11/03/2014

Aleksandr Dugin - A Guerra Contra a Rússia em sua Dimensão Ideológica

por Aleksandr Dugin


A Guerra Vindoura como Conceito

A guerra contra a Rússia é agora a questão mais discutida no Ocidente. Ela é ainda uma sugestão e possibilidade. Ela pode se tornar realidade dependendo das decisões tomadas por todas as partes envolvidas no conflito ucraniano - Moscou, Washington, Kiev, Bruxelas.

Eu não quero discutir aqui todos os aspectos e a história desse conflito. Eu proponho ao invés a análise de suas raízes ideológicas profundas. Minha visão dos eventos principais está baseada na Quarta Teoria Política, cujos princípios eu já descrevi em meu livro sob o mesmo nome aparecido em inglês pela Editora Arktos há poucos anos atrás.

Assim, eu vou estudar não a guerra do Ocidente com a Rússia avaliando seus riscos, perigos, questões, custos ou consequências, mas o significado ideológico da mesma em escala global. Eu vou pensar no sentido de tal guerra e não na guerra em si (real ou virtual).

Essência do Liberalismo

No Ocidente moderno há uma ideologia dominante - o liberalismo. Ele possui muitos tipos, versões e formas, muitas tonalidades, mas a essência é sempre a mesma. O liberalismo possui em sua estrutura fundamental interior os seguintes princípios axiomáticos:

* Individualismo antropológico (o indivíduo é a medida de todas as coisas);
* Progressismo (o mundo ruma a um futuro melhor, o passado é sempre pior que o presente);
* Tecnocracia (o desenvolvimento técnico e a performance eficaz são tomadas como a maneira mais importante de julgar a natureza da sociedade);
* Eurocentrismo (sociedades euro-americanas são aceitas como a medida padrão para o resto da humanidade);
* Economia é o destino (a economia de mercado é o único sistema econômico normativo - todos os outros tipos devem ser reformados ou destruídos);
* Democracia é o governo das minorias (se defendendo contra a maioria sempre predisposta a se degenerar em totalitarismo, "populismo");
* Classe média como único ator social realmente existente e norma social (independente do fato de a pessoa já ter alcançado esse statos ou estar a caminho de se tornar classe média, representando por um momento uma classe média hipotética);
* Unimundialismo, globalismo (seres humanos sendo essencialmente o mesmo, com apenas uma distinção - o indivíduo - o mundo deve ser integrado em base individual, cosmopolitismo - a cidadania global).

Esses são os valores nucleares do liberalismo, a manifestação de uma das três tendências originadas no Iluminismo, lado a lado com comunismo e fascismo, que propunham interpretações alternativas do próprio espírito da Modernidade. Durante o século XX, o liberalismo venceu seus rivais e após 1991 se tornou a única ideologia dominante em escala global.

A única liberdade de escolha no reino do liberalismo global era entre liberalismo de direita, liberalismo de esquerda ou liberalismo radical, incluindo liberalismo de extrema-direita, liberalismo de extrema-esquerda e liberalismo ultra-radical. Assim, o liberalismo foi instalado como sistema operacional das sociedades ocidentais e de todas as outras sociedades que se encontravam na zona de influência ocidental.  Ele é a partir de certo momento o denominador comum para qualquer discurso politicamente correto, o marco daqueles aceitos pela política oficial ou relegados à marginalidade. A própria sabedoria convencional se tornou liberal.

Geopoliticamente, o liberalismo estava inscrito no modelo americanocêntrico em que anglo-saxões são o núcleo étnico e a parceria euro-americana atlantista, a OTAN, representava o núcleo estratégico do sistema de segurança mundial. A segurança mundial era equiparada com a segurança do Ocidente e em última instância com a segurança americana. Assim, o liberalismo não é apenas poder ideológico, mas também político, militar e estratégico. A OTAN é liberal em suas raízes. Ela defende sociedades liberais, lutando pelo liberalismo.

Liberalismo como Niilismo

Há um ponto na ideologia liberal que é responsável por sua crise atual. O liberalismo é profundamente niilista em sua essência. O conjunto de valores defendidos pelo liberalismo está essencialmente ligado à tese central - liberdade, liberação. Mas a liberdade na visão liberal é uma categoria essencialmente negativa: ela reivindica ser livre de (J.S. Mills), não livre para. Isso não é secundário, é a essência do problema.

O liberalismo é luta contra todas as formas de identidade coletiva, contra todo tipo de valores, projetos, estratégias, objetivos, fins e daí em diante que seriam coletivistas, ou pelo menos não-individualistas. Essa é a razão pela qual um dos mais importantes teóricos do liberalismo, Karl Popper (seguindo F.v. Hayek), definiu em seu importante livro "A Sociedade Aberta e seus Inimigos" (considerada por Soros como sua Bíblia pessoal) que liberais devem combater qualquer ideologia ou filosofia política (de Platão e Aristóteles a Marx e Hegel) que pretendesse propor para a sociedade humana algum objetivo comum, valor comum, sentido comum. Qualquer objetivo, qualquer valor, qualquer sentido na sociedade liberal (sociedade aberta) deve ser estritamente individual. Assim, os inimigos da sociedade aberta (a atual sociedade ocidental pós-1991 e norma global para o resto do mundo é considerada como sendo precisamente esse modelo liberal de sociedade aberta) são concretos. Os principais inimigos são o comunismo e o fascismo (ambos derivados da mesma filosofia iluminista, com conceitos não-individuais centrais - classe no marxismo, raça no nacional-socialismo, Estado nacional no fascismo). Assim, o sentido da luta do liberalismo frente às alternativas modernas existentes (fascismo ou comunismo) é bastante óbvio. Os liberais afirmam libertar a sociedade do fascismo e do comunismo, das duas principais versões modernas (explicitamente não-individualistas) do totalitarismo. A luta do liberalismo no processo de liquidação das sociedades não-liberais é bastante significativa: ela adquire seu significado do fato da própria existência de ideologias que explicitamente se negam a aceitar o indivíduo como máximo valor. É bastante claro contra o que essa luta é. É a "liberação de" que é objetivada. Mas o fato de que a liberdade (como concebida pelos liberais) é uma categoria essencialmente negativa não é percebida claramente aqui. O inimigo está aqui e é concreto. Esse próprio fato dá ao liberalismo conteúdo concreto. Eis uma sociedade que não é aberta e sua própria existência factual é suficiente para justificar o processo de liberação.

Período Unipolar: Ameaça de Implosão

Em 1991 quando a URSS, último oponente do liberalismo ocidental, caiu, alguns ocidentais (como Fukuyama) proclamaram o Fim da História. Muito logicamente: não havia mais inimigo explícito da sociedade aberta - assim não havia mais história, que foi durante a Modernidade precisamente a luta entre as três ideologias políticas (liberalismo, comunismo e fascismo) pela herança do Iluminismo. Estrategicamente, assim começa o momento unipolar (Ch. Krauthammer). Esse período de 1991 a 2014, com ponto médio no ataque de Bin Laden ao World Trade Center - foi efetivamente o período de dominação global do liberalismo. Os axiomas do liberalismo foram aceitos pelos principais atores geopolíticos - incluindo China (na economia) e Rússia (na ideologia, economia e sistema político). Havia apenas liberais e quase-liberais, não-ainda liberais, liberais não-suficientemente-liberais e daí em diante. As exceções reais e explícitas eram poucas (Irã, Coréia do Norte). Assim, o mundo se tornou liberal, a nível ideológico e axiomático.

Esse foi precisamente o momento mais importante na história do liberalismo. Ele derrotou seus inimigos, mas ao mesmo tempo os perdeu. O liberalismo é essencialmente a liberação, a luta contra o que não é liberal (ainda ou de forma alguma). Assim, o liberalismo adquiriu de seus inimigos o seu sentido real, seu conteúdo. Quando a escolha é não-liberdade (representada na sociedade totalitária concreta) ou liberdade muitos escolhem liberdade, sem refletir pelo quê ou para fazer o quê é essa liberdade. Quando existe a sociedade não-liberal o liberalismo é positivo. Ele começa a mostrar sua essência negativa apenas após a vitória.

Após a vitória de 1991, o liberalismo avançou para sua fase implosiva. Depois de ter derrotado o comunismo bem como o fascismo ele estava sozinho. Sem inimigo para combater. E este era o momento para iniciar o combate interno, o expurgo liberal das sociedades liberais, tentando exterminar os últimos elementos não-liberais - sexismo, politicamente incorreto, desigualdade entre sexos, quaisquer resquícios de dimensão não-individual em instituições como Estado, Igreja e daí em diante. Assim, o liberalismo precisa de inimigos dos quais liberar. Do contrário, ele perde seu conteúdo, seu niilismo implícito se torna muito saliente. O triunfo absoluto do liberalismo é sua morte.

Esse é o sentido ideológico da crise financeira do início do novo milênio e de 2008. Os sucessos e não as falhas da nova economia puramente financeira (do turbocapitalismo segundo G. Lytwak) são responsáveis por seu colapso. A liberdade para fazer qualquer coisa que você quiser, mas apenas em escala individual, provoca implosão da personalidade. O humano passa ao reino infra-humano, a domínios sub-individuais. E aqui ele encontra a virtualidade. Como sonho sub-individual, a liberdade de tudo. Isso é a evaporação do humano. O Império do nada como a última palavra da vitória total do liberalismo. O pós-modernismo prepara o terreno para essa reciclagem pós-histórica auto-referencial do sem-sentido.

Ocidente necessitado do Inimigo

Você pode perguntar aqui: que raios tem tudo isso a ver com a guerra (presumidamente) vindoura com a Rússia? Eu estou pronto para responder isso agora.

O liberalismo venceu em escala global. É o fato de 1991. E ele começou imediatamente a implodir. Ele chegou ao ponto terminal e começou a se liquidar. A imigração em massa, os choques de culturas e civilizações, a crise financeira, o terrorismo virtual, o crescimento do etnismo são marcas do caos que se aproxima. Assim esse caos ameaça a Ordem. Qualquer tipo de ordem, incluindo a ordem liberal em si. Quanto mais o liberalismo tem sucesso mais ele se aproxima de seu fim. E do fim do mundo presente. Aqui estamos lidando com a essência niilista da filosofia liberal, com o nada como o princípio (me)ontológico interior da liberdade de. Arnold Gehlen, antropólogo alemão, definiu justamente o homem como "ente desprovido", Mangelwesen. O homem em si mesmo é nada. Ele toma tudo que compõe sua identidade da sociedade, da história, do povo, da política. Assim, se ele retorna a sua pura essência ele pode reconhecer ali nada. O abismo está oculto por trás das ruínas fragmentadas de sentimentos, pensamentos vagos, desejos nebulosos. A virtualidade de emoções sub-humanas é um véu tênue e por trás dele há escuridão absoluta. A descoberta explícita dessa base niilista da natureza humana é a última conquista do liberalismo. Mas este é o fim. E é o fim também para aqueles que usam o liberalismo para seu próprio proveito, que são beneficiários da expansão liberal, os mestres da globalização. Qualquer ordem cai em tal emergência de niilismo. A ordem liberal também.

Assim, de modo a salvar o mando dos beneficiários do liberalismo eles precisam dar um certo passo para trás. O liberalismo adquirirá seu sentido apenas ao lidar novamente com a sociedade não-liberal. Um passo para trás é a única maneira de salvar os resquícios da ordem, de salvar o liberalismo de si mesmo. Dessa forma a Rússia de Putin aparece no horizonte. Não antiliberal, não totalitária, não nacionalista, não comunista. Ao invés, não ainda liberal o suficiente, não plenamente liberal-democrata, não suficientemente cosmopolita, não tão radicalmente anti-comunista. Mas a caminho de se tornar liberal. Passo a passo. No processo de ajuste gramsciano à hegemonia, no transformismo.

Mas na agenda global do liberalismo (EUA, OTAN) há necessidade de um outro ator, de uma outra Rússia que justifique a ordem no campo liberal, que ajude a mobilizar o Ocidente que se desintegra por problemas internos, que atrase a irrupção inevitável do niilismo interior e assim salve o liberalismo de seu fim logicamente próximo. É por isso que eles precisam tanto de Putin, da Rússia e da guerra. É a única solução para impedir o caos no Ocidente e salvar os restos da Ordem.

A Rússia nesse jogo ideológico deve justificar a própria existência do liberalismo, porque ela é o inimigo que dá o sentido à luta da sociedade aberta, que a ajuda a consolidar e a continuar a se afirmar globalmente.

O Islã radical (Al-Qaeda) era outro candidato para este papel, mas tal inimigo carecia de estatura. Ele foi usado, mas em escala local. Ele justificava as intervenções no Afeganistão, a ocupação do Iraque, ajudou a derrubar Gaddafi, a começar a guerra civil na Síria. Mas ele era fraco demais e ideologicamente primitivo para representar o desafio real que os liberais demandavam.

A Rússia - inimigo geopolítico tradicional dos anglo-saxões - é muito mais séria como oponente. Ela se encaixa bem a quaisquer demandas - a história e memória da Guerra Fria ainda estão vivas na memória. O ódio pela Rússia é mais fácil de provocar por meios relativamente pequenos. É por isso que penso que a guerra com a Rússia é possível. Ela é ideologicamente necessária como último meio de adiar a implosão final do Ocidente liberal. Um passo para trás.

Para salvar a Ordem liberal

Considerando diferentes camaradas desse conceito "guerra com a Rússia", eu sugiro alguns pontos.

A guerra com a Rússia ajuda a adiar a desordem comum em escala global. A maioria dos países estando envolvidos na economia liberal, partilhando os axiomas e instituições da democracia liberal e sendo dependentes ou diretamente controlados pelos EUA e OTAN, se consolidará uma vez mais ao lado do Ocidente liberal em sua cruzada contra o Putin não-liberal. Isso pode servir como reafirmação do liberalismo como identidade positiva quando essa identidade está se dissolvendo por sua essência niilista.

A guerra com a Rússia fortaleceria a OTAN e acima de tudo as suas partes européias que serão obrigadas uma vez mais a considerar a hiperpotência americana como algo positivo e útil. Com medo dos malignos russos que avançam, os europeus se sentirão novamente leais aos EUA, seus salvadores. Dessa forma o papel de liderança dos EUA na OTAN será reafirmado. A União Européia está se desintegrando. A ameaça comum dos russos pode impedir um eventual racha pela mobilização das sociedades de forma a tornar as pessoas mais dispostas a defender suas liberdades e valores sob pressão do Império de Putin

A Ucrânia e a junta de Kiev precisam da guerra para justificar e cobrir todos os erros cometidos pelo Maidan a nível jurídico e constitucional, para suspender a democracia (que impediria seu governo nos distritos majoritariamente pró-russos do sudeste) e instalar o governo e ordem nacionalista por meios extralegais.

O único país que não deseja guerra agora é a Rússia. Mas Putin não pode permitir que o governo radicalmente anti-russo fique com a população russa e tantas zonas pró-russas. Se ele permitir, ele estará acabado a nível internacional e doméstico. Assim, relutantemente ele aceita a guerra. E uma vez entrando nela não haverá outra solução para a Rússia além de vencer.

Eu não gosto de especular sobre os aspectos estratégicos da guerra. Eu deixo isso para outros analistas qualificados. Eu gostaria de formular algumas idéias relativas à dimensão ideológica dessa guerra.

Enquadrando Putin

O significado dessa guerra contra a Rússia é o último esforço de salvar o liberalismo de implodir. Assim sendo, os liberais precisam definir a Rússia de Putin ideologicamente - obviamente a identificando com o inimigo da sociedade aberta. Mas no thesaurus das ideologias modernas há apenas três versões principais. Liberalismo, comunismo e fascismo (nazismo). É bastante claro que o liberalismo é representado por todos, exceto a Rússia (EUA, OTAN, Euromaidan, junta de Kiev). Logo, sobram comunismo e fascismo. Dessa forma, Putin é o comunista soviético da KGB. Essa imagem será vendida para o tipo mais estúpido de público ocidental. Mas alguns aspectos de reação patriótica da população pró-russa e anti-banderita (defesa de monumentos de Lênin, retratos de Stálin e memórias da Segunda Guerra) podem confirmar essa idéia. Nazismo e fascismo estão muito longe de Putin e da Rússia moderna, mas o nacionalismo russo e o imperialismo russo serão evocados na construção da imagem do Grande Mal. Assim Putin é nacionalista, fascista e imperialista. Isso vai funcionar para outros ocidentais. Putin pode ser ambos - comunista e bolchevista ao mesmo tempo, assim ele será representado como nacional-bolchevique (mas isso é um pouco complicado demais para o público ocidental pós-moderno completamente ignorante). É óbvio que na realidade Putin não é qualquer dessas coisas - nem comunista, nem fascista, nem ambos ao mesmo tempo. Ele é politicamente realista (no sentido das Relações Internacionais - é por isso que ele gosta de Kissinger e Kissinger gosta dele em retribuição). Ele não possui qualquer ideologia. Mas ele será obrigado a se encaixar no quadro ideológico. Não é sua escolha. Essas são as regras do jogo. No curso da guerra contra a Rússia Putin será enquadrado e este é o aspecto mais interessante e apaixonado da situação.

A idéia principal é que os liberais tentarão definir Putin ideologicamente como a sombra do passado, como vampiro, "às vezes eles voltam". Essa é a própria razão do passo atrás para prevenir o liberalismo da implosão final. A mensagem central é que o liberalismo está realmente vivo e cheio de força porque há algo no mundo do que todos nos devemos ser libertados. A Rússia se torna o objeto de liberação. O objetivo é liberar a Ucrânia (Europa, humanidade) da Rússia, e no fim liberar a própria Rússia de sua identidade não-liberal. Assim temos o inimigo. Tal inimigo dá ao liberalismo a razão de existir uma vez mais. A Rússia é o desafio do passado pré-liberal lançado no presente liberal. Sem esse desafio não há mais vida no liberalismo, não há mais Ordem no mundo, tudo se dissolve e implode. Com tal desafio o gigante decadente do globalismo adquire novo vigor. A Rússia está aqui para salvar os liberais.

Mas de modo a fazê-lo a Rússia deve ser ideologicamente enquadrada como algo pré-liberal. Dessa forma ela será comunista, fascista ou pelo menos nacional-bolchevique. Essa é a regra ideológica. Assim lutar com a Rússia, apenas considerar lutar ou não lutar, há uma tarefa mais profunda que isso - enquadrar a Rússia ideologicamente. Isso será feito por dentro e por fora. Eles tentarão obrigar a Rússia a aceitar ou o comunismo ou o nacionalismo ou simplesmente tratarão a Rússia como se fosse comunista ou nacionalista. É um jogo de enquadramento.

Rússia Pós-Liberal: Primeira Guerra da Quarta Teoria Política

O que eu proponho na conclusão é o seguinte.

Nós precisamos combater conscientemente quaisquer tentativas de enquadrar a Rússia como potência pré-liberal. Precisamos não permitir que os liberais se salvem do fim que se aproxima fatidicamente. Precisamos não atrasar isso, mas acelerar esse fim. De modo a fazê-lo, precisamos apresentar a Rússia não como entidade pré-liberal, mas como força revolucionária pós-liberal que luta pelo futuro alternativo para todos os povos do planeta. A guerra russa não será por interesses nacionais, mas pelo mundo multipolar, por dignidade real e liberdade positiva real - não liberdade de, mas liberdade para. A Rússia nessa guerra se tornará o exemplo da defesa da Tradição, dos valores orgânicos conservadores, da liberação real precisamente em relação à sociedade aberta e seus beneficiários - a oligarquia financeira global. Essa guerra não é contra os ucranianos ou contra parte dos ucranianos. Não é contra a Europa. É contra a (des)ordem liberal mundial e nós não vamos salvar o liberalismo, vamos matá-lo de uma vez por todas. A Modernidade estava essencialmente errada. Nós estamos no ponto terminal da Modernidade. Para aqueles que assumiram para si o destino da Modernidade ou que permitiram que isso fosse feito inconscientemente, esse será o verdadeiro fim. Mas para aqueles que estão do lado da verdade eterna da Tradição, da Fé, da essência humana espiritual e imortal, este será um Novo Começo.

A luta mais importante agora é a luta pela Quarta Teoria Política. Ela é nossa arma e com ela vamos impedir o enquadramento de Putin como os liberais desejam fazer e reafirmar a Rússia como primeira potência ideológica pós-liberai lutando contra o liberalismo niilista em prol do futuro aberto multipolar e verdadeiramente livre.

09/03/2014

Aleksandr Dugin - Carta ao Povo Americano sobre a Ucrânia

por Aleksandr Dugin



Nessa hora difícil de sérios problemas em nossas fronteiras ocidentais, eu gostaria de me dirigir ao povo americano de modo a ajudá-los a compreender melhor as posições de nossos patriotas russos que são partilhadas pela maioria de nossa sociedade.

Diferença Entre os Dois Significados de Ser Americano (na perspectiva russa)

1 - Nós distinguimos duas coisas: o povo americano e a elite política americana. Nós amamos sinceramente o primeiro e odiamos profundamente o segundo.

2 - O povo americano tem suas próprias tradições, hábitos, valores, ideais, opções e crenças que são suas próprias. Essas dão a todos os direito de ser diferente, de escolher livremente, de ser o que se deseja ser ou se tornar. É um traço maravilhoso. Ele concede força e orgulho, auto-estima e segurança. Nós russos admiramos isso.

3 - Mas a elite política americana, acima de tudo no nível internacional, são e agem muito contrariamente a esses valores. Eles insistem na conformidade e consideram o modo de vida americano como algo universal e obrigatório. Eles negam a outros povos o direito à diferença, eles impõem sobre todos os padrões das tais "democracia", "liberalismo", "direitos humanos" e daí em diante, que em muitos casos não tem nada a ver com o conjunto de valores partilhados pelas sociedades não-ocidentais ou simplesmente não-norteamericanas. É uma contradição óbvia frente aos ideais e padrões interiores da América. Nacionalmente o direito à diferença é garantido, internacionalmente ele é negado. Assim pensamos que há algo de errado com a elite política americana e seus padrões duplos. Onde hábitos se tornaram normas e contradições são tomados por lógica. Não podemos compreender, nem podemos aceitar: parece que a elite política americana não é americana de forma alguma.

4 - Então eis a contradição: o povo americano é essencialmente bom, mas a elite americana é essencialmente má. O que sentimos em relação à elite americana não deve ser aplicado ao povo americano, e vice-versa.

5 - Por causa desse paradoxo não é fácil para um russo expressar corretamente sua atitude frente aos EUA. Nós podemos dizer que o amamos, podemos dizer que o odiamos - porque ambos são verdades. Mas não é fácil sempre expressar essa distinção claramente. Ela cria muitas incompreensões. Mas se você quiser saber o que os russos realmente pensam sobre os EUA você deve sempre ter em mente isso. É fácil manipular essa dualidade semântica e interpretar o anti-americanismo dos russos em um sentido impróprio. Mas com esses esclarecimentos em mente, tudo que você ouvir de nós será entendido muito melhor.

Breve Revisão da História Russa

1 - A Nação Americana nasceu com o capitalismo. Ela não existia na Idade Média. Os ancestrais dos americanos não experimentaram uma Idade Média americana, mas uma européia. Assim este é um traço da América. Talvez essa seja a razão pela qual os americanos sinceramente pensem que a nação russa nasceu com o comunismo, com a União Soviética. Mas este é um equívoco absoluto. Somos muito mais antigos que isso. O período soviético foi apenas uma curta época em nossa longa história. Nós existíamos muito antes da União Soviética e seguimos existindo após a União Soviética. Portanto, para compreender os russos (e os ucranianos também) vocês devem levar em consideração nosso passado.

2 - Os russos consideram a Ucrânia como sendo parte da Grande Rússia. Isso o foi historicamente - não por conquista, mas pela gênese do Estado Russo que se iniciou precisamente em Kiev. Ao redor de Kiev nosso povo e nosso Estado foram construídos no século IX. É nosso centro, nossa amada primeira capital. Depois nos séculos XII-XIII diferentes partes da Rússia Kievana eram mais ou menos independentes com dois rivais principais - os principados ocidentais de Galitsia e Wolyn e o principado oriental de Vladimir (que posteriormente se tornou Moscou) existindo. Todas essas áreas eram povoadas pela mesma nação, eslavos orientais, todos os quais eram cristãos ortodoxos. Mas os príncipes do oeste eram mais participativos na política européia e tiveram mais contato direto com o cristianismo ocidental e relativamente menos com os ramos orientais. O título de Grão-Príncipe era mantido no leste pela realeza que era considerada mestra da totalidade da Rússia (não sempre de facto, mas de jure). No período mongol, o oeste bem como o leste de nossos principados russos foram mantidos sob a Horda Dourada. A Rússia oriental era mais ou menos sólida e seu poder cresceu ao redor da nova capital, Moscou. Após a queda dos tártaros, o domínio do Principado de Moscou se afirmou como um hegemônico regional que foi confirmado pela queda do Império Bizantino. Daí a doutrina de Moscou como a Terceira Roma.

O destino da área ocidental foi bem diferente. Ela foi incorporada primeiro em um Estado Lituano, que depois se tornou polonês. Os russos ortodoxos do oeste foram postos sob domínio católico. Os principais principados iniciais - Galitsia e Wolyn foram fragmentados e perderam qualquer traço de independência. Algumas partes sob a Lituânia, outras sob Áustria e Hungria, uma terceira pertencendo à Romênia. Mas tudo que nos concerne agora é apenas a metade direita da Ucrânia moderna. A metade esquerda era povoada por cossacos - a população nômade comum a todas as terras da Novorossiya, espaço que inclui leste e sudeste da Ucrânia e sudoeste da Rússia. A Criméia à época estava sob domínio otomano.

3 - O crescimento do Império Moscovita integrou primeiro todas as terras cossacas (Novorossiya) e pouco a pouco outros territórios povoados por russos ocidentais, libertando-os dos poloneses e alemães. Os príncipes moscovitas acreditavam que eles estavam restaurando a Velha Rússia, a Rússia de Kiev unificando todos os eslavos ortodoxos - orientais e ocidentais nesse único Reino.

4 - Durante os séculos XVIII e XIX a unificação das terras russas ocidentais foi conquistada e após muitas batalhas os imperadores moscovitas finalmente tomaram a Criméia dos turcos otomanos.

5 - Na Primeira Guerra Mundial os alemães conquistaram as terras russas ocidentais. Isso não durou muito. Após isso veio a Revolução de Outubro e o Império foi fragmentado em muitas partes com novas nações chegando à existência. Houve uma tentativa de construir uma nação ucraniana por diferentes pessoas - Petlyura, Makhno e Levitsky que tentaram fundar três efêmeros Estados. Esses Estados foram atacados por Brancos e Vermelhos e lutaram entre si. Finalmente, os bolcheviques restauraram as terras do Império Czarista e proclamaram a União Soviética. A União Soviética então criou artificialmente a República Ucraniana consistindo de Rússia Ocidental (Galitsia, Wolyn) e Rússia do Sul (Novorossiya). Depois, na década de 60 acrescentou-se a República da Criméia a ela. Assim, nessa República estavam unidos três grupos étnicos principais: russos ocidentais, os descendentes dos principados de Galitsia e Wolyn; a população cossaca e grão-russa da Novorossiya; a Criméia povoada por grão-russos e o resto dos tártaros pré-russos. Essa República Socialista Soviética da Ucrânia foi criada pelos bolcheviques e foi a origem da Ucrânia moderna. Essa Ucrânia declarou independência em 1991 após se separar da URSS. Mais do que isso, a declaração de independência provocou essa separação.

6 - Assim os ucranianos modernos possuem três linhas de ascendência - russos ocidentais, cossacos, grão-russos e uma pequena minoria tártara na Criméia.

Identidade Ucraniana e as Duas Opções Geopolíticas

1 - A contradição da Ucrânia consiste na multiplicidade de identidades. Logo após a declaração do novo Estado - a Ucrânia moderna em 1991 - a questão da identidade pan-ucraniana surgiu. Tal Estado e nação jamais existiram na história. Assim a nação teve que ser construída. Mas as três identidades principais eram muito diferentes. A Criméia povoada por grão-russos junto a maior parte da Novorossiya que eram claramente atraídas para a Federação Russa. Os russos ocidentais afirmavam ser o núcleo de uma "nação ucraniana" muito específica que eles imaginaram de modo a servir sua causa. Os russos ocidentais que parcialmente apoiaram Hitler na Segunda Guerra Mundial (Bandera, Shukhevich) possuíam e ainda possuem uma forte identidade étnica na qual o ódio pelos grão-russos (bem como aos poloneses em menor escala) possui um papel central. Isso pode ser traçado à rivalidade antiga dos dois principados feudais russos projetada em tempos imperiais e seguida pelos expurgos de Stálin. Esses expurgos foram dirigidos contra todos os grupos étnicos, mas os russos ocidentais o leem como vingança dos grão-russos contra eles (Stálin era georgiano e os bolcheviques eram internacionalistas). Assim a identidade escolhida do recém fundado Estado da Ucrânia era exclusivamente russa ocidental (puramente Galitsia/Wolyn) sem lugar para uma identidade grão-russa ou novorossiya.

2 - Essa particularidade foi expressada em duas opções geopolíticas opostas: ocidental ou oriental, Europa ou Rússia. As terras ocidentais da Ucrânia eram favoráveis à integração européia, as orientais e a Criméia a favor de fortalecer relações com a Rússia. Os homens da Galitsia era dominantes na elite política apresentando a Ucrânia com uma única identidade - uma ocidental - e negando qualquer tentativa do sul e do leste de expressar sua própria visão. Na Ucrânia Ocidental o anti-sovietismo estava profundamente enraizado bem como havia certa complacência com as idéias de Bandera e Shukhevich, que eram considerados heróis nacionais de uma nova Ucrânia. O ódio pelos grão-russos era dominante e toda retórica xenofóbica anti-russa era saudada.

3 - No leste e no sul os valores soviéticos ainda eram sólidos e a identidade grão-russa era, por sua vez, o sentimento dominante. Mas o leste e o sul eram passivos e seu poder político era limitado. Ainda assim, a população regularmente expressava sua escolha dando seus votos a políticos pró-russos ou pelo menos não tão abertamente russofóbicos ou pró-ocidentais.

4 - O desafio para políticos ucranianos, portanto, era como manter essa sociedade contraditória unida sempre se equilibrando entre essas duas partes opostas. Cada parte demandava escolhas completamente irreconciliáveis. Os ocidentais insistiam em uma direção européia, orientais e sulistas em uma russa. Todos os presidentes da nova Ucrânia foram impopulares, quase ao ponto de serem odiados, precisamente porque eles eram incapazes de resolver esse problema que não tinha qualquer solução real. Nessa situação, os ocidentais eram mais ativos e vigorosos e parcialmente tiveram sucesso em impôr sua versão de uma identidade pan-ucraniana sobre todo o espaço político do país - com a ajuda considerável da Europa Ocidental e acima de tudo dos EUA.

Eventos e Seu Significado

1 - Agora nos aproximamos da crise atual. A Revolução Laranja de 2004 foi feita por ocidentais que desafiaram a vitória legal de Victor Yanukovich, que era considerado o candidato do leste. Uma terceira rodada de eleições (contra todas as normas democráticas) foi imposta pela força de modo a dar o poder ao candidato ocidental (Yuschenko). Quatro anos mais tarde, novas eleições deram ao presidente ocidental apenas 4% dos votos e o candidato oriental Yanukovich foi eleito. Dessa vez a vitória foi tão óbvia que ninguém poderia desafiar.

2 - Yanukovich liderava a política do equilíbrio. Ele não era realmente pró-russo, mas não respondia a todas as demandas do Ocidente também. Ele não tinha muita sorte ou eficiência, tentando enrolar Putin e Obama, desapontando a ambos bem como a ucranianos de qualquer lado. Ele era um oportunista sem qualquer estratégia integral real, o que era quase impossível de desenvolver em uma sociedade com uma personalidade e identidade fraturadas. Ele reagia mais que agia.

3 - Em seguida, quando ele deu um hesitante e relutante passo em direção à Rússia, se abstendo de assinar o tratado preparatório para uma futura entrada na UE, a oposição (ocidentais) se revoltou. Foi por isso que o Maidan aconteceu. A revolta foi inicialmente aquela do oeste contra o leste e o sul. Assim, seus traços russofóbicos e nostálgicos nazi eram essenciais para sua existência.

4 - A oposição recebeu apoio imenso dos países ocidentais - acima de tudo dos EUA. O papel da América em todos esses eventos foi decisivo e a vontade de derrubar um presidente pró-russo foi demonstrada por representantes americanos como sendo firme e forte. Agora o fato de que os snipers que mataram a maioria das vítimas nas revoltas não eram de Yanukovich foi exposto. É claro que eles eram uma parte do plano americano para revolução na Ucrânia e uma parte de uma conspiração para escalar o conflito.

5 - A oposição do Maidan pôs em prática uma revolução, derrubou Yanukovich que fugiu do país para a Rússia, e ilegalmente assumiu o poder em Kiev. Ocorreu um golpe que levou a junta completamente ilegal ao poder.

6 - Os primeiros passos dos ocidentais após a tomada do poder foram:

* Declaração do desejo de ingressar na OTAN;
* Ataques ao uso do idioma russo;
* Um apelo para serem aceitos na UE;
* Uma recusa a permitir a Rússia a continuar tendo uma base naval em Sevastopol (Criméia);
* A indicação de oligarcas corruptos como governadores no leste e sul da Ucrânia.

7 - Em resposta a essas coisas Putin assumiu o controle sobre a Criméia com base nos decretos do único presidente legal da Ucrânia, Yanukovich. Ele também recebeu permissão do Parlamento Russo para enviar o Exército Russo para a Ucrânia. Autoridades da Criméia foram reconhecidas por Moscou como os representantes de sua terra e Putin claramente recusou quaisquer relações com a junta de Kiev.

8 - É aqui que estamos agora.

Curto Prognóstico

1 - Aonde isso vai levar? Logicamente, a Ucrânia como ela existiu durante esses 23 anos de sua história deixou de existir. Isso é irreversível. A Rússia integrou a Criméia e se declarou garantidora da liberdade de escolha do leste e sul da Ucrânia (Novorossiya).

2 - Assim, no futuro próximo haverá a criação de (pelo menos) duas entidades políticas independentes correspondendo às duas identidades previamente mencionadas. A Ucrânia Ocidental com sua posição pró-OTAN e ao mesmo tem uma ideologia ultra-nacionalista e a Novorossiya com uma orientação pró-russa (e pró-eurasiana, aparentemente sem qualquer ideologia, como a própria Rússia). O oeste da Ucrânia protestará tentando manter a posse do leste e do sul. Isso é impossível por meios democráticos, então os nacionalistas tentarão usar a violência. Após um certo tempo, a resistência do leste e do sul crescerá e/ou a Rússia vai intervir.

3 - Os países dos EUA e OTAN apoiarão por todos os meios os ocidentais e a junta de Kiev. Mas na realidade, essa estratégia só vai piorar a situação. A essência do problema está aqui: se a Rússia interferir nas questões do Estado em que a população (a maioria) considera essa intervenção ilegítima, a posição dos EUA e da OTAN será natural e bem embasada. Mas nessa situação, a população do leste e sul da Ucrânia saúda a Rússia, espera por ela, apela para que a Rússia venha. Há um tipo de guerra civil na Ucrânia agora. A Rússia apoia abertamente o leste e o sul. Os EUA e a OTAN apoiam o oeste. Os ocidentais estão tentando conseguir que toda a Ucrânia afirme que nem toda a população do leste e do sul está feliz com a Rússia. Isso é bastante verdade. Também verdade é que nem toda a população do oeste está satisfeita com o Setor Direito, Bandera, Shukhevich e o governo de oligarcas. Assim, se a Rússia invadir as partes ocidentais da Ucrânia ou Kiev isso poderia ser considerado como um tipo de agressão ilegítima. Mas a mesma agressão é nas circunstâncias atuais a posição dos EUA de tentar ajudar a junta de Kiev a assumir o controle do leste e do sul. Isso é percebido como um ato ilegítimo de agressão e provocará dura resistência.

Conclusão

1 - Agora aqui está o que quero dizer ao povo americano. A elite política americana tentou nessa situação, bem como em outras, fazer com que os russos odeiem os americanos. Mas ela falhou. Nós odiamos a elite política americana que traz morte, terror, mentiras e derramamento de sangue por todo lugar - na Sérvia, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria - e agora na Ucrânia. Nós odiamos a oligarquia global que usurpou a América e a usa como seu instrumento. Nós odiamos a duplicidade de sua política, onde eles chamam de "fascistas" a cidadãos inocentes sem qualquer característica que se assemelhe à ideologia fascista e com o mesmo fôlego negam a hitleristas declarados e admiradores de Bandera os qualificativos de "nazi" na Ucrânia. Tudo que a elite política americana fala ou cria (com pequenas exceções) é uma grande mentira. E nós odiamos essa mentira porque as vítimas dessa mentira não somos apenas nós, mas também o povo americano. Vocês acreditam neles, vocês votam neles. Vocês tem confiança neles. Mas eles os enganam e os traem.

2 - Nós não temos interesse ou desejo de ferir a América. Nós estamos longe de vocês. A América é para os americanos, como o Presidente Monroe costumava dizer. Para os interesses americanos e nenhum outro. Não para os russos. Sim, isso é bastante razoável. Vocês querem ser livres. Vocês e todos os outros merecem isso. Mas o que raios você está fazendo na capital da antiga Rússia, Victoria Nuland? Por que você interfere em nossas questões domésticas? Nós seguimos o Direito e a lógica, linhas da história e respeitamos identidades, diferenças. Isso não é uma questão americana. Não é?

3 - Eu tenho certeza de que a linha de separação entre os americanos e a elite política americana é bastante profunda. Qualquer americano honeste que estude calmamente o caso chegará à conclusão: "que eles decidam por si mesmos. Nós não somos similares a esses estranhos e selvagens russos, mas que eles sigam seu próprio caminho. E nós seguiremos o nosso". Mas a elite política americana tem outra agenda: provocar guerras, se intrometer em conflitos regionais, incitar o ódio entre diferentes grupos étnicos. As elites políticas americanas sacrificam o povo americano em causas que estão distantes de vocês, que são vagas, incertas e finalmente muito ruins.

4 - O povo americano não deve escolher estar com os ucranianos (russos ocidentais) ou com os russos (grão-russos). Não é essa a questão. Estejam com a América, a América real, com seus valores e seu povo. Se ajudem e nos deixem ser quem somos. Mas a elite política americana toma as decisões no seu lugar. Ela mente para vocês, ela os desinforma. Ela mostra fotos falsas e eventos ensaiados com explicações completamente imaginadas e comentários imbecis. Eles mentem sobre nós. E eles mentem sobre vocês. Eles dão a vocês uma imagem distorcida de si mesmos. A elite política americana roubou, perverteu e falsificou a identidade americana. E eles nos fazem odiá-los e eles os fazem nos odiar.

5 - Essa é minha idéia e sugestão: vamos odiar a elite política americana juntos. Lutemos com eles por nossas identidades - vocês pela americana, nós pela russa, mas o inimigo em ambos os casos é o mesmo - a oligarquia global que governa o mundo usando vocês e nos esmagando. Vamos nos revoltar. Vamos resistir. Juntos. Russos e americanos. Nós somos o povo. Nós não somos seus marionetes.

08/03/2014

Philip Coppens - Vladimir Vladimirovich Putin & O Império Eurasiano dos Últimos Tempos

por Philip Coppens



"A Rússia sempre se percebeu como um país eurasiático" - Presidente Vladimir Putin, novembro de 2000.

"...uma admissão revolucionária, grandiosa, epocal, que, em geral, muda tudo. A profecia de Jean Parvulesco se cumpre... Haverá um milênio eurasiano" - Aleksandr Dugin, pensador e autor russo.

O principal agente, senão esperança, para mudança global é Vladimir Putin, segundo o visionário escritor francês Jean Parvulesco. Parvulesco afirma que - quer saibamos ou não nos encontramos na encruzilhada da "grande história", onde uma era totalmente nova está para nascer.

Para tal novo período começar, o velho precisa primeiro morrer. Para Parvulesco, esse é o velho "sistema democrático" do politicamente correto, que ele sente ter agora alcançado seus limites e não ser mais suportável. Ele se tornou "um pesadelo total e permanente". Muitos se questionarão como o "novo mundo" deve vir. O melhor exemplo do que pareceu ser um colapso súbito, quase instantâneo é visto na queda da URSS, duas décadas atrás. Ela ilustra que impérios poderosos podem, de um dia para o outro, desaparecer completamente, tornando necessário que uma nova sociedade e estrutura sejam construídas do zero.

Quando notícias do colapso da União Soviética apareceram na televisão, o sistema já havia implodido. Foi apenas a revelação pública de sua morte; a desintegração do sistema comunista já havia ocorrido. Segundo Parvulesco, o colapso da "Europa democrática" já havia ocorrido também, e nós estávamos agora nos anos entre seu colapso e a aceitação pública de seu fim - e o início de uma nova Europa.

Para Parvulesco, a evidência do colapso desse sistema é aparente na história política recente da Itália e da Alemanha, e em alguma medida da França e Grã-Bretanha. Mas em cada caso ele sente que a mesma situação abissal transpirou: um "imenso deserto espiritual", a desolação da "social-democracia". Uma versão local do que ele vê como uma "conspiração global", mas uma que falhou e logo será enviada de volta para o "buraco negro" de onde veio.

Parvulesco sabe o que escrever na certidão de óbito; mas ele também sente que ele sabe o que a Nova Europa será: o "Império Eurasiano dos Últimos Tempos". Ele nomeia nossos tempos como um interregnum onde o que aconteceu à Rússia é efetivamente evidência de que mudança política dramática é possível. A União Soviética foi o primeiro dominó a cair, com os outros na Europa logo em seguida.

Poderia ele estar certo? Em 1976, Parvulesco publicou "La Ligne Géopolitique de l'URSS et le 'Projet Océanique Fondamental' de l'Amiral G.S. Gorchkov" (A linha geopolítica da URSS e o 'projeto oceanográfico fundamental' do Almirange G.S. Gorchkov), que ele chamou "pesquisa político-revolucionária". Nela ele escreveu que a URSS acabaria mudando o curso da história. E mudar o curso da história é, para Parvulesco, o único objetivo que a política deve ter.

Parvulesco portanto fornece um interessante tipo de profecia. Conquanto a maioria dos profetas preveem o fim do mundo em um dado tempo, seu tipo de profecia traz mais detalhes sobre o tipo de mudança e o como. Quanto ao tempo, é muito do tipo "quando for a hora certa".

Assim, o que deve acontecer? Parvulesco afirma que por toda a Europa há grupos geopolíticos atuando - muitas vezes clandestinamente - estabelecendo as bases para a agenda eurasiana. Como o Projeto para um Novo Século Americano, há outros think-tanks trabalhando - e considerando a quantidade de notícias em jornal de que não são objeto, muito mais secretamente - para fazer emergir uma nova Eurásia. Apesar de seu caráter secreto, Parvulesco foi capaz de pôr as mãos em um artigo chamado "O Pacto Eurasiano Imperial". Parecida à idéia posta em prática pelos neocons após o 11 de Setembro (uma agenda que afirmava querer levar paz ao mundo pelo uso do poder bélico americano), esse grupo afirma que, "é o confronto de nossas doutrinas imperiais e católicas [universais] com realidade político-histórica atual [...]]] que verá a emergência final do Grande Império católico que constitui nosso objetivo final, o Imperium Ultimum, o Regnum Sanctum, que deverá comportar, em princípio, três fases operacionais [...]".

A primeira fase é a criação de um Eixo Paris-Berlim-Moscou, esta é considerada como sendo o eixo ao longo do qual essa grande mudança vai ocorrer. Esse eixo ligará o destino de três nações (França, Alemanha e Rússia).

A segunda fase é a integração do que era tradicionalmente conhecido como Europas Ocidental e Oriental, junto de Rússia, Sibéria, Índia e Japão.

A fase final envolve o que é chamado a destruição da "conspiração democrática global", liderada pelos EUA, incluindo uma liberação revolucionária de seu povo, após o que a América como um todo (Norte e Sul) se tornarão uma só entidade. Nós só podemos imaginar se o presente impulso dos EUA de expandirem o NAFTA e criar uma União Norte-Americana são passos nessa direção.

O fim da superpotência planetária que são os EUA é previsto como um ato de autodestruição, uma guerra civil continental parecida com a primeira Guerra Civil. A extrema insatisfação dentro dos EUA, a disparidade extrema entre a comunidade religiosa arquiconservadora e a mais liberal, significa que ser eleito presidente com uma agenda genuína (ao invés de uma de estilo total, mas nenhuma substância) é quase impossível. Para Parvulesco, será primariamente a comunidade católica e ex-européia dos EUA que levará a América a seu novo destino - e causar o fim da atual "conspiração global". Haverá uma nova Europa, mas também uma nova América.

No final, a mudança é um processo social, mas ele não raro precisa de um símbolo. Hitler se tornou a face da Segunda Guerra Mundial, Lênin - mais do que Marx - do comunismo, etc. Assim qual é a nova face da Europa, e quem é o criador desse novo Império Eurasiano? Para Parvulesco, esse "messias" já está aqui: Vladimir Putin. Ainda que Putin não seja mais presidente, sua influência como Primeiro-Ministro Russo permanece virtualmente onipresente.

Vladimir Putin permanece a face da Nova Rússia, um país com um vasto território e recursos naturais que é capaz de manter a Europa refém, a nível energético, caso ele queira fazê-lo.

Quem é Vladimir Vladimirovich Putin? Essa é uma questão que muitos em um universo fora do de Parvulesco também se perguntam. Visto por uns como instrumento do sucesso da KGB, para Parvulesco Putin é a emanação direta dos grupos revolucionários secretos das Forças Armadas da União Soviética. Esses, ele acredita, estão tentando tornar sua batalha secreta de longa data aberta e pública, movendo de um tipo de governo por trás das cenas, para um tipo mais aberto de governo.

Enquanto alguns teóricos da conspiração afirmam que a CIA e várias sociedades secretas como a Skull & Bones são os verdadeiros controladores da política americana, Parvulesco diz que a situação na URSS não era muito diferente. Governada de longa data por mediadores políticos cujos agentes estariam agora entrando em cena para levar o curso da política russa na direção que eles tentavam guiar por trás das cenas por um número de décadas.

Diferentemente dos EUA em que a "conspiração" é normalmente sem face, Parvulesco lista duas pessoas como os conspiradores-mor da Rússia. Um era o chefe do Serviço de Segurança Soviético (GRU) e outrora Comandante-em-Chefe do Pacto de Varsóvia, General S.M. Stemenko (morto em 1976), o outro era o Marechal N.V. Ogarkov, ex-Chefe de Estado Maior do Exército Soviético, que morreu em 1994, que segundo rumores teria estado por trás de uma tentativa de golpe que falou, que por sua vez levou a um tipo de contra-conspiração que levou Mikhail Gorbachev ao poder.

Parvulesco está convicto de que se essa contra-conspiração não tivesse tido sucesso, o fim da URSS teria vindo vários anos antes, com uma transição da URSS para a Nova Rússia que teria sido muito mais dura. De fato, ele sublinha que anos antes do fim efetivo da URSS, o regime estava em coma, à disposição para ser tomado, assim como - aos olhos de Parvulesco - a Europa Ocidental (e os EUA) estão agora.

Parvulesco não está sozinho em sua avaliação desses dois homens. O especialista de inteligência francesa Pierre de Villemarest que escreveu a história da GRU, chamada de "o serviço secreto mais secreto dos soviéticos", diz que o General Sergei Matveevich Stemenko foi "um dos primeiros geopolíticos da URSS, talvez até o primeiro". Ainda que Villemarest chamasse Stemenko de soviético, ele se considerava efetivamente um "Grão-Russo". "Para essa casta", escreve Villemarest, "a URSS era um Império que foi convocado a dominar o continente eurasiático, não apenas dos Urais a Brest, mas também dos Urais à Mongólia, da Ásia Central ao Mediterrâneo".

O "sonho" da Rússia à la Stemenko pode ser visto como um mero retorno aos dias em que a Rússia era um verdadeiro império, antes dos dias da Revolução Bolchevique. Mas para Parvulesco, isso em si é parte de um quebracabeças maior e mais intrigante - uma missão.

07/03/2014

Michael O'Meara - A Revolução Européia de Drieu La Rochelle

por Michael O'Meara



"O tempo para a pequena política acabou: o próximo século inaugurará a luta pelo domínio da terra- a compulsão da política em larga escala" - Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §208

Na noite de 15 de março de 1945, enquanto escondido do novo regime americano em Paris, Pierre Drieu La Rochelle engoliu uma dose fatal de gardenal.

O suicídio desse brilhante escritor normando, que escolheu a morte à derrota, fez pouco para manchar sua reputação subsequente.

Como escreve o historiador Pierre Nora no prefácio do Diário 1939-1945 de Drieu: "Para a geração do pós-guerra ele se tornou...um herói românico de proporções nietzscheanas, um inconformista lendário, um fascista sem sangue nas mãos, um intelectual que pagou o máximo preço por seguir suas convicções até o amargo fim. Sua personagem é de estatura mítica".

Estatura mítica, talvez - mas é Drieu o mártir revolucionário, ao desafiar a convenção de direita e esquerda em prol do destino da Europa, que, indubitavelmente, ainda nos fala.

De fato, poucos escritores de sua idade lidaram com os dilemas da Europa de forma tão intensa ou lúcida. Em seu romance semi-autobiográfico Gilles, ele escreveu que o homem existe apenas no conflito: "Nenhum pensamento, nenhum sentimento é real se não testado pela prova da morte".

O europeísmo revolucionário de seu pensamento continua a nos afetar, parece, não simplesmente porque suas preocupações ainda assombram nosso mundo, mas também porque sua descompromissada "prova da morte" lhe dá uma certa atemporalidade.

Franceses da geração de Drieu - "a geração de 1914" - eram atormentados por uma sensação de que seu mundo estava morrendo e um novo, não necessariamente melhor, estava lutando para nascer. Ao "questionar as bases de tudo", a crise espiritual iniciada pela Grande Guerra teceria seus feitiços por todo o período entreguerras (1918-1939).

O tema do soldado que retorna para se encontrar sem lar em sua própria pátria, conforme ele descobre que a nação pela qual ele lutou não é mais aquela que ele outrora conhecia, é uma que trespassa todas as obras de Drieu. Esse tema era particularmente ressonante na França, que mesmo antes da guerra era assolada por sentimentos de decadência e declínio.

Dado que ela foi o berço tanto da civilização medieval como da moderna, a França há muito dominava a Europa, não apenas no pensamento, gosto, e modelos legitimantes que ela fornecia para outros Estados europeus, mas militarmente e demograficamente. Então, no último terço do século XIX, a reunificação alemã, combinada com a elevada população e crescimento industrial que ela impulsionou, trouxe hegemonia francesa a um fim abrupto e humilhante.

Isso foi tornado dolorosamente óbvio durante a Guerra Franco-Prussiana de 1870 e ainda mais durante a Primeira Guerra Mundial, quando ela foi capaz de "derrotar" os alemães (que "meu povo, sozinho, havia atropelado facilmente por séculos") apenas em aliança com todas as outras potências mundiais.

Em sua primeira obra política, Mesure de France (1922), Drieu confrontou a "decadência" que parecia responsável pela corrupção do espírito francês, abordando uma questão que animaria toda sua obra subsequente.

Indiferente ao fato de que eles não mais eram o mesmo povo conquistador que havia sido em 1800, ele acusou seus conterrâneos, particularmente suas elites, de terem sucumbido às formas desvitalizantes que vem com a vida moderna.

"Todo lugar para que olho", ele observou, "eu vejo pessoas desorientadas que perderam todo o sentido das coisas - todo o sentido do que é sexo ou política - do que um líder, um homem, arte ou religião é".

O declínio da França, ele pensou, não era simplesmente o resultado do capitalismo moderno (como a esquerda sustentava) ou da democracia (como para a direita), mas uma desordem profunda na vida da nação, evidente em sua demografia disgênica. A população da nação havia crescido muito pouco no século XIX, enquanto a população alemã cresceu até quase dobrar de tamanho.

Para Drieu uma população infértil era sinal de uma vitalidade decrescente - e tudo que seguida disso, tal como o medo de risco, o rebaixamento de valores viris, uma fixação no conforto e na segurança, uma auto-centralidade desmobilizadora.

A consequência era inevitavelmente ameaçadora: "O homem", ele escreveu, "que mal cultiva seu domínio e deixa sua mulher estéril é vulnerável aos vizinhos que cobiçam suas posses".

Mas mais do que desarmar a França em um mundo de vizinhos cobiçosos, a decadência sabotando a sua força vital estava pingando sobre várias facetas de sua existência nacional, solapando seu poder, autonomia, e mesmo a habilidade de pensar os problemas que a afetavam. O início da imigração em massa na década de 20 parecia apenas a última e mais ameaçadora expressão dessa decrepitude.

O destino da França, Drieu acreditava, seria o da Europa como um todo, pois o século XX havia tornado não apenas as velhas formas civilizacionais, mas o sistema estatal vestfaliano obsoletos, dando início a uma era de impérios continentais que haviam reduzido a importância e soberania do Estado-Nação.

A Alemanha pode ter superado a França, mas ela jamais alcançaria hegemonia sobre o continente. Não apenas outros Estados europeus continuariam a formar coalizões contra ela, seu peso demográfico e econômico era significativo apenas em relação às pequenas nações européias. Enquanto tal, a Alemanha eventualmente sucumbiria ao mesmo declínio que a França - um declínio que afetaria não apenas sua viabilidade na arena internacional, mas sua habilidade de dominar os imperativos domésticos da vida moderna.

Enquanto a Europa permanecesse politicamente fraturada, ela arriscava, então, não apenas outra mutação fratricida, como a de 1914-1918, mas o domínio pelos poderes continentais do capitalismo americano e do comunismo russo (sem mencionar as dos impérios chinês e indiano que ele previu para o século XXI).

A França, ele reconheceu, estava destinada a se tornar ou uma "Irlanda" em luta perpétua contra impérios alógenos - ou um membro participante de um imperium europeu cuja paz e ordem governariam o mundo.

A França, a Alemanha, e os outros países europeus, em outras palavras, sobreviveriam a era dos impérios continentais, com suas economias de escala e "tirania de números", apenas se federalizando.

A federação, porém, não significava liquidação nacional. Diferentemente da atual Comissão Européia, desconectada da biocultura européia distinta, a noção federativa de Drieu não era sobre subordinar os povos do continente à primazia de princípios de mercado.

Sua preocupação era com o renascimento da Europa, não com a destruição econômica de suas etnonações. Influenciado em sua juventude por nacionalistas anti-liberais como Maurice Barrès, Charles Maurras, e Jacques Bainville, cada um dos quais ajudou a iniciá-lo no "culto da França", sua afeição por "Marianne", que ele amava "como uma bela mulher que ele poderia encontrar na rua à noite", era inquebrantável.

Mas ao mesmo tempo ele via que o nacionalismo, "essa ideologia do século XIX", havia alcançado um impasse histórico - tanto em termos de suas rivalidades autodestrutivas e das limitações que ela começava a impôr ao espírito europeu.

"Todos os nacionalismos", ele escreveu em 1928, "que fazem da pátria um fim ao invés de um começo estavam rejeitando as próprias energias e criatividade nascidas da pátria". Para o autor de L'Europe contre les Patries (1931), o nacionalismo na era continental havia se tornado um resíduo subversivo tanto da Europa como da própria nação.

Não a França, mas a Europa como comunidade espiritual de nações reivindicaria daí em diante sua lealdade: "A França deve morrer enquanto entidade política...para ela alcançar seu verdadeiro lugar espiritual".

A federação que ele visualizou se inspiraria nas identidades locais e instituições históricas na tradição da "comunidade de nações" de Montesquieu - unindo europeus com base nos legados grecorromano e cristão latino que partilhavam, nos empréstimos mútuos recíprocos que demarcavam suas histórias, e na herança institucional do ius publicum europaeum.

Para um neo-direitista francês (A. Guyot-Jeannin), a Europa de Drieu não era o Super-Estado exangue dos burocratas, banqueiros e empresários, mas uma "Europa espiritual, cultural, comunitária e enraizada" - protetiva de suas etnonações ricas e variadas e verdadeira a suas formas espirituais mutantes.

Não seria, enquanto tal, uma "união" aberta a todo o mundo e destrutiva de sua identidade específica - mas ao invés uma Suíça ampliada zelosa de suas diferentes famílias nacionais. A nação, ainda que carente de viabilidade em um mundo de poderes continentais, permanecia para ele um núcleo vital, pois a língua, a herança, e o lugar são partes íntimas da identidade individual.

Dado, porém, que a Europa após 1918 estava situada entre dois impérios extra-europeus hostis, sua divisão em vinte e seis Estados soberanos - nenhum dos quais tinha a capacidade de dominar os outros ou "se representar com dignidade na competição desproporcional de impérios continentais" - a colocavam em uma desvantagem distinta contra seus rivais, a impedindo de assumir sua posição política, sem mencionar a perspectiva espiritual, necessária para superar os desafios que a encaravam.

"Apenas na federação podemos reviver a alma defunta da Europa e assumir a linha da Europa cristã do século XIII ou do aristocrático e intelectual século XVIII... Este não é um sonho cosmopolita, mas uma necessidade premente, uma questão de vida e morte. A Europa vai se federar - ou devorará a si mesma ou será devorada".

Para esse fim, as nações europeus estariam daí em diante obrigadas a alterar suas relações umas com as outras.

"Nascidas da Europa, elas devem retornar à Europa".

Desde a dissolução do império de Carlos Magno, os europeus embarcaram em um movimento milenar de diferenciação, separando e distinguindo uns dos outros "como se fosse uma questão de quarentena". Com o início da Primeira Guerra Mundial, porém, a fase criativa desse movimento alcançou um ponto de retornos cada vez menores

Ainda que a Europa não pudesse ser Europa sem suas nações e morreria sem elas, Drieu mantinha que a viabilidade da nação dependeria daí em diante da Europa.

Ele assim exortava seus contemporâneos a se tornarem como os "bons europeus" de Nietzsche - "os herdeiros maximamente obrigados de milhares de anos de espírito europeu". Assim como eles superaram suas diferenças religiosas no século XVII, assim também eles agora precisavam minorar a primazia de suas identidades nacionais limitantes, se quisessem sobreviver ao século XX.

Isso tornava imperativo que eles abandonassem a "pequena política nacionalista" e as formas estatistas rígidas, que prometiam relegá-los e ao resto da Europa aos estratos mais baixos da ordem mundial vindoura.

Drieu reconheceu que a Europa era algo como um "mito", mas ela era não obstante um cuja ressonância histórico-civilizacional ainda possuía o poder de evocar essas forças que poderiam desafiar a decadência reinante.

Sua visão de federação, essa Europa das Pátrias, buscava nesse sentido reviver o espírito específico das formas vitais únicas e incomparáveis da Europa - e não dissolvê-la em um mercado global ultra-liberal.

A idéia de federação européia não era de modo algum exclusiva de Drieu.

Seguindo o armistício de 1918, europeus de quase toda classe e nação perceberam que outra guerra nascida da rivalidade nacionalista destruiria o continente. Na década de 20, a "idéia européia" assumiu várias formas: os Tratados de Locarno, o briandismo, o pan-europeísmo de Coudenhove-Kalergi, etc.

Drieu não partilhava de qualquer dos princípios pacifistas, humanitários ou democráticos que motivavam a unidade nesse período (princípios cujas premissas liberais ele via como derivadas da decadência européia), mas ele olhava para os movimentos iniciados como possíveis instrumentos para forjar um Estados Unidos da Europa.

Em Genève ou Moscou (1928), ele até entretinha a esperança de que os setores mais avançados do capitalismo europeu, tendo superado o mercado nacional, usariam a Liga das Nações para promover primeiro a unidade econômica, depois a política.

Sua esperança de tais reformas não sobreviveu, porém, à primeira década pós-guerra, que culminou na maior crise econômica da história moderna.

Frustrado pela imobilidade dos partidos de esquerda e direita perante a crise, ele começou na década de 30 a buscar uma alternativa revolucionária para regenerar a França e a Europa.

Nas demonstrações anti-governo violentas que abalaram a Terceira República da França em fevereiro de 1934 - conforme direitistas anti-liberais (principalmente veteranos organizados nas Ligues de extrema-direita) e esquerdistas anti-liberais (comunistas) olhavam de cima para as forças armadas do Estado, demonstrando que algo das antigas tradições viris da França ainda viviam nos corações de seus compatriotas - Drieu achou ter finalmente encontrado essa alternativa revolucionária no que ele chamou de Socialisme fasciste (1934).

O fascismo que ele abraçava nessa obra não era muito ortodoxo, assim como seu interesse nele era mais existencial que político.

Ao invés de seu nacionalismo pequeno-burguês, anti-comunista e estatista, era a oposição instintiva do fascismo à ordem liberal estabelecida, sua ênfase na juventude, saúde, liderança, rebelião, e ações viris, e especialmente sua vontade nietzscheana de viver perigosamente que o atraíam.

Similarmente, ele permaneceu crítico das concessões que os fascismos italiano e alemão fizeram ao que os franceses chamavam de juste milieu - isto é, o centrismo liberal que abomina a política radical ou contenciosa.

O fascismo de Drieu (como o de muitos outros intelectuais fascistas) derivava essencialmente de sua identificação com sua vontade de superar a decadência nascida da era moderna e, ao fazê-lo, realizar uma comunidade espiritual superior.

Como ele escreveu em 1938: "Viver mais intensamente e plenamente é o que significa hoje ser fascista" (o que explica, talvez, porque, após seis décadas, o anti-fascismo continua obcecando a esquerda).

O socialismo de Drieu, oposto como era a mercados irrestritos indiferentes a coesão social e valores espirituais, tinha pouco em comum com o socialismo marxista, com seu universalismo judaico, coletivismo, e materialismo anestesiante. Ao invés, o seu era o "socialismo" que Spengler atribuiu aos prussianos - o socialismo "orgânico" e "autoritário" que subordinava a economia à nação e perseguia fins "sociais" privilegiando o desenvolvimento do espírito e vitalidade da nação. Isso, ele afirmava, era um socialismo do coração, não do estômago. Acima de tudo, era um socialismo que era europeu, ao invés de nacionalista.

A noção de Drieu da revolução socialista do fascismo também parecia guardar a possibilidade de unir fascistas e comunistas em uma aliança anti-liberal que poderia levar à formação de uma elite enérgica e jovem para reacender o espírito decadente da Europa e criar um novo homem cuja vitalidade intrépida transcenderia as formas multitudinárias da decadência moderna.

Seu "socialismo fascista", em uma palavra, se opunha à modernidade liberal em prol de uma Europa alternativa, arqueofuturista.

Em 1936, Drieu se uniu ao recém-criado Parti Populaire Français de Jacques Doriot, que ele pensou poder servir como agente para a revolução européia.

Indiscutivelmente o maior trabalhador revolucionário produzido pela Terceira Internacional, Doriot foi expulso do Partido Comunista Francês em 1934, após o que sua transição para a direita revolucionária abriu o caminho para a formação de um partido fascista de massas na França (tendo em meses recrutado 130.000 membros).

Doriot, porém, desapontaria Drieu e ao final de 1938 ele relutantemente abandonou o PPF.

O período seguinte seria um de extremo desespero para Drieu, pois não apenas havia o prospecto de uma revolução fascista francesa sido desperdiçado, a ameaça de outra guerra mundial despertava seus piores medos.

Após a Batalha da França (maio-junho 1940) - que confirmou sua péssima opinião do regime parlamentar francês e sua crença de que seu exército, ao sofrer a maior derrota na história da nação, refletia a natureza esclerótica de sua ordem social burguesa - Drieu tentou tirar proveito de uma situação ruim ao colaborar com a ocupação alemã.

Através da colaboração ele esperava criar uma França fascista capaz de comandar o respeito da Alemanha Nacional-Socialista e, no processo, tornar o fascismo menos nacionalista e mais europeu e socialista.

Ainda que um europeísta racialmente consciente cuja identificação pessoal era com a França Celto-Germânica e sua herança nórdica, o alto, loiro e de olhos azuis Drieu não era germanófilo. Na verdade, ele previamente se opunha à idéia de que a unidade européia poderia ser alcançada sob uma única hegemonia nacional. Ele também não aprovava o expurgo da "ala de esquerda" (as SA de Röhm) do NSDAP, bem como as concessões feitas ao Estado-Maior da Wehrmacht reacionária e à Grande Indústria.

Se resignando ao fato de que os franceses falharam em realizar sua própria revolução, ele estava agora inclinado a pensar que ela precisava ser imposta de fora.

Assim como os estados nortistas forçaram o sul a criar os EUA, ele pensou que a coerção alemã poderia levar aos Estados Unidos da Europa.

Nesse espírito, ele assumiu a editoria da revista de mais prestígio da França, a Nouvelle Revue Française, passou a escrever artigos semanais para a Révolution Nationale de Doriot, participou de diversas atividades projetadas para dar substância a ideais "colaboracionistas", olhava para Hitler em prol da unificação da Europa pela realização do tipo de revolução que reviveu a Alemanha após 1933.

O ditador alemão, ele esperava, se tornaria o Augustus de uma Europa politicamente unida.

Novamente ele se desapontaria.

Já pelo início de 1942, mais de um ano antes de Stalingrado e Kursk, ele percebeu que a Alemanha estava para perder a guerra.

Ainda pior, ele passou a ver que Hitler não tinha o menor interesse em colaboração ou revolução genuínas.

Virtualmente por todo lado na Europa ocupada pela Alemanha, "esse filho de um oficial alfandegário austríaco" havia escolhido colaboradores entre conservadores e reacionários, enquanto revolucionários fascistas na França, Bélgica, Hungria, Romênia e outros lugares estavam sendo reprimidos ou marginalizados. (O inócuo Quisling era meramente a exceção provando a regra).

A falha de Hitler em unir a Europa e realizar uma revolução socialista foi, porém, mais do que uma decepção para Drieu: ela anunciava a derrota vindoura. Como ele afirmou na Révolution Nationale (dezembro 1943), a Alemanha seria européia ou não seria - e cada vez mais parecia que ela não seria.

Os escritos geopolíticos de Drieu entre 1941 e 1944 eram mais penetrantes do que muito do que estava então sendo escrito sobre a guerra nos EUA e Grã-Bretanha, mas sua crítica crescente do pan-germanismo conservador de Hitler, e os efeitos desastrosos que isso estava tendo para o Eixo, eram majoritariamente reservadas para suas obras não publicadas (ainda que algumas de suas obras críticas hajam atravessado a censura).

Em seu postumamente publicado Récit Secret (1951), ele confessou diretamente que "no que eu escrevi e disse [nesse período] eu evitei enfatizar a extensão de meu desgosto em relação a Hitler que estava danificando a Europa tanto quanto seus inimigos".

Dessas fontes publicadas e não publicadas, sabemos que Drieu havia abandonado toda esperança de uma federação européia sob direção alemã. Os alemães, ele concluiu, eram totalmente inconscientes da magnitude das tarefas diante de si: Em seu diário ele escreveu que ele "havia visto o bastante dos alemães para achá-los tão idiotas quanto os franceses".

A estratégia militar alemã não estava somente equivocada, permitindo às forças britânicas e americanas penetrar no Mediterrâneo, ela era desprovida de qualquer sentido político, tratando outros europeus como Untermenschen, falhando em realizar as políticas na Europa ocupada que haviam trazido as massas para o Nacional-Socialismo na Alemanha, e substituindo objetivos militares por imperativos políticos (como se os primeiros, pace Clausewitz, não fossem uma derivação do segundo).

Hitler, ele passou a ver, era por demais um nacionalista oitocentista - ignorante das mudanças ocorridas no mundo desde 1914 e dos perigos que agora ameaçavam a existência da Europa - para estar à altura dos desafios da Europa do século XX.

Mais conservador do que revolucionário, o fascismo alemão, Drieu resumiu, estava "morrendo por timidez".

***

Cada vez mais alienado dos ocupadores e obcecado com o fim iminente da Europa, Drieu se recusou a romper com a Colaboração, assim como ele se recusou a buscar refúgio na Suíça ou outros lugares, uma vez que a possibilidade se apresentou após 1943. Ele sentia que essa era uma questão de honra.

Muito interessante no europeísmo de guerra de Drieu era sua crescente admiração da Rússia Stalinista, cujo valor militar e vontade de poder estavam se provando superiores aos dos alemães.

Drueu há muito tinha uma relação ambivalente com o comunismo. Ele desprezava o marxismo como uma ideologia cujas simplificações podem ter enganado as massas, mas eram uma ofensa ao espírito crítico, assim como ele pensava que seu "culto da produção" era o verso do materialismo burguês.

E como a Nova Direita européia hoje, ele acreditava que revoluções reais nasciam de uma radical transformação de valores, não das mudanças social-democráticas que os marxistas defendiam. É por isso que para ele Nietzsche era o único revolucionário da idade moderna.

Em linha com Roma e Berlim, Moscou havia alcançado mais, ele afirmava, ao seguir princípios nietzscheanos do que os do judeu do Reno.

Ao mesmo tempo, Drieu percebeu que um espírito anti-burguês, vigoroso e corajoso similar ao espírito fascista existia dentro das fileiras comunistas, constituindo outra alternativa possível à decadência européia.

Em conformidade com isso, o "nacional-comunismo" dos russos não era para ele o bicho-papão judaico que alguns conservadores americanos e europeus diziam, mas uma força de auto-afirmação eslava.

Com a derrota iminente do fascismo, a autocracia soviética, ele viu, logo estaria sozinha contra as democracias plutocráticas representando a vanguarda da decadência moderna.

Porque os anglo-americanos eram inferiores em capacidade militar aos russos, Drieu equivocadamente superestimou o potencial desses, pensando que o Exército Vermelho poderia conquistar toda a Europa - trazendo a unidade européia sob o martelo e a foice.

Em qualquer caso, ele preferia uma Europa dominada pelos russos do que pelos americano, pois estes (como um resíduo de presidiários fugitivos, de desertores...que passou diretamente da barbárie à decadência) não eram nem uma raça, nem uma cultura, mas uma multidão de mestiços ressentidos do espírito europeu.

***

Enfim, em algum ponto no fim de 1944, a Revolução Européia de Drieu, o fio vermelho permeando todas as suas iniciativas adultos, se rompeu.

As forças capitalista, fascista e comunista para as quais ele sucessivamente olhou haviam cada uma falhado em estabelecer uma alternativa para a decadência prevalecente.

Dificilmente seria necessário acrescentar que a União Européia de hoje não é qualquer coisa além de uma caricatura do que ele buscava.

Que os prospectos da vida francesa e européia se tornaram progressivamente piores desde sua morte e que a Europa agora arrisca se tornar uma colônia afro-asiática testemunha, indubitavelmente, a credibilidade de sua visão continental - e o imperativo ainda de realizar uma revolução para liberar a Europa da corrupção, estagnação e desvirilização - da "decadência" - que frustra as formas vitais únicas à Europa

02/03/2014

Alberto Buela - Metapolítica e Tradicionalismo

por Alberto Buela



Este trabalho tem sua razão de ser em dois motivos: Um, a propósito de uma carta de nosso amigo o ítalo-americano Primo Siena sobre alguns pontos em disputa acerca do que entendemos por metapolítica. E dois, pretende dar a conhecer, aux parvenus au champ des études tradicionnelles, uma ótica pouco conhecida e mal compreendida como é o sentido de tradição para o Ocidente, esboçado já há vinte e cinco anos por Eliás de Tejada, a propósito do tradicionalismo hispânico, em um estudo excepcional em homenagem a Julius Evola.

Os termos tradição e tradicionalismo tem sido tomados, pelo menos, em dois sentidos diversos. Para o denominado tradicionalismo filosófico que se nutre com autores contemporâneos tão significativos como René Guénon, Julius Evola, Frithjof Schuon, Titus Burckhardt, Ananda Coomaraswamy, Antonio Medrano e em nosso país Vicente Biolcati, a tradição está edificada por um cúmulo de conhecimentos que constituíram um saber primordial comum a todas as civilizações. A elucubração sobre a sabedoria pristina é o objetivo primeiro dessa corrente filosófica. Para isso recorre ao estudo detalhado dos mais diversos textos sagrados ou pseudo-sagrados da antiguidade buscando ali rastros, testemunhos ou traços acerca do saber ancestral primigênio.

Esta tradição, por princípio, não está assentada em nenhuma época histórica e é por isso a-histórica e de origem não-humana. Afirmamos que o tradicionalismo filosófico é a-histórico porque o objeto de seu estudo, isto é o saber primordial não está situado em nenhuma época histórica. Portanto nos parece inadequado pretender classificá-lo de meta-histórico como sugere Primo Siena. Em todo caso poderia dizer-se que este tradicionalismo é supra-histórico na medida em que o mito constitui o elemento primário a partir do qual se parte para o conhecimento da tradição única. Ela se pode encontrar em todos os povos. Assim Evola a encontrou na Índia na via hindu do tantrismo da mão esquerda, Guénon no islamismo egípcio onde se rebatizou como Abdel Wahed Yahia ou Coomaraswamy nos índios pele-vermelha dos Estados Unidos.

A segunda acepção de tradição nos é oferecida pelo tradicionalismo ocidental que se projeta no Ocidente sob a forma de "tradições nacionais". Essa tradição não está fora da história como a anterior versão senão inserida como coisa valiosa no sangue vivo dos povos. A tradição é aqui entendida como transmissão de valores de uma geração à outra. Valores que dão sentido à existência de nossas nações dentro da história do mundo.

É indubitável que essa tradição se nutre de uma metafísica mas não já como ciência dos mitos enquanto mitos senão como "ciência do ser enquanto ser e seus atributos essenciais" segundo a concebera a filosofia grega e logo, toda a philosophia perennis. É a prótes philosophías, a filosofia primeira. Porque "o problema do ser, vai dizer nosso mestre, no sentido da pergunta 'o que é o ser?' é o menos natural de todos os problemas, aquele que o sentido comum nunca se propõe, o que as tradições não-ocidentais jamais tocaram ou esboçaram...é uma pergunta eternamente aporética. Sendo isso assim se concebe que a ordem da investigação para nós (quoad nos) seja inverso à ordem do saber em si e que a humana filosofia não chegue nunca a se identificar com a ordem que pertenceria a um saber mais que humano". 

E é aqui, na meditação sobre o ser enquanto ser onde brilha com luz própria o mais graduado da inteligência ocidental. São os metafísicos stricto sensu - desde Heráclito a Heidegger- os que des-cobriram o sentido da alétheia do ser do ente. Este caminho é o mais árduo e difícil ao que a humana fortaleza possa se submeter. Caracterizado pelos grandes místicos como o da noite escura. Kant dizia "é buscar um gato negro em um terreno escuro, quando na verdade ele não existe". Nosso Castellani falava de "homens raros que pretendiam conhecer as causas. Desses homens alguns foram mortos, outros desterrados e em geral foram pobres".

Distinções

Em verdade, Elías de Tejada se limita a falar de tradicionalismo espanhol mais que hispânico. Porque este último conceito supõe uma extensão maior à atribuída por nosso autor, quando afirma: "Nós os carlistas, cremos em uma tradição elaborada por nossos maiores, não encarnada em um mito indemonstrável". Não é necessário ser muito sagaz para se aperceber que, ainda quando pudessem existir carlistas em outras latitudes, o carlismo como conditio sine qua non de tradicionalismo está limitado à Espanha. Isso nos obriga, os hispanoamericanos, a realizar também o esforço de explicitar nossa tradição. E para isso nada melhor que seguir distinguindo.

O tradicionalismo espanhol que tem suas fontes teóricas em Juan Donoso Cortés, Juan Vázquez de Mella e mais modernamente em Elías de Tejada, ao se definir antes que nada como carlista e monárquico possui uma marcada conotação política. Não só por seus autores emblemáticos - Donoso e Mella - políticos os dois, que dão o tom ao tradicionalismo espanhol senão que ademais no campo de sua meditação filosófica se ocupa primordialmente do "direito natural", disciplina com uma projeção política inquestionável.

Pelo contrário, o tradicionalismo hispanoamericano não é político senão cultural. Não é carlista nem monárquico. Nem mesmo pode sê-lo, dado que sua primeira manifestação política pode localizar-se nos movimentos criolos da Independência e sua oposição à monarquia espanhola. Porém cabe destacar que sua fonte de existência é muito anterior à primeira década do século XIX, nasce exatamente com o abraço colossal que se dão na luta e no leito ibéricos e americanos desde o momento em que Colombo pisou as praias de Guanahaní.

Para falar com precisão nosso tradicionalismo é metapolítico pois quer ser a explicitação das "figuras ou arquétipos" que gerou a América. O gaúcho, o montúbio, o ladino, o coya, o huaso, o cholo, o llanero, o charro, o borinqueño, etc., que sendo de genuína estirpe hispânica nos distinguem de Espanha e Portugal. Nem tão espanhol, nem tão índio diria Bolívar.

Este tradicionalismo tem teóricos em cada um de nossos países, em Argentina se destacam Sarmiento, Hernández e Lugones que explicitaram mais acabadamente a figura do gaúcho em seu contexto histórico-cultural. A eles devem se somar os "costumeiristas" como Justo P. Sáenz, Martiniano Leguizamón, Miguel Etchebarne, Carlos Villafuerte e tantos outros.

O mesmo se pode dizer de cada uma das vinte repúblicas e seus respectivos arquétipos que conformam essa Pátria Grande que é Iberoamérica.

Resumindo então, sustentamos que existem ao menos três tipos de tradicionalismos: o filosófico, fundamentalmente especulativo e a-histórico; o tradicionalismo espanhol vinculado ao carlismo e à monarquia espanhola e o tradicionalismo hispanoamericano que é metapolítico pois se funda na explicitação das figuras ou arquétipos gerados pela América.

01/03/2014

Julius Evola - As Duas Faces do Liberalismo

por Julius Evola


Resulta sumamente sintomático e humorístico o fato de que hoje em dia se repute o liberalismo como uma formação de direita quando em épocas anteriores os homens da direita viram a este como a um cuco, como a uma força subversiva e desagregadora da mesma maneria que na atualidade são considerados (também de parte dos mesmos liberais) o marxismo e o comunismo. Em efeito, a partir de 1848 o liberalismo, o nacionalismo revolucionário e a ideologia maçônica antitradicional aparecem na Europa como fenômenos estreitamente vinculados entre si e é sempre interessante revisar os antigos exemplares da publicação Civiltá Catolica para ver como esta se expressava em relação ao liberalismo daquela época.

Porém nós deixaremos de lado tal circunstância para fazer uma breve menção, necessária para nossos fins, com relação às origens do liberalismo. É sabido que tais origens devem ser buscadas na Inglaterra, e pode-se dizer que os antecedentes do liberalismo foram feudais e aristocráticos: há que fazer referência a uma nobreza local apegada a seus privilégios e suas liberdades, a qual, desde o Parlamento, tratou de se defender de qualquer abuso da Coroa. Logo disso, simultaneamente com o avanço da burguesia, o liberalismo se refletiu na ala Whig do Parlamento opondo-se aos conservadores, os Tories. Porém há que ressaltar que até então o partido desenvolvia a função de uma "oposição orgânica", mantendo-se firme a lealdade ao Estado, de modo tal que se pôde falar da His Majesty's most loyal opposition (a lealíssima oposição de Sua Majestade). A oposição exercia no sistema bipartidarista uma simples função de freio e de controle.

O fator ideológico de esquerda não penetrou no liberalismo senão em um período relativamente recente, e não sem relação com a primeira revolução espanhola, de modo tal que a designação originária dos liberais foi a espanhola, quer dizer liberales (e não liberals, como no inglês). E é aqui onde começa o declive. Deve-se ressaltar pois que o primeiro liberalismo inglês teve um caráter aristocrático: foi um liberalismo de gentleman, isso é um liberalismo de classe. Não se pensou em liberdades que qualquer um pudesse reivindicar indistintamente. Subsiste ainda hoje em dia na Inglaterra este aspecto sadio e no fundo apolítico do liberalismo: o liberalismo não como uma ideologia político-social, senão como a exigência de que, prescindindo da particular forma do regime político, o sujeito possa gozar de um máximo de liberdade, que a esfera de sua privacy, de sua vida pessoa privada, seja respeitada e seja evitada a intromissão de um poder estranho e coletivo. Desde o ponto de vista dos princípios este é um aspecto aceitável e positivo do liberalismo que deveria diferenciá-lo da democracia, posto que na democracia o momento social e coletivista predomina sobre o da liberdade individual.

Porém aqui nos encontramos também com uma mudança de direção, posto que um liberalismo generalizado e indiscriminado, ao assumir vestimentas ideológicas, se fundiu no continente europeu com o movimento iluminista e racionalista. Aqui alcançou o primeiro plano o mito do homem que, para ser livre e verdadeiramente si mesmo, deve desconhecer e rechaçar toda forma de autoridade, deve seguir tão somente a sua razão, não deve admitir outros vínculos mais além que os extrínsecos, os quais devem ser reduzidos ao mínimo, pois sem os quais nenhuma vida social seria possível. Em tais termos o liberalismo se converteu em sinônimo de revolução e de individualismo (um passo mais e se chega à idéia de anarquia). O elemento primário é visto no indivíduo, no sujeito. E aqui são introduzidas duas pesadas hipotecas sob a direção do que Croce denominou como a "religião da liberdade", porém que nós denominaríamos melhor como fetichismo da liberdade.

A primeira hipoteca é que o indivíduo já se encontra "evoluído e consciente", portanto capaz de reconhecer por si mesmo ou de criar qualquer valor. A segunda é que do conjunto dos sujeitos humanos deixados no estado de total liberdade (laissez faire, laissez aller) possa surgir de maneira milagrosa uma ordem sólida e estável: pelo que, teria que recorrer à concepção teológica de Leibniz da denominada "harmonia preestabelecida" (pela Providência), de modo tal que, para usar uma comparação, ainda que as engrenagens do relógio funcionem cada um por sua conta, o relógio em seu conjunto marcará sempre a hora exata. A nível econômico, do liberalismo deriva o "liberismo" ou "economia de mercado" que pode denominar-se como a aplicação do individualismo ao campo econômico-produtivo, afetado por uma idêntica utopia otimista em relação a uma ordem que nasce por si mesma e que é capaz de tutelar verdadeiramente a proclamada liberdade (bem sabemos aonde vai parar a liberdade do mais fraco em um regime de competição desenfreada e piratesca, tal como acontece em nossos dias não só entre indivíduos, senão entre nações ricas e pobres). O espetáculo que hoje nos mostra o mundo moderno é um cru testemunho do arbitrárias que sejam tais posições.

Chegados a este ponto podemos tirar algumas conclusões. O liberalismo ideológico nos termos recém explicados é evidentemente incompatível com o ideal de um verdadeiro Estado de Direita. Não se pode aceitar a premissa individualista, nem o rechaço fundamental por todo tipo de autoridade superior. A concepção individualista tem um caráter inorgânico; a suposta reivindicação da dignidade do sujeito se resolve, no fundo, em uma redução da mesma através de uma premissa igualitária e niveladora. Assim pois nos tempos mais recentes o liberalismo não teve nada que objetar ao regime do sufrágio universal da democracia absoluta, onde a paridade de qualquer voto, que reduz a pessoa a um simples número, é uma grave ofensa ao indivíduo em seu aspecto pessoal e diferenciado. Logo, em matéria de liberdade, se descuida a essencial distinção entre a liberdade em relação a algo e a liberdade para algo (quer dizer, para fazer algo). Tem muito pouco sentido se manifestar cioso em relação a primeira liberdade, da liberdade externa, quando não se sabem indicar ideais e fins políticos superiores em função dos quais o uso da mesma adquira um verdadeiro significado. A concepção básica de um verdadeiro Estado, de um Estado de Direita, é "orgânica" e não individualista.

Mas se o liberalismo, remetendo-se a sua tradição pré-ideológica e pré-iluminista, se limitasse a defender a maior liberdade possível da esfera individual privada, a combater toda intromissão abusiva ou desnecessária na mesma de poderes públicos e sociais, se o mesmo servisse de limite às tendências "totalitárias" em sentido negativo e opressivo, se defendesse o princípio de liberdades parciais (se bem o mesmo deveria defender também a idéia de corpos intermediários, dotados justamente de autonomias parciais, entre o vértice e a base do Estado, o que levaria diretamente ao corporativismo), se estivesse disposto a reconhecer um Estado omnia potens, mas não omnia facens (W. Heinrich), quer dizer que exerce uma autoridade superior sem se intrometer em tudo, a contribuição "liberal" seria sim mais positiva. Em especial se temos em conta a atual situação italiana, poderia ser também positiva a separação, propugnada pelo liberalismo ideológico, da esfera política em relação a eclesiástica, sempre que isso não significa a laicização materialista da primeira. Não obstante aqui se encontraria um obstáculo insuperável, posto que o liberalismo tem uma fobia por tudo o que pode assegurar à autoridade estatal um fundamento superior e espiritual e professa um fetichismo pelo denominado "Estado de Direito": quer dizer, um Estado de legalidade abstrata, como se a legalidade existisse fora da história, e como se o direito e a constituição caíssem do céu e com caráter de irrevogabilidade.

O espetáculo da situação à que conduziu a partidocracia neste regime de massas e de demagogia deveria nos fazer refletir em relação à antiga tese liberal (e democrática) de que o pluralismo desordenado dos partidos seja garantia verdadeira de liberdade. E em relação à liberdade reivindicada a qualquer preço e em qualquer plano, por exemplo no da cultura, seria necessário fazer hoje em dia uma série de precisões oportunas, se é que não se quer que tudo vá à deriva de forma acelerada. Hoje em dia se pode ver muito bem de que coisas o homem moderno, convertido finalmente em "adulto e consciente" (de acordo ao liberalismo e à democracia progressista) se tornou capaz nos últimos tempos com sua "liberdade", a que muitas vezes foi a de produzir sistematicamente bacilos ideológicos e culturais que estão levando à dissolução a toda uma civilização.

Porém em relação a isso o discurso seria demasiado longo e nos retiraria do marco de nossa análise. Supomos que com essas notas, ainda de uma maneira extremamente resumida, foi posto em evidência desde o ponto de vista da Direita tudo aquilo que de positivo e negativo possa nos apresentar o liberalismo.