary.

- A vitória de Trump foi tornada possível por sua habilidade de arrebanhar o proletariado nos estados do Cinturão da Ferrugem, os que foram mais atingidos pelo neoliberalismo.

Tudo isso junto, incluindo vitórias para maconha, pornografia, proletariado, e bons desempenhos para partidos esquerdistas menores, e o primeiro senador negro em 150 anos, com o direitista autoritário Joe Arpaio perdendo sua cadeira após 23 anos, dificilmente indicaria uma mudança dos EUA na direção do "fascismo". Ao contrário, pode ser dito com alguma segurança que Trump venceu porque ele era o mais esquerdista dos dois candidatos principais, ou seja, o menos intervencionista em política externa, o mais pró-proletariado, e, por uma ampla margem, o mais anti-sistema.

Há quase 10 anos, eu introduzi a teoria do "humanismo totalitário" onde eu ofereci as seguintes observações.

"A ideologia emergente das classes dominantes ocidentais, particularmente das americanas pode, creio eu, ser descrita como segue:

1 - Militarismo, Imperialismo e Império sob o disfarce de 'direitos humanos', 'democracia', modernidade, universalismo, feminismo e outras baboseiras esquerdistas.

2 - Mercantilismo corporativo (ou 'Capitalismo de Estado') sob o disfarce de 'livre-comércio'.

3 - Na política doméstica, o que eu chamo de 'humanismo totalitário' por meio do qual uma burocracia onipresente e irresponsável se infiltra em cada canto da sociedade para garantir que ninguém em qualquer lugar, a qualquer momento jamais pratice 'racismo, sexismo, homofobia', tabagismo, 'abuso sexual' ou outros pecados esquerdistas.

4 - No reino da lei, um Estado Policial ostensivamente estruturado para proteger todos contra terrorismo, criminalidade, drogas, armas, gangues ou algum outro bicho-papão do mês.

O tipo de Estado que defensores dessa nova ideologia visualizam é um no qual o propósito do governo local é impôr a ortodoxia esquerdista contra instituições rivais (como famílias, religiões, empresas, sindicatos, clubes, outras associações), o propósito do governo nacional é impôr esquerdismo contra comunidades locais, e o propósito da política externa é impôr esquerdismo contra sociedades tradicionais 'atrasadas' ou 'reacionárias'."

O voto de ontem foi, na verdade, um enorme dedo do meio para a classe dominante e sua ideologia de humanismo totalitário. 


08/11/2016

Aleksandr Dugin - Clinton é Guerra, Trump é Paz

por Aleksandr Dugin



Hoje, o destino da humanidade está sendo decidido. A questão é bem clara: guerra ou paz? Os EUA são a única hiperpotência, e há eleições acontecendo neste país hoje. Ah! E que eleições! Pela primeira vez em muitas décadas, os dois candidatos incorporam dois caminhos alternativos de desenvolvimento para os EUA e, em sendo assim, para a humanidade como um todo.

Hillary Clinton é o caminho do globalismo, do mundo unipolar, e a continuação da hegemonia americana. Sob as circunstâncias atuais nas quais o poderio americano está em colapso em todas as regiões do mundo, uma vitória de Clinton significa guerra, guerra contra todos que se opõem à hegemonia americana e escolhem o mundo multipolar ao invés do mundo unipolar. Clinton é a velha ordem mundial, a que foi formada no início dos anos 90. Essa ordem está chegando ao fim, mas ela não quer acabar. E isso significa agonia. A agonia de um pequeno Estado ou nação é uma coisa. Ela é assustadora e perigosa, até mesmo tóxica. Mas a agonia de uma hiperpotência global é um desafio monstruoso para todo o mundo, para toda a humanidade. Ela é como um titã caindo no abismo. Ela pode facilmente arrastar todos os outros consigo. Na verdade, Clinton é uma candidata genuinamente possuída. Mas não por virtude de suas qualidades pessoais. Ao invés, sua obsessão individual reflete a loucura das elites globalistas. Eles ainda governam o mundo, mas seu tempo está se esgotando. Eles não mais atraem ou seduzem ninguém. As pessoas os obedecem apenas por medo e fraqueza. Hillary Clinton é uma imagem da insana Grande Mãe Cibele que castrava seus amantes. Ela porta o elemento matriarcal do horror que demanda submissão sem garantir nada em retorno. Clinton significa guerra.

Donald Trump é a América que quase perdemos. Este é um país imenso habitado por pessoas rústicas, ingênuas e de vontade férrea todas elas ocupadas com suas próprias questões pessoais, estabelecendo negócios e companhias, trabalhando e diversão, mas eles são todos os americanos de Trump por uma razão: eles querem se sentir livres. Só isso. Os apoiadores de Trump são os personagens do livro de Ken Kesey "One Flew Over the Cuckoo's Nest", os pacientes da clínica psiquiátrica governada pela Grande Mãe, a enfermeira-chefe Mildred Rached, a Grande Enfermeira como Grande Mãe. Eles veem que a elite globalista de Wall Street, os maníacos da Reserva Federal e os ultraliberais estão privando os americanos comuns do que é mais importante para eles: sua identidade. Como Patrick Buchanan disse, a América subjugou o mundo, mas perdeu a si mesma. A única escapatória para a América real, a América da liberdade, é democracia direta e dignidade. E isso é Donald Trump. Nele há esperança para paz com outros povos, os americanos voltam para casa para sua "cidade na colina" há muito esquecida e abandonada pela elite transnacional, os neocons e os conspiradores globais do CFR que não se importam com a América. A América de Trump é uma América voltando a suas raízes, uma América focada em sua situação doméstica e renunciando à hegemonia e estratégias globais. Essa América pode se tornar não só uma parceira, mas uma amiga sincera de todos os outros povos e nações. Trump é o Randle Patrick McMurphy do "One Flew Over the Cuckoo's Nest". Ele se rebelou contra a Grande Enfermeira para libertar todos os outros. Ele os encorajou a terem fé em si mesmos e os livrou de seu medo da magia negra da Grande Mãe. A batalha de Trump contra Hillary é também um drama psicanalítico. É o macho independente patriarcal deixando para trás a feitiçaria castradora da feminilidade agressiva.

A América de Trump é uma América de homens, rústicos e desastrados, mas um pouco charmosos.

Tudo será decidido hoje. A vitória de Hillary poderia representar o fim do mundo. É necessário se preparar para isso. Ela se tornou refém das forças que apostaram nela. Muito provavelmente, ela está doente e é mantida apenas pelas drogas médicas mais eficientes. Mas isso não muda nada. O próprio diabo governará a América e parcialmente o resto do mundo por trás dela. A situação é sempre a mesma: as bruxas em si não são nem de longe tão aterrorizantes quando seu senhor escuro. O Evangelho diz que a perversão virá ao mundo, mas ai daquele por quem ela vier.

A vitória de Trump significa um recomeço completo do sistema global. A América será grande novamente, mas não mais será o único pólo. Isso significa que os americanos e outros povos terão liberdade. E o nome dessa liberdade é Donald Trump.

Em todo caso, o mundo será um lugar diferente amanhã. Ou muito pior do que é agora ou muito melhor. Mas apenas uma coisa é clara: o mundo nunca mais será o mesmo.

Aleksandr Dugin - A Revolução de Outubro

por Aleksandr Dugin



Hoje, 7 de novembro, é o dia da Revolução Bolchevique de Outubro, uma data terrível e importante.

Há muito que deve ser dito sobre a Revolução de Outubro. Essa é, indubitavelmente, uma parte de nossa história e somos responsáveis por ela. Portanto, estamos simplesmente obrigados a compreender o sentido desse evento.

Primeiramente, nos tempos soviéticos, a Revolução de Outubro era reverenciada como algo praticamente sagrado, como um evento seminal marcando o início do ciclo soviético.

Na URSS, essa data era considerada como o início do tempo infinito eventualmente levando ao comunismo. Mas como acabou sendo, essa foi apenas uma época que se iniciou em outubro de 1917 e terminou em 1991. Isso significa que o entendimento soviético da Revolução de Outubro estava profundamente incorreto. Nós tomamos uma coisa por outra e tolamente nos apegamos a uma velha interpretação. Precisamos encontrar uma nova explicação para este evento, já que a soviética acabou se mostrando falsa.

Em segundo lugar, essa avaliação positiva, idealizada de outubro de 1917 dominou em nossa sociedade como a única possível por 70 anos.

Ela era falsa, o que significa que precisamos encontrar outra. E é importante levar em consideração a posição da outra metade do povo russo, que não era a favor dos Vermelhos, mas dos Brancos. Para os Brancos, a revolução foi resultado de uma monstruosa conspiração de uma seita puramente infernal e satânica que lançou mão de mentiras e violência para tomar o poder e radicalmente abandonou qualquer legitimidade após a dissolução da Assembleia Constituinte. Ademais, os Brancos especialmente enfatizavam que os bolcheviques consistiam em boa parte de minorias nacionais e dependiam de brigadas estrangeiras, como rifleiros letões ou até soldados chineses. Em outras palavras, Outubro era visto como uma tomada violenta do poder por uma organização terrorista russofóbica. Essa avaliação puramente negativa está provavelmente tão longe da verdade quanto a soviética. De fato, ela está. A teoria conspiratória dos Guardas Brancos é tão inaceitável quanto a idolatria soviética da Revolução de Outubro.

A verdade, aqui, é um pouco assimétrica. Todos estão familiarizados com a interpretação comunista equivocada, enquanto bem poucos de nossos cidadãos estão familiarizados com a versão dúbia e simplista da Guarda Branca. É necessário, no mínimo, consertar esse erro e equiparar duas teorias igualmente questionáveis, tanto o sem-sentido Vermelho da natureza socialista da revolução (em um país agrário com capitalismo subdesenvolvido e quase sem proletariado!) e o sem-sentido Branco de uma conspiração judaica. Mas já que o sem-sentido Vermelho está representado em milhares de filmes e peças, então que haja tantos monumentos ao sem-sentido Branco também. Nós já temos uma explicação tola de Outubro na forma da versão comunista, que é uma mentira tão difundida que qualquer tentativa de publicar as teorias da Guarda Branca no espírito de Ataman Krasnov imediatamente provoca uma onda de protestos. Desde a perspectiva da justiça histórica, hoje os Brancos precisam de espaço absolutamente livre. Eles devem até ser auxiliados nisso até que o equilíbrio seja restaurado, especialmente já que a percepção de Outubro como uma tragédia é inteiramente justificada, na medida em que nosso povo pagou por isso com milhões de vidas de seus melhores filhos e filhas.

Em terceiro lugar, devemos procurar explicar o significado histórico genuinamente profundo da Revolução de Outubro, ou golpe de Outubro, para além das interpretações simplistas e incorretas de Vermelhos e Brancos.

Porém, aqui nos deparamos com um importantíssimo problema metodológico. A história é a ciência da interpretação de fatos, e não só os fatos em si mesmos. Fatos sem interpretações não existem. Portanto, é impossível avaliar um evento ideológico como a Revolução (ou golpe) sem nos basearmos em algum tipo de ideologia. Os Vermelhos e Brancos tem suas plataformas ideológicas. Mesmo suas explicações falsas e contraditórias são mais confiáveis que as teorias inúteis daqueles que reivindicam objetividade. Não há objetividade na história, ela é só uma figura retórica de linguagem. Assim, até que determinemos a cosmovisão de plataforma da nossa sociedade contemporânea, e até que nos reconheçamos hoje, o significado dos eventos de outubro de 1917 permanecerá inacessível e fechado para nós.

Em quarto e último lugar, 1917 foi um fenômeno interrusso. Este foi um monstruoso drama para alguns e um grande feito para outros.

Só nós mesmos, russos, podemos decidir o que 1917 foi na verdade e como isso se relaciona com a lógica geral da história russa. Este é nosso problema e nossa revolução. Portanto, apenas nós temos a tarefa de completar esse quebra-cabeça. Mais ninguém.

Outubro tentou muitos grandes pensadores e poetas russos que viram na revolução um evento escatológico e até o advento da Hora Russa. Quase todos eles se arrependeram depois. Mas isso não significa que eles esperavam a Hora Russa em vão. Dito simplesmente, a verdadeira Revolução Russa ainda está no futuro.

04/11/2016

Aleksandr Dugin - O Último Presidente: Um Ensaio sobre William Jefferson Clinton

por Aleksandr Dugin



(1999)

O Enigma de William Clinton

Clinton é o último presidente americano desse milênio. De certa maneira, ele é o último acorde de uma cadência, ele é o presidente do "fim da história" fukuyamiano. Sua imagem psicológica, política e ideológica são à sua maneira marcas do pós-moderno. Ele é um dos maiores sucessos que o Ocidente teve em sua estrada rumo à dominação mundial total.

Porém, o significado objetivo dessa figura emblemática é radicalmente diferente de sua imagem geral. Ele não é de forma alguma como um heroi cultural, "o grande vitorioso". Aqui devemos perscrutar o enigma de William Clinton, porque há este enigma. Sua banalidade, indistinção e previsibilidade pseudo-leviana portam realmente um sentido mais profundo.

Clinton se tornou o presidente americano quando o país que havia originalmente apresentado a própria essência da "pós-história" estava apto a revelar sua ditadura civilizada ao resto da humanidade. O planeta Terra atual é, de certa forma, uma colônia americana, e neste contexto William Clinton se tornou o "senhor desse mundo".

Desde a perspectiva ideológica, Clinton tem três elementos separados nele, todos unidos em um grande todo de forma a fazer dele o presidente em um momento tão importante para os EUA e todo o mundo ocidental.

Examinemos estes elementos.

Um Democrata Atípico

William Clinton foi eleito pelo Partido Democrata. No sistema bipartidário dos EUA, os democratas são usualmente considerados como "de esquerda". Eles são diferentes da direita por suas demandas sociais; demandas de elevação de impostos para as camadas mais ricas da população, e de redução de impostos para os mais pobres; apoio às demandas de várias minorias (sexuais, raciais, religiosas); pacifismo; orientação para uma redução do orçamento militar; prioridades de "valores humanos básicos" acima de interesses americanos; simpatia por formas moderadas de social-democracia; a ideologia de "direitos humanos"; apoio a organizações multinacionais (como a ONU); a busca por uma "conspiração direitista" por trás de toda crise; comportamento leve e sorridente; o "globalismo" resultante, ou seja, a busca pela criação de Um Mundo, um mundo sem nações, Estados, povos e fronteiras.

Invertendo essas teses nós chegamos à retórica republicana clássica: demandas por cortes em gastos sociais; prontidão para redução dei mpostos para os mais ricos, para que cada classe seja igual em termos de impostos; prioridade para normas da maioria moral sobre os "pervertidos"; militarismo; demandas por aumento do orçamento militar; prontidão para apoiar interesses americanos acima de todo o resto; antissocialismo e anticomunismo; livre iniciativa; crítica a organizações multinacionais (incluindo a ONU); busca por uma "conspiração esquerdista" por trás de toda crise; comportamento apreensivo e quase-ascético; a ideologia básica da dominação americana sobre todo o planeta ao invés de um ideal de "Um Mundo".

Porém, o democrata Clinton não porta todas as características básicas. Por várias razões, seus camaradas o acusaram várias vezes de ser "direitista demais", ou seja, parecido demais a políticos republicanos. O segredo ideológico de Clinton é que nele podemos enxergar os próprios elementos da "direita" e da "esquerda" que são típicos de nossa época. Clinton representa a figura ideal de um liberal, um liberal e não um democrata ou um liberal-democrata.

O ponto é que o liberalismo é o modelo ideológico exclusivo que se tornou máxima norma do politicamente correto ao fim do século XX, quando todos os outros modelos ideológicos já se desintegraram. Estes foram outrora os modelos que se opuseram à tendÊncia supramencionada, e assim ocorreu a reestruturação da arena política.

O liberalismo enquanto tal é uma ideologia, cujo aspecto econômico se baseia em ideologias "direitistas" ("economia de mercado", "republicanismo"), e cujo aspecto político em "esquerdistas" ("democracia", "libertarianismo"). O denominador comum dessa síntese é uma estratégia internacional, melhor caracterizada pelo termo "atlantismo", que almeja atingir um controle estratégico sobre todo o planeta para o Ocidente, através de membros da OTAN. Porém, não faz diferença como classificamos esse atlantismo, poderia ser como "globalismo" (infiltração de valores universais e individualistas do "american way" sobre todos os povos de modo a criar uma "humanidade unificada" a partir das menores partículas possíveis) ou simplesmente como "americanismo" (forçar outros países a ficarem subjugados aos interesses estratégicos dos EUA); ambas variantes do atlantismo diferem em nuances e métodos apenas, mas servem ao mesmo propósito, domínio ocidental total.

William Clinton é um democrata naquelas esferas que não concernem economia ou política externa. Ele sorri bastante, é doce, tolerante, simpatiza com minorias e com feminismo, expressa uma orientação social (elevar o nível dos serviços médicos), gosta de falar em "direitos humanos". Ao fazê-lo, ele se aproxima bastante do estereótipo clássico de um democrata, tentando até superar Kennedy.

Ao mesmo tempo, Clinton está bem próximo à direita política sempre que há qualquer questão sobre impostos, livre iniciativa e especialmente seguir o "american way" em questões internacionais, onde os EUA da era Clinton pôs em prática estratégias crueis e agressivas do atlantismo "direitista" (Iraque, Bósnia, Afeganistão).

Segundo testemunho de amigos, Clinton está preocupada sobre como ele será visto na sequência de presidentes americanos. Desde a perspectiva ideológica, ele é o presidente "ideal", "o último presidente" no mesmo sentido em que Nietzsche falou sobre "o último homem".

A Conspiração Sexual

Toda a história política de Clinton tem sido acompanhada por escândalos sexuais. A psicanálise da vida sexual de Clinton é um dos temas favoritos de psicólogos e jornalistas americanos. Nós não sabemos menos sobre sua vida íntima, preferências sexuais e perversões do que sabemos sobre os desvios da exibicionista Madonna. Poder-se-ia pensar que um político pragmático que está no topo do poder político do pais mais importante do mundo seria capaz de controlar seu apetite ou, pelo menos, cuidar de ocultar seus segredos. O retrato psicológico de Clinton não nos leva a pensar que estamos lidando com um fraco inútil incapaz de controlar seus apetites.

Deve haver algum outro mecanismo ou razão por trás disso tudo. O psicanalista Paul Lovinger apresentou a seguinte versão: William Clinton e sua esposa Hillary ("Billy e Hilly") representam o análogo contemporâneo da parelha divina, um tipo de remake do "deus" e "deusa" mitológicos antigos. É exatamente assim que a audiência americana infantil criada por desenhos, fantasias hollywoodianas e terror, os vê. Hillary é a Grande Mãe da América. Ela se preocupa com os pobres, e tanto as mulheres ativas quanto os homens passivos confiam nela. Sua função pública corresponde à da antiga deusa grega Hera. 

Já o próprio Bill Clinton é a encarnação do lúdico Zeus, cercado por ninfas e pela equipe da Casa Branca. Suas escapadas tem um sentido psicológico, além do mitológico. Ele é a prova do poder prolífico e da atratividade universal do macho americano. O fato de que Hillary, sendo constantemente chifrada por seu esposo, está sempre pronta para defendê-lo diante dos inimigos, ilustra o fato de que não estamos lidando com emoções humanas espontâneas, mas com um psicodrama cuidadosamente planejado encenado no palco do teatro global. (Para mais informações, Paul Lovinger: "Bill Clinton se encontra com os Psiquiatras", 1998)

Há também outra versão, um tanto paradoxal, do pano-de-fundo secreto por trás dos escândalos sexuais do primeiro casal do planeta. Ela se baseia na ideia de que Clinton, representando ideias "direitistas" ("republicanas"), se diverte constantemente de forma descuidada para ocultar o fato de que sua política carece todos os traços realmente democratas.

Hillary Clinton uma vez veio com uma versão de que todos os escândalos (sejam adultérios reais ou supostos) foram criados pelos "direitistas". Por outro lado, estes mesmos "direitistas" continuam a culpar Clinton por ser um "nazista", já que ele acredita em uma teoria da conspiração, que é bastante próxima a, bem, vocês sabem o que...

Fim de Jogo

William Clinton não é objeto de crítica. Ele apresenta em si mesmo, em suas ações e palavras, a imagem objetiva de como as coisas são. Ele é o espelho da história, um ator adequado e humilde desempenhando seu papel, de modo que não possamos alterar nem uma única entonação de sua fala, sem falar nas próprias palavras. Ele tem sido culpado por não tomar qualquer decisão, mas nenhuma decisão é possível após o fim da história. Algumas pessoas afirmam que ele não mudou uma única coisa na história americana, mas é impossível mudar qualquer coisa nessa vida.

O último presidente, o batista de cabelos brancos, o senhor globalista desse mundo, com poder total sobre o planeta, é incapaz de completar qualquer coisa. 

Seus olhos injetados nos trazem à mente a fisionomia de Volodin, de "O Diabrete" de Sologub, impotentemente e tristemente testemunhando: "Isso foi tudo. Vocês esperavam algo mais? Ah, convenhamos, sejam realistas...isso foi definitivamente tudo".

Fim de jogo.

02/11/2016

Anthony Migchels - As Dez Principais Mentiras e Erros da Escola Austríaca

por Anthony Migchels



1 - "Banqueiros odeiam ouro"

Hoje em dia, todos sabem que o século XIX foi chamado de "a Era dos Rothschild". Eles controlavam o mercado do ouro e se tornaram incrivelmente ricos emprestando o metal a governos. 

O Poder Financeiro ascendeu através do Ouro.

Eles o amam porque ele é deflacionário, eles podem taxá-lo com juros, eles podem criar ciclos de boom/recessão com ele e podem controlá-lo completamente.

Obviamente os banqueiros não odeiam ouro. A Europa esteve sob o padrão-ouro por todo o século XIX e só o abandonaram na década de 30, graças à horrível deflação que foi a Grande Depressão. Populistas da época finalmente conseguiram forçar seus governos a se livrar dele. Eles vinham alertando sobre suas tendências deflacionárias há eras.

O Ouro é a Moeda Global de facto.

Ron Paul: "A moeda-mercadoria se aceita voluntariamente e universalmente poderia nos dar uma única moeda global que não demande quaisquer gerenciadores de dinheiro, quaisquer manipuladores orquestrando um ciclo econômico humano com inflação descontrolada" - Ron Paul, Congressional Record, 13 de março, 2001.

Antigamente, os economistas austríacos diriam que os governos odeiam o padrão-ouro. Alan Greenspan, um dos mais famosos banqueiros austríacos amantes de ouro, escreveu em 1966: "Um antagonismo quase histérico ao padrão-ouro é uma questão que une estatistas de todas as orientações". 

O governo, é claro, é o inimigo clássico da economia austríaca, mas o adversário do dia no "Movimento pela Verdade" são os banqueiros. Assim, para vendermos algo, falamos que os banqueiros o odeiam. 

Eles de fato se depararam com o pequeno problema de que os populistas americanos dificilmente se convenceriam disso. Um dos motivos sendo por causa do livro "Segredos da Reserva Federal" de Eustace Mullins, que famosamente descreveu a quem pertence o FED e como ele nasceu. Mullins, naturalmente, foi bastante explícito em sua análise do Ouro como a moeda favorita do banqueiro.

Mas Ed Griffin resolveu isso para eles. Ele escreveu um livro ainda mais famoso: "A Criatura da Ilha Jekyll". É basicamente um plágio do livro de Mullins, com uma diferença: ele propõe o padrão-ouro para se livrar do FED.

Dessa maneira, Griffin obscureceu a verdade para milhões de pessoas, que acharam que ele estava basicamente falando o mesmo que Mullins.

2 - "O governo é o principal problema"

Essa é a manobra de distração pela qual a economia austríaca é mais famosa. Tal como a economia hegemônica, ela ignora completamente o Poder Financeiro.

A economia austríaca também é incrivelmente "ingênua" no que concerne interesses privados no controle de mercados. A economia austríaca sempre explicará que governos não devem interferir com a economia, ao mesmo tempo que ignoram a inclinação monopolista do Capital.

Como resultado, a economia austríaca é o sonho molhado dos trilionários, na medida em que eles resistirão a qualquer ação governamental contra eles e suas transnacionais.

A economia austríaca vai realmente culpar o governo pelo fato de que os mercados são agora controlados por carteis transnacionais. Por que eles nunca parecem considerar os acionistas e controladores como responsáveis permanece uma questão aberta.

Para ser justo, a análise da economia austríaca sobre as implicações negativas de várias regulações é certeira e esclarecedora.

Porém, ignorar a disputa por poder que é inevitável tanto no mercado quanto na política é tão ingênuo e aprazível para o poderoso que é quase impossível compreender como alguém que não eles poderia ter pensado nisso. 

O fato é que os governos ao redor do mundo foram subvertidos por interesses privados. E estes interesses privados são bastante homogêneos. Essa centralização internacional do poder, concentrada ao redor de famílias bancárias extremamente ricas, o Poder Financeiro, é o problema.

O governo é uma instituição neutra, associada com uma Nação. A opinião pública pode sempre se impôr sobre ele. 

Mas quando tanto o próprio governo quanto a opinião pública são cativos do Poder Financeiro, o governo se tornará bastante intragável.

Logo, ele se tornará obsoleto, na medida em que rende sua soberania ao Governo Mundial e à Moeda Global. Os governos e, certamente, as nações jamais renderão voluntariamente sua soberania.

Estes projetos claramente pertencem ao Poder Financeiro.

3 - "A Manipulação do Volume de Oferta de Dinheiro é o principal problema com nosso dinheiro"

Outro desvio de atenção: manipulação de volume certamente um flagelo. Mas ele ignora um problema ainda maior: juros.

O governo atualmente paga 700 bilhões por ano em serviço da dívida para a Dívida Nacional. Não importa se isso é pago por Ouro ou papel.

Nós atualmente pagamos $150.000 dólares em juros por mais de trinta anos por causa de uma hipoteca de $100.000. A maior parte dessa hipoteca foi criada por simples contabilidade no momento em que pegamos o empréstimo.

45% dos preços que pagamos por nossas necessidades diárias são compensação por custos de capital incorridos pelo produtor.

Nós somos Escravos dos Juros.

Mas se nós pudermos ter crédito por contabilidade, claramente nós deveríamos conseguir dinheiro sem juros, porque o crédito é nosso, não do banco.

4 - "Ouro garante um volume constante"

Essa é uma outra suposição bem estranha. Afinal, os padrões-ouro do passado viram bolhas terríveis. 

O ciclo boom/recessão não tem nada a ver com moeda, mas com se a oferta de dinheiro está sendo manipulada. 

A ideia de que o Ouro não pode ser impresso e de que isso dá segurança sobre o volume é besteira. Banqueiros rotineiramente tem segurado vastas quantias em espécie de circulação, só para inflacionar novamente depois.

5 - "Inflação é ruim"

É certamente verdadeiro que a inflação traz problemas.

A inflação é ruim para poupadores, credores e pessoas com renda fixa. Mas ela é boa para devedores, os quais há em quantidade muito maior que credores. E, muito importante, inflação está ligada a crescimento econômico. As pessoas param de acumular dinheiro e preferem investir e gastar.

O foco unidimensional do austrianismo na inflação, promovendo efetivamente o horror da deflação faz parecer que eles estão demonizando a inflação para fazer a deflação parecer mais palatável. 

6 - "Deflação é bom" 

Essa afirmação é tão incrivelmente favorável para os super ricos, que são basicamente os únicos que se beneficiam com a deflação, que ela coloca a economia austríaca em péssima situação.

Os austríacos claramente promovem a dialética da deflação/inflação, com todas as suas implicações nefastas.

A deflação é ruim para devedores. Ela torna suas dívidas e os juros que eles pagam em cima delas valer mais.

Deflação é uma transferência de riqueza daqueles que possuem bens para aqueles que acumulam dinheiro. 

A deflação corroi o crescimento econômico porque as pessoas preferem acumular dinheiro do que investir ou gastá-lo.

Como resultado, a deflação em todas as frentes torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.

7 - "Nós não queremos um padrão-ouro, nós queremos um livre-mercado de moedas"

Isso é tão imbecil. Há duas razões principais para ser assim.

a) Na verdade, a ideia de um livre-mercado de moedas é bem atraente. No caso de que todos os sistemas diferentes receberem o mesmo financiamento e propaganda, tal mercado indubitavelmente veria Instituições de Crédito Mútuo fornecendo crédito sem juros prevalecerem, ver abaixo.

Porém, só Ouro e talvez Prata, mas não se eles puderem evitar, receberão toda atenção e financiamento. Na verdade, o Crédito Mútuo será resistido ativamente pelo Poder Financeiro.

Isso não será impedido pelo governo, que teria acabado de criar por decreto esse novo "livre-mercado", porque isso seria "interferência estatista".

Assim, só Ouro circulará. 

b) Houvesse um "livre-mercado", ali estaria a Lei de Gresham. Dinheiro ruim expulsa dinheiro bom.

Isso significa que as unidades apreciativas em valor serão acumuladas, enquanto as depreciativas serão usadas para pagamento. 

Todos aceitarão a unidade depreciativa (desde que ela não esteja hiperinflacionando), porque a maioria irá querer pagar com ela e as empresas terão que aceitá-la para acomodar seus clientes. Eles não terão um problema com isso, de qualquer maneira. As empresas não se importam com quanto valerá o dinheiro no espaço de 1 ano. Elas querem saber onde poderão gastá-lo amanhã.

Isso significa que nada vai acontecer se a proposta do Ron Paul de tornar Ouro e Prata moedas de curso forçado for aceita. As pessoas continuarão a pagar com as notas do FED e a acumular Ouro.

Também, se suas opções forem uma hipoteca baseada em Ouro custando 5% ao ano, ou uma hipoteca em Crédito Mútuo a 0% ao ano, o que você escolheria?

Caso encerrado.

8 - "A economia austríaca é odiada pela mídia hegemônica"

Apesar de ser verdade que a economia austríaca é marginal, também em termos de atenção midiática, ela sempre manteve um nicho constante. Não é por nada que Peter Schiff e Gerald Celente estavam prevendo a crise na mídia de massa.

Recentemente, Ed Griffin foi veiculado por Glenn Beck em horário nobre.

O juiz Napolitano consegue todo o espaço que ele quiser na Fox News, expondo seu austrianismo. Surpreendentemente, o fato de que até a Fox News veicula austrianismo não chama a atenção das pessoas.

9 - "Moedas fiduciárias são sempre ruins"

Outro estratagema típico: uma dialética. Tentar enquadrar a situação como uma de Papel vs Ouro. Ambos ignorando juros.

Mas papel sem juros é, obviamente, uma coisa totalmente diferente. No mínimo ele não vai sofrer com a inflação forçada sobre oferta de dinheiro com juros. Como os juros não são gastos e postos em circulação, mas emprestados novamente, nunca há o bastante para pagar toda a dívida + juros. Com padrão-ouro isso é deflacionário, porque a oferta de dinheiro não pode crescer. Com papel, isso é "resolvido" com cada vez mais dívida. Com ainda mais juros. 

O crédito mútuo moderno é livre de inflação. Ou melhor: o mercado está no controle da oferta de dinheiro. Ela cresce quando deve, encolhe quando deve.

Crédito social é possivelmente inflacionário, mas tudo mundo é plenamente compensado por isso por causa do fato de que o dinheiro inflacionário é gasto sendo posto em circulação. Enquanto isso, a inflação estimulará a produção.

Eles estão tentando promover a ideia de que moedas fiduciárias são automaticamente ruins "porque o volume será manipulado".

Isso é o eterno clichê, assassinando todo debate racional sobre como gerenciar todos os diferentes parâmetros nas diferentes propostas.

10 - "O problema é o FED"

O FED é um sintoma, não o problema. O problema é que a oferta de moeda é controlada pelo Poder Financeiro, que usa este controle para nos escravizar com juros, dinheiro escasso e o ciclo boom/recessão.

O FED é seu veículo. Nós queremos nos livrar dele, porque nós queremos o fim do controle da oferta de dinheiro pelo Poder Financeiro. Não é um fim em si mesmo.

Os austríacos usam isso para "combater o FED" e adquirir simpatia e apoio, ao mesmo tempo mantendo o controle da oferta de dinheiro com a plutocracia.