23/05/2011

A Direita Moderada e o Sistema


 por Didier Lefranc

Se o conjunto do establishment político faz prova da sua impotência para enfrentar os desafios do presente, a eficiência da «direita estabelecida» surge, ao longo do tempo, menor do que a da esquerda, que, ela ao menos, conseguiu transformar a sociedade conforme a sua ideologia (exemplo: impor a sua ideologia penal ou pedagógica) enquanto a direita permaneceu, na segunda metade do século XX, abalada pelos acontecimentos e pelas correntes ideológicas. Isso deve-se principalmente ao facto de que a direita adopta em geral um comportamento menos político que a esquerda.

Ao contrário da esquerda, que sempre procurou demarcar-se da direita (mesmo quando esta última se tornou, na realidade, apenas mítica) a «direita estabelecida» sempre procurou o compromisso com as ideias de esquerda. É o «complexo de direita» próprio dos «moderados» que remonta ao pacto político da Libertação: A direita não é tolerada senão com a condição de adoptar os valores da esquerda e de se refugiar na gestão. Caso contrário é diabolizada e reenviada para o inferno do fascismo e da colaboração (hoje em dia do «populismo»).


A «direita estabelecida» foi incapaz de sair desta prisão no último quarto do século XX, em particular porque ela não se preocupou suficientemente com as questões ideológicas. Isso conduziu-a a vários erros estratégicos:

1-Recusar o conflito de valores com a esquerda e, em consequência, não ter delineado uma estratégia de fundo, isto é, contestar a esquerda no plano das suas finalidades e não somente dos meios que ela utiliza.

Isto traduziu-se no facto de a «direita estabelecida» ter adoptado o essencial do vocabulário da esquerda, o que representa a adesão aos seus valores( exemplo: luta contra a «exclusão», contra as «discriminações», pelos «sem-papéis», etc.); a direita está assim afectada pelo mimetismo ideológico e portanto pela incapacidade estratégica. Desta forma tornou-se incapaz de toda a ruptura com o «sistema», por causa da conivência ideológica.

A direita, ademais, aliou-se à dominação dos valores mercantis, dominação à qual estamos sujeitos desde o fim do século XX. Mas o facto de se ter, em parte, ligado ao discurso neo-liberal( isto é, à ideologia do mercado e dos direitos do homem) não a conduziu minimamente à emancipação da tutela ideológica da esquerda: porque esta ideologia neo-liberal vincula-se ao mito igualitário de outra maniera (é preciso não esquecer que a ideologia do Maio de 1968 serviu de «quebra-gelo» ao neo-capitalismo deslegitimando todas as instituições que poderiam ser obstáculo ao triunfo dos valores mercantis: que é a única verdadeira revolução da segunda metade do século XX). É o que explica também que a esquerda tenha aderido ao mercado na segunda metade do século XX.


Adoptando em parte a ideologia dos proponentes do neo-capitalismo, que afirmam que a função de regulação do poder político é sempre menos eficaz que a do mercado e que o único futuro das sociedades humanas é o da abolição das fronteiras, desenvolvimento do comércio e triunfo das democracias de mercado de modelo anglo-saxónico (cf.Francis Fukuyama e o pretenso «fim da história») a direita não parou de perder a sua identidade.

De facto, o que continuamos, por comodidade, a chamar direita, nos media ou nas sondagens, tomou uma forma pouco diferenciável da esquerda, recentrada ao mesmo tempo sobre a economia de mercado. De resto, um homem político «de direita» não é hoje:

- Alguém que diz tudo e o seu contrário porque procura sempre uma aprovação da esquerda?
- Que não respeita os compromissos assumidos perante o seu eleitorado?
-Que cita sempre homens de esquerda em defesa das suas propostas?

2-Distanciar-se do povo: enquanto a base sociológica da esquerda se pulverizava à medida que reduzia o emprego industrial, a direita mostrou-se incapaz de elaborar uma estratégia de substituição. Pior, acabou por adoptar a estratégia anti-popular da esquerda, preferindo apostar numa lógica de nichos, de fracções e de minorias de opinião (ao contrário da estratégia «gaulista» de agregação): os árabes, os homossexuais, etc.

A direita instituída aliou-se claramente a esta estratégia e privou-se assim de poder apelar ao povo para superar os bloqueios do sistema. Ela encontra-se, de facto, sempre em situação de inferioridade face a uma esquerda que continua a dispor de numerosos esteios (organizações sindicais e associativas, media), mesmo se em declínio.

O establishment, primeiro à esquerda depois à direita, veio assim a desconfiar do «político» depois que se apercebeu que o povo se arriscava a votar «mal», isto é, a votar nos partidos «populistas».


Por que vota o povo mal? Porque o sistema é cada vez mais disfuncional e porque é principalmente o povo, e não o establishment, que paga o custo.

Claramente, a despolitização tornou-se um objectivo estratégico do sistema institucional; este procura promover um povo e consumidores dóceis que não se revoltem contra o sistema (o desporto de massas é uma invenção do século XX que visa o mesmo objectivo – cf. O filme «Rollerball», de Norman Jewison -: substituir a paixão política para a neutralizar; veja-se também o papel da música, o ruído mediático e a ideologia da comunicação: reduzir o espaço do silencio individual significa reduzir o espaço de reflexão que poderia ser propício à revolta).

No plano metapolítico esta estratégia viu-se instrumentalizada na ideologia da libertação individual (libertação dos costumes provocada pela ruptura cultural do Maio de 1968). Porque esta ideologia é encorajada pelo establishment: com efeito, em troca do «direito» a dar livre curso às suas pulsões individuais e hedonistas os indivíduos perdem progressivamente, na realidade, os seus poderes colectivos. Isto traduz-se nomeadamente na perda dos atributos da cidadania e da soberania.

(…) Daí também o desprezo pelo povo enquanto tal no discurso do establishment de direita como de esquerda: O desprezo do «populismo» exprime a recusa do establishment em conduzir uma política que considere o povo como uma entidade orgânica (conformemente à doutrina mercantil e ao dogma igualitário: não existem senão indivíduos e átomos sociais cambiáveis). Podemos também juntar a isso a moda do «arrependimento» e do dever de memória «das horas sombrias da nossa História» na qual o establishment parece deleitar-se: porque é sempre a nação que é julgada, nunca o establishment (que faz o papel de procurador).


É por isso que passámos do «tudo é político» dos anos 60 a uma despolitização das questões societais e inclusive a uma vontade deliberada de recusar todo o verdadeiro debate político( cf. A segunda volta das eleições presidenciais francesas de 2002: a recusa de Jacques Chirac em debater com J.-M. Le Pen; esta recusa de uma confrontação ritualizada é impolítica por natureza).

Resulta disto uma crise maior do sistema político que, por outro lado, é um factor de impotência colectiva.

Porque a impotência política permite também que o sistema fuja do confronto político transparente e se esforce por não submeter nada mais de crucial ao julgamento do povo. É o que lhe permite conduzir imperturbavelmente políticas que o povo não apoia. O sistema político não desempenha senão marginalmente o seu papel de impulsionamento, regulação e de sanção. É de resto por esta razão que o establishment político se mantém apesar do seu fracasso global; é o seu único verdadeiro sucesso duradouro: ter-se transformado numa máquina de conservação do poder mas que não o exerce ao serviço da sociedade.

22/05/2011

Entrevista com Alain de Benoist

por Alexandre Latsa

Alain de Benoist, bom dia e obrigado por aceitar responder a estas questões. Pode sintetizar o seu percurso muito variado na cena intelectual e filosófica francesa?
Não se resume em algumas linhas um itinerário intelectual de meio século. Sou escritor, jornalista e também filósofo. Tenho bastante obra publicada, tanto em França como no estrangeiro. Dirijo igualmente duas revistas que criei, uma (Nouvelle Ecole) em 1968, a outra (Krisis) em 1988. Os meus domínios preferenciais são a história das ideias e a filosofia política. Não pertenço a qualquer partido ou movimento político, e não desejo pertencer a nenhum. Na época de transição que constitui o nosso actual horizonte, tento desempenhar da melhor forma possível o papel que todo o intelectual digno do seu nome deve assumir: compreender e fazer compreender melhor o mundo em que vivemos.

Qual é a sua opinião acerca do actual panorama políticoa francêsa? Thierry Meyssan afirmou recentemente numa entrevista que "Sarkozy não é de direita nem de esquerda, mas queria fazer como os yankees". Pensa que o futuro político das sociais-democracias europeias passa pelo modelo americano, do tipo "dois candidatos eleitos em primárias (ilusão de democracia) que defendem globalmente as mesmas ideias"?
Que os candidatos se apresentem às eleições sejam ou não designados previamente pelas «primárias», parece-me um detalhe completamente desprezável. A actual cena política francesa, como a maior parte das cenas políticas ocidentais, é uma cena pré-codificada. Isso significa que os únicos que têm possibilidade de aceder ao poder são aqueles de quem se sabe previamente não terem qualquer intenção de mudar (ou tentar mudar) os fundamentos de uma sociedade actualmente totalmente dominada pela ideologia comercial. Desse ponto de vista, não há hoje qualquer alternativa. A alternativa foi substituída pela alternância, tendo como consequência uma decepção permanente das massas populares, uma crise generalizada da representação e um fosso que não para de crescer entre o povo e a nova classe político-mediática.

Já que tem um grande conhecimento político, vou levantar o tema dos extremos no nosso país: tem-se frequentemente a impressão que a FN (Frente Nacional) não é mais do que um balão (para uma grande maioria de eleitores frustrados) constituído por "um grande vazio" (ausência de programa económico claro, tomadas de posição geopolítica contraditórias, incapacidade de gerir autarquias, etc.) mas mantida unida e em posição de força pelo seu presidente, Jean Marie Le Pen. Enquanto se desenham novas linhas políticas no interior do próprio movimento nacional (Soral apostando num soberanismo azul-branco-vermelho e no anti-sionismo, ou pelo contrário os identitários anti-jacobinos e euro-regionalistas), como vê o pós-Le Pen? A extrema-esquerda parece igualmente em reestruturação, depois do desmoronamento do PC (Partido Comunista) e a não penetração da LCR (Liga Comunista Revolucionária), PT e LO (Luta Operária) e o aparecimento do NRA liderado por Drucker... Dir-se-ia que este movimento é totalmente incapaz de aproveitar a oportunidade que no entanto se oferece (precarização social, crise financeira, etc). Estarão estes dois "não acontecimentos" ligados, constituindo a "prova" da abstenção total de oposição ao "sistema" (os partidos liberais da situação)?
A Frente Nacional obteve um certo sucesso no passado graças à soma de dois eleitorados bastante diferentes: um eleitorado popular, principalmente operário, e um eleitorado proveniente das camadas médias e inferiores das classes médias e da pequena-burguesia. Esse segundo eleitorado deixou de apoiar Le Pen durante a eleição presidencial de 2007 para se juntar a Nicolas Sarkozy. Está hoje desiludido, mas isso não o leva a regressar à FN. Esta última, por seu lado, nunca aprendeu a lição do seu sucesso junto das classes populares. Os trabalhadores estão incrivelmente ausentes das instâncias dirigentes. O aproveitamento do partido, a sua banalização na paisagem política, a idade do seu líder, as suas divisões permanentes, explicam a estagnação actual. O período pós-Le Pen tem grande probabilidade de ver a FN dividir-se definitivamente em duas partes, subsequencialmente marginalizadas.
A extrema-esquerda beneficia, num contexto de crise social agravada, do espaço aberto pela aproximação do Partido Socialista à sociedade de mercado e pela social-democratização do PC, que já não é hoje um fantasma. Mesmo nesse contexto, no entanto, não marca tantos pontos como se esperaria. A razão principal baseia-se no povo não se reconhecer nas suas tomadas de posição. A esquerda radical, em particular, evita constantemente acusar o patronato de fazer dos imigrantes um exército de reserva do capital, que permite a redução dos salários dos autóctones. É por essa razão que Olivier Besancenot (líder da LCR), para citar um exemplo, tem um sucesso mediático que não se verifica nas urnas. O poder estabelecido utiliza, para além disso, Besancenot e os seus amigos para dividir a esquerda, da mesma forma que François Mitterrand utilizou a Frente Nacional para dividir a direita. Voltamos, por isso, à mesma constante: o povo não dispõe actualmente de nenhum partido no qual possa reconhecer-se.

Falamos da esquerda e da direita radical, que se entregam frequentemente à retórica anti-europeia ou soberanista. Esta palavra faz sentido numa época de mundialização? A França tem alguma hipótese de sobreviver (demograficamente, culturalmente, economicamente) sem a Europa? Qual é para si o futuro das nações europeias?
Os soberanistas são pessoas muito simpáticas, com quem partilho certas posições (no que diz respeito aos EUA ou à burocracia de Bruxelas, por exemplo), mas ainda não compreenderam que os tempos mudaram. O Estado-nação, que foi a forma política privilegiada durante a modernidade, entrou numa crise irreversível. Hoje é ultrapassado por cima (pela subida das influências planetárias) e por baixo (a emergência das redes e comunidades, o localismo, as exigências quotidianas dos cidadãos). O futuro não está mais nos Estados nacionais, mas nas grandes uniões continentais, cadinhos de cultura e civilização, as únicas formas capazes de regular a mundialização e de construir pólos activos num mundo multipolar.

Assistimos actualmente no mundo a uma espécie de renascimento de grandes espaços na Ásia (China, Índia), no mundo muçulmano (Turquia, União Pan-Africana), na Eurásia (Rússia), na América do Sul (Brasil, Venezuela). O corolário desse renascimento é o enfraquecimento do império Americano. Segundo este processo, quais as suas previsões para a próxima década? Pensa, como alguns, que existe um risco de "fuga para a frente" (deflagração de guerras) ou, pelo contrário, acha que estamos apenas no início de um processo quase inevitável: o mundo multipolar (caótico ou nem por isso)?
A grande questão passa, de facto, por saber se nos encaminhamos hoje para um mundo unipolar, dominado pela hiperpotência americana, ou para um mundo multipolar, um pluri-versum, articulado, como acabo de dizer, em torno de diversos blocos civilizacionais. Acredito, pessoalmente, que nos dirigimos, felizmente, para um mundo multipolar onde os países emergentes, como a Índia, a China e o Brasil, desempenharão um papel cada vez mais importante. Um tal mundo não será necessariamente instável, já que a ordem geral das coisas não será posta em causa. As leis da geopolítica determinam efectivamente as linhas de fractura e os desafios futuros. O grande conflito é o que opõe, estruturalmente por assim dizer, a potência do Mar (Estados Unidos) e a potência da Terra (o continente euroasiático). Nessa perspectiva, a Rússia desempenha um papel particular, porque corresponde àquilo a que os geopolíticos chamam de Heartland, ou seja, o coração do continente eurasiático.

Paradoxalmente a esse renascimento dos espaços, a Europa parece incapaz de se unir politicamente. As divergências parecem tão fortes que Aleksandr Dugin descreve-as no seu blogue como uma oposição entre a "velha Europa" (continental) e a "nova Europa" (atlantista). Qual a sua opinião?
A impotência da União Europeia não se explica unicamente pela oposição que descreve, apesar de ela ser bem real. Como partidário da construção europeia, não deixo de constatar que a Europa, desde o início, tem sido construída ao contrário da lógica. Tem dado permanentemente prioridade ao comércio e às finanças em vez da política e da cultura. Edificou-se sem legitimidade democrática - sem que algum povo tenha sido consultado - e a partir do alto (a Comissão de Bruxelas, que se autoproclama omnicompetente) em vez de se construir a partir da base, no respeito ao princípio da subsidiariedade (ou das competências suficientes). Em lugar de procurar aprofundar as suas estruturas políticas, preferiu alargar-se apressada e imprudentemente a países que estavam apenas preocupados em beneficiar da estabilidade monetária da União e em colocar-se sob o guarda-chuva americano, aderindo à NATO. Por fim, nunca esclareceu claramente quais os seus objectivos. Trata-se de fazer da Europa um grande mercado de fronteiras abertas, sucedendo-se a integração numa vasta zona de livre comércio euro-atlântico, ou pelo contrário, construir uma Europa-potência verdadeiramente autónoma, cujas fronteiras sejam rigorosamente determinadas pela geopolítica? É evidente que os dois modelos são totalmente opostos.

Têm soado apelos (de movimentos de extrema-esquerda e diversos intelectuais gaullistas) à integração da França na Organização para Cooperação de Xangai (organismo internacional de defesa composto essencialmente por países asiáticos). Na sua posição de crítico do regresso da França ao comando da NATO, que opinião tem sobre este tema?
Não tenho opinião formada sobre esse ponto. A NATO é uma organização defensiva criada no contexto da guerra fria. Não tem qualquer razão de existir após o desmoronamento do sistema soviético. Devia ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia. Em vez disso, essa organização totalmente controlada pelos EUA desenvolveu-se como uma espécie de clube ocidental americano-centrado, com capacidade de intervir em qualquer lugar do globo.
Nesse contexto, a decisão da França de reintegrar as estruturas da NATO, de onde o general De Gaulle a tinha feito sair em 1966, é mais do que uma falta: é ao mesmo tempo uma traição e um crime. Em todo o caso, a participação francesa na Organização para Cooperação de Xangai não é mais que uma hipótese teórica. A questão, neste caso, é saber se o grupo de Xangai tem uma vocação meramente regional, ou mais vasta. O meu desejo seria antes ver constituir-se, inicialmente pelo menos, uma organização europeia de defesa digna desse nome, e como tal, inteiramente independente da NATO. No entanto, neste momento, não é mais do que um desejo vago.

Numa época de crise financeira, todo o mundo diz que "pode ser" que a globalização liberal tenha "estourado", e que o modelo ocidental para a humanidade não é o "melhor". Do seu ponto de vista, "de onde" virão os novos modelos civilizacionais, filosóficos e económicos?
A crise financeira mundial deflagrada nos Estados Unidos no Outono de 2008 abriu sem dúvida os olhos a um certo número de pessoas. Mas essa crise, que está longe de terminada, não será provavelmente suficiente para fazer emergir um sistema alternativo. Os novos modelos surgirão quando o sistema actual estiver verdadeiramente no seu limite, sem que se possa saber especificamente quais as formas que daí surgirão. Ainda que as coisas se possam processar muito rapidamente, há ainda bastante por fazer para "descolonizar" os espíritos, tanto que os contemporâneos tomaram o hábito de viver num sistema da mercadoria, governado pela dialéctica da posse. Toda a modernidade foi tomada pela ideologia do progresso, os recursos naturais foram considerados ao mesmo tempo gratuitos e inesgotáveis, mesmo que não sejam nem uma coisa nem outra. A verdade é que um crescimento material infinito é impossível num mundo finito. Quando o compreenderem plenamente, poderão talvez sair da obsessão económica e dessa ideologia utilitarista que constitui um dos principais corolários do universalismo ocidental (o qual, como qualquer universalismo, não é mais do que um disfarce de etnocentrismo).

É tido como uma referência da geopolítica, nomeadamente junto do movimento eurasiático de Aleksandr Dugin, que é bastante elogioso a seu respeito. Podemos falar disso? O que pensa que as teorias Eurasiáticas podem trazer à Europa e a França?
Tenho grande amizade e admiração por Aleksandr Dugin, pela sua cultura, a sua coragem, a sua capacidade de trabalho, a amplitude da sua obra e a grande continuidade dos seus esforços. Deve-se-lhe a actualização do pensamento dos primeiros teóricos eurasiáticos e de ter demonstrado a actualidade dessa linha de pensamento. Soube também confrontar, para fazer uma síntese sugestiva, acervos ideológicos por vezes diferentes. Deu à geopolítica uma dimensão espiritual que lhe faltava. Sigo o seu trabalho com muita atenção. Quanto às teorias eurasiáticas, podem trazer muito, não só à Europa e à França, mas também aos habitantes de outros continentes, se considerarmos que para além da Eurásia geográfica, permite encarar um novo "Nomos da Terra" constituído segundo a ideia de diversidade, autonomia dos povos, democracia participativa e primazia dos valores não comerciais.

Para os franceses e europeus, as grandes preocupações do futuro são a plausível liderança económica da China e a explosão demográfica das populações muçulmanas, nomeadamente no interior da Europa. De que forma analisa a (in)compatibilidade destes elementos?
A China foi obviamente chamada a desempenhar um papel de primeiro plano no século XXI, mas é demasiado cedo para dizer que exercerá uma verdadeira "liderança económica". A China inscreve tradicionalmente a sua acção num quadro a longo prazo. O seu modelo não está isento de contradições, e deverá debater-se com numerosas dificuldades interiores (não serão apenas as disparidades entre as suas regiões e os seus meios sociais). No plano geoestratégico, espero ver a China associada ao continente euroasiático, mas ignoro a sua tendência natural ao "auto centrismo". No que diz respeito aos Estados Unidos, parecem hesitar entre diversas atitudes possíveis. Quanto à explosão das populações muçulmanas, é um facto real, mas que não deve ser sobrevalorizado. Na Europa, no espaço de uma ou duas gerações, os imigrantes adoptam os comportamentos demográficos locais. À excepção da África negra e da zona indo-paquistanesa, o crescimento demográfico tem vindo a abrandar um pouco por toda a parte. O verdadeiro problema está relacionado com a baixa natalidade dos países europeus, que cria uma baixa de pressão e se traduz por um envelhecimento da população.

Foi, durante muito tempo, uma das pontas-de-lança do GRECE. Que é feito do grupo actualmente?
O Grupo de Pesquisa e Estudos para a Civilização Europeia (GRECE) é uma associação cultural criada em 1969. Participei regularmente nas suas actividades, mas nunca ocupei um cargo dirigente. A associação continua actualmente o seu trabalho, em ligação com diversas universidades e intelectuais europeus.

Questão de ficção científica: como imagina o futuro do continente (Europa e Rússia) em... digamos, 2020?
Não é a minha tarefa prever o futuro, e não tenho imaginação para especular onde estarão a Europa e a Rússia em 2020. A história está sempre aberta, o que não significa que tudo seja possível. Naturalmente, é possível fazer cenários, mas a dificuldade começa quando queremos atribuir-lhes um coeficiente de probabilidade.

No último 24 de Março, registou-se o aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia. Há um ano, o Kosovo "tornou-se" um Estado independente. O que tem a dizer sobre estes acontecimentos? Qual é, a seu ver, o futuro do Kosovo?
O aniversário dos bombardeamentos de 1999 sobre a Sérvia desperta em mim a lembrança de uma grande cólera e de uma terrível humilhação. Cólera diante do dilúvio de contra-verdades e de mensagens difamatórias que então foram transmitidas pela imprensa ocidental contra o povo sérvio, humilhação de ter assistido ao primeiro bombardeamento de uma capital europeia pelos americanos desde o fim da última Guerra Mundial. A Europa revelou nessa ocasião uma triste verdade: impotente, quase paralisada, sem qualquer consciência dos desafios globais, objecto da história dos outros em vez de sujeito da sua própria história. Quanto ao Kosovo, observo que a sua proclamação de independência foi apoiada pelas mesmas potências que se recusaram a reconhecer a independência da Abkhazia ou da Ossétia do Sul: a Geórgia teve direito ao respeito da sua "integridade territorial", enquanto a Sérvia não teve esse direito. Isso dá uma ideia da lógica que prevalece actualmente na diplomacia internacional. Por agora, o Kosovo parece-me ser o primeiro Estado mafioso da História. Duvido que o seu futuro seja particularmente brilhante.

Poderia aconselhar-nos cinco obras essenciais, e cinco sítios ou blogues a consultar?
Não me sinto muito à vontade no universo dos blogues para recomendar aqueles que serão os melhores. Da mesma forma, sinto-me incapaz de enumerar "cinco obras-chave a ler". Quanto a obras-chave, há pelo menos várias centenas! Recomendo apenas a leitura de obras que ajudem a compreender o momento histórico que vivemos, e por outro lado os grandes clássicos do pensamento político e geopolítico cujos ensinamentos podem ainda ter valor actualmente, de Maquiavel, Hobbes e Rousseau até Max Weber e Carl Schmitt. Por último, sem dúvida por inclinação pessoal, diria que a compreensão das coisas supõe um mínimo de conhecimento filosófico. Heidegger, para dar um exemplo, desempenhou na minha formação um papel que ainda hoje subsiste.

Valor

"Pessimismo? Nada disso. No panorama vastíssimo das Histórias vão ficando, entre ruínas de todos os tipos, as memórias dos que souberam a frontar a realidade como era, difícil e dura. A dos que não disseram: se eu vivesse em tal época; se eu tivesse mais meios; se não me atrapalhasse isso ou aquilo.

Daqueles que sabendo que construíam para que talvez uma bomba ou um terremoto apagasse do solo até os menores traços de seu edifício, levantaram-no mesmo assim. Daqueles que, enfim, com seu grupo tomaram a posição que coube-lhes pela sorte, e seguiram adiante.

Corregedores, tenentes, cavaleiros, ascetas, santos, guerreiros: de tudo há nos vinhedos do Senhor. Todos arrastam sua debilidade, sua concupiscência, seu medo, sua dor, seus fracassos. Porém sabem que esta vida é meritória de outra melhor, a da honra e da fama que deixarão. E que se esta 'tampouco é eterna ou verdadeira', ao fim virá o descanso, a plenitude total, o triunfo pleno, no qual, morrendo se logra 'a posse total e perfeita de uma vida interminável'.

Nós tenentes, preferimos ir com nossos próprios pés e com as botas postas. Com esporas."
(Manuel Fraga Iribarne)




21/05/2011

Inúteis, mas cheios de opiniões

"O senhor não vê a facilidade com que toda a gente discute nos jornais e pelos cafés, sem que, por assim dizer, surja ninguém com colaborações sérias e valiosas que tanto seriam de agradecer? Duma maneira geral, não há, neste País, quem realize. Pensa-se e divaga-se com abundância e facilidade impressionantes, mas, chegados á hora das realizações serenas, das provas reais, poucos são os que resistem à seriedade grave dos problemas que pesam sobre o país".
(Antônio Oliveira Salazar) 




20/05/2011

O Fogo Criador


por Dante Sasmay
Wagner foi o filho heróico do seu tempo e também um “mago” visionário. Na sua tetralogia escreveria o começo do Mundo e a sua dissolução…e depois, o profundo simbolismo de um Parsifal ou um Lohengrin. A sua arte elaborava-se para a posteridade, por isso também lhe chamaria, à sua regeneradora concepção, a “arte do futuro”. Todo o herói ou heroína dos seus dramas aspirava a uma totalidade que, quiçá, só se encontrava no porvir. Como é o caso de Senta, a mulher pura, que redime o “holandês errante” no seu trágico e obscuro peregrinar pelas águas: "Senta já não é a guardiã doméstica, a outrora pretendida Penélope de Ulisses, senão a mulher em geral, mas não a mulher preexistente, antes a desejada, a ansiada, a mulher infinitamente feminina, para dizê-lo com uma só palavra: a mulher do porvir".

O génio transformou-se com o tempo num “deus” que foi capaz de reunir em si mesmo o artista total, o artista do futuro: músico, encenador, poeta, ensaísta e mágico. Quiçá isto, para além de outras causalidades, levou-o a aparentar-se com outro ser visionário, outro espírito acutilante daquele espantoso século XIX, Friedrich Nietzsche, que seria o seu grande amigo até à ruptura final.


O certo é que ambos foram influenciados pela fascinante leitura de Schopenhauer, convertendo-se este espírito tutelar no mestre de ambos. Assim escreveria Nietzsche da música e experiência wagneriana: "Esse mar schopenhaueriano de sons, cuja força mais secreta sinto, pela sorte de ser a minha experiência da música Wagneriana uma intuição jubilosa, um maravilhoso encontro comigo mesmo".

Wagner, o agitador político, o socialista revolucionário, e logo acérrimo nacionalista, o anti-semita, o destrutor do poder transfigurador da música, são frases cunhadas pelos seus detractores. Jamais um guerreiro no meio do caos poderia encontrar um caminho simples. Só o seu idealismo puramente alemão e a sua afinada vontade e obstinação lhe outorgariam a glória que conheceria nos seus últimos dias. No começo todos os seus projectos , retratados nos seus escritos políticos e estéticos, não seriam mais que belos sonhos do ocaso, mas só o trabalho férreo e a disciplina o levariam à realização do seu Opus.


Na sua figura e na arte confluem a totalidade ambicionada, o fim de todo o ideal. "Wagner pertence como músico aos pintores, como poeta aos músicos, como artista em geral aos actores, todos eles fanáticos da expressão a qualquer preço"(Nietzsche, “Para além de bem e mal”).

A sua arte já não seria a do burguês nem a do aristocrata, só a arte da nação, levando os elementos do “volk” alemão à sua mais alta expressão, para que assim esse povo pudesse ver-se divinamente reflectido, tal como sucedera com a Tragédia na antiga Grécia (…)

Talvez a sua arte seja também a nossa arte. Para esses outros que buscam e amam o eterno ele guardaria na primeira pedra do Teatro de Bayreuth, inscrito numa placa de cobre a seguinte legenda: "Aqui encerro um segredo, que descanse por muitos séculos, enquanto a pedra o guarde, revelar-se-á ao mundo".

19/05/2011

A Arte de Albrecht Dürer





















Julius Evola (1898 - 1974)

por Arnaud Guyot-Jeannin

Grande figura aristocrática da direita tradicionalista italiana, Giulio Césare Andréa Evola (que adoptará o prenome Julius por admiração pela Roma antiga), nasceu em Roma a 19 de Maio de 1898, no seio de uma família da pequena nobreza siciliana. Iniciando os estudos de engenharia, rapidamente renuncia para se consagrar às artes e ao estudo das grandes doutrinas filosóficas. Aos 16 anos, com o começo da primeira guerra mundial, Evola parte para a frente de combate para ocupar o posto de oficial de artilharia. Beneficia desses breves instantes de liberdade para estudar a obra de Nietzsche, Otto Weininger, Carlo Michelstaedter, sem esquecer os filósofos franceses (Blondel, Lagneau, Lachelier…). Terminada a guerra, frequenta, de forma apaixonada, diversos movimentos culturais italianos onde se misturam poetas, pintores, dadaístas… 

Ao período artístico (1915-1923) sucede-se o período filosófico (1923-1927). É desta forma que, em 1925, aparece o seu primeiro ensaio, «Ensaio sobre o idealismo mágico» seguido de «O Homem como potência», em 1926 (rebaptizado em 1949 como «O yoga tântrico», sobre o qual Marguerite Yourcenar dirá: “Comprei uma daquelas obras que durante anos nos alimentam e, até um certo ponto, nos transporta”). Evola consagra duas obras à sua visão antropológica do mundo: «Teoria do indivíduo absoluto» (1927) e «Fenomenologia do indivíduo absoluto» (1930). Entre ambas as publicações aparece «Imperialismo pagão» (1928). Obra violentamente anticristã, é editada no momento em que Mussolini e o regime fascista encetam fortes relações com a Igreja que culminarão com a assinatura dos acordos de Latrão, em 1929. Na sequência, e nomeadamente à luz da obra de René Guénon, Evola julga o «Imperialismo pagão» excessivamente anticristão, esperando que o mesmo não seja reeditado enquanto for vivo, apesar de continuar crítico pela ideia e pela atitude em relação ao cristianismo, sem por isso cair num anticlericalismo ridículo. Antes do aparecimento de «Imperialismo pagão», Evola já se tinha ilustrado na revista «Critica Fascista» de Giuseppe Bottai por um anticristianismo radical e um paganismo militante que não tinham agradado ao, muito oficial, «Osservatore Romano». Pelo contrário, o catolicismo medieval teve sempre o seu favor por ali encontrar uma espiritualidade heróica, solar, viril, integradora dos melhores elementos do antigo paganismo romano.

Director da revista «Ur» e posteriormente de «La Torre» integra-se num grupo de esoteristas: o Grupo de Ur. Pratica “magia operativa”, isto é, “a ciência experimental do eu”. É nestes anos que Evola começa a fazer as perigosas caminhadas de montanha. Torna-se rapidamente num alpinista de alto nível. «La Torre», largamente inspirada nas teses de Guido de Giorgio, autor da «Tradição Romana», cessa de aparecer em 15 de Junho de 1930 por ordem de alguns hierarcas fascistas, após a publicação de 10 números.

Mantendo o interesse pelo esoterismo Evola publica, em 1931, «A Tradição Hermética». Esta obra apaixonante é um estudo rigoroso sobre a corrente iniciática que se perpetuou na Idade Média, por detrás do paravento da procura alquímica.

Em 1932 surge o ensaio «Máscaras e rostos do espiritualismo contemporâneo» que denuncia o que Oswald Spengler chama “segunda religiosidade” e René Guénon “contra-iniciação”, isto é, espiritualidade de pacotilha (ocultismo de supermercado, seitas…). A teosofia, a antroposofia, o espiritismo e a psicanálise são passadas ao crivo da crítica evoliana: “Ler as obras espiritualistas, frequentar os cenáculos dos teósofos, meditar sobre o «hóspede desconhecido» de Maeterlinck, fazer energicamente os seus vinte minutos de meditação quotidiana, encher-se de fé na reencarnação que permitirá a cada alma prosseguir a sua evolução numa nova existência onde alcançarão os frutos do bom karma humanitário – tudo isto é, na verdade, um regime de auto-ajuda muito cómodo!” Um livro visionário!

Dois anos mais tarde (1934), a publicação mais importante do Barão Evola, «Revolta Contra o Mundo Moderno», provoca grande agitação. As reacções são muito mitigadas. Enquanto o filósofo hegeliano Giovani Gentile, historicista e fascista convencido – considerado como o filósofo do regime – emitia uma opinião hostil sobre a obra – por causa do pessimismo aristocrático que ali transparecia – o romeno Mircea Eliade fala de um livro importante e profético. O poeta alemão Godfried Benn, na época aderente do nacional-socialismo, felicita o autor e não hesita em declarar-se “transformado”. «Revolta Contra o Mundo Moderno» é um estudo crítico da modernidade julgada à luz dos princípios eternos da Tradição. O livro comporta duas partes. Uma que se propõe, “O mundo da Tradição”, a definir as categorias e princípios fundamentais e essenciais das sociedades tradicionais (a realeza, o símbolo polar, a Lei, o Estado e o Império, a virilidade espiritual, a iniciação e o sagrado, a cavalaria, as castas, a ascese…). A outra, “Génese e rosto do mundo moderno”, que desenvolve “uma metafísica da história fundamentada sobre a polaridade masculino-feminino”, tomando as palavras de Philippe Baillet, prefaciador, tradutor da reedição, e especialista incontestado de Julius Evola e do tradicionalismo integral. Esta parte expõe a doutrina “das quatro idades”, o antagonismo Tradição-Antitradição, nacionalismo-colectivismo, americanismo-bolchevismo. «Revolta Contra o Mundo Moderno» é uma obra de referência para aquele que quer romper definitivamente com o progressismo burguês.

O ano de 1937 é marcado pelo aparecimento de duas obras: «O Mistério do Graal» onde Evola estuda os principais fundamentos históricos da tradição gibelina e «O Mito do Sangue» que constitui uma antologia das teorias racistas. Quando estala a Segunda Guerra Mundial Evola instala-se em Viena. Em 1941 publica «Sínteses e doutrinas da raça» livro que tenta definir positivamente uma “raça do espírito” por oposição aos critérios biológicos da época. Aí afirma: “As raças puras, no sentido absoluto, não existem actualmente senão em raros indivíduos. Isso não impede que o conceito de raça pura seja tomado como um ponto de referência, mas em termos de ideal e de objectivo a atingir.” Estas ideias não agradam nada aos dirigentes do Partido Nacional Fascista e à revista «Diffesa de la Razza» – da qual o chefe de redacção é Giorgio Almirante, futuro Secretário-Geral do Movimento Social Italiano (MSI) – que exalta a “raça italiana” numa concepção estritamente biológica. Benito Mussolini declara-se em sintonia com as ideias de Evola. No entanto, a oposição do racismo evoliano (racismo do espírito) ao racismo biológico é ambivalente. Com efeito, através de alguns artigos do pós-guerra, Evola critica os povos da África negra, a mestiçagem racial e a negritude americana. A ambivalência provém do facto que Evola, segundo os textos e as circunstâncias, refere-se ora à Tradição Universal preconizada por pensadores da Tradição como René Guénon, Ananda Coomaraswamy ou Frihjof Schuon, ora unicamente à Tradição europeia. Se Evola tem razão em estigmatizar a indiferenciação, também devia, em coerência, desejar que os países do terceiro Mundo se preservassem da ocidentalização mercantil americanocentrada. Não só não faz isso como cai na armadilha de um etnocentrismo racial europeu que não tem a sua razão de ser numa filosofia tradicional onde se deve exaltar não a “espiritualidade para si” mas a “espiritualidade em si”. Universalidade oblige! No mesmo ano, a editora vienense Scholl, publica uma pequena obra, com uma conferência pronunciada em alemão por Evola, em 7 de Dezembro de 1940, no Palácio Zuccari, em Roma, com o título de «A Doutrina de Luta e de Combate pela Vitória».

Em 1943, junta-se à República de Saló, mais por fidelidade a Mussolini que por alinhamento ideológico. Nesse ano publica uma obra sobre a ascese budista, «A doutrina do despertar». Para ele, o budismo caracteriza-se por uma intensidade espiritual inultrapassável, uma vontade de poder, para retomar a expressão nietzschiana, levada ao paradoxo da metafísica conhecedora. Dois anos mais tarde, ainda em Viena, escapa por pouco à morte, durante um bombardeamento, ficando paralisado das duas pernas. Evola gostava de repetir frequentemente: “Nunca se esquivar e mesmo procurar o perigo quase no sentido de uma silenciosa interrogação do destino.”

Evola regressa a Roma em 1948. Em 1950 aparece «Orientações». Esta pequena e entusiástica obra, completada e rectificada por uma segunda edição em 1970, destina-se à juventude europeia. Os temas abordados são os mais variados: requisitório contra o primado da economia, condenação das democracias mercantis (Estados Unidos) e populares (União Soviética), crítica implacável do materialismo marxista-liberal, rejeição do nacionalismo, fidelidade à Ideia e, finalmente, adopção de um discurso tradicionalista elitista que visa a formação de um homem novo.

Sempre disposto a desempoeirar as ideias e a dar uma doutrina séria, rigorosa e sem concessões, aos jovens do MSI, Evola escreve, em 1953, «Homens entre as Ruínas», onde propõe uma doutrina de Estado baseada na ideia de organicidade. Este Estado orgânico está nos antípodas do individualismo liberal e do socialismo colectivista: “As hipóteses da acção revolucionária conservadora dependem essencialmente na medida na qual a ideia oposta, isto é a ideia tradicional, aristocrática e antiproletária, pode, também ela, juntar-se a este plano existencial para dar origem a um novo realismo e, agindo como «visão de mundo», modelar um tipo específico de antiburguês, substância celular das novas elites; para além da crise de todos os valores individualistas e irrealistas”. Se «Homens entre as Ruínas» teve uma grande influência na juventude de direita radical italiana, pelo contrário, não teve nenhuma incidência nas instâncias dirigentes do MSI, inclinadas que estavam numa esclerose passadista e romântica do fascismo histórico.

Em 1958 é publicado «Metafísica do Sexo». Evola estuda a função significativa do sexo masculino e feminino à luz das doutrinas tradicionais do oriente e do ocidente. A tese avançada por Evola é que o mundo moderno quebrou as verdadeiras potencialidades transcendentes do homem e da mulher. Trata de reabilitar-se a verdadeira metafísica do sexo, ou seja, reencontrar a unidade na diferenciação ontológica dos sexos e da verdadeira sexualidade. Argumentado sobre sólidas leituras que tratam da sexualidade – nomeadamente «Sexo e Carácter» de Otto Weininger –, «Metafísica do Sexo» representa uma das obras capitais de Julius Evola.

No início dos anos 60, aparece o livro pior compreendido de Evola: «Cavalgar o Tigre». Como muito bem escreveu o seu amigo Adriano Romualdi: “«Cavalgar o Tigre» é um breviário daquele que tem de viver num mundo que não é o seu sem se deixar influenciar por ele, seguro da sua invulnerabilidade”. Com efeito, Evola exprime a ideia segundo a qual não só é necessário impedir o tigre (forças de dissolução) de nos saltar para a garganta, mas também, estando montados sobre o animal, termos finalmente razão. Não se trata, portanto, para o “homem diferenciado” de fugir do perigo (tigre), mas de destemor (cavalgar) para o anular (domesticar). Evola predica um niilismo activo que tem pouco a ver com o possibilitismo reaccionário-conservador de «Homens entre as Ruínas». Marxismo, democratismo liberal, existencialismo, racionalismo, vitalismo prometaico, nacionalismo patrioteiro, feminismo emancipatório, jazz e música pop, crispação burguesa no casamento e na família moderna… são alguns dos temas que Evola estuda e crítica à luz dos ensinamentos doutrinais do pensamento tradicional.

As suas memórias autobiográficas são na realidade as memórias autobibliográficas, porque praticando “a impersonalidade activa” mostra-se pouco, aparecendo em 1963 sob o título de «O Caminho do Cinábrio». Ali evoca os seus vários livros, influências e encontros que o marcaram.

“O cinábrio é o sulfureto vermelho do mercúrio, composto no qual se reconhece os dois elementos de base da alquimia universal: o enxofre e o mercúrio (…). É por excelência a droga da imortalidade, se for vermelha (cor fausta e cor de sangue)” dizem-nos J. Chevalier e A Gheerbant.

Em 1964 aparece «O Fascismo visto da Direita, seguido de Notas sobre o Terceiro Reich»: Sem qualquer romantismo nostálgico e sentimentalista, esta crítica do fascismo não visa defendê-lo nem denegri-lo sistematicamente. Combatendo os ideais de 1789 em nome da grande tradição política europeia, Evola lamenta que o fascismo não se tenha inspirado nos princípios que teriam servido para a elaboração de uma verdadeira contra-revolução integral. O fascismo parece-lhe cheio de elementos burgueses, populistas, centralistas e totalitários. Recusa a ideia de um partido único que é, segundo ele, “um Estado dentro do Estado” e que não tem razão de existir num regime autenticamente antidemocrático. É preciso lembrar para a pequena história que Evola nunca pertenceu a nenhum partido e que, por causa disso, o seu pedido para ir combater o bolchevismo, na frente Leste, foi recusado. Evola mostra-se, também, muito crítico do materialismo biológico veiculado pelo nacional-socialismo.

Prosseguindo infatigavelmente o seu trabalho doutrinário, Evola escreve numerosos textos que serão posteriormente publicados sobre a forma de colectâneas de textos («Meditação do cimo dos cumes», «Escritos sobre a Franco-Maçonaria», «O Arco e a Clava», «Elementos para uma educação racial», «Ensaios Políticos»…). Falece em 11 de Junho de 1974, com 76 anos, no seu domicílio de Corso Vittorio Emanuele, em Roma. Um grande espírito tinha acabado de se apagar.

18/05/2011

Evola: de Mafarka a Mitra

por Jean-Marc Vivenza

Para muitos espíritos, o futurismo estaria numa posição absolutamente antitética em relação à Tradição europeia. O percurso de Julius Evola dá-nos, sobre esse assunto, uma resposta de uma singular recorrência contra os a priori e os pronto-a-pensar.
 
Julius Evola nasce em Roma a 19 de Maio de 1898 - no seio de uma família da nobreza rural pela parte do seu pai, Vincenzo e, durante toda a vida, ficará ligado a esta cidade onde morre em 14 de Junho de 1974. Este pensador representa hoje uma das maiores figuras da filosofia tradicional. Partindo das fontes da mais longínqua antiguidade indo-europeia, constituiu, através da publicação dos seus livros, de um dos mais violentos requisitórios contra a ilusão moderna e os seus mitos contemporâneos: «a igualdade», «o regime da quantidade» e «o materialismo».
  
Romano em todas as fibras do seu ser, é sob a protecção do Império que ele coloca todas as perspectivas do seu combate «contra o mundo moderno». Eterno gibelino ao serviço do Imperium de forma quase sacerdotal, faz da sua vida uma luta contínua, luta contra as forças do niilismo actual (ou idade do ferro, segundo uma expressão sua). Teorizando, de uma forma determinista, o desaparecimento inevitável de todos os valores e concluindo pela necessidade de um retorno ao caos original através de uma paróptica «final dos tempos», tempera o seu pessimismo com nuances de uma eventual esperança de endireitamento provisório e momentâneo. No entanto, se este pensamento parece à primeira vista, na sua estrutura interna, estranho à teoria da «excitação dinâmica da História», tão cara aos futuristas, é bom conhecermos o papel que exerceu sobre Evola a vanguarda do princípio do século XX e o lugar (pouco conhecido) que ele aí detinha e a influência que isso teve na sua reflexão posterior.


Um artista de vanguarda
  
É, primeiro, como pintor e como poeta que Julius Evola se exprime no quadro da actividade artística das vanguardas. Pondo-se em contacto com a revista futurista Lacerba, descobre os fundamentos de uma crítica radical do sistema burguês, o anti-democratismo, ao mesmo tempo que nasce, segundo alguns autores, o seu interesse pelos místicos alemães e a tradição esotérica.
  
Lembremo-nos que numerosos artistas futuristas introduzem-se na pesquisa profunda e concreta do pensamento oculto. Bastará citar o caso muito conhecido de Russolo de que a obra «Para além da matéria» é uma exposição magistral de esoterismo operativo, para nos convencermos da permanência de uma curiosidade instintiva desta escola de arte sobre este assunto.

É necessário saber que Evola, mesmo durante o período do movimento futurista, nunca deixou de manifestar interesse pelo pensamento tradicional. Com efeito, bastará ler o seu texto Arte abstracta para melhor compreendermos o mecanismo intelectual do jovem Evola.
  
Vejamos o que ele escreve: «A consciência abstracta, suporte da estética mais acabada, liga-se, de facto, a um outro plano (quase a outra dimensão) do espírito, o qual não tem nada a ver com o que se desenrola a vida quotidiana prática e sentimental até àquele que encontra um eco nos clamores da humanidade trágica. E a via que aí conduz é difícil e dolorosa porque, para a percorrer, é necessário queimar tudo o que habitualmente os homens consideram como a sua vida mais profunda e mais autêntica. Se, por acaso, nos perguntarem a que devemos comparar isto, encontraremos, talvez, em alguns místicos qualquer coisa de aproximativo: na interioridade silenciosa e glacialmente ardente de um Ruysbroek ou de um Mestre Eckhart, por exemplo. Uma lógica que não tem mais nada a ver com aquela que todos os dias rege este mundo: nele, as luzes mais banais como as mais gloriosas enfraquecem, à imagem das débeis vegetações subterrâneas; a vontade comum reina, como que ébria; as palavras tornam-se incompreensíveis como se pertencessem a uma língua estrangeira. Diríamos que toda a vegetação se desagrega como que sugada por uma extrema rarefacção, e renova com o caos elementar, seco e ardente, ardente e monótono. Mas, para aquele que penetrou totalmente na natureza da arte abstracta, parece que esta incoerência, esta loucura, não é mais do que aparência, por detrás da qual palpita, numa luminosidade metálica, o sentido da absoluta liberdade do Eu».

Esta descoberta da expansão virtual dos sentidos e da matéria desenvolve um estudo preciso destes novos estados de consciência, regidos por esta luminosidade metálica, que ele recebe daquilo que podia, e pode ainda, aparecer como arte informal, caótica e sem ordem.



Uma nova objectividade
As pinturas de Evola que foram, na totalidade, objecto de compra por parte dos museus italianos não serão estranhas aos familiares da obra ulterior.

Elas apresentam todos os sinais da presença simbólica. «Ali encontramos», diz Romualdi *, «a interioridade ardente que Evola menciona no seu ensaio L'Arte Astratta. Os globos, de um vermelho ardente ou de um verde magnético, como acetato de cobre incandescente, de uma luz irreal sob os céus devastados; os cilindros rodam como as fábricas de fogo na noite; as formas luminosas ascendem ao céu enquanto se formam nuvens inquietantes. É uma visão poderosa do elementar apanhado, por meio de uma linguagem de formas geométricas, num espaço invisível procedido do espaço visível (comparável à Hiper-urânia platoniana ou ao goetiano "mundo das mães").»
 
Quando examinamos os quadros de Evola (da mesma forma que outros testemunhos do futurismo), compreendemos porque o décor do mundo moderno pode ser adaptado por algumas elites que, deixando para trás os tarecos burgueses herdados do século XIX, marcham em passo rápido para uma neue sachlichkeit, uma nova objectividade que pensam encontrar no bolchevismo, no fascismo ou no nazismo. É a eles que se destinam as formulações de O Trabalhador ** de Jünger: "Ao menos, em certos resumos parciais, o século XX oferece já as linhas mais puras e mais seguras... Começamos a ver o sentido das altas temperaturas, os frios geométricos das luzes, a incandescência do metal. A paisagem torna-se mais fria e mais ardente, com ela desaparecem os últimos rastos das "delicadezas" e da "cordialidade que fala à alma".

De Mafarka a Mithra

 
Se prosseguirmos a nossa análise filosófica comparada, descobrimos, no coração dos princípios evolianos, o idealismo absoluto de inspiração hegeliana incarnada na exigência fundamental de uma «realização espiritual absoluta pela acção», paralelo evidente com o axioma da trindade futurista: ARTE, VIDA, ACÇÃO.
Da mesma forma, como não reconhecer o idêntico combate e uma vontade parecida entre o instintivo manifesto futurista de 1909, que termina pela célebre frase: «Hirtos no cume do mundo, lançamos uma vez mais o nosso desafio às estrelas!...», espécie de profissão de fé gnóstica e da consciente e reflectiva reactivação do culto de Mithra no pensamento evoliano: «O dominador do Sol, o matador do touro, o padrão de uma raça real regenerada na "Força Forte das Forças"».
Entre Apolo e Dionísio, a majestade doriana do vencedor pindárico encontra numa espécie de futurismo solar a «religião da Vida», a «religião do Devir» cara a Mafarka, promessa de eterno retorno.
Este telurismo dinâmico é o ponto de contacto entre as duas experiências. Futurismo e tradição. O próprio Evola convida-nos a «abolir o limite e o apoio que representa a visibilidade das coisas para nos pormos em contacto com as existências vertiginosas». O processo pelo qual a vida orgânica está agarrada na sua raiz profunda, sem apoio, arrancada à sua natureza... arrebatada para além de si ao longo de uma vida vertiginosa onde se alumia a ordem das diferentes forças cósmicas».
Em Evola, o ultrapassar do futurismo não se operou pela sua negação. Pelo contrário, sublinha a sua importância como resposta num tempo histórico num dado período e, nota o estranho desempenho que este tem no seu espírito e no desenvolvimento do seu pensamento.
 
A título de purificação

Presentemente, longe do maniqueísmo de fachada, é possível entender a utilidade, da forma que o próprio Evola a entendia, da necessária acção regeneradora que podem ter certos fenómenos criativos.


O convite que ele formulava para um «salto no brutal a título de purificação» é a exacta busca que, da via tradicional à disciplina do manifesto técnico futurista, exige do aluno ou do discípulo este rigor, esta contingência afim de atingir a mestria da sua arte, isto é, de si mesmo pela revelação da energia pura, numa espécie de metalurgia espiritual onde o metal vil é rudemente malhado afim de se tornar num ferro flamejante.
Esta ascese comum não deve escapar ao observador. As vias parecem diferentes, os caminhos comunicam.


Do futurismo à tradição, é o mesmo pensamento de ordem e o ultrapassar hierárquico pelo valor que se afirma. Exprime a permanência, através das épocas e das formas, de uma doutrina que extrai profundamente as suas raízes específicas da cultura indo-europeia.