22/06/2011

Cultura de Direita

"Diz-se, por exemplo, que a cultura está à esquerda porque é ali em que se encontra mais dinheiro, de editoras, de meios de propaganda. E também afirma-se que se o vento mudasse, muitos 'comprometidos com a esquerda' revisariam seu engagément.

Em tudo isso há parte de razão. Uma cultura ou, melhor, o ponto de partida do qual tem necessidade uma cultura são também organização, dinheiro e propaganda. Resulta induvidável que o predomínio esmagador das edições de orientação marxista, do cinema social-comunista, convida ao engagément também a muitos que em um ambiente diferente teriam permanecido neutros.

Sem embargo, isso não deve fazer-nos esquecer a verdadeira causa do predomínio da hegemonia ideológica da esquerda. Esta reside no fato de que ali, na esquerda, existem as condições para um cultura, existe uma concepção unitária da vida, materialista, democrática, humanitária, progressista. Esta visão do mundo e da vida pode assumir diferentes matizes, pode tornar-se radicalismo e comunismo, neo-iluminismo ou 'cientificismo' de caráter psicanalítico, marxismo militante e cristianismo positivo de natureza 'social'. Porém sempre nos encontramos frente a uma visão unitária do mundo, dos fins da história e da sociedade.

Dessa concepção comum surge uma massiva produção ensaística, histórica e literária que pode ser mesquinha e decadente mas que possui uma lógica e uma coerência íntima próprias. Esta lógica, esta coerência exercem uma fascinação crescente sobre as pessoas cultas. Não é nenhum mistério para ninguém que um grande número de docentes médios e universitários é marxista e que o processo de extensão do marxismo entre o corpo de profissionais do ensino verifica-se com uma impressionante rapidez. E entre os jovens que tem o hábito de ler, as posições de esquerda ganham terreno de forma evidente.

No âmbito da direita não produz-se nada semelhante. Aqui vaga-se em uma atmosfera deprimente, feita de conservadorismo  caseiro e respeitabilidade burguesa. Pode-se ler artigos nos quais solicita-se que a cultura tenha mais em conta os 'valores patrióticos' ou a 'moral', tudo por meio de uma pitoresca confusão de idéias e linguagens.

À esquerda sabe-se perfeitamente o que é que se quer. Quer esteja-se a falar da nacionalização do setor elétrico ou urbanístico, da história da Itália ou da psicanálise, sempre trabalha-se para um fim determinad, para a difusão de uma determinada mentalidade, de uma certa concepção da vida.

À direita anda-se tateando na incerteza e na imprecisão ideológica. É-se 'patriótico-ressurgimentista' e ignora-se os aspectos obscuros, democráticos e maçônicos que coexistiram no Ressurgimento com a idéia unitária. Ou bem aposta-se em um 'liberalismo nacional' e esquece-se que o mercantilismo e o nacionalismo liberais constribuíram de maneira importante para a destruição da ordem européia. Ou, inclusive, fala-se de Estado nacional do trabalho e esquece-se que, desgraçadamente, já temos uma república italiana fundada no 'trabalho' e que reduzir a estes termos nossa alternativa significa simplesmente rebaixar-nos ao nível de social-democratas acessórios.

Quiçá as pessoas cultas não sejam em menor número à direita do que à esquerda. Se considera-se que a maior parte do eleitorado de direita é burguês, dever-se-ia deduzir que entre eles são abundantes as pessoas que tenham realizado estudos superiores e deveriam ter contraído um certo 'hábito de leitura'.

Sem embargo, enquanto o homem de esquerda dispõe também dos elementos da cultura de esquerda e lê Marx, Freud, Salvemini, o homem de direita dificilmente possui uma consciência cultural de 'Direita'. Não suspeita da importância de um Nietzsche na crítica à civilização, jamais leu um único romance de Jünger ou Drieu La Rochelle, desconhece a Decadência do Ocidente de Spengler e não duvida em absoluto que a Revolução Francesa constituiu uma página insigne na história do progresso humano. Enquanto mantém-se no âmbito da cultura é um bravo liberal, somente, talvez, um pouco nacionalista e patriota.

Unicamente quando começa a falar de política diferencia-se: Opina que Mussolini era um homem honesto e não queria a guerra e que os filmes de Pasolini são 'obscenos'.

Não falta muito para dar-se conta de que à direita não existe uma cultura porque não existe uma verdadeira idéia da 'Direita', uma visão do mundo qualitativa, aristocrática, agonística, antidemocrática; uma visão coerente acima de certos interesses, de  certas nostalgias e de certas oleografias políticas."
(Adriano Romualdi)


21/06/2011

Crimepensar

"Como nós já vimos no caso da palavra livre, palavras que já portaram um significado herético foram às vezes retidas por conveniência, mas apenas com os significados indesejáveis purgados deles. Incontáveis outras palavras tais como honra, justiça, moralidade, internacionalismo, democracia, ciência, e religião simplesmente cessaram de existir. Algumas palavras cobriram-nas, e, ao fazerem isto, as aboliram. Todas as palavras que agrupavam-se ao redor dos conceitos de liberdade e igualdade, por exemplo, foram contidas na única palavra crimepensar, enquanto todas as palavras agrupando-se ao redor dos conceitos de objetividade e racionalismo foram contidas na única palavra velhopensar. Maior precisão teria sido perigoso. O que era necessário em um membro do Partido era uma perspectiva similar àquela do antigo hebreu que sabia, sem saber muito mais, que todas as nações que não a sua própria adoravam 'falsos deuses'. Ele não precisava saber que esses deuses eram chamados Baal, Osiris, Moloch, Ashtaroth, e similares: provavelmente quanto menos ele soubesse melhor para sua ortodoxia. Ele conhecia Jeová e os mandamentos de Jeová: ele sabia, portanto, que todos os deuses com outros nomes ou outros atributos eram falsos deuses."
(George Orwell, 1984)



20/06/2011

Biografia de Pierre Drieu La Rochelle

por José Antonio Hernández García

"Se Pierre Drieu La Rochelle não tivesse morrido em 1945, hoje seria ele o príncipe da juventude." - Robert Poulet

Pierre Drieu La Rochelle nasceu em 3 de janeiro de 1893 e suicidou-se em 15 de março de 1945 em Paris. Aos catorze anos, em 1907, descobre Assim Falou Zaratustra de Friedrich Nietzsche, influência que nunca o abandonará. Depois de uma viagem pela Alemanha e Inglaterra, define-se como "germanófilo e anglómano." Quando tem início a guerra de 1914 serve na infantaria e será ferido três vezes; sua experiência no front o marcará para sempre e determinará sua obra posterior. Ao finalizar a guerra torna-se amigo de Aldous Huxley, autor do romance de antecipação Admirável Mundo Novo. Devora os livros de Shakespeare, de Goethe, de Schopenhauer, de Dostoievsky, de Proudhon, de Sore, de Barrès, de Kipling, de Péguy, de Guénon e de Maurras. Interrogação, livro que reúne seus primeiros poemas, o publica em 1917. Entre 1920 e 1924 é atraído pelo dadaísmo e aproxima-se aos surrealistas André Breton e Paul Éluard, e seu nome aparece na revista Littérature; também torna-se amigo de Louis Aragon.

Porém em 1925 assina um artigo histórico na Nouvelle Revue Française que o afasta para sempre da vanguarda. Enquanto isso, escreve e alterna o ensaio lírico, Medida de França, e o romance analítico, O Homem Coberto de Mulheres. Em 1926, reencontra-se com Emmanuel Berl depois de ter colaborado na Revue Hebdomadaire. O ano de 1927 marca o ano de mais intensa amizade de Drieu com André Malraux, que permanecerá fiel a sua memória até o fim. Drieu escreve artigos para Bertrand de Jouvenel na La Lutte des Jeunes em 1934, onde conhece o militante Pierre Andreu, seu futuro biógrafo. Faz sua profissão de fé no Socialismo Fascista: "Este desejo de fazer uma política de esquerda, com homens de direita." Nesse mesmo ano conhece a Ernst von Salomon em Berlim. Drieu é insuperável no diário íntimo e no testemunho introspectivo. Suas reflexões decadentistas e suas descrições pessimistas do mundo literário e político fazem dele o melhor memorialista de seu tempo. Isso sem esquecer seu talento como jornalista que encontramos nas compilações de artigos: Crônica política, 1934-1942 e em O Francês da Europa. Em 1936 adere ao Partido Popular Francês (P.P.F.) dirigido por Jacques Doriot - antigo comunista - e assiste a sua fundação em Saint-Denis. Escreve regularmente no L'Émancipation Nationale, órgão de imprensa do partido. Em 1939 envia sua carta de demissão ao PPF. Depois da derrota de 1940, torna-se membro da direção da N.R.F. Também aparecem seus artigos na La Gerbe de Alphonse de Châteaubriant. Em 1943 colabora no hebdomadário La Révolution Nationale, de Lucien Combelle. Se assume como "socialista europeu" porém se decepciona rapidamente em virtude da iminente queda do Terceiro Reich. A concepção da Europa de Drieu é idealizada e utópica devido à influência de suas leituras de autores românticos alemães. Cada vez mais se interessa nos místicos hindús. Perseguido e vivendo na clandestinidade, se mata aos 52 anos, depois de ter finalizado seu Relato Secreto, onde aponta: "me conduzi com plena consciência, duramente minha vida, de acordo com a idéia que me fiz dos deveres do intelectual." É o testamento sincero de um humanista sensível, de um asceta e de um poeta lúcido em busca do absoluto em uma época atormentada e decadente. Apesar de sua obra desigual, sua vitalidade e seu temperamento único aparecem em todos os seus livros: "Por princípio sou um escritor desigual. O essencial do que tinha a dizer já o havia assinalado, porém apoiando a pena em uma força mal-fadada. Há em meus primeiros escritos o melhor e o pior. Por uma razão de vida e morte, devia separar o melhor do pior." (Escritos de Juventude, 1941). Pierre Drieu La Rochelle pode ser considerado o filho espiritual de Friedrich Nietzsche e de Maurice Barrès.



19/06/2011

Parvoíce Antitradicionalista

"Se as idéias antitradicionalistas valessem mais que nossa tradição, esta teria tornado-se uma espécie de pré-história, mas apenas um pouco melhor conhecida. Isso é o que se tem desejado fazer nesses anos ao chamarem 'homens das cavernas' aos espanhóis amantes das glórias do passado. Porém quando pergunta-se pelos títulos das idéias que julgam-se novas, os inimigos hão de guardar silênico, se não preferem envolver-se em retórica inane. Porque a árvore é conhecida por seus frutos e os seus não aparecem. Nem uma filosofia que sustente-se, nem um sistema de Direito satisfatório, nem o bem-estar do povo, nem uma grande arte, nem história, nem poesia. Um trágala perpétuo, uma ameaça incessante, um insulto permanente. São estes os títulos das novas idéias? A arte pela arte? Não produziu uma única grande obra em país algum. A economia individualista? É a mãe dos problemas sociais. O socialismo? Arruina aos povos. A democracia? É a incapacidade para o governo. O liberalismo espiritual? É o triunfo da difamação. O bacharelado enciclopédico? Como quase todo o cômputo de Instrução pública não serve senão para infiltrar nos espíritos o horror ao trabalho. Repitamo-nos para consolar-nos, que a maioria dessas coisas foram-nos trazidas por gente de boa-fé, que lançaram-se a buscar pelo mundo o que necessitávamos. Porém não esqueçamos que acompanhavam-nas e empurravam-nas os ressentidos, os negadores, os anormais, que não moviam-se senão por impulsos destrutivos, que, pelo visto não satisfizeram-se em despedaçar o que foi o mais generoso e humano de todos os Impérios que houveram no mundo."
(Ramiro de Maeztu)



17/06/2011

Armin Mohler: discípulo de Sorel e teórico da vida concreta

Por Dr. Karlheinz Weissmann

O “mito”, como a “representação de uma batalha”, surge espontaneamente e exerce um efeito mobilizador sobre as massas, incute-lhes uma “fé” e torna-as capazes de actos heróicos, funda uma nova ética: essas são as pedras angulares do pensamento de Georges Sorel (1847-1922). Este teórico político, pelos seus artigos e pelos seus livros, publicados antes da primeira guerra mundial, exerceu uma influência perturbante tanto sobre os socialistas como sobre os nacionalistas.
Contudo, o seu interesse pelo mito e a sua fé numa moral ascética foram sempre – e continuam a sê-lo apesar do tempo que passa – um embaraço para a esquerda, da qual ele se declarava. Podemos ainda observar esta reticência nas obras publicadas sobre Sorel no fim dos anos 60. Enquanto algumas correntes da nova esquerda assumiram expressamente Sorel e consideravam que a sua apologia da acção directa e as suas concepções anarquizantes, que reclamavam o surgimento de pequenas comunidades de “produtores livres”, eram antecipações das suas próprias visões, a maioria dos grupos de esquerda não via em Sorel mais que um louco que se afirmava influenciado por Marx inconscientemente e que trazia à esquerda, no seu conjunto, mais dissabores que vantagens. Jean-Paul Sartre contava-se assim, evidentemente, entre os adversários de Sorel, trazendo-lhes a caução da sua notoriedade e dando, ipso facto, peso aos seus argumentos.

Quando Armin Mohler, inteiramente fora dos debates que agitavam as esquerdas, afirmou o seu grande interesse pela obra de Sorel, não foi porque via nele o “profeta dos bombistas” (Ernst Wilhelm Eschmann) nem porque acreditava, como Sorel esperara no contexto da sua época, que o proletariado detivesse uma força de regeneração, nem porque estimava que esta visão messiânica do proletariado tivesse ainda qualquer função. Para Mohler, Sorel era um exemplo sobre o qual meditar na luta contra os efeitos e os vectores da decadência. Mohler queria utilizar o “pessimismo potente” de Sorel contra um “pessimismo debilitante” disseminado nas fileiras da burguesia.

Rapidamente Mohler criticou a “concepção idílica do conservantismo”. Ao reler Sorel percebeu que é perfeitamente absurdo querer tudo “conservar” quando as situações mudaram por todo o lado. A direita intelectual não deve contentar-se em pregar simplesmente o bom-senso contra os excessos de uma certa esquerda, nem em pregar a luz aos partidários da ideologia das Luzes; não, ela deve mostrar-se capaz de forjar a sua própria ideologia, de compreender os processos de decadência que se desenvolvem no seu seio e de se desembaraçar deles, antes de abrir verdadeiramente a via a uma tradução concreta das suas posições.
Uma aversão comum aos excessos da ética da convicção
Quando Mohler esboça o seu primeiro retrato de Sorel, nas colunas da revista Criticón, em 1973, escreve sem ambiguidades que os conservadores alemães deveriam tomar esse francês fora do comum como modelo para organizar a resistência contra a “desorganização pelo idealismo”. Mohler partilhava a aversão de Sorel contra os excessos da ética da convicção. Vimo-la exercer a sua devastação na França de 1890 a 1910, com o triunfo dos dreyfusards e a incompreensão dos Radicais pelos verdadeiros fundamentos da Cidade e do Bem Comum, vimo-la também no final dos anos 60 na República Federal, depois da grande febre “emancipadora”, combinada com a vontade de jogar abaixo todo o continuum histórico, criminalizando sistematicamente o passado alemão, tudo taras que tocaram igualmente o “centro” do tabuleiro político.

Para além destas necessidades do momento, Mohler tinha outras razões, mais essenciais, para redescobrir Sorel. O anti-liberalismo e o decisionismo de Sorel haviam impressionado Mohler, mais ainda do que a ausência de clareza que recriminamos no pensamento soreliano. Mohler pensava, ao contrário, que esta ausência de clareza era o reflexo exacto das próprias coisas, reflexo que nunca é conseguido quando usamos uma linguagem demasiado descritiva e demasiado analítica. Sobretudo “quando se trata de entender elementos ou acontecimentos muito divergentes uns dos outros ou de captar correntes contrárias, subterrâneas e depositárias”. Sorel formulou pela primeira vez uma ideia que muito dificilmente se deixa conceptualizar: as pulsões do homem, sobretudo as mais nobres, dificilmente se explicam, porque as soluções conceptuais, todas feitas e todas apropriadas, que propomos geralmente, falham na sua aplicação, os modelos explicativos do mundo, que têm a pretensão de ser absolutamente completos, não impulsionam os homens em frente mas, pelo contrário, têm um efeito paralisante.
Ernst Jünger, discípulo alemão de Georges Sorel
Mohler sentiu-se igualmente atraído pelo estilo do pensamento de Sorel devido à potencialidade associativa das suas explicações. Também estava convencido que este estilo era inseparável da “coisa” mencionada. Tentou definir este pensamento soreliano com mais precisão com a ajuda de conceitos como “construção orgânica” ou “realismo heróico”. Estes dois novos conceitos revelam a influência de Ernst Jünger, que Mohler conta entre os discípulos alemães de Sorel. Em Sorel, Mohler reencontra o que havia anteriormente descoberto no Jünger dos manifestos nacionalistas e da primeira versão do Coração Aventureiro (1929): a determinação em superar as perdas sofridas e, ao mesmo tempo, a ousar qualquer coisa de novo, a confiar na força da decisão criadora e da vontade de dar forma ao informal, contrariamente às utopias das esquerdas. Num tal estado de espírito, apesar do entusiasmo transbordante dos actores, estes permanecem conscientes das condições espacio-temporais concretas e opõem ao informal aquilo que a sua criatividade formou.
O “afecto nominalista”
O que actuava em filigrana, tanto em Sorel como em Jünger, Mohler denominou “afecto nominalista”, isto é, a hostilidade a todas as “generalidades”, a todo esse universalismo bacoco que quer sempre ser recompensado pelas suas boas intenções, a hostilidade a todas as retóricas enfáticas e burlescas que nada têm a ver com a realidade concreta. É portanto o “afecto nominalista” que despertou o interesse de Mohler por Sorel. Mohler não mais parou de se interessar pelas teorias e ideias de Sorel.

Em 1975 Mohler faz aparecer uma pequena obra sucinta, considerada como uma “bio-bibliografia” de Sorel, mas contendo também um curto ensaio sobre o teórico socialista francês. Mohler utilizou a edição de um fino volume numa colecção privada da Fundação Siemens, consagrado a Sorel e devida à pluma de Julien Freund, para fazer aparecer essas trinta páginas (imprimidas de maneira tão cerrada que são difíceis de ler!) apresentando pela primeira vez ao público alemão uma lista quase completa dos escritos de Sorel e da literatura secundária que lhe é consagrada. A esta lista juntava-se um esboço da sua vida e do seu pensamento.

Nesse texto, Mohler quis em primeiro lugar apresentar uma sinopse das fases sucessivas da evolução intelectual e política de Sorel, para poder destacar bem a posição ideológica diversificada deste autor. Esse texto havia sido concebido originalmente para uma monografia de Sorel, onde Mohler poria em ordem a enorme documentação que havia reunido e trabalhado. Infelizmente nunca a pôde terminar. Finalmente, Mohler decidiu formalizar o resultado das suas investigações num trabalho bastante completo que apareceu em três partes nas colunas da Criticón em 1997. Os resultados da análise mohleriana podem resumir-se em 5 pontos:
Uma nova cultura que não é nem de direita nem de esquerda
1. Quando falamos de Sorel como um dos pais fundadores da Revolução Conservadora reconhecemos o seu papel de primeiro plano na génese deste movimento intelectual que, como indica claramente o seu nome, não é “nem de direita nem de esquerda” mas tenta forjar uma “nova cultura” que tomará o lugar das ideologias usadas e estragadas do século XIX. Pelas suas origens este movimento revolucionário-conservador é essencialmente intelectual: não pode ser compreendido como simples rejeição do liberalismo e da ideologia das Luzes.

2. Em princípio, consideramos que os fascismos românicos ou o nacional-socialismo alemão tentaram realizar este conceito, mas estas ideologias são heresias que se esquecem de levar em consideração um dos aspectos mais fundamentais da Revolução Conservadora: a desconfiança em relação às ideias que evocam a bondade natural do homem ou crêem na “viabilidade” do mundo. Esta desconfiança da RC é uma herança proveniente do velho fundo da direita clássica.

3. A função de Sorel era em primeiro lugar uma função catalítica, mas no seu pensamento encontramos tudo o que foi trabalhado posteriormente nas distintas famílias da Revolução Conservadora: o desprezo pela “pequena ciência” e a extrema valorização das pulsões irracionais do homem, o cepticismo em relação a todas as abstracções e o entusiasmo pelo concreto, a consciência de que não existe nada de idílico, o gosto pela decisão, a concepção de que a vida tranquila nada vale e a necessidade de “monumentalidade”.

Não há “sentido” que exista por si mesmo.
4. Nesta mesma ordem de ideias encontramos também esta convicção de que a existência é desprovida de sentido (sinnlos), ou melhor: a convicção de que é impossível reconhecer com certeza o sentido da existência. Desta convicção deriva a ideia de que nunca fazemos mais que “encontrar” o sentido da existência forjando-o gradualmente nós próprios, sob a pressão das circunstâncias e dos acasos da vida ou da História, e que não o “descobrimos” como se ele sempre tivesse estado ali, escondido por detrás do ecrã dos fenómenos ou epifenómenos. Depois, o sentido não existe por si mesmo porque só algumas raras e fortes personalidades são capazes de o fundar, e somente em raras épocas de transição da História. O “mito”, esse, constitui sempre o núcleo central de uma cultura e compenetra-a inteiramente.

5. Tudo depende, por fim, da concepção que Sorel faz da decadência – e todas as correntes da direita, por diferentes que sejam umas das outras, têm disso unanimemente consciência – concepção que difere dos modelos habituais; nele é a ideia de entropia ou a do tempo cíclico, a doutrina clássica da sucessão constitucional ou a afirmação do declínio orgânico de toda a cultura. Em «Les Illusions du progrès» Sorel afirma: “É charlatanice ou ingenuidade falar de um determinismo histórico”. A decadência equivale sempre à perda da estruturação interior, ao abandono de toda a vontade de regeneração. Sem qualquer dúvida, a apresentação de Sorel que nos deu Mohler foi tornada mais mordaz pelo seu espírito crítico.
Uma teoria da vida concreta imediata
Contudo, algumas partes do pensamento soreliano nunca interessaram Mohler. Nomeadamente as lacunas do pensamento soreliano, todavia patentes, sobretudo quando se tratou de definir os processos que deveriam ter animado a nova sociedade proletária trazida pelo “mito”. Mohler absteve-se igualmente de investigar a ambiguidade de bom número de conceitos utilizados por Sorel. Mas Mohler descobriu em Sorel ideias que o haviam preocupado a ele também: não se pode, pois, negar o paralelo entre os dois autores. As afinidades intelectuais existem entre os dois homens, porque Mohler como Sorel, buscaram uma “teoria da vida concreta imediata” (recuperando as palavras de Carl Schmitt).

15/06/2011

Liberar as Drogas e Proibir as Armas

As duas tese mais queridas das ONGs que se auto intitulam dos “direitos humanos” são a liberação das drogas e a proibição das armas de fogo. Ao contrário do desarmamento civil, a questão da liberação das drogas nem sempre é assumida de forma tão explícita por todas elas.

Por exemplo, a postura da mais famosa organização desarmamentista brasileira, o Viva Rio, é bem mais discreta com relação a questão das drogas. É compreensível essa posição “low profile” diante de assunto tão polêmico. Afinal, o Viva Rio há muito deixou de ser uma Organização Não Governamental e hoje seria melhor definida como uma Organização Para-Governamental, haja visto os inúmeros encargos administrativos que assumiu no Estado do Rio de Janeiro e a presença de alguns de seus destacados membros em funções executivas nos governos estadual e federal.

Ambas as teses, do desarmamento civil e da liberação das drogas, são defendidas com argumentos falaciosos que não resistem a uma análise séria, mesmo que superficial. Na realidade, essas teses revelam mais um aspecto cultural de seus defensores que uma teoria social coerente. Não é de todo surpreendente que uma geração que cresceu nos tempos da chamada contra-cultura, da “Paz e Amor” e do “bicho grilo”, idolatrando Beatles e Jimmy Hendrix, possua entre seus membros pessoas com estas opiniões. Algumas pessoas demoram mais a amadurecer e outras nunca atingem a idade da razão.

Ambas as campanhas nunca explicitam de maneira clara seus propósitos. No caso das drogas dizem apenas que querem “descriminalizá-las” e no caso das armas dizem que querem apenas “controlá-las”. Como se ao “descriminalizar” as drogas não estivessem liberando-as para uso geral e como se já não houvesse controle suficiente sobre as armas.

Os argumentos

Os principais argumentos utilizados pelos defensores da liberação das drogas são os seguintes:

1) Cada um faz o que quer com o próprio corpo e o Estado não deve interferir nessa opção individual.
Esta postura é a síntese da ideologia liberal que muito nos agrada. Entretanto não pode ser aplicada às drogas pois estas possuem poder viciante. Ou seja: a liberdade para optar por uma droga suprime a liberdade de abandoná-la. Além disso, o dependente perde sua capacidade de discernimento e deixa de fazer o que é bom para si. Ao se tornar uma nulidade, o viciado passa a cometer crimes para sustentar o vício, desagregando a família e incomodando toda a sociedade. A experiência internacional comprova esta tese: quando o ópio foi liberado na China tornou-se um grave caso de saúde pública.

2) Muitas pessoas tomam drogas sem se viciar. Só se vicia quem quer.
De fato, algumas pessoas passam pela experiência das drogas sem se viciar. Mas mesmo essas pessoas são unânimes em afirmar que são exceção a regra. Imaginar que alguém possa passar pela experiência das drogas sem seqüelas é um grave erro. Estudos recentes mostram que a maconha vendida hoje no comércio tem dez vezes mais THC (o princípio ativo) que a erva vendida na década de 1960. Isto significa um poder viciante muito superior e indica que os traficantes executaram um eficiente trabalho de aprimoramento de seu produto. Quanto custaria aos contribuintes manter clínicas estatais gratuitas de desintoxicação para as pessoas sem recursos que sinceramente querem se livrar do vício?

3) A repressão ao uso de drogas é uma guerra impossível de ser vencida e só serve para criar novas gerações de criminosos além de custar muito caro ao Estado.
Este raciocínio apresenta duas graves falhas. Em primeiro lugar, criminosos sempre existiram e sempre foram atraídos pelas formas mais rentáveis de atividade criminosa. Imaginar que essas pessoas não seriam criminosas se não houvesse o tráfico de drogas é, no mínimo, uma doce ilusão. Isto significa que, se as drogas forem liberadas, simplesmente os traficantes irão procurar alguma outra atividade ilícita rentável o que pode ser até pior para a sociedade em geral. A segunda falha deste raciocínio é que, se ele for seguido à risca, devemos deixar de combater todos os crimes que forem difíceis (ou caros) de ser combatidos e legalizar inúmeras atividades ilícitas.

4) Morre mais gente pelo uso de drogas lícitas (tabaco e álcool) que por drogas ilícitas, por isso não há motivos para proibi-las.
Essa idéia é simplesmente ridícula. A sociedade tem feito um grande esforço para diminuir o consumo de tabaco e está sendo vitoriosa nessa luta. Devemos substituir o tabaco pela canabis? Estudos sérios mostram que a maconha possui seis vezes mais substâncias cancerígenas que o tabaco. Quanto ao álcool, como comparar bebidas milenares de alto grau de sofisticação palativa (como vinhos, conhaques e whiskys) com drogas totalmente desprovidas de outros atrativos que não sejam seus efeitos alucinógenos? E a causa de morrer menos gente com drogas ilícitas deve-se ao fato delas serem mais caras e difíceis de serem obtidas – portanto menos consumidas - duas limitações que são conseqüência da repressão e deixarão de existir com a descriminalização.

5) Descriminalizar as drogas não significa estimular seu uso.
É evidente que não. Quem estimula o uso de drogas não é o Estado ou a sociedade de um modo geral. Mas não há dúvida que a descriminalização permitirá a ídolos da contra cultura e outros usuários falarem abertamente do uso de drogas e exibir seu exemplo a milhões de jovens influenciáveis. Em outras palavras, não faltarão pessoas para estimular seu uso. Para evitar isso precisaríamos retornar com a censura aos meios de comunicação – e para censurar uma atividade agora lícita. Alguém acredita que isso seja exeqüível ou mesmo desejável?

É interessante observarmos que os mecanismos de controle sobre a venda e uso de drogas que os adeptos da descriminalização falam em adotar, são similares aos dispositivos que hoje existem para controlar a venda e uso de armas e que eles mesmos asseguram que não funcionam. Curioso, não?

Vamos agora analisar com mais detalhes os aspectos relativos ao controle do uso e venda das drogas, no caso hipotético da liberação das mesmas, e fazer uma comparação com o controle hoje existente sobre as armas de fogo.


Venda livre ou controlada?

Em primeiro lugar, todos concordam que as drogas não poderiam ser vendidas livremente (em supermercados, por exemplo) ou em qualquer quantidade. Isto implicaria no cadastramento e registro dos viciados e dos pontos de venda. Tal como é feito com as armas de fogo, o indivíduo precisaria se registrar numa delegacia especializada e obter a Certidão de Viciado (CV). Os pontos de venda também teriam que possuir um registro próprio, com mapa das vendas controlado mensalmente pela delegacia especializada.
No caso das armas, esta delegacia pertence à Polícia Civil estadual e é subordinada ao governo estadual, através da Secretaria de Segurança Pública e também aos Ministérios Justiça e da Defesa. No caso das drogas, provavelmente será utilizada a estrutura da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Civil, que receberia um nome mais adequado a sua nova função, tal como Delegacia de Fiscalização de Entorpecentes e Afins, que permanecerá subordinada diretamente a Secretaria de Segurança Pública, mas também será subordinada a Secretaria Estadual de Saúde e, a nível federal, ao Ministério da Saúde.

Da compra de drogas

Para a compra de uma arma de fogo legal o cidadão deve provar que tem bons antecedentes, está empregado e possui residência fixa. Acreditamos que para o indivíduo que quiser obter seu CV as exigências seriam menos rigorosas. Entretanto, de alguma forma ele deverá provar que é viciado, pois do contrário, outras pessoas se cadastrariam como toxicômanos apenas para adquirir as drogas legalmente e vendê-las no mercado negro.
A quantidade de tóxico vendida, evidentemente, deverá ter algum limite, do contrário mesmo o viciado registrado poderia adquirir uma quantidade acima de suas necessidades para comercializar entre os amigos. Isto implica em criar um cadastro em nível nacional, o SINATOX – Sistema Nacional de Tóxicos, nos mesmos moldes do SINARM – Sistema Nacional de Armas, de tal forma que um viciado não possa ir para outro estado adquirir uma quantidade de droga acima do permitido.
Tal como para a compra de munição, o viciado precisaria apresentar seu CV no ponto de venda para adquirir a droga legalmente. Tal como nas lojas de armas, o vendedor registraria a venda vinculada àquele CV específico em seu Mapa de Vendas que seria recolhido e verificado mensalmente pela Delegacia de Fiscalização de Entorpecentes e Afins. Esta delegacia emitiria um relatório mensal para a Secretaria Estadual de Saúde e para o Ministério da Saúde sobre a evolução do consumo de drogas no Estado.
No caso das armas de fogo, o cidadão pode adquirir até 50 cartuchos por mês e por arma para seu consumo. Esta quantidade é mais que suficiente para a quase totalidade dos proprietários de armas e muitos só compram esta quantia a cada 5 anos para substituir a munição velha.
Já no caso do toxicômano essa questão é mais problemática. Como é sabido, o viciado precisa a cada vez de uma quantidade maior de droga para obter o mesmo efeito. Isto exigiria alguma forma de acompanhamento da evolução (ou involução) do vício que não encontra paralelo no mundo das armas para podermos comentar.

Sobre o preço das drogas

Evidentemente todas as considerações acima partem do princípio que as drogas adquiridas legalmente serão mais baratas que as ilegais. Imaginar o contrário seria simplesmente manter a situação atual de comércio ilegal.
No caso das armas, seus preços são artificialmente inflados pelo governo para restringir seu consumo nas classes menos abastadas da sociedade (consideradas mais “problemáticas”). Assim, incidem sobre elas 81% de impostos diretos (IPI e ICMS) e a taxa de registro varia de R$36,00 a R$470,00 dependendo do estado da federação, o que faz a festa de traficantes e contrabandistas. O cidadão que resiste a tentação de comprar a mesma arma pela metade do preço (ou menos) no mercado negro, o faz porque deseja estar dentro da Lei.
Não é o caso dos toxicômanos. Uma das razões que os levam ao consumo de drogas é o impulso de rebeldia – algo que não combina com nenhuma forma de controle. Assim, é de se esperar que o indivíduo que se cadastre como dependente o fará unicamente por razões econômicas.

Da variedade de drogas

Outra questão que deve ser objeto de estudo é a variedade de drogas que o dependente poderá adquirir. Poderá um indivíduo declarar-se viciado em cocaína, heroína, maconha e êxtase, e assim adquirir a quantidade regulamentar de cada uma delas? E as drogas terão gradação de seu princípio ativo (como os remédios)? Eventualmente o Estado poderá limitar a potência das drogas legais, o que manteria um certo número de traficantes em atividade para suprir os que desejam aquele “brilho extra”. Por outro lado, se não houver restrições, as drogas ficarão cada vez mais poderosas, pois a competição entre os fornecedores fará com que eles ofereçam produtos cada vez melhores ao mercado consumidor. Poderemos um dia ver uma propaganda deste tipo: “Fume Carioquinha Extra, agora com 100mg de THC”.
Uma solução para evitar esse desenvolvimento seria estatizar a produção e a comercialização de drogas no país através da criação da DROGABRÁS.

No caso das armas de fogo, vários tipos de armas são consideradas de “uso restrito”. Os civis não têm apenas limites na quantidade de armas e munições que podem possuir, mas também têm restrições de modelos, de calibres, de funcionamento, de comprimento de cano, de capacidade de munição e de aparelhos de pontaria, entre outras restrições. Os fabricantes são fiscalizados pelo Exército Brasileiro e não podem produzir nem comercializar no país (ou exterior) nenhum tipo de arma sem autorização do Ministério da Defesa. É claro que todas essas restrições não atingem aos fora-da-lei e o mercado negro se encarrega de fornecer “aquele calibre mais potente” ou aquela “metralhadora igualzinha a que vi no cinema” aos que sentem necessidade de possuí-las e estão dispostos a pagar por isso.

O porte de drogas

Outro aspecto interessante é o porte de drogas. Ao contrário das armas, que são vendidas exclusivamente para permanecerem nas residências ou local de trabalho, não se pode imaginar as drogas consumidas apenas domesticamente. Um dos prazeres dos viciados é drogarem-se coletivamente nas “festinhas de embalo” e isto implica em transporte ou porte de drogas. Qual a quantidade que será permitida a um viciado portar e acima da qual seria considerado tráfico de drogas?
Para autorizar o Porte de Arma, os estados fazem uma série de exigências, tais como: exame psicotécnico, exame de proficiência no manejo da arma e, principalmente, uma justificativa válida. É bom lembrar que ameaças de morte ou qualquer risco de vida não é considerado uma justificativa válida para a concessão do Porte de Arma. Na prática eles só são concedidos aos cidadãos que transportam valores de terceiros, o que é lógico numa sociedade onde os bens materiais valem mais que a vida humana.
Evidentemente que o porte de drogas será autorizado muito mais facilmente, mesmo que isso implique no risco de comércio ilegal e aliciamento de menores.
Apenas como exemplo, um professor que leciona numa escola localizada numa região perigosa não é autorizado a portar uma arma para sua defesa. Mas se ele for viciado em maconha, poderá portar uma pequena quantidade de “baseados” para fumar nos intervalos das aulas e aliviar o “estresse”.

Restrições ao consumo

No caso do tabaco, a fumaça exalada pelo fumante incomoda a terceiros e os torna fumantes involuntários. Por isso acreditamos que as restrições feitas ao tabaco em alguns locais (tal como em aviões) permanecerão para as drogas que fazem fumaça, tipo maconha ou crack.
Por outro lado, drogas que não se espalham pelo ambiente não precisam ter qualquer restrição. No futuro provavelmente ouviremos um passageiro de avião pedir algo assim: “Aeromoça, a Sra. poderia apertar meu torniquete enquanto me aplico uma dose de heroína? Sabe como é, assim viajo duplamente”.

As Casas de Ópio

Evidentemente que, mesmo com essa liberalidade, ainda será necessário a existência de locais para o consumo público de drogas, as velhas Casas de Ópio que, provavelmente retornarão com uma designação mais moderna e mais politicamente correta, tal como “drogódromo”.
Os drogódromos, para funcionar, precisariam de uma licença especial e fiscalização apropriada da Secretaria Estadual de Saúde. A prefeitura daria o alvará de funcionamento após a autorização da Secretaria de Saúde, o registro no SINATOX e o atendimento às normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde.
Este modelo segue o existente para a instalação de estandes de tiro, que precisam de licença de funcionamento da Secretaria de Segurança do estado, autorização do Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados da Região Militar e atender as normas emitidas pelo Ministério da Defesa. Mesmo assim alguns municípios, tal como a cidade do Rio de Janeiro, negam-se a fornecer alvará de funcionamento para estandes de tiro alegando a necessidade de controlar a violência. (?!?)

Ao contrário das drogas, que podem ser consumidas em espaços confinados, as armas de fogo requerem muito espaço ou locais reforçados para serem usadas. A não existência de estandes de tiro públicos na cidade do Rio de Janeiro (e em outras) obriga os proprietários de armas a procurarem as regiões rurais infringindo duplamente a Lei: ao trafegar com a arma sem licença e ao dispará-las em local não autorizado. Como se vê, os cidadãos são obrigados a tornarem-se foras-da-lei para poderem manter um nível mínimo de proficiência no uso de uma arma.
É claro que, numa sociedade permissiva, não se esperam medidas tão arbitrárias para as instalações dos drogódromos.

Conclusões

Cremos que já ficou patente que qualquer sistema de controle de drogas não irá funcionar, tal como não funciona o controle de armas. A grande falha desses sistemas é que eles só funcionam com a anuência e colaboração dos controlados. Como vimos acima, não haverá viciados interessados em se submeter ao sistema se não for para obter drogas mais baratas, o que é um contra-senso pois o Estado não deve facilitar ou incentivar o uso de drogas.
No caso das armas de fogo, os cidadãos de bem preferem ficar dentro da Lei e voluntariamente se submetem a esta burocracia insana e custosa. As vendas no comércio legal mostram, entretanto, que este número é cada vez menor.

A Lei 9437 de 1997, tornou o ato de atirar uma atividade praticamente impossível de ser praticada sem incorrer em algum crime. Além disso, as autoridades tratam o proprietário legal de armas como se fosse bandido e seus amigos o chamam de otário. A “pá de cal” no Sistema Nacional de Armas foi lançada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, quando este falou que ia recolher todas as armas legais e indenizar com R$150,00 seus proprietários.
Deixando de lado os poucos “otários”, hoje em dia só compram armas no comércio legal aqueles cidadãos que por motivos profissionais precisam ter uma arma registrada (policiais, vigilantes, e uns poucos outros). Enquanto isso o comércio ilegal de armas prospera e à noite as quadrilhas organizadas dão espetáculos pirotécnicos disparando seus fuzis com balas traçantes por sobre a cidade do Rio de Janeiro.

Finalmente, gostaríamos de lembrar que armas salvam vidas. Conhecemos inúmeras pessoas que afirmam que escaparam de uma violência graças a presença providencial de uma arma de fogo. Todavia, não conhecemos ninguém que afirme que sua vida foi salva graças a um “baseado”.


13/06/2011

Não permanecer preso...

41. É preciso dar a si mesmo provas de que se está destinado à independência e ao mando; e isso no tempo oportuno. Não se deve evitar suas provas, ainda que elas talvez sejam o jogo mais perigoso que se possa jogar, e apenas provas, por fim, das quais sejamos as únicas testemunhas, sem a presença de qualquer outro juiz. Não permanecer preso a uma pessoa: ainda que seja a mais amada – toda pessoa é uma prisão, e também um recanto. Não permanecer preso a uma pátria: ainda que seja a mais sofredora e mais necessitada – de uma pátria vitoriosa, já é menos difícil desligar seu coração. Não permanecer preso a uma compaixão: ainda que seja com relação a homens superiores, cujo raro martírio e desamparo um acaso nos permitiu vislumbrar. Não permanecer preso a uma ciência: ainda que ela atraia alguém com as descobertas mais preciosas, que parecem reservadas justamente a nós. Não permanecer preso a sua própria libertação, àquela lasciva lonjura e país longínquo do pássaro, que voa sempre mais longe nas alturas para ver sempre mais abaixo de si – o perigo daquele que voa. Não permanecer presos às nossas próprias virtudes e nos tornarmos, como um todo, vítimas de alguma particularidade nossa, por exemplo, de nossa “hospitalidade”: o que é o perigo dos perigos para almas superiormente constituídas e ricas, que lidam consigo mesmas dispendiosamente, quase com indiferença, e que levam a virtude da liberalidade tão longe até que chegue a se tornar um vício. É preciso saber preservar-se: a prova mais forte de independência.


Trecho de: Friedrich Nietzche - Além do Bem e do Mal

12/06/2011

Alexander Dugin - A Distribuição de Armas Nucleares é Boa!

Por Alexander Dugin

Neste momento entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos e entre a Coréia do Norte e a Coréia do Sul esta havendo uma onda crescente de sentimentos ruins. O que isto significa? Os americanos estão dando a Kim-Jung-Il um ultimato: Desarmem-se imediatamente, cessem seu projeto nuclear e mais. E a isso Kim-Jung-Il responde com seu próprio ultimato. E está havendo uma certa baderna nas eleições de Il Terceiro; aparentemente os coreanos estão um pouco cansados de combater o globalismo sozinhos. Então o Terceiro Il, filho de Kim-Jung-Il e neto de Kim-Il-Sung foi promovido. A grande sociedade Coreana é o último reduto Marxista, socialista, se mantendo apesar da grande pressão do mundo todo. Todos à sua volta já declararam a derrota. Até mesmo a China já deu espaço para o crescimento do Capitalismo, mas os Norte-Coreanos continuam de pé.

Agora a América pretende pressioná-los com toda a sua força. O que a América quer com a Coreia do Norte? Aquele país possui poucos recursos naturais. A missão primária da América é exagerar a situação e despertar uma oposição global à Coréia do Norte. Divergindo a atenção global para que a própria América esta planejando fazer, organizar uma economia global que tenha a sua própria imagem. Obviamente a América esta errada, mas vamos dar uma olhada para o que o resto do mundo está fazendo. A Coréia do Norte esta se mantendo em oposição ao projeto de Império Global Americano e declarando categoricamente que eles não querem tal Império. Enquanto os outros países estão agindo como se isso fosse exatamente o que eles querem.

Eles dizem que a Coréia do Norte possui armas nucleares e choram como bebês falando que vão usá-los contra eles. Eles gemem e reclamam como completos idiotas, e o nosso governo russo esta entre eles.

Se os nossos líderes entendessem o que está acontecendo, eles deveriam orgulhosamente dizer o seguinte: Nós calorosamente apoiamos o Terceiro Il, apesar do fato dele não ter ganho esta última eleição, nós apoiamos o Segundo Il (Kim-Jung-Il) e o míssil dele é o nosso míssil. Se ele for lançado, nós comemoraremos; e nós o ajudaremos a ser lançado, nós até mesmo os equiparemos com outros métodos de destruição em massa.

Por quê? Por que é a melhor atitude para os nossos líderes tomar? Porque nós devemos deixar muito claro: Nós não queremos um Império Americano! Nós queremos um mundo multi-polar. E nós queremos que existam diferentes caminhos para o desenvolvimento no mundo.

Se você gosta do regime de Kim-Jung-Il, ótimo. Se você não gosta do regime de Kim-Jung-Il, também está ótimo. Se você gosta do Livre-Mercado, bom. Se você não gosta do Livre-Mercado, também esta bom. E se nós quisermos o Totalitarismo, até mesmo o Totalitarismo está bom! Por quê? Pois as pessoas são livres para escolher o seu próprio meio de desenvolvimento. E em oposição a isso está um pequeno grupo de ricos americanos, Juliet Kessen os chama de “superclan”, quem pensam que sabem o que é melhor para todas as outras pessoas (o que é melhor para bilhões de pessoas, na verdade), e estão atacando os pobres Coreanos.

Então a Europa, se continuar se dando a luxo da sua própria ignorância e covardice, logo se encontrará nos subúrbios do Império Americano. E todas as outras civilizações, ou vão estar servindo de lixão para lixo nuclear, ou vão servir de canal irrigatório para os Estados Unidos. Neste momento a Coréia está lutando por nós. Este pequeno Il, que não fora nem mesmo eleito ainda, está lutando pelo planeta inteiro.

Enquanto isso nós estamos sentados aqui fingindo que ainda não o apoiamos, ou que ainda não entendemos. Nós deveríamos de fato estar dizendo que apoiamos ele inteiramente. Pode até ser que tenhamos diferenças religiosas e estéticas ou talvez sejamos apenas indiferentes; mas não entender que a Coréia é uma semente humanitária e democrática no seio de uma ocupação Americana, é demonstrar completa e total ignorância. Ou isso ou verdadeiramente desejar a escravidão para o seu país.

O que é a Coréia do Norte? É a Liberdade! É uma ilha de Liberdade, como Cuba. É um ponto no mapa do não conformismo. Não tenho nada particularmente contra a Coréia do Sul, mas vejo que sua cultura Budista, Shamanista, Confucionista, Daoista, está agora, quase completamente dominada por Protestantes. As características que são únicas do povo Coreano estão faltando, mas na Coréia do Norte elas florescem. Os Coreanos do Norte têm até mesmo um partido chamado “Amigos do Caminho Divino”, e claro, mais importante de tudo, eles possuem um Partido Comunista.

Por causa disso, a verdadeira liberdade e a verdadeira independência, e também, o verdadeiro humanitarismo e a verdadeira democracia estão na Coréia do Norte. Se eles gostam do Regime de Kim-Jung-Il, nós precisamos descobrir o porque deles gostarem, ao invés de rir deles ou desaprová-los. A priori, o falecido Yegor Letov também era cético, mas depois ele descobriu que também gostava disso. Ele entendeu que não queria ter sua cabeça debaixo das botas Americanas, não queria ser um robô devorador de McDonald’s e totalmente dependente da Moda, jogando sapatos fora após três dias de uso. É uma ditadura da Moda , absolutamente anti-humana , uma cultura americocêntrica e pós-moderna.

Então se queremos ser livres e independentes, e se queremos manter o nosso senso de dignidade cultural e nacional, então devemos nos mobilizar em defesa da Coréia do Norte.

Você dirá: “Isso é propaganda de guerra”, não, é propaganda de paz! Se você quiser a paz, prepare-se para a guerra! Se a América se deparar com um mundo organizado, pronto para defender suas culturas individuais e meios de desenvolvimento, eles cessarão de tentar mandar em todo mundo. Mas n meio tempo nós nos acovardamos, dizemos “bom, a América não está tão certa, mas a Coréia também não.” A Coréia do Norte está absolutamente certa! É uma ótima sociedade com um regime perfeitamente bom...PARA ELES. Talvez não nos agrade de maneira alguma, mas não é problema nosso e certamente também não é problema dos Americanos!

Então penso que devemos organizar protestos imediatamente, em favor da Coréia do Norte, em oposição ao Domínio Global Americano, e claro, simplesmente implorar aos nossos chefes militares paraque dêem armas nucleares para a Coréia do Norte, assim como para o Irã, para a Venezuela e outros regimes excepcionais. Israel tem tais armas? Sim. Isreal é um bom governo, eles possuem uma bomba atômica e é bom para eles. O Paquistão tem tais armas? Sim. Você pensaria que é uma sociedade completamente sem leis, eles explodem uns aos outros, e eles têm armas nucleares também. Pegue os Hindus, os Brahmanes, os Shamans, eles comem os restos uns dos outros. Esta é a cultura deles, e eles a defendem com suas ogivas. Então deixem que a Coréia do Norte marche com uma bomba atômica também! E a Coréia do Sul será defendida pelos Estados Unidos.

Então eu penso que a diferença entre a Coréia do Norte e a do Sul vai ao âmago do coração humano. Dostoievsky disse que o coração humano é o campo de batalha entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás. Analisando os fatos, podemos dizer que hoje, o coração do ser humano está sendo a batalha entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte.

Todo o cidadão que valha o papel em que ele escreve o seu nome deveria estar do lado da Coréia do Norte, por detrás de Kim-Jung-Il se encontra a verdade.

09/06/2011

A Linguagem Proibida

"O discurso do Ocidente está intimidado porque depois da derrota da Alemanha nacional-socialista houve todo um vocabulário que foi proibido, por parte dos vencedores, e porque, por causa disso, a sua utilização culpabiliza. Ora, este vocabulário nunca foi mais do que um revestimento. Nem culpado, nem inocente. Um revestimento, nada mais (como é a própria palavra democracia, porque o conteúdo não é o mesmo em Praga ou em Paris). Assistimos então a isto: Esse vocabulário aterrorizado e maldito deixou de ser utilizado, mas as contorções às quais nos sujeitamos para o eliminar do nosso discurso, através de traduções afrouxadas deixam as suas consequências, porque acabamos por pensar de forma não menos frouxa. E o revestimento apodrece o conteúdo (…). O resultado é claro: tornamo-nos as "princesas" aterrorizadas e sodomizadas da linguagem, e, consequentemente, da acção."

Jean Cau in "Réflexions dures sur une époque molle".

08/06/2011

A Conquista da Felicidade

"O mundo pagão era duro, mas havia nele um princípio de receosa submissão às forças da natureza, às suas Leis, ao Destino. A esperança cristã fez-lhe rebentar as severas fundações. Para triunfar das velhas muralhas não bastam algumas flores silvestres, medrando as suas raízes em cada fissura, com a humidade da terra? E eis que a Esperança, desviada dos seus fins sobrenaturais, lança o homem à conquista da Felicidade, enche a nossa espécie de uma coisa parecida com orgulho colectivo que tornará o seu coração mais duro do que o aço das suas máquinas."

Georges Bernanos in "Os grandes cemitérios sob a Lua".