15/10/2015

Kim Jong Il - Sobre Possuir um Entendimento Correto do Nacionalismo

por Kim Jong Il



Discurso aos oficiais sênior do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia, 26 e 28 de fevereiro, Ano Juche 91 (2002)

É importante possuir um entendimento correto do nacionalismo. Apenas possuindo tal entendimento pode o povo alcançar unidade nacional, promover os interesses da nação e contribuir para moldar seu destino.

O nacionalismo veio à existência como uma ideologia da defesa dos interesses de uma nação no curso de sua formação e desenvolvimento. Ainda que as nações difiram uma da outra no período de sua formação, cada nação é uma comunidade social formada e consolidada historicamente com base em uma ascendência sanguínea comum, um idioma comum, uma área residencial e cultura comuns, e é composta por várias classes e estratos. Não há pessoa em qualquer país ou qualquer sociedade que exista fora de sua nação, separado dela. Toda pessoa pertence a uma classe ou estrato, e ao mesmo tempo a uma nação, imbuindo tal pessoa tanto de um caráter nacional como de um caráter de classe. Caráter de classe e caráter nacional e as demandas de classes e nação são inseparáveis uns dos outros. Em verdade, as classes e estratos de uma nação desfrutam de várias demandas e interesses graças a suas funções econômicas e sociais distintas. Porém, todos os membros de uma nação possuem o mesma participação na defesa da independência e caráter da nação e em atingir a prosperidade nacional sem distinção dos interesses de suas classes e estratos. Isto se dá porque o destino de uma nação é precisamente o destino de seus membros individuais; em outras palavras, estes são dependentes daquele. Nenhum será feliz caso a soberania e honra de sua nação sejam esmagados e seu caráter nacional desconsiderado. É o sentimento ideológico e a psicologia dos membros de uma nação amar sua nação, apreciar suas características e interesses, e almejar sua prosperidade. O nacionalismo reflete este sentimento e psicologia. Em outras palavras, o nacionalismo é uma ideologia que advoga o amor pela nação e a defesa de seus interesses. Como o povo esculpe o seu destino enquanto vive dentro do Estado-Nação como uma unidade, o nacionalismo genuíno constitui um patriotismo. A natureza progressista do nacionalismo está no fato de que ele é uma ideologia patriótica que advoga a defesa dos interesses nacionais.

O nacionalismo emergiu como uma ideia progressista junto da formação e desenvolvimento de cada nação. Porém, ele foi entendido no passado como uma ideologia que defende interesses burgueses. É verdade que nos dias do movimento nacionalista contra o feudalismo, a recém-surgida burguesia, erguendo o estandarte do nacionalismo, esteve na vanguarda do movimento. Naquela época, os interesses das massas do povo e da recém-surgida burguesia eram basicamente coincidentes em sua luta contra o feudalismo. Portanto, o estandarte do nacionalismo parecia refletir os interesses comuns da nação. Conforme o capitalismo se desenvolveu e a burguesia se tornou a classe governante reacionária após revoluções burguesas vitoriosas em vários países, o nacionalismo foi usado como meio de defender os interesses da classe burguesa. A burguesia disfarçou seus interesses de classe como interesses nacionais, e usou o nacionalismo como um instrumento ideológico para solidificar sua dominação classista. Isso levou o nacionalismo a ser entendido, entre o povo, como uma ideologia burguesa contrária aos interesses nacionais. Nós devemos distinguir claramente entre o autêntico nacionalismo que ama a nação e defende seus interesses e o nacionalismo burguês que defende os interesses da classe burguesa. O nacionalismo burguês se revela como egoísmo nacional, exclusivismo nacional e chauvinismo imperialista no relacionamento entre países e nações; ele é reacionário na medida em que cria antagonismo e discordância entre países e nações, e põe em cheque o desenvolvimento de relações amistosas entre os vários povos do mundo.

A teoria revolucionária original do proletariado foi incapaz de dar uma explicação correta do nacionalismo. Ela prestou atenção maior ao fortalecimento da unidade internacional e da solidariedade do proletariado por todo o mundo - o problema fundamental no então movimento socialista - deixando de prestar atenção devida ao problema nacional. Ela chegou ao ponto de considerar o nacionalismo como uma tendência ideológica anti-socialista, porque o nacionalismo burguês estava causando grande prejuízo ao movimento socialista. É por isso que progressistas do passado rejeitaram o nacionalismo, considerando ele incompatível com o comunismo.

É equivocado ver o comunismo como incompatível com o nacionalismo. O comunismo não defende apenas os interesses do proletariado; ele também defende os interesses da nação - daí ser uma ideologia do amor à pátria e ao povo. O nacionalismo é também uma ideologia do amor à pátria e ao povo, já que ele defende os interesses do país e nação. Amor à pátria e ao povo é uma emoção ideológica comum ao comunismo e ao nacionalismo; aí reside a base ideológica sobre a qual eles podem se aliar. Portanto, não há razão ou fundamento para colocar um contra o outro, e rejeitar o nacionalismo.

O nacionalismo não conflita com o internacionalismo. Ajuda, apoio e aliança mútuos entre países e nações - isto é o internacionalismo. Todo país tem suas fronteiras, e cada nação tem sua identidade, e a revolução e construção são realizadas com o país e nação como uma unidade. Por essa razão, o internacionalismo encontra suas expressões nas relações entre países e entre nações, um pré-requisito para isto sendo o nacionalismo. O internacionalismo divorciado dos conceitos de nação e nacionalismo é apenas uma casca vazia. Um homem despreocupado com o destino de seu país e nação não pode ser fiel ao internacionalismo. Revolucionários de todo país devem ser fiéis ao internacionalismo lutando, em primeiro lugar, pela prosperidade de seu próprio país e nação.

Pela primeira vez na história, o grande líder Presidente Kim Il Sung deu uma explicação correta do nacionalismo, e elucidou a relação entre comunismo e nacionalismo e entre comunistas e nacionalistas em sua prática revolucionária de esculpir o destino de seu país e povo. Ele afirmou que para ser um verdadeiro comunismo é necessário primeiro se tornar um autêntico nacionalista. Com a determinação de devotar sua vida a seu país e a seus compatriotas, ele embarcou na estrada da revolução em sua juventude e criou a imortal ideia Juche, em cuja base ele estabeleceu uma perspectiva sobre a nação orientada pelo Juche, e expôs cientificamente a essência e o caráter progressista do nacionalismo. Através de uma combinação correta de caráter classista e caráter nacional e do destino do socialismo com o da nação, ele realizou uma aliança entre comunistas e nacionalistas, cimentou as posições classistas e nacionais de nosso socialismo e liderou os nacionalistas na unificação de esforços para a construção socialista e para a reunificação nacional. Atraído por sua ampla magnanimidade e personalidade nobre, muitos nacionalistas embarcaram na estrada patriótica de unidade e reunificação nacionais, rompendo com passados errôneos. Kim Ku, um anti-comunista ao longo de toda sua vida até então, aliou-se aos comunistas, uma transformação patriótica, no crepúsculo de sua vida, e Choe Tok Sin, um nacionalista, foi capaz de encontrar salvação como um patriota no abraço do líder. O grande líder valorizou e lutou pela independência não apenas de nossa nação, mas de todos os povos do resto do mundo. Ele devotou todos os seus esforços à causa da luta para tornar todo o mundo independente, bem como à revolução coreana. Nós podemos dizer que não houve homem no mundo tão grande quanto ele, que devotou toda sua vida à independência e prosperidade nacionais, e a um futuro brilhante para a humanidade. Ele foi o mais firme comunista e, ao mesmo tempo, um patriota incomparável, autêntico nacionalista e paradigma entre internacionalistas.

Eu também afirmo, como o líder instruiu, que é necessário ser um patriota ardente, um verdadeiro nacionalista, para ser possível se tornar um revolucionário, um comunista. O comunista que luta pela realização da independência das massas populares deve primeiramente ser um autêntico nacionalista. Aqueles que lutam por seu povo, seu país e sua terra natal são comunistas genuínos, autênticos nacionalistas e ardentes patriotas. Aqueles que não amam seus pais, irmãos e irmãs não podem amar seu país e compatriotas. Similarmente, aqueles que não amam sua pátria e povo não podem se tornar comunistas. Nós estamos herdando com fidelidade a nobre ideia de nosso grande líder de amar o país, a nação e o povo, e de fazer todos os esforços para mobilizar todas as seções da nação através de uma política inclusiva, e de liderá-los na estrada do patriotismo.

Não são os comunistas, mas os imperialistas que se opõem ao nacionalismo e colocam obstáculos no caminho do desenvolvimento independente das nações no presente. Os imperialistas manobram maliciosamente para realizar sua ambição dominacionista sob o apelo de "globalização" e "integração". Eles afirmam que o ideal de construir um Estado-Nação soberano ou o de amor pela pátria e nação é um "preconceito nacional retrógrado" e que "globalização" e "integração" são a tendência da época na situação presente, quando ciência e tecnologia se desenvolvem rapidamente e trocas econômicas entre países estão sendo conduzidas abruptamente em escala internacional. Hoje, quando cada país e nação está esculpindo seu próprio destino com sua própria ideologia, sistema e cultural, não pode nunca haver uma "integração" econômica, ideológica e cultural do mundo. As manobras dos imperialistas americanos em prol de "globalização" e "integração" objetivam transformar o mundo no que eles chamam de um mundo "livre" e "democrático" moldado segundo os Estados Unidos, e assim colocar todos os países e nações sob sua dominação e subordinação. A era presente é uma de independência. A história humana é propelida pela luta das massas populares por independência, não pela ambinação dominacionista e pela política agressiva dos imperialistas. As manobras dos imperialistas por "globalização" e "integração" estão fadadas a falhar, conforme são combatidas pelos esforços vigorosos dos povos do mundo que aspiram por independência.

Nós devemos nos opôr resolutamente e rejeitar as manobras dos imperialistas por "globalização" e "integração", e combater firmemente para preservar as características excelentes de nossa nação e salvaguardar sua independência. Nós frequentemente enfatizamos o princípio da "nação coreana primeiro" de modo a preservar o caráter nacional e defender a independência da nação.

Uma tarefa importantíssima está diante de nós hoje na promoção e realização da independência nacional é reunificar o país. Nossa nação, que herdou uma história honrada pela história e uma cultura e tradição de patriotismo, foi dividida em norte e sul por forças estrangeiras por mais de meio século. A divisão do território e da nação está bloqueando o caminho para o desenvolvimento harmônico da nação, e causando miséria e dureza indizíveis sobre ela. A reunificação nacional não é apenas uma demanda vital de nosso povo, mas é também a vontade unânime e aspiração da nação inteira.

O histórico Encontro de Pyongyang e a Declaração Conjunta Norte-Sul de 15 de Junho despertaram uma nova era de grande unidade nacional e reunificação independente. A Declaração Conjunta Norte-Sul estipula todos os princípios e métodos para resolver os problemas resultantes da reunificação nacional independente pelos esforços unidos de nossa própria nação. A declaração é um programa de unidade nacional e um princípio geral de reunificação nacional, baseada na ideia de "por nossa própria nação" e permeada com o espírito de amor pela pátria e pelo povo. A garantia substancial para independência, paz e reunificação naiconal está em apoiar e cumprir metodicamente a declaração. Erguendo a Declaração Conjunta Norte-Sul como um princípio geral de reunificação, toda a nação deve iniciar uma luta nacional para o cumprimento da causa histórica da reunificação nacional.


08/10/2015

Leonid Savin - 10 Crises da União Europeia

por Leonid Savin[1]



Atualmente, a União Europeia se depara com um número de crises interconectadas. Algumas delas são institucionais, outras são causadas por fatores objetivos e demonstram um despreparo geral - talvez mesmo uma falta de vontade - da parte de Bruxelas para lidar com novas ameaças. Ainda outros tipos de crises são operados, nos quais o papel importante é desempenhado pelos EUA como principal parceiro da UE em questões militares, políticas e econômicas. E certamente, este parceiro tenta promover seus próprios interesses.

Crise da Política Geral de Integração Europeia


O entusiasmo e pathos derivados da criação do espaço uniforme se exauriu, especialmente após os princípios benefíciários do projeto da UE, i.e. Alemanha e França, terem se tornado cada vez mais óbvios. O sistema da adoção de decisões políticas na UE (Comissários Europeus não são eleitos por voto direto) contradiz padrões e valores democráticos. E este mero fato solapa as fundações dos Estados nacionais dentro da UE e fortalece o papel da burocracia. Isso gera uma desconfiança geral das instituções supranacionais que não possuem autoridade. Ademais, a soberania enfraquecida dos Estados nacionais reduz significativamente seus papeis como jogadores no reino da política internacional. Se no passado Alemanha, França, Itália e outros países se apresentavam em busca do status de centros de poder (ainda que permanecessem dependentes dos EUA via OTAN), agora suas possibilidades estão notavelmente reduzidas.


Os interesses e ambições de certos países se deparam não apenas com a competição natural de fora, mas também com sabotagem interna expressa através do bloqueio de várias iniciativas. Por exemplo, a Alemanha não apoiou o desenvolvimento da União Mediterrânea que foi inicialmente apoiada pela França. Uma vulnerabilidade similar mutuamente dependente levou à emergência do conceito da UE como uma pequena potência[2]. Se, durante a era modernista, a Europa podia se gabar de ter uma coalizão de potências que contribuía para determinar o tom da história mundial, hoje (na era pós-moderna) a UE não é considerada uma entidade de valores absolutos em relação a política global.

Crise da Economia


O risco de uma saída grega da eurozona - e também o debate atual sobre possíveis novos candidatos para a falência - mostra uma insolvência em relação a política econômica da UE. Ainda que neoliberais bastante conhecidos como George Soros constantemente aconselhem políticos europeus em questões econômicas, a UE se abstém tanto de uma liberalização completa cmo de um retorno a uma abordagem mais racional em relação ao gerenciamento do setor bancário.


Assim, há uma ameaça de uma retirada da UE de sua parceria transatlântica em comércio e investimentos - i.e. o que está sendo intensamente objetivo de lobby por Washington.

O público europeu é um alvo crucial dessa iniciativa americana. Não obstante, pesquisadores notam que segundo padrões e leis internacionais da UE, há apenas o mandato em negociação, mas essas negociações ocorrem por trás de portas fechadas sob pressão de Washington. Ademais, houve inúmeras tentativas dos EUA de solapar as regras europeias sobre segurança de dados[3]. Relatórios tanto de organizações de consumidores e representantes da sociedade civil europeus e americanos confirmam isso.

Tais ações são, via de regra, conduzidas através de companhias lobistas. Por exemplo, através da "Hogan Lovells", que criou a "Coalizão para Privacidade e Livre-Comércio". Os interesses políticos diretos dos EUA são óbvios entre tais "peso-pesados" como Hugo Paemen, o ex-embaixador americano na UE; o ex-representante dos EUA para comércio, Clayton Eutter; o ex-vice-chefe do Departamento de Tecnologia da Casa Branca, Daniel Weitzner[4]; todos esses homens trabalham para Hogan Lovells. Conseguirão os consumidores europeus resistir à pressão de companhias multinacionais? É óbvio que esta também é uma questão de vontade política entre os líderes dos países da UE.

Analisando os indicadores macroeconômicos na UE, o observador alemão Eric Zuesse chegou às seguintes conclusões sobre as consequências de unir a UE à parceria transatlântica:

- Dentro dos primeiros 10 anos o acordo levará a Europa a perdas em exportação. As seguintes entidades sofrerão mais: Norte da Europa (2,07% do PIB), França (1,9% do PIB), Alemanha (1,14%), e também Grã-Bretanha (0,95%);

- O acordo levará a uma queda no crescimento do PIB. Levando em consideração as pedas europeias em exportação, o norte da Europa terá que lidar com a maior redução de PIB (0,5%), França (0,48%), Alemanha (0,29%);

- O acordo causará uma queda na renda do trabalho. A França sofrerá mais; perderá 5.500 euros por pessoa apta a trabalhar em cálculos anuais, o norte da Europa 4.800 euros, Grã-Bretanha 4.200, Alemanha 3.400 euros;

- O acordo levará a perdas de emprego. A UE perderá aproximadamente 600 mil postos de trabalho. As maiores perdas serão no norte da Europa - 223 mil, Alemanha - 134 mil, França - 130 mil, e também o sul da Europa - 90 mil;

- O acordo levará a perdas nos rendimentos dos governos. A margem de renda em cima de impostos indiretos em relação aos subsídios do governo se reduzirá em todos os países europeus. Isso se dará mais fortemente na França onde as perdas totais será de 0,64% do PIB. A deficiência nos orçamentos governamentais de todos os países europeus aumenterá com possível excesso dos indicadores fixados pelos acordos de Maastricht em 3%[5];

- O acordo causará aumento de instabilidade financeiro, acúmulo de desequilíbrios, a redução da renda de exportações, redução salarial para a população e também redução dos rendimentos governamentais. Nessa situação, a demanda terá que ser mantida pela renda e por investimentos. Ao mesmo tempo, contra as taxas decrescentes de consumo, o crescimento em vendas não será capaz de agir como força de impulsão. O crescimento do custo de bens que darão suporte à renda e aos investimentos (geralmente no setor financeiro) se tornará uma opção mais realista. A ameaça potencial de instabilidade macroeconômica em tal modelo de desenvolvimento é bastante conhecida e isso já foi demonstrado pela última crise financeira[6].

Crise da Cultura Europeia


A formação do espaço geral da UE forçou a criação de programas especials para ressaltar a unidade dos países da comunidade. Porém, ao invés de apelar para fatos históricos e para as tradições europeus (i.e. ressaltando os valores pluralistas), incluindo as raízes cristãs, Bruxelas provocou a criação de um modelo pós-moderno, mais conhecido como multiculturalismo. Líderes da Alemanha e da França oficialmente declararam a falência desse modelo há alguns anos. Ainda que a crítica do multiculturalismo esteja geralmente conectada a um desequilíbrio demográfico e ao processo de islamização da Europa (e agora a UE deve adotar as normas de seus próprios cidadãos nativos, em face da cultura islâmica, que é mais resistente do que o conjunto amorfo de regras "europeias"), as raízes do problema são mais profundos, e possíveis consequências podem ser muito mais sérios (mas também abraços hipócritas sob a bandeira da tolerância geram figuras como Anders Breivik). Não é apenas uma questão de emasculação da memória histórica e sua substituição por um simulacro cultural banal, mas também por um sistema educacional que institucionaliza a degradação intelectual. Finalmente, isso pode levar à desumanização e a mudança da imagem antropológica da Europa. Um dos fatos tristes desse processo - adoção de lei sobre casamentos homossexuais que mostra a próxima crise ligada à orientação sexual.

Crise da Identidade de Gênero

O projeto de transhumanidade promovido pelos EUA com frequência cada vez maior é percebido na UE como o mecanismo de destruição dos povos europeus de cultura e história ricas. Infelizmente, um número de leis, como a legalização dos casamentos homossexuais e a educação de gênero, já foram implementados em países europeus, mas eles causam séria resistência na vasta maioria da população e podem ser reconsiderados no futuro. Não obstante, isso afeta seriamente a imagem da UE. A Europa é vista cada vez mais como berçário da sodomia e da legalização de perversões. A narrativa sobre a Gayropa[7] já se tornou propriedade tanto de um discurso comum como de pesquisas científicas.

Crise Político-Militar

O conflito ucraniano e um falso alvo na forma da Rússia teve um impacto essencial sobre a reestruturação das forças armadas da UE ou para ser exato, predeterminou o plano de ações manipulativas tomados pelos EUA na arena europeia. Os países da UE dentro da OTAN se tornaram reféns de instruções de Washington, tendo desenvolvido a operação de longo prazo "Determinação Atlântica".

Além do debate sobre o papel da OTAN, a necessidade dos pagamentos correspondentes ao nível de 2% do PIB e a criação de forças europeias de reação, na UE parece haver um problema relativo a opiniões divergentes sobre a própria estratégia de ações.

Em 22 de fevereiro de 2015 o grupo político-militar enviou uma carta de recomendação ao Conselho da Europa em que era especificado que todos os membros da UE devem apoiar politicamente a realização de operações ou missões, mas apenas um número limitado deles deseja fazê-lo e tem possibilidade de participar de ações militares[8].

A recomendação do grupo político-militar da UE compeliu à adoção da nova provisão do mecanismo de financiamento geral da administração de operações militares da União Europeia, conhecido sob o codenome "Athena". A ideia principal é apresentar a UE como fonte de segurança.

Notaremos que várias missões civis e militares da UE são agora realizados em países situados longe das fronteiras da União Europeia: Afeganistão, Djibuti, Somália, Seichelles, Tanzânia, República Democrática do Congo, Mali, Niger, República Centro-Africana, Palestina, Kosovo, Bósnia, Geórgia e Ucrânia.

Em 27 de março de 2015 foi tomada a decisão 2015/528, que aprovou 49 pontos e 2 apêndices sobre financiamento, compensação e o registro durante preparação e realização de tais operações. Esse documento pesado e burocrático sofreu críticas do público por seu distanciamento da realidade. Em geral, um desequilíbrio entre desejos e possibilidades, especialmente financeiras, foi declarado como a crise do sistema político-militar da UE[9].

Crise da Boa Vizinhança

A política de vizinhança do UE possui longa história. Oficialmente ela é dirigida para a criação de zonas amistosas na Europa Oriental, Norte da África, Oriente Médio e Sul do Cáucaso. Em verdade, parte dos projetos se transformaram em instrumentos de expansão política e econômica (projetos de "Parceria Oriental" e "Parceria Sulina") operando no esquema do "poder suave". Por outro lado, a ausência de uma compreensão profunda das necessidades e interesses dos países vizinhos levou à emergência e escalada dos conflitos ao sul do Mediterrâneo que causaram um efeito dominó e um desastre humanitário no Norte da África e no Oriente Médio.

Deve ser notado que a UE usualmente conclui acordos de associação em troca da obrigação de realização de reformas políticas, econômicas, comerciais ou jurídicas. Em troca disso, o Estado associado pode conseguir acesso livre de barreiras alfandegárias a alguns ou toros os mercados europeus, ao mercado de produtos agrícolas, etc., bem como assistência técnica e financeira.

É importante notar que entre os países da parceria sulista apenas a Argélia e a Síria tiveram balança comercial positiva com a UE de 2000 a 2011, mas em ambos os casos isso esteve ligado à exportação de vetores energéticos. Para todos os outros países sulistas da política de vizinhança europeia, uma déficit comercial foi registrado.

Dados do Eurostat dão as seguintes estatísticas sobre os países[10]:

Argélia - 2005 - 11.460 milhões de euros, 2010 - 5.445 milhões de euros;
Egito - 2005 - 1.066 milhões de euros, 2010 - 6.843 milhões de euros;
Israel - 2005 - 4.095 milhões de euros, 2010 - 8.244 milhões de euros;
Jordânia - 2005 - 1.964 milhões de euros, 2010 - 2.261 milhões de euros;
Líbano - 2005 - 2.845 milhões de euros, 2010 - 4.272 milhões de euros;
Marrocos - 2005 - 2.228 milhões de euros, 2010 - 5.140 milhões de euros;
Palestina - 2005 - 192 milhões de euros, 2010 - 267 milhões de euros;
Síria - 2005 - 1.916 milhões de euros, 2010 - 115 milhões de euros;
Tunísia - 2005 - 626 milhões de euros, 2010 - 1.163 milhões de euros.

Em outras palavras, estes Estados receberam mais bens e serviços europeus, mas não venderam seus bens para países da UE. Isso é típico para economias com foco liberal, quando um país ou um grupo de países cria condições especiais para a penetração nos mercados de outros países, sob o disfarce do mercado aberto e do livre-comércio, ao mesmo tempo utilizando medidas protecionistas para certos tipos de produção de modo a proteger seus próprios produtores. Os dados fornecidos no relatório de 2013 "Países da Política de Vizinhança Europeia. Indicadores Macroeconômicos Essenciais" publicado pela Comissão Europeia testemunha convincentemente que a UE foi a vencedora, e indubitavelmente os países da parceria sulista não o foram.

A análise de ações da UE em relação aos Estados enquadrados neste esquema de "parceria" levou a um entendimento em muitos desses países de que, em verdade, tais projetos são uma forma velada de neocolonialismo. Como resultado, um número desses países se recusou a aceitar várias ofertas da UE. E em outros países (Moldávia, Ucrânia) as concessões europeias dos programas da "Parceria Oriental" simplesmente se dissolvem em esquemas de corrupção.

É claro, as posturas russofóbicas, de sanções à histeria midiática, são o exemplo mais óbvio da falsa estratégia de vizinhança.

A Próxima Crise - Um Problema Migratório

Os enormes fluxos de refugiados e imigrantes na UE são uma consequência das ações anteriores da UE nos países da Ásia, África e Oriente Médio. Ademais, os africanos e asiáticos assimilados (segunda e terceira gerações das antigas colônias) são um elo intermediário entre novos imigrantes e europeus indígenas. E leis adotadas anteriormente não permitem a resolução de questões humanitárias, e isso leva a situações absurdas e tragicômicas.

Bruxelas chegou recentemente ao ponto em que uma oferta de aquecer os navios transportando imigrantes ilegais foi considerada. Assim, as afirmações sobre necessidade de missões humanitárias e tolerância não são mais que uma política hipócrita de duplicidade. Pesquisas em países da UE mostram que a população local é categoricamente contra novos fluxos de imigrantes ilegais de países da África, Ásia e Oriente Médio. Enquanto isso, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu sincronicamente sugerem estabelecer quotas para os imigrantes que, em primeiro lugar, afetarão países da Europa Oriental, onde já existe uma situação demográfica deplorável.

A distribuição dos imigrantes em antigos campos de concentração, nos quais nazistas matavam pessoas durante a Segunda Guerra Mundial, é mais uma tentativa de construir uma boa mina em um jogo ruim.

Crise na Estratégia Energética

Sanções contra a Rússia impactaram diretamente a política energética da UE. O conceito do terceiro pacote de energia contradiz diretamente interesses nacionais de vários Estados que possuem deficiências em seus próprios recursos e contavam com as relações com a Rússia. O benefício econômico vinha tanto do trânsito de gás, como do consumo direto. Mas um número de países são forçados a sofrer com as humilhações da Comissão Europeia.

Ainda que se fale oficialmente na necessidade de criar uma posição consolidada e trabalhar para o ben dos interesses de todos os membros da UE, na prática ocorre diferente. No relatório do instituto alemão sobre questões internacionais e segurança devotado à política energética é especificado que "o discurso sobre a união energética pode ser interpretado geralmente como sintoma da crise na integração da UE"[11]. Apesar de todos os progremas e estratégias ofertados, incluindo a regulamentação da distribuição de gás, energia verde e mudanças climáticas, os autores especificam que apenas uma abordagem pragmática pode trazer resultados. É necessário considerar que este instituto desenvolve política externa para a Alemanha e essas recomendações significam uma preponderância da vontade de Berlim sobre outros Estados. Considerando a capacidade institucional dos alemães, é possível supôr que a Alemanha planeja assumir o gerenciamento por trás dos panos da futura união energética com ênfase em renováveis. Qualquer vazamento dos planos alemães e violação dos interesses dos países que agora tem possibilidade de uma escolha de fontes de recursos energéticos pode gerar uma crise ainda mais profunda entre membros da UE.

Crise das próprias promessas

A impressão que se tem é a de que os cidadãos europeus tem memória política muito curta. Eles esquecem rapidamente não apenas as promessas de seus líderes, mas também um exemplo particular: A declaração de Tessalônica de 2003 [12] ainda não foi implementada. Os Bálcãs ocidentais por mais de 10 anos não se tornaram uma região próspera e segura. Pelo contrário - a situação de muitos países da região piorou. E a causa é: uma política míope da UE.

Crise de Ideias

Estranhamente, muitas das crises consideradas estão ligadas à ausência de ideias entre políticos europeus. Uma impenitência de pensamento e o comprometimento persuasivo ao bloco limitado de esquemas ligados à ideologia neoliberal em suas várias formas (da esquerda trotskista à direita militarista) nem permite um olhar adequado e objetivo aos processos orgânicos, nem os estima com um prospecto temporário e histórico. Isso, por sua vez, bloqueia a possibilidade de previsões e dispensa a criação de cenários realistas, na medida em que a maioria das previsões parece estar errada.

Talvez as pessoas que tomam decisões na UE devessem olhar umas para as outras e olhar com maior razoabilidade para o curso das coisas, sem negar o uso de outros modelos de gerenciamento político.

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[1] Leonid Savin is the Chief Editor of Katehon magazine and Director of the social-political programs in the Institute of Economics and Legislation (Moscow, Russia).
[2] Asle Toje. The European Union as a Small Power: After the Post-Cold War. Basingstoke: Palgrave MacMillan, 2010
[3] http://www.statewatch.org/analyses/no-257-ttip-ralf-bendrath.pdf
[4]http://www.hoganlovells.com/hogan-lovells-forms-coalition-forprivacy-and-free-trade-03-18-2013
[5] http://deutsche-wirtschafts-nachrichten.de/wp-content/uploads/2014/11/TTIP-Studie-Tufts.pdf
[6] Eric Zuesse, Obama’s Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) Would Be Disastrous for Europe // Global Research, November 18, 2014 http://www.globalresearch.ca/obamas-transatlantic-trade-and-investment-partnership-ttip-would-be-disastrous-for-europe/5414546
[7]Oleg Riabov, Tatiana Riabova. The decline of Gayropa? // http://www.eurozine.com/articles/2014-02-05-riabova-en.html
[8] PMG Recommendations on Article 44 TEU, Brussels, 11 February 2015
[9] COUNCIL DECISION (CFSP) 2015/528 of 27 March 2015 establishing a mechanism to administer the financing of the common costs of European Union operations having military or defence implications (Athena) and repealing Decision 2011/871/CFSP // Official Journal of the European Union, 28.3.2015
[10]http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_OFFPUB/KS-32-12-269/EN/KS-32-12-269-EN.PDF
[11] Severin Fischer and Oliver Geden. Limits of an “Energy Union”, SWP Comments 28, May 2015, Р. 3.
[12] http://www.cespi.it/Rotta/dich-Salonicco.PDF

04/10/2015

Jafe Arnold e Joaquin Flores - Tragédia e Farsa: Reconsiderando a Análise Superestrutural Marxiana de Movimentos Sociais Heterodoxos (Parte I)

por Jafe Arnold e Joaquin Flores



Utopia vs. Mito, a Poesia do Passado, e a Revolução Social - Uma Introdução Geral a esta Série

Introdução

Comecemos estabelecendo que houve três ideologias sócio-políticas da modernidade - liberalismo, comunismo e fascismo; a primeira, segunda e terceira teorias políticas, respectivamente. Novos desenvolvimentos no arranjo global de forças sócio-econômicas, ideológicas e geopolíticas em anos recentes nos forçam a examinar estas com novos olhos. Por um lado, precisamos reconhecer a herança filosófica comum de todas estas três ideologias na modernidade, e assim revelar as instâncias nas quais elas conscientemente ou inconscientemente se coadunam, enquanto pelo outro lado delinear por entre seus respectivos entendimentos de seus papeis como ideologias. Em particular, o objetivo desta série é reconciliar o esquema analítico marxiano com as características estruturais e superestruturais de novos e sincréticos movimentos sócio-políticos, em sua forma puramente estética, bem como em seus aspectos ideológicos mais profundos.

O ponto de partida de nossa investigação é o reconhecimento de que vivemos em um tempo extremamente ideológico, e ainda assim parece para muitos que não vivemos. Que muitos no Ocidente creiam que vivemos em um período "pós-ideológico" é, na verdade, testamento da saturação total da ideologia liberal. Desde a vitória do Ocidente liberal sobre a União Soviética e a proclamação liberal do "fim da história" (nas palavras de F. Fukuyama), o liberalismo se tornou tão entranhado em cada faceta da vida ao ponto de ser indistinguível da própria vida quotidiana em si mesma. Enquanto tal, ela provou ser a ideologia totalitária mais eficiente até então criada pela humanidade.

Liberalismo & Marxismo

O liberalismo apela a nossos instintos individuais inatos, mas o faz de tal maneira a guerrear contra nossos instintos coletivos igualmente inatos. Ambos esses instintos inatos - o individual e o coletivo - são partes integrais da experiência humana. Uma instância destacável da crua atomização imposta pelo liberalismo pode ser vista no fato de que o sexo parece ser um foco particular da ideologia liberal contemporânea, impulsionado de forma padrão como uma questão divisiva entre grupos político-midiáticos liberal-progressistas e liberal-conservadores [1]. Formular uma crítica ampla do liberalismo como a ideologia do capitalismo significa reexaminar como compreendemos movimentos anticapitalistas radicais hoje. Isso significa, em primeiro lugar, ousar reconsiderar e distinguir a base e a superestrutura em teorias marxianas sobre movimentos sociais heterodoxos (e aparentemente não-esquerdistas). Sobre este fundamento podemos proceder com um entendimento renovado com o qual analisar e então transcender (em teoria) questões particularmente divisivas.

Estas questões divisivas, de fato, não são fundamentais per se, mas são questões superestruturais que existem principalmente no reino das armadilhas discursivas; os tipos de formas de linguagem usados que nos dirigem a associar estas com outros reinos distintos de pensamento e atividade. Estes são modos e reinos que até então foram considerados pelos marxistas como hostis aos interesses históricos e materiais de classe do proletariado; eles estão associados com políticas de reação, pré-modernidade, e/ou com forças de classe da burguesia ou da pequena-burguesia em um modo de crise. Outras questões são étnicas, de gênero e de sexo, que dividem as forças do proletariado. A ossificação de uma cultura "globalista" politicamente correta neoliberal que as cercam serve para justificar o "imperialismo dos direitos humanos": estes representam exemplos cruciais da permuta entre teorias "antiliberais" (formalmente, elas não estão abertas para debate) pelo próprio paradigma liberal da modernidade.

Os elementos utópicos no liberalismo encontraram expressão em seu ramo de "progressismo", e os marxistas, tal como os socialistas utópicos antes, encontraram um chão comum com os liberais. O ramo futurista do fascismo também apelava a esse progressismo, e republicanos radicais, anarquistas, sindicalistas, bem como republicanos vermelhos na Itália estiveram entre os fundadores dessa terceira teoria política no plano italiano. O esquema progressista, que permitiu e engendrou a fertilização cruzada entre as três teorias políticas, as situa todas elas como teorias políticas modernas. Porém, o núcleo para teorias políticas futuras existe na segunda e terceira - ambas as quais propõem a questão do que seguirá a ordem capitalista (liberal) moderna.

Assim, há um erro inerente em pensar as três ideologias da modernidade em formas estáticas; pensá-las como estruturas que se situam sozinhas. É, então, errôneo contrastá-las com ideologias "sincréticas", ou considerar a terceira teoria política como distintamente sincrética, e a primeira e segunda não. Todas as três teorias políticas da modernidade influenciaram umas as outras; cada uma foi criada a partir de ideias não apenas daqueles que as precederam, mas que concretamente emergiram do mundo material realmente existente e de tudo que foi herdado dele. Cada teoria política não emergiu sob uma forma completa, e assim, por exemplo, o liberalismo hoje tem traços tanto do comunismo (i.e., marxismo) e do fascismo. Similarmente, o marxismo nasceu não apenas do liberalismo e de sua contemplação do feudalismo e da pré-modernidade, mas estava interagindo simultaneamente com; subsumindo aqui e rejeitando ali, as ideias do liberalismo radical, do nacionalismo, do existencialismo e do anarquismo, que são, não por acidente, todos juntos também as bases do fascismo.

Uma chave dada por Marx: O XVIII de Brumário

Para muitos que compreendem a trajetória do desenvolvimento histórico através de uma lente marxiana, poucas coisas parecem mais contraditórias em relação às próprias visões de Marx do que sua "correção" de Hegel nas primeiras linhas do Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. O ensaio em si permanece como uma das melhores descrições de Marx de sua teoria do Estado capitalista. A análise dos marxianos é intelectualmente honesta quando ela opera com uma compreensão das condições objetivas e subjetivas nas quais a transformação histórica se dá, segundo o esquema analístico do materialismo histórico ou dialético. Ademais, ela exibe uma distinta fidelidade à ciência proposta quando olha objetivamente e sem viés emotivo para as formas superestruturais que tais transformações históricas assumem.

O problema identificável, então, ao se aplicar a mesma análise marxiana ao presente, isto é, quando ela se apoia nas dicas superestruturais à disposição e cede à pressão da cultura de ativismo, ela pode falhar particularmente quando observa movimentos sociais contemporâneos, isto é, do início do século XXI na era pós-moderna. Uma chave para compreender este problema, como uma introdução adequada a nossa investigação, pode estar em uma leitura revisada do primeiro capítulo do XVIII de Brumário.

Assim, será importante para nós examinar não apenas como esta correção é interpretada equivocadamente pelos marxistas, mas também talvez onde o próprio Marx poderia ser corrigido - ou talvez melhor, alinhado com sua própria ciência proposta. Isto levantará a questão do que isso significa no contexto do reino superestrutural da estética, cultura, palavras (ou armadilhas discursivas), ideais e símbolos. Se Marx parece se contradizer, pode ser importante virá-lo de cabeça para cima.

A confusão entre forma e substância não é apenas um problema teórico, mas um que possui impacto extraordinário sobre o presente: se socialistas radicais, anarquistas e comunistas estão hoje confiando em pistas superestruturais para determinar a identidade de seus "inimigos de classe", isto pode ser um equívoco trágico, e em retrospecto, uma farsa. Conforme começamos a sofrer com a "overdose de informação" da era da internet, e onde déficits de atenção batem record, na verdade é difícil não ser econômico quando se procura por certas pistas: comunistas hasteiam bandeiras vermelhas, anarquistas bandeiras negras, enquanto socialistas mimetizam liberais se privando de simbolismos abertos. Ao contrário, os socialistas usam linguagem e sintaxe "liberal" e "progressista" para atingir qualquer um à esquerda do centro. Todos os três, porém, na melhor das hipóteses ignoram, e na pior das hipóteses vilificam aqueles na centro-direita e mais além.

Marx vs. os marxistas: Subsunção total de todas as classes em um proletariado

O problema com a marginalização ou vilificação de pessoas na "centro-direita e mais além" é, obviamente, que em termos de processos eleitorais é efetivamente impossível ter sucesso neste terreno sem ideias "de centro-direita e mais além" apelando a membros do proletariado. É simplório demais varrer estas sob o tapete da "falsa consciência" sem colocar seriamente em questão o potencial para (e a realidade da) agência de classe em geral. Em conexão com isto está um problema na maneira pela qual grupos comunistas contemporâneos tem ignorado a teoria marxista real e simplificado sua definição de "proletário".

Ao contrário, não apenas ao olhar para a sociedade civil, mas também na teoria marxista, nós devemos compreender que sob condições do capitalismo tardio, i.e., modernidade tardia, que o desenvolvimento capitalista proletarizou todas as outras classes (pequeno-burguesa, etc.) através de várias maneiras. Todas as classes prévias, que existem hoje sob forma proletária, foram subsumidas pelo capital e proletarizadas; todas estão envolvidas no processo crítico de valorização. Por definição, portanto, todas estão envolvidas na produção de mais-valia. Todos os labores estão em análise final orientados para o acúmulo de capital; e todos estão em análise final alienados do trabalhador e acumulados pelo capitalista, através do ciclo de produção, dos produtos de dito labor.

Os mecanismos da acumulação de capital, no contexto do capitalismo tardio, não são apenas a apropriação de mais-valia sob a forma de salários na típica relação empregador-empregado; mas, ao invés, todas as relações de produção ou relações sociais estão engendradas para a acumulação de capital pelos capitalistas financeiros. Modos pré-capitalistas (aluguéis, taxas), capitalistas (salários), e capitalistas tardios (empréstimo/especulação/finanças) de apropriação de capital, são todos utilizados no capitalismo tardio como métodos de acumulação de capital.

Assim, classes que aparecem como gerenciais, pequeno-burguesas, lumpen, administrativas, etc. foram proletarizadas. Dessa forma suas lutas, quando dirigidas à ordem estabelecida, independentemente da poesia, (slogans, simbolismo, gritos de guerra, imagética e estandartes), são geralmente proletárias em substância ainda que não de forma aparente.

Assim no que concerne atalhos interpretativos, úteis que seja, eles possuem duras limitações por se referirem a interpretações majoritariamente desatualizadas de pistas estéticas e superestruturais em geral. Este é especialmente o caso conforme vários movimentos sociais emergindo em oposição ao capitalismo derivam de uma mistura aparentemente caótica ou dissonante de vários radicalismos. Estes até mesmo incluem aqueles que parecem e sentem como se originando da extrema-direita fascista, e podem de fato originar daí. Como exploraremos nesta série, estes são muitas vezes movimentos objetivamente proletários e anticapitalistas que estão envolvidos na estética e referências históricas do fascismo e de vários neofascismos na Europa, e nos EUA geralmente assumem a forma do constitucionalismo e do libertarianismo também.

Se, de fato, estes grupos radicalizados de "extrema-direita" estivessem de fato fazendo o trabalho da classe governante, mobilizando para esmagar iniciativas de poder operário em nome do Estado, da Igreja, e dos interesses de classe da pequena-burguesia (e das forças tradicionais da reação em geral), então a classificação marxista novecentista destes grupos como "fascistas" poderia ser de fato apta: nossos "atalhos" teriam servido.

De fato e similarmente também seria uma tragédia de grupos de combate "de esquerda" tais como os Antifa estivessem em verdade atacando outros movimentos proletários opostos ao capitalismo, que só calham de parecer permutações pequeno-burguesas reacionárias de poder classista.

Ao mesmo tempo não podemos definir diretamente a contra-mobilização contra grupos comunistas por grupos "de extrema-direita" como contra-mobilizações contra o proletariado enquanto classe. Objetivamente, estas são lutas relativamente pequenas entre grupos ideológicos distintos pertencentes ao proletariado (i.e., esquerda vs. direita), e mimetizam as lutas entre seitas religiosas, e não representam os interesses de uma classe contra outra classe. Auto-referências e simbolismo "comunista" vs. "fascista" são abstrações nocionais e de modo geral não se ligam materialmente a forças de classe proletária vs. pequeno-burguesa, respetivamente, ainda que remetam a elas abstratamente, i.e., no mundo das ideias.

Certamente, "dividir para conquistar" tem sido uma tática eficaz para a classe governante manter seu mando classista. Isso pode se estender muito além do que era previamente compreendido. E coloca em cheque o modo pelo qual compreendemos e interpretamos a suposta prole de vários movimentos sociais do século XX.

O Estado capitalista e seu aparato super-armado de poder estatal, sua burocracia complexa e grandes recursos, se apresenta como uma monstruosidade aparentemente inconquistável. Grupos marxistas revolucionários aparentemente empalidecem em comparação em termos de sua capacidade de projetar poder. Significativamente menos poderosos são os supramencionados movimentos  e grupos anticapitalistas não-marxistas, muitos nem mesmo se identificando com a esquerda, e em sua maioria assumindo uma perspectiva decididamente anticomunista em termos de ideologia nominal. Estes grupos fazem excelentes alvos substitutos para grupos revolucionários marxistas e anarquistas; é possível atacá-los nas ruas e espaços virtuais. Vitórias aqui servem para satisfazer a necessidade de ter vitórias, mas podem na verdade trabalhar contra os objetivos verdadeiros da luta contra o capitalismo.

Movimentos sociais sincréticos na Eurásia já estão superando o problema para o qual estamos olhando, e portanto alguns desses exemplos serão discutidos nesta série. Outros exemplos incluem o socialismo pan-árabe e pan-sírio (tal como o Ba-athismo ou o PSNS), bem como nacionalismos revolucionários na América Latina, a Teologia da Libertação, grupos revolucionários na área novorrussa da ex-Ucrânia, e outros. Eles tem influenciado nossas opiniões também, mas mais concretamente demonstram que soluções podem ser deduzidas e principalmente são mais do que "prova conceitual" de que tais empreendimentos podem ser realizados com grau elevado de eficácia.



Retornando a Marx em O Dezoito de Brumário

Marx escreve:

"Hegel comenta em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens histórico-mundiais aparecem, por assim dizer, duas vezes. Ele se esquece de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa [...] E exatamente enquanto eles parecem estar ocupados com revolucionar a si próprios e as coisas, criando algo que não existia antes, precisamente em tais épocas de crise revolucionária eles conjuram ansiosamente os espíritos do passado para seu serviço, pegando emprestados deles nomes, slogans de batalha e roupas de modo a apresentar esta nova cena na história mundial em um disfarce honrado pelo tempo e com linguagem emprestada. Assim Lutero trajou a máscara do Apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente com o disfarce da República Romana e do Império Romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer melhor do que parodiar, primeiro 1789, então a tradição revolucionária de 1793-95. De maneira similar, o iniciante que aprendem um novo idioma sempre o traduz de volta para sua língua materna, mas ele assimila o espírito do novo idioma e se expressa livremente nele apenas quando ele transita nele sem rememorar o antigo e quando ele esquece a língua nativa".

"Quando pensamos sobre esta conjuração dos mortos da história mundial, uma diferença saliente se revela. Camille Desmoulins, Danton, Robespierre, Saint Just, Napoleão, os heróis bem como os partidos e as massas da velha Revolução Francesa, realizaram a tarefa de seu tempo - aquela de desagrilhoar e estabelecer a sociedade burguesa moderna - em trajes romanos e frases romanas. A primeira destruiu a fundação feudal e cortou as cabeças feudais que haviam crescido nela. A outra criou dentro da França as únicas condições sob as quais a livre competição poderia se desenvolver, alocaram terra adequadamente utilizada, e a poder produtivo desimpedido da nação empregado; e para além das fronteiras francesas varreu instituições feudais por todo lado, para fornecer, na medida do necessário, à sociedade burguesa na França um ambiente atualizado e adequado no continente europeu. Uma vez que a nova formação social foi estabelecida, os colossos antediluvianos desapareceram e com eles o romanismo ressuscitado - os Brutus, os Gracos, os publícolas, os tribunos, os senadores, e o próprio César. A sociedade burguesa em sua realidade sóbria engendrou seus próprios intérpretes e porta-vozes autênticos nos Says, Cousins, Royer-Collards, Benjamin Constants e Guizots; seus verdadeiros líderes militares se sentavam por trás de mesas de escritório e o cabeça-de-porco Luís XVIII era seu chefe político. Inteiramente absorvida na produção de riqueza e na competição pacífica, ela não mais se lembrava dos fantasmas do período romano que haviam velado em seu berço".

"Mas ainda sendo a sociedade burguesa tão anti-heroica, ela não obstante necessitava de heroísmo, sacrifício, terror, guerra civil, e guerras nacionais para gerar a si mesma. E nas austeras tradições clássicas da República Romana os gladiadores burgueses encontraram os ideais e as formas de arte, as auto-enganações, de que precisavam para ocultar de si mesmos o conteúdo burguesamente limitado de suas lutas e para manter sua paixão no plano superior da grande tragédia histórica" [2].

Por outro lado, esta passagem crucial é um dos trabalhos influentes de Marx na análise da experiência revolucionária e na dedução de conclusões teóricas; Marx afirma que "os homens fazem sua própria história, mas eles não a fazem como lhes apraz; eles não a fazem sob circunstâncias selecionadas por si mesmos, mas sob circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas desde o passado" [3].

Como exemplos, nós vemos que Marx reconta o retorno da Reforma Luterana ao Apóstolo Paulo, o apelo de Cromwell e dos ingleses ao Velho Testamento, e a estética romana da Revolução Francesa como casos nos quais transformações revolucionárias buscaram sua estética e apresentação no passado de modo a apresentar um tipo de legitimidade histórica e um senso de luta historicamente redimida contra a ordem contemporânea.

Hipótese vs. Experiência: A Teoria deve refletir a realidade

Ainda assim, em flagrante contradição a este reconhecimento presente de tão inegável realidade, Marx prossegue sugerindo que a futura revolução social "não pode tomar sua poesia do passado, mas apenas do futuro. Ela não pode começar consigo mesma antes que tenha se livrado de toda superstição do passado. As antigas revoluções demandaram rememorações da história mundial passada para suavizar seu próprio conteúdo" [4].

Por que Marx olha para um uso eficaz e provado da poesia do passado apenas para defender que a futura revolução social só pode tomar sua poesia do futuro? Marx propõe: "A revolução do século XIX deve permitir que os mortos enterrem seus mortos para chegar a seu próprio conteúdo" [5].

Daí o significado da fórmula "primeiro como tragédia, então como farsa": a apropriação do passado e de formas existentes é uma necessidade circunstancial tragicamente imposta, e uma repetição subsequente dela representa pouco mais que uma paródia falida, castrada, reacionária. Marx, apesar de reconhecer a importância do disfarce apostólico da Reforma ou das pretensões romanas da Revolução Francesa, chega ao ponto de denunciar a influência da "tradição de gerações mortas", como um "pesadelo no cérebro dos vivos" [6].

Ainda que tal avaliação feita por Marx possa estar de fato restrita a uma precognição relevante em referência ao golpe francês de 1851, a conclusão de que os "nomes, slogans de batalha, e trajes" tirados do passado em meio a luta revolucionária constituem inerentemente uma farsa reacionária e auto-abortiva é de importância séria e de grandes consequências. Nós propomos que ela é um equívoco.

E este é um equívoco, de fato uma contradição confusa na discussão de Marx sobre a relação entre a superestrutura (a "poesia") e a base (classe objetiva e forças econômicas), que ou levou a repercussões profundamente negativas nas análises produzidas por marxistas, ou foi efetivamente refutada por experiências revolucionárias passadas e contemporâneas.

Não apenas foi a "poesia do passado" eficaz em seu tempo, nós não podemos, em última análise, conceber uma maneira pela qual ela seja evitável. Ela foi realmente necessária. A revolução de 1917 não remetia apenas a sua própria promessa e futuro utópicos. Ela teve que se fortificar na mitologia de 1871, 1848 e 1792-94. E não só isso, mas também toda a "história todas as sociedades existentes até então é a história da luta de classes" (Manifesto Comunista, 1848). Não se pode julgar estas positivamente sem valorizá-las, e não se pode depositar valor na história sem a mitificar.

De fato, tornou-se excessivamente comum para marxistas resumir a presença de imagética, simpatias ou tonalidades antigas, medievais, pré-modernas ou mesmo burguesas primitivas como indicativas de uma natureza pró-capitalista, reacionária e contrarrevolucionária. Em realidade, eles estão equivocadamente denunciando movimentos que possuem o potencial para produzir mudanças sociais genuínas e ser uma parte importante da transformação revolucionária.

Nossa Proposta

Nós propomos compreender tais movimentos no sentido marxiano, ao contrário, como muitas vezes "revolucionários" mesmo quando trajando as roupagens do mito, mesmo quando portando a máscara da reação.

Mas perguntamos isto: por que deve ser o caso de que a revolução deve "deixar os mortos enterrar seus mortos"? Este foi de fato o caso, e é provável que seja o caso? A isto, nossa resposta é "Não".

Seriam os movimentos comunistas, anarquistas e socialistas hoje aproximadamente os mesmos de 150 anos atrás? Seriam os movimentos fascistas e de "ultra-direita" hoje aproximadamente os mesmos de 70 ou 100 anos atrás? Para ambas, nossa resposta é novamente "Não".

Estes grupos e movimentos passaram por tremendas mudanças, um século se passou com a estrutura agindo sobre a superestrutura e a superestrutura agindo sobre a estrutura, produzindo uma cadeia irreversível de fenômenos atrás de si. As perspectivas de Marx como expressas no Dezoito de Brumário já foram contraditas na prática. Porém, ao mesmo tempo, há elementos de verdade também: há diferentes perspectivas do passado, mas as pessoas podem ser unificadas por uma ideia comum sobre que tipo de futuro funcionaria. Ainda assim, nós vemos isso não como uma razão para condenar aqueles que usam o poder do mito em sua agitação e identidade, mas sim como razão para que aqueles que o compreendem não confundir sua poesia subjetiva com sua função objetiva.

Tal como o uso subjetivo do simbolismo e da linguagem de um partido ostensivamente comunista não o torna objetivamente comunista no sentido revolucionário e proletário do termo (podemos olhar para qualquer número de partidos eurocomunistas, por exemplo), a poesia e mito do fascismo não torna os grupos e movimentos que as usam objetivamente fascistas no sentido burguês reacionário do termo.

Também é importante relembrar: o movimento comunista não apenas no século XX, mas mesmo na época de Marx, também escreveu seus versos sobre o passado, sua própria poesia sobre a Revolução Francesa, Grachus Babeuf, August Blanqui, a Liga do Justo, a Conspiração dos Iguais, as Comunas, e daí em diante. Conforme eventos avançaram no tempo, este versos se tornaram cada vez mais distantes de nós. Os comunistas agora se referem ao passado e traçam sua origem "moderna" a uma época quase dois séculos atrás. Pode um movimento comunista não ter uma história? É possível que ele não lembre e mitifique a si próprio? Seriam as bandeiras vermelhas e negras hoje alusões ao grande ano de 1917 similares à conjuração dos "espíritos do passado a seu serviço, tomando emprestados nomes, slogans de batalha, e trajes de modo a apresentar esta nova cena na história mundial em um disfarce honrado pelo tempo e com linguagem emprestada?" Nós acreditamos que sim.

Olhar abertamente para estas questões estará entre as tarefas desta série. Nós convidamos nossos leitores a se unirem a nós conforme exploramos estas questões relevantes. Isso envolverá uma dissecação da complexa relação entre estrutura e superestrutura, que é uma que foi também abordada por modernistas de meados do século (os chamados pós-modernistas) e muito mais.

Isso demandará um olhar para a cultura, a evolução da cultura e subcultura jovem, e para movimentos sócio-políticos sincréticos e antiliberais de hoje. Estes traçam suas origens primariamente à segunda metade do século XX.

Algumas dessas coisas demandarão que olhemos para as concepções superestruturais de poesia; a poesia do passado vs. a poesia do futuro. É claro, poesia sobre o passado não é do passado, mas do presente - ela só é sobre o passado. Similarmente, a poesia do futuro não é do futuro, mas do presente. E, em ambos os casos, elas remetem ao presente - está para nós no presente, e no presente tudo pode ser feito. Neste sentido, estas - a poesia do passado e a do futuro - são ambas narrativas contemporâneas.

Se cumprimos nossa missão, levantaremos mais perguntas do que seremos capazes de responder, e esperançosamente provocaremos uma razão ainda melhor para desenvolver esta série ainda mais. Este é um tema vasto demais para qualquer quadro singular, e um que só podemos esperar rascunhar com alguns detalhes para o leitor.

**********

[1] Sexo e sexualidade, que de início nos parecem algo tão pessoal, são como linguagens na medida em que formam o tecido conectivo entre o indivíduo e o coletivo. Não nos deve surpreender, então, que o liberalismo foque hoje tanto de seu trabalho ideológico e intelectual na área de sexualidade e gênero. O liberalismo é atomizador, e induz um tipo de esquizofrenia social ao promover uma ideia social pudica de que nós somos todos consumidores privados e individuais. Ele é até mesmo pudico em sua comercialização exagerada da sexualidade. Ele produz um indivíduo "padrão", subsexualizado através da supersexualização, solitário em um mar de "pessoas demais"; desvalorizado e apto para consumo e produção dentro do ciclo capitalista; cercado por abundância e ao mesmo tempo alienado do produto de seu trabalho. O liberalismo é a ideologia do capitalismo na medida em que promove tudo isso.

[2] https://www.marxists.org/archive/marx/works/1852/18th-brumaire/ch01.htm#2

[3] ibid

[4] ibid

[5] ibid

[6] ibid


15/09/2015

Alain de Benoist - Georges Sorel

por Alain de Benoist



Ainda que a violência esteja sempre na ordem do dia, o quinquagésimo aniversário da morte de Georges Sorel teria passado desapercebido se as Éditions Marcel Rivière não tivessem tido a ideia de republicar Réflexions sur la violence [Reflexões sobre a Violência] (Paris: Éditions Marcel Rivière, 1973).

"«Sorel, enigma do séc. XX é uma transplanção de Proudhon, enigma do séc. XIX», escrevia Daniel Halévy no seu prefácio do livro de Pierre Andreu, Notre Maitre, M. Sorel (Grasset, 1953). Enigma, de fato: um ideólogo constituído como gigante, orelhas coladas sobre as têmperas, nariz forte, olho s claros, a barba branca. Enigma: este socialista obstinado, indisposto perante a Revolução Russa, simpatizante da "Action Française", admirador de Renan, Hegel, Bergson, Maurras, Marx e Mussolini.

George Sorel nasceu em Cherbourg a 2 de Novembro de 1847. É duplamente normando: pela Mancha e por Calvados. O seu primo germano, Albert Sorel, far-se-á historiador do Império e da Revolução.

Graduado da École polytechnique, engenheiro de pontes e de estradas, Sorel só se consagra aos problemas sociais a partir de 1892. Seus livros, que raramente são lidos atualmente, não obstante mantiveram seu valor - notavelmente Les illusions du progrès [As Ilusões do Progresso], Réflexions sur la violence [Reflexões sobre a Violência], De l'Église et de l'État [Sobre Igreja e Estado], De l'utilité du pragmatisme [A Utilidade do Pragmatismo], La décomposition du marxisme [A Decomposição do Marxismo], D'Aristote à Marx [De Aristóteles a Marx], La ruine du monde antique [A Ruína do Mundo Antigo], Le procès de Socrate [O Julgamento de Sócrates], etc.

Publicado pela primeira vez em 1908, Réflexions sur la Violence reapareceu em 1973 na coleção «Études sur le Devenir Social», cujo diretor é Julien Freund, professor na Universidade de Strasbourg.

O livro apareceu de improviso como a obra base do sindicalismo revolucionário.

Hostil ao socialismo parlamentar e a Jean Jaurès, que acusa de se ter alimentado de ideologia burguesa, George Sorel opõe-lhe aquilo a que chama a «Nouvelle École». Ele via na greve a forma essencial de reivindicação social. É por meio da greve geral que a sociedade será dividida em facções inimigas e o Estado burguês destruído. A greve é a «manifestação mais brilhante da força individualista nas massas sublevadas».

A greve implica a violência. Ao contrário dos socialistas do seu tempo (excepção feita a Proudhon), Sorel não opõe o trabalho à violência. Recusa-se a glosar o «desejo de paz dos trabalhadores». A violência é para ele um ato de guerra: «Um ato de pura luta, semelhante à de um exército em campanha», escreve ele.

«Esta assimilação entre a greve e a guerra é decisiva», indica Claude Polin no prefácio da nova edição de Réflexions«pois tudo que a guerra toca se produz sem ódio e espírito de vingança: na guerra não se matam os vencidos; não se sujeita não-combatentes às consequências dos dissabores que os exércitos podem ter experimentado no campo de batalha.» O que explica a razão porque Sorel reprova a «violência-vingança» dos revolucionários de 1793: «Não se deve confundir a violência com as brutalidades sanguinárias que não levam a nada».

No Início era a Ação

Retomando a distinção, já hoje clássica, entre guerra «justa» e guerra «injusta», opõe a violência burguesa à violência proletária. Esta última possui, a seus olhos, uma dupla virtude. Não só deve assegurar a revolução futura mas é ainda o único meio de que dispõem as nações europeias, «estupidificadas pelo humanitarismo», para reencontrar a sua antiga energia.

A luta de classes é portanto um afrontamento de vontades firmes, mas não cegas. A violência torna-se na manifestação de uma vontade. Ao mesmo tempo, exerce uma espécie de função moral: produz um estado mental «épico»

«A violência», declara Sorel ao seu amigo Jean Variot, «é uma doutrina intelectual: a vontade de cérebros poderosos que sabem o que querem. A verdadeira violência é o que é necessário para se ir até ao fim das ideias» (Propos de George Sorel, Gallimard, 1935).

Sorel teria aprovado estas palavras de Goethe: «No começo era a ação». Para ele, o homem que age, o que quer que ele faça, é sempre superior ao homem que se submete: «A verdadeira violência demonstra, no primeiro plano, o orgulho do homem livre».

Para que o mundo atual readquira a sua energia é preciso um «mito», isto é, um tema que não seja nem verdadeiro nem falso, mas que aja poderosamente nos espíritos, mobilize e incite à ação.

George Sorel via na Prússia do último século a herdeira da antiga Roma.

Para cantar as «virtudes prussianas», encontra um tom que não deixa de evocar Moeller Van der Bruck (Der preussische Stil). «Sorel, o artesão, tem o culto do trabalho bem feito», nota Claude Polin, «e o trabalho bem feito deve constituir um fim em si, independentemente dos benefícios que dele se retiram. Este desinteresse é próprio da violência: no fundo do pensamento de Sorel há a intuição de que todo o trabalho é uma luta, em especial o trabalho bem feito e até, de que o trabalho só é bem feito quando é uma luta. Esta ideia retoma a intuição do carácter essencialmente prometeico do trabalho. Todo o verdadeiro trabalho é uma transformação das coisas que comporta a necessidade de se transformar a si próprio e aos outros consigo».

Pouco a pouco, Sorel acaba por denunciar a democracia (verdadeira ditadura da incapacidade) conjugando os acentos de um Maurras, um Bakunin e um Secrétan. 

A ditadura do proletariado surge-lhe mais ou menos como um engodo: «É preciso ser-se ingénuo para supor que todas as pessoas que retiram proveito da ditadura demagógica abandonariam facilmente as suas vantagens». De passagem, recusa o papel de vanguarda que o bolchevismo intelectual pretende para si: «Todo o futuro do socialismo reside no desenvolvimento autônomo dos sindicatos operários» (Matériaux pour une Théorie du Prolétariat). «Marx nem sempre foi bem inspirado», prossegue ele. «Nos seus escritos, acontece-lhe introduzir quantidades de velharias provenientes dos utopistas.»

Esta concepção da ação está em completa oposição com as teorias «vanguardistas» (o trotskismo, por exemplo). Mas encontramo-la nas propostas do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo.

Finalmente, se Sorel defende o proletariado com um tal encarniçamento, não é por sentimentalismo, como Zola, nem pelo gosto pequeno-burguês da culpabilidade, nem mesmo porque o aflige uma «consciência de classe». É por que está convencido que, no seio da sociedade burguesa, só no povo se poderá encontrar a energia que as classes dirigentes perderam. Consciente das «ilusões do progresso», constata que as sociedades, como os homens, são mortais. A esta fatalidade, opõe uma vontade de viver de que a violência é uma das manifestações.

Hoje em dia, Sorel denunciaria tanto a sociedade mercantil como os mestres pensadores da contestação. «Marcuse representaria a seus olhos», escreve Polin, «o exemplo típico do homem degenerado pela crença beatífica do progresso, iludido por um progresso de que nada compreendeu e tudo esperava, incapaz de pôr a sua esperança para além de um progresso exacerbado, radicalizado, nesse sonho de uma abundância, de tal modo automática, que traria em primeiro lugar a felicidade tornando possível a saciedade desordenada das paixões mais loucas, numa palavra, incapaz de compreender que a fonte do mal está no homem, desvirilizado pela fé econômica».

O nome da velha Antioquia

A partir de 1907 George Sorel faz-se artesão de uma aproximação entra anti-democratas de esquerda e de direita. O órgão desta aproximação é a Reuve Critique des Idées et des Livres, onde o nacionalista George Valois publica os resultados do seu inquérito sobre a monarquia e a classe trabalhadora.

Em 1910 surge a revista La Cité Française. Depois, de 1911 a 1913, L'Indépendence. Aí se encontram as assinaturas de George Sorel, Jean Variot, Edouard Berth, Daniel Halévy, mas também dos irmãos Tharaud, de René Benjamin, Maurice Barrès e de Paul Bourget.

Em 1913, o jornalista Edouard Berth, autor de Méfaits des Intellectuels, saúda, em Maurras e em Sorel, «os mestres da regeneração francesa e europeia». Mas, em Setembro de 1914, Sorel escreve-lhe: «Entramos numa era que bem poderia ser caracterizada pelo nome de Velha Antioquia. Renan descreveu muito bem esta metrópole de cortesãos, charlatães e mercadores. Em breve teremos o prazer de ver Maurras condenado pelo Vaticano, o que será a justa punição das suas afrontas. Aliás a que poderia realmente corresponder um partido realista numa França unicamente ocupada em desfrutar a vida fácil de Antioquia?».

«A Maurras», explica o sociólogo Gaëtham Pirou, «Sorel reprovava o ser demasiado democrático, censura que, à primeira vista, pode parecer paradoxal. Na realidade o que Sorel queria dizer é que Maurras, positivista e intelectualista, não tinha repudiado a democracia senão sob o seu aspecto político e não no seu fundamento filosófico» (George, Sorel, Marcel Rivière, 1927).

Nacional-Revolucionários

Sorel terá influenciado Barrès e Péguy tanto como Lenine. Este último, no Matérialisme et Empiriocriticisme, denunciá-lo-á, no entanto, como um «espírito trapalhão»

.«Depois da França», observou Alexandre Croix na Révolution Prolétarienne, «a Itália terá sido a 'terra prometida do sorelismo'». Sorel exerceu ali, aliás, uma grande influência na escola sindicalista dirigida pelo futuro ministro italiano do Trabalho (1920-1921), Arturo Labriola. Este, desde 1903, traduzia L'Avenir Socialiste des Syndicats no Avanguardia de Milão. Um dos seus lugares-tenentes, Enrico Leone, foi quem prefaciou a primeira aparição de Réflexions que surgiu em Itália sob o título Lo Sciopero Generale e la Violenza («A Greve Geral e a Violência»).

A seguir, Sorel teve igualmente influência sobre Vilfredo Pareto, Benedetto Croce, Giovanni Gentile e (através de Hubert Lagardelle), sobre Benito Mussolini.

Na Alemanha, o sorelismo encontra uma espécie de prolongamento nas correntes nacional-revolucionárias e nacional-comunistas que se manifestaram nos meados dos anos vinte durante a Weimar. (Cf. Michel Freund, George Sorel: Der Revolutionäre Konservatismus, Vittorio Klostermann, Frankfurt/M., 1932 e 1972.)

Logo que Sorel morreu, em 1922, o monárquico George Valois, em L'Action Française, e o socialista Robert Louzon, em La Vie Ouvrière, renderam-lhe uma homenagem plena da mesma admiração. Algumas semanas mais tarde Mussolini, ao fazer a sua entrada em Roma, declarava a um jornalista espanhol: «É a Sorel que devo quase tudo».

O governo soviético e o Estado fascista propuseram, no mesmo dia, assumir o encargo do seu túmulo.

28/08/2015

Leonid Savin - Os Cinco Grandes, Segurança Eurasiática e Outros Projetos

por Leonid Savin



Nos idos de 2001, um importante analista da companhia bancária americana Goldman Sachs Group Inc., Jim O'Neill, usou o acrônimo BRIC para descrever as economias em desenvolvimento. Ainda que ele a tenha utilizado no contexto de um paradigma neoliberal global, a Rússia "cooptou" o termo, propondo ao Brasil, à Índia e à China construir uma cooperação multilateral. Em relativamente pouco tempo, muito foi feito para desenvolver mecanismos de interação. Posteriormente, a África do Sul se uniu aos quatro países (e o acrônimo BRICS nasceu).

Agora, os cinco países, que ocupam 26% da área territorial do planeta, representam 42% da população mundial e geram 27% do PIB mundial, são considerados como o novo ator coletivo do mundo multipolar, baseado no princípio da descentralização e na habilidade de responder aos desafios do século XXI. Como o vice-Ministro de Relações Exteriores russo Sergei Ryabkov, na sua coletiva de imprensa durante a Cúpula dos BRICS e da SCO em Ufa em 9 de julho de 2015, disse, "a prática dos BRICS não tem precedentes na política internacional", e o grupo de Estados tornou-se "um fator importante nas relações internacionais". Os BRICS estão se tornando gradativamente os novos "Oito Grandes", mas apenas na base da igualdade, da transparência e do consenso entre todos os membros.

A última cúpula em Ufa mostrou que o tom informal no qual a cooperação estava baseada não impediu a criação de uma associação internacional completa, mais democrática do que outras alianças do último século. Em Ufa, um plano para ações futuras foi aprovado - um tipo de sumário da matriz operacional dos BRICS para o futuro próximo. Ele inclui uma declaração de finalidades, a estratégia da parceria econômica e anuncia a abertura de um departamento virtual - o site oficial dos BRICS, que publicará documentos oficiais e materiais relevantes. O Banco dos BRICS foi inaugurado e uma reserva de ativos estrangeiros foi formada. Seu capital combinado é de 200 bilhões de dólares. Os primeiros projetos financiados ocorrerão na primavera de 2016, não limitados aos cinco países, mas possuindo caráter global. Essencialmente, é uma alternativa financeira ao FMI dos Rothschilds, fazendo investimentos em setores necessitados da economia real dos países, e não conduzindo transações especulativas ou fornecendo empréstimos onerosos, como o fazem bancos estrangeiros, mercados de capitais e fundos.

Também, entre os países dos BRICS a cooperação será reforçada em questões financeiras e econômicas. Particularmente, o diretor de Questões Europeias e Centro-Asiáticas Gui Congyou notou que a Rússia é uma prioridade para investimentos chineses, o que será feito não apenas em infraestrutura, mas na construção de casas baratas e em alta tecnologia também.

O ano da presidência russa dos BRICS tem sido muito dinâmico. Como o Presidente da Rússia Vladimir Putin disse em 9 de julho, "no ano da presidência russa nós conduzimos os primeiros encontros para fóruns civis, parlamentares e da juventude dos BRICS. A criação da Universidade de Rede dos Brics está em processo tanto quanto o estabelecimento do Conselho de Regiões de nossa organização".

Deve ser acrescentado que a cooperação está acontecendo agora não apenas nos campos financeiro e econômico do bloco: encontros ministeriais tem sido realizados para questões de saúde, educação, agricultura, impostos, ciência e tecnologia, seguridade social, comunicações, trabalho e emprego e cultura. A coordenação crescente entre os países afetou virtualmente todas as questões internacionais agudas, de conflitos regionais e ameaça do narcotráfico ao setor espacial e pirataria marítima. Para isso, todas as técnicas que podem tornar relações multilaterais burocráticas foram deliberadamente evitadas. Os líderes de todos os países dos BRICS concordaram com a opinião de que o atual formato antiburocrático deve ser mantido.

Isto indica o lado civil dos BRICS similarmente. A questão, abordada na Cúpula em Ufa, foi também discutida na véspera do fórum em Moscou com a participação de especialistas. Em particular, através do Conselho Empresarial dos BRICS muitos acordos foram feitos, enquanto líderes sindicais davam suas recomendações aos Chefes de Estado dos BRICS. O Presidente da Federação de Sindicatos Independentes da Rússia, Mikhail Shmakov, em uma reunião com Vladimir Putin, também assinalou a necessidade de evitar quaisquer métodos do neoliberalismo, que é o culpado por todas as crises globais atuais. Esta é uma observação importante mostrando que os BRICS estão em consenso a nível de ideologia política, um que guiará os países participantes.

Os BRICS também podem ser considerados como um clube em que os membros seguem o princípio da reciprocidade. o Primeiro-Ministro indiano Narendra Modi durante um encontro em formato maior de líderes dos BRICS indicou a importância de completar uma reforma na ONU e seu Conselho de Segurança. Segundo ele, isso ajudará a responder mais efetivamente a quaisquer chamados. Muito reveladora foi a afirmação do líder indiano sobre sanções - que apenas sanções da ONU tem qualquer poder, enquanto todo o resto é tentativa de alguns países de ditar seus termos, o que é inaceitável. Dilma Rousseff, Presidente do Brasil, também levantou a questão da reforma da ONU e da disponibilidade de participar em vários projetos da harmonização de fluxos migratórios ao controle de mudanças climáticas.

É significativo que outros países estão mostrando um interesse crescente nos BRICS. Por exemplo, no fórum financeiro dos BRICS/SCO, que ocorreu em 8 de junho, o vice-presidente do Banco de Desenvolvimento Industrial da Turquia Çigdem Içel também estava presente; ademais, a participação formal dos Chefes de Estado da SCO na Cúpula dos BRICS como convidados elevou grandemente o status do evento. Porém, excetuando a agenda oficial, os líderes puderam se comunicar em um cenário informal, discutindo um número de questões que são igualmente importantes para construir uma parceria confiável.

O Ocidente se comportou de sua maneira característica de duplicidade e guerra informacional. Por exemplo, a publicação da Bloomberg foi totalmente manipulada, como se a economia agregada dos BRICS quase tivesse alcançado a economia americana. Isto não é verdade, já que segundo o FMI só a China já ultrapassou os EUA em 2014; o Conselho de Relações Exteriores, falando de forma mais realista, apontou que os BRICS reduzirão a influência do Ocidente. Stratfor acrescentou que os BRICS e a SCO evoluíram a um tipo de plataforma para mobilizar resistência contra os EUA. Ostensivamente, analistas americanos não ouviram ou não quiseram ouvir as afirmações repetidas das primeiras pessoas e ministros de que os BRICS não estão dirigidos contra qualquer Estado ou potência, possuindo uma agenda aberta. Similarmente, a SCO foi estabelecida para resolver questões de segurança regional na Eurásia, bem como para participar na produção de energia e na criação de corredores de transporte.

Mas é claro, as duas estruturas responderão adequadamente às tentativas de solapar a soberania ou interferência em questões internas. Na cúpula, os lados chinês e russo afirmaram e reafirmaram a importância de se preservar a justiça histórica e a necessidade de resposta imediata para quaisquer esforços de se justificar fenômenos como o nazismo.

A cúpula da SCO, ocorrendo imediatamente após os eventos dos BRICS no mesmo lugar, também esteve marcada por decisões importantes. Pela primeira vez na existência da organização a recepção de novos membros, Índia e Paquistão, ocorreu. Ademais, houve um acordo para a elevação no status de participação da República da Bielorrússia ao de Estado observador da SCO. Na qualidade de parceiros de diálogo da organização, uniram-se Azerbaijão, Armênia, Camboja e Nepal. Em uma das coletivas de imprensa em Ufa, um jornalista ocidental levantou a questão dos vários problemas entre Índia e Paquistão e como eles poderiam cooperar, se permanecerem as diferenças e o potencial para conflito. O ponto é que a SCO está trabalhando em um paradigma completamente diferente ao do Ocidente, que adere à escola do realismo político, com práticas de elementos como dissuasão, confrontação, conflito de interesses e daí em diante. A SCO está desenvolvendo toda uma nova abordagem de segurança coletiva, ao mesmo tempo que respeita os interesses e soberania de todos os membros da organização. É provável que, com este formato, ela seja até mesmo capaz de ajudar a normalizar as relações entre Armênia e Azerbaijão.

Muito importante é o fato de que a adesão da Índia e do Paquistão à SCO torna esta uma aliança de quatro potências nucleares. O Presidente uzbeque Islam Karimov acrescentou que isto poderia mudar o equilíbrio de forças no mundo. Não menos relevante é a questão da participação futura da República Islâmica do Irã. Enquanto Teerã estiver sob sanções da ONU, isto não é possível. Mas, como dito pelo Ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, o Irã fez importantes progressos com diálogos entre os seis países e podemos esperar que no futuro este problema seja resolvido - a não ser que o Ocidente tente rever a estrutura dos acordos alcançados antes, como já aconteceu em outras situações.

Na cúpula da SCO um programa de cooperação na luta contra o terrorismo e o separatismo nos anos de 2016-2018 foi também aprovado (é digno notar que, nesta época, a direção do Comitê Executivo da SCO estará nas mãos da Rússia) e o desenvolvimento da Convenção da SCO para Combate ao Extremismo foi iniciado, bem como o estabelecimento do Centro de Resposta a Ameaças e Desafios à Segurança dos Estados-membros da SCO com base na Estrutura Regional Antiterrorista (RATS). A organização terrorista "Estado Islâmico" foi reputada como uma séria ameaça e todos os membros da SCO reiteraram sua intenção de combatê-la e outros extremistas internacionais.

O desenvolvimento da estratégia da SCO até 2025 foi aceita e a Declaração de Ufa foi adotada. A estratégia diz que a SCO trabalhará "em favor da construção de um sistema democrático policêntrico de relações internacionais", referindo-se também à fundação de um espaço de segurança indivisível. Também importantes são os princípios e valores designados de Estados e povos, nos quais as características históricas e a identidade de todos os Estados-membros são levados em consideração.

Em seu discurso dedicado aos resultados das duas cúpulas, o Presidente russo Vladimir Putin mostrou que está sendo feito um trabalho para "criar o Banco de Desenvolvimento da SCO e o Fundo de Desenvolvimento da SCO. A ideia de ter instituições com base na Associação Interbancária do Centro Internacional de Financiamento de Projetos da SCO é muito promissora". Ademais, o líder russo pediu um uso mais ativo das possibilidades da SCO inerentes aos BRICS.

Mas tirando o par BRICS-SCO, há muitos projetos regionais que naturalmente se unirão a ambos formatos. Assim, os líderes da Rússia e da China declararão que estão dispostos a trabalhar proximamente na implementação de dois projetos de integração - a União Econômica Eurasiana e o Cinturão Econômico da Estrada da Seda. Ademais, há relações trilaterais, tal como entre Rússia-Mongólia-China. Em paralelo à cúpula dos BRICS, os líderes dos três países concordaram em intensificar os trabalhos em uma série de frentes - da criação de projetos de infraestrutura a atividades culturais e de informação. Como o Chefe de Governo da China Xi Jinping pontuou, "é necessário formar uma comunidade de destino mútuo e promover a multipolaridade".

Os BRICS também coordenarão a defesa de sua posição dentro do Grupo dos Vinte (G20). Ademais, esta plataforma será usada para diferentes projetos dentro dos BRICS e da cúpula do G20 em novembro deste ano, a ser realizada na Turquia, continuando a discutir a preparação do banco e de outras tarefas identificadas na Declaração de Ufa.

Tudo isto automaticamente significa que qualquer tentativa de manipulação externa, mesmo sob pretextos plausíveis (por exemplo, os EUA estão ativamente promovendo o projeto de uma Nova Estrada da Seda), está destinada ao fracasso. E o mundo com a assistência dos BRICS e da SCO será mais seguro e harmonioso.

18/08/2015

Mark Hackard - O Bombardeiro da Paz

por Mark Hackard



Nos últimos meses de 2010, os EUA haviam intensificado sua campanha aérea sobre terras tribais pashtun que se situam ao longo de uma montanhosa e parcamente definida fronteira paqui-afegã. No curso de 102 dias, 58 ataques contra operativos da Al-Qaeda e do Talibã (bem como contra um número alto, porém desconhecido, de inocentes) foram realizados pela Força Aérea e pela frota de veículos aéreos não-tripulados da CIA.

Tanto jihadistas como civis são incinerados por mísseis hellfire sem muita atenção da mídia, e soldados e fuzileiros americanos que caem em combate não tem como esperar coisa muito melhor. Porém, uma morte conectada à guerra no Hindu Kush certamente atraiu atenção em Washington: a de Richard Holbrooke, o Representante Especial do Departamento de Estado para o Afeganistão e o Paquistão.

Holbrooke, responsável pela coordenação diplomática do conflito, morreu de uma aorta rompida em 13 de dezembro. Desde então, a imprensa e a administração Obama derramaram torrentes de elogios sobre esse "gigante da diplomacia americana". Mas talvez o tributo mais adequado ao homem tenha sido o papel cada vez maior de drones assassinos na execução de políticas, como relatado desde o noroeste do Paquistão. Apesar de suas experiências anteriores no Vietnã, Richard Holbrooke passou a crer firmemente em redenção por poder aéreo coercitivo. No bombardeio há progresso; no bombardeio deveremos encontrar a paz.

À luz de seu zelo missionário, as realizações e histórico de Holbrooke merecem exame. Ele foi, como o estudioso dos Bálcãs Srdja Trifkovic notou, um arquiteto central e de certas maneiras a personificação do intervencionismo americano. À parte seu status elevado em Foggy Bottom, Holbrooke representava um nexo de governo, interesses de Wall Street e influência de ONGs. Nessa capacidade, ele foi por décadas um impositor efetivo e enérgico da Pax Americana. Onde projetos geopolíticos americanos cruzavam com pontos de crise na Eurásia, Holbrooke era enviado para explorar a situação. Seus métodos de negociação consistiam principalmente na apresentação de ultimatos e punições correspondentes por desobediência.

A década de 90 seria a década em que Holbrooke ganharia sua fama. Conforme a antiga Iugoslávia se despedaçava em conflitos étnicos e religiosos, os EUA buscavam impôr sua dominação sobre a região. As guerras balcânicas daquela década foram algo brutal e complexo, mas para Holbrooke e a administração Clinton era tudo muito simples: os sérvios precisam ser diminuídos. Aqui, também, estava a perfeita oportunidade para se exercer poder americano em prol do progresso humano. Nos vales montanhosos do sudeste da Europa, os fantasmas da história só poderiam ser exorcizados com uma barulhenta demonstração de força. Como um profeta de Washington, Holbrooke iluminaria o caminho para uma Sociedade Aberta com munições guiadas por laser.

Os papeis nessa peça teatral moralista já estavam distribuídos: muçulmanos bósnios virtuosos e vitimizados, croatas mais ou menos toleráveis, e sérvios malignos, até mesmo selvagens. O fato de que o presidente bósnio Alija Izetbegovic e seu par croata Franjo Tudjman eram gangsters do mesmo molde que o sérvio Slobodan Milosevic não era registrado pelas elites da política externa americana - o roteiro já estava escrito, e tinha que ser seguido. A direção desse cenário por Holbrooke lhe garantiria seguidores no Ocidente, com os Acordos de Dayton de 1995 sendo projeto seu.

A fórmula favorita de Holbrooke de intimidação e bombardeio aéreo foi aplicada repetidamente para forçar Belgrado a se submeter às demandas americanas, primeiro de criar o Estado bósnio e então de separar o Kosovo da Sérvia em 1999. O seguinte pedido a seu colega Strobe Talbott esclarece Holbrooke, amante e libertador da humanidade, em toda sua retidão beligerante:

"Este é um momento crítico para nós pessoalmente, nossa responsabilidade para com a nação e a coisa certa a fazer. Dê-nos bombas para diplomacia. Dê-nos bombas para a paz. Precisamos bombardear para tornar nossa diplomacia efetiva. E não nos segurarmos".

Seria um erro ver tal apelo como meramente outro exemplo do dito de Clausewitz sobre a guerra como instrumento da política, pois ela está enraizada em uma visão muito mais ampla e de longo alcance. O homem criado quaker por pais judeus ateístas desenvolveu uma fé inabalável na violência redentora, a destruição revolucionária necessária para moldar um novo mundo. Nisso ele era uma alma irmã dos radicais oitocentistas e neoconservadores contemporâneos como Paul Wolfowitz. O desejo apaixonado de Holbrooke por bombas foi concedido, a influência americana na Europa justificada, e novos micro-estados muçulmanos estabelecidos nos Bálcãs.

Holbrooke usualmente explicaria suas ambições políticas no contexto de sua história familiar e etnia. Sua mãe havia fugido da Alemanha na década de 30, seu pai de Varsóvia. Um secularista convicto, como muitos outros homens assim Holbrooke ainda assim se orgulhava de sua herança judaica e evidentemente mantinha um forte laço emocional com Israel e o sionismo. E apesar de ele ter nascido em Nova Iorque, em seu coração ele se identificava com o refugiado alienado.

Por insistência da mídia, pressupõe-se que devamos associar o falecido Holbrooke fundamentalmente com compaixão e saudá-lo pro lançar seu nome por trás de inúmeras iniciativas humanitárias. Ainda assim, demonstrações públicas de virtude não retratam plenamente o espírito da carreira de Holbrooke e sua missão maior. Por trás da retórica moralista e de projetos de ajuda dignos de celebridades estava uma clara veia de animosidade em relação à cultura tradicional e os povos da Europa.

O que impulsionava Holbrooke tanto quanto simpatia por certas classes de vítimas era uma profunda hostilidade ao cristianismo, principalmente pela civilização ortodoxa, que tem permanecido significativamente fora da órbita americana. Assim, ele não foi apenas ativo mas entusiástico em garantir que a Sérvia seria pulverizada por uma campanha aérea da OTAN e roubada da província do Kosovo. Hoje o Kosovo é o maior conduíte europeu para a heroína afegã e um centro de tráfico ilegal de órgãos, além de abrigar uma das maiores bases americanas no continente. Holbrooke também nunca cansou de recomendar a entrada da Turquia na UE e era um promotor ativo de proxies jihadistas na Europa ocupada.

Se uma política provavelmente antagonizaria a Rússia, Holbrooke provavelmente a apoiaria. Da expansão da OTAN, a revoluções coloridas e programas de "sociedade civil" a tensões na Ossétia do Sul, ele consistentemente buscava interferir na periferia de Moscou. Sérvios desafiadores e os nacionalistas retrógrados no Kremlin tinham que conhecer seu lugar no Admirável Mundo Novo, e precisavam assim ser punidos e humilhados até que abraçassem sua subjugação. Se a Rússia em algum momento tivesse carecido dos meios de se defender, Holbrooke indubitavelmente teria estado pronto para implementar o modelo Kosovo no Cáucaso.

Todo o estilo e substância da obra de Holbrooke pode ser destilada em uma qualidade: não compaixão, mas agressão. A antiga prática imperial de dividir para conquistar só foi ampliada pelo discurso da ideologia dos "direitos humanos", e clipes de refugiados veiculados pela CNN serviam como desculpa conveniente para lançar mísseis contra infraestrutura civil. Onde estava, então, a lendária compaixão de Holbrooke por sérvios "expurgados" em Krajina e no Kosovo, ou por aqueles sequestrados, executados e explorados como doadores de órgãos no mercado negro? E as vítimas da Operação Força Aliada da OTAN? Elas não merecem a menor lembrança; nem, aliás, cristãos do Levente ao Timor Leste. Holbrooke tinha pouco tempo para se importar com os massacres dos timorenses na década de 70, enquanto ele estava obtendo caças contra-insurgentes para os assassinos indonésios. Isso não é pacificação, mas predação.

O teórico russo da renovação cultural Ivan Ilyn descreveu os bolcheviques que tomaram o poder em sua terra natal como aventureiros internacionalistas. Entre os supostos estadistas de nossa era, Richard Holbrooke exibia a marca do messianismo impiedoso característico de um Lênin ou Trótski. Ele, também, era um aventureiro internacionalista e o herdeiro espiritual de uma geração anterior de homens que promoveram a causa da revolução global. A morte de Holbrooke na aventura afegã é um prenúncio pouco sutil do que vem por aí: tal como o marxismo soviético, a ordem liberal marcha de seu momento de exaltação à aniquilação em meio a um terreno familiar.

Comentaristas tem lamentado o vácuo na política externa americana causado pela saída de um diplomata insubstituível. Em realidade há muito tem havido um nada sobrepujante no globalismo americano; o próprio Holbrooke, a grande máquina de demolição, incorporava este fenômeno melhor do que ninguém. Ele prestou serviços inestimáveis ao Império, tornando o mundo seguro tanto para a MTV como para os mujahedin, para a Ikea e o ELK. O que permanece é uma trilha de morte, as baixas infligidas para aproximar o homem a uma fraternidade de consumo, o composto para um futuro perfeito de liberdade e igualdade.

Richard Holbrooke proferiu estas palavras em uma entrevista em 2010 para descrever o programa político jihadista, mas ele não captou a ironia. Sua frase expõe tão bem quanto a longa guerra por democracia universal:

"É puro niilismo. Eles não representam absolutamente nada além de destruição, e eles destroem as vidas das pessoas deu ma maneira aleatória e insana".


02/08/2015

Arturo Pérez-Reverte - Os Amos do Mundo

por Arturo Pérez-Reverte



Você não sabe, mas depende deles. Você não os conhece, nem cruzará com eles em sua vida, mas esses filhos da puta o tem em suas mãos, na agenda eletrônica, na tela do computador, seu futuro e o de seus filhos. você não sabe que rosto têm, mas são eles que o vão mandar à fila de desempregados em nome de um três-ponto-sete, ou um índice de probabilidade de zero-vírgula-zero-quatro.

Você não tem nada a ver com esses fulanos porque é empregado de uma serralheria ou caixa de loja, e eles estudaram em Harvard e fizeram mestrado em Tóquio, ou ao contrário, vão pelas manhãs à Bolsa de Madri ou à de Wall Street, e dizem em inglês coisas como "long-term capital management", e falam de fundos de alto risco, de acordos multilaterais de investimento e de neoliberalismo econômico selvagem, como quem comenta a partida de domingo.

Você não os conhece nem por foto, mas esses motoristas suicidas que circulam a duzentos por hora em um furgão carregado de dinheiro vão atropelá-lo mais dia menos dia, e nem mesmo lhe restará o consolo de ir de cadeira de rodas para jogar ovos neles, porque eles não tem rosto púbico, apesar de serem reputados analistas, tubarões das finanças, prestigiosos especialistas no dinheiro alheio. Tão especialistas que sempre acabam tornando-o seu. Porque sempre são eles que ganham, quando ganham; e nunca são eles que perdem, quando perdem.

Não criam riqueza, só especulam. Lançam ao mundo combinações fastuosas de economia financeira que nada tem a ver com a economia produtiva. Alçam castelos de cartas e os garantem com espelhos e fumaças, e os poderosos da Terra perdem a cabeça de tanta bajulação só para que possam subir em seu carro.

Isso não pode falhar, dizem. Aqui ninguém vai perder. O risco é mínimo. O garantem prêmios Nobel de Economia, jornalistas financeiros de prestígio, grupos internacionais com siglas de reconhecida solvência.

E então, o presidente do banco transeuropeu tal, e o presidente da união de bancos helvéticos, e o chefinho do banco latinoamericano, e o consórcio eurasiático, e a mãe que pariu a todos, embarcam com alegria na aventura, enfiam dinheiro por um tubo, e logo se sentam para esperar essa bolada que vai fartar ainda mais todos eles e seus representados.

E enquanto sai bem a primeira operação já estão arriscando mais na segunda, que pechincha é pechincha, e juros de trocentos por cento não se encontram todos os dias. E ainda que esse jogo de espelhos especulador nada tenha que ver com a economia real, com a vida de cada dia das pessoas na rua, tudo é euforia, e palmadinhas nas costas, e até entidades bancárias oficiais comprometem suas reservas de divisas. E isto, senhores, é o paraíso.

E logo resulta que não. Logo resulta que o invento tinha suas falhas, e que isso de "alto risco" não era uma frase, mas exatamente isso: alto risco de verdade. E então todo o palanque desaba. E estes fundos especiais, perigosos, que cada vez tem mais peso na economia mundial, mostram seu lado negro. E então, oh prodígio, enquanto os benefícios eram para os tubarões que controlavam a zona e para os que especulavam com dinheiro alheio, parece que as perdas, não.

As perdas, a mordida financeira, o pagamento pelos erros desses playboyzinhos que brincam com a economia internacional como se jogassem Banco Imobiliário, recaem diretamente sobre as costas de todos nós.

Então resulta que enquanto o benefício era privado, os erros são coletivos, e as perdas tem que ser socializadas, acudindo com medidas de emergência e com fundos de salvação para evitar efeitos dominó e todos metem a mão. E essa solidariedade, imprescindível para salvar a estabilidade mundial, é paga com sua pele, sua poupança, e às vezes com seu posto de trabalho, pelo Mariano Pérez Sánchez, empregado de comércio, e pelos milhões de infelizes Marianos que ao longo e largo do mundo se levantam todo dia às seis da manhã para ganhar a vida.

Isso é o que vem por aí, temo. Ninguém perdoará um centavo da dívida externa de países pobres, mas nunca faltarão fundos para tapar buracos de especuladores e canalhas que jogam roleta russa com a cabeça alheia.

Assim podemos já ir nos preparando para o que vem por aí. Este é o panorama que os amos da economia mundial nos apresenta, com a conversa de tanto neoliberalismo econômico e tanta merda, de tanta especulação e tão pouca vergonha.