03/08/2019

Maurizio Lattanzio - O Mundialismo

por Maurizio Lattanzio

(1987)



“O mundo se divide em três categorias de pessoas: um minúsculo número que produz os eventos; um grupo um pouco mais numeroso que observa sua execução e segue seu cumprimento, e, finalmente, uma imensa maioria que nunca sabe o que se produz na realidade”. - Nicholas Murray Butler

O termo mundialismo se refere a uma concepção político-cultural de que se fazem portadores e difusores poderosos grupos tecnocrático-plutocráticos ocultos ou, no mínimo, discretos, não expostos às luzes dos refletores – ou seja, da mídia de massa sabiamente manobrada – que iluminam o grande palco político internacional. Estes operam através de instituições igualmente ocultas ou, se preferirmos, semipúblicas (Comissão Trilateral, Grupo Bilderberg, Conselho de Relações Exteriores, Sociedade dos Peregrinos, sistema bancário internacional, etc.), com o objetivo de alcançar a realização de um projeto que prevê a instauração de um único Governo Mundial, depositário do poder econômico, político, cultural e religioso. As articulações estruturais de um projeto do tipo – já em via de atuação, se pensarmos apenas na União Europeia – estão baseadas na integração dos grandes blocos (EUA – em posição preeminente – Europa Ocidental, Japão, Rússia e seus satélites, China Popular, Terceiro Mundo), que serão sujeitos ao domínio dos funcionários tecnocratas do aparato de poder plutocrático instalado nos conselhos administrativos da banca e das multinacionais. São as estruturas operacionais do comando oligárquico a partir das quais a Alta Finança internacional planeja e concretiza a servidão dos povos mediante os mecanismos diabólicos da Grande Usura. [1]

31/07/2019

Daniele Perra – Ernst Niekisch e o “Reino dos Demônios”

por Daniele Perra

(2018)



Para muitos, o nome de Ernst Niekisch não dirá nada. Não obstante, junto a Karl Otto Paetel ele é considerado o pai de uma corrente política particular, a do nacional-bolchevismo, a qual, a partir dos anos 90 do século passado, graças aos seus intérpretes pelo menos um pouco hiperbólicos como o filósofo Aleksandr Dugin e o controverso escritor Eduard Limonov, conheceu um razoável sucesso na Rússia da deplorável Era Iéltsin. A Niekisch, ademais, o pensador francês Alain de Benoist dedicou toda uma seção do seu livro “Quatro Figuras da Revolução Conservadora Alemã”.

O esquecimento a que o homem e seu pensamento foram relegados tanto em vida como post mortem possui uma razão bastante precisa. Niekisch e seu pensamento eram e são ainda perigosos. Este original pensador alemão, de fato, no curso da sua vida, conseguiu viver em primeira pessoa e se opôr vigorosamente a todas as três principais ideologias políticas do século XX: liberalismo, fascismo-nacional-socialismo e comunismo (ainda que, no último caso, a oposição surgiu de algumas divergências com o líder da República Democrática Alemã, Walter Ulbricht). E diferentemente do dissidente soviético bem mais famoso Aleksandr Solzhenitsyn (que dardejava contra a URSS e o Ocidente capitalista de sua casa norte-americana, lamentando que Hitler não tivesse matado o seu próprio povo), depois de ter passado alguns anos em um campo de prisioneiros nazista e reconhecendo o feitiço psicológico de que seu povo havia caído vítima, nunca chegou a desejar a destruição da sua pátria. 

22/07/2019

Nicolas Bonnal - René Guénon e o Gênio Anônimo dos Coletes Amarelos

por Nicolas Bonnal

(2018)



Discutindo sobre os Coletes Amarelos com um leitor erudito e entendido do Islã, me recordei desse belo capítulo do livro “O Reino da Quantidade e o Sinal dos Tempos”, onde o mestre (Guénon, então) evoca o gênio do anonimato dos tempos medievais, por exemplo, quando da construção das catedrais ou no âmbito dos ofícios.

Mas se em nossa época nós gostamos de nos curvar diante dos nomes gloriosos de pessoas, das falsas dinastias, das dinastias endinheiradas (petróleo saudita ou carros nazistas), das Gaga, dos Johnny e dos Macron, para não falar nos jogadores de futebol e nos intelectuais tidos por luminares do pensamento humano (como também o monstruoso “pensador” israelense Harari), nós detestamos os desdentados, os anônimos, os plebeus e os coletes amarelos. E aqueles que contornaram o sistema com todo o gênio plástico do povo-receptáculo. Eles não têm representantes, além daqueles que o canal BFM nomeou depois de tê-los fantasiado com coletes, e eles não são nada. Isso deixa o sistema louco, porque tudo se apoia nos delírios mentais das celebridades. O problema, para o sistema, é que os Coletes Amarelos, sem querer, deram razão a Debord e Robespierre.

11/07/2019

José Alsina Calvés - A Quarta Teoria Política do Filósofo Russo Aleksandr Dugin

por José Alsina Calvés

(2018)



No livro de Dugin, “A Quarta Teoria Política”, o filósofo russo insiste no caráter coletivo de sua criação, no sentido de que ela não é um sistema fechado, mas aberto às contribuições posteriores. No presente artigo tentaremos descrever e explicar, assim como avaliar, o mencionado livro de Dugin, o qual tomaremos como base de nosso trabalho. Segundo nossa compreensão, a QTP que Dugin expõe se fundamenta em um arcabouço teórico que consta de cinco elementos fundamentais:

1) Uma teoria da modernidade e de suas ideologias;
2) A pós-modernidade como mutação do liberalismo a neoliberalismo;
3) Uma teoria do tempo;
4) Uma fundamentação filosófica na ontologia de Heidegger;
5) A geopolítica dos grandes espaços.

Teoria da Modernidade

A QTP aparece como uma oposição radical à modernidade e a todas as suas manifestações, incluindo a atual implosão pós-moderna. A QTP se dirige a todas aquelas pessoas que sentem uma insatisfação radical diante da sociedade atual, suas mensagens e seus "valores”. Uma dissecação prévia da modernidade é o passo preparatório para a síntese e construção da QTP.

03/07/2019

Nicolas Gauthier – Entrevista com Alain de Benoist: Por que o Governo não entende a revolta dos Coletes Amarelos?

por Nicolas Gauthier

(2019)



N.G.: Você acha que já podemos fazer uma revisão da ação dos Coletes Amarelos?

A.B.: A melhor revisão que podemos fazer sobre ela é notar que ainda é muito cedo para fazer uma, porque o movimento está em curso e parece ter encontrado um segundo fôlego. Por quase três meses, apesar do gelo e do frio, apesar das tréguas do Natal, apesar dos mortos e feridos, apesar das baixas causadas pela brutalidade policial (mandíbulas quebradas, mãos destroçadas, pés esmagados, olhos perfurados, hemorragias cerebrais), apesar das críticas que tentaram sucessivamente apresentá-los como beaufs alcoólatras[1], nazistas (a "praga marrom") e criminosos, culpados, além disso, de arruinar o comércio, de dissuadir os turistas de virem para a França e até mesmo do “escândalo” de terem sabotado a abertura de liquidações, apesar de tudo isso, os Coletes Amarelos ainda estão aqui. Eles resistiram bem, não se dispersaram e a maioria dos franceses continua a aprovar sua ação. Esta é a confirmação de que esse movimento é diferente de qualquer outro.

19/06/2019

Free West Media - Entrevista com Alain de Benoist: A Europa é uma Colônia dos Mercados Financeiros

Entrevista concedida à Free West Media

(2019)



Qual o impacto da ocupação sobre os ocupados? O liberalismo reconhece apenas uma forma de soberania: a do indivíduo. Assim, povos, nações e culturas são vistos apenas como agregados de indivíduos cujas relações essenciais são reduzidas a contratos legais e trocas no mercado. Os europeus se tornaram consumidores na esfera anglo-americana - eles não são mais cidadãos de seus respectivos países, acredita Benoist.

Sr. de Benoist, o embaixador dos EUA em Berlim, escreveu cartas de chantagem há algumas semanas para empresas alemãs envolvidas na construção do Nord Stream 2. Os americanos estão certos em se sentir em posição de força por sobre a Alemanha e a Europa?

Benoist: Os americanos se sentem fortes porque sabem que os europeus são fracos. As notícias provam todos os dias que a União Europeia não é uma potência europeia, mas apenas um mercado europeu. Neste mercado, no entanto, os americanos têm uma vantagem significativa. Um dos princípios mais importantes é a extraterritorialidade da lei americana. Isso permite que Washington se defenda de operações e influências financeiras ou comerciais. Por exemplo, vários bancos franceses foram multados em bilhões de euros por não levar em conta as sanções dos EUA contra este ou aquele país.

Pergunta curta: Seria a Alemanha, a Europa - ou melhor, a UE - um “território ocupado”?

Benoist: Sim, podemos falar em um "território ocupado", mas o termo "ocupação" é ambíguo. Nós não estamos em um tipo brutal de heteronomia, mas em um condicionamento progressivo pelo chamado “soft power”. Pode-se falar também de “colonização” - mas de uma colonização que começou com a colonização de atitudes e valores.

04/06/2019

Alain de Benoist - Soldado, Trabalhador, Rebelde, Anarca: Uma Introdução a Ernst Jünger

por Alain de Benoist

(1997)



Nos escritos de Ernst Jünger, quatro grandes figuras aparecem sucessivamente, cada uma correspondendo a um período bastante distinto da vida do autor. Eles são, cronologicamente, o Soldado do Front, o Trabalhador, o Rebelde e o Anarca. Através dessas figuras, pode-se adivinhar o interesse apaixonado que Jünger sempre manteve em relação ao mundo das formas. Formas, para ele, não podem resultar de ocorrências fortuitas no mundo sensível. Em vez disso, as formas guiam, em vários níveis, os modos pelos quais os seres sensíveis se expressam: a “história” do mundo é, acima de tudo, morfogênese. Ademais, como entomólogo, Jünger estava naturalmente inclinado a classificações. Para além do indivíduo, ele identifica a espécie ou o tipo. Pode-se ver aqui um tipo sutil de desafio ao individualismo: "O único e o típico excluem um ao outro", escreve ele. Assim, como Jünger vê, o universo é um em que as Figuras dão às épocas seu significado metafísico. Nesta breve exposição, gostaria de comparar e contrastar as grandes Figuras identificadas por Jünger.

29/05/2019

Andrea Virga - “Um Socialismo Sustentável e Próspero”: Uma Investigação sobre a Transição Econômica Cubana

por Andrea Virga

(2018)



“Cuba, por exemplo, pode transicionar rumo a instituições inclusivas e experimentar uma grande transformação econômica, ou pode permanecer sob instituições econômicas e políticas extrativistas” – Daron Acemoglu – James A. Robinson, 2012)

“A batalha econômica constitui hoje, mais do que nunca, o principal dever e o centro do trabalho ideológico das fileiras, porque a sustentabilidade e a preservação de nosso sistema social dependem disso”. – (Raúl Castro Ruz, 2010)

Introdução

É interessante notar que, entre o número de experiências e casos históricos descritos no opus magnum de Acemoglu e Robinson “Por que Nações fracassam”, Cuba emerge como notavelmente ausente, apesar de que suas peculiaridades teriam sido bastante interessantes, especialmente se apresentadas na forma dessa nova interpretação da economia política. Nas quase 400 páginas de texto, essa pequena ilha-nação é mencionada apenas oito vezes: metade delas no contexto geral da economia das plantations caribenhas e metade em relação ao período revolucionário. Dessas últimas quatro escassas referências, o problema da transição de uma economia comunista é citado apenas duas vezes. Isso é muito estranho se considerarmos como a história cubana divergiu tão fortemente de seus vizinhos nos últimos sessenta anos, e ainda mais estranho se prestarmos atenção à importância desproporcional que Cuba tem tido na política americana e internacional em comparação com seu tamanho e poder efetivos. 

Em minha humilde opinião, essa omissão não depende tanto de falta de interesse, mas da grande complexidade do caso cubano, e da dificuldade de reconciliá-lo adequadamente com os modelos delineados pelos dois autores. Isso não quer dizer que sua interpretação é inútil. Ao contrário, como eu vou demonstrar, ela dá insights preciosos sobre como abordar e explicar a economia cubana. Categorias como “inclusivo” e “extrativo”, bem como a “lei férrea da oligarquia”, parecem ser definitivamente úteis. No núcleo do ensaio de Acemoglu e Robinson jaz a importância fundamental das instituições políticas para o desenvolvimento (ou subdesenvolvimento) econômico. Essa pressuposição refuta convincentemente teorias essencialistas baseadas nas origens geográficas ou etnoculturais de um país. Porém, eu penso que há uma simplificação exacerbada das relações entre elite e sociedade, e entre elite e políticas públicas, que emerge claramente se examinarmos o caso. 

Portanto, eu farei um amplo uso de fontes cubanas, tanto científicas como políticas, as quais estão baseadas em uma perspectiva distinta da de Acemoglu e Robinson, já que elas são definitivamente influenciadas pelo marxismo-leninismo, apesar de filtradas pelo idealismo de Martí e pelo nacionalismo de Castro. A comparação entre essas duas representações e interpretações distintas seria especialmente estimulante. A visão marxista concorda com nossos autores sobre a importância das instituições políticas, mas as vê como produto natural dos interesses materiais das elites. Porém, Acemoglu e Robinson concordam que as elites agem em seu interesse próprio, mas eles afirmam que a inclusividade social e o pluralismo dos grupos sociais, de uma maneira não muito diferente em si do conceito de luta de classes, pode contrastar o elitismo, resultando em legalidade e uma prosperidade geral. Ademais, as duas posições diferem em um ponto crucial: na perspectiva cubana, a prosperidade econômica está subordinada ao desenvolvimento social, enquanto em “Por que as Nações dão errado” esta não é tão discutida, sendo mais propriamente entendida como consequência daquela.

Agora, este não é o lugar adequado para uma crítica da democracia liberal e do capitalismo, defendidos pelos dois autores. Eu vou me concentrar, ao invés, na transição cubana, ou seja, na resposta do governo cubano ao crítico Período Especial e, consequentemente, na transição gradual rumo a uma economia mista, sustentando, ao mesmo tempo, seu sistema sociopolítico. Um conceito similar jaz na base dos processos reformistas da China e do Vietnã, ainda que essas instâncias sejam muito diferentes da cubana. Eu fornecerei uma breve revisão da história econômica cubana até então, mas a máxima atenção será dada às políticas governamentais recentes e sua implementação. No processo, eu vou relacioná-las às teses de Acemoglu e Robinson, de modo não só a compreender melhor a economia cubana em transição, mas também fornecer objeções e críticas úteis à teoria desses autores.

14/05/2019

Julius Evola - A Família como Unidade Heroica

por Julius Evola

(1970)



Um dos perigos que ameaçam toda reação contra as forças da desordem e da corrupção que estão devastando nossa civilização e nossa vida social é a tendência dessa reação a acabar em formas que são pouco mais significativas do que as da mera domesticidade burguesa. Mais de uma vez ouvimos denúncias do caráter decadente do moralismo em comparação a toda forma superior de direito e de vida. Na verdade, se uma "ordem" tiver valor, ela não deve significar nem rotina nem mecanização despersonalizada. Devem existir nela forças que estão originalmente indomadas e que conservam de alguma forma e até certo ponto sua natureza, mesmo na aderência mais rígida a uma disciplina. Só então a ordem se torna fecunda. Poderíamos expressar isso em uma imagem: uma mistura explosiva e expansiva, quando restrita a um espaço limitado, desenvolve sua eficácia ao extremo, ao passo que, se for colocada em um espaço ilimitado, ela praticamente se dissipa. Nesse sentido, Goethe poderia falar de um "limite que cria", e poderia dizer que no limite o Mestre se mostra. Também é necessário lembrar que, na visão clássica da vida, a ideia do limite – πέρας(1) - foi tomada como a própria perfeição, e foi postulada como o mais alto ideal, não apenas em termos éticos, mas também em termos metafísicos. Essas considerações podem ser aplicadas a vários domínios. No presente ensaio, consideramos um caso particular: o da família.

03/05/2019

David L'Epée - O Nacionalismo Russo à Época Soviética

por David L'Epée

(2016)



Enquanto o resultado da crise que afeta atualmente a Ucrânia é ainda incerto após a “revolução” ocorrida em Kiev e os eventos da Crimeia, o fator do nacionalismo russo (ou pró-russo) parece ter sido chamado ao debate como um elemento-chave sem o qual é impossível compreender o que se passa no Leste. Me parece interessante examinar quais são as especificidades desse nacionalismo russo, tão estranho às nossas concepções, que fala mais de império do que de nação, olhar um pouco mais longe para descobrir em que medida as suas raízes se afundam na época soviética. A publicação recente da tese de Vera Nikolski dedicada a este tema nos fornece a oportunidade.