07/12/2010

Tormenta Subterrânea

por Martin Heidegger



A tormenta subterrânea retumba,
inaudível para todos os muitos, prossegue
em âmbitos supramundanos -
distante golpe do seer.
Mundo e terra há muito misturados,
perturbados na lei de sua contenda
subtraem às coisas toda circunscrição.
Número se arrebata na vazia quantidade,
nunca mais doa laço e imagem.
Vige como "sendo" o que "vive",
mas "viver" só continua vivendo do clamor
de uma ruidosa suposição,
que já à próxima retarda.
Todavia, eles velam -
os secretos vigilantes
de uma insurgida transformação:
distante golpe do seer
entre turvo fazer e o que é feito.
 
 
* Seer (Seyn) -> "Meditações; Capítulo IV - Acerca do Projeto do Seer"
O Seer - nada divino, nada humano, nada mundano, nada terreno - e, contudo, tudo isto junto como o entementes - inexplicavel, sem efeito, para além de poder e de impotência essencia-se o seer.

Incontornavel para o homem, uma vez que ele se encontra assim no aberto do ente, ele mesmo sendo, comportando-se, postando-se em relação ao ser.

A partir do ente, o seer nunca é explicável, porque a essenciação do seer aponta para o abissal, que recusa toda a apelação ao ente, uma vez que o abismo impele unicamente para o interior do seer. Por isto, a fundação da verdade do seer não pertence ao homem presente e "vivente", mas ao ser-aí (dasein) para a insistência na qual o ser-humano precisa, de tempos em tempos, se transformar.

Homo Economicus

"Nenhum sistema - liberal ou socialista - fundado sobre a autonomia integral e a primazia do econômico, procura a satisfação geral. O homo-economicus existe, mas não é um homem feliz. A satisfação das suas necessidades materiais, das suas necessidades centradas sobre apenas uma esfera, não apazigua o seu desejo. Pelo contrário, reforça-o, torna-o tão insaciável como frustrado. Toda a concepção da sociedade fundada sobre o bem-estar, sobre o 'welfare', não pode senão fracassar na sua ambição de suscitar a felicidade. Esta resulta da apropriação pelo homem do seu ser próprio, da apropriação pelo homem de uma personalidade específica no interior de uma identidade coletiva - enquanto a sociedade mercantil, massificada, desculturalizante, despersonalizante, não se constrói senão pela aglomeração de homens-massa, ou seja, sobre as ruínas das diferenças e das personalidades."

06/12/2010

Superar as contradições e cumprir o Dever

"A pergunta que me torna obcecado é se cumpri o que havia prometido. Não há dúvidas de que com minha negação e política prometi algo. Não sou um político, e manter a palavra empenhada não significa para mim procurar para alguém vantagens reais; ainda assim, estou obcecado dia e noite pela sensação de não ter cumprido ainda uma promessa mais importante e necessária que as dos políticos. Ter vivido estes vinte e cinco anos de democracia, obtendo vantagens dela apesar de minha desaprovação, fere meu espírito há muito tempo."

(Yukio Mishima)

05/12/2010

Aparente contradição

"Sempre gostei de juntar e mesclar o contraditório: Nação e Europa, Socialismo e Aristocracia, liberdade de pensamento e autoridade, misticismo e anti-clericalismo."

(Pierre Drieu La Rochelle)


Liberdade e Igualdade

por Antonio José de Brito

Estes dois ideais, ainda que em perfeita lógica política se não possam dissociar, contradizem-se, porém, intimamente.

Do ponto de vista do primeiro, considera-se o indivíduo como um ser autónomo, a cujo completo desenvolvimento nada deve entravar. Todas as limitações, todas as disciplinas têm que deixar de existir. Esta construção, como é óbvio, postula na base a existência duma igualdade de possibilidades, duma igualdade de alicerce.

A liberdade sem limites, porém, conduziria à tirania dos mais fortes sobre os mais fracos. Para evitar tal perigo insere-se o Estado liberal, como garante das esferas da autonomia de cada um.

O Poder existe, pois, a fim dos direitos individuais não colidirem e é justificado pela Liberdade.

Se os homens, por efeitos dum aperfeiçoamento progressivo, conseguirem manter por si sós o justo equilíbrio dos seus poderes o Estado desaparecerá por inútil.

De qualquer forma, a sua tarefa é restrita — um mal necessário segundo a expressão consagrada.

Nesta teoria, a igualdade desempenha um papel secundário. Os indivíduos constituem compartimentos isolados, cujas relações são tuteladas pelo Estado. O Liberalismo encara-os, dum ponto de vista nitidamente associal. É uma concepção em que “os homens julgam-se iguais porque têm a noção que são livres...”.

Há, contudo, uma forma diferente de conceber a Liberdade.

Só existe esta quando nenhum homem pode ser superior a outro. Onde há um superior pode haver, em breve, um chefe, isto é, uma submissão. “A liberdade não pode subsistir sem a igualdade” a qual, contrária às realidades positivas, tem que ser obtida artificialmente, por meio do Estado, convertido, assim, num instrumento de nivelação social, instituição social, instituição despótica, abrangendo todos os ramos da vida; Estado totalitário pois.

Nesta teoria, só existe liberdade quando existe igualdade. Logo, o governo do povo só pode ser exercido pelo povo, por intermédio do sufrágio universal. É este que dita a lei. E como não há possibilidade de obter decisões unânimes, a vontade da maioria será a vontade do povo — isto é — todo o acto emanado da maioria será legítimo.

O Estado, confundido com esta, é o agente decisivo da nivelação; da liberdade de cada um, como ser isolado, passava-se para a liberdade da colectividade; quer dizer — exige-se que ninguém se eleve dentre esta, sem o que seria ameaçada na sua independência.

Concepção bem mais imbuída de sentido social que a liberal, pois que considera e com razão que os indivíduos não existem fora da mútua convivência, mas interdependentes.

Partindo, porém, da ideia falsa da Liberdade chega a conclusões inaceitáveis.

A verdade do seu sentido social é bem demonstrada pela experiência do Liberalismo, que degenerou sempre na Plutocracia, ou seja, no domínio dos mais ricos.

Não é, na realidade, possível dar a máxima liberdade aos indivíduos, sem que em virtude da desigualdade natural, uns se não sobreponham aos outros.

E, assim, a intervenção mínima do Estado liberal teria de ser enormemente ampliada, de forma que a sua missão de manter o justo equilíbrio de liberdades dentro da ordem pública se transformasse na tarefa de colocar a todos debaixo da mesma tutela omnipotente.

A Igualdade, como o notaram Le Bon e Bainville, é sempre o ideal preferido das massas porque se dirige a um sentimento que elas possuem em alto grau — a inveja.

Por isso se sujeitam ao domínio de um César que a todos nivele, diante do seu poderio ilimitado. César insuportável aos igualitários puros, mas estimado pelas turbas porque realiza, dentro do possível, o que os utopistas tentam fazer no campo especulativo teórico.

O Cesarismo, porém, é efémero. Produto de paixões exacerbadas dos ideólogos da liberdade e da igualdade que, na sua luta, esqueceram os efeitos das doutrinas sobre as multidões, justifica-se, um grande número de vezes, pelas urgências da salvação pública. Vive, enquanto viver não o Ditador, como pessoa, mas como mito. Enquanto for encarado como um super-homem, enquanto for considerado omnisciente e omnipotente, enquanto todos dele esperarem a salvação; no momento em que, através do César, surgir o homem está morto o regime.

O prestígio do Ditador não provém duma tradição multissecular, nem da grandeza da obra efectuada por seus antepassados. Pelo contrário, é momentâneo, ocasional, logo vive do actual e para o actual.

O Cesarismo, aliás como a Democracia, pressupõe uma mística do homem privilegiado opondo-se à do povo soberano, à das maiorias infalíveis. Só com uma diferença! A primeira constitui um ideal dinâmico, nobre, a segunda um ideal estático, o ideal burguês.

O “viver perigosamente” de Mussolini contra o “Enrichissez-vous” de Guizot.

Do conceito de liberdade individual ilimitada, transita-se para o de liberdade colectiva, liberdade essa que já se assula perante a Igualdade, que só existe por meio desta.

Desenvolvimento lógico duma teoria cujas premissas residem no conceito do indivíduo, ser associal!

Partindo daí, a sociedade só pode ser explicada por um contrato que formule as condições da garantia da independência que o homem possui por natureza. É, então, que surge na determinação dessas condições a contradição entre Liberdade e Igualdade.

E ou se concede a cada indivíduo a capacidade de ser diferente dos outros — liberdade no seu sentido liberal, ou se elimina toda e qualquer superioridade — liberdade igualitária.

De cada uma destas posições, desenvolvendo ao máximo o seu conteúdo, se chega ao Anarquismo e ao Comunismo. Realmente a libertação do indivíduo conclui-se com a destruição do Estado. Para o anarquismo, não resulta daí, de forma alguma, o perigo de domínio dos fortes sobre os fracos porque: — em primeiro lugar, acredita que esses vestígios de barbárie pertencem não ao indivíduo, mas à sociedade que o perverte; em segundo lugar, porque eleva, ainda mais do que o Liberalismo a ideia da autonomia do homem.

Por seu turno, a libertação da colectividade, levada ao extremo, atinge, igualmente, a destruição do Estado após um período de transmissão. Ora este é o ideal marxista — a existência duma sociedade sem classes, isto é, sem Estado, pois que o marxismo considera o Estado como o meio de opressão duma classe por outra.

O Anarquismo e o Comunismo, prolongamento de duas posições que por sua vez estão entre si logicamente ligadas, vêm a chegar a conclusões idênticas. É que em ambos, também se encontra a origem individualista, e desenvolvida ao máximo do seu poder lógico.

Mas o Anarquismo e o Comunismo esbarram com a realidade forte do homem-social e, por isso, jamais foram factos. O Anarquismo fica no estádio liberal, o Comunismo na social-democracia (excepto quando na ditadura dum homem — hoje Estaline).

Visando finalidades idênticas, combater-se-ão, sempre, dum lado o Estado polarizado em volta da Liberdade, do outro o Estado polarizado em torno da Igualdade.

04/12/2010

Silêncio Totalitário

"Grande é a verdade, mas ainda maior, sob um ponto de vista prático, é o silêncio sobre a verdade. Ao simplesmente não mencionar certos temas...os propagandistas totalitários têm influenciado a opinião pública muito mais efetivamente do que eles poderiam pelas denúncias mais eloqüentes."
(Aldous Huxley)

Sobre a Autoridade

por Alberto Buela

Um dos pontos débeis do pensamento politicamente correto é esquecer, ignorar ou não considerar certos temas de todos os dias como a dor, o envelhecimento, a morte, a hierarquia, a ordem, a autoridade.

A respeito deste último tema, sabemos que desde o iluminismo (século XVIII) até ao progressismo dos nossos dias deu-se a negação sistemática da autoridade para substitui-la por critérios meramente racionalistas. Sem notar que não pode existir nenhum conhecimento livre da autoridade, pois ela é um seu elemento constitutivo. Ainda que a autoridade não possa substituir o juízo próprio, ele não exclui que a autoridade seja fonte de verdade.

Por outro lado, nenhum homem pode pensar a partir “somente da sua razão”, mas antes começa a pensar no seio de uma determinada tradição de pensamento ou cultura. Todo o homem nasce dentro de grandes ecúmenos culturais que condicionam o seu sentido de ser no mundo.

Qualquer um que ouça a palavra autoridade associa-a imediatamente com a figura do que manda sendo o seu correlativo aquele que obedece. A relação mando-obediência impõe-se de início como a dupla a partir da qual começamos a entender aquilo que informa o conceito de autoridade. Esta última podemos caracterizá-la, numa primeira definição, como a imposição da vontade de um homem sobre outro.

Mas assim que nos detemos sobre ela vemos que esta definição não é de todo suficiente porque nos fala mais sobre a consequência do exercício da autoridade do que da autoridade propriamente dita. E as definições para serem completas e acabadas têm de apanhar a essência do que pretendem definir e não somente a sua finalidade.

A versão autoritária da autoridade vincula-a com a obediência, à priori, cega ou mecânica. De fato, esta concepção da autoridade esteve ligada às ordens militares ou religiosas, sobretudo no período de formação dos seus membros. Autoritário é aquele que exerce o seu poder para obter a obediência de outro. 

Mas, como dizíamos, a natureza da autoridade não se esgota na obediência mas antes há que encontrá-la a partir do ato de reconhecimento de um saber superior, em qualquer aspecto da vida, que um homem constata noutro. A superioridade do saber do outro sobre o nosso é a origem da autoridade.

A autoridade não se recebe mas antes é concedida por um homem a outro. É concedida por aquele que reconhece no outro um saber ou conhecimento superior ao que ele possui na matéria ou tema de que se trate. Ninguém é autoridade em tudo, é-se sempre autoridade nalguma ordem de coisas, domínios ou disciplinas, ainda que nenhum de nós esteja livre dos “tudólogos”, os que “tudo-sabem”. A única “tudologia” aceitável é aquela dos pais sobre os filhos, e só até aos seis ou sete anos de idade.

A autoridade funda-se sobre o saber reconhecido de alguém e na necessidade que esse conhecimento gera. O centenário filósofo Hans Gadamer (1900-2002) escreveu: a autoridade corretamente entendida tem a ver, não com a obediência, mas com o conhecimento.

O homem, a partir do momento em que reconhece outro como autoridade, confia no que este diz como sendo verdade. É por isso que a autoridade pressupõe o conhecimento ou o saber daquele que a exerce, enquanto a obediência revela o poder, indica-nos o exercício concreto de autoridade de quem a exerce.

Assim, a autoridade, que como exercício se manifesta no campo político-social pôde ser definida, muito acertadamente, pelo filósofo cético Giuseppe Rensi (1871-1941), na sua obra Filosofia da Autoridade (1920) como: "o ato que determina o que de fato vale como justiça e moral…entre opostas verdades teóricas racionalmente possíveis é a autoridade que decide o que de fato deve valer como se fosse a justiça, o bem, a verdade".

A objeção que nasce da politologia e da sociologia ao observar que nas nossas sociedade nem todas as autoridades dizem a verdade, pois existem autoridades que infundem conhecimentos falsos para manipular as pessoas, objeção que também pode aplicar-se à manipulação de grupos sociais menores, é difícil de contestar. Há que fazer a distinção entre “potestas” e “auctoritas”. A autoridade entendida como poder pode mentir, e de fato mente, para alcançar a obediência, mas a autoridade enquanto “auctoritas”, ou seja, em si mesma, funda-se sobre a verdade. Pois o conhecimento é sempre verdadeiro, um falso conhecimento é um desconhecimento.

Ainda que a autoridade gere obediência, ela não é obediência, essa é a consequência do exercício da autoridade. Mas, a autoridade tem como finalidade somente alcançar a obediência ou procura, e pode, aspirar a algo mais?

Uma vez mais temos que aplicar o velho princípio metodológico da filosofia clássica “distinguere ut iungere” (distinguir para unir) e assim discriminar entre bens externos e bens internos. A autoridade, no campo dos bens externos, pode, numa prática mal feita (uma pseudo-investigação) lograr prestígio, fama e dinheiro. Há tansíssimos académicos de pacotilha hoje em dia. Mas, pelo contrário, a autoridade, nos bens intrínsecos, só se pode afirmar realizando bem a prática em questão. Os bens internos a determinada prática só se podem obter realizando bem essa prática.

Assim, pôde afirmar o grande filósofo escocês Alasdair MacIntyre (1929- ) que a virtude (analogicamente a autoridade) só pode ser definida em relação com as práticas e com os seus bens internos.

E estes bens internos não são só para quem os realiza mas são bens para toda a comunidade. Uma autoridade, mesmo a mais isolada, é sempre uma autoridade socialmente reconhecida. 

Assim, o pseudo-investigador do exemplo, esses especialistas das Comissões e das Academias, usurpadores de bolsas, prestígios e cânones, poderão ter um currículo alargado e ganhar bom dinheiro, mas o que nunca terão é a satisfação de ter podido ampliar os conhecimentos das suas disciplinas, metodologicamente garantidos pela prática de investigar e a autoridade que os guia.

Vemos, então, como a natureza ou essência da autoridade se revela de duas formas: por um lado no reconhecimento do superior por parte do inferior, e por outro no serviço do superior ao inferior por meio de uma boa prática. A finalidade última da autoridade é o progresso existencial dos que a acatam. Dá-se, assim, por cumprido, o último sentido etimológico de “auctoritas”, que os romanos entendiam como reconhecimento, respeito e aceitação, que deriva do substantivo “auctor” = criador, autor, instigador, por sua vez derivado do verbo “augere”, que significa aumentar, fazer progredir.

03/12/2010

Estado Orgânico

"A característica fundamental do verdadeiro Estado é a sua organicidade. Um Estado orgânico compõe-se de partes distintas e diferenciadas, engloba unidades parciais dotadas de vida própria e hierarquicamente ordenadas. Tem por isso como base os valores da qualidade, da justa desigualdade e da personalidade. O seu princípio é o clássico suum cuique: a cada um o que lhe pertence e a cada um o seu direito, de acordo com a sua dignidade natural."
(Julius Evola, Trecho de "O Caminho do Cinábrio")

02/12/2010

Ezra Pound - Com Usura (canto XLV)

por Ezra Pound


Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra
blocos lisos e certos
que o desenho possa cobrir;
com usura
nenhum homem tem um paraíso
pintado na parede de sua igreja
harpes et luthes
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo se irradie do entalhe;
com usura
ninguém vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas
nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas para vender, vender depressa;
com usura, pecado contra a natureza,
teu pão é mais e mais feito de panos podres
teu pão é um papel seco,
sem trigo do monte, sem farinha pura.
Com usura o traço se torna espesso
com usura não há clara demarcação
e ninguém acha lugar para sua casa.
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear.
COM USURA
a lã não chega ao mercado
a ovelha não dá lucro com a usura
A usura é uma praga, a usura
embota a agulha nos dedos da donzela
tolhe a perícia da fiandeira. Pietro Lombardo
não veio da usura
Duccio não veio da usura
nem Pier della Francesca, nem Zuan Bellini veio
nem usura pintou La Callunia.
Angelico não veio da usura; Ambrogio Praedis não veio,
Nenhuma igreja de pedra lavrada, com a inscrição:
Adamo me fecit.
Nenhuma St. Trophime
Nenhuma Saint Hilaire.
A usura enferruja o cinzel
Enferruja a arte e o artesão
Rói o fio no tear.
Mulher alguma aprende a urdir o ouro em sua trama;
A usura é um câncer no azul; o carmesim não é bordado,
A esmeralda não encontra um Memling.
A usura mata a criança no ventre
Detém o galanteio do moço
Ela
trouxe paralisia ao leito, jaz
entre noivo e noiva
CONTRA NATURAM
Putas para Elêusis
cadáveres no banquete
a comando da usura.

01/12/2010

Descrescimento

"Redução de tamanho não deve ser confundido com crescimento negativo, o que é um oxímoro: significa progredir para trás. O quê os franceses chamam 'décroissance' não tem um equivalente fácil em português já que diminuição, decréscimo e redução todos tem uma conotação negativa que 'décroissance', que significa de-crescimento, não tem. Isso diz muito sobre a dominação psicológica da economia de livre-mercado.

Nós temos visto como até mesmo uma diminuição no ritmo de crescimento mergulha nossas sociedades no caos, causando desemprego e destruindo programas sociais, culturais e ambientais que ao menos mantém os elementos básicos de uma vida decente para a maioria das pessoas. Então o quê aconteceria se a taxa de crescimento fosse efetivamente negativa? Como em uma sociedade baseada no trabalho, sem trabalho, não poderia haver nada pior do que uma sociedade baseada no crescimento, sem crescimento. A esquerda progressista permanecerá aprisionada nesse pensamento a não ser que seja capaz de revisar radicalmente suas crenças mais profundas.

O decrescimento só pode ser pensado no contexto de uma sociedade que não é baseada no crescimento, que nós deveríamos tentar definir. Essa política poderia começar pela redução ou remoção do impacto ambiental de atividades que não trazem satisfação. Muitas setores estão clamando por decrescimento: nós poderíamos revisar a necessidade de tanto movimento de pessoas e bens ao redor do planeta e relocalizar nossas economias, reduzindo drásticamente a poluição e outros efeitos negativos do transporte de longa distância. Nós poderíamos questionar a necessidade de tanta propaganda invasiva e corrosiva. Nós poderíamos perguntar a nós mesmos quantos produtos descartáveis realmente necessitam ser descartáveis, por algum motivo além de alimentar a máquina de produção em massa.
(Serge Latouche, Trecho de "Poderia o Ocidente ser feliz com menos? O mundo reduzido")