24/01/2014

Jack Donovan - Todo Mundo é uma Prostituta

por Jack Donovan


A retórica da inflação de ego está em todo lugar. No trabalho, na escola e no shopping, os americanos esperam que todos digam o quão especiais, talentosos e importantes eles são. Em nosso mundo invertido, os fracos são fortes de alguma forma, aquele que sobrevive a uma cutícula arrancada é corajoso, e todo burocrata que trabalha para o Departamento de Defesa é um maldito herói.

Na GloboCorp, o Departamento de Recursos Humanos tenta convencer cada Joãozinho e Mariazinha que eles são absolutamente essenciais para o sucesso da empresa. Os talentos criativos de cada um são valorizados e todos, do zelador ao presidente, são capazes de fazer tremendas contribuições positivas. Em seu recente livro sobre o valor do trabalho, Matthew B. Crawford argumenta que corporações modernas desvalorizam conquistas significativas quando elas nos agradam e falam como se todo mundo fosse uma espécie de Einstein.

Os americanos gostam que seja dito que são brilhantes e corajosos, mas como povo, esses não são os nossos valores mais elevados. Quem consegue nomear cinco recentes e legítimos heróis de guerra? A plebe tampouco se importa a respeito de quem é inteligente. Ela só liga para a ciência quando quer perder peso, vencer uma discussão na Internet ou descobrir como o mundo irá acabar. Se você conseguir falar agora o nome de dez caras que fazem ciência de verdade, você provavelmente é um cientista.

A maioria das pessoas sabe não são Einsteins, e elas realmente não ligam para isso. Elas têm uma preocupação mais premente.

O que elas realmente estão se perguntando é: "será que eu sou bonito (a) ?”.

Pessoas bonitas são os faróis mais brilhantes do nosso mundo flutuante. Modelos atraentes e atores recebem muito mais elogios e atenção do que condecorados com a Medalha de Honra. As pessoas amam tecnologia, mas a usam para "acompanhar os Kardashians". Elas lotam as academias, mas força e fitness são apenas subprodutos do seu desejo de serem desejadas. Um abdômen trincado é mais valorizado que um supino poderoso ou um agachamento com carga alta. Ninguém liga pra quanto peso Tatum Channing ou Brad Pitt conseguem levantar, ou quão rápido eles podem correr, ou o que eles são capazes de construir, ou quantos caras eles conseguem derrotar em um combate. Eles são admirados por serem bonitos.

Antigamente, apenas as mulheres jovens se preocupavam excessivamente em serem desejadas. Em sociedades patriarcais tradicionais, uma mulher a qual nenhum homem quisesse como esposa se tornaria um fardo para seus pais. Uma mulher não desejada nunca poderia se tornar uma mãe ou administrar uma casa. Ela seria para sempre uma filha dependente ou uma independente e solitária solteirona. Para mulheres em idade de casar, a atratividade tem um valor muito alto e, embora a sua importância diminua com a idade, a maioria dos homens ainda prefere ter uma esposa bonita a uma feia. Seja por hábito ou por natureza, muitas mulheres tendem a gostar de se maquiarem e se adornarem para parecerem mais jovens, férteis, femininas e atraentes.

No entanto, de todas as mulheres, a que mais se importa em ser desejada é a prostituta, porque sua sobrevivência depende da sua habilidade de fisgar os homens.

Alguns apontarão para a ornamentação masculina como um contraexemplo, mas a motivação por trás do embelezamento masculino tem sido tradicionalmente diferente. Quando os homens se ornamentavam, eles o faziam para parecerem mais temíveis ou para comunicar status. O samurai usava vermelho, e como em muitos pontos mais delicados da higiene samurai, eles o faziam para que seus inimigos os respeitassem como oponentes viris, mesmo depois que fossem mortos. Eles não “davam um trato no visual” para transar. Eles o faziam para ganhar o respeito de outros homens.

No fim de semana passado, um filme sobre strippers masculinos faturou $39,2 milhões de dólares nas bilheterias. A América percorreu um longo caminho desde Flashdance.

No texto sobre A Sociedade Masturbatória dos Bonobos eu usei bonobos e chimpanzés para comparar a sociedade orientada para o sexo feminino com a sociedade orientada para o sexo masculino. Pessoas não são exatamente a mesma coisa que macacos, mas eu acho que chimpanzés e bonobos fazem metáforas reveladoras para onde estivemos e para onde aparentemente estamos indo.

Os bonobos vivem luxuosamente, com acesso a tanto alimento quanto precisam. Coalizões de fêmeas reprimem a agressão masculina e os machos raramente formam grupos coesos. Os machos não sabem quem são seus pais, somente suas mães. O sexo é igual ao que a vadia de um bar disse uma vez a um amigo meu; “como um aperto de mãos". O homossexualismo é lugar-comum porque o sexo é uma atividade social e todo mundo faz sexo com todo mundo. Não se trata de reprodução; se trata de masturbação mútua e de se divertir. Costuma-se dizer que os bonobos são pacíficos, e embora isso possa não ser completamente verdadeiro, eles são definitivamente matrilineares e excepcionalmente “safados”.

Os chimpanzés formam grupos de caça patriarcais. Os machos permanecem juntos e as fêmeas acabam migrando de grupo pra grupo. O sexo é uma atividade reprodutiva. O homossexualismo é raro. Os machos dominam as fêmeas e aqueles que estão no topo da hierarquia masculina controlam todo o grupo.

A América está rapidamente se tornando a Sociedade Masturbatória dos Bonobos, devotada ao prazer e organizada primariamente para servir aos interesses das fêmeas. Cada vez mais homens são criados por mães solteiras e os machos são desencorajados de se organizarem sem a supervisão feminina. O sexo é social e a maior parte do trabalho duro e perigoso que os homens costumavam fazer, ou é feito por máquinas "à prova de idiotas" ou é terceirizado para países onde o custo de vida é barato. Mulheres e homens desonrados microgerenciam agressões masculinas com leis e processos judiciais sem fim, e bad boys que não podem pagar por grandes advogados são chutados pra dentro de uma multibilionária indústria prisional, que ostenta a maior taxa de encarceramento do mundo.

Em nossa Sociedade Masturbatória dos Bonobos, transar é uma das únicas coisas que os homens são encorajados a fazer que os fazem se sentirem realmente como homens.

Por todo o Alt-Right, vários autores criticam a cultura PUA e o "jogo". Porque praticamente a única coisa máscula que os homens estão autorizados a fazer hoje em dia é transar.

Eu sou mais simpático a essas coisas. Eu vejo o que muitos chamam de "jogo" como um tipo de "acesso à masculinidade". O "jogo" é essencialmente um treinamento de assertividade para uma geração de jovens que passaram a maior parte de suas vidas pedindo permissão para suas mães.

Masculinidade é como um talento. Alguns machos são mais dotados que outros, mas como qualquer talento, a masculinidade tem que ser pressionada e desenvolvida para significar algo impressionante. Garotos que foram criados por mães solteiras ou pais superprotetores e expostos ao sistema de lavagem cerebral feminista das escolas públicas, nunca foram postos à prova ou treinados por grupos de homens severos. Você não pode entregar um diploma de ensino médio a um guri criado a leite com pêra e ovomaltine pela mamãe e esperar que ele cuspa igual a Clint Eastwood.

Quando falam sobre o "jogo", os homens na “manosfera” estão escavando através das besteiras que o sistema diz sobre garotas aos garotos. Este é um trabalho que precisa ser feito. Se os caras medianos acreditarem na baboseira oficial que é dita sobre sexo e relacionamentos, eles serão usados e abusados pelas arrogantes e pretensiosas mulheres americanas pelo resto de suas vidas. E, na medida em que desconstroem mitos feministas sobre os sexos, eu vi muitos desses caras começarem a se perguntar o que realmente significava ser homem. Essa é uma conversa importante. Entretanto, quase parece um caminho mais seguro no clima cultural atual, fazer da perseguição à boceta uma opção de vida em longo prazo. É aí que as médias positivas deslizam em direção a um extremo negativo.

Andy Nowicki escreveu que se os homens realmente querem minar o matriarcado, eles deveriam parar de foder. Ele pode ter suas próprias motivações (possivelmente religiosas) para dizer tal coisa, mas eu acho que ele tem alguma razão nesse ponto.

Nossas feministas manipuladoras e globalistas adorariam mais do que qualquer outra coisa manter os homens jovens – o grupo mais perigoso e potencialmente revolucionário em qualquer civilização – completamente distraídos por boceta. E, embora possa sentir como se estivesse afirmando sua dominância (convenientemente da forma mais inofensiva possível), se tudo o que você faz serve para torná-lo mais atraente para as mulheres, você é um “vibrador humano”. Quando os seus músculos são apenas para exibição, quando tudo o que você faz é para se tornar mais desejável, você está interpretando o papel feminino. Quando o seu valor como homem depende do número de mulheres que você consegue levar pra cama, você não passa de um gigolô.

Como Hunter S. Thompson notou, sexo é a maior diversão dos amadores. É maravilhoso quando você é jovem, bonito, ingênuo e despreocupado - mas "putas velhas não dão tantas risadinhas".

Mark Simpson tinha compreendido muito disso quando, lá em 1994, cunhou o termo "metrossexual". O metrossexual não é necessariamente gay ou efeminado no sentido extravagante da palavra - essa é a apenas a maneira como a palavra “pegou” entre as pessoas. A ideia de metrossexual de Simpson é de um "homem espelho" cujas maiores preocupações narcisistas são a busca do prazer e ser considerado "desejável". Ele pode estar apaixonado por si mesmo, mas isso também é um tipo de amor frívolo. Ele liga mais para a aparência e para quão bem ele fode do que para o que conquistou ou o quanto é respeitado. É uma vaidade de prostituta.

Hugh Hefner estava muito a frente do seu tempo. Foram os homossexuais que abriram caminho para o estilo de vida bonobo. Antes que os PUAs de hoje estivessem na pré-escola, eles já faziam isso por causa dos números, à procura de validação, baseando seu valor próprio em "quantos" e "quão gostosos". Homossexuais rejeitaram expectativas e papéis masculinos tradicionais e canalizaram toda a sua agressão masculina para o sexo e em prol do sexo. Sua ideia de masculinidade tornou-se masturbatória - um Tom of Finland bombado, uma caricatura masculina, sem função, honra ou virtude. Os homossexuais, por serem “homens”, definiram o cenário cultural para a objetificação masculina da mesma forma que os homens sempre objetificaram as mulheres.

Como bonobos desbravadores, os homossexuais descobriram as desvantagens do meretrício. Um jogador experiente estava destinado a adquirir um punhado de DSTs, e a AIDS praticamente dizimou uma geração inteira de homens "sexualmente liberados". Para muitos, existem também muitos custos psicológicos. Ser desejado é uma droga viciante. E quando esse é o seu valor mais elevado, isso se torna sua identidade. Um dos problemas – e isso sempre foi uma maldição para as mulheres – é que a atratividade sexual está ligada ao instinto de procriação, e tem seu pico na juventude. Os homens envelhecem melhor que as mulheres, mas a maioria dos homens que barganha seu “sex appeal” não alcança de forma tranquila a masculinidade da meia-idade, confiante e segura, de seus antepassados. Como os homossexuais e estrelas de cinema, eu me pergunto quantos dos “pegadores” modernos sairão em busca de esteroides, viagra, e eventualmente se convencerão de que talvez a plástica facial de Kenny Rogers fique melhor neles do que ficou neste. (Não ficará, camaradas. Vocês ainda parecerão com uma lésbica velha que não consegue piscar). Há algo de particularmente desesperado, triste e indigno em um homem de certa idade que gasta muito tempo buscando por validação sexual.

O que é pior é que os heterossexuais não estão no mercado para os homens; eles estão no mercado para as mulheres, de modo que a biologia os coloca em grande desvantagem. O “estrategista em PUA” (sedução), o Heartiste, recentemente postou sobre uma experiência de encontros online na qual os dois caras mais bonitos, em conjunto, conseguiram obter um total de 50 mensagens de mulheres, enquanto que mulheres medianas receberam mais de 500 mensagens de homens, no mesmo período de tempo. Esse “campo de jogo” nunca chegará perto de ver qualquer igualdade, mas o PUA está ganhando popularidade porque os homens enxergam essa disparidade e querem aumentar suas chances.

Homens com boa aparência e algum "jogo" podem ser capazes de manter esse ritmo pela maior parte de suas vidas e acabarão tendo boas histórias para contar. Uma pequena minoria de homens sempre foi libertina e provavelmente alguns estão particularmente bem adaptados a isso. Uns terão arrependimentos e outros não.

O problema não é o que acontece para uns poucos jogadores, mas o que nos tornamos enquanto sociedade quando todo mundo quer ser um jogador. A libertinagem costumava ser uma forma de rebeldia, mas cada vez mais ela é parte do programa. Em uma sociedade onde o sexo e a atratividade são os valores mais elevados, o que acontece com os outros dois terços da curva?

A carne não será democratizada. A atratividade não é mais uniformemente distribuída do que força, tamanho ou QI. O mundo é cheio de gente feia e gorda. As pessoas podem melhorar bastante com dieta, exercício e higiene – e deveriam –, mas você pode colocar batom em um porco e ainda assim ele continua sendo um porco. Alguns homens e mulheres simplesmente não têm uma boa aparência. Várias pessoas são, na verdade, bastante repulsivas. Algumas provavelmente deveriam evitar a luz do dia por completo, porque elas amedrontam as crianças.

As mulheres sempre foram conscientes do elitismo cruel da hierarquia natural da beleza. Em sociedades nas quais outras virtudes tiveram um valor maior, elas poderiam se concentrar na piedade ou simplesmente em serem boas mães. Quando as mulheres foram “sexualmente libertas”, algumas feministas (principalmente as gordas e feias) acharam que poderiam contar com o condicionamento social para dar a todos nós óculos com “visão de cerveja” permanente e tornar cada bruxa velha e inchada tão desejável quanto Heather Locklear. Se a Barbie pelo menos tivesse proporções realistas, ou se fôssemos forçados a ver mais obesos mórbidos na televisão, então, menos lágrimas cairiam nos potes de sorvete. Elas continuam a fazer pressão pela “aceitação das gordas” e continuam nos dizendo que “o volumoso é belo”. Quando isso não funciona, elas nos reprimem com clichés ruins e tentam nos convencer de que a beleza ou está nos olhos de quem vê ou “no interior”. Nós podemos tratá-las com condescendência ou tentar ser mais sensíveis, mas fingir que todos são igualmente belos é tão absurdo e incorreto quanto fingir que todo mundo é um Einstein.

Ninguém quer uma boneca obesa da Barbie, e a desobjetificação das mulheres está em desacordo com o Zeitgeist da nossa ultra-sexualizada sociedade masturbatória de bonobos. Andrea Dworkin perdeu, e mais do que nunca garotas adolescentes estão assistindo pornô hardcore para aprender como rebolar, fazer garganta profunda como as “profissas” e fazer sexo anal. Eu vou para a academia e vejo caras que não estão ali para levantar ferro ou ficarem monstros. Eles estão seguindo treinos para “secar” e construir um corpo “para as gurias”. Essas meninas estão pegando um bronze, recebendo implantes nos seios e tentando ficar parecidas com strippers. Um amigo que ensina em uma escola da Califórnia disse que eles tiveram que cancelar o dia de Halloween porque as crianças não queriam mais ser assustadoras. Os garotos e garotas, de modo idêntico, estavam usando o feriado como uma desculpa para irem à escola o mais próximo de nuas que era possível.

As pessoas costumavam ter aspirações mais decentes. Elas queriam formar famílias queriam fazer um bom trabalho. Queriam ser bons cidadãos, bons cristãos, ser uma boa pessoa. Agora todo mundo quer ser pegador e digital influencer. Todo mundo quer ser o tipo de macaco no qual os outros macacos querem se esfregar.

Nós chamamos essa orgia matrilinear de “progresso” e buscamos a nossa redenção moral na reciclagem.

O sexo pode ser natural, e com certeza é divertido, mas é apenas uma parte da vida. Uma sociedade que põe ênfase excessiva no sexo a ponto de parecer que a única coisa que significa algo na vida é grotesca e degradada, e para a maioria das pessoas ela garante mais em um vazio do que em êxtase.

Em patriarcados saudáveis, os homens se forçam para ganhar o respeito e a admiração dos outros homens. Eles trabalham para provarem sua força, coragem e competência uns para os outros. Os homens se orgulham de sua reputação pelo domínio dos seus corpos, suas ações e seu ambiente. Eles querem ser conhecidos pelo que são capazes de fazer, não apenas por quão bem ou quem eles fodem. E com certeza eles não perdem seu tempo tentando descobrir o que eles podem fazer para impressionar uma vadia com muitos seguidores no Instagram.

Puta merda, em alguns lugares, quando um homem está pronto para arranjar uma esposa, ele apenas escolhe uma e a rapta. Os homens costumavam se casar e tocar suas vidas. Parece um caminho de vida mais saudável para mim e eu tenho visualizado o que o outro lado tem a oferecer.

Recentemente, eu assisti Restrepo, um documentário sobre soldados lutando no Afeganistão. Tinha uma cena onde os americanos tinham que negociar com anciões de tribos locais. Os anciões eram um bando de caras velhos com um olhar muito sério e suas longas barbas eram vermelhas brilhantes tingidas com rena.

Nossos “aliados” tribais no cemitério dos impérios têm lá seus problemas. Eles cagam nas próprias mãos e estupram. Seus costumes deixam espaço para muitas melhorias.

No entanto, enquanto eu assistia seus olhos sérios, eu me perguntava se qualquer um daqueles homens perdeu muito tempo na vida se perguntando, “será que eu sou bonito?”.

22/01/2014

Alain de Benoist - A Vacuidade Intelectual da Velha Direita

por Alain de Benoist



A Direita nunca foi apreciadora de intelectuais. Não é de admirar, então, que a expressão “intelectual de esquerda” tem sido, por muito tempo, uma tautologia. Para muitas pessoas da Direita, os intelectuais são simplesmente insuportáveis. Eles os visualizam sentados em espreguiçadeiras, é claro, e os vê como “tipos hipócritas” que sodomizam moscas, dividem o cabelo e publicam livros, invariavelmente descritos como “indigestos” e “chatos”.

Essa idéia pode ser encontrada em diferentes backgrounds. Para os libertários, os intelectuais são inevitavelmente “desconectados da realidade”. Para os ativistas, intelectuais tergiversam enquanto estamos diante de um “estado de emergência”, exigindo ação.

Já ouvi coisas como esta a minha vida inteira. De fato, há um lado positivo nesta atitude. Direitistas mostram uma preocupação real para fatos concretos, uma verdadeira desconfiança de abstrações inúteis ou intelecto puro, um desejo de afirmar a primazia da alma sobre o espírito, do orgânico sobre a “secura” teórico, a esperança (sempre desiludida) para voltar a uma vida mais simples, etc.

A Direita é mais sensível às qualidades humanas do que à capacidade intelectual. Ela gosta de admirar mais do que de entender. Ela pede exemplos mais do que aulas. Ela gosta de estilo, gesto e brio. E nisso não está errada em fazê-lo. A sociedade inteiramente composta de intelectuais seria insuportável.

Mas o problema é que quando essa atitude é sistematizada, pois leva a evitar qualquer doutrina, a rejeição de qualquer obra da mente.

O intelectual pode ser definido como a pessoa que tenta compreender e fazer os outros entenderem. A Direita, muitas vezes, não tenta entender mais. Ele ignora o que o trabalho da mente pode realizar. O resultado é que a cultura de Direita tem hoje quase que totalmente desaparecido. Ela só sobrevive em círculos restritos, editoras marginais e jornais que apenas direitistas acreditam que são jornais reais. O ostracismo que sofreu não é o único fator para isso.

Tal só pode ser atingido na forma como a Direita perdeu o hábito de intervir nos debates intelectuais. Se tomarmos os cem livros que foram mais discutidos do último meio século, percebe-se que a Direita não publicou uma única crítica destes. Não interessa a Direita ou lhe dizem respeito. A Direita é desinteressada em qualquer autor fora de seus marcos. Não quer discutir ou refutar qualquer um deles.

Sobre a dialética da modernidade, a evolução da dimensão social, as forças por trás a lógica mercantil, o imaginário simbólico, a Direita não tem nada a dizer. Por que pensar, então, que teria sido incapaz de formular uma crítica à tecnociência, uma teoria do localismo ou de conexão social, uma filosofia da ecologia, ou uma antropologia própria? É simplesmente incapaz de fazer isso. Sempre houve centenas de debates teóricos na Esquerda, alguns insignificantes, outros muito profundos. Quem pode citar um único debate intelectual que marcou a história da Direita no último meio século? À Direita, na medida em que o pensamento está em causa, se assemelha as estepes tártaras ou a um sinal retilíneo no encefalograma.

A maioria das pessoas da direita substituem idéias por convicções. As idéias podem, naturalmente, gerar convicções, e as convicções resultam de idéias, mas os dois termos são coisas diferentes. Convicções são coisas nas quais se acredita e que, pelo fato de serem objetos de uma crença, não podem sofrer qualquer exame crítico. Convicções são um substituto existencial para a fé. Elas ajudam a viver sem a necessidade de questionar a sua estrutura lógica, o seu valor em relação a vários contextos, ou as suas limitações. Na Direita as pessoas fazem ser uma questão de honra defenderem suas convicções como em um estudo da Bíblia.

A Direita gosta de respostas mais do que de perguntas, especialmente se estas são respostas prontas que renunciam à necessidade de uma perspectiva filosófica, como se não se pudesse filosofar quando a resposta é preconcebida. O trabalho da mente requer a aprendizagem dos próprios erros. A atitude da Direita é o bastante para evitar considerar seus erros e, assim, nunca tenta corrigi-los, a fim de ir mais longe, daí a ausência de autocrítica e debate. A autocrítica é vista como uma fraqueza, uma concessão inútil, se não uma traição. Na Direita as pessoas se gabam de que “não lamentam nada”, incluindo os erros que fizeram. O debate, por implicar uma contradição, uma troca de argumentos, é geralmente visto como uma agressão, como algo que não se faz.

O homem da Direita prossegue com entusiasmo ou indignação, com admiração ou repulsa, mas não com a reflexão. Ao contrário, ele é reativo, daí a sua reação emocional quase sempre a eventos. O que é surpreendente é a sua maneira ingênua, se não pueril de reagir, de sempre contentar-se com a camada superior das coisas, com a anedota das notícias, de tomar um ponto de vista estreito em tudo, sem nunca ir profundamente nas causas. Quando você mostra-lhes a Lua, muitos da direita olham para o seu dedo. A História então se torna incompreensível – o que está fazendo na Terra a Providência? – Mesmo os direitistas constantemente se referem a ela. Daí as teorias da conspiração simplistas, que podem levar a absurdos reais, não faltam. Os problemas sociais são sempre explicados por manipulações obscuras de uma “conspiração oculta”, uma “aliança negra”, etc.

Como a Direita é muito pouco interessada em idéias, ela tende a trazer todo foco para as pessoas. Movimentos políticos de Direita estão, em primeiro lugar, associados com seus fundadores, e raramente sobrevivem a eles. Brigas de direita são brigas, principalmente, de indivíduos, com basicamente as mesmas fofocas e as mesmas acusações caluniosas. Da mesma forma, seus inimigos nunca são sistemas ou idéias, mesmo genuínas, mas categorias humanas apresentadas como bodes expiatórios (judeus, “metecos”, “banqueiros”, maçons, estrangeiros, “trotskistas”, imigrantes, etc.). A Direita tem dificuldade em apreender um sistema desprovido de um assunto: os efeitos sistêmicos da lógica do Capital, as limitações de estrutura, a gênese do individualismo, a importância vital das ameaças ambientais, as forças desencadeadas pela tecnologia, etc. A Direita não entende que os homens têm de ser combatidos, não por aquilo que são, mas na medida em que encarnam e defendem os sistemas nocivos de pensamento ou valores. Por preferir jogar sobre os indivíduos, por não gostarem do que são, a Direita vira para a xenofobia ou algo ainda pior.

A Direita tem sido a grande derrotada da história. Praticamente perdeu todas as lutas nas quais se envolveu. A história dos últimos dois séculos, para a Direita, tem sido uma de derrota contínua. Essa sucessão de falhas sugere que a superioridade de seus adversários se baseia apenas nas próprias fraquezas da Direita.

No início, o que era o melhor que a Direita tinha a oferecer? Eu brevemente digo: um sistema anti-individualista e anti-utilitarista de pensamento, juntamente com uma ética de honra, herdada do Ancien Régime. Assim, ela se opunha frontalmente à ideologia do Iluminismo, cujas forças de condução eram o individualismo, o racionalismo, os interesses individuais auto-evidentes e a crença no progresso. Os valores que a direita reivindicava eram aristocráticos e populares ao mesmo tempo. Sua missão histórica era cumprir a união natural da aristocracia e do povo contra o inimigo comum: a burguesia, cujos valores de classe foram, precisamente, legitimados pelo pensamento iluminista. Mas esta união foi cumprida apenas por períodos muito curtos.

Para a Direita, o homem é naturalmente social. No entanto, nunca forjou sua própria teoria consistente para explicar a comunidade ou conexão social. Tampouco explorou seriamente uma oposição aos tipos liberais ideais, do indivíduo autônomo e do “homem social”. Também nunca foi capaz de formular uma doutrina econômica genuinamente alternativa ao sistema mercantil.

Em vez de apoiar o movimento dos trabalhadores e do socialismo nascente, o que representou uma reação saudável contra o individualismo que a direita também estava criticando, muitas vezes defendeu a exploração humana mais terrível e as desigualdades políticas mais injustificáveis​. Ela tomou o partido dos ricos, objetivamente participando da luta de classe da burguesia contra os pretensos “distribuidores” e as “classes perigosas”.

Houveram exceções, embora raras. Teóricos da Direito foram mais frequentemente liderados pelas suas audiências do que líderes destas. Defendendo a nação, a Direita raramente entendeu que a nação é, acima de tudo, as pessoas. Ele esqueceu a complementaridade natural dos valores aristocráticos e populares. Quando o direito dos trabalhadores a uma pausa para férias anual foi aprovada em lei, a Direita protestou contra a “cultura de férias”. É sempre preferível ordem à justiça, sem entender que a injustiça é uma forma suprema de desordem, e que a própria ordem é muitas vezes nada além do que uma desordem estabelecida.

A Direita poderia ter desenvolvido uma filosofia da história fundada sobre a diversidade cultural e a necessidade de reconhecer o seu valor universal, que a levariam a apoiar as lutas em favor da autonomia e da liberdade do Terceiro Mundo, cujos povos foram as primeiras vítimas da ideologia do progresso. Em vez disso, a Direita acabou defendendo o colonialismo que tinha uma vez condenado, enquanto reclama que estão sendo colonizados por sua vez.

A Direita se esqueceu de que o seu único verdadeiro inimigo é o dinheiro. Deveria ter considerado tudo se opusesse ao sistema do dinheiro como seu aliado objetivo. Em vez disso, gradualmente se juntou ao outro lado. A Direita estava melhor equipada do que qualquer outra força para reformular os valores anti-utilitaristas de generosidade e abnegação, e para defendê-los. Mas, pouco a pouco, a Direita aderiu à lógica do interesse e defesa do mercado. Ao mesmo tempo, caiu em linha com o militarismo e o nacionalismo, que nada mais é que o individualismo coletivo, algo que os primeiros contra-revolucionários tinham condenado como tal.

Nacionalismo levou a Direita à metafísica da subjetividade, esta doença do espírito, sistematizada pelos Modernos. Isto alienou a Direita da noção de verdade. Deveria ter sido o partido da generosidade, da “common decency”, das “comunidades orgânicas”, mas, muitas vezes, se tornou o partido da exclusão, do egoísmo coletivo e do ressentimento. Em suma, a Direita traiu a si mesma quando começou a aceitar o individualismo, o estilo de vida burguês, a lógica do dinheiro e o modelo do mercado.

O socialismo cristão, ocasionalmente, desempenhou um papel útil, mas caiu principalmente sob o paternalismo. As conquistas sociais dos “fascismos” foram desacreditadas pelo seu autoritarismo, seu militarismo e seu nacionalismo agressivo. O corporativismo levou a nada. O sindicalismo revolucionário foi morto pelo “compromisso fordista”, que resultou na integração das partes cada vez maiores da classe trabalhadora na classe média burguesa. Mais importante, este tipo de preocupação nunca foi associado a uma análise profunda do Capital. A condenação do “Big Money” é insignificante quando se abstém de analisar a própria natureza do dinheiro e do impacto antropológico de um sistema de mercado generalizado, com a reificação das relações sociais e seus efeitos de alienação.

Quanto à “Direita Monárquica” não cessou marginalizar-se e definhar. Cada vez mais esquecido do seu próprio passado, todo o seu sistema implícito de pensamento pode ser resumido em uma única frase: “Foi melhor antes” – se este “antes” refere-se aos anos trinta, ao Ancien Régime, ao Renascimento, à Idade Média ou à História Antiga.

Esta convicção, mesmo quando é ocasionalmente correta, nutre uma atitude que é ou restauracionista, que a condena ao fracasso, ou puramente nostálgica. Em cada caso, a “Direita Monárquica” contenta-se em opor ao mundo real um passado idealizado e fantasias: a fantasia da origem, a fantasia de uma época passada e a nostalgia irreprimível de uma matriz original, revelando a incapacidade de atingir a idade adulta.

O objetivo é tentar conservar, preservar , atrasar, ou deter o curso dos acontecimentos, sem consciência clara da seqüência histórica inevitável dos acontecimentos. A grande esperança é reproduzir o passado, ir para trás, para o tempo em que tudo era muito melhor. Mas, como é obviamente impossível, a “Direita Monárquica” contenta-se com uma atitude ética, a fim de fazer uma declaração. Politicamente, esta “Direita Monárquica” não tem mais seu próprio telos a cumprir, pois todos os seus modelos pertencem ao passado. Ela chegou a um ponto em que ainda não sabe claramente o tipo de regime político que gostaria de estabelecer.

A História torna-se um esconderijo: idealizada, reconstruída de forma seletiva e mais ou menos fantástica. A história fornece a sensação reconfortante de ter uma “herança” estável, que servem para dar exemplos significativos que a Direita pode opor aos horrores da atualidade. A História é suposta a “dar lições”, embora nunca se saiba exatamente o que é isto. A Direita não entendeu que a História, a quem reverencia tanto, também pode ser incapacitante. Quando Nietzsche diz que “o futuro pertence àqueles com a memória mais longa”, o que ele quer dizer é que a Modernidade será tão sobrecarregada pela memória que vai tornar-se impotente. É por isso que ele chama para a “inocência de um novo começo”, o que implica, em parte, o esquecimento. As pessoas nunca têm uma maior fome para a história do que quando eles são incapazes de fazê-la, e quando a história se passa sem eles ou contra eles.

Hostil a inovação, a “Direita Monárquica” é incapaz de analisar as situações invisíveis do futuro com as suas ferramentas conceituais obsoletas. Ela julga tudo de acordo com o mundo que uma vez conhecia, que lhe era familiar e, assim, reconfortante, confunde o fim deste seu mundo com o fim do mundo real. Ela enfrenta o futuro com o olho no espelho retrovisor. A Direita é incapaz de analisar os eventos históricos, dar um passo atrás e examinar as conseqüências causais distantes. Não pode estabelecer a genealogia dos fenômenos que lamenta, nem detectar as falhas da pós-modernidade. Ele não consegue mais entender nada no mundo atual, a evolução daquilo que rejeita como uma “decadência” sem fim.

O fato de que tem sido constantemente vencida, muitas vezes, provoca uma mistura peculiar de ironia meticulosa, escárnio enfático, amargura e risadinha conivente, tão típica do longo lamento reacionário. Ela também apresenta o lema apocalíptico medíocre “Estamos condenados!”. Com essa visão, estamos sempre em “estado de emergência”, é sempre “um minuto para a meia-noite”. Diante das “catástrofes” que enfrentamos, estamos esperando por uma “onda”, um “despertar”, a “maioria silenciosa” , o “país real” está sendo convocado. Mas tudo isso já havia sido dito em 1895. Durante todo esse tempo, a história tem, no entanto, continuado.

A característica mais marcante da “Direito Monárquica” é um narcisismo político e moral, fundada em uma visão de mundo imutável, com dois lados (nós o bem, eles o mal), que é uma simples projeção de uma linha de falha dentro de qualquer um de nós. Esta dicotomia de “nós contra os Outros”, dado como o fator que explica tudo, vem realmente sob esta metafísica da subjetividade que já mencionei, que legitima todas as formas de egoísmo e de exclusão. A Direita fala muito sobre defender a sua “identidade”, mas que, geralmente, tem dificuldade em a definir. Na maioria das vezes, a sua identidade é sobre não ser o que condena. É a existência de seus inimigos que define própria existência da direita, a existência negativa, a contrario. A marginalização da Direita alimenta uma mentalidade obsidional, que por sua vez aguça a sua rejeição do Outro. Há algo dos Cátaros neste obsidionalismo: o mundo é ruim, vamos fechar as fileiras do “último quadrado”. Os títulos dos seus livros de cabeceira também dizem: pelo maldito, os hereges, os réprobos, os nostálgicos, O acampamento dos Santos, em suma, o Último dos Moicanos. Em um mundo de tribos, para os quais não tem simpatia, a “Direita Monárquica” não é nada mais do que uma tribo de sobreviventes, que vive em conivência e isolamento. Ela tem ritos e senhas próprias, slogans e ressentimento, e todos os dias se vê sendo cada vez mais isolados de um mundo “de fora” que rejeita e demoniza, sem possibilidade de mudar o curso dos acontecimentos. O que resta para ela é para comemorar suas próprias derrotas, que ela faz com tanta perseverança que somos forçados a nos perguntarmos se ela secretamente cultiva estas derrotas, como se as derrotas fossem sempre mais “heróicas” do que vitórias.

A Direita nunca deu prioridade à luta contra o sistema do dinheiro, que era o seu principal inimigo. Primeiro ele lutou contra a República em um momento em que se tornou óbvio que uma monarquia de direito divino nunca voltaria. Depois de 1871, a Direita se dedicou à condenação dos “Boches” (e até mesmo dos “judaico-boches”), o que a levou, em nome da “União Sagrada”, a legitimar a carnificina atroz de 1914-18, que gerou todos os horrores do século 20. No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, ele comprometeu-se na luta contra o comunismo e sua “selvageria pagã” (como o marechal Pétain expressava-a). Na época da Guerra Fria, com medo deste mesmo comunismo, que ela deveria ter considerado como um rival e não como um inimigo, a Direita ficou do lado do “mundo livre “, dando assim a sua bênção para a hegemonia norte-americana, o poder da burguesia e da supremacia mundial do liberalismo predatório – como se os horrores do Gulag justificassem as abominações do sistema mercantil. Isso levou a Direito a apoiar o “atlantismo”, para aprovar a matança do povo vietnamita, para mostrar solidariedade com as ditaduras mais patéticas, dos coronéis gregos e dos generais argentinos a Pinochet e seus “Chicago Boys”, para não mencionar os torturadores da Operação Condor, especializada em assassinatos de “Subversivos”, que estavam em sua maioria, apenas pedindo mais justiça social. Quando o sistema soviético entrou em colapso, tornando a globalização possível, caiu sobre os imigrantes, providencialmente, o papel legal da “ameaça”. Confundindo imigrantes com o Islã, o Islã com o islamismo, eventualmente, o islamismo com o terrorismo, agora faz isso novamente com a islamofobia, uma abordagem verdadeiramente suicida e, o que é mais, absolutamente inconsistente do ponto de vista geopolítico.

A “Direita Monárquica”, no final do dia, é fundamentalmente apolítica. A própria essência da Política é estranho para ela. Na verdade, confunde política com ética, da mesma forma que a Esquerda confunde política com a moral. A Direita acredita que a Política é uma questão de honra, de coragem, de virtudes, do sacrifício, de heroísmo, isto é, no melhor dos casos, de qualidades militares. Ela vê a política como a continuação da guerra por outros meios, que inverte totalmente o aforismo de Clausewitz. Ela não entende que a política é apenas uma ocupação, uma arte, algo que tem por objetivo definir cuidadosamente o melhor, mas não a modo ideal de servir o bem comum – um bem, por sinal, que não pode simplesmente ser repartido. Ela não entende que a política é uma forma de arbitrar entre as aspirações contraditórias decorrentes da natureza humana, para arbitrar entre as necessidades de convivência cívica e as necessidades de auto-interesse.

Quanto a mim, faz mais de um quarto de século desde que parei de me considerar pertencente a qualquer família da Direita e que eu parei de mostrar solidariedade com ela. Não há nenhum mistério aqui: já o disse e escrevi muitas vezes. Mas apesar disto, não considero que a Direita seja um assunto desinteressante. Nem penso que seja um assunto desprezível. Quando eu a critico – e eu sempre hesito antes de criticá-la, tanto porque não é apropriado atirar em um alvo tão fácil e por não querer me envolver com o movimento – sou forçado a generalizar, e quando se generaliza, sempre se corre o risco de ser injusto. Mas eu não ignoro seus méritos. Da mesma forma que as suas qualidades têm defeitos, suas falhas também têm qualidades. Em muitas ocasiões, a Direito era (e continua sendo) admirável por sua coragem, sua persistência e seu espírito de sacrifício. Todas essas qualidades, mas têm conseguido resultados tão escassos!

Vou acrescentar que eu não me reconheço como pertencente a qualquer família da Esquerda, que me poupa do desejo de querer ser “admitido”. Pode-se, sem dúvida, definir-me como alguém da extra-esquerda da extrema-direita ou um homem que tem idéias de esquerda e valores de direita. Isto me permite concordar igualmente bem com os homens de esquerda e com os homens de direita cada vez que eles afirmam idéias que considero justas. Mas, na verdade, eu não me importo com rótulos faz um bom tempo.

Eu me importo tanto menos, já que a dupla Esquerda-Direita fica cada vez mais ineficaz como uma ferramenta analítica. O que é uma “posição da extrema-direita” sobre a ocupação americana do Iraque, e qual é a da “extrema-esquerda”? Não há simplesmente nenhuma: tanto no lado da Esquerda quanto no lado da Direita, esta ocupação tem opositores e apoiantes. É o mesmo para todos os problemas do nosso tempo: a integração Europeia, geopolítica, ecologia, a vinda da crise do petróleo, etc. A única coisa que importa é o que as pessoas pensam de uma questão precisa, não importa como eles se posicionam (ou se recusar a) no espectro político tradicional.

21/01/2014

Horacio Cagni - Spengler na América do Sul

por Horacio Cagni



O alemão Oswald Spengler (1880-1936) é um dos pensadores mais controvertidos do século. Sua morfologia das culturas, expressada em sua obra fundamental A Decadência do Ocidente (1918-1922) e outros livros, teve uma grande repercussão na produção historiográfica dos anos vinte e trinta, e uma enorme influência nas idéias da época, influência que se prolonga, com altos e baixos, até nossos dias. Filósofo da história, homem vindo das ciências exatas e da biologia, nunca se considerou um catedrático senão um educador, e particularmente um educador da juventude alemã, um expoente da realidade de sua pátria e da Europa de seu tempo, de uma época de profunda crise.

Spengler, que havia escrito a primeira parte de A Decadência em meio a grandes dificuldades, se converteu rapidamente em um dos personagens mais importantes do mundo intelectual germânico, e não só nesse âmbito. Era comentado pelos críticos, visitado pelos jornalistas dos mais variados países, criticados pelos catedráticos e assediado pelos curiosos, naquela Munique povoada de presságios.

É que o filósofo da decadência não se limitava a ser um frio especialista em culturas comparadas e suas leis homólogas, senão que também era um pensador sensível, lastimado pelos acontecimentos em que se encontrava sua amada pátria no pós-guerra, de modo que também, ao não querer ser um simples "pensador de escrivaninha", se converteu em um notável escritor político.

A recepção de Spengler na América do Sul foi bastante precoce. A morfologia das culturas do filósofo de Blankenburg, com suas oito culturas diferenciadas, coloca a ocidental como uma mais, e se bem Spengler afirma a preferência de si mesmo, adverte com clareza que o Ocidente, se bem domina a cena há séculos, não veio antes de outras formas culturais superiores, nem escapa à decadência implacável de toda civilização. Era uma crítica direta ao eurocentrismo. Precisamente, a obra fundamental do filósofo sai à luz no fim da Grande Guerra, quando os orgulhosos ideais do Iluminismo e as finezas da Bélle Époque haviam ficado enterrados no lodo das trincheiras. Spengler tinha preparado seu primeiro volume já em 1916, porém encontrou editor em 1918 e, se não produto da derrota alemã, seu êxito se deveu a um estado sombrio de ânimo, que se conjugava perfeitamente com o atraente título.

Essa sensação de finitude, de acabamento de uma grande civilização, que projetavam os horrores do conflito, motivou em muitos intelectuais sulamericanos - a maioria conhecia bem ao Velho Continente - uma série de reflexões sobre os tempos futuros. Saul Taborda, um argentino cordobês que havia estudado na Alemanha, exemplifica claramente esse novo espírito: "A Europa fracassou. Já não há de guiar o mundo. A América, que conhece seu processo evolutivo e assim também as causas de sua derrota, pode e deve acender o fogo sagrado da civilização com os ensinamentos da história. Como? Revisando, corrigindo, depurando e transmutando os valores antigos, em uma palavra, retificando a Europa. A Europa necessitava de colônias abundantes em produtos e riquezas, e colônias fomos até hoje e seguiremos sendo enquanto a cultura americana não seja outra coisa que um pálido reflexo da cultura européia. Revisar, corrigir, desfazer ou transmutar os valores europeus, custe o que custar, é a missão que nos compete nesse instante decisivo da história".

Ainda não havia aparecido o Tomo II de Decadência quando o Dr. Ernesto Quesada, antes que em nenhum outro lugar do mundo fora da Alemanha, dedicava todo o ano de 1921 à "sociologia relativista spengleriana", quarenta e quatro conferências ditadas em sua cátedra nas Universidades de Buenos Aires e La Plata. Não só estava inteirado o acadêmico argentino das teorias de Spengler, também conhecia as críticas aparecidas até então. Faz referência a inúmeras delas, principalmente na Alemanha, mas também às de Croce, na Itália, por exemplo. Pelo visto, Quesada estava em Buenos Aires inteirado até dos artigos dos periódicos; e aquela não era, precisamente, uma era de comunicações de massa.

Quesada pediu a Spengler que lhe enviasse um curriculum. O alemão respondeu através de um amigo do catedrático argentino: "Comunico ao senhor para o prof. Quesada os poucos dados que lhe podem ser de utilidade. Nascido em 1880 em Blankenburg, no Harz, estudei, no Ginásio - de conhecida filiação clássica - da Fundação Franke, na cidade de Halle. Cursei nas universidades de Halle, Berlim e Munique, dedicando-me às matemáticas e às ciências naturais, sem interessar-me mormente pelas disciplinas filosóficas. De 1908 a 1911 fui a Hamburgo e ali organizei as coleções de ciências naturais. Em 1911 renunciei, e me trasladei a Munique, onde - repentinamente e com assombro meu - 'encontrei' minha filosofia. Em relação a minha evolução mental pouco tenho a dizer, porque até então a filosofia era a disciplina que mais longe estava de mim. Na prática, as idéias de meu livro se baseiam principalmente na arte, na matemática e na história política, com poucas reflexões filosóficas puras. Mais que isso não saberia o que poder comunicar que despertasse interesse".

Apesar de Quesada fazer em seus cursos uma exposição quase literal da teorética spengleriana, com poucas anotações à margem, tem o mérito especial de ter vislumbrado a novidade e riqueza de idéias da Decadência, contribuindo de tal modo a sua difusão na Argentina e América do Sul, que conseguiu ser tido em conta por um homem tão distante como o próprio Spengler.

É sabido que a "morfologia das culturas" spengleriana contempla oito culturas distintas: egípcia, chinesa, babilônica, indiana, árabe ou magiana, antiga, mexicana e ocidental. Quando estuda algumas como a antiga, a magiana e a ocidental, os conhecimentos que demonstra possuir Spengler são enormes, mas estes se reduzem consideravelmente no caso particular da mexicana.

Foi então que o Dr. Quesada apresentou a Spengler elementos sobre as culturas americanas. Quando o renomado curso de 1921 apareceu anunciado no Münchener Nachrichten, o argentino recebeu uma carta que assinalava: "Spengler está vivamente interessado por tudo que se refira às culturas americanas e roga lhe envie uma bibliografia da questão em alemão, francês e inglês, pois não possui outros idiomas; encontra deficiente tudo o que conhece na literatura germânica. Lhe atrai especialmente a cultura maia e inca; tem o conceito, que deseja comprovar com dados fáticos, de que as culturas maias, aztecas e inca apresentam fenomenologia análoga que a grecorromana clássica. Quando à maia quiche, suas grandes cidades em Yucatán, com seus 300 a 400 mil habitantes, sepultados hoje sob o humus das florestas centroamericanas, demonstram um desenvolvimento artístico análogo ao realismo da plástica grega do último período porém carece de elementos suficientes de estudo e lhe interessa muito que o senhor lhe transmita o quando possa lhe servir a seu objetivo".

Finalmente, o próprio Spengler lhe escreve diretamente: "Dos informes que recebo de seu curso vejo que o senhor dá importância particular à omissão das grandes culturas americanas em meu livro. Da mexicana me ocupo várias vezes na segunda parte, porém me foi impossível obter material sobre as sulamericanas, não conheço nada de importância, suspeito que na América devem ter aparecido obras importantes porém estão escritas em espanhol, que não domino: em todo caso não encontrei nem rastro delas em nossas bibliotecas. Ficaria especialmente endividado com o senhor se pudesse me facilitar informação". É assim que o "mago das culturas" recorreu a um catedrático sulamericano para se informar sobre o acontecer histórico.

Na imprevisibilidade do acontecer universal, nada igual ao que ocorreu com as culturas americanas, abrupta a violentamente destruídas quando estavam em seu zênite, "como um transeunte esmaga uma flor; essa cultura é o único exemplo (se refere à mexicana) de morte violenta". E aponta a semelhança de sua evolução com a cultura antiga ou clássica: "precisamente um traço antigo, a falta de vontade de poder na técnica, é a que determinou a índole de seu armamento e fez possível a catástrofe. O mais terrível é que nem mesmo foi tal destruição uma necessidade para a cultura do ocidente; a realizaram de modo privado uns quantos aventureiros, sem que ninguém na Alemanha, Inglaterra e França suspeitasse do que se passava na América. Essa é a melhor prova de que a história humana carece de sentido".

Evidentemente, Spengler não tinha demasiada informação sobre a América; em rigor existia pouco conhecimento do mundo pré-colombiano e não havia muito publicado. Ainda quando na segunda parte de A Decadência - e por influência de seu colega argentino - se haja ocupado mais, com alguns breves porém interessantes aportes sobre o México, deixando os incas para algumas menções vagas. Dado que se refere a influências de culturas com alma própria sobre outras reais, pode-se deduzir que não considerava aos incas uma cultura absolutamente "própria" como a mexicana. Se faz outra reflexão, considerando "a história religiosa de incas e maias, perdida para nós" nascendo em épocas correspondentes a Alexandre e a ascensão do grupo de religiões mágicas no território situado entre o mundo antigo e a Judéia". Por outro lado, e apesar das dificuldades de interpretação, em A Decadência arrisca algumas homologias entre a cultura mexicana e outras desde uma época primitiva - Copán, Chichén Itza, Palenque - até um "helenismo" maia e a culminação na cultura nahuatl com o caráter urbano de Uxmal, a "romanização" e o "cesarismo" até a irrupção dos "bárbaros aztecas" e o final abrupto às mãos de uma barbárie ainda maior e mais heróica, a irrupção dos homens de Cortés, em meio a uma "segunda religiosidade" azteca, tanática e de vontade de morte, muito distanciada da religião maia "impregnada de espírito".

Spengler nunca esteve suficientemente informado para arriscar uma hipótese concreta sobre as culturas americanas. De todo modo, não interessa aqui aprofundar a concepção spengleriana das culturas americanas, senão comprovar a influência que a relação com Ernesto Quesada significou em suas indagações. Logo de seu extenso curso sobre a teoria sociológica spengleriana, o argentino foi visitar o filósofo da decadência em sua casa de Munique; assim se iniciou uma amizade muito proveitosa para ambos. Quesada difundiu as teses spenglerianas nos centros acadêmicos sulamericanos através de diversos escritos e conferências, e o alemão sem dúvida deve ter absorvido muitos dados de suas conversas com aquele, que não deixou de lhe observar o vazio existente em sua obra sobre o ciclo pré-colombiano. Ao menos a reflexão sobre Juan Manuel de Rosas - "uma poderosa figura de estilo prussiano representativo da aristocracia contra o jacobinismo" - parece impossível de não ter sido inspirada nos diálogos com o filho de Vicente Quesada, testemunha e protagonista daquela época.

O acadêmico argentino ficou muito impressionado por "esse monge leigo que vive em um par de cômodos repletos de livros, em um terceiro andar de um subúrbio silencioso, com um modesto letreiro manuscrito na porta de seu departamento, no qual pede aos visitantes que lhe comuniquem antecipadamente o objetivo de sua visita, por ter tão pouco tempo disponível".

Quesada assinalava a Spengler que os fenômenos sociais europeus eram distintos aos americanos, como o eram os asiáticos e africanos, portanto era importante estudar os fenômenos históricos pelos quais passavam as diversas agrupações sociais em suas manufestações vitais. Spengler sustentava que a cultura americana atual era uma prolongação da européia, cujas manifestações senis copiava, enfatizando o caráter materialista e o pensamento em dinheiro, quer dizer os arquétipos decadentes. O argentino replicava que isso era aplicável à América anglo-saxã e sua indústria, comércio e banca "cartaginesas", porém no caso da América do Sul, sem uma sociedade impregnada pelo fermento anglo-saxão, onde o elemento branco era uma minoria em relação aos descendentes das antigas populações pré-colombianas.

O argentino insistia no caráter distintivo da "Outra América", baseando-se na antiga cultura de Tiahuanaco, cujas ruínas havia visitado, para apontar que um novo ciclo cultural poderia ser americano, pois as forças que portantos anos haviam ficado em barbecho, agora podiam despertar. Recorde-se que uma das afirmações mais contundentes de Spengler é a de que o próximo ciclo cultural seria russo - uma mescla de elementos cristãos ortodoxos, bolcheviques e dostoievskianos - pois o russo pensa sem dinheiro, é uma alma religiosa, segundo desenvolve em Decadência, As Duas Faces da Rússia e Anos Decisivos.

Quesada sai à frente de seu colega, aventurando a possibilidade americana. "A lei histórica dos ciclos culturais leva a direção de Oriente a Ocidente, de modo que, após o ciclo cultural ocidental, hoje eminentemente europeu, deveria logicamente seguir um ciclo cultural americano, porém não anglo-saxão, senão sulamericano, com caráter claramente indigenista e não caucásico. Não admite Spengler tal possibilidade, porém lhe falta o conhecimento in situ do problema americano para poder compará-lo com o problema eslavo. Se a alma russa é alheia à cultura ocidental, também o é a alma indígena americana; se aquela, mais próxima à natureza que à civilização urbana é de índole comunitária e religiosa, coisa análoga sucede com a outra; se a população eslava tem que despertar para servir de fermento à nova vida cultural, parecida coisa teria que suceder com a população indígena americana. No fundo, a alma indígena americana é virgem como a alma eslava, porque vive em contato direto com a natureza e é refratária à civilização urbana, com todas as suas lacras físicas e morais; a situação espiritual é a mesma".

Quesada, é importante assinalar, insistia nos aspectos que faziam uma identidade cultural americana, pensamento, este, produto de sua raiz católica, fazendo observações a Spengler, de fé luterana, acerca do particular do destino americano e de sua distintiva memória histórica. As observações mais significativas do estudioso argentino se referem ao "relativismo não comtiano senão einsteniano onde a queda dos corpos não é vertical senão cuva de parábola, o tempo não é absoluto, o espaço é relativo" da teoria spengleriana, assim como ao contraste entre o campo, atemporal e tradicional, frente à urbe cosmopolita desencadeada.

Resulta curioso observar a coincidência entre as afirmações de Quesada - e a impressão que Spengler causou quando ambos se encontraram - e as de Adelqui Carlomagno, veterano jornalista argentino, que fez uma reportagem sobre o pensador de Blankenburg, publicada no diário La Nación, de Buenos Aires. "Me apresentei, simplesmente, me anunciando como um estrangeiro que desejava conhecê-lo; às cinco da tarde, sem nenhum tropeço, como deve ser, eu me enfrentava com um dos homens mais curiosos e extraordinários do po pós-guerra; é mais fácil se entrevistar com Spengler que com qualquer dos 'ases' que temos por aqui".

Carlomagno faz um retrato vívido do entrevistado: "Um desses sábios alemães que nossa imaginação concebeu e sobre os quais não admitimos variantes de nenhuma espécie. Cabeça quadrada e absolutamente rasurada, grandes e grossos óculos, pouca estatura e engenhoso sorriso germânico que muitas vezes supria as poucas palavras. Spengler me pareceu mais sábio ainda: declarou com certa ênfase que jamais havia sido professor de qualquer universidade nem pensava sê-lo. Em lugar principal, coroando a cena, se destacava, no conjunto severo e harmônico do despacho, um busto de Napoleão. O Dr. Spengler não falava mais que alemão e um pouco de italiano, nem francês, nem inglês; conversamos em italiano deficiente. Disse que quiçá em anos vindouros aceitaria um convite que já se havia feito para um ciclo de conferências pelos EUA, Argentina e Japão".

O jornalista recebeu de presente um retrato autografado e uma última edição de A Decadência, com uma estranha dedicatória e um pensamento: "no 'Imperium' dos séculos XX e XXI, quiçá um Imperador da América do Sul desempenhará um papel importantíssimo". Porém Adelqui Carlomagno não crê no ciclo americano: "Tão velhos como a Europa ao transplante do século XV, estramos como ela na velhice espiritual. A América cristaliza mais que a Europa a obra dos séculos padronizando no mecanicismo e na uniformidade modernas todo o acervo da velha cultura. Nossos amigos do norte o compreenderam há muito tempo, quiçá sem querê-lo, realizando o ideal mecânico, o último ideal de toda civilização. A Europa já é história, a América chegou tarde, quase não a tem. Não fazemos mais que imitar o definitivamente feito, elaborando novas idoelogias e propostas culturais, combinando o de sempre em um círculo vicioso. Só ficam possibilidades técnicas. Gentilmente, Spengler quisera que essa bandeira última da riqueza material, a organização e a técnica a leve alguém na América do Sul".

Mais além da interessante entrevista a Spengler, o fantasma da nova cultura que sucederá à européia se une, quase sempre, à visão "calibanesca" que os intelectuais sulamericanos tiveram sempre respeito pela potência do norte, visão acentuada desde o desenlace da Guerra Hispano-Americana de 1898. José Rodó, Rubén Dario, Miguel Cané, Paul Groussac e tantos outros, destacaram permanentemente a oposição entre as duas Américas, aquela do titanismo e esta enraizada, a seu juízo carregada de possibilidades futuras.

Os conteúdos políticos da teorética spengleriana não passaram desapercebidos a seus críticos, e em tal sentido hão de se compreender as objeções que desde o âmbito românico se fazem a Spengler. Enquanto os críticos anglo-saxões se preocupam pelas consequências antidemocráticas de suas afirmações, os franceses e italianos enfatizam a tradição marcadamente prussiana do filósofo, seu gosto pelo vitalismo nietzscheano, a aquisição - tipicamente alemã a seu juízo - de elementos das ciências naturais aplicadas às culturas, tudo o que, segundo eles, termina por se converter em uma doutrina mais do pangermanismo.

Nessa linha de pensamento, unido à crítica de orientação marxista, podemos encontrar a parte que dedica Spengler em suas reflexões sobre Heráclito um estudioso muito sério da filosofia antiga, como foi o italiano Rodolfo Mondolfo, exilado na Argentina. Sabido é que Spengler se doutorou em filosofia na Universidade de Halle em 1904, com um estudo sobre a concepção energética de Heráclito. Mondolfo foi um dos grandes especialistas no Obscuro de Éfeso. Em 1947 prologa a edição castelhana da tese do prussiano, traduzida por sua mulher, Augusta. O ensaio de Spengler constitui a interpretação mais puramente energética do efésio, apresentado como um ser isolado dos outros pré-socráticos, que buscavam um princípio substancial de todas as coisas. Heráclito, na interpretação spengleriana, afirma a idéia de um acontecer puro, desprovido de substância, regido pela lei da impermanência. Nada permanece na natureza nem na vida humana, só o puro devir, unívoco, incessante, em uma contínua luta de opostos. É indubitável que essa concepção foi a base de toda a reflexão de Spengler sobre as culturas e as distintas manifestações de seu espírito.

"A simpatia de Spengler por Heráclito - assinala Mondolfo - procedia das sugestões que acreditava encontrar para sua própria orientação, apesar de sua teoria histórica da incomunicabilidade mútua das culturas, que tinha nesse ensaio sua primeira afirmação. Não obstante, se associava a ela a idéia de um processo análogo dos distintos ciclos culturais, idéia pela qual Heráclito, sustentador aristocrático da luta como criadora de toda distinção real, tanto na natureza como na história, parecia justificar por antecipado a moderna pretensão do Herrenvolk alemão a uma dominação mundial. E para Spengler...revestia particular interesse a interpretação de Heráclito em sentido energético".

A visão de Spengler foi muito criticada nos círculos sulamericanos, onde a maioria de seus intelectuais eram de formação católica. Em outro artigo publicado em La Nación, Manuel Gálvez, pensador católico de notável influência no nacionalismo argentino, revisava a concepção das culturas do alemão, cuja obra, se bem a considerava uma interpretação nova, brilhante, poética e artística, "não poderia nunca ser escrita por um latino; é impossível para um latino aceitar suas doutrinas essenciais (não se pode englobar como cultura árabe oito séculos de cristianismo e a Santo Agostinho, por exemplo - fazendo alusão à idéia spengleriana da cultura magiana abarcativa do cristianismo oriental - modifica os quadros culturais a gosto, etc). Parece Ameghino - um antropólogo muito controverso - ainda que não tão absurdo e grotesco".

Para Gálvez, o desdobramento que Spengler realiza do cristianismo é um disparate, pois a religião cristã é uma só. E em um arrebato de latinidade "maurrasiana", considera a Alemanha um "país bárbaro" em comparação com os EUA, e até mesmo Goethe era "um jovem bárbaro, como dizia Maurice Barrés", a arte de Wagner também é "bárbara". A Alemanha fala de cultura e não de civilização porque "carece do bom gosto latino; em nome da cultural se cometeram na Alemanha atrocidades, combate pela cultura - Kulturkampf - foi chamada a campanha de Bismarck contra a liberdade e a existência da Igreja Católica". E continua: "Pois se isso não bastasse, Spengler se esforça em diminuir os gregos, os romanos e o Renascimento, e em engrandecer os hindus, os chineses e os alemães. Nos acreditávamos os únicos civilizados e eis aqui que outros, considerados por nós como bárbaros, resultam criadores de 'culturas', tão importantes quanto a nossa, senão superiores", para concluir: "não houve senão uma única civilização: a greco-latino-cristã".

As idéias de Gálvez, com suas afirmações apodíticas, emergem naturais e espontâneas, refletindo as premissas e limitações do nacionalismo católico, um fenômeno que não se circunscreve à Argentina, onde foi muito forte como influência intelectual e fracassou sempre politicamente. Outros pensadores católicos se ocuparam do pensador da decadência, sem chegar aos extremos de Gálvez. Por exemplo, o peruano Jorge del Busto Vargas, professor universitário, amigo e colaborador do mentor da intelectualidade católica do país andino, De la Riva Agüero.

Ao refletir sobre a civilização como estágio terminal de uma cultura, Busto Vargas assinala que "por essa tese se inclina, em nosso meio, o Dr. José de la Riva Agüero, ainda que sem participar do 'tom despectivo' com que Spengler fala da civilização. Para de la Riva, civilização é o estágio final dos processos sociais em que diversas culturas vem a se somar e compor o sincretismo dos últimos períodos". Quanto à crítica final de Busto Vargas, aponta o "elemento semítico frente ao grego em Spengler, porque não há uma idéia cíclica total senão um 'epígono sem brilho', quer dizer que o elemento cristão está deslocado". O epílogo é que, com sua tese da cultura inconclusa "Spengler resulta indigenista, é o fundamento teórico das correntes indigenistas, alheio à mensagem de Cristo e dos valores da cultura ocidental". Note-se que essa opinião é a antítese da de Quesada. Fica, uma vez mais, ao descoberto a profunda influência que tem as idéias, o lugar e a conjuntura histórica na formação acadêmica e cultural das pessoas.

Apesar de ter sido Spengler um escritor político muito comprometido e um crítico acerbo da República de Weimar - o que não significa que haja cerrado fileiras com o nacional-socialismo, como muitos lhe acusaram - suas idéias políticas foram, em geral, menos atendidas na América do Sul que sua obra principal sobre a morfologia das culturas. Não obstante, se conserva uma carta de Spengler, datada em Widermayerstrasse 26, Munique, 19 de janeiro de 1927, a propósito de uma tiragem limitada de Prussianismo e Socialismo, dirigida a um tradutor desconhecido em Buenos Aires: "Muito estimado Sr. B. Tenho que lhe agradecer muito especialmente seu envio e o trabalho que você se tomou com meu pequeno escrito. Eu mesmo não domino o idioma espanhol, porém outros que leram o manuscrito não economizaram elogios. Falando em termos gerais, esses pequenos trabalhos políticos são compreensíveis somente do ponto de vista alemão e destinados somente para a Alemanha. Porém, dado o interesse que a obra maior encontrou nessa, devido especialmente à atividade de Ernesto Quesada, creio que também Prussianismo e Socialismo, que se relaciona com aquela, será julgado adequadamente. Portanto estou muito de acordo em que sua tradução, talvez com uma introdução sua, saia nas publicações das universidades argentinas. Seria talvez conveniente aludir ao conteúdo dos outros dois escritos: Reconstrução do Reich e Deveres Políticos da Juventude Alemã, que de certa maneira formam a continuação. Se você não os possui terei um prazer especial em enviá-los. O saúdo com a maior consideração. Spengler".

Ao ser editado na Alemanha Anos Decisivos, cuja fama eclipsou momentaneamente A Decadência, saíram um par de artigos em La Nación que não só eram elogiosos, senão claramente partidários do novo regime instaurado na Alemanha, coisa estranha em um diário de raizame tão liberal. Claro que eram tempos muito distintos: "Spengler é um educador político, no sentido em que se chamou a Hegel de educador da geração de Bismarck. A guerra mundial (primeira) destruiu o equilíbrio de estado dos grandes estadistas, não solucionou nada, apartou a Rússia da Europa e asiatizou a luta interior que começou com a 'Inglaterra interna' seguiu com Karl Marx. Em 12 de outubro de 1910, milhares de jovens procedentes de todos os lugares da Alemanha se reuniram no Hoher Meissner na Turíngia, e logo de uma deliberação intensa, condensaram sua vontade em uma fórmula: a juventude alemão livre quer, por própria determinação e responsabilidade, plasmar sua vida com sinceridade íntima.

Lutavam contra o esnobismo e o materialismo, produto da trivialização espiritual. Era Nietzsche, que privava contra Marx e Haeckel, mais ainda contra o positivismo. Não era questão de mudar a constituição, senão de se libertar dos resultados errôneos da civilização materialista. Os chefes dessa juventude foram Moeller van den Bruck e Oswald spengler, que assinalava: não há que reclamar direitos senão obrigações, a liberdade é serviço e não despreocupação, a comunidade é superior ao indivíduo". E o autor da nota faz uma longa exegese de Reconstrução do Reich Alemão e uma demolição prolixa do parlamentarismo de Weimar, para terminar com um elogio do Reicharbeitsdienst.

Algumas das reflexões sobre Spengler foram essenciais, e tentaram transcender os aspectos ideológicos, ainda quando quase sempre evidenciavam seus embasamentos, premissas e pontos de partida. Cedo, em 192, o decano dos filósofos uruguaios, Aquiles Oribe, pronunciou um discurso na Universidade da República, em Montevidéu, por motivo do primeiro aniversário da Junta de História Nacional, à qual pertencia, dedicado à doutrina spengleriana. É uma vasta e muitas vezes tediosa exposição sobre todas as idéias filosóficas, científicas, e políticas clássicas e aquelas em voga por então, muito a gosto com a retórica academicista e erudita da época. Expoente natural do ideal positivista de sua pátria, Oribe denuncia a doutrina de Spengler como "determinista em sua essência ideal e tradicionalista, e nacionalista em suas consequências imediatas, o homem ocidental tem como característica lutar contra o destino. Na filosofia spengleriana falta por completo este sentimento tão típico do homem moderno: a liberdade como princípio de ação. Temperamento imperialista, a leitura de seu livro sugere a impressão de estar escrito em defesa dessa doutrina: ao homem ocidental chegou a hora do imperialismo, por exigência de uma cultura que decai. Spengler quer desvirtuar o que é impossível, negar o confirmado pela história: a lei da harmonia da civilização, a do progresso que marcha com o mundo, que leva a humanidade a um fim, que nunca poderá prever nossa finita e limitada inteligência".

Lançando mão de Metchnikoff, Niebuhr, Altamira, Forner, Darwin, assim como Napoleão, José de San Martín e São Tomás de Aquino, o uruguaio tenta demonstrar a primazia da ciência, da iniciativa e da vontade no desenvolvimento humano e a importância dos grandes homens que contribuíram eficazmente para o desenvolvimento histórico: "O homem é, pois, o sujeito da história". Uma vez mais, a importância do contexto em que se desenvolvem acadêmicos e pensadores resulta de importância crucial.

Por outra parte, em um capítulo dedicado a Spengler em um ensaio, José Maria Rosa critica o conceito de afinidade morfológica na teorética do prussiano, pois dita maneira de expressar a arte, a arquitetura e as matemáticas muito pouco tem que ver com as nações que se agitam na história. "Pois a história - sustenta Rosa - é história do social; a história não é a evolução humana senão a evolução social. Em todo caso, a morfologia spengleriana é uma morfologia, talvez genial, da história do pensamento individual, não da história em si".

Para Rosa, a idéia spengleriana de cultura se situa fora do social, na medida em que é uma unidade de pensamento individual, portanto estranha à nação. "Uma nação é, para nós, uma unidade do pensamento coletivo: a exteriorização na ordem social de um culto religioso...a nação é o verdadeiro culto religioso, opomos a nação à cultura spengleriana, com a mesma oposição que distancia o social do individual, a religião do profano. Não é rigorosamente exato que os homens somos impotentes perante o determinismo da história: não podemos nada como homens, mas podemos tudo como sociedade".

É sabido que tanto a monarquia, o deísmo e seu Deus nacional, como as teologias políticas secularizadas, o culto abstrato à pátria e suas tradições, podem constituir elementos de aglutinação e coagulação nacional. Note-se que, enquanto por então a Alemanha - já no Terceiro Reich - possuía um forte culto nacional, na Argentina os intelectuais, escritores e artistas estavam buscando a coagulação identitária e coletiva, em uma época de incertezas e problemas, que só se conformará razoavelmente com a vinda do peronismo. A este espírito corresponde a contribuição de Rosa.

Pela mesma época, o filósofo Francisco Romero, discípulo de Alejandro Korn e catedrático das Universidades de Buenos Aires e La Plata, dedicava umas páginas, em geral elogiosas, ao autor em questão. Coincide com Ortega y Gasset em que, se bem Spengler carecia de originalidade, pôs marca própria em suas meditações, baseadas nos eternos temas fundamentais: "mais de uma intuição profunda sua está já passando ao domínio comum como logro definitivo; setores parciais de sua obra podem ser desmontados do conjunto e conservam isolados todo seu prestígio". Resgata Hans Freyer (Sociologia como Ciência da Realidade, 1930) que sustenta que Spengler sente "o íntimo conflito a cuja tensão atribui a nervosa vitalidade e fecundidade do pensamento spengleriano: o contraste entre a condição solitária e perecedora das culturas, e a plena e concreta realidade atribuível ao devir histórico".

Para Romero, a visão organicista de Spengler coincide com a de Leo Frobenius, e critica esse biologismo que leva a conclusões radicalizadas: "este autor contribuiu mais que ninguém antes que ele a que o homem dessa cultura se compreenda e eleve a plena consciência de si. O discutível é se essa alma ou princípio vem desde tão longe quanto ele imagina, e se o fáustico é um motivo último. Quanto ao final obrigado e à não transmissibilidade das culturas, suas conclusões são, pelo menos, prematuras". Romero menciona um autor então muito renomado, Spranger, o antepondo a Frobenius e Spengler, pois a biologia moderna sustentará que as linhas de evolução ora se truncam, ora se prolongam. Ao não se propor o problema do espírito, o irremediável conflito entre o espírito e a vida, a Spengler resta um legado amargo - "o homem é um animal de rapina" - dirá em O Homem e a Técnica, uma resposta a O Lugar do Homem no Cosmo, de Max Scheler, "um testamento, uma trágica vontade de negação".

Conjuntamente com a Argentina, foi Chile o país em que Spengler teve a recepção mais favorável. Na década de trinta apareceram várias edições de suas obras na capital, Santiago: A Decadência do Ocidente  (Ed. Osiris, Biblioteca de Autores Célebres, 4 volumes); O Homem e a Técnica (Ed. Cultura, 1934); Prussianismo e Socialismo (Edições Nacionais e Estrangeiras, 1935); Anos de Decisão (Ed. Ercilla, 1937) e Seis Ensaios (Ed. Mundo Novo, 1937, é a tradução dos Politische Schriften, sem Prussianismo e Socialismo, substituído por outro referente às relações entre economia e política fiscal desde 1750). Não há que esquecer que, por então, o Chile vivia uma forte influência de idéias filofascistas e nacionalistas revolucionárias, abonando um terreno favorável à difusão da doutrina política spengleriana.

Também do Chile provém um dos estudos mais sérios, e o mais exaustivo como exegese no âmbito sulamericano, da teoria spengleriana, a cargo do professor Armando González Rodríquez, cuja obra se divide em três partes, as duas primeiras referentes à morfologia das culturas e a restante às idéias políticas de Spengler. A leitura do livro quase permite dizer que poderia sublinhar a das obras do prussiano, tal o grau de sistematicidade e clareza da vasta exegese do chileno. Quiçá ali também estriba o ponto fraco dessa contribuição, os poucos acréscimos próprios à temática, assim como quando toma partido como pensador cristão, quase sempre em notas no pé da página. O próprio autor, na Introdução, assinala que não pretende mais que fazer uma síntese da obra spengleriana. Não obstante, algumas observações são muito pertinentes.

Por exemplo, quando observa que Spengler, que tão convictamente reconheceu sua dívida intelectual com Goethe e Nietzsche, não menciona a Vico entre os 600 nomes citados em A Decadência (Rosa e Romero, entre outros, fazem a mesma observação) ou como quando aponta: "em suas primeiras obras sobre o número já Spengler antecipa duas de suas características mentais: a tendência às afirmações rotundas e apriorísticas, que não se cuida de demonstrar e abandona à credulidade do leitor e o gosto pelas interpretações místicas, esotéricas (por exemplo ao afirmar 'a existência dos números é um mistério')".

Quando repassa as afirmações apodíticas de Spengler sobre a máquina, assinalando-a como uma usurpação dos poderes divinos, uma coisa demoníaca, para um crente o destronamento de Deus, o chileno sustenta: "essa afirmação é de uma verdade atual e permanente com relação à fé cristã. Porque, no melhor dos casos, a máquina serve para ajudar o homem nos afazeres de sua existência material, para lhe dar comodidade e bem-estar o cristianismo autêntico deve se desentender: a máquina serve ao sentido hedonista e naturalista da existência, o que nos inspira Satanás". Ou bem: "não pareça inverossímil aos leitores o agnosticismo tão radical de Spengler. Em maior ou menor grau constitui, por dizer assim, a tônica do pensamento moderno; é um pensador agnóstico, subjetivista, tão radicalmente quanto é possível sê-lo não obstante, seu temperamento era de um metafísico, portanto, recorre a noções e explicações metafísicas em última instância ou, se preferir, para encobrir uma absoluta ausência de explicação".

À luz da experiência histórica do pós-guerra, González Rodriguez arrima outras críticas: a, em sua opinião, flagrante contradição do alemão ao sustentar em Decadência que "a literatura não pode alterar o curso dos acontecimentos", e em Anos Decisivos "lhe reconhecer um papel enorme nos movimentos políticos da Ásia e África", ou bem ao avaliar suas profecias. "Uma profecia a curto prazo sobre a Rússia já se demonstrou falaz. Nos disse que o regime soviético não resistiria a uma derrota, nem mesmo a uma vitória. Igualmente errou ao julgar o Japão quase invulnerável, e não menos ao afirmar que povos como a China e a Índia, fellachs, já não poderiam voltar a desempenhar um papel de primeira magnitude na história. Um de muito maior vulto foi o erro de prognóstico sobre os Estados Unidos, ao qual não assignava nem passado nem futuro (Anos Decisivos). Decididamente, as profecias a curto prazo são perigosas". As observações parecem óbvias, e, não obstante, a dinâmica do acontecer universal é sempre tão mutante; ao menos em relação a Rússia, do papel do Japão e da expansão e limites do poder atlantista, a roda dos tempos parece estar girando uma vez mais.

Pela mesma época, o catedrático de filosofia León Dujovne também fez um estudo bastante pormenorizado da obra principal de Spengler, mas também de sua tese sobre Heráclito e outros livros menores. Encontra a influência de Flinders Petrie e sua obra As Revoluções da Civilização (1911), assim como do Conde de Gobineau e seu Ensaios sobre a Desigualdade, que reafirma a decadência inelutável. Nas questões do dia, "o texto de Prussianismo e Socialismo justifica em medida ainda maior que o de A Decadência a inclusão de Spengler entre os doutrinários da Revolução Conservadora alemã. Este é o título de um livro de Edmond Vermeil, no qual um extenso capítulo dedicado a Spengler demonstra como em Decadência aparecem idéias que são um prelúdio de O Mito do Século XX de Alfred Rosenberg, um dos principais teóricos do Nacional-Socialismo de Hitler". A crítica central de Dujovne é que "Spengler quer descrever como é a história da humanidade e com sua morfologia histórica no fundo a nega, porque exclui da vida humana a esperança do futuro, esperança que parece inseparável do símbolo primário da cultura do ocidente, sobre tudo do cristianismo ocidentalizado".

Por último, com só quatro páginas de crítica entre trinta e cinco dedicadas ao prussiano, Dujovne se lamenta que "o continente americano não conta nem para o exame da cultura do ocidente nem para as visões proféticas de Spengler. Alguma alusão aos Estados Unidos da América do Norte não diminui a impressão geral que se recolhe de seus escritos e dos quais resultaria que nosso continente, apesar de suas riquezas naturais e de sua população humana não é um fator ponderável no destino do mundo".

Finalmente, nos anos setenta, os politólogos Vicente Massot e Horacio Cagni publicaram em Buenos Aires uma obra sobre o pensador fáustico, abarcando os distintos aspectos de sua teorética, que teve certa repercussão nos meios acadêmicos nacionais e, inclusive, no exterior. O segundo dos nomeados escreveu outros ensaios sobre a discussão de idéias em torno ao pensamento de Spengler. Paralelamente, o diário A Nova Província, de Baía Branca, publicou um conto inédito de Spengler em castelhano - O Vencedor - escrito em 1910, ambientado na guerra russojaponesa de 1904-5.

Voltando a Quesada em relação aos tantos críticos de Spengler, sempre reivindicou a seu colega alemãos frente aos acadêmicos de então, especialmente os neokantianos, o grupo mais numeroso dos críticos de A Decadência. Perguntando-lhe o argentino ao alemão, em Munique, porque não respondia às críticas e guardava sempre silêncio, este lhe teria respondido sorrindo: "não teria nem tempo nem calma para prosseguir meus trabalhos, se assim o fizera; meu livro deve se defender somente e se bem não desconheço a ninguém o direito de julgá-lo como melhor entenda, ao invés não me considero obrigado a entrar em polêmica com meus críticos". Pelo visto, o prussiano não seguia as regras desse esporte alemão que, ao dizer de Treischke, consistia em trasladar as discussões acadêmicas ao plano pessoal.

Por sua vez, Quesada era um dos últimos expoentes de uma brilhante geração argentina. Os tempos da nação opulenta, dona da metade do PIB sulamericano, com classes dirigentes altamente preparadas, que passeavam seu brilho intelectual pelas academias de todo o mundo - e sua frivolidade pelos salões parisienses - estavam chegando a seu fim. Diferentemente da maioria da intelectualidade sulamericana de então, Quesada havia estudado na Alemanha do Kaiser, não em Londres ou Paris; sua segunda esposa, Leonora Deiters, era alemã. Por iniciativa sua foi criado o Instsituto Iberoamericano de Berlim e sua revista correspondente Arquivo Iberoamericano, sendo nomeado professor honorário da Universidade da capital alemã.

Quando Spengler decidiu em 1927 tirar umas férias pela área mediterrânea - tinha transtornos cardiovasculares e circulatórios que finalmente o levaram à morte - não pôde menos que se encontrar com o matrimônio Quesada em Avignon, onde lhes expôs suas "perguntas fundamentais", que estava escrevendo. Em 1933 o prussiano volta sobre o tema das culturas americanas em um "número especial Quesada", do Ibero Amerikanische Archiv, no qual reconhece que, a diferença das demais culturas regularmente estudadas, dessas não se sabe praticamente nada, devido à imprecisão de sua cronologia e dos resultados arqueológicos.

Quesada, que havia nascido em 1858, se teria retirado de toda atividade e ido viver na Europa em 1928, morrendo na Suíça seis anos mais tarde. Com Spengler seguiu vendo-se no ínterim, inclusive em uma oportunidade em Munique - ainda quando não podemos constatá-lo fidedignamente - se reuniram com o recordado Coriolano Alberini.

Morto Quesada em 1934, se conserva uma carta de Spengler dirigida à esposa, Leonora, na qual se faz eco de seus problemas de saúde e econômicos, porém lhe diz que não pode ajudá-la muito, se bem está disposto a visitá-la em Munique e ver assim de contribuir de alguma forma. É um final triste para uma relação tão frutífera para dois espaços geoculturais tão vastos.

Ainda que muitos foram os que se ocuparam de Spengler na América do Sul, ninguém representou a ponte que entre Velho e Novo Continente significou Dom Ernesto Quesada, cuja morte seu colega prussiano sentiu particularmente. Na sexta-feira 8 de maio de 1936, apenas ingressadas as tropas italianas em Addis Abebba, falecia por sua vez o pensador prussiano. Então Jorge Luis Borges escreveu uma elegia notável, breve e comovente. "Seis anos tardou Spengler em escrever A Decadência do Ocidente. Seis obstinados anos, em um bordel de Munique, em um lugar sombrio que dá a uma pobre paisagem de chaminés de telhas manchadas. Então, não tinha livros. Passa as manhãs na biblioteca pública, almoça em refeitórios para operários, toma, quando está enfermo, vastas e ardentes quantidades de chá. Até 1915 termina a revisão do primeiro volume. Não tem amigos. Secretamente se compara com a Alemanha, que também está só.

No verão de 1918 A Decadência do Ocidente apareceu em Viena. Suas páginas varonis, redatadas no tempo que vai de 1912 a 1917, não se contaminaram nunca do ódio peculiar desses anos. Em 1920 começou a glória. Spengler alugou um departamento sobre o Isar, comprou com amorosa lentidão milhares de livros, colecionou armas persas, turcas e hindus, escalou altas montanhas e se negou à persistência dos fotógrafos. Escreveu sobre tudo. Oswald Spengler morreu em meados desse ano. Sua concepção biológica da história se poderá discutir, mas não se estilo esplêndido".

Spengler no segundo pós-guerra foi quase esquecido. A razão profunda podemos rastrear no auge da sociedade ocidental, particularmente do ocidente americanizado, se bem Spengler nunca incluiu os EUA em sua concepção do Ocidente. Quiçá há algo de razão em dizer que Spengler foi deixado de lado por ter se oposto às idéias e tendências vigentes na sociedade contemporânea, e que resultaram vitoriosas. Porém o pensador da decadência renasceu nas últimas décadas, toda vez que os temporais não deixaram de cingir sobre a civilização ocidental, agora expandida a escala planetária, e que não resolveu nenhum de seus problemas logo do fim do bipolarismo, ao contrário ainda inaugurou outros.

Em síntese, a recepção de Spengler na América do Sul foi ampla, porém em geral sua teoria não foi tratada com profundidade. O filósofo da decadência vinha a denunciar a queda da Europa, sua retirada como primeira figura do empíreo mundial, e para muitos pensadores sulamericanos supunha a possibilidade de tomar a posta na renovação dos ciclos culturais. Os círculos católicos do Novo Continente se enfrentaram com as idéias de um homem que supunham agnóstico, enquanto aos positivistas lhes molestava seu relativismo. Em todo caso, a teorética spengleriana abria muitas questões angustiosas em relação ao futuro de um continente que desesperadamente buscava - e ainda busca - encontrar uma identidade definitiva e uma inserção no contexto mundial, segundo suas inegáveis potencialidades e valores. E ninguém como Ernesto Quesada significou essa viagem de ida e volta entre dois mundos debruçados sobre um passado difícil e um futuro enigmático.

Em cumprimento do testamento de Dom Vicente G. Quesada, seu filho Erneste tentou doar a biblioteca conjunta de ambos - quase 82 mil volumes, especializados em temas sulamericanos, ademais dos documentos de família, testemunhos dos principais eventos da história diplomática argentina - a instituições de seu próprio país. Nem a Universidade de Buenos Aires, nem a Biblioteca Nacional resolveram nada, e inclusive argumentaram falta de espaço para o legado. Quesada, jubilado em 1921, em uma viagem à Alemanha em 1927 começou as gestões para situar a Biblioteca ali. Em carta a Rómulo Zabala de dezembro de 1929, Quesada sustenta ter a consciência tranquila ao levar seus livros e documentos tãl onge, visto o fracasso em seu país.

O Ibero Amerikanisches Institut de Berlim se iniciou em 1930 com a doação do fundo Quesada, ao qual logo se acrescentou o do presidente do México, Plutarco Elias Calles, com uns 25 mil volumes. O arquivo familiar de Vicente Quesada se enviou ao morrer Ernesto em Spiez, Suíça, em 1934. Instalado inicialmente próximo do Palácio Real berlinês, o Instituto passou em 1941 à vila dos Siemens, nos arredores da capital do Reich, e não pôde escapar aos bombardeios do fim da guerra. Parte do legado Quesada se perdeu naqueles dias sombrios; outra parte, em poder dos russos, começou a ser devolvido. Com a queda do Terceiro Reich, o Instituto ficou no setor norteamericano de Berlim, e foi dissolvido. Não obstante, renasceu das cinzas. Hoje, o Iberoamericano possui a maior biblioteca especializada do mundo, depois da de Austin, Texas, com mais de um milhão de volumes. Se alguém quer comprovar empiricamente o resultado da recepção de Spengler na América do Sul - e a retribuição que em incentivos essa lhe fez ao pensador fáustico - pode se dirigir à Postdammer Strasse 37, onde, à entrada do Instituto Iberoamericano, os respectivos bustos em imponente granito negro de Vicente e Ernesto Quesada dão as boas vindas a estudiosos de todo o mundo.

18/01/2014

Colin Liddell - O Último Samurai

por Colin Liddell



Segundo Steven Pinker (e uma grande quantidade de dados plausíveis reunidos pelo cientista social verborrágico e de cabelos esvoaçantes em seu último livro Os Melhores Anjos de Nossa Natureza) nós estamos vivendo em um mundo onde a guerra encolhe de forma gradual, porém inexorável, como os lendários Reis de Punt, cada um dos quais supostamente menor que seu pai.

Essa tendência, ao invés do poder dos russos, pode ter sido o que estava por trás da decisão do Presidente Obama e do Primeiro-Ministro Cameron de recuar em relação a Síria ano passado. Essa é a mais terrível guerra da atualidade, mas ela ainda é essencialmente uma questão local e uma minúscula espinha no brutalitômetro que mede os poderosos ápices do passado.

A nível individual, o nível que Pinker obviamente mais valoriza, a guerra é um grande desperdício. E ele pode ter razão, já que uma das piores coisas sobre ela é que ela seleciona negativamente - e abate - os melhores, mais corajosos e os indivíduos mais altruístas, as próprias pessoas que fazem qualquer sociedade ter sucesso.

Mas ela também é o teste máximo de um povo e sociedade, desde que os líderes saibam o que estão fazendo. Uma das principais tragédias da Segunda Guerra Mundial foi que no caso da Alemanha e do Japão eles obviamente não sabiam, de modo que a incrível bravura, disciplina, resistência, e espírito de sacrifício de seus soldados comuns foi finalmente desperdiçada.

É, portanto, com um pouco de tristeza - mas não muita, já que ele tinha 91 anos  - que soubemos hoje da morte de Hiroo Onoda, o soldado japonês que famosamente se recusou a se render quando seu país o fez, escolhendo ao invés seguir lutando com uns poucos colegas nas selvas da Ilha Lubang nas Filipinas até 1974, quando ele se rendeu sozinho e apenas após seu oficial comandante foi levado de avião para rescindir sua ordem original de não se render. Após isso houve uma cerimônia de rendição com o Presidente Ferdinand Marcos e então um retorno heróico ao Japão.

A guerra é uma iniciativa multifacetada que demanda uma grande amplitude de habilidades e atributos, mas mais do que a habilidade barulhenta e brilhosa de invocar campos de fogo, abalar a terra, acelerar a taxa de extermínio, ou até conquistar corações e mentes, é a simples, até mesmo teimosa qualidade de se manter firme segurando a arma, mesmo que ela esteja enferrujada, sem balas ou seja feita de bambu. Essa é uma qualidade que Onoda tinha de sobra. O escrito podia estar no muro, mas ele escolheu mijar no muro.

É relatado que ele ignorou diversas tentativas de fazê-lo se render, incluindo uma envolvendo panfletos jogados pelo governo japonês. Ele disse que os desconsiderou devido a erros gramaticais que ele pensou as desmascaravam como um complô americano.

Obviamente, tal teimosia não é suficiente por conta própria - e é claro que Onoda e seu cada vez menor bando de homens não representavam ameaça para o Estado filipino do pós-guerra - mas sem tal qualidade mesmo o maior poder de fogo sobre a terra pode se provar inadequado.

Uma das razões pelas quais Onoda foi tratado como herói no Japão foi o tempo de sua rendição. Ela veio em uma encruzilhada importante, dois anos depois do retorno dos americanos à ilha de Okinawa no Japão e logo em seguida a sua derrota pelos vietnamitas, um povo que os havia derrotado por um emprego similar de teimosia. O envolvimento direto dos EUA no Vietnã acabou em 1973 com os Acordos de Paz de Paris.

Se Pinker está certo e a guerra é, como a incineração de gatos, as execuções públicas e a tortura medieval, mais uma vítima do "processo civilizatório" que ele descreve, é improvável vermos homens como Onoda novamente, mas uma coisa que seu exemplo nos ensina é que, mesmo em tempos de suposta paz, um homem pode decidir continuar a lutar, com seus próprios meios, por tanto tempo quanto ele deseje.