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16/04/2013

Alex Kurtagic - Igualdade: Uma Justificativa do Privilégio, da Opressão e da Desumanidade

por Alex Kurtagic



É um clichê em nossa sociedade liberal de tendências esquerdistas que nós devamos permanecer vigilantes contra qualquer ideologia que rejeite a igualdade como um objetivo moralmente desejável, porque, caso essa ideologia alcança poder político, nós nos encontraremos novamente na ladeira escorregadia que começa por uma justificação do racismo e culmina com as câmaras de gás em Auschwitz-Birkenau.

Tanto liberais como seus críticos marxistas se apresentam como forças de liberação e emancipação, e sua historiografia retrata o tempo antes de seu advento como um de privilégio, opressão e desumanidade.

Porém, a história dos últimos cem anos demonstrou que, contrariamente ao preconceito dos liberais e da esquerda, e contrariamente à bela retórica que emana de seu campo, a lógica moral do igualitarismo também justifica privilégios, opressões e desumanidade, exatamente os mesmos males que ela afirma ter combatido.

Privilégio

Uma hipótese fundamental entre igualitaristas é a de que a igualdade de oportunidade deve produzir igualdade de resultados, e que, quando resultados são desiguais, é porque um indivíduo ou grupo de indivíduos tem desfrutado de alguma vantagem injusta. Os igualitaristas possuem uma visão-de-mundo materialista, de modo que essas vantagens injustas são sempre redutíveis a condições materiais, o que, em sua visão, e no sentido mais amplo possível, é o principal determinante de resultados. Essa vantagem injusta é chamada "privilégio". Para combater privilégios, a estratégia fundamental do igualitarismo é a redistribuição: aqueles que se pensa terem desfrutado de vantagens injustas são sujeitos à extração, e o "excesso" extraído é transferido para aqueles que se pensa terem sofrido com desvantagens injustas.

É obviamente verdadeiro que indivíduos ou grupos de indivíduos às vezes desfrutam de vantagens injustas, mas resultados desiguais nem sempre são resultado de oportunidades desiguais resultantes de "privilégio". Oportunidades iguais podem e de fato resultam - o tempo todo - em resultados desiguais. Os igualitaristas resistem à causa (a desigualdade humana inata) porque eles acreditam que uma sociedade desigual é imoral. A desigualdade é para eles sempre e necessariamente uma injustiça.

O problema é que eles efetivamente "corrigem" uma injustiça percebia com uma injustiça de fato. Onde não houve vantagem injusta, mas apenas resultado desigual, a redistribuição toma dos merecedores de modo a dar aos não-merecedores. Isso, de fato, cria uma classe de indivíduos privilegiados que desfrutam de vantagens não-merecidas, e portanto injustas, às custas daqueles que adquiriram, de modo justo, aquilo que foi deles tomado. O igualitarismo, portanto, simplesmente transfere privilégios de um grupo para outro - ele não os elimina.

Opressão

Alguns críticos na Direita tem dito que devemos distinguir "igualdade boa" de "igualdade ruim", citando a igualdade perante a lei como um exemplo de "igualdade boa".

A igualdade pode fazer sentido em certos contextos, desde que ela seja tratada como uma questão prática. Quando ela é tratada como um imperativo moral, porém, se torna impossível justificar a oposição às sociedades multirraciais que temos agora no Ocidente, onde os indígenas não devem ser considerados como especiais, onde os níveis de imigrantes geneticamente distantes são determinados puramente por considerações econômicas.

As sociedades multirraciais resultantes são inerentemente instáveis, porque elas não mais podem ser governadas sob um conjunto partilhado de pressupostos, valores e costumes, e porque a identificação racial e étnica entre vários grupos os coloca em competição mútua por poder e recursos. É desnecessário dizer que a competição entre grupos diferentes também ocorre em sociedades racialmente homogêneas, mas o multirracialismo acrescenta camadas de complexidade totalmente desnecessárias, demandando níveis inteiramente novos de envolvimento estatal. Conforme o experimento multicultural tem demonstrado no Ocidente, o crescimento do multiculturalismo contra um pano-de-fundo de moralidade igualitária fomenta o crescimento de políticas de igualdade, regulamentos, legislações, policiamentos, imposições, burocracias e programas sociais, construídos para impedir que os nativos desenvolvam estratégias de exclusão contra os grupos exógenos cada vez maiores. A garantia liberal da liberdade de expressão é progressivamente limitada de modo a evitar ofender algum grupo ou outro. A liberdade de associação é progressivamente limitada para garantir que nenhum grupo será excluído com base em sua diferença. A liberdade de representação é progressivamente limitada para impedir que os nativos organizem uma oposição política. A liberdade econômica é progressivamente limitada - por exemplo, pela taxação - de modo a igualar resultados e financiar o aparato estatal de igualdade. Este, obviamente, cresce continuamente, se tornando cada vez mais intrusivo, invasivo, caro e opressivo. No Ocidente nós chegamos a uma fase em que expressar uma opinião no Twitter, com menos de 140 caracteres, pode resultar em uma condenação a prisão.

Também há outros efeitos que contribuem para uma atmosfera opressiva. Sociedades multirraciais sofrem de níveis mais elevados de criminalidade e níveis menores de confiança, ambos os quais destroem o espírito comunitário, reduzem a qualidade de vida e encorajam cidadãos a recuarem em casas cheias de alarmes com janelas gradeadas, às vezes por trás de condomínios fechados com patrulhas de segurança armada. Mesmo isso não oferece garantias, de modo que os cidadãos vivem em constante estado de medo: medo de ofender alguém; medo de expressar certas opiniões; medo de espaços públicos; medo de outros cidadãos; medo de ser associado a certos partidos políticos; e, no caso dos nativos, também medo de se opor à própria despossessão, mesmo que no fim não haja para onde fugir. Novamente, com exceção do último elemento, tudo o descrito acima existe em sociedades homogêneas, porém sob o multiculturalismo igualitário as fontes de medo se multiplicam, porque as variáveis se multiplicam.

Desumanidade

Como eu demonstrei em um outro artigo, a crença no bem moral da igualdade rouba da vida seu sentido, porque o sentido vem da diferença ou desigualdade. No processo, ela arranca tudo que faz da vida boa a digna de ser vivida, pois isso depende de sentido e de várias formas de diferença. Associada à moralidade igualitária é a noção de direitos humanos. Na ideologia liberal, se considera que os humanos possuem valor igual em dignidade e direitos. Porém, este não é realmente o caso, pois isso se aplica somente àqueles que acreditam na bondade moral da igualdade.

Se considera que humanos possuem direitos pela simples virtude de serem humanos. Ao mesmo tempo, é considerado um indicativo da própria humanidade reconhecer os direitos humanos. O tratamento de outros humanos que desconsidere abertamente os direitos humanos é descrito como "inumano", "bestial" ou "demoníaco". Uma descrição mais suave é "bárbaro", o que conota uma humanidade inferior.

Mas não é necessário praticar tortura ou algum homicídio cruel ou um extermínio em massa para se tornar, pelo menos pelo ponto de vista liberal, uma besta ou um demônio, porque simplesmente rejeitar a noção de que a igualdade é um bem moral absoluto possui o mesmo efeito. O racismo, por exemplo, implica essa rejeição. Portanto, basta apenas que alguém seja considerado "racista" para que ele seja tratado como alguém dotado de uma humanidade inferior. A animalização e demonização do recém identificado "racista" marca sua mudança em status.

A razão é simples: se o igualitarismo é moral, e se uma capacidade para a moralidade é o que nos faz humanos, o anti-igualitário é automaticamente inumano, e portanto uma besta ou um demônio.

Não obstante, a observação confirma que a regra não é aplicada de modo uniforme: a acusação de "racismo" é muito mais desumanizante para brancos do que para outros. Um negro no Ocidente pode se engajar em um comportamento gritantemente racista sem ter sua humanidade questionada. Por outro lado, um homem branco no Ocidente é julgada segundo parâmetros bem mais rigorosos: custa muito menos ele ser categorizado de "racista" e os efeitos do rótulo são para ele muito mais severos. Isso poderia potencialmente indicar uma pressuposição tácita entre liberais de que os negros já possuiriam de partida uma humanidade menor, e que os brancos possuiriam uma maior, pois isso explicaria a indulgência para com os primeiros e a severidade para com os segundos, mas isso está fora do escopo desse ensaio. Permanece verdadeiro porém, que uma vez considerado "racista", o diabo branco não mais desfruta dos mesmos direitos e privilégios que o "não-racista". Sua liberdade de expressão e associação podem ser pervertidas, restringidas ou negadas; sua propriedade e criações artísticas podem ser vandalizadas, confiscadas ou destruídas; e sua liberdade e meios de sobrevivência podem ser arrancados dele, às vezes sem uma explicação - tudo com total impunidade e aprovação universal. Pior ainda, aos olhos de amigos e parentes, aquele que é rotulado como "racista" deixa de ser uma pessoa, e qualquer tipo de abuso dirigido contra ele é possível. É, na verdade, visto como correto e plenamente justificado.

Essa pode ser uma das várias razões pelas quais sociedades comunistas, que viveram sob um sistema de igualitarismo radical, viram o pior tratamento e os piores extermínios em massa de seres humanos na história. Também pode ser por isso que tantos perderam as cabeças sob o estandarte de "liberdade, igualdade e fraternidade". Como eu afirmei algures, a busca da igualdade implica a destruição do valor, e torna toda vida humana equivalente e substituível. Se, ainda por cima, nós acrescentarmos uma lógica moral que desumaniza aqueles que rejeitam aquela lógica, nós culminamos em uma situação que começa com chamar alguém de "racista", "reacionário" ou "burguês" e termina na guilhotina ou em um gulag siberiano.


06/11/2012

Vanguarda, Estética, Revolução

por Alex Kurtagic



Eu em várias ocasiões critiquei a tendência entre um subgrupo de nacionalistas raciais em se permitirem fantasias revolucionárias improváveis, nas quais o sistema liberal entra em colapso, as massas brancas se erguem, e os mal-feitores são pendurados de postes de lâmpadas em um grande Dia da Corda.

Os "normais", por sua vez, tem criticado a tendência entre outro subgrupo de serem revolucionários ratos-de-biblioteca, eremitas, excêntricos, e absorvidos demais em suas divagações intelectuais confusas para serem portadores eficazes da transformação no mundo real. Ambos subgrupos são emblemáticos do recuo da realidade que resulta da impotência percebida. Ambos representam tendências vanguardistas. Significa isso que o vanguardismo é uma estratégia falha, e que somente os comuns oferecem uma abordagem viável?

Longe disso.

O vanguardismo desempenha um papel fundamental em qualquer movimento que busque uma transformação fundamental de um sistema que não pode mais ser reformado, que tem que ruir para abrir caminho para um novo, construído sobre fundações distintas. O que é mais, ele precisa não ficar em uma relação exclusivista com a corrente comum: é possível - de fato é preferível - integrar ambas abordagens em uma estratégia coerente.

Antes de começar, eu definirei as categorias políticas "Direita" e "Esquerda" como pretendo fazer uso delas nesse artigo. Por Esquerda eu quero dizer aqueles que creem na ideologia da igualdade e do progresso; eles estão associados a liberalismo e modernidade. Por Direita eu quero dizer aqueles cuja perspectiva é elitista (anti-igualitária) e cíclica; eles estão associados a Tradicionalismo (no sentido evoliano). Por Direita eu não quero dizer conservadores, os quais eu considero como liberais clássicos, tão somente com atitudes socialmente conservadoras.

Da Distopia à Utopia

Comentaristas da Direita estão predispostos a desperdiçarem a maior parte de sua energia analisando e criticando a distopia moderna. Mas enquanto isso é necessário, isso não é suficiente: dizer que nós chegamos ao destino errado e que precisamos estar em outro lugar sem ao mesmo tempo indicar onde é esse outro lugar não implica movimento, somente o reconhecimento da necessidade de movimento; portanto, não é um movimento. Para que um movimento ocorra, para que uma ideia ganhe adeptos que então seguem uns aos outros em um ato coletivo de moção, o destino deve ser conhecido, a priori, o que implica que ele deve ser comunicável de alguma maneira. Esse destino é a utopia do movimento: a realização perfeita de seus objetivos.

Utopias existem somente na imaginação. A maior parte do tempo elas são comunicadas através da arte e literatura fantásticas. Na melhor das hipóteses, elas são somente parcialmente e/ou imperfeitamente implementadas. Na pior das hipóteses, elas são extremamente irrealistas e impráticas - a maioria são em alguma medida. Porém, isso não significa que elas não são úteis: elas são, na verdade, necessárias, e uma pré-condição para o movimento. Seu ingrediente ativo não é ser cientificamente precisa, mas sua capacidade de exercer uma enorme força sentimental em um coletivo suficientemente grande de indivíduos. E sua concepção é a responsabilidade do vanguardista, do forasteiro intelectual, do pioneiro, do sonhador, do criador - o indivíduo, ou grupo de indivíduos, cuja tarefa é nos arrancar das prisões cognitivas construídas pelo sistema atual; para fora da ilusão sistêmica na qual tudo que lhe é anátema parece impensável.

Aqueles que adotam abordagens populares usualmente se desesperam com esses sonhadores porque eles parecem - obviamente - impráticos, excêntricos e carentes de bom senso. O problema é que inovadores criativos e iconoclastas normalmente são: tipos criativos compreendem um tipo peculiar, e dentro desses, aqueles que são verdadeiramente inovadores, verdadeiramente de vanguarda, usualmente chocam, preocupam, e causam desconforto a seus pares menos criativos porque eles são menos agrilhoados pela convenção. Há lados indubitavelmente bons e ruins nisso, mas isso não reduz o valor do processo criativo, mesmo que nem todos os seus produtos sejam eventualmente adotados. A tarefa daquele que navega na corrente principal, que é limítrofe à vanguarda e ao comum, é tomar de modo calculista tudo que possa ser usado pela vanguarda para ampliar os limites da corrente principal, com o objetivo de transformar esta fundamentalmente a longo prazo.

O Sonhador como Pragmatista

Apesar de ter a ciência, os dados, e os argumentos lógicos ao seu lado, a Direita tem estado em recuo por muitas décadas. Isso por si só já deveria ser indicação suficiente de que os humanos precisam de mais do que dados, argumentos e verdade para serem persuadidos a uma mudança de lealdade. Porém, muitos que se identificam com a Direita continuam operando sob a ilusão de que as coisas não são assim: se as pessoas acreditam em igualdade é porque elas não conhecem as diferenças raciais em QI; se as pessoas acreditam em multiculturalismo é porque elas não conhecem as estatísticas de crimes de negros contra brancos; se as pessoas acreditam em liberalismo é porque elas não leram Gibbon, ou Spengler, ou Schmitt; e daí em diante.

A ironia é que o melhor exemplo do porque essa abordagem é falha existe ao nosso redor: a sociedade de consumo. Enquanto criança eu me irritava com os cenários irrealistas, os jingles pegajosos, e os slogans constantes da propaganda televisiva, e eu ressentia a superficialidade irracional implicada nesse método de vender produtos. Eu achava que seria bem mais lógico ter um homem de terno sentado na mesa, encarando a câmera, como em um telejornal, e listando as especificações do produto para a audiência de modo monótono e não-emocional, para que a audiência seja capaz de fazer uma escolha racional, baseada em dados sólidos. Qualquer adulto razoável sabe, mesmo que ele não seja capaz de explicar exatamente o motivo, do porque isso jamais funcionaria no mundo real. A razão é simples: a sociedade de consumo não é fundada na lógica utilitária ou na razão, mas em romantismo, em sonho, em demonstração de status e em utopias. E ela é fundada nesses princípios porque é o que se demonstrou funcionar - vastas somas de dinheiro foram gastas pesquisando a psicologia humana no esforço de maximizar a mobilização dos consumidores. Colin Campbell e Geoffrey Miller fornecem explicações teóricas e evolucionárias para os aspectos motivacionais humanos do consumismo, em A Ética Romântica e o Espírito do Consumismo Moderno e Gasto, respectivamente.

Portanto é justo dizer que aquele que sonha acordado e induz outros de propósito a sonharem é, na verdade, mais pragmático do que o racionalista pragmaticamente orientado que busca persuadir pela razão. O primeiro pelo menos compreende a irracionalidade da natureza humana, e joga com ela, enquanto o segundo fantasia sobre humanos abstratos que agem com base em um auto-interesse racional.

Verdade como Escolha de Estilo-de-Vida

Longe de uma vantagem, uma crença no poder da "verdade" é um dos principais obstáculos para nacionalistas brancos que buscam conversos a sua causa. Se eles ficam frustrados pela falha de indivíduos em lhes dar apoio apesar da enormidade de dados científicos e estatísticos demonstrando diferenças raciais hereditárias em QI e propensões hereditárias a crime violento, é porque eles deixaram de perceber que os humanos escolhem a verdade que lhes agrada mais, segundo o que faz eles se sentirem bem consigo e com o mundo, e se ela faz aqueles cuja opinião eles valorizam se sentirem bem com eles, em qualquer ponto no tempo ou espaço. Os humanos são mais fortemente motivados por uma necessidade inata de auto-estima e pertencimento do que pela razão abstrata. Assim, diante de dados e argumentos volumosos, conflitantes, e virtualmente não-digeríveis emanando de múltiplas facções, cada uma reivindicando o monopólio da verdade, é fácil escolher as mais emocionalmente e socialmente convenientes das opções disponíveis. Para a maioria das pessoas isso significa a verdade defendida pelo status quo cultural, porque isso significa uma integração social mais fácil e recompensas maiores. Aqueles que escolhem uma verdade anatematizada pelo status quo cultural se tornam dependentes de redes alternativas e até mesmo métodos não-convencionais para sobreviverem em um sistema que busca expurgá-los. Finalmente, e talvez especialmente em uma sociedade materialista, a verdade se torna uma escolha de estilo-de-vida.

Substância e Estilo

Pelas razões acima, uma estratégia puramente baseada no que tendemos a considerar como substância (ou seja, dados empíricos, argumentos lógicos, conclusões razoáveis) está fadada a falhar. E no caso do nacionalismo branco, tudo isso já se provou inútil. Também pelas razões acima, uma estratégia eficaz precisa empregar uma metodologia que toque, como o consumismo, os impulsos pré-racionais do comportamento humano. A lição do consumismo faz isso através do uso calculado de estilo e estética, que na sociedade de consumo são constantemente empregados para induzir o comportamento desejado (consumo).

Eu estou familiarizado com o uso calculado de estilo e estética pelo meu papel na cultura de consumo, que eu desempenhei através da minha gravadora. Antes do advento do MySpace e dos downloads ilegais, sempre que eu desenhava uma capa de álbum, um logotipo, uma propaganda, um informativo, ou um site; sempre que eu escrevia uma descrição de álbum; mesmo quando eu descrevia um álbum verbalmente, eu estava agudamente consciente da necessidade de apelar e estimular interesse na minha audiência alvo. Eu não esperava que eles fizessem escolhas racionais (especialmente já que para ouvir a música eles tinham primeiro que comprar o CD), senão por eu ter ativado com sucesso uma resposta emocional forte o suficiente para fomentar a resposta desejada: uma compra imediata. (É claro, nem sempre eu acertava, e de tempos em tempos eu ficava com estoque encalhado, algo pelo que eu culpava tanto uma arte ruim, nomes e títulos mal-escolhidos, e logotipos pouco inspiradores quanto a qualidade da música). Agências de propaganda prosperam na exploração de estilo e estética para o propósito de mobilizar o público para consumir produtos, apoiar uma campanha, ou votar em um candidato.

Nós todos sabemos que no que concerne o eleitorado branco, Obama foi eleito puramente com base na estética: ele soava bem, era telegênico, e sua "negrura" reconfortava milhões de brancos ansiosos para provar (principalmente para si mesmos) que eles não eram racistas. Slogans como "Esperança" e "Mudança" não continuam nada de substância; era tudo questão de Obamicons; e ainda assim eles excitaram o sentimento correto entre eleitores que se sentiam desprovidos de esperanças e queriam mudanças. Debates televisivos sobre políticas enfatizavam apresentação visual e trilhas sonoras pegajosas; eles eram mais sobre como os candidatos pareciam e soava enquanto debatiam - mas não realmente - um tópico ostensivamente sério do que sobre realmente discutir um tópico sério. Incômodo? Certamente. Mas não faz sentido lutar contra isso. Funciona.

Tendo dito isso, substância ainda é importante. Nós todos sabemos que uma estratégia baseada puramente em luzes estilísticas sem ser amparada por pelo menos alguma substância eventualmente implode. (Nos Estados Unidos, muitos eleitores iludidos desde então perceberam que Obama é um terno vazio; no Reino Unido, muitos eleitores iludidos eventualmente perceberam que Blair era um mentiroso). Enfatize estilo acima de substância de uma maneira excessivamente óbvia e sua estratégia ira, na verdade, se voltar contra você. (Esse foi um grande problema para o governo Blair durante o final da década de 90; uma pesada manipulação de opinião conseguiu eleger Blair, mas com o tempo todos estavam reclamando).

É óbvio, portanto, que a estratégia vitoriosa é uma que tenha tanto estilo como substância - substância que ampare o estilo e estilo que ampare a substância - que, em outras palavras, projete a substância tão bem quanto a natureza da substância.

Nada disso é novidade, é claro, mas é incrível quantos falham em perceber a importância de estilo e estética. Será porque nós vivemos em uma era que é tão obviamente sobre estilo acima de substância que há um instinto em se rebelar contra isso?

Instrumentalizando a Estética

Em um contexto metapolítico, nós podemos falar então de instrumentalizar a estética: traduzindo ideologia em arte, alta e baixa, e usando-a para impulsionar a cultura e a sociedade em uma direção pré-determinada, para fazer com que cultura e sociedade passem por uma transformação fundamental.

Em minha experiência com várias formas de música underground e suas subculturas associadas, uma transformação de consciência individual passa por fases identificáveis.

Primeiro, indivíduos são expostos a um certo gênero de música através de seus pares; a resposta, positiva ou negativa, é normalmente imediata, instintiva, o resultado de uma combinação de predisposição biológica inata, história pessoal, e fatores sociológicos.

Depois, se a resposta individual é positiva, lá começa um processo de busca e coleção de álbuns por bandas que tocam esse gênero. E se a resposta individual é extremamente positiva, o processo é intensivo, e se torna gradualmente cada vez mais, fazendo com que ele eventualmente submerja completamente na subcultura associada.

Subculturas jovens centradas na música são facilmente identificáveis porque elas são altamente estilizadas e estilisticamente distintivas. Elas também possuem sua própria ideologia, que tanto emana quanto reforça os valores codificados no estilo de música do qual ela cresceu. Às vezes a ideologia é derivativa, uma extrapolação, ou um exagero de certos valores populares. Às vezes a ideologia é fundamentalmente antagonística à corrente popular cultural. Também, às vezes a ideologia é superficial, às vezes não é. Mas em todos os casos, os fãs de música que submergiram na subcultura associada chegam a adotar e internalizar sua ideologia em alguma medida.

Dependendo da natureza dessa ideologia, os membros de uma subcultura podem passar uma transformação radical de consciência - até ao ponto de se tornarem párias orgulhosos - que resiste mesmo após eles terem transcendido sua pertença. Eles podem eventualmente descartar a roupagem e adotar um emprego assalariado convencional, mas sua lealdade à música irá perdurar, às vezes como um segredo culpado, e traços de seu passado fanático permanecerão em suas estruturas cognitivas, estilos de vida, decoração do lar, vocabulário, e escolha de associações. E mais, mesmo décadas depois, antigos membros reconhecerão uns aos outros e terão um elo comum.

E tudo isso é alcançado esteticamente, pela arte. Vale a pena reiterar: na medida em que valores são absorvidos, eles o são não porque eles foram apresentados logicamente ou cientificamente, mas porque eles foram apresentados de uma maneira atrativa e artística ou esteticamente agradável - de uma maneira que exerce uma poderosa força sentimental sobre seus consumidores. E qualquer um com uma consciência da ra popular saberá que seu poder de excitar emoção extrema, unir psicologicamente, e mobilizar as massas - fazer com que elas ajam irracionalmente, violentamente, mesmo contra seus próprios interesses racionais - não pode ser subestimada. Quando o último volume da série Harry Potter foi publicado, as pessoas esperaram em filas por horas, no frio, na chuva, nas horas da manhã, para serem as primeiras a por as mãos na primeira edição de capa dura. E esse é um exemplo bem suave. Nós temos evidência da década de 60 mostrando mulheres jovens absolutamente histéricas em shows dos Beatles, e há pouca dúvida de que suas vidas pessoas eram parcialmente consumidas por pensamentos e fantasias envolvendo membros da banda. Teria sua gravadora apresentado um argumento especialmente lógico?

É claro, a mobilização de massas é possível dentro da cultura popular quando o produto ou evento em questão codifica valores culturalmente vigentes. Quanto menos vigentes os valores, menor a capacidade de mobilização. Ao mesmo tempo, na era da reprodução mecânica nós temos visto que quando um sistema ideológico e estético sinérgico é implantado usando métodos da cultura popular, mesmo proposições anti-sistema radicais são capazes, nas condições adequadas, de mobilizar grupos de pessoas suficientemente grandes e cada vez maiores até se estabelecer como nova ordem hegemônica.

Os nacional-socialistas, começando na Alemanha de Weimar, oferecem talvez o exemplo mais icônico no Ocidente. Como todos os movimentos políticos, porém, o nacional-socialismo teve origens metapolíticas, e supostamente origens ocultas nos sonhos de civilizações atlantes e hiperbóreas, que a SS depois tentou substanciar. Era mais um certo conjunto de ideias e sonhos, um certo sentimento, um certo romantismo político, um certo estilo, antes de ser política efetiva com um rótulo efetivo.

O mesmo é verdadeiro de nossa sociedade moderna: entre René Descartes, Adam Smith, John Locke, Karl Marx e Sigmund Freud por um lado, e o politicamente correto, a imigração, a transferência de empregos para o exterior, e o treinamento de diversidade por outro, se encontra uma massa de romances populares, filmes, e álbuns que conscientemente ou semiconscientemente codifica, estetizam e promovem as ideias e narrativas do capitalismo global e do escolasticismo freudo-marxista, sobre as quais a tradição metapolítica da ordem moderna é fundada.

A instrumentalização da estética é a criação de uma interface que facilita a tradução do metapolítico no político, da vanguarda no popular.

Credibilidade

Outra razão pela qual eu coloco tanta ênfase em estética em discussões metapolíticas é que um sistema estético bem formulado e perfeitamente executado é o jeito mais rápido de projetar credibilidade, e assim fazer com que um conjunto de valores e ideais pareçam ter credibilidade para observadores apolíticos. (Para observadores políticos pode inspirar orgulho ou medo, dependendo de sua afiliação). Nós não julgamos os livro por suas capas? Nós não julgamos uma pessoa por sua aparência?

Eu defendo que se nossos valores e ideais carecem de credibilidade fora de nosso meio imediato, é parcialmente porque nós temos ainda que encontrar uma maneira de traduzir nossa metapolítica em um sistema estético profissionalmente executado que seja tanto aceitável e quanto apelativo a uma audiência ampla - que reformule nossas ideias arcaicas de uma maneira que seja vibrante, relevante e voltada para o futuro (porque as pessoas precisam de esperança e mudança). Desnecessário dizer que há outros fatores muito significativos envolvidos (tal como a realidade de sanções econômicas), mas este é certamente um deles: sem um sistema estético óptimo, a política efetiva se torna muito difícil. Não se pode vender uma ideia sem marketing. E não se pode apelar a uma audiência seleta sem o tipo correto de marketing.

É por isso que nós nos beneficiaremos quando artistas talentosos, músicos, designers e estilistas literários que partilham de nossas sensibilidades encontrarem válvulas de escape favoráveis e começarem a fazer um nome para si mesmos. É, portanto, necessário que nós forneçamos tais válvulas de escape e ofereçamos oportunidades profissionais e econômicas viáveis para tipos criativos, senão continuaremos a perdê-los para as alternativas (censuradoras, mas remuneradas) oferecidas pelo sistema. Somente então nós seremos capazes de gerar uma contra-cultura poderosa.

Pensamentos Finais

A era do caos oferece oportunidades para aqueles capazes de "vender" um novo sonho. Apesar do sistema atual liberal, igualitário, progressivo parecer superficialmente invencível, eles não representam uma ordem unificada, coesa, monolítica, totalitária: eles são, na verdade, uma coalizão arco-íris de facções competitivas e às vezes contraditórias que calham de partilhar de um conjunto de crenças centrais. Eles também são degenerativos e desintegrativos, e a conclusão lógica de seu projeto é o colapso completo da sociedade. Isso tem se tornado cada vez mais aparente desde a adoção do multiculturalismo como política de governo oficial, e da adoção do globalismo como o paradigma capitalista moderno. Pior ainda, eles são contrários à natureza, assim sua continuidade resulta em estresse constante e um esforço árduo. Divisão, degeneração, desintegração, estresse e exaustão crescem de um modo cada vez mais aparente. E o fim da era de prosperidade no Ocidente tornará as reviravoltas sociais e culturais mais difíceis de conter ou dissipar. Assim, na confusão crescente, mesmo o cidadão apolítico e convencionalmente pensante irá em tempo se tornar receptivo a ideias novas, exóticas e mesmo quixotescas. Uma vez que a confusão se torne severa o suficiente, eles estarão procurando por uma ideologia radical, uma religião rígida, um homem forte autoritário, um César. Eles estarão procurando por simbolismo significativo, por sonhos utópicos, por um novo romantismo, por algo que projete ordem e força, seja distintivo em meio ao caso, e os faça se sentir poderosos e parte de algo poderoso.

Isso pode parecer grandioso, mas o início está mais próximo do que se pensa: ele, na verdade, começa com caneta e papel, com pincel e tela, com guitarra e pedal; ele é fundado na fantasia e nos sonhos que animam esses utensílios.

Se a revolução começa com rascunhos, os rascunhos começam com sonhos. E ainda que isso possa soar fofo e nebuloso para o pragmatista político, vale lembrar que tais verdades sempre parecem assim após um longo período de prosperidade material e estabilidade política, enquanto o sistema parece forte e crível para uma maioria. Mas, como no passado, após reviravoltas cataclísmicas, quando suas origens e causas foram catalogadas por sociólogos em seus relatórios post-mortem, tais verdades provavelmente parecerão um pouco menos nebulosas após a onda da cultura virar e aqueles sonhos outrora aparentemente improváveis comecem a tomar forma. Quanto tempo até lá? Quem sabe? Mas a não ser que nós lancemos as bases metapolíticas para nossa nova ordem, a não ser que tenhamos uma viril contra-cultura sobre a qual construir, nós podemos descobrir que quando a maré virar, outros chegaram na nossa frente, enquanto nós esperamos para ver se ela realmente viraria.

09/12/2011

Alex Kurtagic - Black Metal: Revolução Conservadora na Cultura Popular Moderna

por Alex Kurtagic



Do ponto-de-vista do nacionalismo racial, o gênero musical conhecido como Black Metal é um dos fenômenos culturais populares mais significativos das últimas duas décadas. Porém, ele pouco tem sido discutido por acadêmicos e comentaristas politicamente simpáticos. Isso é surpreendente, já que o Black Metal flui em contrariedade às tendências pós-Segunda Guerra de marginalização, condenação, e psicopatologização progressivas da consciência racial entre brancos. Isso é ainda mais surpreendente quando considera-se que o Black Metal é inspirado por e sustenta as mesmas tradições culturais e literárias que informam o nacionalismo racial moderno. Ademais, o Black Metal, por meio de sua estética altamente estilizada, e francamente europeia, oferece uma arma eficiente operando no importantíssimo nível pré-racional com o qual combater o ataque à identidade branca.

Eu já escrevi antes sobre a necessidade de criar um universo paralelo fora da cultura dominante contemporânea, e isso envolve não apenas escolher nossos próprios tópicos de estudo, mas antecipar sua definição por apropriação pelos estudiosos conformistas do próprio establishment. Eu escrevo, portanto, esperando introduzir o Black Metal como tópico de análise acadêmica dentro da tradição anti-igualitária.

O Black Metal não tem sido completamente ignorado pelos acadêmicos do sistema. Ele é discutivo, por exemplo, em Extreme Metal: Music and Culture on the Edge por Keith Kahn-Harris, fundador do Novo Centro de Pensamento Judaico; em The Meaning and Purpose of Leisure: Habermas and Leisure at the End of Modernity, por Karl Spracklen; em Commodified Evil's Wayward Children: Black Metal and Death Metal as Purveyors of an Alternative Form of Modern Escapism por Jason Foster; e em Black Sun: Aryan Cults, Esoteric Nazism, and the Politics of Identity por Nicholas Goodrick-Clarke. Ele também tem sido discutido por alguns poucos escritores populares, incluindo Michael Moynihan e Didrik Soderlind, cujo Lords of Chaos: The Bloody Rise of the Satanic Metal Underground está disponível em livrarias populares.

Enquanto Moynihan e Soderlind baseiam-se em arquétipos junguianos para o que é, por outro lado, uma análise sensacionalista e jornalística do Black Metal, os outros textos baseiam-se em esquemas analíticos derivados da tradição acadêmica freudo-marxista, que inclui teóricos marxistas como Louis Pierre Althusser, pós-modernistas como Jacques Derrida e Michel Foucalt, teóricos críticos como Max Horkheimer e Theodor Adorno, e daí em diante. Não é difícil ver que interpretações da cultura vindas desses setores, ainda que contenham muitas compreensões astutas, são necessariamente limitadas e distorcidas pela inquestionável crença desses teóricos na igualdade como um bem em si, por sua rejeição de perspectivas evolucionistas como nefastas e ideológicas, e por suas atitudes alienadas - quando não meramente alienígenas - em relação à cultura ocidental tradicional.

As limitações e distorções construídas nesse corpo teórico são exarcebadas por seu status na academica ocidental como a ortodoxia institucional, um universo teórico fechado em que perspectivas alternativas - ou seja, não-igualitárias, evolucionistas - são rejeitadas de antemão como desacreditadas, ultrapassadas, preconceituosas, ou carentes de rigor acadêmico. Quando o tema de estudo é um fenômeno cultural que explicitamente rejeita os princípios fundamentais sobre os quais esse corpo teórico é construído, há sempre o perigo de a análise degenerar em uma incompreensão moralista.

Dissidência como um Estilo

O que é Black Metal? O Black Metal é um fruto radical do Heavy Metal. Durante a década de 80 bandas tocando formas comercializadas de Heavy Metal penetraram na cultura dominante, conseguindo posições confortáveis nas tabelas musicais e vendendo milhões de álbuns. Isso incitou elementos "fundamentalistas" dentro da cena Heavy Metal a reclamar o estilo como uma praxis underground desenvolvendo variantes extremas da sonoridade Heavy Metal, percebidas como estando mais conectadas com os valores originais anti-comerciais e contraculturais do gênero. O Black Metal foi uma dessas variantes. É considerado "Black" Metal porque ele originalmente definiu-se em termos de temas e estéticas satânicas e ocultistas.

O Black Metal não soa como o Heavy Metal. Ambas formas musicais apoiam-se nos mesmos componentes sonoros básicos (guitarra, baixo, bateria, e vocais); ambos são caracterizados por intensidade sonora, performances vocais extremas, e pelo uso de guiterras distorcidas e bastante amplificadas. Músicos do Heavy Metal, porém, tendem a favorecer estruturas musicais previsíveis (verso, refrão, verso, refrão, solo, verso, refrão), bem como vocais cantados/gritados melódicos. Ademais, guitarristas no Heavy Metal, apesar de muitas vezes incorporarem influências da música clássica em seu estilo, tocam de modo que ainda evidencia as raízes do Heavy Metal no Rhythm and Blues. As letras no Heavy Metal tendem a lidar com questões relativamente superficiais associadas com a juventude: amor, amadurecimento, sexo, rebelião, diversão, beber, etc.

O Black Metal, por outro lado, é muito mais sombria e extremo, favorecendo uma guitarra com uma sonoridade muito mais crua, barulhenta, e áspera; estruturas musicais imprevisíveis; melodias de influência clássica que sugerem lugubridade, misticismo, pesar, e ódio misantrópico; e urros inumanos, demoníacos como vocais, ininteligíveis e extremamente reverberados. Ademais, as letras do Black Metal tendem a ser sérias e arcanas, lidando com ocultismo, mitologia pré-cristã, orgulho pagão, guerra, misantropia, genocídio, e ódio ao cristianismo.

O Black Metal também difere significativamente do Heavy Metal esteticamente. O Black Metal favorece o negro acima de qualquer cor. Logos de bandas de Black Metal tendem a ser tortuosos e elaborados, sempre ilegíveis, e cercados com símbolos ocultistas e/ou pagãos, como runas, suásticas, cruzes invertidas, pentagramas, e mjölnirs. Letras góticas tortuosas são quase sempre onipresentes. Os músicos usam nomes de palco esotéricos ou mitológicos e distorcem suas faces com pintura facial cadavérica em preto e branco. Eles aparecem em seus álbuns em ambientes noturnos, florestais, medievais ou invernais, trajados em couro negro e envoltos em cartucheiras. Não é incomum que as bandas mais extremas e misantrópicas pratiquem auto-mutilação (usualmente com facas de caça, nos braços e torso) e se fotografem cobertos de sangue depois de realizar tais atos. O objetivo é sempre criar imagens capazes de inspirar medo e horror entre observadores da cultura dominante - ainda que isso seja meramente "pregar para o coral", claro, um esforço de se distinguirem o mais radicalmente possível da desprezada cultura dominante, pois de qualqeur outro modo o Black Metal é quase invisível fora de seu milieu subcultural.

Origens do Black Metal

As primeiras bandas de Black Metal foram Bathory, da Suécia, e Venom, da Inglaterra. O Venom tem o crédito de inventar o termo "Black Metal", que primeiro apareceu como título de seu álbum de 1981. O Bathory, porém, provou ser muito mais influente. Ainda que as primeiras obras do Bathory estejam dominadas por temas e estética satânicas, essas foram gradualmente substituídas pela infusão de elementos da música clássica (particularmente do período romântico) e por uma crescente fascinação com a mitologia e história escandinavas pré-cristãs. Albuns como Blood Fire Death (1989), Hammerheart (1991), e Twilight of the Gods (1992) eventualmente inspiraram o desenvolvimento de todo um novo gênero, agora conhecido como Viking Metal.

Similarmente influente foi o trio suíço, Hellhammer, e sua subsequente incarnação, Celtic Frost. O Hellhammer foi um protótipo de derivados do Heavy Metal dos anos 80 como o Thrash Metal, Death Metal, e Black Metal, mas não pode ser categorizado como qualquer um deles. Através de suas letras esotéricas e bastante poéticas e composições musicais cada vez mais elaboradas (chegando ao ápice em 1987 com Into the Pandemonium), o Hellhammer/Celtic Frost foi pioneiro em transformar o Heavy Metal em uma forma de arte popular sofisticada.

Em uma época em que o Heavy Metal parecia basicamente procupado com excessos mundanos e hedonistas (cerveja, mulheres, festas), os álbuns do Celtic Frost lidavam com deuses e civilizações antigas, e os do Bathory com Asatru, vikings, e Segunda Guerra Mundial. A banda de Thrash Metal britânica, Skyclad, também foi significativa, instigando o desenvolvimento do Folk Metal, um gênero que incorpora música folclórica tradicional em uma moldura Black Metal, e cujos músicos possuem ligações com as cenas de Black Metal e Viking Metal.

O Black Metal moderno há muito deixou de ser caracterizado puramente pelo satanismo. De fato, desde o final da década de 80, alguns músicos do Black Metal recusaram-se conscientemente a serem definidos por uma tradição monoteísta estrangeira (ou seja, não-europeia). Não há Satã, porém, sem Cristianismo. Definindo-se contrário ao Cristianismo, o Satanismo meramente inverte valores cristãos ao invés de rejeitá-los desde o início e abraçar uma visão-de-mundo autenticamente europeia. 

Muitos músicos do Black Metal, como resultado, reconheceram então a superficialidade e futilidade de continuar a "guerra contra o (Judaico-)Cristianismo" que era central à cena Black Metal durante o início da década de 90. Ademais, e ao menos parcialmente como consequência, o Black Metal desde muito fragumentou-se em uma variedade de subgêneros veementemente pagãos, tais como os já mencionados Viking Metal e Folk Metal, e - o mais radical de todos - o National Socialist Black Metal (NSBM).

Pensamento Völkisch e a Revolução Conservadora

Alguns dos aspectos mais fascinantes do Black Metal são seus paralelos com as idéias e sensibilidades da Revolução Conservadora e do movimento völkisch (populista) mais amplo que varreu a Alemanha no século XIX e início do XX. Essas similaridades são tão notáveis que o Black Metal pode muito bem ser considerado, senão a continuação, então ao menos como o ressurgimento da Revolução Conservadora no plano da cultura popular moderna.

O Black Metal é, ademais, parte de uma crescente subcultura de resistência ao sistema anti-branco. Essa subcultura consiste em uma constelação de gêneros e subgêneros musicais, práticas religiosas, pensadores e escolas filosóficas e políticas, sítios virtuais, livrarias, publicações, e atividades culturais, como reencenações de batalhas, interligadas. Essa subcultura sustenta-se dando a seus membros uma identidade positiva que não é dependente do sistema de recompensa de status mantida pela distribuição política e sociocultural atual. Ademais, se, como Jacques Attali propôs, a música do presente é o barulho do futuro, então, de modo codificado, o Black Metal poderia muito bem ser mais sintomático das coisas por vir do que das coisas como elas são.

A Revolução Conservadora foi inteiramente diferente do conservadorismo americano moderno, que é meramente uma forma de liberalismo clássico aliado com opiniões socialmente conservadoras. Conservadores americanos acreditam em progresso, democracia, igualdade perante a lei, e livre mercado; sua ideologia deriva do Iluminismo como formuldo por John Locke e Adam Smith. Eles estão fortemente associados com o libertarianismo. Eles consideram o homem um indivíduo racional, soberano, e eles tendem a ter uma concepção linear e progressivista da história. Os Conservadores Revolucionários alemães, como outros movimentos völkisch, estavam reagindo contra o racionalismo do Iluminismo, e, em termos americanos, tem muito em comum com os agrarianistas sulistas. Seus inimigos comuns eram a modernidade, o urbanismo, e o industrialismo.
O pensamento völkisch é caracterizado por um foco romântico no "orgânico"; folclore germânico, história local, sangue e solo, e misticismo natural. O termo deriva da palavra alemã Volk, que corresponde a "povo", mas com as conotações adicionais de folclore, raça, e nação. Entre os românticos alemães, "Volk" "significava a união de um grupo de pessoas com uma essência transcenental", a fusão do homem com a natureza (particularmente sua paisagem nativa, seguindo Wilhelm Riehl), com o mito, ou com o cosmo, onde o homem encontra "a fonte de sua criatividade, sua profundidade de sentimento, sua individualidade, e sua unidade com outros membros do Volk". Um conceito relacionado é "Volkstum", um termo que combina as noções de folclore e etnicidade.

O pensamento völkisch emergiu do nacionalismo romântico do início do século XIX, particularmente aquele de Johann Gottlieb Fichte, que, junto com Ernst Moritz Arndt e Friedrich Ludwig Jahn, "começou a conceber o Volk em termos heróicos durante as guerras de liberação contra Napoleão". O pensamento völkisch emergiu em uma épica quando a Alemanha existia como uma coleção de principados semi-feudais. Como a unidade política eludiu-os por mais de meio século, os pensadores völkisch foram forçados a enfatizar as dimensões culturas e espirituais, ao invés de políticas dessa unidade. Então eles vieram a idealizar, até mesmo mistificar, o conceito de nacionalidade. Esse processo alcançou tamanho ímpeto que quando a unificação política finalmente chegou em 1871, a natureza prosaica da Realpolitik de Bismarck levou a uma enorme sensação de desapontamento.

O pensamento völkisch também coincidiu com a Revolução Industrial e a crescente destruição da paisagem natural alemã, o deslocamento de populações, a obsolescência de artes e ferramentas tradicionais, a alienação social, as efervescências políticas (e.g., as revoluções de 1848), e crises econômicas. Essas levaram eventualmente ao desencantamento e finalmente a uma rejeição total da sociedade industrial e da modernidade, que veio a ser vista como materialista, desalmada, desenraizada, abstrata, mecânica, alienante, cosmopolita, e irreconciliável com a auto-identificação nacional. O pensamento völkisch era uma busca pelo enraizamento, pela "correspondência interna entre o indivíduo, o solo nativo, o Volk, e o universo". Daí os chamados para uma "'revolução germânica' para liquidar os novos desenvolvimentos perigosos e guiar a nação de volta a seu propósito original". Não surpreendentemente, ideólogos völkisch viam a "política tradicional como exemplificando o pior aspecto do mundo no qual viviam", e "rejeitavam os partidos políticos como artificiais", favorecendo ao invés um "elitismo que derivava de suas concepções semi-místicas da natureza e do homem".

A rejeição völkisch da modernidade era às vezes combinada com doutrinas ocultistas e esotéricas racialistas exempliicadas pelo runologista Guido von List, autor de The Secret of the Runes. A leitura racialista de List sobre a Teosofia de Helena Blavatsky provou ser influente nos círculos ocultistas. A Sociedade Guido von List (Guido-von-List-Gesellschaft), que ele fundou, incluía entre seus membros o sexo-racialsita Jörg Lanz von Liebenfels, autor de Theozoologie, fundador da ordem esotérica, Ordo Novi Templi (Ordem dos Novos Templários), e fundador e editor da revista Ostara. Lanz glorificava a raça ariana como Gottmenschen e advogava a esterilização dos inaptos e das raças inferiores. A "teozoologia" de Lanz eventualmente evoluiu em "ariosofia" - o estudo da sabedoria oculta referente aos arianos. Outros discípulos de List tornaram-se envolvidos no Reichshammerbund e na Germanenorden, organizada por Theodor Fritsch, um proeminente ativista no movimento antissemita alemão.

Quando a Germanenorden partiu-se em duas facções cismáticas (a Germanenorden e a Germanenorden Walvater do Santo Graal), Hermann Pohl, o primeiro líder da Ordem, uniu-se a Rudolf von Sebottendorff, um maçom que também era um admirador de List e de Liebenfels. Sebottendorff eventualmente contactou Walter Neuhaus, líder da Germanenorden e cabeça da Sociedade Thule, um grupo de estudos germânicos. Sebottendorff adotou o nome desse grupo de estudos como nome de cobertura para a loja de Munique da Germanenorden Walvater, que era comandada conjuntamente por ambos. Com o tempo a Sociedade Thule veio a organizar o Deutsche Arbeiterpartei (DAP), que foi renomeado Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP) em 1920, meses após Adolf Hitler, um dos leitores da revista de Liebenfels Ostara, unir-se ao partido.

Esse ramo ocultista do pensamento völkisch, que durante os anos pós-Segunda Guerra produziu escritores como Savitri Devi e Miguel Serrano, adotou elementos da mitologia oriental: uma visão cíclica da história (espelhada na metahistória de Oswald Spengler) baseada no modelo hindu das quatro eras degenerativas sucessivas, ou Yogas; enquanto a suástica, onipresente na Índia e no Extremo Oriente, foi adotada por numerosas organizações antes do NSDAP, da Sociedade Teosófica de Blavatsky ao Ordo Novi Templi de Lanz (a primeira a usar a suástica em um contexto arianista), da Germanenorden de Fritsch à Sociedade Thule de Sebottendorf.

Apesar de ignorada por alguns pensadores völkisch, a questão judaica adquiriu importância crescente durante esse período. Como um povo do deserto, os judeus vieram a ser "vistos como superficiais, áridos, 'secos'...desprovidos de profundidade e totalmente carentes de criatividade". Isso contrastava com os alemães, "que, vivendo nas escuras e enevoadas florestas, eram profundos e misteriosos". Ademais, porque os judeus prosperava no contexto liberal, secular, comercial, e urbano, eles vieram a ser vistos como a incarnação da modernidade, e daí um estranho corrupto e conspirador, um agente insidioso da dissolução. De fato, os judeus haviam tornado-se fortemente ligados aos liberais no caminho da emancipação e, em particular, a Revolução de 1848.

Por causa de suas ligações com o judaísmo, o Cristianismo também caiu sob escrutínio: "em comum com a maioria dos pensadores völkisch, Paul de Lagarde culpava São Paulo por ter envolvido o Cristianismo puro na estéril lei judaica" e adovagava uma religião germânica através da qual um "realinhamento das forças espirituais poderia realizar uma verdadeira unidade do Volk". O ataque de Nitzsche ao Cristianismo como um agente debilitador foi influenciado pelo antijudaico, porém ainda assim cristão, Lagarde. Por volta da época em que Savitri Devi escreveu Defiance e Gold in the Furnace, pouco após a Segunda Guerra Mundial, porém, a hostilidade radical ao Cristianismo estava fortemente ligada a sentimentos anti-judaicos radicais.

Após a Primeira Guerra Mundial, a ideologia völkisch, "adquiriu uma base política de massa", propelida pela angústia da derrota militar alemã em um contexto em que idéias völkisch há muito haviam sido disseminadas dentro das instituições alemães. A Revolução Conservadora emergiu nessa época como um movimento predominantemente völkisch: ela pensava organicamente ao invés de mecanicamente, enfatizava qualidade em oposição a quantidade, valorizava a comunidade popular (Volksgemeinschaft) em oposição à luta de classes, acreditavam no Führerprinzip em oposição à oclocracia e ao parlamentarismo, glorificava a guerra em oposição ao economicismo anti-heróico, e rejeitava o liberalismo progressivo, o igualitarismo, e a cultura comercial banal da civilização industrial urbana.

Os Conservadores Revolucionários eram revolucionários porque eles perceberam que a cultura estava ameaçada não apenas pelo liberalismo e pelo comunismo, mas por toda a ordem política, que tinha que ser substituída - usando meios revolucionários caso necessário - por uma nova ordem baseada em princípios conservadores. Apesar de que o termo existia antes do fim da Primeira Guerra Mundial, ele entrou em uso geral apenas após ter sido popularizado por Hugo von Hoffmannstahl e Edgar Julius Jung durante a República de Weimar. Oswald Spengler, Ernst Jünger, e Carl Schmitt, junto com Arthur Moeller van den Bruck (que criou o termo "Terceiro Reich") foram representantes desse movimento. Idéias völkisch possuíam considerável proeminência social e legitimidade institucional mesmo muito antes de os nacional-socialistas chegarem ao poder. Elas foram, porém, marginalizadas e suprimidas pelo regime aliado de ocupação após a derrota militar alemã em 1945.

Black Metal e o Retorno do Pensamento Völkisch

Como as idéias völkisch ressurgiram na cultura popular? Já por volta dos anos 60 o Cristianismo havia entrado em uma fase de decadência no Ocidente, após um longo período de crescente ceticismo bem como hostilidade de ideologias políticas tanto da Direita como da Esquerda. Como tem sido o padrão no Ocidente desde o quarto século, o decínio da religião dominante coincidiu com um interesse renovado em espiritualidades alternativas, religiões exóticas, e em ocultismo.

Muito desse interesse encontrou expressão na cultura popular moderna, especialmente na música popular moderna. Talvez o exemplo mais notável dessa confluência seja a música dos pioneiros do Heavy Metal, Led Zeppelin, cujas letras misturam Aleister Crowley, J.R.R. Tolkien, e folclore pagão nórdico e anglo-saxão. Artistas como Black Sabbath, Black Widow, e Coven também incorporaram temas ocultistas e seguiram influenciando ondas subsequentes de artistas mais explicitamente satânicos, como King Diamond e Mercyful Fate.

Influenciados pelo Black Sabbath, pelo Motörhead, e pelo punk rock, o Bathory emergiu nesse milieu. Nós já vimos como os temas satânicos dos primeiros albuns do Bathory foram substituídos por temas nórdicos e pagãos. Thomas Forsberg do Bathory articulou a opinião de que o Cristianismo era uma religião estrangeira, uma forma de conquista espiritual judaica que buscava esmagar e erradicar o paganismo europeu indígena. Durante a década de 90, essa opinião tornou-se extremamente influente na subcultura Black Metal, especialmente na Escandinávia.

Perspectivas anti-cristãs dentro da cena Black Metal usualmente encaixam-se em duas categorias: nietzscheanas (muitas vezes mediada pelo "satanismo" de Anton LaVey) e neo-pagãs. Os nietzscheanos denigrem o Cristianismo como uma religião igualitária da fraqueza, humildade, penitência, confissão, e auto-negação. Os neo-pagãos geralmente concorda com os nietzscheanos, mas enfatizam o caráter estrangeiro e a influência dissolvente do Cristianismo comparado com a herança europeia pagã mais autêntica. Essa perspectiva é explicitamente völkisch, evocando a unidade de sangue e solo, de raça e nação, e de espiritualidade e Volk. A cena Black Metal também tende a ser antissemita pelas mesmas razões völkisch que eles são anti-cristãos. Alguns músicos eram tão militantemente anti-cristãos que durante o início da década de 90, embarcaram em uma campanha de incêndio de igrejas.

No mundo do Black Metal, a espiritualidade genuína e a profundidade de expressão artística remetem ao mergulho corajoso na escuridão da alma humana. Daí as canções sombrias repletas de ódio, medo, melancolia, miséria, e depressão. Black Metal - "true" Black Metal - busca colocar a maior distância possível entre si e a sociedade de massa do capitalismo, que ele percebe como sem sentido, banal, materialista, acéfala, conformista, não criativa, e hipócrita.

A subcultura Black Metal glorifica a guerra e o espírito marcial. Cenas de batalha são comuns em capas de álbum de Black Metal, e músicos normalmente fotografam a si mesmos portando machados ou espadas e usando cartucheiras, pulseiras com espetos, e, ocasionalmente, cotas de malha. Similarmente, as letras celebram guerra e conflito, geralmente heróicos, sempre sangrentos. Esse militarismo normalmente está envolto em misticismo. Títulos típicos incluem "Sunwheel on the Helmet of Steel", no álbum Alone Against All do Capricornus, "Nine Steps to Eternity"no álbum Fidelity Shall Triumph do Thor's Hammer, e "Fire and Snow" no álbum Will Stronger than Death do Graveland.

Artistas do Black Metal também enfatizam a natureza e as paisagens naturais, mas uma sensibilidade mórbida e mística é evidente mesmo aqui. Seja por inspiração do pensamento völkisch, ou do mero ocultismo satânico, a natureza é sempre concebida em termos espirituais, místicos, e românticos. A estética do Black Metal dita que a noite e o inverno são eternos. Florestas coníferas são preferíveis aos campos trabalhados e aos pomares cuidados. Onde a glorificação da guerra funde-se com o misticismo natural, a ênfase reside nesta. Bandas de Viking Metal e Folk Metal, em contraste, adotam uma abordagem mais obviamente völkisch e geralmente enfatizam o idílico em oposição ao Sturm und Drang contra-iluminista.

A sensibilidade Black Metla não rejeita a cultura em favor da natureza, mas ao invés valoriza cultura e natureza, ambas concebidas organicamente, acima da civilização, que é concebida em termos mecanicistas e materialistas. No universo do Black Metal, cidades nunca foram construídas, a Revolução Industrial nunca ocorreu, e a modernidade nunca chegou. Apesar de toda sua beligerância, o Black Metal é inerentemente nostálgico, uma negação compreensiva da modernidade.

Essa negação é aparente mesmo na sonoridade do Black Metal, que obviamente seria impossível sem a sociedade tecno-industrial que o Black Metal rejeita. Assim a fonte tecnológica do Black Metal - que o conecta à modernidade - é oculta na mesma medida em que ela é exaltada na música techno: bandas de Black Metal "cru" preferem uma sonoridade extremamente pouco produzida, "necro", que deliberadamente evita a mídia de alta-fidelidade ou busca emular mídias de baixa-fidelidade - em contraste a outros gêneros que preferem uma sonoridade primitiva, o efeito desejado não é "crédito de rua" (como no punk rock) mas um senso de obscuridade quase oculta; bandas mais sofisticadas a nível instrumental usam camadas de sintetizadores para gerar uma atmosfera mística volatilizada que obscurece o ato da performance, enquanto bandas com uma orientação veementemente pagã (como o Nokturnal Mortum), acrescentam instrumentos folclóricos tradicionais a sua mistura para evocar uma sensação terrena de Volkstum.

O efeito desejado é sempre de que o ouvinte perca-se no som, que entre em um quase-transe, erguido acima do tédio da mundaneidade; o músico do Black Metal aspira à hipnose e, no caso do Black Metal especificamente pagão, ele busca criar a união espiritual - com a terra, com o inconsciente coletivo, com a alma pagã perdida, com o espirito heróico perdido do passado distante - que era buscada pelos autores völkisch há cem anos.

A rejeição da modernidade está associada com a rejeição do progressivismo. Como os pensadores völkisch, black metallers, sejam pagãos, satanistas, ou meramente suicidas, são pessimistas culturais. Seu pessimismo está geralmente aliado com a adoção explícita da visão indo-européia cíclica tradicional da história, na qual a história começa com uma Era de Ouro e então decai por eras de Prata e Bronze até a atual Era do Ferro ou Era das Trevas (Kali Yuga), que está fadada a perecer por suas próprias corrupções ou através de uma batalha final cataclísmica, por meio da qual uma nova Era de Ouro nascerá.

Referências a pessimistas culturais como Nietzsche e Spengler e a autores mais misticamente inclinados como Julius Evola, Savitri Devi, Miguel Serrano, e H.P. Lovecraft, são comuns no Black Metal. Daí títulos como "Decline of the West (Europe Will Rise" no álbum Aryan Rebirth do Pantheon, "Eve of the Kali Yuga" no álbum Knigths of the Eternal Sun do Arkthos, "The Gathering of the Elite to Destroy both the Modern World and Demiurge" no álbum Aryan Cult of A-Mor do Beyond the North Winds, "Desecration of Our Fatherland" no álbum Awakening of the Ancient Past do Darkthule, "Melancholy of the Inaccomplished Vengeance" no álbum Death of the White Race do Sons of North, "Among the Ruins" no álbum Beyond the North Winds do SIG:AR:TYR, "Sons of the Fatherland" no álbum The Last European Wolves do Hordak, "A Golden Age Turns to Rust" no álbum The Fallen Years do Drowning the Light, e "Exiles of the Golden Age", no álbum Weltenfeind, split com Absurd, Grand Belial's Key, e Sigrblot.

Referências explícitas ao pensamento völkisch são raras, mas elas ocasionalmente aparece: há uma banda finlandesa chamada Armanenschaft; o EP Blood and Fire da banda Hate Forest contem a canção "Aryosophia"; a banda Vril lançou uma fita demo chamada "Once and Again Thule"; a faixa "Vrilmacht" da banda Werewolf aparece em seu EP Fidelity of Ideology; há o EP Blood and Soil do Apriaxia; e o álbum Wer is der Starke von Oben do Adalruna mostra uma fotografia de Guido von List em pé no Heltentor com membros da Guido-von-List-Gesellschaft em 1911.

Referências a esoterismo e misticismo especificamente nacional-socialistas também não são infrequentes: há os EPs Ahnenerbe e Hyperborea do Bilskirnir, e a música "Reconquering the Atlantean Supremacy" no álbum Wotansvolk, o EP Centurions of Thule do Hakenkreuzug, a música "Jewel of Atlanteans" no álbum Memory and Destiny do Graveland, e a música "Hyperborean Ascention" no álbum Detritus da banda Contra Ignem Fatuus, entre outras.

A emergência de Black Metal explicitamente nacional-socialista não deveria surpreender, pois a corrente völkisch original foi a incubadora das tendências da Revolução Conservadora, incluindo o Nacional-Socialismo, e por volta de meados dos anos 90 o Black Metal havia recriado a mesma lógica cultural que levou ao Nacional-Socialismo 80 anos antes. Mas a prontidão com a qual o Black Metal veio a abraçar uma perspectiva e sensibilidade tão amplamente estigmatizada após a vitória aliada em 1945 precisa ser explicada.

A resposta está na natureza da gênese do Heavy Metal após o colapso da subcultura musical popular da década de 60. Deena Weinstein identifica duas correntes dentro dessa gênese, uma idealista, e uma conservadora, que fundiram-se na incepção do Heavy Metal.

O Heavy Metal emergiu em uma épca em que sua núcleo demográfico original - homens brancos do proletariado - estavam passando por um crescente deslocamento social, cultural, econômico, político, e demográfico, graças a maré crescente de feminismo radical; ativismo negro beligerante; legislação discriminatória na educação e no emprego favorecendo minorias; imigração não-branca do terceiro mundo; e uma séria crise econômica que colocou os brancos mais marginalizados contra a parede. Esses desenvolvimentos ajudaram na formação de uma comunidade implicitamente branca que era fortemente etnocêntrica, e que, em um mundo no qual sua raça era cada vez mais marginalizada, veio a ser um distintivo de honra de sua marginalidade negativa: os fãs do Heavy Metal são aquilo que Weinstein chama "párias orgulhosos".

A cultura Heavy Metal foi definida por suas raízes proletárias, e a cultura proletária é por natureza conservadora, com papéis masculinos e femininos bem definidos, uma prontidão para expressar emoções fortes, e uma desconfiança do governo e das corporações. É uma cultura que está decididamente em descompasso com o liberalismo dominante. Não surpreendentemente, então, o Heavy Metal tendeu a resistir a mudanças radicais em sua forma, celebrava a masculinidade heróica, e estava fundado em um ethos de integridade e autenticidade que deplorava sua própria comercialização. De fato, "para fãs, talvez a pior coisa que pode ser dita sobre uma banda de heavy metal é que ela 'virou comercial'". Não obstante, o Heavy Metal ganhou muitos fãs da classe média baixa, e derivados subsequentes seguiram esse padrão. A classe média baixa é o mesmo corpo demográfico que Mosse identificou como formulando as críticas völkisch da modernidade um século atrás, e de fato as características centrais da cultura Heavy Metal são altamente compatíveis com aquelas críticas.

Mesmo em suas formas mais cruas, o Black Metal tende a apelar a uma sensibilidade mais elitista e culturalmente sofisticada do que seu gênero paterno, mas ele não mudou radicamente a perspectiva anti-moderna, anti-liberal, anti-comercial, e anti-cosmopolita que herdou do Heavy Metal. Ele apenas o tornou mais sério: aprofundou-o ideologicamente, elaborou-o artisticamente, e radicaluzou-o metapoliticamente. Desde o início os black metallers foram párias orgulhosos no mundo moderno, e, como tais, foram receptivos a ideológias anti-sistema que fossem compatíveis com a própria constituição do Black Metal.

Em suma, uma boa porção das características intelectuais e estéticas do Black Metal são völkisch. Crowley, Satanismo, e Tolkien também fervem no caldeirão do Black Metal, com certeza, mas esses também foram apropriados na medida em que sejam consistentes com a visão-de-mundo völkisch. Portanto, pode-se plausivelmente caracterizar o Black Metal como um renascimento da Revolução Conservadora, profundamente transformando no contexto de uma subcultura musical moderna, mas reconhecível não obstante.

Lições

Minha caracterização do Black Metal inevitavelmente levará elementos radicais dentro do movimento nacionalista branco a perguntar: "Como usamos o Black Metal para começar a revolução?". Aqueles que fazem essa pergunta provavelmente estarão pensando em como o rock na década de 60 ajudou a disseminar e popularizar entre os jovens as idéias "progressivas", liberais, e anti-ocidentais que estavam rastejando nas catacumbas da academia desde a década de 30, ou mesmo antes.

Eu não estou convicto de que o Black Metal tenha qualquer aplicação nesse sentido político. A música da década de 60 possuía um apelo amplo, enquanto o Black Metal busca e festeja sua própria marginalidade e obscuridade. Participação estudantil na política radical durante a década de 60 é espelhada apenas pela esquerda moderna, e possuía, como hoje, um apoio midiático e institucional extremamente amplo. Fãs de Black Metal, por outro lado, detestam a política ainda mais que os Conservadores Revolucionários: a sua estratégia é uma de negação e fuga da mundaneidade.

A Anti-Geldof Compilation que eu patrocinei e lancei através da minha gravadora permanece até agora o único exemplo de participação em questões atuais e política quotidiana na cena Black Metal - e mesmo nesse caso foi baasicamente uma resposta emocional da parte dos artistas participantes contra a santa hipocrisia dos rock stars indulgentes. Isso é significativo quando se considera que a Encyclopedia Metallum lista atualmente mais de 17.000 bandas de Black Metal. Mas, novamente, a maioria dos artistas participantes eram associados com a cena NSBM, e, como sabemos, um aspecto que distinguia dos nacional-socialsitas dos conservadores revolucionários na Alemanha era sua vontade de participar na política de massa.

Na melhor das hipóteses, nós podemos ver o Black Metal como prova de que é possível para um espaço cultural existir, mesmo hoje, onde o pensamento anti-igualitário pode encontrar expressão artística honesta e forjar uma identidade alternativa positiva entre os brancos através de uma práxis estilística. Nossa tarefa é compreender os mecanismos que permitiram a partes significativas da cena Black Metal a existir como uma comunidade branca explícita em primeiro lugar. Nossa tarefa também é criar outros espaços desse tipo, para expandir a constelação de atividades estilizadas, de modo que possamos eventualmente construir um universo cultural paralelo a partir do qual eles possam receber apoio institucional e assim ganhar ímpeto e se consolidar, assim que o sistema liberal entre em colapso com o peso de sua própria corrupção e falência ideológica.

Essa é uma tarefa importante, porque haja vista que os artistas do Black Metal desenvolveram e inspiraram um estilo ou estética evocativas que (implicitamente ou explicitamente) é singularmente branca e europeia e/ou celebra essa identidade em toda sua diversidade de história e herança, o Black Metal é um objeto genuíno de estudo no contexto de uma guerra cultural em que a facção oposta busca suprimir, difamar, e erradicar a identidade branca. Humanos são animais sentimentais e emocionais, mais aptos a serem persuadidos por um estilo apelativo do que por um argumento racional, então vencer a guerra cultural demandará mais do que fatos científicos e lógica superior. Demandará que nós sejamos bem sucedidos em apelar a sentimentos e emoções nos tornando mestres de estilo. O Black Metal contém lições importantes nesse sentido.