por Geydar Dzhemal
(2012)
A vida política internacional da última década decorre sob o signo de uma furiosa campanha de propaganda contra o programa nuclear do Irã. O Ocidente tenta desesperadamente criar a sensação de que o Irã está prestes a fabricar a sua bomba nuclear. O escândalo, continuamente alimentado pelos meios de comunicação mundiais anti-iranianos, assim como por diferentes estruturas burocráticas internacionais como a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e alguns burocratas ativos e reformados, tem um caráter tão pouco adequado que muitos se dão conta de que o objetivo do Ocidente é muito diferente. A campanha contra o átomo iraniano não é mais do que uma cortina de fumaça; na realidade, trata-se de derrubar o regime que não é do agrado da "comunidade internacional". Imediatamente surgem várias perguntas. Este mesmo Ocidente "fechou os olhos" perante as armas nucleares da Índia e do Paquistão. Mais ainda, no seu tempo, a União Soviética opôs-se desesperadamente à perspectiva do aparecimento da bomba nuclear chinesa. Parecia que o Ocidente deveria ter unido os seus esforços aos da União Soviética, mas este apoio a Moscou não se produziu, muito pelo contrário: a China obteve ajuda ocidental, também nesta direção. Não é segredo que os cientistas nucleares franceses contribuíram notavelmente no desenvolvimento das tecnologias nucleares por parte da República Popular da China, não só da bomba, mas também na criação dos submarinos nucleares chineses. Quanto à Índia, sabe-se que o seu programa nuclear se apoiava na ajuda de Israel e da África do Sul.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos, sob a forma de ultimato, obrigaram a fechar os seus programas nucleares ao Brasil, Argentina e Chile, que de fato já tinham percorrido todo o ciclo preparatório e estavam no limiar da criação da "arma absoluta". Por outras palavras, os Estados Unidos não podiam permitir um conflito nuclear no seu "ventre" (sabe-se que entre os países latino-americanos existem muitos problemas por resolver, pelo que de vez em quando surgem confrontações armadas). Pelo que se pode tirar a seguinte conclusão: o Ocidente permitiu o aparecimento de armas nucleares no Extremo Oriente e no sudeste asiático, mas pôs todo o seu esforço em impedir que aparecessem no Próximo Oriente, América Latina e… Europa – com exceção da Grã-Bretanha e da França, que entraram no "clube nuclear" como potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. Em todo o resto do território da Europa – que agora inclui os países do antigo Pacto de Varsóvia – as armas nucleares estão sob o controle das forças de ocupação estadunidenses.
Se uns estados têm as bombas atômicas e outros não, é porque "interessa a alguém". Por outras palavras, é preciso que os países nos quais vive metade da população do globo terrestre possuam armas nucleares. É precisamente aquela parte do mundo que atualmente se desenvolve com maior dinamismo, que representa o polo "real" da economia mundial, na medida em que é o produtor de mercadorias. E que, no sentido político, joga cada vez mais o papel do centro alternativo para a realização do projeto da história mundial. Os dois maiores países deste espaço desde sempre se opõem geopoliticamente. Neste contexto, convém recordar que no século XIX a Inglaterra (e, portanto, a Índia britânica) aparecia como um inimigo mortal do Império Celeste: o ópio pelo qual se levaram a cabo "as guerras do ópio" contra Pequim, cultivava-se precisamente na Índia. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos procuravam colaborar com a China intensamente, entre outras coisas através da preparação ativa dos quadros antimonárquicos. A missão protestante norte-americana em Xangai preparava os quadros para o futuro Kuomintang, ou seja, criava na realidade as bases da futura social-democracia chinesa.
O confronto atual entre a Índia e a China não é apenas a herança do século XIX, quando duas potências anglo-saxônicas apareciam como moderadoras; este conflito tem uma história de mais de mil anos e está relacionado com a luta da monarquia confuciana contra a difusão do budismo procedente da Índia no seu país. A Índia sempre atuou no papel do inimigo espiritual e ideológico, enquanto o norte (turcomanos, mongóis) representava um perigo puramente militar.
O Ocidente não apenas permitiu que os dois grandes estados da Asia se armassem. Também tratou com benevolência o problema da não proliferação no que se refere à Coreia do Norte e ao Paquistão. Ambos os países são aliados da República Popular da China e possuem mísseis – que podem transportar cabeças nucleares e cujo alcance é suficiente para atingir os objetivos na região do Extremo Oriente e Sudeste Asiático, mas que não têm alcance suficiente para representar perigo para a parte ocidental da Eurásia.
A Índia também tem um aliado – Israel, que possui mísseis cujo alcance supera em quase o dobro a distância de Telavive a Islamabade, por outras palavras, Israel poderia participar perfeitamente na guerra nuclear entre os países sul-asiáticos. O terceiro jogador nuclear na coligação anti-chinesa poderia ser a Rússia, e o Ocidente trata ativamente de consegui-lo. Um passo sério nesta direção foi o apoio prestado pela Rússia ao agrupamento da OTAN no Afeganistão. O trânsito através do território russo, além de significar a participação na guerra da OTAN contra o povo afegão, representa uma potencial ação pouco amigável em relação a Pequim. É também muito eloquente a comparação da dinâmica da colaboração técnico-militar entre a Rússia e a China por um lado, e da Rússia com a Índia, por outro.
Claro que contra a China, Coreia do Norte e Paquistão se formou uma coligação mais ampla, que supera em muito o quadro dos países mencionados, na posse de armas nucleares. Nela entram também o Japão, cuja frota por enquanto supera as possibilidades das Forças Navais chinesas; a Coreia do Sul, capaz de neutralizar a sua outra metade na península; o Vietnã, cuja inimizade com a China não é menos antiga que o enfrentamento sino-hindu; Taiwan, que por motivos óbvios se converterá num dos elos do cerco à República Popular da China; a Austrália e a Nova Zelândia, que já hoje levam a cabo atividades anti-chinesas, incluindo jogos militares e manobras conjuntas com a Índia e o Japão; as Filipinas, que têm uma disputa territorial com a grande potência comunista; por último, os estados nada desprezáveis da Malásia e da Indonésia, que falam a mesma língua e têm o mesmo problema com a diáspora chinesa nos seus países. Na prática, toda a parte oriental da Grande Eurásia e da Oceania se alinham contra a China, o que não é de estranhar: "graças" à China, o crescimento industrial desta região é substancialmente menor do que poderia ser, sem mencionar que, devido aos esforços propagandísticos do Ocidente, entre os povos que rodeiam a China arraigou-se o mito do "perigo chinês" que ameaça a sua segurança.
Será que aquelas forças cosmopolitas do Ocidente que querem organizar a mudança radical do modelo de civilização, utilizando os cataclismos geoestratégicos controlados, não têm medo de desencadear uma guerra termonuclear? Estarão dispostas a assumir o risco de perder a vantagem em altas tecnologias, coisa que poderia ocorrer no caso da troca de golpes nucleares e da correspondente onda eletromagnética? Em primeiro lugar, os especialistas estão convencidos de que a "cegueira" dos meios eletrônicos-digitais em consequência das explosões nucleares só terá consequências a curto prazo. Segundo a intenção dos estrategas ocidentais, o duelo nuclear entre, por um lado, China e Paquistão e, por outro, a Índia, Israel e possivelmente a Rússia, terá um caráter limitado e breve, suficiente para colapsar a infraestrutura destes estados, mas demasiado periférico para representar um perigo para o Ocidente. Como resultado desta troca de golpes, morrerão imediatamente milhões de pessoas, centenas de milhões se encontrarão na situação do caos incontrolado, de emigração forçada, acompanhada de fome e de epidemias. A parte mais populosa do planeta receberá um golpe terrível, o potencial produtivo da Índia, do Paquistão e dos países limítrofes será destruído.
Sem dúvida, uma guerra semelhante causará enormes comoções político-socais nas demais regiões do mundo, em primeiro lugar, paradoxalmente, nas regiões economicamente mais desenvolvidas. A Europa e os Estados Unidos criaram a economia de consumo, deslocando a produção para os países com a mão de obra mais barata. O colapso no sudeste asiático causará o déficit das mercadorias naqueles países que consomem em escala gigantesca as mercadorias chinesas, sul-coreanas, taiwanesas, malaias e outras. Como consequência deste déficit de mercadorias, haverá mercado negro, produzir-se-á o derrube das divisas, a revolta social – todos aqueles elementos, embora muito mais reforçados, que caracterizaram a situação político-econômica da Europa ao termo da Segunda Guerra Mundial.
Como pensa o Clube Tradicionalista (o verdadeiro artífice da "globalização" – N. do T.) resolver o "problema islâmico"? Já que a guerra nuclear entre a China, a Índia e o Paquistão, com a provável participação de Israel, não afetará o principal bloco dos territórios nos quais está situado o Islã. O potencial humano e organizativo do mundo islâmico (se não contarmos com o Paquistão, assim como, possivelmente, as regiões islâmicas próximas que sofreriam as consequências da guerra asiática) ficará fundamentalmente intacto…
O Clube Tradicionalista – a elite cosmopolita ocidental tem em conta a possível ameaça do fator islâmico no contexto da profunda crise política no seu próprio espaço e das consequências do cataclismo asiático para o resto do mundo. Mas o Ocidente conta com dois fatores que, na sua opinião, poderão neutralizar o mundo islâmico. Em primeiro lugar, os tecnólogos políticos que trabalham para os tradicionalistas querem criar para esse momento o "califado" – um gigantesco gueto civilizacional para os muçulmanos, que estará totalmente controlado pela cúpula governante posta no poder. O mais provável é que a estrutura de governo deste "califado" se apoie nos governantes árabes de origem aristocrática tradicional e com uma orientação estritamente salafista. Com a criação desta formação, produzir-se-á inevitavelmente um importante conflito salafista-xiita que determinará o destino político-religioso do Irã. Convém recordar que o Irã nem sempre foi xiita: até ao ano 1500 era um país sunita mais.
Outro fator que deverá neutralizar os muçulmanos serão as consequências da guerra nuclear no Oriente: a catástrofe humanitária do subcontinente indiano e da China com milhões de refugiados e outros problemas subjacentes, na opinião dos estrategas ocidentais, deverão absorver por completo a atenção, os recursos e o potencial de manobra política do mundo islâmico. O mesmo inevitavelmente se refere à Rússia, independentemente de participar no conflito contra a China ou de – coisa pouco provável – conservar a sua neutralidade.
O caos na Eurásia e os grandes distúrbios populares na Europa e nos Estados Unidos permitirão à elite cosmopolita tentar, num tempo muito curto, passar para a nova formação político-social, que porá o ponto final na prolongada disputa entre o capitalismo e o socialismo, apagando do mapa ambos os projetos.
Claro que isto não significa que tudo será exatamente assim. Não se trata mais do que dos planos da elite do clube, que têm sérias possibilidades de se realizarem desta forma. Mas estes planos ainda podem ser frustrados pela heroica e entregue resistência de todas as "pessoas de boa vontade".
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