16/12/2010

Degeneração

"Nos dois ou três primeiros mil anos de existência trepamos a uma certa altura de civilização; mas depois temos vindo rolando para baixo numa cambalhota secular.

O tipo secular e doméstico de uma aldeia Ária do Himalaia, tal como uma vetusta tradição o tem trazido até nós, é infinitamente mais perfeito que o nosso organismo doméstico e social. Já não falo de gregos e romanos: ninguém hoje tem bastante gênio para compor um coro de Ésquilo ou uma página de Virgílio; como escultura e arquitetura, somos grotescos; nenhum milionário é capaz de jantar como Lúculo; agitavam-se em Atenas ou Roma mais idéias superiores num só dia do que nós inventamos num século; os nossos exércitos fazem rir, comparados às legiões de Germânicos; não há nada de equiparável à administração romana; o boulevard é uma viela suja ao lado da Via Ápia; nem uma Aspásia temos; nunca ninguém tornou a falar como Demóstenes: — e o servo, o escravo, essa miséria da antiguidade, não era mais desgraçado que o proletário moderno."
(Eça de Queirós)

14/12/2010

O Espírito acima da Cultura

"É preciso deixar claro que para o homem de 'Direita' os valores culturais não gozam da condição excelsa à qual são elevados pelos escritores de formação racionalista. Para o verdadeiro homem de 'Direita', antes da cultura estão os valores genuínos do Espírito que encontram expressão no estilo de vida das verdadeiras aristocracias, nas organizações militares e nas tradições religiosas todavia vivas e operativas. Em primeiro lugar está um certo modo de ser, uma certa tensão frente alguma realidade, depois o eco dessa tensão sob a forma de filosofia, arte ou literatura.

Em uma civilização tradicional, em um mundo de 'Direita', em primeiro lugar se encontra o Espírito vivente e somente depois a palavra escrita.

Únicamente a civilização burguesa, nascida do ceticismo iluminista, poderia crer substituir o Espírito heróico e ascético pelo mito da cultura, pela ditadura des philosophes.

O democrata rende culto à problemática, à dialética, à discussão e transformaria de bom grado a vida em café ou em um parlamento. Para o homem de 'Direita', ao contrário, a investigação intelectual e a expressão artística alcançam sentido somente como comunicação com a esfera do Ser, com algo que, seja da maneira que for, não pertence ao reino da discussão mas sim da Verdade. O verdadeiro homem de 'Direita', é instintivamente um homo religiosus, mas porque mede seus valores não com a régua do progresso, mas sim com a da Verdade.

'Ser conservador - escreveu Moeller van den Bruck - não significa depender do passado imediato, mas sim viver dos Valores Eternos'.

A cultura e a arte de 'Direita' não podem pretender ser eles mesmos o templo, mas somente o vestíbulo do templo. A Verdade vivente está mais além.

Daí surge uma certa desconfiança do genuíno homem de 'Direita' frente à cultura moderna, um desprezo impessoal frente o vulgo de literatos, estetas e jornalistas. Recordem-se das palavras de Nietzsche: 'Uma vez o pensamento era Deus, depois tornou-se homem, agora se fez plebe. Mais um século de leitores e o Espírito apodrecerá, passará a feder.'"
(Adriano Romualdi)

13/12/2010

Filippo Tommaso Marinetti Escritor - Manifesto Futurista

por Filippo Tommaso Marinetti


20 de fevereiro de 1909

Havíamos velado a noite inteira, meus amigos e eu, sob lâmpadas de mesquita cujas cúpulas de latão perfurado são estreladas como nossas almas, porque como estas, são irradiadas pelo fulgor interno de corações elétricos. E pisoteando nossa acídia atávica sobre opulentos tapetes Persas, estávamos discutindo até os limites extremos da lógica e rabiscando o papel com escritos dementes.

Um orgulho imenso intumenscia nossos peitos, pois nós nos sentíamos completamente solitários, naquela hora, despertos e eretos, como faróis soberbos ou como sentinelas avançadas, diante do exército de estrelas inimigas, que olhavam furtivas de seus acampamentos celestes. Sós com os foguistas que se agitam diante dos fornos infernais dos grandes navios, sós com os negros fantasmas que remexem nas barrigas incandescentes das locomotivas atiradas a uma louca corrida, sós com os bêbados gesticulantes, com um certo bater de asas ao longo dos muros da cidade. 

Sobressaltamo-nos, de repente, ao ouvir o rumor formidável dos enormes bondes de dois andares, que passam chacoalhando, resplandecentes de luzes multicores, como as aldeias em festa que o Pó, transbordando, abala e arranca inesperadamente, para arrastá-las até o mar, sobre cascatas e entre redemoinhos de um dilúvio.

Depois o silêncio escureceu mais. Mas, enquanto escutávamos o extenuado murmúrio de orações do velho canal e o estalar de ossos dos palácios moribundos sobre as barbas de úmida verdura, nós escutamos, subitamente rugir sob as janelas os automóveis famélicos.

- Vamos, disse eu; vamos amigos! Partamos! Finalmente a mitologia e o ideal místico estão superados. Nós estamos prestes a assistir ao nascimento do Centauro e logo veremos voar os primeiros Anjos! Será preciso sacudir as portas da vida para experimentar seus gozos e ferrolhos!... Partamos! Eis, sobre a terra, a primeiríssima aurora! Não há que iguale o resplendor da espada vermelha do sol que esgrima pela primeira vez nas nossas trevas milenares!...

Aproximamo-nos das três feras bufantes, para apalpar amorosamente seus tórridos peitos. Eu estendi-me em meu carro, como um cadáver no leito, mas logo em seguida ressuscitei sob o volante, lâmina de guilhotina que ameaçava meu estômago.

A furiosa vassoura da loucura nos arrancou de nós mesmos e nos enxotou pelas ruas, íngremes e profundas como leitos de torrentes. Aqui e ali uma lâmpada doente, atrás dos vidros de uma janela, nos ensinava a desprezar a falaz matemática dos nossos olhos morredouros. Eu gritei: - O faro, o faro só basta às feras!

E nós, como jovens leões, perseguíamos a Morte, com sua pele preta maculada de pálidas cruzes, corria pelo vasto céu violáceo, vivo e palpitante.

Mas nós não tínhamos uma Amante ideal que erguesse até as nuvens sua sublime figura, nem uma Rainha cruel a quem oferecer nossos cadáveres, contorcidos como anéis bizantinos! Nada, para querer morrer, a não ser o desejo de livrar-nos finalmente de nossa coragem demasiado pesada! E nós corríamos, esmagando nas soleiras das portas os cães de guarda que se arredondavam embaixo do ferro de passar roupa. A Morte, domesticada, ultrapassava-me em cada curva, para oferecer-me a pata com graça, e de vez em quando se estirava no chão, com um barulho de maxilares estridentes, enviando-me, de cada poça, olhares aveludados e acariciantes.

- Saiamos da sabedoria como de uma casca horrível, e atiremo-nos, como frutos apimentados de orgulho, dentro da boca imensa e retorcida do vento!... Entreguem o-nos como pasto ao Desconhecido, não por desespero, mas somente para encher os profundos do Absurdo! 

Mal tinha pronunciado essas palavras, quando virei bruscamente sobre mim mesmo, com a mesma embriaguez insensata dos cães que querem morder a cauda, e eis que de repente vejo dois ciclistas que vêm ao meu encontro, titubeando como dois raciocínios, ambos persuasivos, apesar de contraditórios.

Seu estúpido dilema discutia sobre o meu terreno...

Que chateação! Arre!... Cortei o assunto, e, de desgosto, atirei-me de rodas para cima num fosso...

Oh! fosso materno, quase cheio de água barrenta!

Lindo fosso de oficina! Eu saboreei avidamente tua lama fortificante, que me lembrou a santa mama preta de minha ama sudanesa...

Quando me levantei - trapo sujo e malcheiroso - debaixo do carro virado, senti o coração perpassado, deliciosamente, pelo ferro incandescente da alegria!

Uma multidão de pescadores armados de vara e de naturalistas podágricos tumultuava em volta do prodígio. Com cuidado paciente e meticuloso, aquela gente preparou altas armaduras e enormes redes de ferro para pescar meu carro, parecido com um grande tubarão encalhado. O carro emergiu lentamente do fosso, abandonando no fundo, como escamas, a sua pesada carroçaria de bom senso e o seu fofo acolchoado de comodidade.

Pensavam que tivesse morrido o meu lindo tubarão, mas uma carícia minha bastou para reanimá-lo, e ei-lo ressuscitado, ei-lo correndo novamente, sobre suas poderosas nadadeiras!

Então, como rosto coberto da boa lama das oficinas, mistura de escórias metálicas, de suores inúteis, de fuligens celestes - nós, contundidos e de braços enfaixados mas impávidos, ditamos nossas primeiras vontades a todos os homens vivos da terra:

Manifesto do Futurismo

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e da temeridade.

2. A coragem, a audácia, a rebelião serão elementos essenciais de nossa poesia.

3. A literatura exaltou até hoje a imobilidade pensativa, o êxtase, o sono. Nós queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, o passo de corrida, o salto mortal, o bofetão e o soco.

4. Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.

5. Nós queremos entoar hinos ao homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada também numa corrida sobre o circuito da sua órbita.

6. É preciso que o poeta prodigalize com ardor, fausto e munificiência, para aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.

7. Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostar-se diante do homem.

8. Nós estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveríamos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo no absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente.

9. Nós queremos glorificar a guerra - a única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos libertários, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo pela mulher.

10. Nós queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de toda natureza, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o vôo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.

É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.

Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.

Museus: cemitérios!... Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas!

Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados... Passe. Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo...

Mas não admito que se levem a passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer?

E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de criação e de ação.

Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?

Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!...) é para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá: - o admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado... Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!

E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!... Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!... Oh! a alegria de ver booiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!

12/12/2010

Alexander Dugin - Metafísica do Nacional-Bolchevismo

por Aleksandr Dugin


1. A definição adiada

O termo "Nacional-Bolchevismo" pode significar várias coisas completamente diferentes. Ele surgiu praticamente ao mesmo tempo na Rússia e na Alemanha para significar as suposições de alguns pensadores políticos sobre o caráter nacional da revolução bolchevique de 1917, escondido na fraseologia marxista ortodoxa internacionalista. No contexto russo "nacional-bolcheviques" era um nome comum para os comunistas, que tentaram proteger a integridade do Estado e (conscientemente ou não) continuaram a grande missão geopolítica histórica russa. Os nacional-bolcheviques russos, tanto entre os "brancos" (Ustrialov, Smenovekhovtsy, Eurasianos de Esquerda) e entre os "vermelhos" (Lenin, Stalin, Radek, Lezhnev etc) (1) Na Alemanha, o fenômeno análogo foi associado com formas extremamente esquerdistas de nacionalismo dos 20s-30s, em que as idéias do socialismo não-ortodoxo, a Idéia Nacional e uma atitude positiva em relação a União Soviética foram combinados. Entre os nacional-bolcheviques alemães Ernst Niekiesch foi sem dúvida o mais consistente e radical, embora alguns revolucionários conservadores também possam ser referidos a este movimento, tais como Ernst Jünger, Ernst von Salomon, August Winnig, Karl Petel, Harro Schultzen-Beysen, de Hans Zehrera, os comunistas Laufenberg e Wolffheim, e mesmo alguns Nacional-Socialistas extremamente esquerdistas, tais como Strasser e, durante um determinado período, Joseph Goebbels.

Na verdade, o termo "nacional-bolchevismo" é muito mais extenso e profundo, que as tendências políticas listadas. Mas, para compreendê-lo adequadamente, devemos examinar os problemas globais mais teóricos e filosóficos, a respeito da definição de "direita" e "esquerda", do "nacional" e do "social". A palavra nacional-bolchevismo contém um paradoxo deliberado. Como podem duas noções mutuamente exclusivas serem combinadas em um único e mesmo nome?

Independentemente do quão longe foram as reflexões dos nacional-bolcheviques históricos, que certamente foram limitadas pelas especificidades conjunturais, a idéia de aproximação do nacionalismo a partir da esquerda, e do bolchevismo a partir da direita é extremamente fértil e inesperada, abrindo horizontes absolutamente novos de compreensão da lógica da história, do desenvolvimento social, e do pensamento político.

Não devemos começar a partir de uma coleção de fatos políticos concretos: Niekiesch escreveu isso, Ustrialov avaliou algum fenômeno de tal forma, Savitskiy apresentou tal argumento, etc, mas tentaremos olhar o fenômeno a partir de um ponto de vista inesperado: aquele mesmo que tornou possível a combinação “nacional” e “bolchevique”. Então nós seremos capazes não apenas de descrever este fenômeno, mas também de compreendê-lo e, com sua ajuda, muitos outros aspectos de nosso tempo paradoxal. 

2. A inestimável contribuição de Karl Popper

É difícil imaginar algo melhor para a difícil tarefa de definir a essência do "nacional-bolchevismo", do que uma referência às pesquisas sociológicas de Karl Popper, e especialmente à sua obra fundamental: "A Sociedade Aberta e seus Inimigos". Neste trabalho volumoso Popper propõe um modelo bastante convincente, segundo o qual todos os tipos de sociedade são divididos em dois tipos principais - "Sociedade Aberta" e "Sociedade Não-Aberta" ou "Sociedade dos Inimigos da Sociedade Aberta". Segundo Popper, a "Sociedade Aberta" é baseada no papel central de um indivíduo e nos seus principais traços característicos: a racionalidade, o comportamento do tipo passo-a-passo (discrição), ausência de teleologia global em suas ações, etc. O sentido de uma "Sociedade Aberta" é que ela rejeita todas as formas de Absoluto, que são não-comparáveis com a individualidade e sua natureza. Tal sociedade é "aberta" apenas por causa do simples fato de que as combinações de variedades "de átomos individuais não têm um limite (assim como qualquer propósito ou sentido) e, teoricamente, tal sociedade deve ter por objetivo a realização de um equilíbrio dinâmico ideal. Popper também considera-se como um adepto convicto da "sociedade aberta".

O segundo tipo de sociedade é definido por Popper como "hostil à sociedade aberta". Ele não o chama de "fechada", prevendo possíveis objeções, mas freqüentemente usa o termo "totalitária". No entanto, segundo Popper, apenas baseando-se na aceitação ou rejeição do conceito de uma "sociedade aberta" todas as doutrinas políticas, sociais e filosóficas estão classificadas.

Os inimigos da "Sociedade Aberta" são aqueles que, propõem (proclamam, apresentam) modelos teóricos variados (diferentes) baseados no Absoluto contra o indivíduo e seu papel central. O Absoluto, mesmo sendo instituído de forma espontânea e voluntária, de imediato se intromete na esfera individual, altera radicalmente o processo de sua evolução, viola (exercita coerção sobre) a integridade atomística do indivíduo, submetendo-o a algum impulso externo individual. O indivíduo é imediatamente limitado pelo Absoluto, portanto, a sociedade das pessoas perde a sua qualidade de "exposição (abertura)" e a perspectiva de desenvolvimento livre em todas as direções. O Absoluto dita os objetivos e tarefas, estabelece dogmas e normas, viola (compele) o indivíduo, como um escultor coage o seu material.

Popper inicia a genealogia dos inimigos da “Sociedade Aberta” com Platão, a quem ele considera como um dos fundadores da filosofia do totalitarismo e como o pai do "obscurantismo ". Além disso, ele passa por Schlegel, Schelling, Hegel, Marx, Spengler e outros pensadores modernos. Todos eles são unificados em sua classificação por uma indicação, que é a introdução à metafísica, à ética, à sociologia e à economia, com base em princípios, que negam a "sociedade aberta" e o papel central do indivíduo. Popper tem toda a razão neste ponto.

O mais importante na análise de Popper é o fato de que os pensadores e os políticos são colocados na categoria dos "inimigos da sociedade aberta", independentemente de suas convicções serem de "direita" ou "esquerda", "reacionárias" ou "progressistas". Ele acentua alguns outros critérios, mais substanciais e fundamentais, unificando em ambos os pólos idéias e filosofias que à primeira vista parecem ser os mais heterogêneos e opostos uns ao outros. Marxistas, assim como os conservadores e os fascistas, e até mesmo alguns social-democratas podem ser contados entre os "inimigos da sociedade aberta". Ao mesmo tempo, os liberais como Voltaire ou pessimistas reacionários, como Schopenhauer podem ser classificados entre os amigos da sociedade aberta.

Assim, a fórmula de Popper é assim: ou "sociedade aberta" ou "seus inimigos".

3. A Santa Aliança do objetivo

A definição mais feliz e completa do nacional-bolchevismo será a seguinte: "O nacional-bolchevismo é uma superideologia, comum a todos os inimigos da sociedade aberta". Não é apenas uma das ideologias hostis a tal sociedade, mas é exatamente a sua antítese plena e consciente, total e natural. O nacional-bolchevismo é uma espécie de ideologia, que é construída sobre a negação completa e radical do indivíduo e do seu papel central; e na qual o Absoluto, em nome do qual a pessoa é negada, tem o sentido mais extenso e comum. Ousaremos dizer que o nacional-bolchevismo justifica qualquer versão do Absoluto, qualquer refutação da "sociedade aberta". No nacional-bolchevismo há uma tendência óbvia para universalizar o Absoluto a qualquer custo, para fazer avançar uma ideologia e um programa político tais que seriam a personificação de todas as formas intelectuais hostis à Sociedade aberta ", reconhecendo um denominador comum e integrando um bloco conceitual e político indivisível.

Claro que, ao longo da história as diferentes tendências, que eram hostis à sociedade aberta, também foram hostis entre si. Os comunistas negam indignados sua semelhança com os fascistas, e os conservadores negam-se a ter qualquer coisa a ver com ambas as tendências acima referidas. Praticamente, nenhum dos "inimigos da sociedade aberta", admitiu sua relação com as ideologias análogas, considerando as comparações como críticas pejorativas. Ao mesmo tempo, as diferentes versões de "sociedade aberta" se desenvolveram em estreira união recíproca, sendo claramente consciente de suas relações ideológicas e filosóficas. O princípio do individualismo poderia ter unido a monarquia protestante inglesa com o parlamentarismo democrático da América do Norte, onde o liberalismo no início foi graciosamente combinado com o escravagismo.

O nacional-bolcheviques foram exatamente os primeiros a tentar agrupar as diferentes ideologias hostis à "sociedade aberta"; eles revelaram aquele eixo comum que, ao parecer de seus opositores ideológicos, reunia em torno a si todas as alternativas possíveis ao individualismo e à sociedade por ele fundada.

Os primeiros nacional-bolcheviques históricos construíram sua teoria sobre a base daquele impulso profundo e quase de todo irreflexivo. O alvo da crítica nacional-bolchevique foi o individualismo, de “direita” tanto como de “esquerda”. Na “direita”, o individualismo se expressava na economia, na “teoria do livre-mercado”; na esquerda, no liberalismo político: a “sociedade igualitária”, a ideologia dos “direitos humanos”, e similares.

Em outras palavras, o nacional-bolcheviques compreenderam além das ideologias a essência de sua posição metafísica e a de seus adversários.

Em linguagem filosófica, o "individualismo" é praticamente identificado com o "subjetivismo". Se aplicássemos uma leitura da estratégia nacional-bolchevique a este nível, poderíamos afirmar que o nacional-bolchevismo é completamente contrário ao "subjetivo" e completamente favorável ao "objetivo". A questão então não se po~e nos termos materialismo ou idealismo, mas sim nos termos idealismo objetivo e materialismo objetivo (de um lado da barricada) ou idealismo subjetivo e materialismo subjetiva (do outro).

Assim, a a filosofia política do nacional-bolchevismo afirma a unidade natural das ideologias fundadas sobre a posição central do objetivo, ao qual se confere um status idêntico a aquele do Absoluto, independentemente de como seja interpretado esse caráter objetivo. Podemos dizer que a máxima metafísica suprema do nacional-bolchevismo é a fórmula hinduísta "O Atman é Brahman". No hinduísmo "Atman" é o ser humano supremo, transcendente e indiferente ao “ego” individual, porém ao mesmo tempo interno a este último como sua parte mais íntima e misteriosa, fugidia aos condicionamentos do imanente. O "Atman" é o Espírito interno, em seu sentido objetivo e supraindividual. O "Brahman" é a Realidade Absoluta, abarcando o indivíduo desde o exterior, o caráter objetivo elevado a sua fonte primária e suprema. A identidade de "Atman" e "Brahman" na sua unidade transcendente é a coroa da metafísica hinduísta e, o que é acima de tudo, é a base do caminho da realização espiritual. Este é o ponto comum de todas as doutrinas sagradas, sem qualquer exceção. Em todos elas se apresenta a questão da finalidade fundamental da existência humana, da superação do “Si Mesmo”, da expansão à outros limites do pequeno “ego” individual; o caminho que se distancia deste “ego”, interior ou exterior, conduz ao mesmo êxito vitorioso. Daí decorre o paradoxal da tradição iniciática, expresso na frase famosa do evangelho: "quem queira ganhar sua vida, a perderá". O mesmo sentido está contido na genial afirmação de Nietzsche: "O humano é aquilo que deve ser superado". O dualismo filosófico entre o "subjetivo" e "objetiva" influenciou todo o curso da história na esfera mais concreta da ideologia, seguindo as especificações da política e do ordenamento social. As diferentes versões da filosofia "individualista" se concretizaram progressivamente no campo ideológico do liberalismo e da política liberal-democrática. Este é o modelo da “sociedade aberta” sobre a qual Popper escreveu. A "sociedade aberta" é o último e mais maduro fruto do individualismo tornado ideologia e sendo cumprido em uma política concreta. É por isso que nos obrigamos a desenvolver o problema de um modelo máximo comum ideológico para os autores da percepção “objetiva”, de um programa sócio-político universal para os “inimigos da sociedade aberta”. Como resultado, não vamos adquirir outra coisa senão o nacional-bolchevismo.

Em paralelo à inovação radical dessa filosofia discriminante, operada verticalmente em relação aos esquemas habituais (como idealismo-materialismo), os nacional-bolcheviques assinalam uma nova linha demarcadora na política. Tanto a esquerda como a direita são divididas em dois setores. A extrema-esquerda (comunistas, bolchevistas, “hegelianos de esquerda”), vêm a se combinar na síntese nacional-bolchevique com os nacionalistas extremistas, estatistas, sustentadores da Idéia do “Novo Medievo”, em breve, com todos os “hegelianos de direita”.

Os inimigos da “Sociedade Aberta” retornaram ao seu terreno metafísico comum.

4. . A Metafísica do Bolchevismo, ou Marx visto a partir da Direita

Agora vamos esclarecer o modo de entender os dois componentes da expressão “nacional-bolchevismo” em um significado puramente metafísico.

O termo "bolchevismo" apareceu pela primeira vez, como é sabido, durante os debates no seio do POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo) para definir a facção que se situou junto às teses de Lênin. Vamos lembrar que a política de Lênin no âmbito da social-democracia russa consistiu na orientação para um radicalismo ilimitado, uma recusa aos compromissos, e na acentuação do caráter elitista do partido e no "blanquismo", ou teoria da conspiração revolucionária. Mais tarde, as pessoas que fizeram a Revolução de Outubro e tomaram o poder na Rússia foram chamados de "bolcheviques". Quase imediatamente após a revolução, porém, o termo perdeu seu significado circunscrito e passou a ser entendido como sinônimo de “majoritário”, de “política pan-nacional”, de “integração nacional” ("bolchevique", em russo, pode traduzir-se aproximadamente como "representante da maioria"). Chegou-se assim a uma fase na qual o “bolchevismo” foi percebido como uma versão nacional, puramente russa, do comunismo e do socialismo, em contraposição às abstrações dogmáticas dos marxistas e, ao mesmo tempo, das táticas conformistas das outras tendências social-democratas. Essa interpretação de "bolchevismo" foi, em grande medida, característica para a Rússia e foi aquela que predominou no Ocidente. No entanto, a menção de "bolchevismo" em relação ao termo “nacional-bolchevismo” não se limita a este significado histórico. Estamos na presença de uma certa política, que é comum para todas as tendências da esquerda radical de caráter socialista e comunista que podemos definir como "radical", "revolucionário", "anti-liberal". A referência é a aquele aspecto da teoria da esquerda que Popper define como “ideologia totalitária” ou como “teoria dos inimigos da Sociedade Aberta”. Assim, o "bolchevismo" não é apenas uma conseqüência da influência mentalidade russa sobre uma doutrina social-democrata. É um determinado componente que está constantemente presente em toda a filosofia de esquerda, que poderia desenvolver-se livremente e abertamente à margem das condições na Rússia de 1917.

Nestes últimos dias a maioria dos historiadores mais objetivos cada vez mais freqüentemente levantam uma pergunta: "A ideologia fascista é realmente de direita?” E a presença de tal dúvida, naturalmente, aponta para uma possibilidade de interpretação do "fascismo", como um fenômeno mais complexo, possuindo uma grande quantidade de características tipicamente de "esquerda". Tanto quanto sabemos, a questão análoga - "A ideologia comunista é realmente “de esquerda”? - não é levantada ainda. Mas essa questão se faz urgente: é necessário cobrir esta demanda.

É difícil negar ao comunismo traços caracteristicamente “de esquerda” - como o apelo à racionalidade, ao progresso, ao humanismo, ao igualitarismo e etc. Porém, ao lado destes, apresenta aspectos que se mostram, sem sombra de dúvida, à margem de um marco de “esquerda” e que se associam à esfera do irracional, do anti-humanismo e do totalitarismo. Estes são em seu conjunto os elementos de “direita” presentes na ideologia comunista, que definimos como “bolcheviques” em seu sentido mais geral. Antes, no próprio marxismo, aparecem dois elementos suspeitos, desde o ponto de vista progressista, de serem “realmente” de “esquerda”. Trata-se da herança dos socialistas utópicos franceses e do hegelianismo de esquerda. Somente a ética de Feuerbach contrasta com a essência “bolchevique” da construção ideológica de Marx, conferindo ao conjunto inteiro uma terminologia humanista e progressista.

Os socialistas utópicos, os quais foram, sem dúvida, incluídos por Marx no conjunto de seus antecessores e professores, são os representantes de um particular messianismo místico e predecessores de um “retorno à Idade de Ouro”. Praticamente, todos eles eram membros de sociedades esotéricas, fortemente impregnadas de uma atmosfera de misticismo, escatologia e previsões apocalípticas. Um universo no qual se intercalavam motivos sectários e ocultismos religiosos, cujo sentido se reduzia ao seguinte esquema: “O mundo moderno é intrinsecamente maligno, pois perdeu a dimensão do sagrado. As instituições religiosas são corruptas e perderam a benção de Deus (um tema comum entre as seitas extremistas protestantes, como os anabatistas e os “velhos crentes” russos). O mundo está governado pelo mal, pelo engano, pelo materialismo, e pelo egoísmo. Porém, nós iniciados, sabemos do próximo retorno de uma Idade de Ouro, e a favoreceremos com rituais enigmáticos e ações ocultas”.

Os socialistas utópicos projetaram este modelo, comum ao esoterismo messiânico ocidental, sobre a realidade social, e revestiram de reflexos políticos e sociais o século áureo do porvir. Certamente, era uma tentativa de racionalização do mito escatológico, porém ao mesmo tempo era uma intromissão na política do caráter sobrenatural do Reino vindouro, do “Regnum”, e evidentemente em seus programas sociais e em seus manifestos, onde não é difícil encontrar descrições das maravilhas da futura sociedade comunista (navegantes que cavalgariam no lombo de golfinhos, manipulação das condições meteorológicas, comunidade de esposas e liberdade sexual, vôos humanos, etc.). É absolutamente evidente o caráter quase-tradicional dessa direção política: um misticismo escatológico radical, a idéia do retorno às Origens, que justificam plenamente a classificação dessa componente não apenas à “direita”, mas inclusive à “extrema direita”.

Agora cheguemos a Hegel e a sua dialética. É amplamente conhecido que as convicções políticas pessoais do filósofo foram extremamente reacionárias. Porém essa não é a questão. Se examinamos o fundamento metodológico da dialética hegeliana (e foi precisamente o método dialético do que Marx tomou emprestado, em ampla medida, de Hegel), descobriremos uma doutrina perfeitamente tradicionalista, inclusive escatológica, que faz uso de uma terminologia específica. Ademais, tal terminologia reflete a estrutura da aproximação iniciática, esotérica, aos problemas epistemológicos, bem distante da lógica profana de Descartes e Kant; estas teriam por fundamento o “sentido comum”, as especificações epistemológicas daquela “consciência da vida quotidiana” da qual (vale a pena anotá-lo) todos os liberais, e em particular Karl Popper, são apologistas.

A Filosofia da História de Hegel é uma versão do mito tradicional, integrado em uma teleologia puramente cristã. A Idéia Absoluta, alienada de si mesma, torna-se o mundo (Lembremos a fórmula do Corão: "Deus era um tesouro escondido, que queria ser descoberto.").

Encarnando-se ao longo da história, a Idéia Absoluta exerce uma influência desde o exterior sobre os omens, como “astúcia da Razão”, predeterminando o caráter providencial da trama dos eventos. Para tal fim, mediante o advento do Filho de Deus, a perspectiva apocalíptica da realização total da Idéia Absoluta se desvela ao nível subjetivo, que, por efeito daquele, de “subjetivo” se faz “objetivo”. “O Ser e a Idéia são uma mesma coisa”, quer dizer: “O Atman é Brahman”. Isso devém em um determinado Reino particular, em um Império do Fim que o nacionalista alemão Hegel identificou com a Prússia. 

A Idéia Absoluta é a tese, a sua alienação ao longo da história é a antítese, a sua realização no Reino escatológico é a síntese.

A epistemologia de Hegel é baseada nessa visão ontológica. Para além da racionalidade comum, que é baseada nas leis da lógica formal, trabalha apenas com afirmações positivas e se limita às relações atuais causa/efeito- a "nova lógica" de Hegel toma como objeto aquela especial dimensão ontológica do coisa, integrada em seu aspecto potencial, inacessíveis para a "consciência da vida cotidiana", mas amplamente utilizada nas correntes místicas de Paracelso, Jakob Boehme, os hermetistas e a Rosacruz. O fato de um sujeito ou uma afirmação (a que se reduz a epistemologia “quotidiana” de Kant)é para Hegel apenas uma dos três hipóstases. A segunda hipóstase é a "negação" daquele fato, entendida não como puro nada (do ponto de vista da lógica formal), mas como um modo particular de existência supraintelectual de algo ou de uma afirmação. A primeira hipóstase é o "Ding für uns" (a coisa para nós); a segunda hipóstase o"Ding an sich” (coisa em si). Mas, ao contrário da perspectiva kantiana, a "coisa em si" não é interpretada como algo transcendente e puramente apofático, não como uma perspectiva epistemológica do não-ser, mas como um ser-de-outro-modo epistemológico. E ambas hipóstases relativas desembocam na Terceira, a síntese, que abarca tanto a afirmação como a negação, a tese tanto como a antítese. Assim, considerando o processo do pensamento em sua coerência, a síntese tem lugar após a "negação", enquanto segunda negação ou “negação da negação”. Na síntese se complementam tanto a afirmação como a negação. O coisa co-existe com sua própria morte, que de acordo com uma determinada perspectiva ontológica e epistemológica não é vista como vazio, mas como outro-modo-de-ser da vida, alma.

O pessimismo epistemológico de Kant, seguindo a meta-ideologia liberal, é derrubada, é descoberta como "imprudência", e o "Ding an sich (coisa em si) torna-se "Ding für sich (coisa para si). A razão do mundo e o próprio mundo são combinados na síntese escatológica, onde a existência e a inexistência estão presentes, não se excluindo mutuamente. O Reino Terreno do Fim, dirigido pela casta dos Iniciados (o ideal da Prússia) será integrado com a Nova Jerusalém descida à Terra. Será o Fim da História e o início da Idade do Espírito Santo.

Este cenário messiânico escatológico foi tomado emprestado por Marx e aplicado a uma outra esfera, a esfera das relações económicas. Uma pergunta interessante: Por que Marx fez uma coisa dessas? A "direita" está pronto para responder citando sua "falta de idealismo", sua "natureza rude" (se não tentativas subversivas). Explicações surpreendentemente simplistas, que têm mantido a sua polaridade no decurso de várias gerações de reacionários. Mais provavelmente, Marx, que exaustivamente estudou a economia política inglesa, foi seduzido pela semelhança entre as teorias liberais de Adam Smith, que vêem a história como um movimento progressivo na direção da sociedade de livre mercado e da universalização de um denominador comum monetário, e o conceito hegeliano que expressa a antítese histórica, ou seja, a alienação da Idéia Absoluta na história. De modo genial, Marx identificou a máxima alienação do Absoluto no Capital.

Da análise da estrutura do capitalismo e de sua evolução histórica Marx extraiu o conhecimento dos mecanismos de alienação, a fórmula alquímica das suas regras de funcionamento. E esse entendimento mecânico, as fórmulas da antítese, foi apenas a primeira e necessária condição para a Grande Restauração após a Última Revolução. Para Marx, o Reino do comunismo por vir não era apenas o progresso, mas o êxito final, a "revolução" no sentido etimológico do termo. Não por acaso o próprio Marx definiu a primeira etapa da humanidade como "comunismo das cavernas." A tese é o "comunismo das cavernas", a antítese é o Capital, a síntese é o comunismo mundial. Comunismo é sinônimo de Fim da História, de Era do Espírito Santo. O materialismo, focando sobre as relações económicas e industriais, não testemunha o interesse de Marx pela praxis, mas sua busca pela transformação mágica da realidade e rejeição radical dos sonhos de compensação de todos os sonhadores irresponsáveis que não fazem mais que agravar o elemento de alienação por sua inação. De acordo com uma lógica semelhante, os alquimistas medievais poderiam ser rotulados como "materialistas" e sedento de riquezas para aqueles que não levam em conta o seu simbolismo profundamente espiritual e iniciático que está contido em seus discursos sobre a destilação da urina, a transmutação de ouro em chumbo e sobre a transformação dos minerais em metais.

Essas tendências gnósticas presentes em Marx e seus predecessores foram coletados pelos bolcheviques russos, alimentadas em um ambiente onde a força enigmática das seitas russas, o messianismo nacional, as sociedades secretas e os tratados apaixonantes e românticos dos rebeldes formaram o fermento contra um regime monárquico alienado, secularizado e degenerado. Moscou era a "Terceira Roma," o povo russo era um povo deíforo (Portador de Deus); a Rússia estava destinada a salvar o mundo: todas essas idéias estavam permeabilizadas no cotidiano do povo russo, em sintonia com a tendência de escolher um tema esotérico no marxismo. Mas, confrontado com fórmulas estritamente espirituais, o marxismo ofereceu uma estratégia econômica, política e social, clara e concreta, compreensível para as pessoas comuns e apta a formar uma base à disposição de sua natureza social e política.

Foi esse "marxismo de Direita", que triunfou na Rússia sob o nome de "bolchevismo". Mas isso não significa que se trate de uma questão apenas da Rússia: tendências semelhantes se apresentaram em partidos comunistas de todo o mundo, quando estes não se degradaram ao nível da social-democracia no espírito liberal parlamentar. Assim, não é de surpreender que o socialismo revolucionário triunfou plenamente, além de Rússia, nos países do Extremo Oriente: China, Coréia, Vietnã, etc. Precisamente aqueles povos e nações mais tradicionais e menos progressistas e "modernos" (isto é, menos "alienados do Espírito), os mais à "direita ", que reconheceram no comunismo uma essência mística, espiritual, "bolchevique".

O Nacional-Bolchevismo tomou como própria esta tradição bolchevique, esse "comunismo de direita" cujas origens faziam referência às antigas sociedades iniciáticas e às doutrinas espirituais de tempos remotos. O aspecto econômico do comunismo não veio aqui negado, mas é considerado como um meio da prática teúrgica, mágica, como um instrumento particular para a transformação social. A única coisa que parece inadequada e ultrapassada no discurso marxista, em que aparecem os temas acidentais e obsoletos do humanismo, é o progressismo.

O marxismo dos nacional-bolcheviques equivale a Marx menos Feuerbach, isto é, menos aquele humanismo inercial que agora emerge no mundialismo globalizador.

METAFÍSICA DA NAÇÃO

Naturalmente, o outro componente do "nacional-bolchevismo" merece ser explicado. O conceito de "nação" não é nada simples, sua interpretação pode ser biológica, política, cultural, econômica. O nacionalismo pode significar a exaltação da "pureza racial" ou a "homogeneidade étnica", como a agregação de indivíduos atomizados, a fim de garantir um "optimum" de condições econômicas em uma pequena área geográfica.

O componente "nacional" do nacional-bolchevismo (em seu sentido quer histórico, quer meta-histórico, absoluto) é especial. No curso da história, os círculos Nacional-Bolcheviques se distinguiram pela tendência de ler o conceito de nação no seu sentido imperial, geopolítico. Para os seguidores de Ustryalov, os “eurasianos de esquerda”, para não falar dos nacional-bolcheviques soviéticos, o “nacionalismo” é super-étnico, está associado ao messianismo geopolítico, ao “lugar de desenvolvimento”, à cultura, ao fenômeno-nação à escala continental. Também nos escritos de Niekisch e os seus adeptos alemães acha-se a idéia de império continental "de Vladivostok à Flessing" com a idéia da "Terceiro Figura Imperial" (Das Dritte imperiale Figur).

Em todos os casos, trata-se da questão da interpretação geopolítica e cultural da nação, sem o menor traço de racismo ou de uma visão de "pureza étnica".

Esta leitura cultural e geopolítica da "Nação" é baseada no dualismo geopolítico que nas obras de Halford Mackinder encontrou a sua primeira forma clara e deu lugar à escola de Haushofer e dos “eurasianos” russos. A agregação imperial das nações do Leste, reunidos em torno à Rússia constitui o possível esqueleto da nação continental, consolidada na escolha "ideocrática" e na rejeição da plutocracia, de uma direção revolucionária socialista contra o capitalismo e "progresso".

Significativamente Niekisch insistiu em dizer que na Alemanha, o "Terceiro Reich" deveria ser construído em torno de um prussianismo, protestante e potencialmente socialista, geneticamente e culturalmente ligados à Rússia e ao mundo eslavo, e não sobre a Baviera católica e ocidental gravitando em torno da órbita do modelo capitalista. Mas, com esta versão "com dimensões continentais" de nacionalismo que corresponde exatamente às demandas específicas messiânicas universais específicas do nacionalismo escatológico e ecumênico russo, também existe no nacional-bolchevismo uma interpretação mais restrita, que, em relação à escala continental, não se apresenta como uma contradição, mas sim como sua definição em um nível inferior.

Neste último caso, a nação é compreendida em analogia ao conceito de "narod" (povo-nação) interpretado pelos "narodniki" (populistas) russos, ou seha: como uma entidade integral, orgânica, em sua essência, refratário a qualquer subdivisão anatômica, que tem um destino específico e uma estrutura única.

Segundo a doutrina tradicional, um certo Anjo, um determinado ser celestial, é responsável pela vigilância de todas as nações da terra. Este anjo é o sentido histórico da nação em particular, o destino além do tempo e espaço, mas sempre presente nas vicissitudes históricas da nação. O Anjo da nação não é algo vago e sentimental, nebuloso, mas uma essência intelectual brilhante, um “pensamento de Deus”, como Herder diz. A estrutura é visível em conquistas históricas da nação, nas instituições sociais e religiosas que a caracterizam ,na cultura. A estrutura toda da história nacional nada mais é que o texto da narrativa da qualidade e da forma desse Anjo brilhante nacional. Nas sociedades tradicionais o Anjo da nação se manifesta de forma pessoal na "Re Divini", nos grandes heróis, sábios e santos, ainda quando sua realidade sobre-humana o torna independente de seu hospedeiro humano. Portanto, uma vez caídas as dinastias monárquicas, pode se encarnar de forma coletiva , em uma ordem, em uma classe, em um partido.

Assim, a nação, entendida como categoria metafísica não se identifica com a multidão de indivíduos específicos com o mesmo sangue ou que falam a mesma língua, mas com a misteriosa entidade angélico que se manifesta al longo de toda a sua viagem histórica. É o análogo da Idéia Absoluta de Hegel, porém em forma minúscula. A inteligência nacional, resulta da multiplicidade de seu povo e, novamente, em seu aspecto concreto, consciente, "finalizado" - na elite nacional no curso de determinados períodos escatológicos da história.

Estamos em um ponto muito importante: essas duas interpretações da "nação", ambas aceitáveis para a ideologia nacional-bolchevique, têm um denominador comum, um momento mágico em que ambos se baseiam. Trata-se da Rússia e da sua missão histórica. É significativo que no nacional-bolchevismo alemão a "russofilia" desempenhou o papel como a pedra angular sobre a qual construir seu ponto de vista político, social e econômico. A interpretação russa (e em grande medida soviética) da "nação russa", como comunidade mística aberta, destinada a levar a luz da salvação e da verdade para o mundo na época do fim dos tempos; nessa visão se fundem tanto a concepção do grã-continental, como a histórico-cultural da Nação. Nesta perspectiva,o nacionalismo russo e soviético torna-se o fulcro ideológico do nacional-bolchevismo, não só nos confins da Rússia e da Europa Oriental, mas em um nível global. O Anjo da Rússia se desvela qual Anjo da integração, como ser luminoso particular que busca unir teologicamente as outras essências angélicas no interior de si, sem cancelar a individualidade de cada um, porém elevando-os à escala imperial universal. Não é por acaso que Erich Müller, discípulo e colaborador de Ernst Niekisch havia escrito em seu livro intitulado "Nacional-Bolchevismo”: "Se o Primeiro Reich foi católico, e o Segundo Reich protestante, o Terceiro Reich deverá ser ortodoxo, ortodoxo e soviético."

No caso concreto, estamos diante de uma questão extremamente interessante. Se os anjos das nações são indivíduos diferentes, os destinos das nações, no decurso da história, e sua formação social, política e religiosa refletem as forças do mundo angélico. E o que é mais fascinante: essa idéia, absolutamente teológica, e brilhantemente confirmada pela análise geopolítica, mostra a interrelação entre as condições de existência geográficas, territoriais, das nações, e sua cultura, psicologia, e até mesmo as suas inclinações políticas e sociais . Assim assume gradual explicação o dualismo entre o Oriente e o Ocidente, e até mesmo o dualismo étnica: a terra, a Rússia “ideocrática” (o mundo eslavo além de outros grupos étnicos da Eurásia) contra a ilha, o Ocidente anglo-saxão plutocrático. A ordem angelical da Eurásia contra a armada atlântica do capitalismo. A verdadeira natureza do "Anjo" do capitalismo (que segundo a tradição tem o nome de Mammon) não é difícil de adivinhar.

O Tradicionalismo, ou Evola visto a partir da Esquerda

Quando Karl Popper "desmascara os inimigos da sociedade aberta", faz uso constante do termo "irracional". É lógico, porque a "sociedade aberta" é baseada no primado da razão e dos princípios da "consciência comum". Em princípio, os escritores mais abertamente anti-liberais tendem a se justificar e a objetar a acusação de "irracionalidade". O nacional-bolcheviques conscientemente aceitam o esquema de Popper, aceitando essa acusação, mesmo quando expressam uma avaliação completamente oposta. As principais motivações dos "inimigos da sociedade aberta" e seus oponentes mais vocais e consistentes, o nacional-bolcheviques, não nascem no sol do racionalismo. Nesta questão, é essencial que trabalhamos escritores tradicionalistas, e em primeiro lugar de René Guénon e Julius Evola.

Tanto na obra de Guénon como na de Evola se expõe a mecânica do processo cíclico, em que a corrupção do elemento Terra (e da consciência humana correspondente), a profanação da civilização e o "racionalismo" moderno, com todas as suas conseqüências lógicas, são considerados como um dos estágios de degeneração. O irracional não é interpretado pelos tradicionalistas como uma categoria negativa ou pejorativa, mas como uma esfera gigante de realidade, impossível de estudar com métodos simples de análise e senso comum. Portanto, sobre este tema a doutrina tradicional não contesta as sagazes conclusões do liberal Popper, mas concorda com ele, porém apontando na direção oposta. A Tradição é baseada no conhecimento supra-intelectual, o ritual iniciático que provoca a fratura de consciência, sobre as doutrinas expressas nos símbolos. O intelecto discursivo tem apenas valor auxiliar, e não reveste nenhum significado decisivo. O centro de gravidade da Tradição é colocado dentro de uma área não somente não-racional, mas também não-humano; e não se trata da bondade da intuição, da previsão ou dos pressupostos, mas da confiança da particular experiência iniciática.

O irracional, desmascarado por Popper como o ponto focal da doutrina dos "inimigos da sociedade aberta", é em verdade o eixo do Sagrado, o centro e a base da Tradição. Sendo este o caso, as diversas ideologias antiliberais, incluídas as ideologias revolucionárias "de esquerda" - devem ter uma relação com a Tradição.

Agora, se isso parece óbvio no caso das ideologias de "extrema direita", hiperconservadoras, é problemático no caso das ideologias de "esquerda". Já tocamos no assunto tratando do o conceito de "bolchevismo". Mas aqui nos deparamos com outra questão: as ideologias revolucionárias anti-liberais, incluindo o comunismo, o anarquismo e o socialismo revolucionário, propagam a destruição radical não apenas das relações capitalistas, mas também das instituições tradicionais (monarquia, igreja, organizações religiosas ...) Como combinar este aspecto do anti-liberalismo com o tradicionalismo? Significativamente, o próprio Evola (e até certo ponto Guénon, embora isso não se possa afirmar sem dúvida, uma vez que o seu comportamento nas confrontações da "esquerda" nunca foi explícito) negou qualquer carácter tradicional às doutrinas revolucionárias, considerando-as como a expressão máxima do espírito contemporâneo, da degradação e da decadência, mesmo quando a experiência pessoal de Evola teve períodos, especialmente os primeiros e os últimos, durante os quais expressou opiniões niilistas, anarquistas, tendo como única resposta positiva o "Cavalgar o Tigre" o que quer dizer fazer causa comum com as forças da decadência e do caos, a fim de superar o ponto crítico da "decadência ocidental". Mas aqui nós não vamos lidar com a experiência histórica de Evola enquanto figura política. Em seu lugar importa ressaltar como em seus escritos políticos, também inclusive em seu período intermediário, de máximo conservadorismo, vem acentuada a necessidade de fazer apelação a qualquer Tradição esotérica, caso que, em geral, não se encontrava alinhado com os modelos monárquicos e clericais predominantes entre os conservadores europeus que com ele tiveram contatos políticos. Não se trata apenas de seu anti-cristianismo, mas seu interesse na Tradição tântrica e no budismo, que no contexto do conservadorismo tradicional hindu são considerados heterodoxos e subversivos. Por outro lado, são absolutamente escandalosas as simpatias de Evola por personagens como Giuliano Kremmerz, Maria Naglovska e Aleister Crowley, que foram localizados por Guénon entre os representantes da "Contra-Tradição", entre as tendências negativas e destrutivas do esoterismo.

Assim, se constantemente Evola se posiciona na "ortodoxia tradicional" e critica violentamente doutrinas subversivas de esquerda, ao mesmo tempo fez um apelo a uma heterodoxia evidente. Fato significativo foi o reconhecer-se entre os seguidores do "caminho da mão esquerda." E aqui chegamos a um ponto especificamente relacionado com a metafísica do nacional-bolchevismo. De fato, paradoxalmente, vemos como se combinam não somente duas tendências políticas opostas ("direita" e "esquerda"), e não apenas dois sistemas filosóficos, dos quais um é, à primeira vista, a negação do outro (o idealismo e o materialismo), mas mesmo duas tendências no coração da Tradição, o positivo (ortodoxo) e o negativo (subversivo). No caso específico, Evola é um autor importante, no qual se observa uma certa discrepância entre sua doutrina metafísica e suas convicções políticas, baseadas, segundo nossa opinião, em certos preconceitos difíceis de se expurgar, típicos dos círculos políticos da extrema-direita “centro-européia” contemporânea.

Neste livro magnífico sobre o tantrismo que é "Lo Yoga della Potenza", Evola descreve a estrutura iniciática das organizações tântricas (Kaula) e sua hierarquia típica. Essa hierarquia se mostra verticalmente na postura frente a própria hierarquia sagrada, característica da sociedade indiana. O ritual tântrico (como a própria doutrina budista) e a participação em suas iniciações traumáticas comportam de certa forma o cancelamento de todas as estruturas políticas e sociais comuns, assegurando que "quem percorre o caminho mais curto não necessita de apoio externo." Para os fins tântricos não tem importância nenhuma ser um brâmane ou um chandala (representante das castas mais baixas). Tudo depende do cumprir as complexas operações iniciáticas e da autoridade da experiência transcendente. O Tantra é uma espécie de “sacralidade de esquerda”, fundada na convicção da insuficiência, da degeneração e do caráter alienado das instituições sacrais ordinárias. Em outras palavras, o esotérico de "esquerda" se opõe à "direita" esotérica, não enquanto negação, mas por causa de uma particular afirmação paradoxal versada sobre o caráter autêntico da experiência e sobre o caráter concreto da auto -transformação. É evidente que nos encontramos de frente com esta realidade do esoterismo “de esquerda” no caso de Evola e daqueles místicos que estão na origem das ideologias socialistas e comunistas. A crítica destrutiva evoliana à Igreja não é uma mera negação da religião, mas sim uma particular forma estática do espírito religioso que insiste sobre a natureza absoluta e concreta da auto-transformação “aqui e agora”. O fenômeno dos "Velhos Crentes", as auto-imolações de "kristis", caem na mesma espécie. O próprio Guènon, em um artigo intitulado "O Quinto Veda", dedicado ao tantrismo, escreve que em determinados períodos cíclicos, perto do final da Kali-Yuga, as instituições tradicionais perdem sua força vital, e portanto a auto-realização metafísica deve assumir métodos e vias novas, não-ortodoxas; esta é a razão pela qual existindo apenas quatro Vedas, a doutrina tântrica seja chamada “o quinto Veda”.

Em outras palavras, a medida em que as instituições tradicionais conservadores decaem (no caso da monarquia, igreja, instituições sociais, castas, etc), sempre assumem um papel de primeiro grau aquelas práticas iniciáticas particulares, arriscadas e perigosas, ligadas ao "caminho da mão esquerda." O tradicionalismo característico do nacional-bolchevismo, na sua maioria em geral é de "esquerda esotérica", que copia em sua substância os princípios do "Kaula" tântrico e da doutrina da "Transcendência destrutiva." O racionalismo e o humanismo de estampa individualista golpearam de morte a aquelas instituições do mundo contemporâneo que nominalmente se afirmam “sacras”. A restauração da Tradição em suas proporções reais segundo a via da melhoria gradual das condições existentes, é impossível. Além disso, todo apelo á evolução e à gradualidade só pode levar à disseminação do liberalismo. Por conseguinte, a lição de Evola para o nacional-bolcheviques é enfatizar os elementos diretamente ligados às doutrinas da "mão esquerda", à realização espiritual traumática na esperança concreta de transformação e revolução dos usos e costumes que perderam toda justificativa de ordem sagrada.

Os nacional-bolcheviques entendem o "irracional" não apenas como "não-racional", mas como "destruição ativa e agressiva do racional" como uma luta contra a "consciência quotidiana" (e contra o “comportamento quotidiano”), como um mergulho no elemento da "Nova Vida", aquela particular existência mágica "do homem diferenciado", que rejeitou qualquer proibição e norma externa.

Terceira Roma, Terceiro Reich, Terceira Internacional

Duas únicas variantes teóricas dos "inimigos da sociedade aberta" foram capazes de derrotar temporariamente o liberalismo, o comunismo russo (e chinês), e o fascismo europeu. Entre esses dois extremos se colocaram os nacional-bolcheviques, expoentes de uma oportunidade histórica única que não viu a luz, sutil formação de políticos clarividentes, forçado a agir à margem do fascismo e do comunismo, condenados a assistir ao fracasso de seus esforços políticos e ideológicos em favor da integração.

No Nacional-Socialismo alemão prevaleceu a nefasta e quebrada linha católico-bávara de Hitler; enquanto os soviéticos, refutaram teimosamente as motivações místicas inerentes à sua ideologia, dessangrando espiritualmente e castrando intelectualmente o bolchevismo.

O primeiro a cair foi o fascismo, em seguida, veio a vez da última cidadela antiliberal: URSS. À primeira vista, o ano de 1991 marca o encerramento do encontro geopolítico com Mammon, o Anjo cosmopolita do capitalismo. Mas, simultaneamente, torna-se claro como o Sol não somente a verdade metafísica do nacional-bolchevismo, mas também a justiça histórica absoluta de seus primeiros representantes. Só o discurso político dos anos 20 e 30 do século XX que havia conservado sua atualidade se encontrava nos textos dos eurasianos russos e dos revolucionários-conservadores “de esquerda” alemães. O Nacional-bolchevismo é o último refúgio dos "inimigos da sociedade aberta", a não ser que eles não queiram persistir em suas doutrinas superadas, historicamente inadequadas e totalmente ineficazes. Se a extrema-esquerda rechaça ser o apêndice banal e oportunista da social-democracia, se a extrema-direita não quer ser usada como terreno de recrutamento, como facção extremista do aparato repressivo do sistema liberal, se os homens que possuem sentimentos religiosos não encontram satisfação nos miseráveis sucedâneos moralistas ofertados por sacerdotes de cultos imbecis ou em um pseudo-espiritualismo primitivo, então somente lhes resta uma via: o Nacional-Bolchevismo.

Do outro lado da "direita" e "esquerda", há uma revolução una e indivisível, que está contida na tríade dialética: "Terceira Roma - Terceiro Reich - Terceira Internacional"

O reino do nacional-bolchevismo, "Regnum", o Império do Fim; eis aqui o perfeito cumprimento da maior revolução da história, enquanto continental e universal. Falamos do retorno dos anjos, a ressurreição dos heróis, da insurreição dos corações contra a ditadura da razão. Esta Última Revolução é tarefa do Acéfalo, o portador sem cabeça da Cruz, Foice e Martelo, coroado pelo Sol da Suástica Eterna.

Vulgarização

"O desenvolvimento dos meios de comunicação e a planetarização do sistema civilizacional dominante fez aparecer mais um perigo: a homogeneidade. O homem vai-se uniformizando através de um processo de vulgarização, que elimina as diferenças, as características locais e pessoais, para dar lugar ao homem médio em todas as partes do mundo.

A causa principal desta involução é a uniformização das pressões seletivas em todos os espaços humanos. Com o progresso da tecnologia e o avanço da moderna frente cultural, os mecanismos de seleção natural foram eliminados em benefício de uma pressão selectiva artificial e normalizada para todas as comunidades e nações, que surgiram em função dos diferentes desafios históricos e pressões seletivas, vão desaparecendo à medida que tudo se uniformiza. É, definitivamente, a vulgarização do homem, uma monstruosidade que nem sequer Ortega y Gasset poderia imaginar ao escrever a 'Rebelião das Massas'.

Este perigo, que implica uma perda nas capacidades de resposta da espécie humana no seu conjunto, apresenta também fenômenos secundários de domesticação corporal, como o aumento de gordura, diminuição de combatividade, obsessões sexuais, diminuição da seletividade sexual e outros elementos negativos para a conservação da nossa espécie. A uniformização e a vulgarização são também aspectos de uma regressão civilizacional, já que o caminho ascendente se caracteriza por uma crescente diferenciação e um maior grau de organização."
(Antônio Marques Bessa, Trecho de "Ensaio sobre o fim de nossa Idade")

11/12/2010

Família

"O ataque à família é um ataque contra toda a sociedade, um cataclismo que nos desvincula da sociedade, uma ruptura que mina os cimentos da civilização e uma dilapidação do capital social e pessoal cuja solidez tornou possível em grande parte, a civilização ocidental."
(G. K. Chesterton)

09/12/2010

Os Valores Homéricos

por Dominique Venner

Para os antigos, Homero era "o começo, o meio e o fim" Deduzia-se implicitamente dos seus poemas uma visão do mundo e mesmo uma filosofia. Heráclito resumiu-lhe o fundamento cósmico com uma frase bem própria: "O universo, o mesmo para todos os seres, não foi criado por nenhum deus nem por nenhum homem, mas sempre foi, é, e será fogo eternamente vivo…"

A natureza como fundamento

Em Homero a percepção de um Cosmos incriado e ordenado é acompanhada de uma visão encantada do mundo, sustentada pelos antigos mitos. Os mitos não são uma crença, mas a manifestação do divino no mundo. As florestas, as rochas, os animais selvagens, têm uma alma que protege Ártemis (Diana para os romanos). Toda a natureza se confunde com o sagrado e os homens não estão aí isolados. Mas ela não está destinada a satisfazer-lhes os caprichos. Nela, na sua imanência, aqui e agora, eles aprendem, pelo contrário, a resposta às suas angústias:

"As gerações dos mortais assemelham-se às folhas das árvores que umas os ventos atiram no solo sem vida; outras brotam na Primavera de novo por toda a floresta viçosa. Desaparecem ou nascem os homens da mesma maneira." (Ilíada VI). Gira a roda das estações e da vida, cada um transmitindo algo de si aos que vêm a seguir, seguro assim de ser uma parcela de eternidade. Certeza reforçada pela consciência da lembrança a deixar na memória do futuro, como diz Helena na Ilíada: "Duro destino Zeus nos deu para que nos celebrem nas gerações porvindouras os cantos excelsos dos vates" (Ilíada, VI). Talvez, mas a glória de um nobre nome apaga-se como o resto. O que não se apaga é interior, perante nós mesmos, na verdade da nossa consciência: termos vivido de forma nobre, sem baixeza, termos conseguido mantermo-nos em coerência com o modelo que estabelecemos para nós próprios. 

A excelência como objectivo

À imagem dos heróis, os verdadeiros homens, nobres e realizados (kalos agatos) procuram na coragem da ação a medida da sua excelência (aretê), da mesma forma que as mulheres procuram no amor ou na entrega de si a luz que as faz existir. A uns e outros importa apenas o que é belo e forte. "Ser sempre o melhor", recomenda Peleu ao seu filho Aquiles (Ilíada VI). Quando Penélope se atormenta pela idéia de que o seu filho Telêmaco pudesse ser morto pelos "pretendentes" (usurpadores), o que ela teme é que ele morra "em glória", antes de ter atingido o que faria dele um herói como o seu pai (Odisseia, IV). Ela sabe que os homens nada devem esperar dos deuses e não contar com outro recurso para além deles próprios, como diz Heitor rechaçando um presságio funesto: "Combater pela pátria, não há melhor presságio!" (Ilíada, XII). No combate final da Ilíada, compreendendo que está condenado pelos deuses ou pelo destino, Heitor eleva-se do desespero por um sobressalto de heroísmo trágico: "Não morrerei, então, sem luta e sem glória, nem sem um feito grandioso que seja recitado pelos homens que virão!" (Ilíada XXII)

A Beleza como horizonte

A Íliada começa com a cólera de Aquiles e termina com o seu apaziguamento face à dor de Príamo. Os heróis de Homero não são modelos de perfeição. Estão sujeitos ao erro e à desmesura relativamente inclusive à sua vitalidade. Por esta razão caem sob o golpe de uma lei imanente que é a força dos mitos gregos e da tragédia. Toda a falta implica castigo, a de Agamenon como a de Aquiles. Mas também o inocente pode subitamente ser atingido pelo azar, como Heitor e tantos outros, porque nada está ao abrigo do trágico destino. Esta visão do mundo é estrangeira à ideia de uma justiça transcendente que pune o mal ou o pecado. 

Em Homero, nem o prazer, nem o gosto pela força, nem a sexualidade, são alguma vez associados ao mal. Helena não é culpada da guerra pretendida pelos deuses (Ilíada III). Apenas os deuses são culpados das fatalidades que se abatem sobre os homens. As virtudes cantadas por Homero não são morais mas sim estéticas. Ele acredita na unidade do ser humano que qualifica o seu estilo e os seus atos. Os homens definem-se, portanto, em função do belo e do feio, do nobre e do vil, não do bem ou do mal. Ou, para dizer as coisas de outro modo, o esforço em direção à beleza é a condição do bem. Mas a beleza não é nada sem lealdade e valentia. Assim, Páris não é verdadeiramente belo uma vez que é covarde. Não passa de um vaidoso que menospreza o seu irmão Heitor e até Helena, que seduziu por magia. Ao contrário Nestor, apesar da sua idade avançada, conserva a beleza da sua coragem. Uma vida bela, objetivo último do melhor da filosofia grega, de que Homero foi a expressão primordial, pressupõe o culto da natureza, o respeito pelo pudor (Nausica ou Penélope), a benevolência do forte em relação ao fraco (exceto nos combates), o desprezo pela baixeza e a fealdade, a admiração pelo herói infeliz. Se a observação da natureza ensina aos gregos a moderar as suas paixões, a controlar os seus desejos, a idéia que fazem da sabedoria antes de Platão não é insípida. Sabem que está associada aos acordos fundamentais nascidos das oposições superadas: masculino e feminino, violência e doçura, instinto e razão. Heráclito inseriu-se na escola de Homero quando disse: "A natureza ama os contrários: é com eles que produz a harmonia."

Era Irresponsável

"Os cientistas oficiais culpam o Estado para explicar a luta de classes, a deficiência de proteínas para explicar o canibalismo, a indústria de armas e o capitalismo para explicar a guerra, a falta de amor para explicar as drogas, a frustração para explicar o crime, e assim sucessivamente. O ciclo natural no qual estamos imersos finalmente culminou em uma grande era irresponsável. Tudo está perdoado. Ninguém fez nada de mal."
(Antônio Marques Bessa)

08/12/2010

Pensamento Único

por Alain de Benoist

“O povo é livre de pensar que governa sempre... enquanto não tente imiscuir-se nos assuntos que lhe dizem respeito” - Noam Chomsky.

Assim entramos globalmente num tipo de regime que não tem nome. Já não é um regime democrático, ainda que o voto todavia exista e ainda que a fraseologia democrática continue, em certa medida, a servir-lhe de referência. Em muitos aspectos o atual regime representa inclusive a negação de um sistema democrático baseado na soberania do povo e no pluralismo. As decisões essenciais tomam-se desde instâncias não eleitas ou carentes de legitimidade democrática. A soberania fugiu das suas instâncias tradicionais, que se esvaziaram. Ao mesmo tempo este regime não é uma ditadura como as que havíamos conhecido: combina sem complexos a brutalidade militar, a coação financeira e as prescrições morais. A ingerência humanitária não é mais que o novo nome do direito do mais forte.

A referência democrática fez parte durante muito tempo da argumentação da Guerra Fria. O fim do regime soviético tornou-a inútil. Frente ao comunismo o Ocidente apresentava-se como o "mundo livre", o qual não o impedia de manter todas as ditaduras que lhe fossem úteis. Agora que o comunismo caiu já não há necessidade de dissimular a própria forma de abolir a liberdade, mas tampouco é necessário suster ditaduras demasiado visíveis. Isto permite ao Ocidente ser ao mesmo tempo não democrático e partidário dos "direitos humanos". Num mundo fictício, mundo do virtual, do imaterial, do simulacro, só existem liberdades fictícias. Neste sentido o mundo pós-comunista é também um mundo pós-democrático.

No interior da sociedade, os conflitos frontais (como a luta de classes ou as guerras entre nações), foram substituídos por uma miríade de micro-conflitos que se sobrepõem uns aos outros e que freqüentemente nascem de um desejo de reconhecimento da própria identidade (cultural, linguística, sexual, etc.). 

Estes micro-conflitos por si mesmos são incapazes de provocar fortes rupturas mas permitem à Nova Classe jogar com a disseminação do poder ( Eric Werner) para assim manter-se no topo. O sistema fundamenta a ordem social na desordem estabelecida, empenhando-se em criar um caos que lhe é proveitoso e, ao mesmo tempo, mantendo-o debaixo de controlo. A questão é saber até onde pode o caos ser controlado.

Raoul Vaneigem escreve que a "democracia de mercado é a etiqueta humanitária do totalitarismo mercantil". É significativo que esta opinião seja compartilhada por alguns velhos dissidentes soviéticos que, ao haverem vivido o sistema comunista e, por consequência, com pleno conhecimento de causa, não hesitaram em denunciar o sistema ocidental como um novo sistema totalitário. Alexander Solzhenitsin regressou ao seu país desgostoso pelo que havia visto no Ocidente. Alexander Zinoviev declara: "A implosão dos sistemas socialistas nos países do antigo bloco de Leste e na URSS não conduziu a uma expansão da democracia ao estilo ocidental, mas a uma expansão do Ocidente, que saiu vitorioso da Guerra Fria e que agora se encaminha face a um totalitarismo de um género particular (…). Pela sua natureza, os seus atos e as suas conseqüências, este novo totalitarismo é mais perigoso que os seus antecedentes Hitleriano e Estalinista. O Ocidente não é algo alheio a mim, senão uma potência inimiga".

"Não é exato falar do fim das ideologias, na realidade",continua Zinoviev, "a ideologia, a super-ideologia do mundo ocidental, desenvolvida no curso dos últimos 50 anos é muito mais forte que o nacional-socialismo ou o comunismo". A ideologia dominante é a ideologia do mercantil, temperada com um discurso humanitário. A mundialização surge no horizonte neoliberal de uma dupla polaridade, a da moral e a da economia. Por um lado a referência aos direitos humanos, por outro a obsessão com a produtividade, o crescimento e o lucro. 

A primeira serve a segunda. A retórica dos direitos humanos não tem outro objetivo que romper com as resistências à globalização e permitir a abertura de novos mercados: nunca se desenvolve com tanto vigor como contra aqueles que "ousam manifestar alguma resistência aos projetos de governo global, opor-se ainda que um pouco ao ocidentalismo e ao mundialismo"(Zinoviev). Por outro lado a referência aos direitos humanos nunca é objeto de uma demonstração argumentada: coloca-se como uma evidência à qual é impensável não aderir, evidência ditada por um discurso oficial que admite cada vez menos esse "politeísmo dos valores" de que falava Max Weber. Os direitos humanos adquirem assim o estatuto que no regime comunista correspondia ao marxismo-leninismo.

A mídia, que representa, "a quintessência da vida social em todas as manifestações da sua subjectividade"(Zinoviev), joga um papel essencial na difusão desta ideologia. "Com o advento do numérico e da multimídia, constata Ignacio Ramonet, o sistema está em condições de difundir uma mesma mensagem contínua e diretamente a todo o planeta". A informação tornou-se massiva ao mesmo tempo que globalmente pouco crível: super-abundante, seletiva e insignificante à vez. Em 1998 os meios de comunicação americanos dedicaram mais espaço ao assunto Clinton-Lewinsky que a todas as notícias de política externa do ano. Assim, paradoxalmente, o individualismo desemboca na apatia e no conformismo de massas.

O pensamento único é cada vez mais único e cada vez menos um pensamento. A sua dupla sedimentação, ideológica e tecnocrática, leva-o a não tolerar quem se expressa fora das suas fronteiras. Não se dirige contra as idéias que considera falsas, as quais exigiriam ser refutadas mas contra as idéias que considera "más".Essencialmente declamatório e inquisitório, o pensamento único elimina as zonas de resistência mediante uma estratégia indireta: marginalização, silenciamento, difamação(…). 

A fabricação da verdade, escreve Bernard Dumont, proíbe legalmente dizer certas coisas e inclusive ordena nem concebê-las, enquanto neutraliza as outras remetendo-as para o reino relativista das "opiniões". A percepção da realidade é alterada, a fronteira entre o mundo real e o mundo da representação esfuma-se, o clima de mentira generaliza a suspeita e desemboca na despolitização geral e num conformismo de massas, à vez necessidade vital e prêmio de consolação dos indivíduos perdidos na "massa".

Totalitarismo Liberal

"O liberalismo moderno suprimiu a nacionalidade patriótica em uma situação na qual a política foi reduzida a um processo de tomada de decisões 'à delivery' parecendo com um 'posto de comando' econômico, os estadistas foram reduzidos a servirem como instrumentos para grupos de interesses especiais, e as Nações tornaram-se pouco mais do que mercados. Os cabeças dos Estados liberais modernos não tem opções além de observarem enquanto seus cidadãos são somatizados por males civilizacionais como a violência, a delinqüência, e as drogas.

Ernst Jünger uma vez afirmou que o ato de violência velada é mais terrível do que a violência aberta. (Diário IV, 6 de Setembro, 1945). E ele também notou: 'A escravidão pode ser substancialmente agravada quando ela assume a aparência de liberdade.' A tirania do liberalismo moderno cria a ilusão inerente em seus próprios princípios. Ele se proclama a favor da liberdade e grita em defesa dos 'direitos humanos' no momento em que mais oprime. A ditadura da mídia e a espiral do silêncio parecem ser quase tão efetivas em privar os cidadãos de sua liberdade do que se eles fossem presos. No Ocidente, não há necessidade de matar: é suficiente cortar o microfone. Matar alguém por meio do silêncio é um modo extremamente elegante de assassinato, que na prática resulta nos mesmos dividendos do que um assassinato real - um assassinato que, ademais, deixa o assassino com a consciência tranqüila. Mais do que isso, não se deve esquecer a importância desse tipo de assassinato. Raros são aqueles que silenciam seus oponentes por diversão."
(Alain de Benoist, Trecho de "Sobre a Decadência das Sociedades Modernas")