07/07/2011

Marxismo é Religião

A segurança de que a história estava ao seu lado foi um grande fomento para os revolucionários. Eles aprenderam com júbilo que a causa pela qual eles estavam impelidos de qualquer modo, por motivos desde um senso de injustiça até ressentimentos invejosos, estavam predestinados ao triunfo. Essa crença é essencialmente uma fé religiosa. Não obstante todas as suas possibilidades como instrumento analítico, o marxismo tornou-se, acima de tudo, uma mitologia popular, baseada em uma visão da história que postulava que os homens estavam fadados pela necessidade, porquanto suas intituições estavam determinadas por métodos de produção evolutivos; baseava-se também na fé de que a classe trabalhadora era o povo eleito, cuja peregrinação por um mundo terrível terminaria com o estabelecimento de uma sociedade justa na qual as necessidades da lei de ferro deixariam de existir. Os revolucionários poderiam, assim, ficar confiantes de possuírem argumentos cientificamente irrefutáveis em direção a um progresso irrefutável para um novo milênio socialista, enquanto se empenhando em um ativismo social que parecia mesmo desnecessário. (...)

Essa nova religião foi uma inspiração para a organização da classe trabalhadora; a primeira organização internacional de trabalhadores surgiu em 1863. Embora composta por muitos que não seguiam as idéias de Marx (anarquistas, entre outros), sua influência era grande nela (ele próprio era seu secretário). Seu nome assustava os conservadores, dentre os quais havia aqueles que o culpavam pela Comuna de Paris. Quaisquer que fossem seus motivos, seus instintos estavam corretos. O que se deu após 1848 foi que o socialismo tomou a tradição revolucionária dos liberais, e a crença no papel histórico da classe trabalhadora industrial, ainda pouco visível fora da Inglaterra (sem falar longe de ser predominante noutros países), estava baseada na tradição que mantinha que, de modo geral, a revolução não teria erro. Formas de pensar a Política que evoluíram da Revolução Francesa foram assim transferidas para sociedades nas quais elas mostrar-se-iam crescentemente inapropriadas. Quão fácil tal transição poderia ser mostrava-se pelo modo como Marx tomou o drama e a exaltação mítica da Comuna de Paris para o socialismo. Numa poderosa brochura ele a anexou a suas próprias teorias, embora ela fosse, na verdade, o produto de muitas forças complicadas e diversas, expressando pouco no sentido de igualitarismo, muito menos de socialismo ‘’científico’’. A Comuna emergiu, ainda, em uma cidade na qual, embora enorme, não era um grande centro manufatureiro, para os quais Marx predisse que a revolução proletária se desenvolveria. Os proletários, em vez disso, mantiveram-se persistentemente quiescentes. A Comuna foi, de fato, o último e maior exemplo do radicalismo revolucionário tradicional parisiano, que resultou em um grande fracasso (e o socialismo sofreu por isso, em virtude das medidas repressivas decorrentes), que não dissuadiu Marx de fazê-la ponto central na mitologia socialista.

(ROBERTS, J.M. ''History of The World'')

A Arte de Giovanni Boldini


















06/07/2011

O Verdadeiro Problema com a Televisão

O problema com a televisão é idiotizar as pessoas?

Uma tese ridícula é a de que a televisão idiotiza as pessoas. Contudo, essa é uma acusação sem fundamento, uma vez que é tomar efeito por causa.

A maioria das programas de televisão é composta por entretenimento ou provocação sexual. As notícias e os programas de estúdio são propagandas. Os programas de perguntas e respostas testam nossa memória, não nossa habilidade de pensar, ou nossa habilidade de lidar com questões desagradáveis.

Ninguém é forçado a assistir televisão. A maioria das pessoas assiste a muitas horas de televisão por dia simplesmente porque elas gostam do que a televisão oferece.

A televisão nunca se teria tornado um produto de consumo popular se os únicos programas disponíveis fossem educativos ou profissionalizantes. Se os únicos programas fossem de engenheiros discutindo questões técnicas sobre como consertar aeronaves, ou fazendeiros discutindo como manter terras produtivas, a televisão seria conhecida como um produto educacional.

Ao contrário, a venda de livros didáticos e revistas científicas aumentaria se elas incluíssem piadas, quadrinhos de comédia, boatos sobre estrelas de Hollywood, sessão de esportes, fotos pornográficas e um jogo de sete erros com uma foto da Dilma Rousseff.

Em suma, a televisão não está nos idiotizando.

Na verdade, as pessoas que mais gostam de televisão são aquelas menos interessadas em pensar, aprender e lidar com problemas. Elas preferem ficar sentadas por horas em uma condição passiva e deixar a televisão entretê-las e provocá-las.

Não é surpreendente que tais pessoas são as menos interessadas em aprender – para não falar em fazer alguma coisa contra – a corrupção do mundo. Não culpemos a televisão, culpemos as pessoas que assistem a ela.

O verdadeiro problema: Os donos dos canais de televisão são exploradores

Aqueles no controle dos canais de televisão estão abusando e explorando as sociedades, mas a maioria das pessoas defende os programas de televisão, argumentando que eles são divertidos. Seguindo essa linha de pensamento, se alguma coisa agrada uma pessoa, então, tal coisa é ‘’boa’’.

Será que demos fazer só as coisas que nos dão prazer?

Imagine se a diretoria de uma escola tentasse aumentar as vendas da cantina de sua escola. O que você acharia se as crianças passassem a jogar o lanche que sua mãe fez para elas e começassem a comprar doces, refrigerante, tortas, bolos, e outras coisa cheia de corantes e estimulantes artificiais?

O que você acharia se as crianças defendessem a diretoria com argumentos como:

"Eu gosto mais da comida da escola.Por que é que eu não posso comer o que eu gosto? Qual o sentido de viver se não for para fazer o que se gosta?

Nós consideramos criminoso o ato de abusar sexualmente de garotas com problemas mentais, então por que é que não achamos criminoso as empresas midiáticas tirarem vantagem da população medíocre?

Não importa se as pessoas que assistem televisão gostam dos programas. As pessoas no controle da mídia são criminosos, e elas estão tirando vantagem das pessoas de modo legalizado, ainda. Um ótimo exemplo foi a mídia dos EUA depois do 11 de setembro: Os programas ficaram saturados com mentiras e enganação, de modo a estimular a ira e o ódio para instigar guerras à vontade.


05/07/2011

Anthem for Doomed Youth

por Wilfred Owen

What passing-bells for these who die as cattle?
    Only the monstrous anger of the guns.
    Only the stuttering rifles’ rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells,
Nor any voice of mourning save the choirs,—
The shrill, demented choirs of wailing shells;
And bugles calling for them from sad shires.

What candles may be held to speed them all?
    Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes.
    The pallor of girls’ brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.


Crítica e Utopia: A Democracia contra o Liberalismo

por Jaume Farrerons

O pensamento crítico tem representado, singularmente desde a Ilustração, um dos motores do desenvolvimento social do Ocidente e um componente essencial da democracia. Crítica, diálogo, racionalidade e poder público democrático são noções estreitamente ligadas tanto na teoria acadêmica como na prática quotidiana. A crítica serve-se do conceito como ferramenta para construir, desde os valores de justiça, liberdade e verdade, imagens racionais de futuros possíveis que permitam confrontar o dado com projeto político progressista. Estamos diante de uma vontade que quer modificar a realidade, sim, porém sempre em função de princípios éticos inerentes à idéia mesma de razão. Este labor de construção ideal frutificou em um conjunto de conquistas sociais que formam parte da identidade européia em quanto conquistas históricas da civilização ocidental. Em efeito, não deve-se confundir a crítica com a utopia, articulada esta ao redor dos valores de felicidade, igualdade e fraternidade. A crítica, quando tem sido autêntica, tem demonstrado sua solvência. Por sua vez, a utopia hedonista tem fracassado uma e outra vez gerando dor e devastação ali onde manu militari queria construir seus paraíses delirantes com mares de laranjada. Ainda assim, e apesar da evidência, atualmente pode-se constatar por todo lugar uma paralisia do pensamento crítico. O argumento do liberalismo triunfante é precisamente o fracasso dosp rojetos utópicos e o alto custo humano que estes projetos supuseram para as sociedades que "morderam" o anzol profético. A armadilha dos representantes do pensamento único está na confusão interessada entre crítica e utopia. Ainda assim, em alguma coisa tem razão o bando liberal, a saber: a esquerda tem sido incapaz de olhar de frente seu passado criminoso, de maneira que a crítica, enquanto fator de progresso social, tem sido aprisionada pela opacidade informativa e pela duplicidade ética até afundar na esterilidade mais absoluta.

Se traduzimos o dito à linguagem das categorias políticas, o escândalo é todavia mais evidente. O silêncio daqueles que de forma pedante tem autodenominado-se intelectuais de esquerda, os mesmos que durante décadas monopolizaram o prestígio do pensar - a idéia de um intelectual de direita apresentava-se-lhe uma contradição em termos, ainda que agora tenham tornado-se mais humildes e dedicam-se a fuzilar abertamente as obras completas de Heidegger - teve seus custos em termos estritamente políticos. Estes intelectuais cúmplices do gulag tem-se ido deslizando de forma subreptícia, às vezes inconscientemente, na direção do liberalismo das realidades ali onde o utopismo farisaico das idealidades (por exemplo, os louvores à imigração em nome da solidariedade e do multiculturalismo) resultava mais útil para o sistema capitalista e para as altas finanças. O próprio liberalismo descobriu que os valores de esquerda e a cultura utópica, domesticada pela estética da sociedade de consumo, pode resultar muito eficaz para enquadrar e regimentar as massas no âmbito do mercado. Assim, consolidou-se, desde a matriz social-democrata, o que poderíamos denominar a esquerda laranja, uma maneira de atuar e pensar caracterizada pela gestão administrativa dos valores utópicos ao serviço da bolha financeira, quer dizer, do grande satélite que gira ao redor da Terra controlando os movimentos do formigueiro humano em benefício dos canalhas com gomalina. A sociedade de consumo tornou-se, por fim, utopiap ossível e falar de crítica já não tem sentido. "Foi o liberalismo que realizou a utopia, as questões que agora cabe discutir são meramente técnicas, porque insistir ainda na crítica? Blá blá blá" Esta crítica pertenceria, ao que parece, ao mundo da esquerda radical, quer dizer, de setores políticos anti-democráticos que representam um perigo para a convivência em liberdade...etc.

Desde uma perspectiva de esquerda, o principal problema deveria reduzir-se, em termos estratégicos, a uma reativação do espaço público situado à esquerda da esquerda liberal, quer dizer, a esquerda radical. Porém este enclave segue definindo-se marxista-leninista - ou anarquista - fato que o converte em espaço muito vulnerável às investidas do pensamento único. E não trata-se somente da incapacidade do marxismo, em todas as suas versões e seitas (stalinistas, trotskystas, maoístas, independentistas, etc.) de responder às questões que apresenta a sociedade pós-moderna, mas sim também da impossibilidade axiomática de conciliar o marxismo com os princípios democráticos entendidos em um sentido amplo. Um pequeno problema que o marxismo compartilha com o fascismo. Esta afirmação fica acreditada precisamente ao voltar-se a vista para o passado histórico dos sistemas marxistas. Todavia mais: trata-se da covardia, por parte da esquerda, a olhar de frente este passado sem que sua celebérrima atitude crítica, o pouco que fica dela aos soberbos "intelectuais" com sapatilhas, cigarro e lenço palestino, fique pulverizada diante da espantosa realidade. Se fosse possível medir o grau de criminalidade, a criminalidade do marxismo superaria em muito a do nazismo. Pode afirmar-se que as "travessuras" da esquerda representam o maior genocídio da história humana. Um holocasto, o outro, o dos vencidos, com vítimas previamente etiquetadas como "fascistas", "inimigos do povo", "contrarrevolucionários"... Um genocídio perpretado em prisões, cancos de concentração, hospícios e outras instituições totais sob o controle de carcereiros imbuídos de mitologia revolucionária. Admitir isto e continuar com um projeto de esquerda é muito difícil ainda que somente seja em um plano puramente existencial e humano, porém se deseja-se avançar para a política real, a tarefa parece coisa de titãs. Portanto, a esquerda radical optou ocultar os fatos, empoleirando-se em um antifascismo vegetativo e em propostas ideológicas oitocentistas carentes de todo valor político e intelectual. É o bunker vermelho, labirinto de seitas carentes de valores superiores, encruzilhada de ódios e rancores infinitos, de pequenas mesquinhezas doutrinárias... Neste labor de esquecimento onde sacrificam-se todos os valores da esquerda em nome de uma pseudo-teorização e uma história literalmente putrefatas, contam com a cumplicidade passiva do sistema do capital, o qual não tem interesse em desacreditar valores que tem demonstrado sua capacidade de mobilizar os consumidores onde convenha, ainda que atualmente esse "aonde" reduza-se às políticas de mercado. Por outro lado, há razões e causas ainda mais delicadas - relacionadas com o judaísmo - que permitem compreender e explicar o impasse da esquerda radical e sua sobrevivência em estado de franca decomposição orgânica. De todas estas questões nos ocuparemos mais adiante.

A nova crítica tem assim como finalidade elevar à consciência pública a necessidade de reconstruir o espaço político da contestação social. Nosso projeto detecta de antemão os inimigos que avançam à cabeça das forças do sistema do capital. Em primeiro lugar, a esquerda liberal, o pseudo-socialismo laranja que gere os "valores progressistas" a serviço do dispositivo sionista. Em segundo lugar, a esquerda radical de caráter marxista ou anarquista, coberta de podridão até as orelhas e incapaz de denunciar a traição dos reformistas sem cair no ridículo e na ignomínia: a lembrança oportuna do gulag e das fomes genocidas planificadas pelo Estado socialista. Portanto, em termos estratégticos, o projeto de uma entidade (ens) política (a palavra "partido" pertence ao mundo burguês) somente poderá redundar em benefício dos valores de justiça, liberdade e verdade se redima o espaço da esquerda marxista desde posições críticas. O ataque central vai dirigido contra os valores utópicos e suas consequências genocidas. Depois, contra o marxismo enquanto teoria/práxis irracional e criminosa a serviço da profecia e contra a esquerda radical institucionalizada em forma de pequenas entidades sectárias, a esquerda revolucionária atual, encobertadora ativa de um passado vergonhoso. Finalmente, contra a esquerda liberal, enquanto depositária interessada da mentira profética global, consagrada por Hollywood, que, por fim, todos, vermelhos e laranjas, gerem em conjunto, cada qual desde sua atalia, mais nunca satisfeitos com as correspondentes recompensas: o grupúsculo da esquerda "vermelha" segue sendo a farisaica canteira de jovens com pedigree progressista sempre dispostos a fazer carreira nas instituições da esquerda "laranja".

Ainda assim, nosso labor teria fracassado se somente servisse para desacreditar à esquerda burguesa marxista. Observamos com preocupação como avança, por trás do liberalismo e oculta mutas vezes sob máscaras institucionais democráticas que o poder econômico - a suja verdade da doutrina liberal - criou ou sustentou em benefício próprio, uma mentalidade reacionária que cresce no humus dos discursos cínicos da oligarquia política, alheia a todo princípio ético e somente preocupada por sua perpetuação no exercício do poder. É um pseudo-fascismo dos fatos perfeitamente compatível com o antifascismo das palavras. Mentalidade de ultras sem escrúpulos que tentam aproveitar-se das contradições insolúveis da sociedade de consumo, de sua corrida enlouquecida para o esgotamento dos recursos planetários ou do grave problema da imigração, para ir contra a democracia. Esta ultra-direita de face mais ou menos descoberta existe já em toda a Europa e representa um verdadeiro perigo para as liberdades. Os operários votam Le Pen, somente este dado já deveria fazer refletir à esquerda clássica, porém a esgotada instituição utópica e acrítica não reage, permanece aprisionada entre a colabiração cínica com o Hollywood antifascista e o vício fanático e cego em um totalitarismo que já somente pode gaguejar suas clássicas consignas de´odio desde a cama do geriátrico. Atacar abertamente a mencionada disposição de forças, retirar as consequências últimas da evidente distinção entre liberalismo e democracia com os olhos postos na refundação do sistema democrático, tal deve ser o objeto político da nova crítica que a atual conjuntura histórica está pedindo a gritos.

A política progressista é hoje o impulso democrático radical no marco da tradição filosófico-ilustrada das nações européias e a luta, desde este pensamento crítico irredutível aos valores economicistas, contra a utopia profética judaico-cristã do mercado mundial encarnado pelo liberalismo de esquerdas e direitas.

Atenas versus Jerusalém.


04/07/2011

Materialismo Humanista

"O humanismo nos seus desenvolvimentos tornou-se mais materialista e permitiu com uma inacreditável eficácia que os seus conceitos fossem utilizados primeiro pelo socialismo, depois pelo comunismo, de tal forma que Karl Marx pôde dizer, em 1844, que 'o comunismo é um humanismo naturalizado'. Está provado que esta classificação está longe de ser falsa. Vêem-se as mesmas pedras nas fundações de um humanismo alterado e de todo o tipo de socialismo: um materialismo sem freio, uma liberação no que diz respeito à religião e à responsabilidade religiosa, uma concentração dos espíritos sobre as estruturas sociais com uma abordagem supostamente científica. Não é por acaso que todas as promessas rectóricas do comunismo estão centradas no Homem, com um H maiúsculo, e na sua felicidade terrestre. À primeira vista, baseia-se numa aproximação vergonhosa: como haveria pontos de comuns entre o pensamento do Ocidente e do Leste hoje em dia? Essa é a lógica do desenvolvimento materialista."
(Aleksandr Solzhenitsyn)


03/07/2011

Alerta ao Ocidente

"Eu tento demonstrar que os que foram privados não somente do alimento necessário quase até mesmo para subsistir, não somente da vestimenta para defender-se das inclemências da natureza, não somente dos bens materiais mais imperiosos, olvidando-nos de tudo o supérfluo, mas sim incluso da própria esperança de sobreviver, pese a toda esta privação total, podem sentir dentro de si um impulso espiritual imenso. 

E este mundo ocidental, que nada na abundância, que caminha sobre os bens materiais como se fossem as pedras das ruas...de pronto ou talvez paulatinamente, os homens deste próspero Ocidente começam a rebaixar seu espírito."
(Aleksandr Solzhenitsyn, Alerta ao Ocidente)



02/07/2011

Totalitarismo Hipotecário

por Rafael Leonisio

Nos tempos que correm o poder encontrou um novo mecanismo para controlar os cidadãos: atar-lhes ao longo da vida a uma hipoteca que impede-lhes não somente de protestar e reclamar seus direitos mais básicos mas também que submete sua vida quotidiana até limites insuspeitos. É, em definitiva, um novo totalitarismo que à diferença dos do século passado não está dirigido pelo Estado mas sim pela grande Banca ajudada por este último.

Em termos sociológicos poderíamos definir o controle social como uma série de mecanismos reguladores do statu quo imperante. Mediante eles, por uma parte, pressiona-se ao indivíduo para aderir-se às normas e, por outra, reprimem-se as manifestações de condutas desviadas. Ao longo da história existiram muitas e variadas formas de controle social: escravismo, sujeição à terra, religião ou a própria polícia. Através destes instrumentos a minoria privilegiada e poderosa exerceu seu controle sobre a maioria para seguir desfrutando de sua posição privilegiada.

Neste século alguns destes mecanismos são mais sutis. Na Espanha temos um claro exemplo disso nas hipotecas vitalícias. Assim é que se na Idade Média existiam os servos da gleba agora o que existem são os servos do banco.

As classes não detentoras de poder (as massas poderíamos chamá-las) passaram de estar adscritas a uma terra da qual dependia seu sustento a estarem adscritas a uma hipoteca da qual depende seu bem-estar material. Seria este tipo de dúvida um tipo de controle social? Pode parecer exagerada esta definiçãop orém o hipotecado a longo prazo, assim como o camponês medieval ou o escravo na Idade Antiga, deixou de ser livre e sua vida fica submetida a algo alheio a si mesmo. Não falamos já de que um pseudo-proprietário como o hipotecado vitalício, devido a sua situação, tenda ideologicamente de maneira inexorável ao polo conservador (é duvidoso que alguém com água no pescoço torne-se excessivamente revoltoso com o poder) mas sim que esta situação afeta aos aspectos mais pessoais de sua vida quotidiana: Ele é livre para protestar no trabalho? E para abandoná-lo e buscar outra coisa melhor? E para mudar de cidade? Atrever-se-à a divorciar-se? Terá todos os filhos que deseja?

A verdade é que a questão das hipotecas ad aeternum está dando e dará no que falar por constituir o grande problema dessa geração que agora mesmo encontra-se ao redor dos trinta anos. Gente que para poder emancipar-se teve que endividar-se até o limite, despojando-se de uma grande parte do que ganhará em sua vida para dividi-lo, quase em partes iguais, entre o pequeno ou grande especulador da vez e o banco ou caixa que teve a crueldade (e o bom olho para seus interesses) de atar-lhe a sua entidade para sempre. Pessoas que arrastarão durante toda a sua vida uma dúvida que impedir-lhes-á atuar com a pouca liberdade que permite nosso sistema atual; e que sem dúvida ver-se-ão frustrados ao não estarem ao seu alcance muitos dos bens materiais que, como membros ativos dessa sociedade consumista, sem dúvida ansiarão. Estes atuais jovens hipotecados em grau variado verão subir sua dívida em uma velocidade maior que seus soldos e ver-se-ão privados das férias pelas quais tanto ansiam, da tranquilidade de ter um seguro completo para o carro ou de simplesmente sair para jantar ou tomar uma cerveja com os amigos.

E não apenas isso. O nível de endividamento cresceu a tais limites que quiçá não seria ousadia falar de uma nova classe de pobres-proprietários: pessoas, em sua maioria jovens desta geração maldita, cujo soldo chega somente praticamente para cobrir sua dívida hipotecária com o banco. Estes neo-pobres, com uma espada de Dámocles em forma de despejo sobre sua cabeça, somente poderiam "consumir" uma residência e portanto ficariam fora da dinâmica de nossa sociedade comercial e de consumo. Ademais, dependeriam não somente do banco mas também de suas famílias (ou outros próximos) para satisfazer certas necessidades muito básicas (luz, água, comida) ou nem tanto (cuidado de crianças, cultura, saúde privada) porque simplesmente não tem com que pagar. Atados por toda a vida a um nicho de ladrilhos logo dar-se-ão conta de que se democracia significa "poder do povo" é irônico dizer que encontramo-nos em uma. Eles mais do que ninguém saberão bem quem tem a faca e o queijo na mão: as entidades financeiras, donos e senhores do que, estirando até o limite o argumento, poderíamos definir como bancocracia.

Nos totalitarismos do século XX o Estado tratava de controlar todos os aspectos da vida nacional, de maneira que ninguém era livre. Não somente para atentar de alguma maneira contra o regime mas mesmo tampouco para atuar em sua vida quotidiana de uma maneira que desagradasse à ideologia das autoridades. Como acabamos de ver, os projetos vitais dos que são agora jovens (que serão anciãos quando saiam de suas dívidas) estão submetidos a sua precária situação financeira (ao que se une sua precária situação laboral, a outra face da moeda deste assunto). Quer dizer, sua vida privada, seus sonhos ou sua capacidade de prosperar como pessoas vê-se atada a um totalitarismo de novo cunho. Porque já não é um Estado onipresente, um ditador caprichoso ou um governo tirano. Agora não são os poderes públicos que exercem o controle mas sim o mercado e os grupos econômicos de poder os que tem mais capacidade de decisão sobre a vida dos indivíduos. Pode ser esta inclusive uma situação pior que a anterior já que neste novo totalitarismo o verdadeiro poder, resguardado por trás do parapeito desse Estado que parece que manda, é mais diguso e portanto mais difícil de combater.

Dificuldade a que se acrescenta o fato de que nossos governantes ajudam a quem de verdade detenha o poder em exercer seu controle sobre a cidadania. E é que entre as hipotecas vitalícias, o futebol constante, os programas favoritos e a Fórmula 1 (nova devoção induzida pelas televisões) os grandes poderes econômicos, políticiso e midiáticos (se é que é correto usar o plural) estão tratando de vulgarizar os cidadãos que se não são potencialmente revolucionários (seria muito pedir na opulenta sociedade do bem-estar material) são potencialmente reivindicadores de seus direitos mais básicos. Abandonada, portanto, uma das mais básicas obrigações do poder público, defender os indivíduos dos abusos do mercado, ficam os Movimentos Sociais como únicos garantidores de fazer a pedagogia necessária para que pouco a pouco fiquemos por completo alienados e a grande Banca converta-se em nosso novo Grande Irmão. O orwelliano, é claro.