por Ramiro Ledesma Ramos
(Trecho de Discurso às Juventudes da Espanha)
1 - Fascismo e Marxismo, frente a frente
O triunfo do fascismo em 1922, e principalmente sua vitória definitiva contra todas as oposições em 1925, que é realmente o fato que o aloja e consolida, equivale à primeira réplica que diz NÃO à revolução bolchevique mundial. O fenômeno tem um interesse culminante para perceber o leito exato por onde correm as novas formas europeias. Pois já hoje, aos treze anos do regime fascista, é ingênuo, e já falso, pensar que Mussolini congregou ao redor dos fasces litórios às forças passadistas e regressivas da Itália para combater e deter a ofensiva bolchevique com a instauração de um Poder reacionário. Essa interpretação do fascismo é absolutamente errônea, e se por efeito da batalha política, da agitação e da estratégia revolucionária, a fazem sua os partidos e as organizações marxistas, é seguro que nem o mais fanático de seus dirigentes o estima e julga desse modo.
Mussolini organizou e dirigiu o fascismo com apoio em uma mística revolucionária. E o que de verdade faz dele um criador e um inventor, quer dizer, um caudilho moderno, é precisamenter ter intuído ou descoberto, antes de qualquer outro, a presença nessa época de uma nova força motriz com possibilidades revolucionárias, ou o que é o mesmo, a presença de um novo palanque, de signo e estímulo diferentes aos tradicionalmente aceitos como tais, mas capaz também de conduzir à conquista revolucionária do Estado.
O fascismo é, de fato, a primeira manifestação clara de que as consignas bolcheviques, não só não esgotavam ou polarizavam em sua defesa todas as energias transmutadoras da época, senão, ao contrário, deixavam de fora uma zona poderosíssima, e também subversiva e revolucionária, e tão extensa, que seria chamada a usurpar o próprio bolchevismo, em cruenta luta de rivalidade, a missão de desarticular o sistema caduco das formas demoliberais. E criar uma nova ordem.
Foi na Itália, pois, onde ficou patenteada essa realidade, onde se evidenciou o erro em que se debatiam os propósitos universais do bolchevismo. E é curioso que alguns escritores socialistas, não bolcheviques mas sim revolucionários, como o espanhol Ramos Oliveira, imputem a razão da vitória do Mussolini sobre o marxismo na Itália "a que o leninismo se havia inoculado na maioria do socialismo italiano". Quiçá não se dão conta esses escritores do quão profunda é sua observação, mas não no sentido da mera influência tática, mas sim no que concerne a dimensão histórica do signo mundial bolchevique.
2 - O Fascismo, Fenômeno Revolucionário
Que o fenômeno fascista pertence à ordem dos acontecimentos revolucionários, nutridos com um estrito espírito da época, é para nós um fato incontestável. O que pediremos nestes tempos a um fato político destacado para poder situá-lo na órbita revolucionária, na linha subversiva de serviço à missão criadora e libertadora que corresponde a nossa época? Simplesmente o que segue:
I) Que contribua para decompor as instituições políticas e econômicas que constituem o embasamento do regime liberal-burguês, e isso, claro, sem facilitar a menor vitória às forças propriamente feudais;
II) Que ao arrancar da burguesia o papel de monopolizadora de todo o timão dirigente, edifique um novo Estado nacional, no qual os trabalhadores, a classe operária, colabore na missão histórica da Pátria, no destino assignado a "todo o povo";
III) Que tenda a subverter o atual estancamento das classes, postulando um regime social que dê base para o equilíbrio econômico, não no sistema dos lucros privados, mas no interesse coletivo, comum e geral de todo o povo.
IV) Que seu triunfo se deva realmente ao esforço das gerações recém-surgidas, mantendo uma ordem de coação armada como garantia da revolução.
É evidente que o fascismo italiano admite esse quadrilátero, e que os fascistas creem de verdade que esse é o sentido histórico da marcha sobre Roma. Agora, que a subversão haja sido quiçá excessivamente modesta, que o grau de serviço concreto à ascensão social e política dos trabalhadores resulte ainda pequeno, que o influxo dos velhos poderes anti-históricos, representativos da grande burguesia e do espírito reacionário, seja ainda excessivo, etc., tudo isso, apesar de aceito, não priva à revolução fascista do caráter que atribuímos a ela, e admite explicações bem variadas. Uma delas, a de que todo regime necessita de uma base de sustentação o mais ampla possível, e se o fascismo, por chegar à vitória após uma luta com a classe operária de tendência marxista, se viu privada da devida adesão e colaboração de grandes núcleos proletários, teve que se apoiar mais do que o conveniente em uma constelação social distinta.
Mussolini retificou, com o fascismo, a linha que os bolcheviques se gabavam de apresentar como a única com direito a monopolizar a subversão moderna. Para isso, o primeiro foi considerá-la como exorbitante e monstruosa em seu duplo signo primordial e característico: a ditadura proletária e a destruição do "nacional", quer dizer, a aniquilação política absoluta de tudo que não fosse "proletário", e a aniquilação histórica, igualmente absoluta, da "Pátria".
O fascismo estava conforme, sem dúvida, em reconhecer a razão histórica do proletariado, a justiça de sua ascensão a ser de modo direto uma das forças sustentadoras do novo Estado. Não aceitava seu caráter único, sua ditadura de classe contra toda a nação, e menos ainda que isso aceitava o signo internacional, anti-italiano, da revolução bolchevique.
Mussolini demonstrou com seus "fascios" que não podia ser exata a imputação que os "vermelhos" faziam a "toda a burguesia", quer dizer, a todo "o não-proletário", de ser resíduo podre e moribundo. Para defesa da Itália, para triturar uma revolução que ele acreditava, naquelas duas ordens, monstruosa e injusta, mobilizou massas de combatentes, extraídos de todos os lugares, em boa parte procedentes dos setores assinalados pelos marxistas como podres e moribundos. Sua atuação, heroica em muitos casos, a serviço, não da ordem vigente e da sensatez conservadora, mas de uma possível revolução "italiana", se impôs como mais vigorosa, mais profunda e popular que a atuação paralela desenvolvida pelo bolchevismo.
O fascismo revelou a existência de juventudes, de uma massa ativa, extraída em geral das classes médias, que se montava por cima da luta de classes, contra o egoísmo e o passadismo da burguesia e contra o afrouxamento anti-nacional e exclusivista dos "proletários". E fez dessas forças um palanque subversivo, desencadeado contra o que realmente havia de podre e moribundo na burguesia, que era seu Estado mofado, sua democracia parlamentar, sua estupidez exploradora dos despossuídos com a artimanha da liberdade, seu sistema econômico capitalista e seu viver mesmo alheio e estranho ao serviço patriótico e nacional da Itália. Agora bem, esse palanque não podia ser uma revolução antiproletária, anti-operária. Isso o viu e tinha que ver Mussolini, antigo marxista, homem absolutamente nada reacionário, para quem a primeira verdade social e política da época, verdade de signo terrível para quem a ignore, consistia na ascensão dos trabalhadores, em sua elevação a coluna fundamental do novo Estado.
3 - Os Interesses Econômicos das Grandes Massas
Julgue-se o difícil e delicado de uma revolução como a fascista de Mussolini, que tendo sido feita em grande parte contra a consciência proletária, mantida fiel ao marxismo, tinha, não obstante, que realizar a missão histórica de elevar a classe proletária ao mesmo nível de influência que os atuais grupos dominantes da burguesia.
Por sua própria origem, por esse caráter seu de ter tido que se bater contra uma das forças motrizes evidentes da subversão moderna a que assistimos, o fascismo se ressente e até se retarda no cumprimento daquela missão histórica. Ele derrubou, de fato, as instituições políticas da burguesia, e dotou os proletários de uma nova moral e de otimismo político, proveniente de terem desaparecido as antigas oligarquias; mas, terá ele derrubado ou pelo menos enfraquecido pelo menos as grandes fortalezas do capital financeiro, da alta burguesia industrial e dos terratenentes, em benefíci oda economia geral de todo o povo? E ainda, ele vai realmente tornando possível a eliminação do sistema capitalista e baseando cada dia mais o regime nos interesses econômicos das grandes massas? Não parece suficiente que os operários se formem na milícia fascista e participem na mesma medida que outras classes no sustento político do Estado, se ao mesmo tempo o Estado fascista não adota a crença de que é, precisamente, elevando o nível econômico dos trabalhadores como se fortalece de fato a verdadeira potência do Estado italiano.
Facilmente se adivinham os perigos de que resulte futuramente falida neste aspecto a revolução. Claro que isso não tiraria do fascismo o caráter que já tem, mas evidenciaria seu fracasso histórico, seu caráter de coisa inacabada, de tentativa, de começo. Sua marcha sobre Roma recordaria então mais à marcha sobre Roma de Sila do que a de Julio César, e sua etapa de mando mais a um período conservador e regressista que a um revolucionário e fértil.
4 - O Fortalecimento do Estado por meio da Incorporação dos Trabalhadores
Neste momento, a eficácia fascista, quanto a ter conquistado a colaboração proletária, parece superior à da democracia burguesa. Não se pode por em dúvida que os operários italianos estão hoje mais identificados com o Estado fascista do que os operários franceses, por exemplo, com o Estado democrático-parlamentar da França. Este fato pode proceder de uma situação sentimental, o que significaria seu caráter transitório e movediço, mais que de uma realidade social-econômica, o que lhe proporcionaria um valor mais firme, mas é um fato existente e formidavelmente representativo.
O Estado fascista ve diante de si a possibilidade de ampliar sua força história, fazendo com que a incorporação proletária represente para ele a própria eficácia que a incorporação da burguesia, com a revolução francesa, supôs para o Estado napoleônico. É evidente que a surpresa da Europa, ante a pujança imperial de Napoleão, procedia de que a Europa desconhecia, ao que parece, que a primeira consequência do fato revolucionário de 1789 foi vigorizar consideravelmente o Estado com a ascensão política da burguesia. Isso, hoje vemos com clareza solar. Antes de 1789, o Estado não tinha outro poder que o emanado dessas três forças: o rei, a nobreza e a Igreja. A revolução francesa pôs o Estado sobre os quadris e costas da burguesia, grande e pequena, e as consequências foram aprendidas pela Europa através das jornadas imperiais de Napoleão. Não se esqueça que o espírito bonapartista era o próprio espírito jacobino tornado hierarquia e disciplina, quer dizer, milícia.
Pois bem, parece que não escapa à perspicácia e à agudeza histórica e política de Mussolini que sozinho, na medida em que consiga realizar com os trabalhadores um fenômeno similar, conquistará para o Estado fascista verdadeira transcendência, e para a Itália verdadeiro império.
As dificuldades do fascismo italiano para a plena realização de semelhante perspectiva histórica são enormes. No que escrevemos estão insinuadas as de linhagem mais perigosa. Quiçá o fascismo, agoniado com o problema de se assegurar ferrenhamente desde o princípio, está ligado excessivamente a velhos valores, cuja vigência perturbaria quase por inteiro a ambição histórica a que temos nos referido.
5 - O Fascismo e as Instituições Demoburguesas
Mussolini derrubou com grande sentido revolucionário as instituições políticas da burguesia. Desfez o parlamento, destruiu as oligarquias partidárias e acabou com o mito da liberdade política, coisas todas elas que não vacilamos um só minuto em assinalar como um serviço à subversão moderna. Não há, em efeito, nada mais insólito e deprimente que ver hoje as massas concedendo o menor crédito a esses redutos políticos da democracia parlamentar, cuja vigência, ademais de desmoralizar e corromper os partidos operários, assegurará sempre a vitória à burguesia, dona do dinheiro, e, portanto, monopolizadora da grande propaganda, da imprensa e de todos os estímulos do triunfo eleitoral.
Efetivamente, a revolução fascista tem em seu haver o desmoronamento real e teórico das formas políticas demoburguesas. E ainda que isso seja avaliado, desde o setor marxista mundial, como um fortalecimento das posições da burguesia, já que fortalece sua segurança com instituições mais firmes que as parlamentares, as consequências históricas que em nossa opinião devem se deduzir daquele fato são precisamento de orientação contrária. Pois deslocada a burguesia das formas políticas e das instituições que lhe são próprias, aquelas que são uma típica criação sua e a cuja vigência deve de fato seu desenvolvimento econômico e sua força social, é notório que resulta debilitada enquanto poder histórico e político.
Arrancar da burguesia sua democracia parlamentar, seu culto ao livre jogo econômico e político das energias individualistas, e isso de um modo definitivo, sistemático e doutrinário também, quer dizer, não ao estilo de ditaduras reacionárias transitórias, dessas que deixam resquícios para o futuro e as quais desde logo o bom burguês aplaude, como aqui na Espanha aconteceu com o general Primo de Rivera, arrancar-lhe tudo isso do jeito que o fascismo fez, com certo sabor catilinário e adoração pública aos mitos de império, ação direta e coação absoluta, é, não o duvide ninguém, iniciar a decomposição radical da burguesia enquanto classe dominante. Em resumo, que o espírito burguês, e disso trataremos em outro capítulo posterior, não respira livremente na atmosfera do fascismo, não está nele nem se move em seu seio como o peixe na água ou o leão na selva. Não está em seu elemento próprio. Isso nos conduz a extrair uma consequência: o fascismo não é uma criação da burguesia, não é um produto de sua mentalidade, nem de sua cultura, nem de suas formas de vida.
Quiçá acontece com o fascismo o que já apontávamos em relação ao regime soviético. Que são fenômenos típicos da subversão que começa a se desenvolver em nossa época, e fenômenos com características de índole nada definitivo ou concluído, mas como as primeiras erupções, anunciadoras de algo ainda sem previsão. Por isso, abundam neles contradições que não se apresentam nunca em sistemas definitivos, acabados e perfeitos. Assim resulta que o marxismo, doutrina internacional e estranha em absoluto à ideia de Pátria, salva a Rússia "nacionalmente", fenômeno pelo menos tão estranho quanto o de nascer uma amendoeira onde se houvesse posto uma semente de laranjeira. E que o fascismo italiano, vitorioso contra os supostos "proletários", e em muitos aspectos, não sendo o menor o de seu financiamento, elevado pela grande burguesia, tenha que ser quem busque o fortalecimento de seu Estado na adesão e colaboração dos trabalhadores.
20/07/2016
12/07/2016
Gregory Hood - Nacional-Bolchevismo, Rússia e o Papel das Ideias
por Gregory Hood
O que acontece conosco quando morremos? Os grandes filósofos, teólogos e acadêmicos do passado debateram essa questão por séculos. Ninguém conhece a verdade definitiva, e é impossível pensar que conforme cambaleemos na beira da eternidade no momento de nossa morte, que pelo menos uma pequena porção de medo vai se misturar com esperança pela vida eterna. Talvez a busca por sentido seja o próprio sentido. Quem pode saber com certeza? Uma coisa, porém, podemos dizer com certeza. Se Adolf Hitler e Josef Stalin ainda existem, em algum lugar, de alguma forma, e eles vissem esse vídeo, eles ficariam realmente, realmente, realmente confusos.
Onde começar? A reação óbvia de americanos estúpidos como eu seria imaginar o que raios são esses nazi-comunistas.
Ao mesmo tempo, esse tipo de riso é artificial. Você sabe que deve rir desse tipo de coisa ao invés de analisar de verdade, da mesma maneira que você deve rir, digamos, de nacionalistas brancos. Você também sabe que deve reagir dessa maneira exatamente em relação às ideias mais ameaçadoras ao sistema. Vamos dar uma olhada séria no nacional-bolchevismo, e ver se há algo que realmente faria alguém combinar a música "Ghost Division" do Sabaton (sobre a investida de Rommel na França) com imagens do Exército Vermelho vitorioso. Essa análise também lançará luz no debate sobre a Nova Direita Europeia, Francis Parker Yockey e o anti-americanismo dentro do movimento nacionalista branco.
O nacional-bolchevismo é uma tentativa de combinar elementos do comunismo com nacionalismo. Ele rejeita fortemente tanto o capitalismo de livre-mercado quanto o socialismo universalista, em prol de uma receita interessante de tradicionalismo radical, estética modernista, imagética militarista e uma forte ênfase em geopolítica e autarquia econômica, ao invés de livre-comércio. Não surpreendentemente, o movimento hoje está centrado na Rússia, com influências tão diversas quanto Gregor Strasser, Alain de Benoist e Josef Stalin.
O nacional-bolchevismo possui suas raízes na Alemanha, conforme escritores como Ernst Niekisch viam a emergente União Soviética como uma maneira de criar uma comunidade nacional forte que poderia transcender a corrupção da democracia, desde que ela abandonasse o seu universalismo de "trabalhadores do mundo uni-vos". Ernst Jünger, que escreveu sobre como ele "odiava democracia", foi também influenciado por essas ideias, bem como um ativista nacional-socialista chamado Joseph Goebbels.
Essas ideias não são contraditórias como parecem. Argumentos de que a Primeira Guerra Mundial era uma "guerra do povo" que poderia varrer o mundo burguês e servir como ponto de partida para uma comunidade autenticamente socialista eram retórica comum dos socialistas pró-intervenção que ganharam o dia em cada país da Europa ocidental. Como bem sabemos, Benito Mussolini, que era conhecido como um dos socialistas revolucionários mais convictos antes da guerra e liderou pessoalmente protestos antiguerra, se tornou eventualmente um campeão do militarismo italiano. Tampouco ele se viu como traindo o socialismo nesse sentido, a condenação da "fraude e chantagem" do socialismo pelo Duce veio muito depois. Militarismo, nacionalismo e socialismo; unidos, constituiriam uma força diametralmente oposta ao liberalismo capitalista. Subitamente, uma aliança entre nacionalismo e socialismo, entre o que chamamos de "fascismo" e "comunismo", contra o liberalismo, começa a fazer sentido.
As bases econômicas por trás da ideologia também foram fortemente influenciadas pelos conceitos de "geopolítica" delineados por Harold Mackinder, Karl Haushofer, e outros. Diferente da teoria de que "o poder marítimo determina o poder mundial" promovida por Sir Alfred Maham; Mackinder, Haushofer e outros, viam o controle da "Ilha-Mundo" da Eurásia como a chave da dominação econômica, militar e política. O controle da Eurásia permitiria a um império poderoso ser autossuficiente e prosperar sem ter que depender de comércio marítimo e impérios e influência internacional dispersos. Politicamente, um império eurasiático que alcançasse autarquia também é mais provável que seja estatista, autoritário e tradicionalista do que uma potência oceânica comercial que precisaria ser mais internacionalista, classicamente liberal e socialmente progressista por causa de sua orientação econômica e cultural externalista.
Na década de 20 então, uma aliança entre a "extrema-direita" emergente das nações europeias ocidentais com a URSS de Stalin fazia sentido a nível prático e filosófico, já que ambos partilhavam de premissas políticas e econômicas importantes, e ambos se opunham à ordem capitalista ocidental. A ascensão de Josef Stalin garantiu que as tendências "internacionalistas" do comunismo soviético fossem mais ou menos permanentemente descartadas e que os "velhos bolcheviques" (i.e. os judeus) terminariam seus dias em julgamentos e execuções. Mesmo antes de Stalin consolidar plenamente seu poder, uma fação extremamente influente no NSDAP, chefiada por Gregor Strasser e Joseph Goebbels, defendia a cooperação e parceria alemães com a Rússia soviética contra o Ocidente. Uma parceria germano-soviética poderia ter acabado definitivamente com a ordem liberal.
E daí, Greg? Esse palavrório todo não é apenas autismo, masturbação ideológica e mais filosifismo nacionalista branco virtual sobre conceitos obscuros sem importância prática? Surpreendentemente não, por várias razões.
Primeiro, essa aliança nunca ocorreu, e essa obscura disputa ideológica pode ter sido, retrospectivamente, o evento mais decisivo do século XX. Em 1926, Adolf Hitler convocou uma reunião da liderança nazista na qual ele convenceu Goebbels e marginalizou a facção strasserista "nacional-bolchevique". Nos anos vindouros, Hitler chegaria ao poder com a ajuda de conservadores e nacionalistas tradicionais alemães. Em troca de controle absoluto, ele expurgaria o NSDAP de boa parte de sua esquerda; limitando os guerreiros proletários da S.A., matando Ernst Rohm e Gregor Strasser, e conquistando a maior parte da elite alemã, incluindo capitães da indústria e oficiais militares.
A razão pela qual Hitler fez isso não foi apenas porconta de diferenças de estratégia política, mas sim por causa de política externa. Hitler aceitava a teoria da "Ilha Mundial", na verdade, o vice-Führer Rudolf Hess havia sido um estudante ávido de Karl Haushofer e debates sobre o envolvimento de Haushofer na política externa nazistas e mesmo na escrita do "Mein Kampf" continuam até hoje. Porém, ao invés de parceria, Hitler defendia a conquista militar direta do Lebensraum no leste. Ao invés de amizade com ma União Soviética antiliberal, Hitler fez de sua missão destruir o que ele via como o centro do "bolchevismo judaico".
Muito alarde tem sido feito por "conservadores" idiotas (e judeus) sobre como os fascistas eram, na verdade, "esquerdistas". Muitos nacionalistas, nacional-socialistas, fascistas e outros ativistas atuais também pensam assim. A própria Horst Wessel Lied fala sobre camaradas mortos pela "reação". Certamente, Hitler não era conservador, tampouco Mussolini, ou Jose Antonio Prima de Rivera, ou Corneliu Zelea Codreanu ou qualquer um dos outros e conflitos violentos foram travados entre nacionalistas e conservadores.
Não obstante, o fato é que todos esses movimentos chegaram ao poder através de ajuda de pelo menos alguns elementos da ordem estabelecida. Os nacional-socialistas foram convidados ao governo por Hindenburg. Mussolini foi convidado a formar um governo pelo rei. A Falange espanhola lutou com os monarquistas e o exército. Os conservadores podem ter julgado estupidamente aquilo com que eles estavam lidando e os nacionalistas bem poderiam ter aniquilado os reacionários após uma vitória final na guerra. Seja o que for, apesar de muitas razões para uma aproximação nacionalista/soviética ou mesmo uma aliança, os nacionalistas por toda a Europa estava muito mais ligados à direita tradicionalista do que a qualquer ideia de nacional-bolchevismo à época da Segunda Guerra Mundial.
A consequência dessa orientação política foi a derrota.
Isso é controverso entre nacionalistas brancos. Há vários livros excelentes que dizem que Stalin sempre pretendeu invadir a Europa e que Hitler essencialmente salvou a civilização ocidental com um ataque preventivo. Não obstante, é claro que apesar do Pacto de 1939, Hitler sempre pretendeu destruir a União Soviética. Talvez uma paz nazi-soviética de longo prazo fosse impossível, mas era algo claramente mais provável que o sonho de Hitler de uma aliança com a Inglaterra. No fim das contas, Hitler era muito mais ávido por destruir a URSS do que Stalin por enfrentar a Wehrmacht.
Obviamente, a guerra de Hitler contra a URSS falhou, mas com consequências interessantes. Para garantir sua vitória, Stalin recuou rumo a uma retórica nacionalista russa, até dando concessões à Igreja Ortodoxa. A vitória soviética na Segunda Guerra Mundial foi interpretada dentro do país tanto naquela época quanto hoje não como uma vitória do proletariado internacional, mas como uma vitória da eterna e santa Rússia.
Francis Parker Yockey foi um dos poucos americanos que conseguiu ver através da retórica da Guerra Fria e notou que a Rússia poderia servir como uma barreira contra o sistema capitalista liberal inerentemente degenerativo que ele equiparava a seu próprio país. Assim, os nacionalistas brancos deveriam buscar uma aliança com a União Soviética, a qual havia se tornado, a sua própria maneira, autoritária, nacionalista, e até mesmo sutilmente antissemita. O objetivo final, é claro, era uma Europa que pudesse se afirmar novamente como potência mundial. Essas ideias, apesar de parecerem estranhas, não estavam muito longe das posições em política externa de Enoch Powell.
Interessantemente, mesmo enquanto os EUA impunham a "desnazificação" na Alemanha, novos movimentos neonazistas estavam surgindo na Alemanha Ocidental. Esses novos movimentos eram muito mais abertos a conceitos strasseristas do que a uma aliança com forças conservadoras ou nacionalistas tradicionais. Isso não é surpreendente por três razões. Primeiro, obviamente, não havia mais conservadorismo ou nacionalismo após a Segunda Guerra Mundial. Segundo, o capitalismo, desnudado de qualquer conexão, mesmo que tênue, com uma ordem tradicionalista, está na vanguarda da promoção da mestiçagem, do universalismo e das forças anti-nacionalistas. Terceiro, os movimentos neonazistas da Alemanha Ocidental foram financiados pela União Soviética.
Isso significa que a URSS era de alguma forma uma força nacionalista branca secreta? Certamente não, e é besteira sugerir isso. A União Soviética financiou guerrilhas que lavaram a Rodésia e a África do Sul em rios de sangue. Ela promoveu revolucionários latino-americanos que eram chauvinistas anti-brancos velados. A propaganda comunista constantemente atacava nosso país como racista e expunha a típica linha antirracista. Nem foi a América uma força inerentemente destrutiva. Os EUA manipularam eleições para impedir que os vermelhos tomassem Itália e França na década de 40. Nós usamos golpes militares para deter o comunismo na Grécia e no Chile, entre outros lugares. Abertamente e de forma acobertada, a América auxiliou regimes de direita ao redor do mundo no século XX e, deliberadamente ou não, lutou pelo lado pró-branco muitas vezes.
Ao mesmo tempo, é impossível não ver a União Soviética como, no fim das contas, mais tradicionalista que os EUA, especialmente conforme nos aproximamos do presente. O homossexualismo era duramente punido. A propaganda do governo focava em patriotismo e orgulho nacional. Nunca ocorreria à URSS substituir deliberadamente trabalhadores brancos por meio da imigração em massa de seus aliados do Terceiro Mundo, diferentemente do arquiconservador Ronald Reagan e sua anistia aos imigrantes ilegais de 1986. Enquanto o comunismo soviético era um sistemae econômico maligno, destrutivo e estúpido, ele não aniquilou o espírito do povo da mesma maneira que o capitalismo liberal o fez. A União Soviética simplesmente não era uma força igualitária revolucionária, mas um país estrangeiro buscando expandir sua influência e poder. Nossos próprios esquerdistas domésticos (em sua maioria trotskistas ou neoesquerdistas) fizeram mais para fazer mal à nossa sociedade do que a URSS.
Portanto, quando a URSS entrou em colapso, as velhas tradições russas ainda subsistiam sob a superfícia, esperando para eclodir novamente. Agora, porém, elas estavam misturadas com tradições soviéticas que haviam se tornado inseparáveis da própria identidade russa. Apesar de alguns acenos em direção a uma ortodoxia renovada e sentimentos de apreço pelos Romanov, uma Rússia forte era vista como ligada a uma nostalgia pelas glórias passadas da URSS. Ao mesmo tempo, a Rússia havia estado fundamentalmente isolada da torrente de igualitarismo racial que inundava o mundo ocidental, e assim o povo russo tinha um senso sadio de sua identidade branca, bem como hostilidade em relação aos judeus comunistas que mataram milhões de seus irmãos raciais. Poder-se-ia dizer que tal ambiente é fértil para um movimento nacionalista vibrante, mas poderia algum ser criado quando a identidade nacional em si está indissociavelmente ligada à derrota do nacional-socialismo?
Entram os nacional-bolcheviques.
O nacional-bolchevismo moderno está centrado na Rússia e é um produto das circunstâncias singulares do país. Os naiconal-bolcheviques enfatizam fortemente a necessidade da Rússia reestabelecer a integridade territorial da antiga União Soviética e estabelecer um império eurasiático, um produto da nostalgia russa pelo passado soviético e sua posição econômica única. Eles enfatizam uma ordem antiliberal, uma ideologia plausível já que décadas de comunismo ironicamente deixaram a academia russa mais aberta a ideias nacionalistas e de direita. Finalmente, enquanto muitos nacional-bolcheviques não são racistas, outros são e nenhum deles foi criado no hospício de lunáticos do antirracismo que o "Mundo Livre" toma como dado.
O nacional-bolchevique contemporâneo mais famoso (ou infame) é Eduard Limonov. Um escritor que frequentava a cena punk de Nova Iorque nos anos 70 e viveu na França nos anos 80, Limonovo subitamente emergiu nos anos 90 como um nacionalista demandando ação militar para recuperar território perdido com populações russas. Ele atingiu notoriedade por andar na companhia do "criminoso de guerra" sérvio Radovan Karadzic enquanto disparava um rifle em Sarajevo. Ele também escrevia para o tabloido moscovita eXile, onde seus ensaios mal traduzidos eram veiculados junto aos de Gary Brecher. Tal personagem foi feito para o teatro de rua, e Limonov entusiasticamente defendeu e participou deu ma série de ações protstando contra o governo de Vladimir Putin, eventualmente se aliando ao grupo de oposição "Outra Rússia" de Garry Kasparov.
É claro, Kasparov é um liberal fortemente apoiado pelo Ocidente, que é anátema para muitos nacional-bolcheviques. Uma cisão, assim, se formou, com a Frente Nacional-Bolchevique, qe está muito mais focada em combater a influência judaica na Rússia, bem como em defender a raça branca mais especificamente.
Este grupo está ligado a um dos "nazbols" mais influentes, Aleksandr Dugin, fundador do "Partido Eurásia". Ele defende um imenso império eurasiano centrado na Rússia, especificamente projetado para contrabalancear a ordem econômica liberal centrada nos EUA. Dugin também expressa interesse por alguns elementos do Terceiro Reich, elogiando as Waffen-SS e a Ahnenerbe. A visão de Dugin é de um "fascismo, vermelho e sem fronteiras" centrado em uma concepção de Tradição similar à de Julius Evola, com o stalinismo, o czarismo e Reinhard Heydrich todos dignos de elogio em alguma medida.
O nacional-bolchevismo está banido hoje na Rússia. Apesar de haver muitos truques publicitários, o partido não tem políticos eleitos, nem qualquer esperança de chegar ao poder por meio de eleições (ainda que os nazbols provavelmente rejeitem essa abordagem, de qualquer maneira). Então por que deveríamos nos importar?
Os nacional-bolcheviques, apesar de banidos, não são marginalizados da mesma maneira que nacionalistas brancos são na América, ou que os membros do Partido Comunista. Os nacional-bolcheviques são parte importante dos principais grupos de oposição na Rússia e não raro são retratados pela mídia americana como "ativistas democráticos".
A influência nazbol também vai além de seus membros. A facção anti-Limonov tem suas ideias levadas a sério em todos os níveis do governo russo. Dugin não é uma figura marginal. Ele está ligado a muitos dos assessores mais influentes de Vladimir Putin, sua retórica é copiada pelo Kremlin, e seus escritos são citados ao redor do mundo tanto pela imprensa quanto por escritores de direita na América. As tentativas da Rússia de conservar e expandir sua esfera de influência em suas proximidades tem muitos paralelos com o que pareceria uma política nacional-bolchevique. Qualquer nazbol concordaria entusiasticamente com Vladimir Putin de que o colapso da URSS foi "o maior desastre geopolítico do século XX". O sucesso de Putin em fundir símbolos do Exército Vermelho com o patriotismo tradicional russo também se encaixa bem com as ideias nazbol.
O nacional-bolchevismo, longe de ser uma ruptura radical com a política russa contemporânea, é simplesmente a forma mais extrema de tendências que já existem. Como a Rússia é a única nação branca que ainda está fora do controle do sistema estabelecido em alguma medida, o nacional-bolchevismo é digno de estudo no mínimo para indicar o que o futuro pode reservar para a Terceira Roma.
O nacional-bolchevismo é, tanto na teoria quanto na prática, o conceito mais anti-americano que possivelmente poderia ser criado, se a América for definida como o exemplar do capitalismo liberal. O nacional-bolchevismo ameaça diretamente a base do poder econômico americano (livre-comércio e a ordem internacional liberal), poderio militar (OTAN e preponderância militar americana), valores morais (militarismo, disciplina, estatismo, Tradição e orgulho nacionalista contra direitos humanos, governo limitado e consenso internacional). Ele representa, assim, uma ideologia atraente para aqueles que sentem repulsa pela América moderna e que se excitam com um movimento político com apelo estético inegável, vitalidade intelectual e ativismo de rua por hordas de seguidores jovens e saudáveis.
Ao mesmo tempo, o nacional-bolchevismo é melhor visto como um fenômeno russo, uma manifestação de algumas demandas únicas da história russa em relação à identidade daquele povo. Ele combina com sucesso nostalgia pela força geopolítica da URSS com um programa e simbolismo de reconstrução. Ele permite que os russos reivindiquem as realizações soviéticas ao mesmo tempo que rejeitam o comunismo e o controle judaico. Ele lhes permite serem nacionalistas sem serem nazistas, uma necessidade em um país no qual a invasão alemã matou milhões. Mesmo aqueles russos que não são nacional-bolcheviques partilham de muitas dessas premissas. O nacional-bolchevismo simplesmente as leva a sua conclusão lógica.
Mas o que isso significa para nós? Eu concordo com Yockey que a ordem liberal dos EUA é ainda mais destrutiva para a raça branca a longo prazo que o comunismo. Porém, levantar uma foice e martelo ou denunciar seu próprio país não é a resposta. A chave para nacionalistas brancos é desenvolver uma oposição ao sistema que desconstrua a ideologia hegemônica, forneça uma alternativa real, e, crcialmente, se apresente em termos e com símbolos que a população-alvo possa compreender e apreciar.
Certamente, os EUA tem muito em sua história que pode ser utilizado por nacionalistas brancos. A caricatura da América como uma abstração ideológica construída sobre uma combinação de dinheiro, maçonaria, liberalismo e judaísmo pode servir para atingir pontos retóricos quando se descreve a situação hoje, mas ele dificilmente sumariza a história desse país. Houve corrupção e veneno desde o início, mas houve muito de verdadeiro também. A verdade está ao nosso lado no que concerne a história americana.
Eu não estou dizendo que deveríamos ignorar essas correntes ou que elas não importam. Os intelectuais devem explorar essas ideias e líderes políticos precisam estar conscientes do significado mais profundo das premissas intelectuais de movimentos políticos e culturais. Nós podemos discutir sobre se o Führer cometeu um erro catastrófico ao se apegar a uma visão simplista do "bolchevismo judaico" quando a URSS da década de 30 já era algo bastante diferente. Um pouco menos de chauvinismo alemão poderia ter ajudado.
Ao mesmo tempo, as ideias não se desenvolvem em um vácuo. Não há torre de marfim. As ideias não só movem a história, a história também molda ideias, permitindo àqueles que correspondem às necessidades dos povos se erguer à proeminência e se tornarem credos para ação. A história não é apenas a execução de premissas ideológicas, na verdade, ideias e ideologias são muitas vezes simplesmente a justificativa retórica dada à busca de interesses concretos por atores políticos.
Não vamos nos enterrar em abstrações ou, pior, lutar uns com os outros por credos obscuros. É impossível desenvolver uma teoria "correta" e aplicá-la às circunstâncias. A ideologia deve ser flexível e capaz de se adaptar às realidades políticas, ao mesmo tempo mantendo uma determinação férrea nos objetivos a serem realizados. A ideologia é uma ferramenta, ela não é nosso mestre.
Para nacionalistas brancos americanos, o nacional-bolchevismo é algo a ser estudado, pelas verdades reveladas nele e por sua importância para a política contemporânea, mas não como algo a ser imitado. Mesmo os "nazbols" são produto da história, não uma transcendência. A questão real é como nós americanos podemos usar nossa história única, com todas as contradições e complexidades, glórias e derrotas, para moldarmos a Ideia que construirá nossa República branca.
05/07/2016
Kerry Bolton - Brexit e a Falácia da "Independência" Britânica
por Kerry Bolton
Nigel Farage do Partido da Independência do Reino Unido se referiu ao referendo que, por pouco, viu os britânicos votando pelo abandono da União Europeia como marcando o "Dia de Independência" da Grã-Bretanha. O Brexit foi promovido em boa medida em cima da premissa de que a União Europeia é responsável pelo multiculturalismo britânico, e que a imigração ameaça o modo de vida britânico. Há uma certa euforia resultante da crença de que isso significa o início do renascimento britânico. Há algumas falhas sérias nesses argumentos.
Primeiramente, os problemas britânicos com a imigração e o multiculturalismo não se originam primariamente da participação na União Europeia. Segundo o Departamento Nacional Britânico de Estatísticas: "624.000 pessoas imigraram para o Reino Unido até setembro de 2014, um aumento estatístico significativo em relação aos 530.000 dos 12 meses anteriores. Há aumentos estatísticos significativos na imigração de cidadãos de fora da UE (de 49.000 para 292.000) e cidadãos (não-britânicos) da UE (de 43.000 para 251.000)". A maior parte dos imigrantes britânicos nunca veio da UE. Enquanto a Grã-Bretanha verá uma redução na imigração vinda da Espanha, Polônia, Itália, etc., eles não verão essa redução de países africanos e resultados como resultado do Brexit.
O Brexit foi promovido com base em um retorno à independência britânica. O que "independência" significa realmente? Independência de quem e para quem? Talvez seja possível dizer que a Grã-Bretanha não tem sido independente, isto é que a Grã-Bretanha não tem tido soberania para fazer política com base apenas em interesses britânicos, desde a criação do Banco da Inglaterra em 1964. Nigel Farage mencionou que o Brexit era um voto contra os grandes bancos mercancis e contra as corporações. É verdade que esses interesses queriam que a Grã-Bretanha permanecesse na União Europeia. Mas como o poder das instituições financeiras sobre o Reino Unido vai diminuir um pouquinho que seja ao se abandonar a UE? A Grã-Bretanha ainda vai estar pegando dinheiro emprestado com bancos internacionais. A Grã-Bretanha ainda vai estar fazendo comércio através do sistema comercial global facilitado pelos bancos. Brexit não significa que a Grã-Bretanha passará a emitir seu próprio crédito estatal, ou que ela começará a fazer comércio por escambo, fora do sistema financeiro internacional. Nem o próprio Partido da Independência do Reino Unido possui uma política financeira que inclua uma reforma bancária: ela se baseia em reforma tributária e reduzir ajuda a outros países. O sr. Farage até mesmo disse em seu discurso de vitória em relação ao Brexit que a Grã-Bretanha será "global". Como este tipo de sentimento se encaixa com a palavra "independência" de seu próprio partido? A mesma situação se aplica aos outros partidos "eurocéticos" que agora demandam que suas nações realizem um referendo sobre a participação na UE. Geralmente, esses partidos, ditos "de direita", acreditam em economia de mercado e comércio global.
Talvez haja visões da Grã-Bretanha retornando às velhas preferências comerciais da Commonwealth? Esse era o ideal do National Front durante seu ápice na Grã-Bretanha nos anos 70; construir um bloco de Domínios Brancos que resistiria ao financismo internacional. A oportunidade para isso se foi há muito tempo. Nova Zelândia, Austrália e Canadá já sucumbiram aos arranjos comerciais globalistas como o TTPA, e ao livre-comércio com a China e outras economias asiáticas em expansão, que são em si parte do sistema financeiro internacional.
E quanto a outras áreas importantes da "independência", como a política externa? A Grã-Bretanha continua na ONU, uma versão internacional da burocracia da UE. A Grã-Bretanha é o quinto maior contribuinte financeiro da ONU, fornecendo 5% do orçamento anual da ONU e 6.7% de seu orçamento "pacificador" para 2015.
A Grã-Bretanha é o quarto maior contribuinte para o orçamento da OTAN, com 10.5%. A Grã-Bretanha é parte dessa organização militar global, junto a outros países da UE e muitos outros, para o propósito de manter uma "nova ordem mundial" baseada na hegemonia americana. Porém, de maior importância do que as contribuições financeiras para a OTAN é a subserviência a interesses globalistas.
Em conclusão, o Brexit não fez nada para estabelecer a Grã-Bretanha como um Estado soberano, resgatar a Grã-Bretanha do impasse multiculturalista ou avançar políticas soberanas na economia, finanças e política externa. Ela estará buscando mercados dentro do mesmo sistema globalista, pagando dívidas para os mesmos bancos internacionais e enviando tropas segundo as necessidades globalistas. Há ainda o prospecto da saída da Escócia do Reino Unido para continuar ligada à UE. O Sinn Fein também comentou que eles demandarão que a Irlanda do Norte se una à Irlanda para permanecerem na UE. Neste evento, o povo de Ulster reagirá, com o prospecto de uma guerra civil bastante sangrenta. O prospecto agora é que não haverá Reino Unido, para o bem ou para o mal.
Em prol de algumas economias em relação ao orçamento da UE limitando a recepção de imigrantes europeus, a Grã-Bretanha não ganhou nada em prol de sua independência ou por sua integridade cultural. O que foi alcançado por dar aos britânicos a ilusão de liberdade e renascimento.
01/07/2016
Ananda Coomaraswamy - O Sentido da Morte
por Ananda Coomaraswamy
"Ez ist nieman gotes riche wan der ze grunde tót ist" - Meister Eckhart (Pfeiffer ed., p. 600)
O sentido da morte está inseparavelmente ligado ao sentido da vida. Nossa experiência animal é apenas de hoje, mas nossa razão toma contas também do amanhã; daí, na medida em que nossa vida é intelectual, e não meramente sensorial, nós estamos inevitavelmente interessados na questão, O que acontece "conosco" no amanhecer da morte. Essa é, evidentemente, uma pergunta que só pode responder em termos do que ou quem "nós" somos agora, mortal ou imortal: uma questão da validade que ligamos, por um lado, a nossa convicção de ser "este homem, tal e tal" e, do outro lado, a nossa convicção de ser incondicionalmente.
Toda a tradição da Philosophia Perennis, oriental e ocidental, antiga e moderna, faz uma distinção clara entre existência e essência, devir e ser. A existência desse homem tal e tal, que fala de si mesmo como "Eu", é uma sucessão de instantes de consciência, dos quais nenhum é igual a outro; em outras palavras, este homem jamais é o mesmo homem de um momento para o próximo. Nós conhecemos apenas passado e futuro, nunca um agora, e assim jamais há qualquer momento em relação ao qual possamos dizer de nosso eu, ou de qualquer outra apresentação, que ele "é"; assim que perguntamos o que ele é, ele já se "tornou" outra coisa; e é apenas porque as mudanças que ocorrem em qualquer período breve são normalmente pequenas que nós tomamos o processo incessante por um ser real.
Isso se sustenta tanto em relação à alma quanto em relação ao corpo. Nossa consciência é uma corrente, tudo flui, e "você jamais molha os pés duas vezes nas mesmas águas". Ademais, consideradas individualmente, cada corrente de consciência teve um início, e deve também ter um fim. Mesmo que assumamos que uma continuidade individual de consciência possa sobreviver à dissolução do corpo (como não seria inconcebível se supôssemos a existência de uma variedade de suportes substanciais não tão grosseiros quanto, mas mais sutis do que, a "matéria" que nossos sentidos normalmente registram), é evidente que tal "sobrevivência da personalidade", ainda envolvendo uma duração, não dá prova de que tal existência deva durar para sempre. O universo, independentemente de quantos diferentes "mundos" (i.e., loci de compossíveis) se possa pensar que ele abarque, não pode ser pensado separado do tempo; nós não podemos, por exemplo, perguntar O que Deus estava fazendo antes de criar o mundo? ou O que ele estará fazendo quando ele acabar? porque o mundo e o tempo são concomitantes e não podem ser pensados em separado. Se nós supormos que o universo teve um começo, nós também supomos que isso signifique que o que quer que exista no tempo e no espaço deve chegar a um fim mais cedo ou mais tarde. Nós enfatizamos este ponto porque é importante perceber que as "provas" espíritas da sobrevivência da personalidade, mesmo que aceitemos sua validade, não são provas de imortalidade, mas apenas de um prolongamento da existência pessoal. Presumir uma sobrevivência da personalidade é apenas adiar o problema do sentido da morte.
Toda a tradição da qual estou falando assume, então, e nesse sentido concorda com a opinião do "materialista" ou do "nada-mais", de que para este homem, tendo tal nome, aparência, e qualidades, não há possibilidade de uma imortalidade; sua existência sob quaisquer condições é uma sempre em devir, e "todo mudar é um morrer". É sustentado, também com base na autoridade e na razão, que "este homem" é mortal, e que "não há consciência após a morte". Tudo que nasce deve morrer, tudo que é composto deve se decompor, e seria inútil lamentar pelo que é inerente à própria natureza das coisas.
Mas a questão não termina aqui. É verdade que nada que seja mortal por natureza pode se tornar imortal, não importando quanto possa durar. A tradição, porém, insiste em que devemos "conhecer nosso eu", o que e Quem somos. Ao confundirmos nossa intuição-de-ser ou consciência-de-ser-assim-e-assado, nós podemos ter esquecido de nós mesmos. O caso é, na verdade, um de amnésia e identidade trocada. Lembremos que uma "pessoa" é primariamente uma máscara e disfarce adotado, que "todo o mundo é um palco", e que pode ter sido uma ilusão um tanto infantil ter assumido que as dramatis personae [o "elenco"] eram as "próprias pessoas" dos atores. Do ponto de vista de nossa tradição, o cogito ergo sum cartesiano ["Penso, logo existo"] é um absoluto non sequitur ["Não se segue"] de um argumento circular. Porque eu não posso dizer cogito ["Eu penso"] realmente, mas apenas cogitator ["Pensamento"]. "Eu" nem penso, nem vejo, mas há um Outro que vê, ouve, pensa em mim e age através de mim; uma Essência, Fogo, Espírito ou Vida que não é mais ou menos "minha" do que "sua", mas que nunca se torna alguém; um princípio que informa e vivifica um corpo após o outro, e em relação ao qual não há outro que transmigre de um corpo para o outro, um que nunca nasce e nunca morre, apesar de presente em todo nascimento e morte ("nem um pardal caiu no chão..."). Esse é uma Vida que é vivida dove s'appunta ogni ubi ed ogni quando [Onde o "quando" e o "onde" estão focados], um lugar sem dimensões, e um agora sem duração, do qual a experiência empírica é impossível, e que só pode ser conhecido imediatamente. Essa Vida é o "Fantasma" do qual "abrimos mão" quando este homem morre e o espírito retorna a sua fonte e o pó ao pó.
Toda nossa tradição, por todo lugar, afirma que "há dois em nós"; as "almas" mortal e imortal platônicas, nefesh (nafs) e ruah (ruh) hebraica e islâmica, a "alma" e a "Alma da alma" de Philo, O faraó egípcio e seu Ka, o Sábio Interior e o Exterior dos chineses, o Homem Interior e Exterior dos cristãos, psyche e pneuma, e o "eu" (atman) e o "Eu Imortal do eu" (asya amrta atman, antah purusa) - uma a alma, eu ou vida que Cristo demanda que "odiemos" e "neguemos", se quisermos segui-lo, e a outra alma ou eu que pode ser salvo. Por um lado, somos comandados "Conheça-te a ti mesmo", e pelo outro lado, "Isto (o Eu Imortal do eu) é tu". Levanta-se então a questão, Em quem, quando eu ir adiante, deverei seguir? Em meu eu, ou em seu Eu Imortal.
Depende da resposta para essa pergunta a resposta para a pergunta, O que acontece com o homem após a morte? É evidente, porém, do que foi dito, que essa é uma pergunta ambígua. Com referência a quem se pergunta, este homem ou o Homem? No caso desse homem, nós só podemos responder perguntando, O que há nele que poderia sobreviver além de como herança para seus descendentes? e no caso do Imortal, apenas perguntando, O que há nele que morra? Se nessa vida - e "uma vez fora do tempo, sua chance se foi" - nós lembramos nosso Eu, então "Tu és isto", mas caso contrário, então "grande é a destruição".
Se nós conhecemos aquele Homem, podemos dizer com São Paulo, "Eu vivo, porém não eu, mas Cristo em mim". Quem quer que possa dizer isso, ou seu equivalente em qualquer outro dialeto der einen Geistessprache, é o que é chamado na Índia um jivan-mukta, um "homem livre aqui e agora". Este homem, Paulo anunciou sua própria morte; as palavras "Contemplem um homem morto andando" poderiam ter sido ditas sobre ele. O que dele permaneceu quando seu corpo cessou de respirar, senão Cristo? - aquele Cristo que disse, "Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu."
"O reino do Céu não é para ninguém além dos completamente mortos" (Meister Eckhart, Evans ed. I, 419). Assim, nas mesmas palavras do Mestre, "a alma deve matar a si mesma". Pois o que mais significa "odiar" e "negar" a nós mesmos? Não é verdade que "toda a Escritura clama pela liberdade do eu"?
Como l'uomo s'eterna? ["como o homem se torna eterno"] A resposta tradicional pode ser dada nas palavras de Jalalu'd-Din Rumi e Angelus Silesius: "Morra antes de morrer". Só os mortos podem saber o que significa estar morto.
25/06/2016
Fernando José Vaquero Oroquieta - Carlismo: O Movimento de um Povo Católico por seu Rei
No último domingo 8 de maio, algumas dezenas de pessoas se reuniram, convocados pelo Partido Carlista, em memória e homenagem das duas vítimas mortais dos acontecimentos de Montejurra do ano de 1976: 40º aniversário, nada menos. Fatos, lembremos, ainda não esclarecidos em sua totalidade e dos quais atores políticos muito diversos obtiveram certos benefícios: desde a aparente superação definitiva de um pleito dinástico centenário, em benefício de Juan Carlos I, então, e Felipe VI hoje, até a captação de quadros e eleitorado por parte de alguns partidos.
Outra vez mais, a ladeira de Montejurra foi testemunha, neste domingo de maio, da presença de boinas vermelhas. Mas, que longe ficava aquele ano de 1974 em que 40 mil pessoas se concentraram ali ao redor de seu porta-bandeira, Carlos Hugo, e suas irmãs!
Apesar de cifras tão díspares, e seu enraizamento social correspondente, Montejurra vem sendo o reflexo débil de um movimento popular extraordinário; fundamental na História da Espanha.
Por isso quisemos refletir sobre o mesmo, assinalando algumas chaves que possam permitir compreender melhor uma História da qual todos os espanhois somos, em alguma medida, tributários.
Para a historiografia dominante (caso, entre outros, de Jordi Canal i Morell, Martin Blinkhorn, etc.) o carlismo foi um movimento contrarrevolucionário orientado para a guerra civil. Mas, com um olhar e conclusões contraditórias com a apresentação ideológica e apriorística anterior, um grupo de historiadores, os quais encontramos em grande medida ao redor da Revista de História Contemporânea Aportes, vem realizando diversas investigações de resultados muito diversos.
Este preconceito ideológico, que etiqueta negativamente o carlismo, também encontramos em outros meios; inclusive no seio da própria Igreja Católica espanhola. Desse modo, por exemplo, se ignora com silêncios ou omissões que foram carlistas muitos dos alunos entusiastas da, à época, nova Doutrina Social católica de Leão XIII; o que se concretizou em sindicatos, cooperativas, editoras, mutualidades e obras sociais de vários tipos e alcance. E tudo isso sem esquecer que um grupo significativo de "mártires" da guerra civil espanhola, beatificados no último ano, eram carlistas.
Dois Testemunhos sobre o Carlismo
Para enquadrar este estudo, reproduziremos dois testemunhos muito interessantes
O navarro Gregorio Monreal, histórico militante nacionalista basco hoje em Geroa Bai, que foi catedrático de História do Direito na Universidade Pública de Navarra e antigo reitor da do País Basco, em uma longa entrevista publicada na revista de extrema-esquerda Hika (número duplo 121/122, abril/maio de 2001, páginas 14 a 18), realizava a seguinte reflexão familiar sobre o carlismo: "...E vou dar-te um exemplo que tiro de meu próprio meio familiar, concretamente de minha mãe, procedente do vale de Yerri, sancta sanctorum do carlismo. Essa família, que não havia tido nunca relação com a cultura liberal, se dividiu quase meio a meio entre UPN e HB".
Por outra parte, o escritor navarro Miguel Sánchez-Ortix, recebedor do prêmio Príncipe de Viana 2001 da Cultura, respondia em 1 de julho de 2001 da seguinte maneira à pergunta: "Por que resgata o carlismo?", ao jornalista do Diário de Navarra: "Fundamentalmente porque está na raiz de nosso presente. Me resulta muito enigmático que o movimento carlista, que sangrou nessas terras durante 150 anos, que está na origem da última Guerra Civil, que todas as sequelas que deixou em Navarra de rupturas familiares, ruínas econômicas, a emigração à América que provocou... Que tudo isso, em uma manhã, a de 9 de maio de 1976 em Montejurra, deixasse o carlismo ferido de morte, é um assunto muito enigmático. Para onde foi toda essa massa de gente que nos anos 60 acuda a Montejurra aos milhares? Há que ver que houve uma transferência, estimo, tanto para o socialismo, como para o Herri Batasuna". E, à seguinte pergunta do jornalista, "E essa transferência foi por medo?", responde: "Não. Não tem nada a ver com medo. Pode ser que fosse uma ideologia que tinha muito pouco futuro em um mundo que mudou tanto. O tecido social de Navarra mudou demais. Não sei se a ideologia carlista, por muito estimável que seja, pode seduzir às pessoas".
Não é nenhuma temeridade afirmar que o denominado "carlismo sociológico" desapareceu quase totalmente. Não obstante, encontramos antigos carlistas, ou filhos de carlistas, em todo o espectro político navarro, tanto em suas bases, como em seus níveis dirigentes. De fato, alguns dos mais qualificados representantes da política navarra nos anos 70 e 80 do século passado podiam ser incluídos nessa categoria. Recordemos, a título simplesmente de exemplo, Federico Tajadura, dirigente da esquerda do PSOE, Jaime Ignacio del Burgo (jurista, escritor e político de longa trajetória na centro-direita navarra), Florencio Aoiz Monreal (de família carlista de Tafalla e porta-voz de Batasuna em sua épocA), Juan Cruz Alli (líder do disolvido partido Convergencia de Democratas de Navarra, ex-presidente do governo de Navarra) e tantos outros.
Podemos nos perguntar, com que critério, desde que impulsos ideológicos ou existenciais, se adscreveram tantos, como antigos carlistas, a umas ou outras forças políticas percebidas como mais "atuais"? Por acaso se pode afirmar que aqueles de convicções navarristas e espanholistas mais acentuadas engrossaram as fileiras da União do Povo Navarro; não em vão, hoje em dia, em algumas zonas do norte de Navarra, a base desse partido é basicamente gente de antiga pertença carlista. Por outro lado, muitos jovens, da etapa final do carlismo "socialista", engrossaram as fileiras do Herri Batasuna e suas sucessivas "marcas". Por sua vez, alguns outros se integraram, o que se pode explicar pelo sentimento social do carlismo, nas fileiras do PSN-PSOE e outros partidos à esquerda.
O Movimento Carlista
Desde tamanha disparidade e dispersão, como podemos definir e caracterizar o carlismo? A resposta é importante, pois a mesma poderia nos proporcionar algumas pistas fundamentais para entender seu aparente e brusco desaparecimento e a complexa situação política e social pela qual passa Navarra.
Para isso, partiremos de uma declaração oficial do próprio carlismo, emitida em um momento especialmente delicado de sua história. Assim, mediante o Real Decreto de 23 de janeiro de 1936, Don Alfonso Carlos estabelecia a Regência com as seguintes precisões:
"Tanto o Regente em suas obrigações como as circunstâncias e aceitação de Meu sucessor, devem sujeitar-se respeitando como intangíveis aos fundamentos da legitimidade espanhola, a saber:
I - A Religião católica, apostólica, romana com a unidade e consequências jurídicas com que foi amada e servida tradicionalmente em Nossos Reinos.
II - A constituição natural e orgânica dos Estados e corpos da sociedade tradicional.
III- A federação histórica das distintas regiões e seus foros e liberdades, integrantes da unidade da Pátria espanhola.
IV - A autêntica monarquia tradicional, legítima de origem e exercício.
V - Os princípios e espírito e, na medida do praticamente possível, o próprio Estado de direito e legislativo anterior ao mal chamado Direito Novo".
Agora vejamos alguma resposta científica emitida a partir da abundante historiografia especializada.
A historiadora Aurora Villanueva, em seu livro O Carlismo Navarro durante o Primeiro Franquismo (Actas, Madri, 1998), o caracteriza da seguinte maneira: "Configurado politicamente ao redor de fidelidades pessoais, ao pretendente e sua dinastia, o carlismo constituiria o sinal de identificação daqueles que, no universo individualista característico do sistema político e cultural liberal, participavam de uma visão tradicionalista da vida e do mundo. Uma 'comunhão' de pessoas aglomerada ao longo da história sobre o eixo da lealdade a certas ideias e uma dinastia" (pg. 531). Fidelidade, antes de tudo, à legitimidade dinástica e a um ideário muito preciso; ambos elementos em simbiose perfeita.
De sua parte, o prolífico historiador Josep Carles Clemente considera, em sua abundante bibliografia, que o carlismo se caracterizava, ademais dos anteriores elementos, por se tratar de um movimento popular e de protesto. Originado no seio do legitimismo espanhol do século XIX, integraria em seu ideário indubitáveis conceitos ideológicos modernos (desde nosso ponto de vista, herança expressa do cristianismo): federalismo, profundas aspirações sociais, sentido de protesto. As relações desse povo com seus líderes, assegura Clemente, quase nunca teriam sido exemplares, ainda que em geral, os defensores máximos do carlismo teriam sim respondido aos anseios de seu povo. Tradicionalismo, integrismo, franco-juanismo, teriam sido, opina o citado historiador, tendências ideológicas inseridas posteriormente no carlismo, mas com uma intencionalidade instrumentalizadora de tão generoso movimento; mas que não responderiam ao sentimento geral da base.
Clemente conclui sua elaboração afirmando que foi com o já falecido Carlos Hugo que o povo carlista teria alcançado o mais alto grau de fusão com seus líderes naturais, já despojados dos elementos dissonantes; o que não impediu sua debandada geral por ocasião do fracasso eleitoral do partido em 1979. Em consequência, para este autor, os carlistas concentrados no último 8 de maio seriam os últimos e diretos representantes desse "povo em marcha" que percorreu boa parte dos séculos XIX e XX.
Os autores tradicionalistas, de sua parte, proporcionam uma perspectiva bastante distinta. Consideram, em seu conjunto, que a rápida evolução ideológica, da Comunhão ao "socialismo autogestionário e federalista" do Partido Carlista, teria sido forçada e "contra natura". Dita transformação, impulsionada por um pequeno grupo de líderes e quadros, que utilizaram o instrumento dos "cursinhos" dos anos 60 e 70 empenhados em uma "modernização" a todo custo, os teria levado à trincheira contrária; o que teria provocado, ou acelerado, a desarticulação desse povo e inclusive do chamado "carlismo sociológico".
Para alguns desses autores, e para a atual Comunhão Tradicionalista Carlista, esta. refundada já há 30 anos no Congresso de El Escorial, seria o agrupamento herdeiro desse carlismo extraordinário que assombrou aos próprios e a estranhos.
Em todo caso, retomemos a pergunta inicial, como é possível que um movimento político popular, centenário, vigoroso, que atravessou provas tremendas, desapareça quase de um só golpe?
Já mencionamis que a historiadora Aurora Villanueva descreve o carlismo como um fenômeno político, sociológico e ideológico completo. Paradoxalmente, foi nos períodos liberais da história recente da Espanha que o carlismo pode se expressar e desenvolver ideologica, orgânica e sociologicamente. Villanueva descreve em seu texto, documentadamente, o processo agônico de desintegração que sofreu, em Navarra, esse carlismo que não conseguiu se adaptar à semiclandestinidade em que o regime de Franco o colocou; depois de terminada totalmente a guerra civil. Por outra parte, as convicções religiosas e semitradicionalistas do regime puderam contribuir para a desmobilização de setores importantes do carlismo; os quais se sentiriam acomodados no mesmo.
Nesse estado de coisas, e nas décadas seguintes, o carlismo sofreu novas fraturas: falcondismo, carlosoctavismo, juanismo... Analisando os fatos descritos em seu livro, concluímos que a sorte do carlismo foi jogada por umas poucas dezenas de protagonistas, no que concerne Navarra, a "Israel do carlismo"; permanecendo em boa medida alheia a tudo isso sua massa popular, acomodada a um regime que afirmava, ao menos no papel, boa parte de seus princípios.
Enquanto isso, a sociedade espanhola se transformava aceleradamente: se consumava o êxodo do campo à cidade, diminuindo assim a influência do clero rual (muito implicado, como no caso de Navarra, no sustento do carlismo); a família tradicional iniciava uma lenta, mas inexorável transformação; novos ares sopravam no seio da Igreja; etc.
Uma Hipótese
A estas alturas de nosso estudo, como caracterizar, sinteticamente, o carlismo?
Resumindo os diferentes elementos comuns assinalados anteriormente, a nosso juízo o carlismo seria um "movimento de um povo católico por seu rei". O povo tradicional espanhol, mobilizado durante mais de um século a serviço de seus ideais e da "Dinastia Legítima". E, no que se refere a sua crise, assinalemos que tal não pode se separar da que sofre a Espanha e a própria Igreja Católica.
Desde essa perspectiva, o tradicionalismo e, posteriormente, o socialismo autogestionário carlista dos anos 70, não teriam sido senão tentativas de ideologização de um movimento em crise e certa indefinição doutrinária desde seus primórdios.
Esfumaçada a liderança e atrativo do "rei legítimo", questionada em seus fundamentos a "unidade católica" sustentadora da Espanha à raiz de novas correntes impulsionadas a partir do Vaticano II, atomizado e disperso em consequência seu povo, persistem, mesmo hoje, famílias e pessoas e profundas convicções ideológicas. Pelo contrário, boa parte do antigo povo carlista se diluiu, com maior ou menor convicção, nas fileiras de outras forças políticas que consideraram mais afins a sua sensibilidade; tudo isso em consonância com o movimento geral da sociedade.
Avançando nessa hipótese, deve se destacar, antes de tudo, a profunda religiosidade do movimento carlista; enquanto que outros componentes doutrinários, à parte a dinâmica dessa relação povo-rei, seriam ingredientes ideológicos mais acidentais.
Francisco Javier Caspistegui Gorasurreta em seu livro O Naufrágio das Ortodoxias, o Carlismo, 1962-1977 (EUNSA, Pamplona, 1997) explica como o impacto das novas correntes teológicas derivadas do Vaticano II foram determinantes na rápida evolução ideológica experimentada pelo carlismo nas décadas de 60 e 70. A transformação de alguns movimentos eclesiásticos rumo a posturas de extrema-esquerda afetou também mutos dos homens e mulheres do carlismo. Exemplifica tal hipótese na trajetória de duas pessoas: Antonio Izal Montero (carlista navarro que assumiu com paixão as novas correntes da Igreja) e Alfonso Carlos Comín (figura paradigmática do progressismo católico catalão dos anos 60 e de grande influência em determinados ambientes intelectuais "comprometidos"; filho de um dirigente carlista aragonês).
Desse modo, na página 46 do texto citado, se recolhe um parágrafo esclarecedor: "O carlismo não ia ser uma exceção neste ambiente de mudança, ainda mais em se tratando de um movimento cuja estrutura social marcadamente diferenciada entre dirigentes e dirigidos, faria com que sua ampla e pouco ideologizada base aceitasse com rapidez as transformações que iam introduzindo-se na variável sociedade espanhola do momento. Ademais, a debilidade de estruturas ideológicas fazia com que o que houvesse de político em sentido doutrinário se diluísse no muito mais pujante carlismo sociológico, mais apto às mudanças ante influxos diversos, pouco condicionado pelos escassos esquemas doutrinários existentes no carlismo, ainda que sem deixar de lado as possibilidades que uma doutrina como a carlista, apesar de suas limitações, oferecia para a renovação, insistindo em um rechaço ao imobilismo enquanto tal...".
No que concerne o veículo da transformação ideológica operada, em suas páginas 52 e 53 o concretiza assim: "Através dele (o religioso) faria ato de presença um elemento que, aos poucos, de forma real ou imaginária, como mito do dissolvente ou como efeito de uma realidade mutante, se apossou das obsessões e ilusões de boa parte do carlismo, contribuindo de maneira importante para a aceleração das mudanças nele. O mito do progressismo ia se introduzir no carlismo, utilizado como desculpa para a crítica ou como via para a reforma. Este progressismo de raiz religiosa ia muito unido ao processo de atualização que afrontava a Igreja desde o começo do pontificado de João XXIII".
Aqueles anos de regência foram muito críticos para o carlismo, ao que se somou a semiclandestinidade da Comunhão e a despolitização do regime franquista; segundo víamos antes. Apesar disso, a figura de Xavier de Borbón-Parma seguiu agregando boa parte das adesões das "primeiras figuras" do carlismo, ainda que se produzissem algumas defecções políticas importantes; caso do que foi Chefe Regional de Catalunha e impulsionador, posteriormente, da denominada Regência de Estella, Mauricio de Sivatte. Mas essa adesão mingua progressivamente, ao longo dos anos 60, com a saída de diversas figuras significativas da Comunhão por motivações diversas.
Um dado concreto avaliza essa religiosidade fundamental do movimento carlista: ainda hoje, boa parte das vocações ao sacerdócio surgidas nos últimos anos em Navarra, assim como à vida contemplativa, o foram no seio de famílias carlistas. Famílias que souberam transmitir o legado carlista; parelho a sua profunda e indubitável experiência católica.
Voltemos a nossa tese. Conforme essa concepção do carlismo seria necessário diferenciar três elementos hmanos, estruturais consubstanciais, que o integrariam: o povo, os líderes, o rei.
A sintonia povo-rei teria sido, em geral, magnífica. Mas a continuidade dinástica se interrompe em 1936 por causa da morte de Dom Alfonso Carlos de Borbón Austria-Este, estabelecendo-se uma regência. Este novo período histórico do carlismo, iniciado em plena guerra civil, coincidindo com o esforço militar que absorveu todas as suas energias durante anos tão transcendentais, se prolonga até o chamado "Ato de Barcelona" (31 de março de 1952). Dessa forma, e em pleno franquismo, se produziu a assunção do caudilhismo monárquico da Comunhão, ante seu Conselho Nacional, pelo até então regente Dom Xavier de Borbón-Parma, pai de Dom Hugo Carlos (mais tarde Carlos Hugo); após muitas dúvidas e vacilações.
Essa interrupção na continuidade da "dinastia legítima" coincidiu, na época, com a desmobilização de boa parte das massas carlistas posterior ao término da guerra civil; com uma Comunhão Tradicionalista ilegal. Neste sentido, Aurora Villanueva proporciona algumas novas chaves de máximo interesse. Assim, na página 536 de seu livro: "E é que ambos, carlismo e franquismo, procediam do mesmo universo mental: o tradicionalismo cultural do fim do século XIX e início do XX. Daí que o esforço dos líderes carlistas por manter o carlismo organicamente diferenciado alcançasse tão somente os setores de militantes mais politizados, enquanto que as bases, do carlismo sociológico, encontravam fácil acomodação no regime de Franco. Quiçá aqui resida a razão última da perda de sinal de identidade carlista durante o regime franquista".
A reativação do carlismo com um novo pretendente à cabeça (Dom Xavier) e, anos depois, com m projeto político diferenciado já em oposição aberta ao franquismo, após certa reconciliação prévia, coincide com o processo de transformação social operado na Espanha e com as mudanças da Igreja Católica. Tudo isso impulsionou a rápida evolução ideológica do carlismo (retificação ou definição, segundo seus impulsionadores), que acarretou o distanciamento progressivo de seus elementos inequivocamente tradicionalistas; perante o desconcerto de boa parte da base desse povo em desintegração.
O papel dos líderes teria que ser questionado em maior medida; a história nos desenha múltiplos dissensos, cisões, mudanças de estrategia, expulsões, mudança de partido, etc., protagonizados por muitos deles. Todos esses movimentos fracassaram, entendendo-os como projetos coletivos, sendo, ao contrário, polo de atração do povo carlista a pessoa concreta do porta-estandartes que encarnava a continuidade da dinastia legítima e a mesmíssima autopercepção das Espanhas.
Resumamos, pois. A sintonia povo-rei, base do movimento histórico carlista, se rompe por um conjunto de causas:
1 - Por fatores estruturais internos da própria realidade carlista (a interrupção dinástica, as relações flutuantes com o franquismo, e a renovação de suas elites).
2 - Pelas novidades doutrinárias externas que afetaram, de forma determinante, ao "corpus" ideológico carlista (novas correntes teológicas desenvolvidas na Igreja a partir do Vaticano II; que questionaram o princípio básico carlista da "unidade católica" da Espanha).
3 - Por fatores externos derivados da dinâmica social histórica em que se desenvolve este povo concreto (as mudanças profundas que transformaram a Espanha, passando de uma sociedade rural a outra industrial, com o desaparecimento consequente do até então influente clero rural carlista; a progressiva desarticulação da família tradicional em prol de um modelo familiar nuclear muito mais individualista, conforme padrões sociais procedentes das chamadas sociedades "avançadas"; o impacto quotidiano das ideologias de "68"; finalmente, a incidência brutal individual e social do consumismo e do individualismo próprios da sociedade pós-moderna e pós-industrial.
Fatores tão complexos e rápidos pressionaram simultaneamente e sem freio algum, sobre o povo carlista, determinando que a família tradicional, principal custódia do carlismo durante várias gerações não fosse capaz de transmitir, salvo exceções contadas, seu legado; como tampouco foi capaz de comunicar uma experiência religiosa atraente em tantos casos.
Algumas Conclusões
Hoje em dia, fica algo vivo do carlismo? De forma organizada, sobrevivem três pequenos grupos: o Partido Carlista (último e minúsculo representante do carlismo socialista, federalista e autogestionário); a refundada Comunhão Tradicionalista Carlista; e o núcleo agrupado ao redor da chamada Secretaria Política de S.A.R. Dom Sixto Henrique de Borbón, a quem reconhece como Porta-Estandarte da Tradição.
Sociologicamente, por acaso, poderíamos aventurar que alguns tiques da mentalidade navarra em particular, se encontram intimamente entrelaçados com o carlismo sociológico: sentido de grupo, gosto pelo próprio, generosidade e entrega pessoal, certas imagens e lugares comuns do léxico, apego às tradições, espontaneidade, substrato religioso...
Não obstante, as novas gerações navarras, salvo exceções contadas, mostram um assombroso desconhecimento da história e saga carlistas de seus pais e avós.
Na dinâmica das relações humanas, a presença e companhia gerada por pessoas excepcionais pode chegar a materializar, pelo atrativo que são capazes de transmitir entre os homens e ao longo do tempo, um movimento que atravesse um período histórico. Essa dinâmica elemental determinou a operatividade concreta na transformação do catolicismo, e também o esteve, na história do carlismo.
Refletindo sobre a saga popular do carlismo, e analisando seu peso na história de Espanha e Navarra, não podemos menos que nos sentir tributários de todos esses carlistas, antepassados diretos nossos, que lutaram de forma consequente com seus ideais. Inclusive podemos chegar a afirmar que, em boa medida, graças eles, nossa tradição histórica concreta (a espanhola) e religiosa (o catolicismo) nos chegaram até nossos dias de uma forma viva, reconhecível e tangível. Trata-se, definitivamente, de um precioso legado para os navarros de hoje e todos os outros espanhois.
21/06/2016
Andrew Korybko - Guerras Híbridas e Segurança Democrática
por Andrew Korybko
Guerras híbridas são, em
realidade, algo completamente diferente daquilo que a maioria das pessoas pensa
que elas são. Minha visão é que aquilo que todas as pessoas falam – guerra de
informação, guerra econômica, guerra institucional- e que em realidade já foi
praticado antes, hoje em dia está sendo integrado através de uma ação conjunta
de guerra. Portanto, minha definição de guerra híbrida trata de sua
implementação prática no processo de transformar uma revolução colorida em uma
guerra não convencional com o intuito de alcançar uma mudança de regime ou
federalismo sob o eixo de uma identidade em um estado alvo.
“A lei da guerra híbrida”, como eu a denomino,
é que “o grande objetivo por detrás de toda guerra híbrida é interromper os
projetos multipolares de alianças transnacionais através de conflitos de
identidade (étnica, religiosa, regional, política, etc.) provocados
externamente no estado em transição alvo”, e nós podemos observá-la na prática
pelos esforços dos EUA para obstruir os projetos de integração russa na Ucrânia
e a sabotagem do chamado Friendship
Pipeline iraniano através da Síria. E ainda, todos os corredores de
infraestrutura que coletivamente compreendem a estrutura global do chamado One Belt One Road da China, outrora
considerada “A Nova Rota da Seda”, são alvos óbvios também, especialmente a
área de interesse compartilhado, foco estratégico tanto para Rússia quanto para
a China, localizada nos Bálcãs e na Ásia Central.
Agora que eu lhe falei o
que são as guerras híbridas, deixe-me contar como elas operam. Organizações não
governamentais (ONG’s) e agências de inteligência trabalham para cultivar
grupos de frente nos âmbitos políticos e sociais dentro dos estados alvo,
construindo essas redes até o ponto em que elas se tornem suficientemente
fortes para desafiar as autoridades legítimas.
Antes que quaisquer hostilidades comecem, ONG’s e agências de
inteligência se ocupam da tarefa de estimular um sentimento de diferença
profundamente enraizada em meio ao povo, que geralmente está centrada em alguma
forma de identidade, seja real ou imaginada, ou exagerada, com o objetivo de
gerar um ressentimento antigoverno mais intenso.
Uma vez que as
pré-condições da infraestrutura social e informacional alcançaram o estágio em
que os financiadores externos estão confiantes em seu potencial de interromper
a situação política do estado alvo, uma provocação é organizada com o objetivo
de criar um motivo plausível para trazer à frente o movimento antigoverno e
aberta iniciar o projeto de desestabilização de maneira aberta. Se a revolução
colorida, ou a pressão “suave” não for bem sucedida em colher os frutos
desejados, então esse movimento é eventualmente transformado em uma guerra não
convencional, ou pressão “forte”, através de uma série de ações organizadas.
Quando isso acontece,
alguns dos revolucionários se transformam em terroristas insurgentes que então
são apoiados por estados pró-americanos, que enviam mais soldados, armamentos,
e assistência material para seus representantes. Nós vimos esse processo
acontecer na Síria após o fracasso da “Primavera árabe”, quando a revolução
colorida se transformou em uma guerra terrorista e na Ucrânia logo depois do
golpe de fevereiro quando as regiões ocidentais estavam em revolta aberta
contra Kiev. Atualmente, esse padrão de eventos está se repetindo na Macedônia
e há uma grande possibilidade de estourar no vale de Fergana em um futuro
próximo. Para lembrar a todos vocês, isso está acontecendo com o objetivo de
interromper ou tomar o controle de projetos importantes para a infraestrutura
de áreas de trânsito essenciais, utilizando os meios inter-relacionados de
mudança de regime, federalismo de identidade e caos incontrolável.
Mesmo sendo perigosas e
representando uma ameaça, isso não significa que as guerras híbridas sejam
inevitáveis e não possam ser contidas. Os métodos de contenção a essa ameaça
são o que eu chamo de segurança democrática, e eu acredito que esse é um campo
novo e animador que necessita urgentemente de apoio governamental para
desenvolver-se. Até então, eu identifiquei três formas primárias para derrotar
as guerras híbridas, mas eu tenho certeza que pesquisas futuras irão revelar
outras estratégias efetivas.
A primeira coisa a ser
feita é que as ameaças híbridas, no sentido que eu as defini, devem ser
identificadas e expostas em seus estágios incipientes. Isso significa que todas
as organizações não governamentais dentro de nosso país e de nossos aliados
interessados devem ser registradas ou investigadas a respeito de financiamento
estrangeiro, e que todas as organizações que representam uma ameaça à segurança
nacional e estejam operando ilegalmente devem ser imediatamente banidas. Nós já
alcançamos isso, então precisamos dar um passo adiante e criar uma base de
dados internacional junto com nossos aliados com o objetivo de vigiar todas as
ONG’s e suas atividades, sejam elas legais ou ilegais. E ainda, nós temos que
demonstrar publicamente as conspirações dos EUA ao fomentar guerras híbridas
encorajando os nossos profissionais da mídia, academia e segurança a
trabalharem de maneira conjunta e informar coletivamente a nossa população a
respeito das ameaças assimétricas que ela enfrenta, já que informação avançada e
conhecimento são os meios de dissuadir e prevenir que cidadãos ingênuos e bem
intencionados sejam levados a participar desses movimentos perigosos.
Em segundo lugar, nós
precisamos ter certeza que os nossos representantes responsáveis pela segurança
estejam treinados nos métodos apropriados para desmembrar as células que levam
à frente as guerras híbridas, particularmente em dispersar revoluções coloridas
e responder a atividades de guerras não convencionais. É muito importante que
eles possam lidar com distúrbios de uma maneira delicada e evitem incitar de
maneira inadvertida respostas violentas pelo uso de força desproporcional. Os
instigadores frequentemente tentam enganar as autoridades fazendo-as cometerem
erros e negligências que eles possam explorar através das mídias sociais gerando
uma onda adicional de sentimento antigoverno e utilizando esse sentimento para
canalizar mais atividades nas ruas. Seja através desses meios ou outros, a sua
meta última é reunir o máximo de pessoas possível nas ruas para que elas possam
funcionar como escudos humanos ao protegerem os agitadores mais violentos e
evitar que eles sejam presos.
Finalmente, a última
estratégia de segurança democrática que eu descobri é o encorajamento de
movimentos patrióticos da sociedade civil que se manifestem em larga escala e
apoio público ao próprio governo. Nós vimos isso de maneira mais clara na
República da Macedônia, onde milhares de pessoas protestaram contra os
colaboradores da revolução colorida e demonstraram ao mundo que eles não querem
uma mudança de regime em seu país. É importante que governos ao redor do mundo
ajudem a estimular esses movimentos como defesas pró-ativas em oposição às
conspirações das revoluções coloridas, já que eles servem como primeira linha
de defesa em resposta à essas ameaças.
Além disso, essas
tecnologias de “reverter revoluções coloridas” também podem ser praticadas por
cidadãos patriotas que exercem pressão para que seus governos reneguem acordos
pró-ocidentes que sejam controversos. Por exemplo, os povos da Sérvia e
Montenegro experimentaram através da disciplina e aplicação seletiva dessas
táticas a tentativa de convencer os seus líderes a revogarem os seus
compromissos com a OTAN, sendo cuidadosos ao não exigir uma mudança de regime
ou utilizar meios violentos. O uso positivo da tecnologia das revoluções
coloridas definitivamente merece maior atenção.
A última coisa que eu
gostaria de dizer para todos vocês é que a Rússia possui o verdadeiro potencial
para se tornar o centro global dos estudos e treinamentos em segurança democrática,
e se os nossos especialistas podem dominar essas tecnologias e adquirir uma
compreensão plena de como elas funcionam, nós podemos compartilhar esse
conhecimento valioso com nossos aliados e aumentar a nossa importância
estratégica no mundo. É possível que um dia venhamos a treinar os
representantes dos nossos parceiros do âmbito militar, social e sua
inteligência aqui em Moscou e portanto, fazer de nosso país a vanguarda que
garantirá o futuro multipolar coletivo. No entanto, para que isso ocorra, nós
necessitamos do apoio imediato das instituições para o financiamento de
projetos de pesquisa relacionados e a mobilização em tempo integral de analistas
qualificados nessa tarefa. Se nós formos bem-sucedidos em construir uma
estrutura de segurança democrática integrada que seja mais forte que a
estrutura das revoluções coloridas que os EUA já construíram, então a Rússia
pode se tornar a líder indiscutível na resistência global frente às guerras
híbridas.
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