13/02/2012

As Runas: símbolos sagrados da América do Sul


Por Rafael Videla Eissmann

A Runa Odal e símbolos runóides na cerâmica de Cuzco, Peru

Determinados símbolos se encontram presentes nas culturas aborígenes do continente americano. Estes símbolos foram traçados nos mais diversos campos (por exemplo, sobre pedras, tecidos e cerâmicas) e correspondem a um sistema ideográfico similar ao das runas da Europa e Ásia, possuíndo no geral os mesmos atributos e significados esotéricos e mágico-religiosos. A respeito, o professor Vicente Pistilli escreveu: As runas portadoras de segredos, tem diversos valores culturais. Como signos que representam o som da fala, conformam um sistema fonético de 16 a 33 sons, capazes de expressar palavras em diversos idiomas. Por sua vez, cada signo tem um significado simbólico muito considerado na cultura nórdica.
A runa sieg na cerâmica inca de Cuzco

No contexto sul-americano, estes sinais correspondem aos símbolos sagrados de culturas como a dos mapuches (araucanos), tiahuanacotas, chachapoyas, tupis e incas, herdeiros das tradições do grupo pré-diluvial americano: os indios brancos, população que como resultado da última Grande Catástrofe planetária ou Dilúvio -acontecido ao redor de 13000 anos atrás- se viu forçada a empreender extensas migrações para distintos pontos do planeta. São os movimentos migratórios identificados por Herman Wirth, Edmund Kiss e Roberto Rengifo.

Variações da runa odal em tecidos mapuches.

Neste sentido, o próprio Rengifo manifestou no estudo de 1921, El Secreto de la América Aborigen, queparece ter sido uma mesma raça a que escrevia nos Andes e nos Pirineus.

Estas remotas migrações explicariam a chegada dos vikings e outros grupos nórdicos à América, séculos antes de Cristovão Colombo e a empresa peninsular do "Descobrimento" e "Conquista" que se forjou a partir de 1492. Sobre este assunto fundamental, o professor Jaques de Mahieu escreveu dois estudos: La geografía secreta de América antes de Colón (1978) y Colón llegó después. Los templarios en América (1988).

No Hávamál, nas Palavras do Altíssimo da Edda de Sæmund, se descreve a obtenção das runas por Odin:

Sé que pendí nueve noches enteras
en el Árbol que mece el viento (Yggdrasil);
herido por una lanza y a Odín ofrecido
-yo ofrecido a mí mismo-,
colgué del Árbol del que nadie sabe
de dónde comienzan sus raíces.

Ni pan ni copa alguna recibí;
fijo en lo hondo observé;
las runas tracé, las obtuve entre gritos;
caí a la tierra de nuevo.

Nueve conjuros del hijo de Boltorn,
del padre de Bestla, aprendí,
y también he bebido el excelso Hidromiel,
el que estaba en Odrorir.

Todo saber yo entonces alcancé,
de poder me llené y de gran gozo:
de palabra a palabra la palabra me fue,
de acción en acción la acción me llevó.
Averigua las runas y aprende los signos,
las runas de mucha fuerza,
las runas de mucho poder,
que el Tulr supremo (Odín) trazó
y los altos poderes hicieron
y el Señor de los Dioses (Odín) grabó.

A los Ases Odín, a los Elfos Dain,
a los Enanos grabóselas Dvalin,
a los Gigantes Asvid;
yo mismo algunas grabé.

¿Las sabes tú grabar? ¿Las sabes tú entender?
¿Las sabes tú teñir? ¿Las sabes tú probar?
¿Las sabes tú pedir? ¿Las sabes tú ofrendar?
¿Las sabes tú ofrecer? ¿Las sabes tú inmolar?

Mejor no pedir que por todo ofrendar;
su pago la ofrenda busca;
mejor no ofrecer que siempre inmolando.
Así grabó Tund (el tronante, Odín) antes que gentes hubiese;
allá revivió cuando vino de nuevo.

Os símbolos rúnicos encontrados na América pertencem, desta forma, a expressões tanto dos aborígenes do continente -os primitivos índios brancos- como dos vestígios dos grupos nódico-vikings que chegaram posteriormente em várias ondas a partir do Séc. X da era cristã.

Os símbolos americanos que aqui se expõe correspondem aos sinais rúnicos odal, sieg, man e ao símbolo do Sol em movimento ou cruz de fogo. 

O conhecimento das origens e manifestações destes símbolos, certamente significará reescrever a história do mundo pré-colombiano, de seus habitantes e cultura. Ou seja, escrever a história proibida do continente americano.*

Rafael Videla Eissmann
1° de Noviembre de 2011.


O kultrun do Chile e a cruz do Cerro Tuja'Og, Paraguai. Correspondem ao símbolo da tetrapartição do mundo.


Símbolos runóides dos araucanos do sul do Chile a runa odal en un textil mapuche.

Inscrições runóides em Cerro Tupa, Paraguai.

* Este assunto se encontra amplamente desenvolvido no livro Símbolos rúnicos en América. El regreso a la tierra ancestral, de Rafael Videla Eissmann. Prólogo do Profesor Vicente Pistilli. Quito, Outubro de 2011.


12/02/2012

A Causa do Povo

por Robert de Herte

Como sensibilizar um povo tão desencantado e anestesiado como o nosso, se não fazendo ficar alerta ante perigos imaginários? Assim escreveu Tocqueville em sua obra "O Antigo Regime e a Revolução". Hoje, esses perigos imaginários são de que a classe política midiática tira de sua cartola para desviar a atenção dos perigos reais e fazer o povo esquecer sua própria impotência. As denúncias de "populismo", a "ameaça populista", a "deriva populista", a "tentação populista" – se realiza fora de toda evidência constatavel. Desde o início dos anos oitenta, este termo, que anteriormente pouco utilizado, fez uma aparição estrondosa no discurso público. Atualmente funciona como uma desqualificação política ao assimilá-los, contraditoriamente, a um nível de categoria de análise.

Certamente que hoje o populismo é, acima de tudo, um estilo ou tendência. Como tal, pode ser combinado com quase qualquer ideologia: o populismo nacional-populismo, ultra-liberal, populismo de esquerda, o trabalho pró-populista, etc. O populismo pode ser democrático ou solidarista reacionária e xenófoba. É um termo “camaleônico”, absolutamente maleável à conveniência, de modo que o discurso da mídia ou o pseudo-intelectual pode satanizá-lo sem qualquer conteúdo verificável, e pode ser aplicado a qualquer situação. Daí a sua "hiper-utilização polêmica" (Pierre-André Taguieff), que em última análise, impede sua decodificação em tipologias e definições.

Como estilo, o populismo é principalmente aplicado em casos do tipo "catch all", que multiplicam as promessas de uma perspectiva essencialmente demagógica. Seus líderes, tribunos de mandíbulas apertadas com sorriso telegênico*, exploram as angústias e ressentimentos, capitalizam os medos, as misérias e as angústias sociais, muitas vezes, desiganando com frequência bodes expiatórios, mas sem jamais colocar em questão a lógica do capital. Sua posição mais corrente consiste em apelar ao povo contra o sistema vigente. Esta "chamada ao povo" é claramente enganosa, talvez porque a noção de "povo" pode ser entendida sob muitos pontos de vista. Este populismo tem também o seu componente "ingênuo", quando limita-se a elogiar as "habilidades inatas" do povo, certamente "espontâneos" de seus juízos, o que torna inútil qualquer mediação. Poderíamos dizer que os populistas não fazem política com relutância. Sempre correm o risco de cair, ou em uma atitude puramente apolítica, ou em em uma prática vociferante de dizer idiotices nos discursos.

Ainda assim, por mais criticável que seja, este populismo tem o valor de um sintoma. Reação dos “de baixo” contra os "de cima", daqueles que confundem cargos de poder com o desfrute de privilégios, representa ante toda a rejeição de uma democracia representativa que já não representa a mais ninguém. Protesta contra as ruínas apodrecidas das grandes instituições suportadas pelo país 'real', revelando um sistema político disfuncional que já não mais atende às expectativas dos cidadãos e que se mostra incapaz de garantir a permanência do vínculo social, testemunha uma rarefação do clima político, um afastamento cada vez maior da "classe política". Ela revela uma crise da democracia, recentemente analisada por Gerard Mendel como "uma tendência de fundo onde sucessivamente se dessacraliza a autoridade, se perde a fé nas ideologias globalistas na convergência “de gestão" dos grandes partidos, e se instala o sentimento difuso de que as forças econômicas são as verdadeiramente poderosas”. Tal fórmula populista surgiu desde que os cidadãos se afastam das urnas pela simples razão de que já não esperam nada de seus resultados.

Nestas condições, a denúncia de "populismo" esconde muitas vezes uma tendência para desarticular o protesto social, tanto por parte de uma direita preocupada com seus próprios interesses, como de uma esquerda já massivamente conservadora e afastada do povo. Isto permite que uma nova classe ociosa e corrompida, cuja principal preocupação é a "deslegitimação de todos aqueles para quem o povo é uma causa a defender o benefício daqueles para quem o povo é um problema a ser resolvido" (Annie Collovald), ver o povo com desprezo. Que o "apelo ao povo" pode por si só ser denunciada como uma patologia política, e mesmo uma ameaça para a democracia, é em si mesmo revelador. Esquecer que na democracia, o povo é o único depositário da soberania. E ainda mais quando esta se encontra confiscada.

Reduzido a mera postura, o populismo se converte em sinônimo de demagogia, ou melhor mistificação. Mas o populismo pode existir sob uma forma política integral, ou seja como um sistema de idéias organizado. Tem até mesmo seus grandes precursores: Ludditas e cartismo inglês, agraristas americanos e populistas russos (narodnitchestvo), sindicalistas revolucionários e representantes do socialismo francês de tipo associativo adesão associativa, sem esquecer de seus grandes teóricos, de Henry George a Bakunin, de Nicolas Tchernychevski a Pierre Leroux, Benoit Malon, Sorel e Proudhon.

Como política, o populismo se manifesta através de um compromisso com as comunidades locais ao invés da "Grande Sociedade". Não é amigo nem do Estado nem o mercado, chegando a rejeitar tanto o individualismo liberal quanto o estatismo. Tem como objetivo a liberdade e a igualdade, mas é inerentemente anti-capitalista, pois observa claramente que a primazia de “todo mercado” liquida com todas as formas de vida em comum às quais está ligado. Aspira a uma política coerente com as aspirações populares, com base na moral popular que possui grande desconfiança para com a "classe política", e pretende criar novos espaços de expressão coletiva, com base em uma política de proximidade. Postula a participação dos cidadãos na vida pública como algo mais importante do que as "regras institucionais" do jogo de poder. Em resumo, da um papel fundamental no conceito de subsidiariedade. É por isso que é explicitamente contra as elites políticas e midiáticas, diretivas e burocráticas.

Na medida em que é anti-elitista, o verdadeiro populismo é, portanto, incompatível com os sistemas autoritários a que temos tendência a assimilar. É também incompatível com os belos discursos dos auto-proclamados líderes que dizem falar em nome do povo, mas têm o cuidado de não lhe dar a palavra. Sempre que seu impulso venha de cima, ou por obra de um tribuno demagógico que se aproveita dos protestos sociais ou do descontentamento popular sem deixar o povo expressar-se, saímos do populismo propriamente dito.

Posto na sua própria perspectiva, o populismo tem mais futuro do que a política institucional, que precisamente tem cada vez menos futuro. Atualmente, é o único capaz de sintetizar o eixo justiça social-segurança que tende a suplantar o eixo esquerda-direita dos conflitos sociais clássicos. É desta forma que oferece uma alternativa à hegemonia neoliberal, nada mais que baseada na política representativa. Ao propor a revalorização da política local graças a uma concepção responsável da democracia participativa, pode desempenhar um papel libertador. Desta maneira se reencontra com seu papel de origem: servir à causa do povo.

11/02/2012

Unus Deus, Unus Julianus

por Claudio Mutti



"Resulta difícil dizer até que ponto foi para ele natural elevar-se e viver nas regiões divinas: acaso não nos havia feito notar, Basílio, como somente com esforço elas descem, enquanto que para os homens comuns e inclusive para os filósofos mais destacados o esforço consiste em separar-se do baixo para poder elevar-se? Os belos sentimentos de amor e de amizade que conhecemos nele, vem em verdade de uma das ascensões de sua alma; e foram levadas sobre sua carruagem em uma de suas viagens através das esferas celestes e das infinitudes supremas. Se algum pensamento teve asas, certamente foi o seu". - Alfred de Vigny, Dafne

 Compelido a esboçar um "retrato" do Imperador Juliano, o teólogo Sérgio Quinzio fez uso de uma incomum e provocadora analogia: comparou, de fato, o "Apóstata" com João Paulo II, especificando no atuar de ambos a tentativa desesperada de manter com vida uma religião condenada a desaparecer. "Se Juliano tivesse me perguntado acerca da possibilidade da restauração da civilização pagã - escrevia o teólogo - eu teria dado a mesma resposta negativa que daria hoje se o Papa me interpelasse sobre a possibilidade da restauração da civilização cristã". Mais ainda: "precisamente, o impulso restaurador empreendido pelo jovem imperador contribuiu então a derrubar definitivamente o paganismo. E o fato me parece que se repete pontualmente, por aquilo de que a história volta a se repetir regularmente".

Um paralelismo igualmente original foi apresentado por Jacques Fontaine, professor de língua e literatura latina tardia da Sorbonne,, durante uma conversa com um jornalista que lhe pedia uma comparação entre Juliano e outros protagonistas da hitória "com projetos bastante similares" (sic!) como Hitler ou Stálin. "Eu - respondeu Fontaine - o colocaria junto, se assim me pedes, a Khomeini. Pelo fanatismo, pelo sentir-se imbuído de uma missão divina, pelo fato de considerar-se um deus. E logo pela cultura. Pela violência, pelo sectarismo. De Juliano possuímos descrições físicas muito precisas. Uma, de Ammiano de Antioquia (barba pontiaguda, olhos magnéticos, figura hierática) o faz verdadeiramente muito semelhante, inclusive nos traços, ao aiatolá iraniano".

Assim, a galeria de personagens históricos aos quais Juliano foi comparado se enriquece. Ignoramos o que Stalin teria pensado disso. De sua parte, Hitler provavelmente teria agradecido a comparação, já que não poucas vezes manifestou sua admiração pessoal pelo grande "Apóstata".

Quanto a Khomeini, deixando de lado a improcedente frivolidade de ele "considerar-se um deus", um discurso um pouco menos convencional teria sabido tomar em conta o caráter teocrático comum do projeto do Augusto como do Imã, pelo que uma resenha sobre a função restauradora do monoteísmo islâmico teria podido renovar, se fosse necessário fazê-lo já, a tentativa juliana de instaurar o que já foi denominado de "monoteísmo de Estado". Nem semelhante argumentação teria sido cientificamente abusiva, já que o aprentesco ideal entre a teologia solar antiga e o Islã já foi autorizadamente assinalada por um estudioso do calibre de Franz Altheim, para o qual "os neoplatônicos foram a vanguarda de Maomé e de seu ódio apaixonado contra toda fé que associe a Deus um 'companheiro'", enquanto um célebre estudo de Henry Corbin sobre a doutrina da unidade divina no Islã xiita se abre com uma invocação da literatura surgida nos anos vinte do século XX ao redor do 'drama religioso do Imperador Juliano'".

E não obstante, foi precisamente o próprio Jacques Fontaine o que sugeriu, em correspondência com a religião que Juliano oficiou como Pontifex Maximus, o conceito de "monoteísmo solar", ao qual tem sido feitas referências frequentes todos aqueles que investigram as manifestações religiosas da época imperial.



De fato, segundo o estudioso francês a forma que a tradição grecorromana assumiu na época de Juliano é "uma síntese de todas as religiões e de todas as teologias pagãs, sob o signo do monoteísmo solar", ou, se for preferido o sinônimo utilizado por outros estudiosos, de um "henoteísmo solar" definível com os seguintes termos: "Juliano quer demonstrar a todos que o deus Hélios é o único, verdadeiro deus e que as numerosas divindades romanas não são mais que hipóstases, quer dizer, aspectos particulares, manifestações concretas e fragmentárias da única, suprema divindade solar".

Monoteísta ou henoteísta, a doutrina defendida por Juliano fica resumida em várias inscrições contemporâneas que proclamam a unicidade de Deus, assim como a unidade e unicidade do poder imperial; epígrafes que segundo Spengler somente podem traduzir-se assim: "Há um só Deus e Juliano é seu Profeta". A reiteração neste ponto, que "tem uma importância central na concepção política de Juliano", levou Athanassiado-Fowden a falar inclusive de "uma obsessão pela unidade" e realçar o fato de que "Juliano não teria se quer concebido a possibilidade de compartilhar o poder com um associado, e ser assim considerado como o único vigário de Deus na terra". Tal concepção política encontra sua fórmula mais arcaica em Homero, que põe na boca de Odisseu: "Não é bom uma multidão de chefes, que somente haja um chefe"; Sêneca expõe o mesmo princípio para o Império Romano, dizendo que "foi a natureza que criou o Rei"; e Filón de Alexandria acrescente um corolária que estabelece uma comparação entre politeísmo e democracia: "Deus é somente um, e isso é um argumento contra os defensores da opinião politeísta, que não se envergonham em levar da terra ao céu a democracia que é a pior entre as más instituições".

Quanto ao "monoteísmo solar", Juliano não inventou nada, senão que se limitou a aperfeiçoar um processo de esclarecimento teológico que estava em marcha desde muito tempo e que Franz Altheim resume nos seguintes termos: "A história do antigo deus do sol, considerada em grandes traços, é a de um gradual refinamento. O culto, de origem beduína, se estabelece em uma cidade da Síria. Por sua peculiaridade e por seu caráter absoluto desata os comentários do mundo ocidental, provocando o rechaço mais inflamado. Porém sua expressão literária, a filosofia neoplatônica e, não em último lugar, a capacidade assimiladora da religião romana e da concepção romana de estado, conseguiram o milagre: da divindade de Heliogábalo (218-222 d.C.) infectada pelas orgias e pela superstição oriental, nasceu o mais puro dos deuses, destinado a unificar de uma vez por todas a religiosidade antiga". Em 274 d.C., sob Aureliano, o monoteísmo solar se converteu na religião oficial do Império Romano e o Sol Invictus foi reconhecido como a divindade suprema: em Roma se levantou um esplêndido templo dedicado ao Sol, em honra ao qual se instituíram festas periódicas, enquanto que se constituiu um colégio de pontífices do deus Sol, tendo sido cunhadas numerosas moedas com inscrições e símbolos solares. De tal modo o "monoteísmo, ao qual o sincretismo severiano havia orientado o paganismo romano, encontrou no culto solar patrocinado por Aureliano sua versão mais atrevida e eficaz", tanto é assim que no muro da intransigência cristão não se deixou de se constatar algumas fendas. Na época de Constantino adquiriram considerável importância "as imagens monoteistizantes da religião de Hélios: Apolo solar e o Sol Invictus se sobressaríam nos relevos do arco do triunfo e nas moedas da época". Enquanto que as figuras dos deuses desapareciam pouco a pouco das moedas de Constantino, o deus solar se impunha cada vez mais: "Sol Invictus (...) se mantém também por um longo tempo no território dominado por Constantino e em todas as sua fábricas de moeda (...) parece que o imperador em pessoa teve uma profunda devoção pelo deus Sol". Entre a burocracia e o exército, a religião solar desfrutava de máxima circulação: "o Sol Invictus e a Victoria eram os deuses militares do exército de Constantino; de igual prerrogativa gozava a divindade solar nas legiões de Licínio".

Considerada em seu contexto histórico, a formulação juliana da teologia solar se situa em uma fase de maturidade do neoplatonismo, na qual os fundamentos doutrinários desse movimento espiritual se encontram já estabelecidos e consolidados definitivamente. Se o fundador dessa escola, Plotino (204-270), havia reconhecido no Uno o princípio do ser e o centro da possibilidade universal, seu sucessor Porfírio de Tiro (233-305) havia feito do neoplatonismo uma espécie de "religião do Livro"; autor de um ensaio Sobre o Sol, Porfírio havia consagrado ao estudo da teologia solar um tratado do qual se conservam reveladores fragmentos nas Saturnais de Macróbio. "Em sua argumentação Porfírio não faz mais do que aplicar a metafísica platônica - que remete ao Uno qualquer aspecto parcial do Cosmos - às mais importantes divindades do panteão clássico, mostrando como estas não são outra coisa que atribuições particulares do Único, que desde a perspectiva teológica é caracterizado como Sol, enquanto é a essência espiritual sobre o plano cósmico se 'sustenta' no astro diurno (...) enquanto Apolo é magnificência, saúde e luminosidade (...) enquanto Mercúrio logo, 'preside a linguagem' (Saturnais I, XVIII, 70), desse modo toda atividade é reconduzida a uma presença divina 'solar'". Porém foi o herdeiro de Porfírio, o "divino Iâmblico" (250-330), o que mediante sua doutrina "converteu (...) ao último imperador pagão a sua helioatria transcendente". Depois de Juliano, é possível prosseguir a tradição "solar" até Proclo (410-485), autor entre outros de um Hino a Hélios, assim como a seu contemporâneo Marciano Capella, que com o hino-oração de Filologia ao Sol (De nuptiis, II, 185-193) nos deixou um "notável documento da 'teologia solar' do neoplatonismo tardio", sendo assim "o último testemunho do sincretismo solar no Ocidente"; de fato até 531, com a ida a Pérsia do escolarca Damáscio (474-544) e de outros neoplatônicos, a tradição solar abandonará o mundo cristão e continuará sua existência própria nos mesmos lugares desde onde se irradiou, difundindo-se por toda Europa, o culto de Mitra.

09/02/2012

Entrevista de Alain de Benoist ao Jornal " IL FEDERALISMO " - 2005



1 – A França é um estado jacobino por excelência. Como você interpreta a reflexão federalista?

A.B : A França possui de fato uma tradição secular jacobina, que não começa, também, com a Revolução: a tendência de centralização das autoridades locais estava bem encaminhada no Antigo Regime, a Revolução que radicalizou tal fato. Esta tradição está relacionada ao modo de formação da nação francesa, que surgiu com a expansão gradual de um núcleo central, combinado com o estabelecimento de um mercado nacional e um espaço legal unificado. No entanto, deve-se lembrar que sempre houve, também, resistência à centralização, especialmente por parte da nobreza, mas também nas massas. Todos os tipos de pensadores, que vão de Henry de Boulainvilliers à Tocqueville, denunciaram fortemente os jacobinos. Nas províncias periféricas, a personalidade do forte regionalismo e autonomismo têm permanecido até hoje. No Século 19, esquerdistas como Proudhon, homens de direita como Maurras, ou, especialmente, jovens como Barres afirmam de forma explícita o federalismo.
Pessoalmente, eu vim para o federalismo por uma simpatia espontânea pelos movimentos regionalistas ( Bretão, Normando, Flamengo, Alsáciano, Basco, Córsego, etc ) comprovada desde a minha juventude, e por uma reflexão relevante da filosofia política. O Federalismo apareceu-me como o único sistema político capaz de conciliar a individualidade e a multiciplidade, isto é, as exigências aparementemente contraditórias da unidade, necessária para a decisão, e para a liberdade, de manutenção da diversidade. Mas também tenho sido influênciado por uma série de autores como Paul Sérant e Thierry Maulnier, que escreveram no século 20 ( o século federalista ), como, também, Robert Aron, que faz parte dos "não-conformistas dos anos 30", que continuou a defender as idéias de Sorel, do Socialismo Associativo, do Mutualismo Francês, além de Alexander Marc, diretor do L' Europe en formation e teórico do "federalismo integral", etc.


2 – A democracia representativa contemporânea tem em si o risco de não representar ninguém, muito menos o povo. Existe, segundo a lei, o problema da soberania?


A. B: A crise da representação agora é que afeta todas as democracias liberais. O enfraquecimento do Estado – Nação que, como tem sido dito muitas vezes, tornou-se muito grande para atender às expectativas das pessoas comuns, e muitos pequenos problemas estão se desenrolando em todo o mundo, resultando o afastamento social ( o Estado já não é mais um produtor social ) e uma pausa, sempre acentuada, entre políticos e cidadãos. Eles , então, tendem a refugiar-se na abstenção, ou votar em partidos puramente manifestantes, que não são forças construtivas. Podemos remediar essa crise, pondo em prática a democracia participativa em todos os níveis, desde a base, permitindo à todos a participação nos assuntos públicos.

O problema da soberania é outro problema. À partir da perspectiva jacobina do Estado – Nação, a soberania é definida, de acordo com Jean Bodin, como um conceito de indivisibilidade : a autoridade soberana é uma autoridade à qual, por definição, não podem ser atribuídos limites. Como uma autoridade soberana, sobre todos, tende naturalmente ao despotismo. Federalismo não rejeita o conceito de soberania, mas dá uma definição diferente. Soberania não é indivisível, mas compartilhada ou distribuída de acordo com o princípio da subsidiariedade ou competência suficiente. O poder soberano não é poder absoluto, ele representa apenas o poder localizado no mais alto nível e cujo campo de decisão é o maior, o que ocorre quando as autoridades locais nos níveis mais baixos, não são capazes para resolver os problemas.


3 – Parafraseando Johannes Althusius, acredita que é possível que o laço social pode ser reconstruído à partir da primeira forma de associação, ou seja, a família, então, transformando-se em municípios, províncias e regiões?

A.B: A revitalização das famílias é, certamente, uma das condições da re-criação de laços sociais, porque a família é um dos lugares de socialização da aprendizagem. Mas eu acho que é um erro grave considerar a sociedade global como um sistema de "matryoshkas" onde se pode passar sem qualquer ruptura real da família para os municípios e regiões. Este erro tem sido constantemente cometido pelos autores, geralmente de direita, que compararam a sociedade global com uma grande família ( muitas vezes com o objetivo de assimilar o soberano de uma família, onde os sujeitos seriam os "filhos") . A familía revela a dimensão privada da existência, os municípios e regiões, a dimensão pública. O tipo de relação, cuja família é o lugar, entre pais e filhos, é fundamentalmente diferente do que existe no seio da sociedade política. Ignorando a diferença de natureza entre a dimensão privada e a dimensão pública da existência humana, pode-se levar tanto a submeter-se à um totalitarismo político em todos os aspectos da vida privada, ou, inversamente, à um liberalismo que procura uma "privatização" generalizada de assuntos públicos.


4 – A sociedade atual é composta por individuos atomizados, separados uns dos outros, você vê a possibilidade do nascimento de um novo modelo antropologico?
A.B : Nós vivemos de fato em uma época em que o individualismo alcançou os seus maiores picos, mas ao mesmo tempo, e talvez em compensação, vemos o desenvolvimento espontâneo de novas formas de associação voluntária, tais quais as "tribos", comunidades, redes, etc. O verdadeiro problema é a colonização dos espíritos pelo imaginário economico e mercantil.

O modelo antropológico dominante é de um homem preocupado apenas com a maximização dos seus principais interesses, isto é, em geral, para chegar à uma quantidade cada vez mais de objetos consumidos. A mensagem implícita da mídia é a idéia de que a felicidade é sinônimo do consumo. Este modelo é igualmente descritivo e normativo: ela legitima tanto ao materialismo prático e à idéia de que o comportamento egoísta é o mais comum possível.

Neste contexto, o laço social invariavelmente derrotado, porque o outro aparece pela primeira vez como um rival em um campo transformado em um espaço social de concorrência generalizada. Portanto, de fato, é necessário trabalhar para a vinda de um novo modelo antropológico. Isto requer a capacidade de retornar ao imaginário simbólico, redefinir o homem como um ser fundamentalmente social e político, e remeter os valores de mercado para ele, necessariamente de forma subordinada.

5 – Existe na Europa um problema cultural para seus mútiplos povos?
A.B: Poderíamos repetir aqui a antiga distinção entre cultura e civilização, que também corta a distinção entre comunidade e sociedade, teorizada por Ferninand Tönnies. A civilização tende a ser única, enquanto as culturas sempre serão plurais. A diversidade cultural dos povos europeus – a diversidade em relação à medida em que essas pessoas têm uma herança em comum - é agora ameaçada pela homogeneização dos estilos de vida, induzidos pela globalização liderada pela superportência norte-americana, mas que se define, principalmente, como uma expansão global do capital de forma totalmente desterritorializada. Mias uma vez, acho que podemos combater esse processo, retornando à base, ao nativo, às comunidades. Isto é, atuação local para opor-se ao global, dando à globalização um conteúdo diferente, multipolar e diferenciado.

6 – O desaparecimento das línguas locais é, na sua opnião, um fato significativo?
A.B: O desaparecimento das línguas locais é, claramente, um aspecto do desaparecimento das culturas e redução da diversidade. Na época da Revolução, os jacobinos já haviam tentado remover de forma autoritária os "patois" ( dialetos não oficiais ) e as línguas locais. A III República continuou nessa direção ao tentar miminizar o uso das línguas regionais ao nível privado. Hoje as línguas locais são mais aceitas, e até protegidas, mas é todo o modo de vida caracteristico da sociedade global que lhes são desfavoráveis. O sistema mediático, e sobretudo a televisão, desempenha neste contexto um papel central: as crianças não falam mais como os seus pais, eles falam como se fala na televisão. Ao mesmo tempo, o inglês americano se impõe cada vez mais como a língua do novo koiné mundial. Contudo, a situação é bem diferente regionalmente. Algumas línguas são, obviamente, condenadas à desaparecer, outras têm uma boa chance de sobrevivência quando usadas diariamente em áreas que estão preservando a sua identidade.

7 – Quais são os cenários que estão previstos para os povos da Europa?
A.B: A construção política da Europa é agora totalmente bloqueada, tanto pela lógica persistência do Estado – Nação, quanto pela completa falta de vontade dos homens políticos, e pela burocracia. Ao invés de aprofundar suas estruturas institucionais, a Europa preferiu expandir rapidamente à países que não possuem outra ambição além de alcançar um vasto mercado transatlântico. A UE pretende agora adotar uma constituição, mesmo sem ter criado um poder constituinte, e pretende aderir à Turquia, mostrando que não há mesmo um acordo entre europeus sobre os limites da Europa.

O grande equívoco é que a grande maioria não está de acordo com as finalidades da integração europeia.
Este é o problema das finalidades que deve ser esclarecido. A alternativa é clara: ou a Europa dá prioridade à liberalização, a esposa da dinâmica de um grande mercado que se expandirá o máximo possível, e neste caso, a influência norte-americana irá se tornar predominante, ou se baseia em uma lógica de estruturas mais profundas de integração política através do federalismo e da subsidiariedade, tendo em vista, principalmente, a intenção continental de neutralizar o peso dos Estados Unidos.

8 – Qual Europa você anseia?
A. B: Vasta questão, mas penso que já respondi. Eu quero que a Europa se torne um poder independente em que possa desempenhar um papel regulador na globalização de um mundo multipolar, mas também uma Europa que não se limite à lógica exclusiva de poder, mas que possa ser novamente um projeto de civilização.


F. Roger Devlin - O Pensamento Econômico de Bonald

por F. Roger Devlin


A era francesa do Iluminismo testemunhou e celebrou uma revolução econômica: o rápido crescimento da especulação e de uma economia monetária, e uma correspondente diminuição da importância da terra enquanto riqueza. Bonald acreditava que a mudança havia sido causada pela prática da usura. Ele não condenava todo empréstimo a juros como usura, mas distinguia entre os casos de empréstimo para aquisição de bens produtivos (como terra ou capital) e empréstimos para bens improdutivos pretendidos para o consumo.

Por exemplo, se eu empresto dinheiro para que um homem compre uma fazenda, eu posso legitimamente cobrar juros sobre os bens produzidos pela fazenda. Na França do tempo de Bonald, isso normalmente significaria uma taxa de juros ao redor de 4 ou 5% ao ano. Por outro lado, se eu empresto dinheiro para que um homem compre pão, sua compra, longe de ser produtora de mais valor, perde o valor que tiver se não for rapidamente consumida. Em contraste com a própria terra, "os produtos da terra, são valores mortos que diminuem em quantidade ou qualidade". Ganhar dinheiro emprestando para o consumo é, na visão de Bonald, essencialmente injusto e uma violação da caridade cristão mesmo quando livremente acordado entre credor e devedor.

Pode parecer que tal doutrina impediria que um quitandeiro comum operasse sua loja e lucrasse. Bonald sustenta que o "lucro" do quitandeiro na verdade se resume a um salário pelo trabalho que ele faz:

"O trabalho dos homens que compram, transportam, guardam, preservam e melhoram bens merece um salário. O natural decréscimo, a perda acidental e eventual de bens e o desperdício inevitavel que eles sofrem em sua transformação em valores industriais merecem todos eles compensação".

Isso contradiz o dogma de Adam Smith:

"Os lucros de capital, poder-se-ia pensar, são apenas um nome diferente para o salário de um tipo particular de trabalho, o trabalho de inspeção e direção. Eles são, porém, completamente diferentes, sendo regulados por princípios distintos, e não são proporcionais à quantidade, dificuldade ou engenhosidade desse suposto trabalho de inspeção e direção. Eles são regulados completamente pelo valor do capital empregado, e são maiores ou menores em proporção à quantidade desse capital... Em muitas manufaturas grandes, quase todo o trabalho desse tipo é atribuído a algum funcionário importante. Seu salário expressa propriamente o valor desse trabalho de inspeção e direção. Ainda que em sua determinação alguma consideração normalmente se tem, não apenas quanto a seu trabalho e perícia, mas também à confiança que é depositada nele, porém este salário nunca tem qualquer proporção regular com o capital cuja aplicação ele supervisiona; e o proprietário desse capital, ainda que ele esteja assim desincumbido de quase qualquer trabalho, ainda espera que seu lucro tenha uma proporção regular com seu capital. No preço das commodities, portanto, os lucros de capital constituem uma parte componente totalmente diferente do salário de trabalho, sendo regulados por princípios bastante distintos". (A Riqueza das Nações, Livro I, Capítulo 6)

Eu não irei me aventurar em decidir a questão em favor de Bonald, mas eu estou inclinado a imaginar quantos economistas modernos poderiam dar uma explicação coerente do motivo pelo qual essa perspectiva impopular está erradao.

O dinheiro, na perspectiva de Bonald, é fundamentalmente um signo de valor e um meio de troca ao invés de uma commodity como qualquer outra. Ele não deve, portanto, demandar um "preço" na forma de juros (exceto como notado acima). Quando a usura é permitida,

"os juros, ou melhor o preço do dinheiro, é infinitamente maior que os frutos da terra, assim todos desejam vender sua terra de modo a buscar dinheiro para emprestar. Mas quando todos querem vender, ninguém quer comprar. Os frutos da terra tendem a subir aos preços mais altos, enquanto a terra desce ao preço mais baixo, ou elas se tornam impossíveis de vender a qualquer preço, e compra-se apenas aquilo que a miséria deixa para trás ou as revoluções tornam disponível. Nota-se uma tendência geral a deixar o próprio lar e o lar dos próprios antepassados, abandonar a própria família e seu país. Uma vaga inquietude e desejo por mudança atormentam os donos de terra. Eles reclamam de estarem presos a uma propriedade sobrecarregada de cuidados, e com muito pouca renda sobrando para pagar por seus luxos e prazeres. Nós vemos um desejo imodesto de ficar rico espalhando-se até pelas ordens mais baixas da sociedade, causando desordens horríveis e crimes inauditos; enquanto em outros causando um egoísmo duro, uma extinção total de qualquer sentimento generoso, e uma transformação insensível da mais desinteressada e amistosa nação em uma população de especuladores que veem nos eventos da sociedade apenas oportunidades de ganho ou perda".

 A esse sistema instável, calculista e caótico Bonald opõe o tradicional sistema da economia agrária que floresce quando as taxas de juros não tem permissão de exceder ao fruto da terra:

"Aqueles que são capazes de viver dentro dos limites de seu capital buscam adquirir terra produtiva, porque a renda da terra é aproximadamente a mesma que o juro pago por dinheiro, e é mais segura porque o capital em si está mais protegido contra imprevistos. Porém, caso todos quisessem comprar, ninguém iria querer vender. Terras estão então possuem um preço elevado em relação a bens. Todos os cidadãos aspiram passar de possuidores de dinheiro a possuidores de terra, ou seja, de uma condição política móvel e dependente a uma posição fixa e independente. Essa é a disposição mais feliz e moral da consciência pública, a mais oposta ao espírito da ganância e da revolução".

O leitor aprenderá mais sobre agrarianismo de algumas páginas de Bonald do que de todos os exercícios literários em I'll Take My Stand.

Bonald não via razão pela qual o legislador deveria permanecer neutro em relação a desenvolvimentos tão danosos aos hábitos morais da sociedade:

"Uma política sábia, mais atenta aos interesses gerais do que aos privados, buscaria tornar a circulação de dinheiro menos rápida: em Esparta, pelo uso de dinheiro de ferro, nos Estados modernos, pela proibição dos empréstimos usurários... Se os lucros do comércio regularmente sobem muito acima das rendas da terra, seria uma medida sábia devolvê-las à igualdade, ou favorecendo o cultivo da terra de todos os modos possíveis, ou contendo as especulações comerciais dentro dos limites da utilidade geral".

Para restaurar a ordem agrária, Bonald também advogava a restauração da primogenitura e demanda: "uma lei feita não para o benefício do mais velho, mas para a preservação e permanência da família agrária". A legislação revolucionária havia demandado a divisão igual da herança de propriedades agrárias. Isso não era diferente do juízo de Salomão de cortar uma criança em dois: a metade ou 1/4 ou 1/8 de uma propriedade usualmente não tem o valor correspondente da fração da propriedade original. Pode ser triste que nem todos os homens podem viver de suas próprias terras, mas fracionar propriedades em uma miríade de jardins vegetais não melhora as coisas; isso apenas força os "herdeiros" a vender sua terra por qualquer preço que eles consigam. Como cidadão de destaque de seu distrito, Bonald veio a conhecer os males do novo sistema em primeira mão.

"Um rico agricultor que o autor parabenizou pelo bom estado de sua propriedade respondeu em um tom doloroso: 'É verdade, minha propriedade é bela e bem cuidada. Meus pais por vários séculos e eu por cinquenta anos trabalhamos para ampliar, melhorar e embelecê-la. Mas você vê minha família grande, e com as leis de herança deles, meus filhos um dia serão servos aqui quando outrora foram mestres".

Bonald defendia até mesmo o sistema de guildas, que Smith havia criticado por restringir a competição e demandar ineficientemente sete anos de aprendizado para ofícios que levava seis meses para aprender.

"Para as classes inferiores, as corporações de artes e ofícios eram um tipo de nobreza municipal hereditária que dava importância e dignidade aos indivíduos mais obscuros e às profissões menos exaltadas. Essas corporações eram ao mesmo tempo fraternidades, e é isso que excitava o ódio dos 'filósofos' que perseguiam a religião até mesmo em suas manifestações mais modestas. Essa instituição monárquica trouxe grandes benefícios à administração. O poder dos mestres continha jovens que careciam de educação, que haviam sido retirados da autoridade paterna ainda cedo pela necessidade de aprenderem algum ofício e ganhar seu pão, e cuja obscuridade afastava do poder público. Finalmente, a herança das profissões mecânicas também servia à moralidade pública pela colocação de uma barreira à mudanças ruinosas e ridículas de moda".

O primeiro ponto do autor é especialmente digno de ponderação: um homem pode ser feliz em uma posição baixa, desde que ela seja uma posição reconhecida dentro da sociedade. O "vírus da igualdade" infecta homens que estão desenraizados, ou seja, que não pertencem a lugar algum. Aqueles com a dignididade de até mesmo um "lugar" modesto raramente são perturbados pelas fortunas maiores dos outros.
 
Bonald criticava Smith diretamente:

"Riqueza, tomada em um sentido geral e filosófico, é meio de existência e preservação; opes, no latim, significa tanto riqueza como força. Para o indivíduo - um ser físico - esses meios são riqueza material, os frutos do solo e da indústria. Para a sociedade - um ser moral - os meios de existência e duração são as riquezas morais, e as forças da conservação são, para a sociedade doméstica, a moralidade, e para a sociedade pública, as leis. Morais e leis são, portanto, a verdadeira e até mesmo a única riqueza das sociedades, famílias e nações".

Aqui novamente nós vemos a radical distinção entre interesses universais ou públicos e particulares ou privados: bens econômicos são sempre privados, mesmo que sejam desfrutados por todos os indivíduos de uma dada sociedade. É por isso que o Liberalismo (que segundo o próprio Ludwig von Mises é "meramente economia aplicada") não pode dar um motivo pelo qual os cidadãos deveriam sacrificar suas vidas pelo seu país:

"Um espírito público não pode ser mantido em uma nação comercial ou manufatureira devotada a cálculos de interesse pessoa, e ainda menos hoje quando as leis da guerra protegem a propriedade pessoal do conquistado e em nossos sentimentos humanitários nós consideramos um crime que o cidadão não seja pago para defender sua terra. Em cada era, nações pobres conquistaram nações ricas, mesmo que em sua riqueza elas tivessem os motivos mais poderosos para auto-defesa".

Similarmente, em seu tratado Sobre o Divórcio, Bonald apontou que povos comerciais tendem a pensar até em casamento a partir de um modelo de contrato mercantil. Ele escreve "da degradação de um povo vizinho [o inglês] que avalia a fraqueza da mulher, o crime de um sedutor, e a vergonha de um marido em libras, shillings, e pence, e processa pelo total a partir de estimativas de especialistas".
Bonald rejeita o impulso "privatize tudo!" que enxerga socialismo espreitando em cada praça:

"O uso de coisas comuns, templos, águas, florestas, e pastos constitui a propriedade da comunidade. De fato, não há mais comunidade onde não há mais uma comunidade de uso. Pode ser verdade que as comuns eram mal administradas. Eu até acreditaria que sua divisão, em alguns lugares, produziu um pouquinho mais de trigo. Porém em algumas terras essa divisão restringe o rebanho a espaços pequenos demais e assim arruina uma parte importante da agricultura. Mais importante, não há mais propriedade comum entre os habitantes do mesmo lugar e, consequentemente, não há mais comunidade de interesses, não há mais ocasiões para deliberação e acordo. Por exemplo, se houvesse apenas uma fonte pública em uma aldeia a partir da qual a água fosse distribuída para todas as casas, retirar a fonte seria negar aos cidadãos uma ocasião contínua para ver, falar, e ouvir uns aos outros".

Bonald, como Marx após ele, viu que a pobreza industrial era diferente da pobreza dos estados agrícolas, e uma ameaça maior à ordem social tradicional. De fato, ele chega próximo de chamar o proletariado industrial de vanguarda da revolução.

"O verdadeiro político está preocupado com as desordens que emergem da alternância de abundância e miséria à qual a população industrial está exposta, que, produzindo bens industriais sem ser capaz de consumi-los, não está menos forçada a consumir os frutos da terra sem ter a habilidade de produzi-los ou mesmo compra-los - e que, encontrando-se sem trabalho e sem pão, é um instrumento preparado para a revolução... Que não se duvide que é na esperança de colocar toda essa população abundante em seu bolso que um partido europeu promove o crescimento exagerado da indústria, certo de que pode dar trabalho a esses mãos vazias na imensa oficina da indústria revolucionária".

06/02/2012

Vivemos em uma Sociedade Gineocrática?

por Julius Evola



Muito tem sido escrito ultimamente na Itália sobre J.J. Bachofen, um pensador de Basel e contemporâneo de Nietzsche, cuja obra de gênio passou quase desapercebida durante sua vida, mas que é particularmente estudado hoje, especialmente na Alemanha. Bachofen devotou-se principalmente à exploração das civilizações antigas dos mundos clássico e mediterrâneo, especialmente em seus aspectos ético-religiosos, simbólicos e mitológicos, e sua idéia fundamental nessa área é de uma oposição original entre espiritualidade heróica, "solar", olímpica e viril, e espiritualidade "ctônica", "lunar", e feminina. Foi nessas linhas que ele interpretou as concepções religiosas, sistemas sociais, mitos, símbolos e formas político-legais das civilizações antigas, notando mais e mais o contraste e a interferência entre influências relacionadas a várias formas de espiritualidade que hoje podem facilmente serem referidas a distintos componentes raciais do mundo mediterrâneo arcaico: a civilização "solar" ou "urânica" obviamente associada às raças indo-europeias, e a "ctônica" e feminina, associada, ao contrário, às raças pré-indo-europeias ou anti-indo-europeias.

As opiniões de Bachofen, ademais, não tem apenas um valor retorspectivo, elas usualmente oferecem importantes pontos de referência para compreender o significado mais profundo de alguns aspectos de nossa própria civilização moderna, através de impressionantes relações de analoga. É por isso que pensamos que pode não ser desprovido de interesse desenvolver algumas considerações sobre este tópico.

Em primeiro lugar, nós gostaríamos de nos deter na natureza e nos vários aspectos dessa civilização chamada por Bachofen de civilização da Mãe ou gineocracia (de "gyne" e "krateia", quer dizer: governada pelas mulheres) e que, para nós, é identificada com a civilização anti-indo-europeias e pré-indo-europeias do mediterrâneo arcaico.

A primeira característica distintiva de tal civilização é o "telurismo" (de "tellus", que, bem como "chthonos" significa "terreno"). Essa civilização considera a lei da terra como sendo a lei suprema. A terra é a Mãe. Sob o aspecto da Mulher Divina, da Grande Mãe da Vida, ela incorpora o que é eterno e imutável. Ela permanece idêntica a si mesma e inexorável, enquanto tudo que ela produz tem um nascimento e um declínio, uma vida individual puramente finita e evanescente. Desprovido de qualquer virilidade espiritual e sobrenatural, tudo que é força e masculinidade então assume uma natureza obscura, selvagem, em verdade "ctônica" e "telúrica". E se "telúrico" geralmente nos faz pensar em fenômenos sísmicos, essa associação de idéias, em certa medida, faz sentido. Na v isão do mundo em questão, a virilidade tem como seus protótipos divinos figuras como Posêidon, também chamado o "fazedor de terremotos", o deus do subterrâneo ctônico e das águas turbulentas, analogamente ligado pelos antigos a forças de passionalidade e instinto. Mais geralmente, a era ou civilização da Mãe é "telúrica", com referência a um sentido de destino, de necessidade, de evanescência fatal, de vida misturada com morte, fonte de impulsos selvagens e irrepreensíveis.

Para Bachofen, matriarquia, "gineocracia", aquela de Deméter ou de Afrodite, esta na qual a Mãe Divina, diferentemente da antiga Deméter, tinha simultaneamente características sensuais, é a consequência social dessa visão central. Onde quer que o princípio supremo seja entendido como uma Grande Mãe (Magna Mater), a mulher terrena, que aparece como a encarnação mais próxima dela, vem a assumir naturalmente uma dignidade religiosa e a maior autoridade. É ela que essencialmente aparece como a doadora da vida, e, em relação a ela, o homem é apenas um instrumento. Sob seu aspecto maternal, ela então incorpora a lei, ela é a verdadeira base e o centro da família. Como amante, sob seu aspecto afrodítico, ela é então novamente a soberana do homem que é meramente escravo de seus sentidos e da sexualidade, meramente o ser "telúrico" que encontra seu descanso e seu êxtase apenas na mulher. Daí os vários tipos de mulheres da realiza asiática com características afrodíticas, acima de tudo nas antigas civilizações de linhagem semítica, e as rainhas-amantes de cujas mãos os homens recebem o poder e que se tornam o centro de um extremo refinamento da vida, um sinal de uma civilização essencialmente baseada no lado físico e sensual da existência. Mas onde quer que a mulher tenha características "demetéricas" mais que "afrodíticas" (a Deméter mítica possuía uma natureza majoritariamente casta e maternal), ela aparece também como uma Iniciadora no mundo antigo, como aque mantém e participa dos maiores mistérios. Em uma civilização na qual a virilidade significa apenas materialidade, a mulher, seja por causa do enigma da geração ou por causa de suas habilidades sutis de devoção e encanto, assume características religiosas, e ela se torna o ponto de referência de cultos e iniciações que prometem um contato com as Mães da Vida, com a espiritualidade cósmica, com o mistério do ventre da terra geradora.

Duas outras características do tipo de civilização em questão derivam disso, nomeadamente o elemento "dionisíaco" e o elemento "lunar". O mistério desses elementos, que podem ser mediados por uma mulher, não podem ser o mistério da espiritualidade olímpica, apolínea, solar, não pode ser aquele que está ligado à luminosidade viril e heróica da existência mortal, guiada pelo ideal de uma existência que, segundo o símbolo oferecido pelas naturezas solar e estelar do céu, é livre de qualquer mistura promíscua com a matéria e com o devir e é subsistiente e luz radiante por si própria.

Este, por contraste, era o ideal "urânico" (de "ouranos", "céu") que era específico ao outro tipo de espiritualidade. O mistério da Mãe ao invés leva a algo similar a uma dissolução panteística. É uma liberação disforme, alcançada, para não dizer arrebatada, em experiências desordenadas nas quais o elemento sensual e suprassensual misturam-se curiosamente e o lado "telúrico" se reafirma no sentido dominante de "orgia sagrada", na exaltação mística combinada com qualquer excesso e todos os tipos de manifestações selvagens. Tal era, em geral, o "dionisianismo".

É por isso que, no mito antigo, Dionísio é sempre significativamente acompanhado pelas Mães da Natureza, que assumem características majoritariamente "afrodíticas"; historicamente, também, seu culto era fortemente conectado com o sexo feminino e suas seguidores mais alegres e entusiasmadas eram mulheres.

Nessa conexão, a "lunaridade" já havia sido mencionada. A lua costumava ser chamada "terra celestial". Ela era assim entendida como uma sublimação do terreno, isto é do elemento ctônico. É luz, não como luz radiante, mas como luz refletida. É luz sem um centro próprio; seu centro, diferentemente do sol, está fora de si, ela é então luz "feminina" passiva - está intimamente conectada com a espiritualidade disforme dos êxtases e liberações que subjazem o signo da Mulher, enquanto, por outro lado, ela pode ser pensada como um contemplativismo, uma abstração ou um entendimento de leis abstratas, ao invés de um conhecimento "solar" essencial.



Agora, era uma característica das civilizações antigas da Mãe conferir à Lua uma preeminência sobre o Sol - nelas, a Lua às vezes até se torna masculina em gênero, o deus Lunus, seja para designar essa primazia ou para caracterizar o lado presumidamente negativo da virilidade. Mas o que também é específico à civilização que estamos analisando aqui é a idéia de uma primazia da Noite sobre o Dia, da Escuridão sobre a Luz. Escuridão e Noite são o elemento sagrado maternal, primordial e essencial: no mito, o Dia é produzido pela Noite, na qual ele se dissolve de novo.

Dois outros aspectos permanecem para serem considerados: a promiscuidade social, ou igualitarismo, e o "amazonismo". Bachofen, entre seus outros méritos, tem aquele de trazer à luz as origens "telúricas" e matriarcais da assim chamada doutrina do direito natural. A premissa original de tal doutrina é precisamente que todos os homens, como filhos da Mãe e seres também sujeitos à lei da terra, são iguais, de modo que qualquer desigualdade é uma "injustiça", um ultraje à lei da natureza. Daí a conexão que a antiguidade nos mostra entre o elemento plebeu e seus cultos maternos e ctônicos e o fato de que essas antigas festas orgiásticas e dionisíacas, que, junto com as mais extremas formas de licenciosidade e promiscuidade sexual, foram pretendidas para celebrar o retorno dos homens ao estado de natureza através da obliteração momentânea de qualquer diferença social e de qualquer hierarquia, eram centradas precisaente nas divindades femininas do ciclo "telúrico", mais ou menos diretamente derivadas do tipo da Grande Mãe da Vida. Quanto ao "amazonismo", Bachofen o via como uma variante de "gineocracia". Onde a mulher não consegue se afirmar através de seu elemento religioso materno ("demetérico"), ela tenta se afirmar vis-a-vis o homem através de uma falsificação das qualidades viris de poder e combatividade.

Tai são as características fundamentais da "Civilização da Mãe", característica, para assim dizer, do substrato pré-indo-europeias do antigo mundo mediterrâneo. Ela foi derrotada pela Grécia Apolínea, Dórica e Olímpica; e então, e ainda mais completamente, pela Roma "solar", guardiã ciumenta do princípio do direito paternal e do ideal de espiritualidade viril. Porém, como as coisas são um processo de renovação constante, as variedades dessa cultura "telúrica" se manifestam novamente onde quer que um ciclo termine, onde quer que a tensão heróica e a vontade construtiva desaparecem e formas decadentes e degeneradas de vida e espiritualidade começam a reaparecer.

Agora, o que é notável aqui é a correspondência de muitos aspectos da civilização contemporânea à civilização da Mãe. Em suas manifestações externas, essa correspondência já foi notada. "Nas ruas de Berlim, Paris, ou Londres", como por exemplo, Alfred Baeumler, um famoso pensador nacional-socialista, escreveu, "tudo que você tem que fazer é observar por um momento um homem ou uma mulher para perceber que o culto de Afrodite é aquele diante do qual Zeus e Apolo tiveram que bater em retirada... A presente era porta, em verdade, todas as características de uma era gineocrática. Em uma civilização tardia e decadente, novos templos de Ísis e Astarte, dessas deusas maternais asiáticas que eram celebradas em orgias e licenciosidade, em um afundar desesperado no prazer sensual, emergem. A fêmea fascinante é o ídolo de nossos tempos, e, com lábios pintados, ela caminha pelas ruas das cidades européias como ela outrora caminhou por Babilônia. E como se ela quisesse confirmar a profunda intuição de Bachofen, a levemente trajada governadora do homem mantém na correia um cão, o antigo símbolo da promiscuidade sexual ilimitada e das forças infernais". Mas essas analogias podem ser ainda mais desenvolvidas.

Os tempos modernos são "telúricos", não apenas em seus aspectos mecanicistas e materialistas, mas também, e essencialmente, em diversos de seus aspectos "vitalistas", em suas várias religiões da Vida, do Irracional e do Devir, precisa antítese de qualquer concepção "clássica" e "olímpica" do mundo. Para Keyserling, muitas das correntes da assim chamada "revolução mundial" revelam uma natureza "telúrica" - ou seja irracional, principalmente associadas a formas de coragem, auto-sacrifício, fervor e dedicação sem referência transcendente. Em muitos casos, ele está certo.

Com o advento da democracia, com a proclamação dos "princípios imortais" e dos "direitos do homem e do cidadão" e o desenvolvimento subsequente dessas "conquistas" na Europa no marxismo e no comunismo, é exatamente o "direito natural", a lei niveladora e anti-aristocrática da Mãe, que o Ocidente resgatou, renunciando a qualquer valor "solar" e viril indo-europeu e confirmando, com a onipotência tão comumente garantida ao elemento coletivista, a antiga irrelevância do indivíduo para a concepção "telúrica".

Dionísio reaparece com o romantismo moderno: nós temos aqui o mesmo amor pelo disforme, pelo confuso, pelo ilimitado, a mesma promiscuidade entre sensação e espírito, o mesmo antagonismo frente ao ideal viril e apolíneo de clareza, forma e limite. Pode a natureza "lunar" do tipo mais difundido de cultura moderna possivelmente ser posto em dúvida? Para fazer referência a uma cultura baseada em um intelectualismo pálido e vazio, uma cultura estéril separada da vida, capaz apenas de criticismo, especulação abstrata e "criatividade" vã: cultura que levou o refinamento material ao extremo e na qual a mulher e a sensualidade muitas vezes se tornam motivos predominantes a um nível quase patológico e obsessivo.

E onde quer que a mulher não se torne o novo ídolo das massas sob as formas modernas da "estrela de cinema" e de similares aparições afrodíticas, ela normalmente afirma sua primazia em novas formas "amazônicas". Assim nós vemos o novo tipo da mulher esportista masculinizada, da garçonne, da mulher que se devota ao desenvolvimento insano de seu próprio corpo, que trai sua verdadeira missão, que se torna emancipada e independente ao ponto de ser capaz de escolher os homens que ela quer ter e usá-los. E isto não é tudo.

Na civilização anglo-saxã, e particularmente na América, o homem que esgota sua vida e tempo nos negócios e na busca por riqueza, uma riqueza que, em grande medida, serve apenas para pagar pela luxúria, caprichos, vícios, e refinamentos femininos, concedeu à mulher o privilégio e até mesmo o monopólio de lidar com coisas "espirituais". E é precisamente nessa civilização que nós vemos uma proliferação de seitas "espiritualistas", espíritas, místicas, nas quais a predominância do elemento feminino já é significativo por si mesmo (a principal, a seita teosófica, foi totalmente e simplesmente criada e comandada por mulheres, Blavatsky, Besant e, finalmente, Bailey). Mas é por uma razão muito mais importante que o novo espiritualismo nos aparece como uma forma de reencarnação dos antigos mistérios femininos: é o escapismo disforme em experiências suprassensuais confusas, a promiscuidade da mediunidade e do espiritualismo, a evocação inconsciente de influências verdadeiramente "infernais" e a ênfase posta em doutrinas como a reencarnação, que confirmam, nessas correntes pseudo-espirituais, a correspondência que nós já mencionamos e provam que, nesses desejos desviados de ir para além do "materialismo", o mundo moderno não conseguiu encontrar nada que o conecte com as tradições superiores, olímpicas e solares da espiritualidade indo-europeia.

Não confirma a psicanálise, com a proeminência que ela dá ao inconsciente sobre a consciência, à "noite", ao subterrâneo, ao atávico, ao instintivo, ao lado sensual do ser humano sobre tudo que é vida, vontade e verdadeira personalidade, novamente a antiga doutrina da primazia da Noite sobre o Dia, do maternal, da Escuridão sobre as formas, supostamente evanescentes e irrelevantes, que emergem dela para a luz?

Deve ser reconhecido que estas analogias, longe de serem extravagantes ou arbitrárias, são baseadas em fundamentos que são amplos e substanciais e portanto gravemente perturbadores, já que uma nova "Era das Mães" pode ser o sinal do fim de um ciclo. Isso não é, obviamente, o mundo ao qual nós pertencemos e que está em harmonia com as forças de nossa revolução restauradora. Porém, infiltrações e desvios podem ser notados mesmo onde eles seriam menos esperados. Na Alemanha, nós poderíamos mencionar Klages e Bergmann, pensadores que, apesar de indo-europeus, ainda proclamam de um modo surpreendentemente extremo concepções gineocráticas e "telúricas" de vida. Na Itália, nós mencionaremos apenas dois casos. Eis o que pode ser lido na página 185 de uma recém publicada "Inchiesta sulla Razza": "O maior avanço da humanidade na direção da perfeição é constituído pela mulher. A mulher realmente é a intérprete do reino dos espíritos puros. Ela é mais pura e mais perfeita que o homem. E o homem sente uma atração irresistível por ela, a mesma atração, porém conspícua que um ser menos puro sente pelo mais puro". Nas páginas 152-153 de outro livro, "Valori della Stirpe Italiana", outra camada de "gineocracia" é acrescentada: "Ao redor da mulher, como da Santa Mãe, todo o paraíso gira. Ventre de incontáveis vidas, é da Mãe que nasce tudo que vive no mundo. Da Noite nasce a vida, da Mãe Terra tudo se difunde. Ela é o sacramento vivo, como o Pão implicitamente contém o Deus vivo. A mulher é então a guardiã e o símbolo da raça: seus efeitos podem ser vistos em todas as criaturas, mas é nela que sua substância fundamental é adorada".

O fato de que, na Itália, dentro do movimento restaurador romano e indo-europeu, idéias desse tipo podem ser proclamadas, mesmo como expressões esporádicas, mostra em que medida a confusão de valores pode às vezes chegar. As antíteses definidas por Bachofen são de importância fundamental para uma orientação correta. Nós temos visto que as formas contidas na antiga civilização da Mãe poderia nos permitir a identificar com precisão tudo que é crepuscular no mundo moderno. Os valores e ideais da civilização solar, olímpica e viril podem inversamente nos dar, com bastante precisão, as diretrizes para uma verdadeira reconstrução européia, sobre bases autenticamente indo-europeias, romanas, e fascistas, um ponto ao qual nós teremos que retornar ocasionalmente.

05/02/2012

Dez Mandamentos da Manipulação

Por Noam Chomsky


1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')”.

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE POUCA IDADE
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê. “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver “Armas silenciosas para guerras tranqüilas'')"

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada as classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranqüilas’)”.

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. 

Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

03/02/2012

A Escravidão do Consumo

Por Wellington Lisboa de Sena


Ao longo dos séculos o ser humano foi domesticado para viver dentro de um paradigma econômico totalmente equivocado. A pirâmide das necessidades de Maslow refrata inúmeras necessidades, das mais básicas até as mais sofisticadas, que segundo prega a moderna economia diz que o homem possui ilimitadas necessidades. Isso não é bem verdade. Terá o homem que trabalhar toda a vida para satisfazer “necessidades” aparentes em termos de bens e serviços? – Há pessoas que ocupavam elevados cargos da sociedade, eram enormemente bem pagas e tinham um status-quo absoluto quando abandonaram este tipo de vida e foram viver uma rotina totalmente diferente, seja no campo morando numa casinha rústica, seja numa praia isolada até sem linha telefônica. E estas pessoas, ao serem interpeladas sobre sua satisfação atual com o padrão de vida que deixaram e estão a viver, invariavelmente responderam que não se arrependeram nenhum pouco e que sentem-se até mais realizadas. Será que estas pessoas subiram a pirâmide das necessidades e desceram em sentindo inverso e, com essa atitude de vida, deixaram de serem felizes ou de viver plenamente?; A economia sempre pregou que os recursos (bens e serviços) são limitados enquanto que as necessidades humanas são ilimitadas. Desse pressuposto podemos concluir que uma economia baseada em dinheiro, instrumento utilizado para adquirir bens e serviços, será sempre uma doutrina onde haverá os mais beneficiados e os menos beneficiados, os incluídos, os excluídos, os que prosperam e os que, indiscutivelmente, sucumbem. E quem vai produzir estes bens e serviços? Os próprios consumidores, ou seja, o povo. Esse é um circuito medíocre mas bem interessante; o trabalhador, mau remunerado, trabalha todos os dias durantes os melhores 35 anos de sua vida para sua própria subsistência. Daí o estereótipo: “o homem é o que ele faz” (uma alusão à aparência social, o que veste e o que possui). Do valor em dinheiro que recebe ele utiliza para adquirir os bens e serviços que nas mais das vezes são mais valiosos do que o que ele produz (por exemplo: um funcionário de uma empresa de TV produz um aparelho de 32” que custa mais do ele recebe em termos monetários como salário mensal) e ainda terá que pagar imposto sobre a renda (descontados em folha), previdência social (descontado em folha), etc. além dos impostos sobre os bens e serviços que ele adquire.

Este é um ciclo infernal, aterrorizador e escravizante. Nossa geração que nasceu, cresceu e está a viver dentro deste paradigma de comportamento não tem a menor idéia do que é estar do lado de fora. Fomos, desde criança, ensinados pelos nossos pais a sempre obedecer nossos superiores, acatar ordens e seguir como cordeirinhos sem reclamar para não sermos punidos (pois há muitos desempregados que gostariam de estar em nosso lugar). A busca por um “lugar ao sol” e “estabilidade financeira” levam as pessoas a praticar coisas absurdas na vida em sociedade. A competição, a inveja, a acumulação de bens e determinados padrões sociais que são impostos acabam por escravizar completamente as pessoas, forçando-as a deixarem de ser “elas mesmas” no que de melhor elas têm como virtudes e vocação. E quando alcançamos o “emprego dos sonhos” continuamos sendo dependentes do sistema tão mais intensamente quando éramos jovens sonhadores sem compromisso. Sonhos que tínhamos na infância são paulatinamente massacrados e pulverizados no decorrer dos anos pela necessidade de “independência” que somos levados a ter numa sociedade puramente materialista, racional e estagnante. Mas voltando ao assunto das necessidades, gostaria de frisar um outro aspecto: a lei da escassez. A lei da escassez é uma lei férrea e incontornável, que reflete a natureza limitada dos meios disponíveis em relação aos fins que as pessoas tem em suas ações. A economia tem como fundamento o entendimento da noção de escassez. Tecnicamente, escassez é definida como o caso onde num preço nulo a oferta de um bem é menor do que a demanda. Um bem abundante é assim classificado quando num preço nulo sua oferta ainda é superior a procura. A escassez submete os homens ao seu jugo desde sempre, levando-os a se organizarem e a estabelecerem entre sí relações a fim de enfrentá-la ou, melhor falando, conviver com ela atenuando-lhe o quanto possível a severidade. A divisão do trabalho e todas as instituições de natureza economica surgiram para melhor alocar os meios escassos em relação a vários fins possíveis. Quando há escassez os agentes tem que decidir como alocar e usar estes recursos. Daí onde surgem as guerras. Quem governa determina aos “escravos” que lutem e deem suas vidas para a garantia da prosperidade dos “patrões” e a continuidade da economia reinante, com suas moedas, seus bancos e seu jugo escravizador.

A escassez esta intimamente relacionada com a lei da oferta e da procura. A escassez, assim como várias premissas do pensamento econômico dominante, são questionadas por autores como Hazel Henderson. A escassez é refutada em vista da inesgotabilidade da capacidade humana de produzir inovações tecnológicas e da utilização de energias renováveis. Há inúmeros recursos não escassos na natureza que poderiam melhor servir a toda humanidade e reutilizados eficazmente. Tal pressuposto é conveniente em particular para as teorias que priorizam a concorrência, a acumulação individual e a dominação. Talvez seja difícil imaginar uma sociedade sem o jugo escravizador do dinheiro, onde as pessoas ao invés de trabalhar durante anos para subsistência e aquisição de bens e serviços, pudesse produzir o melhor de sí para sua elevação moral, cultural e intelectual. Seria o caso de um artesão que fabrica peças de cerâmica que, vivendo numa sociedade livre de bancos, dinheiro em moeda e especulação, teria como destino o fruto de seu trabalho para trocar com outra pessoa ou mesmo presentear a uma pessoa conhecida ou parente. O horário de trabalho seria planejado conforme sua vontade, sobrando tempo para dedicar à educação dos filhos, por exemplo. Não haveria no mundo assaltos, pois todos poderiam viver tranquilamente sem necessidade de roubar do próximo; não haveria dívidas! Por que não teria a existência do dinheiro como elemento de troca; não haveria fome, pois os bens inesgotáveis da Terra seriam cultivados a tal ponto que a palavra de ordem seria “fartura” para todos; não haveria desemprego, pois todos poderiam trabalhar com mais ânimo de coração e felicidade, pois não haveriam empregados e sim colaboradores-patrões de seus próprios empreendimentos; não haveria guerras nem revolução, pois todos respeitariam o próximo como a sí mesmos e a riqueza seria distribuída de forma equânime. Talvez esse seja um mundo perfeito em teoria, caso não existissem a inveja, o egoísmo e a ambição características do ser humano. Mas isso poderia ser superado caso esta doutrina não tivesse sido levada à cabo por uma minoria que, séculos após séculos, através da força brutal e da lavagem cerebral (através da mídia controlada) vêm realizando nas gerações de pessoas de todos os países. Os que se levantam contra o sistema dominante são severamente dizimados (Jesus o foi, Gandhi, Martin Luter King, etc.) durante a história, também cheia de mentiras, que nos foi contada. Toda a nossa vida atual é muito mais ilusão do que realidade. Infelizmente somos joguetes de uma caricata vida social que não tem lógica. Como o próprio Jesus pronunciou em passagem dos evangelhos: “Daí a César o que é de César”. O dinheiro só tem valor para quem é escravo do dinheiro. É a força motriz deste paradigma cheio de engrenagens que é a economia. Sair dela é um lema impensado para muitos.


Retirado do blog parceiro Yrminsul.

02/02/2012

A Face Oculta da Globalização

por Elena Atxaga
 


Desde que o mundo gira, a melhor forma de ocultar o poder é dissimulá-lo. Sem grandes escândalos e com uma estrutura não muito orgânica, ao invés de hierárquica ou piramidal, o poder desliza pelas rachaduras de toda sociedade, com suas cabeças visíveis aos seus líderes midiáticos. A história do grupo Bilderberg e da Comissão Trilateral é a história de dois grupos, aparentemente inofensivos e dedicados ao estudo e ao intercâmbio de opiniões, cujas conclusões, interesses e gostos coincidem surpreendentemente com as tendências políticas do mundo nos últimos cinqüenta anos. Seus líderes já falavam há trinta anos dos benefícios da “globalização” e da “economia globalizada” e até utilizavam a terminologia extremista do “governo mundial”, quando ninguém se dava conta do que já era evidente: a construção de um mundo único em que, acima de toda diferença, não tivessem lugar barreiras nacionais de nenhum tipo.

Como pode um grupo assim influenciar tanto? É evidente que não desde a ação direta sobre os governos, embora o fato de que numerosos presidentes pertençam a estes foros não descarte tal possibilidade. Pois eles fazem uso da chave que abre todas as portas: o prestígio. Um tipo de prestígio que impõe linhas de pensamento nos centros nevrálgicos nos quais se formam os futuros dirigentes do planeta. O sistema de subvenções privadas a universidade é uma boa estratégia para eles e, outra similar, a ajuda a fundações e aos meios de comunicação ou a criação dos mesmos. Portanto, o ato de compartilhar ideias e conquistar o consenso sobre as questões chave pode ter enorme importância na política mundial dependendo de quem alcance ditos acordos. Não é o mesmo que o presidente de Castela-Leão, por exemplo, oponha suas opiniões com as de seus colegas, que em uma reunião de reitores das universidades mais prestigiadas do mundo, três conselheiros de presidentes de países importantes, seis fundações bilionárias e uma dúzia de presidentes de multinacionais, cheguem a uma linha de pensamento básica sobre como devem ir as coisas na política internacional. As reuniões deste tipo de grupo constituem, mais que a desculpa da “necessidade histórica” apresentada por nossos governos, o motor do processo de globalização no planeta.

Se além das ideias e do prestígio existem fabulosas quantidades de dinheiro, então este tipo de reunião necessariamente resultará no poder em estado puro, embora nem mesmo seus membros tomem consciência disso. Tal acontecimento é similar à lei da gravidade, na qual não existe nenhuma ação voluntária por parte de ninguém, mas somente ocorre se são proporcionadas as condições favoráveis.

O coquetel explosivo de fortes ideias, disseminadas desde os centros de maior prestígio no mundo, se constitui em um tremendo poder que permeia os resquícios mais negligenciados pelos governos e pelas estruturas de poder de todos os Estados. Com o tempo, tanto a Trilateral quanto o grupo Bilderberg o terão de sobra, surge uma sutil, porém sólida teia de ideias, de influências, de prestígios, de opiniões e de recursos econômicos, que se apoiam uns nos outros e que os novos governantes ou os que se formam para eles, recebem como algo já dado, como uma série de ideias pré-concebidas que não se pode duvidar. A poderosa teia é também um poderoso filtro que se assegura que os que chegam ao topo não são “outsiders”, ou seja, que não sejam pessoas “de fora”, que não sustentem opiniões marginais contra o que já foi estabelecido.

Tal ação de campo, que se reforça a cada dia, destaca a importância de ideias como fonte e origem do poder e nega o tópico, incentivado por setores da esquerda e até mesmo de extrema direita, de que o processo de globalização nasceu da necessidade econômica para crescer sempre.

Ao invés de algo puramente econômico, a globalização surge como uma tendência cultural, uma visão de mundo conscientemente incentivado por pessoas com nomes e sobrenomes, que mantêm uma concepção subvertida de qual deveria ser a organização do poder e da sociedade. Em suma, está acontecendo em todos os lugares uma polarização de ideias: trabalho contra o domínio, o respeito pelo planeta contra a exploração econômica de seus "recursos", economia popular contra a economia transnacional, os políticos a serviço do povo contra os grupos de pressão, afirmação das identidades dos povos frente à dissolução globalizante.

A conclusão disso tudo é que cada vez mais fica claro que o poder de decisão está onde ninguém quer vê-lo, em todo caso, não onde nos dizem.