17/11/2012

A Ordem Crioula

por Alberto Buela



A primeira questão que apresenta tão árduo tema é responder à pergunta, desde onde vamos falar da ordem crioula? E respondemos, desde a tradição nacional argentina e hispanoamericana.

a) E essa tradição tem uma origem fática, de fato, nos setenta e dois garanhões que traz Pedro de Mendoza a Buenos Aires em 1536, onde os poucos que ficara, alguns morreram e outros foram comidos durante essa terrível fome portenha de cinco anos que durou a aventura de Mendoza. Ordenado o despovoamento da primeira Buenos Aires por Irala e desobedecendo suas ordens de degola foram largados em campo e se reproduziram livremente durante quarenta anos, chegando à cifra estimada de setecentos mil.

De modo tal que a base fática, o fato bruto e concreto da ordem crioula é a cultura do cavalo e tudo aquilo que o rodeia.

b) A tradição política da ordem crioula a encontramos primeiro em Juan de Garay, homem exemplar como poucos, mais americano que espanhol pois chegou a América aos treze anos, fundou Buenos Aires e co-fundou Santa Cruz de la Sierra junto a Ñuflo de Chávez e governou Asunción del Paraguay, logo em Hernandarias, depois no letrado do século XVII Juan Solórzano Pereira, governador de Huancavelica, nossos próceres e governadores crioulos do período da Independência como San Martín e Güemes, logo Rosas, e já no século XX Roque Sáenz Peña, algo em Irigoyen e finalmente Perón, com suas luzes e sombras. (Esses governos de corte crioulo e nacional se reproduzem em maior ou menor medida em toda Nossa América. Não é aqui o lugar para enumerá-los).

c) A tradição cultural da ordem crioula se funda no poema épico por excelência da ecúmene hispanoamericana: o Martín Fierro, que tem um antecedente ilustre na primeira parte do Facundo, como primeiro estudo sociológico descritivo da realidade argentina a meados do século XIX, e tem seus consequentes em trabalhos como A Tradição Nacional de Joaquín V. González, que incorpora a cultura montanhesa. Em Torno ao Crioulismo de Ernesto Quesada, que se completa com O Payador de Lugones, série de conferências no teatro Odeón as quais assiste o então presidente Roque Sáenz Peña e seu ministro do interior Indalecio Gómez.

Vista a voo de pássaro a tradição nacional em suas três dimensões: fática, política e cultural, cabe agora se perguntar, o que é uma tradição e uma tradição nacional?

A tradição deve se entender não como a passagem de coisas de uma geração a outra, de pais a filhos ou de avós a netos. Não. A tradição é somente e exclusivamente, a transmissão das coisas valiosas de uma geração a outra. Quer dizer, aquelas coisas que tem inseridas um valor que por isso se passam a denominar bens. Assim, um bem é uma coisa que leva inserido um valor. Isso é o que constitui o núcleo de uma tradição: a transmissão de valores encarnados nas coisas e não simplesmente a "declamação dos valores" ao modo livresco e pedagógico.

Quanto ao nacional, conceito que vem de nação e cuja raiz é o verbo latino nasco que significa nascer, é um projeto político-cultural que um povo determinado busca se dar na história do mundo. O nacional significa primeiro o lugar onde se nasce, é algo vinculado à terra, daí provém o termo nação, que nessa primeira aproximação se limita ao país, que vem de paisagem, lugar onde habitam os paisanos, quer indicar o genius loci que nos rodeia ao cair à existência nesse mundo cada um de nós. Porém não acaba aí a ideia de nação e nacional senão que se estende àquilo que pretendemos ser e fazer os paisanos como povo na história do mundo.



De modo tal que a tradição nacional reclama para existir, alternativamente, esses dois elementos: país e projeto, história e futuro.

Apresentadas assim as coisas podemos entrar agora no tema dessa meditação, o da ordem crioula.

Essa foi a ordem que se deu faticamente com a cultura do cavalo, que se deu politicamente com os governos que privilegiaram e defenderam o nosso e que se deu culturalmente quando pensamos com cabeça própria.

Antes que nada devemos nos prevenir e afirmar que, o Don Segundo e toda sua comercialização arequera, (o gaúcho visto com os olhos do filho do patrão, Doll dixit), o Santos Vega, lenda mitômana para professores de literatura, o Fausto formado por palavras gaúchas e conceitos vazios (crioulada de gringo fanfarrão, que anda gineteando a égua de sua jardineira, Lugones dixit) e o folclorismo de gaúchos de tenda que nada tem a ver com o crioulo. Tudo isso é um remendo, uma cópia ruim.

A ordem crioula implica a existência de uma cosmovisão, quer dizer, uma visão totalizadora, hoje se diz holística, do homem, do mundo e seus problemas expressada no estilo de nossos homens de campo ou do homem da cidade que sente o campo.

E aqui se tem que fazer uma distinção fundamental entre o gaúcho e o crioulo. Distinção que fizeram Juan Carlos Neyra em um impecável, breve e profundo ensaio. O gaúcho e o gaúcho termo pejorativo que recuperam San Martín e Güemes e é bom que se recorde e se recorde desde agora, desde a Quiaca, implica uma forma de viver que necessariamente se dá no campo, onde o gaúcho mostra todas as suas habilidades campeiras, todas suas pilchas como enssa festa, todas suas destrezas em jogos como o pato, a taba, a sortija e em danças como o triunfo, o gato, a zamba, a cueca, a chacarera ou o chamamé. Onde os silêncios tem seus sons e os trabalhos seus tempos em um amadurecer com as coisas, tão próprio do tempo americano.

E o crioulo então? Crioulo é aquele que interpreta o gaúcho e o crioulo em um modo de sentir, uma aproximação afetiva ao gaúcho. É por isso que o gaúcho é necessariamente crioulo porém um crioulo pode não ser gaúcho. Daí que esses velhos campeiros de antes diziam: Nunca digas que és gaúcho, que os outros digam isso de ti.

Assim, se pode acertadamente escrever: Se gaúcho é uma forma de viver, crioulo é uma forma de sentir.

E essa distinção se vê claramente na estrofe do poema nacional que diz:

Tiene el gaucho que aguantar
Hasta que lo trague el hoyo,
O hasta que venga un criollo
En esta tierra a mandar.

Estrofe que mostra de forma evidente como o gaúcho é quem sofre, quem padece um modo de vida, nesse caso na época posterior a Rosas, de exploração e injustiças, e as esperanças estão postas em um crioulo, aquele que sente o gaúcho, que interpreta cabalmente o gaúcho e que pode chegar a mandar, a governar.

De modo tal que a ordem crioula nasce da interpretação mais acabada daquilo que a Argentina deu ao mundo de mais genuíno: o gaúcho. E que em Nossa América se chamou hueso no Chile, montubio no Equador, cholo no Peru, camba em Santa Cruz, coya em La Paz, gaúcho no Sul do Brasil, borinqueño em Porto Rico, ladino em Guatemala, llanero em Colômbia e Venezuela, charro no México.

Porém avancemos um pouco mais e passemos com nosso aporte do plano descritivo ao plano metafísico-axiológico. O crioulo ao significar antes que nada e acima de tudo uma cosmovisão está indicando a conjunção de dois elementos: valores e vivências. Assim, desde Max Scheler e Nicolai Hartmann sabemos que os valores se captam através de um a priori emocional, se captam por via emotiva ou sentimental, instrumento que, como dissemos, se acessa o gaúcho. Porém o crioulo nos exige ademais vivências, quer dizer, experiências existenciais, não é algo livresco ou estudado (como passa com os pseudo-gaúchos de tenda) senão que há que tê-lo assumido vitalmente.

Nós afirmamos que se bem é indubitável que se produziu paulatinamente com o surgimento da sociedade industrial e de consumo o desaparecimento do crioulo sob a forma do gaúcho, do llanero, do montúbio, do charro, ou do huaso, isso não nos permite, de nenhuma maneira, afirmar o desaparecimento dos valores que alentaram esse tipo de homem. O gaúcho é a forma onde se plasmou de melhor maneira o crioulo, porém o crioulo é o fundo, é o núcleo aglutinado de valores que dá sentido ao gaúcho. Em uma palavra, que desapareça a forma, enquanto que aparência, (hoje os centros tradicionalistas são somente aparência do gaúcho) não nos autoriza a presumir que morreu seu conteúdo; isso é, a alma gaúcha, ou seja, a expressão mais própria do crioulo. Muito pelo contrário, o que se tem que tentar é plasmar sob novas aparências ou embalagens os valores que sustentaram esse arquétipo de homem, como o são: a) o sentido da liberdade, b) o valor da palavra empenhada, c) o sentido de hierarquia e d) a preferência de si mesmo. Não existe nenhum pensador nacional iberoamericano, mais além das posições políticas distintas, que não sustenta estes quatros princípios fundamentais da alma hispanoamericana.

Assim a ordem crioula nasce a partir daí e é expressão política e cultural dessa essência própria e especificamente nossa, isto é, da ecúmene, dessa grande casa que é a América, que como o hóspito nos recebe, nos hospeda a todos (aborígenes, gaúchos e gringos) que desde o inóspito chegamos à América buscando a possibilidade de sermos plenamente homens.

Aqui a primazia não se obtém pela antiguidade, como nos querem fazer crer hoje em dia as vozes publicitadas do indigenismo, aqui a primazia a tem aquele que levou a sua maior perfeição a forma de ser americano e este foi o crioulo como produto desse abraço fenomenal, tanto na luta como no leito, que se produziu a partir de 1492. Onde Europa e América deixaram de ser o que eram e haviam sido até então para ser outra coisa distinta, diferente, nova e não vista nunca antes: E aqui na América surgimos nós, "nem tão espanhol nem tão índio", o mundo crioulo e sua ordem, que chegou a sua plenitude quando coalhou um arquétipo humano que na Argentina foi o gaúcho. E que foi descrito acabadamente por texto pelo Facundo, o Martín Fierro, a Tradição Nacional, o Payador ou Romances de Rio Seco. E que chegou a sua plenitude política quando foi bem interpretado por homens como San Martín, Güemes, Rosas, Sáenz Peña, Yrigoyen e Perón.

14/11/2012

Messianismo Tecnológico - Ilusões e Desencanto

por Horacio Cagni


As contradições do progresso, e particularmente a tremenda experiência das guerras do século XX puseram sobre o tapete os alcances da ciência e da técnica, obrigado pensadores de toda origem e procedência a se interrogarem angustiosamente sobre o destino de nossa civilização.

Ao analisar aspectos emblemáticos como os gulags soviéticos, o genocídio armênio pelos otomanos, ou o holocausto - o extermínio de judeus pelo nazismo na Segunda Guerra Mundial - assim como as consequências do eufemisticamente chamado bombardeio estratégico anglo-americano - que, tanto em dito conflito como em outros posteriores, era simples terrorismo aéreo - se pode concluir que esses massacres em série são consequência da planificação e organização próprias das indústrias de grande escala. A morte industrial, a objetificação de um grupo social ou de um coletivo a destruir, resulta óbvio para os estudiosos do holocausto e do aniquilamento racial, como para aqueles que se dedicaram à revisão do aniquilamento social que realizaram os comunistas com burgueses, reacionários ou "desviacionistas".

Em todos os casos, a distância que a tecnologia põe entre vitimários e vítima assegura a despersonalização dessa última, convertida em simples material a exterminar; os que estão amontoados esperando o fim em um campo de concentração perante o administrador de sua morte, como os trasfegados civis que estão sob a mira do bombardeiro, não são mais que simples números sem rosto. A responsabilidade do genocídio se dilui na imensa estrutura  tecnoburocrática, o que Hannah Arendt chamava de "a banalidade do mal".

É útil recordar que, ao longo de todo o século passado, numerosas vozes se ergueram, lucidamente, para denunciar os limites da técnica e os perigos do messianismo tecnológico. A técnica, chave da modernidade, se constituiu em uma religião do progresso, e a máquina resultou igualmente venerada e exaltada por liberais, comunistas, nazifascistas, reacionários e progressistas.

Guerra e Técnica - A Crítica de Ernst Jünger

Escritor, naturalista, soldado, morto mais que centenário pouco antes do ano 2000, Ernst Jünger foi a testemunha lúcida e o crítico agudo de uma das épocas mais intensas e cataclísmicas da história, desse século tão breve, que Eric Hobsbawm situa entre o fim da belle époque em 1914, e a queda do Muro de Berlim e da utopia comunista, em 1991.

Nunca se insistirá o suficiente que, para entender Jünger e as correntes espirituais de seu tempo, que também é o nosso, a chave, uma vez mais, é a Grande Guerra. O primeiro conflito mundial foi a grande parteira das revoluções desse século, não só no plano ideológico e político senão no das ideias, da ciência e da técnica. Pela primeira vez todas as instâncias da vida humana se subsumiam e subordinavam ao especto bélico. Era a consequência lógica da Revolução Industrial, o orgulho da Europa, porém ademais necessitou da conjunção com um novo fenômeno sociopolítico, que George Mosse definiu com acerto "a nacionalização das massas". Em todos os países beligerantes, porém acima de tudo em Itália e Alemanha, culminava o processo de coagulação nacional e de exaltação da comunidade. Países que haviam chegado tarde, mercê das vicissitudes históricas, à conquista de uma unidade interior - como os assinalados - haviam encontrado finalmente essa unidade no front. Nas trincheiras se deixava de lado os dialetos, para mandar e obedecer na língua nacional; no bairro e sob a avalanche de fogo se vivia e se morria de forma absolutamente igualitária.

Constrangidos perante tamanho desastre, esses homens "civilizados" se depararam com o fato de que sua única arma e esperança eram a vontade, e seu único mundo os camaradas do front. Atrás haviam ficado os orgulhosos ideais do Iluminismo. O jogo da vida em boas formas e a retórica folhetinesca-parisiense ficavam enterrados no lodo de Verdun e Galicia, nas rochas do Carso e nas frias águas do Mar do Norte.

A catástrofe não só significou o afundamento do positivismo senão que demonstrou até que ponto havia avançado a técnica em seu desenvolvimento desmedido, e até que grau o ser humano estava submetido a ela. Soldados e máquinas de guerra eram uma mesma coisa, juntamente com seus Estados-Maiores e a cadeia de produção bélica. Já não existia frente e retaguarda, pois a mobilização total se havia apoderado da alma do povo. Jünger, oficial do exército do Kaiser, chamou de Materialschlacht - guerra de material -a essa nova espécie de combate. Nas operações bélicas, tudo se tornava material, inclusive o indivíduo, que não podia escapar da operação conjunta de homens e máquinas que nunca chegava a entender.

Quando se leem as obras de Jünger sobre a Grande Guerra - editadas por Tusquets - como Tempestade de Aço ou O Bosque 125, o relato das ações bélicas se torna monótono e abrumador, como deve ter sido a vida quotidiana no front, suspensa no risco, que insensibiliza a força de mortificação. Em A Guerra como Experiência Interior, Jünger aceita a guerra como um fato inevitável da existência, pois existe em todas as facetas da ocupação humana: a humanidade nunca fez outra coisa além de combater. A única diferença estriba na presença omnimoda e despersonalizante da técnica, porém sempre somos mais fortes ou mais fracos.

A literatura criada pela Grande Guerra é numerosa, e às vezes magnífica. A partir de O Fogo de Henri Barbusse, que foi a primeira, uma série de obras contaram a dor e o sacrifício, como a satírica O Lodo de Flandes, de Max Deauville, Guerra e Pós-Guerra de Ludwig Renn, Caminho do Sacrifício de Fritz von Unruh, e as reconhecidas Nada Novo no Front, de Erich Remarque e Quatro de Infantaria, de Ernst Johannsen, que deram lugar a filmes. Em todas essas obras campeia a sensação de impotência do homem frente à técnica desencadeada. Porém, mais além de sua excelência literária, todas se esgotam na crítica da guerra e o sentido desejo de que nunca se volte a repetir a tragédia.

Jünger foi muito mais longe; compreendeu que esse conflito havia destruído as barreiras burguesas que ensinavam a existência como busca do êxito material e observação da moral social. Agora afloravam as forças mais profundas da vida e da realidade, o que ele denominava "elementais", forças que através da mobilização total se convertiam em parte ativa da nova sociedade, formada por homens duros e jovens, uma geração abissalmente diferente da anterior.

O novo homem se baseava em um "ideal novo"; seu estilo era a totalidade e sua liberdade a de se subsumir, de acordo à categoria da função, em uma comunidade na qual mandar e obedecer, trabalhar e combater. O indivíduo se subsume e tem sentido em um Estado total. Indivíduo e totalidade se conjugam sem trauma algum mercê à técnica, e seu arquétipo será o trabalhador, símbolo no qual o elemental vive e, ao mesmo tempo, é força mobilizadora. Se bem o exemplo é o operário industrial, todos são trabalhadores por cima de diferenças de classe. O tipo humano é o trabalhador, seja engenheiro, capataz, operário, quer se encontre na fábrica, no escritório, no café ou no estádio.

Oposto ao "homem econômico" - alma do capitalismo e do marxismo por igual - surgia o "homem heróico", permanentemente mobilizado, seja na produção, seja na guerra. Essa distinção entre homem econômico e homem heróico a havia esboçado cedo o jovem Peter Drucker em seu livro O Fim do Homem Econômico, de 1939, fazendo alusão ao fascismo e ao nacional-socialismo, que irrompiam na história desde as mãos de "artistas da política", que haviam vislumbrado a missão redentora e salvífica da unidade nacional nas trincheiras em que haviam combatido.

O trabalhador é "pessoa absoluta", com uma missão própria. Consequência da era tecnomaquinista, é pertença e identidade com o trabalho e a comunidade orgânica à qual pertence e serve, assinala Jünger em seu livro Der Arbeiter, um de seus maiores ensaios, escrito em 1931. O mais importante dessa obra é a consideração do trabalhador como superação da burguesia e do marxismo: Marx entendeu parcialmente o trabalhador, pois o trabalho não se submete à economia. Se Marx acreditava que o trabalhador devia se converter em artista, Jünger sustenta que o artista se transforma em trabalhador, pois toda vontade de poder se expressa no trabalho, cuja figura é dito trabalhador.

Quanto ao miolo do pensamento burguês, este renega toda desmedida, tentando explicar todo fenômeno da realidade desde um ponto de vista lógico e racional. Este culto racionalista despreza o elemental como irracional, terminando por pretender um esvaziamento de sentido da existência mesma, erigindo uma religião do progresso, onde o objetivo é consumir, garantindo-se uma sociedade pacífica e sem sobressaltos. Para Jünger isso conduz ao mais venenoso e angustiante entediamento existencial, um estado espiritual de asfixia e morte progressiva. Somente um "coração aventureiro", capaz de dominar a técnica assumindo-a plenamente e dando a ela um sentido heróico, pode tomar a vida de assalto e, desse modo, assegurar ao ser humano não simplesmente existir senão realmente ser.

Outros Críticos do Tecnomaquinismo

A princípios dos anos 30, apareceram na Europa, acima de tudo na Alemanha, uma série de escritores cujas obras se referiam à relação do homem com a técnica, onde a vontade como eixo da vida resulta em uma constante. Assim ocorre em O Homem e a Técnica, de Oswald Spengler - que segue as premissas nietzscheanas da "Vontade de Poder" - A Filosofia da Técnica, de Hans Freyer, Perfeição e Fracasso da Técnica de Friedrich Georg Jünger - irmão de Ernst - e os seminários do filósofo Martin Heidegger, todos contemporâneos do já citado O Trabalhador. (O livro de seu irmão Friedrich foi editado imediatamente depois da Segunda Guerra, porém havia sido escrito muitos anos antes e pelas vicissitudes do conflito não pôde sair à luz). Porém essas questões não eram privativas do mundo germânico, pois não devemos esquecer dos futuristas italianos liderados por Filippo Marinetti, nem ao Luigi Pirandello de Manivelas, aos escritos do francês Pierre Drieu La Rochelle - como La Comédie de Charleroi - e o filme Tempos Modernos, de Charles Chaplin.

O autor de O Pequeno Príncipe, o notável escritor e aviador francês Antoine de Saint Exupéry, também faz diversas reflexões sobre a técnica. Em seu livro Piloto de Guerra há uma página significativa, quando assinala que, em plena batalha da França em 1940, em uma granja, uma árvore anciã "sob cuja sombra se sucederam amores, romances e tertúlias de gerações sucessivas" obstaculiza o campo de tiro "de um tenente artilheiro alemão de 26 anos", que termina por derrubá-la. Receoso de empregar seu avião como máquina assassina, St. Ex, como o chamavam, desapareceu em voo de reconhecimento em 1944, sem que se haja encontrado seus restos. Sua última carta dizia: "Se volto, o que posso dizer aos homens?"

Também o destacado jurista e politólogo Carl Schmitt se propôs a questão da técnica. Bem cedo, em seu ensaio clássico O Conceito do Político afirma que a técnica não é uma força para neutralizar conflitos senão um aspecto imprescindível da guerra e do domínio. "A difusão da técnica - assinala - é imparável", e "o espírito do tecnicismo é quiçá maligno e diabólico, porém não pode ser descartado enquanto mecanicista, ele é a fé no poder e domínio ilimitado do homem sobre a natureza". A realidade, precisamente, demonstrava os efeitos do messianismo tecnológico, tanto na exploração da natureza, como no conflito entre os homens. Em um corolário à obra antecitada, Schmitt define como processo de neutralização da cultura a esse tipo de religião do tecnicismo, capaz de crer que, graças à técnica, se conseguirá a neutralidade absoluta, a tão desejada paz universal. "Porém a técnica é cega em termos culturais, serve por igual à liberdade e ao despotismo...pode aumentar a paz ou a guerra, está disposta a ambas coisas em igual medida".

O que ocorre, segundo Schmitt, é que a nova situação criada pela Grande Guerra abriu passagem a um culto da ação viril e da vontade absolutamente contrária ao romantismo do século XIX, que havia criado, com seu apoliticismo e passividade, um parlamentarismo deliberativo e retórico, arquétipo de uma sociedade carente de formas estéticas. É inegável a influência dos escritos de pós-guerra de Jünger - a guerra forjadora de uma "estética do horror" - na mente de Schmitt. Porém a essa desesperada busca de uma comunidade de vontade e beleza, capaz de conjurar o Golem tecnológico mediante uma barbárie heróica, não escapava praticamente ninguém naqueles tempos. Hoje é fácil olhar para trás e assinalar tantos pensadores de qualidade como "sepultadores da democracia de Weimar" e "preparadores do caminho do nazismo". Esse olhar superficial sobre um período histórico tão intenso e complexo se impôs ao calor das paixões, apenas terminada a Segunda Guerra Mundial e, logo, mais ainda desde que o jornalismo se apoderou progressivamente da história e da ciência política. A realidade é sempre mais profunda.

Naqueles anos de Weimar, os alemães em sua maioria sentiam a frustração de 1918 e as consequências de Versalhes; os jovens buscavam com afã encarnar uma geração distinta, edificar uma sociedade nova que reconstruísse a pátria que amavam com desespero. Foi uma época de incrível florescimento na literatura, nas artes e nas ciências, e obviamente, isso se trasladou ao campo político. Por então, Moeller van den Bruck, Spengler e Jünger - malgrado suas diferenças - se transformaram em educadores dessa juventude, através de escritos e conferências. A estética völkisch, popular, que era anterior ao nacional-socialismo, abarcava todos os aspectos da vida quotidiana. A maioria dos pensadores abjuravam do débil parlamentarismo da República surgida da derrota, e no coração do povo, a Constituição de Weimar estava condenada. Por acaso não havia sido um êxito editorial O Estilo Prussiano, de Moeller van den Bruck, que propunha uma educação pela beleza? E Heidegger? Em sua alocução do solstício de 1933 dirá: "os dias declinam/nosso ânimo cresce/chama, brilha/corações, acendam".

O interessante é que todos coincidiam. O católico Schmitt, quando em sua análise Queda do Segundo Império sustentava que a principal razão estava na vitória do burguês sobre o soldado; neoconservadores como August Winning, que distinguia entre comunidade de trabalho e proletariado, e como Spengler com seu "prussianismo socialista"; o erudito Werner Sombart e sua oposição entre "heróis e comerciantes", e, ademais, os denominados nacional-bolcheviques. O mais conspícuo dos intelectuais nacional-bolcheviques, Ernst Niekisch, havia conhecido Jünger em 1927; a partir daí elaborará também uma reflexão sobre a técnica. Seu breve ensaio A Técnica, Devoradora de Homens é uma das análises mais lúcidas do messianismo tecnológico, e uma das maiores críticas da incapacidade do marxismo para compreender que a técnica era uma questão que escapava ao determinismo economicista e às diferenças de classe. Também é de Niekisch um dos melhores comentários de O Trabalhador de Jünger, obra da qual tinha um grande conceito. Todos eles tentaram dotar à técnica de um rosto brutal, porém ainda humano, demasiado humano, único achado do mundo, como sustentou Nietzsche.

Certamente, todas essas energias foram aproveitadas pelos políticos, que não pensavam nem escreviam tanto, porém podia franquear as barreiras que os intelectuais não se atreviam a ultrapassar. Esses novos políticos possuíam essa nova filosofia: já não procediam de quadros nem eram profissionais da política senão "artistas do poder", como dizia Drucker. Lênin abriu o caminho, porém homens como Mussolini e Hitler, e muitos de seus sequazes, eram arquétipos dessa nova classe. Provinham das trincheiras do front, eram condutores de um movimento de jovens, tinham uma grande ambição, desprezavam o burguês, se bem confundiam suas ideias de salvação nacional com o lastre oitocentista de diversos preconceitos.

O Fim de uma Ilusão

Schmitt coincidia com Jünger em seu desprezo do mundo burguês. Na concepção jüngeriana, tão importante era o amigo como o inimigo: ambos são referentes da própria existência e lhe outorgam sentido. O postulado significativo da teorética schmittiana será a específica distinção do político: a distinção entre amigo e inimigo. O conceito de inimigo não é aqui metafórico senão existencial e concreto, pois o único inimigo é o inimigo público, o hostis. Preocupado com a ausência de unidade interior de seu país logo do vexame de 1918, vislumbrando em política interior o custo da debilidade do Estado liberal burguês, e em política externa as falências do sistema internacional de pós-guerra, Schmitt, a princípio, se comprometeu profundamente com o nacional-socialismo. Chegou a ser um dos principais juristas do regime. Acreditava encontrar nele a possibilidade de realização do decisionismo, a encarnação de uma ação política independente de postulados normativos.

Jünger, atento ao que denominava "a segunda consciência mais lúcida e fria" - a possibilidade de ver a si mesmo atuando em situações específicas - foi mais cuidadoso, e se distanciou progressivamente dos nacional-socialistas. Sem dúvida, seu lado conservador havia vislumbrado os excessos do plebeísmo nazi-fascista e sua força niveladora. Também Schmitt começou a ver como elementos medíocres e indesejáveis se entroncavam no regime e adquiriam cada vez mais poder. Heidegger, ao princípio tão entusiasta, se havia distanciado do regime em pouco tempo. Spengler morreu em 1936, mas os havia criticado desde o início.

Não obstante, havia diferenças de fundo. Spengler, Schmitt e Jünger acreditavam que um Estado forte necessitava de uma técnica poderosa, pois o primado da política podia reconciliar técnica e sociedade, soldando o antagonismo criado pelas lacras da revolução industrial e tecnomaquinista. Eram antimarxistas, antiliberais e antiburgueses, porém não antitecnológicos, somo sim era Heidegger; este se havia retirado ao bosque a ruminar sua reflexão sobre a técnica como obstáculo ao "desocultamento do ser", que tão magistralmente explicitara muito depois.

Outro aspecto no qual coincidiam Jünger, Schmitt e também Niekisch, era em sua consideração como a Rússia stalinista se alinhava com a tendência tecnológica imperante no mundo. Ao finalizar os trinta, duas nações aparentavam se sobressair como exemplo de uma vontade de poder orientada e subsumida em uma comunidade de trabalhadores, malogrado seus princípios e sistemas políticos diferentes: o Terceiro Reich e a URSS stalinista (em menor medida também a Itália fascista). Porém, obviamente, suas classes dirigentes não eram permeáveis às considerações jüngerianas ou schmittianas, pois a carcaça ideológica não podia admitir atitudes críticas. A Jünger e a Schmitt lhes ocorreu o mesmo: não foram considerados suficientemente nacional-socialistas e começaram a ser criticados e atacados. Schmitt se refugiou na teorização - brilhante, sem dúvida - sobre política internacional.

Quanto a Jünger, sua concepção do "trabalhador" foi rechaçada pelos marxistas, acusando-a de cortina de fumaça para tapar a irredutível oposição entre burguesia e proletariado - quer dizer "fascista" - tanto como pelos nazis, os quais não encontravam nela nem rastros de problemática racial. Em seu exílio interior, Jünger escreveu um de seus romances mais importantes. Nos Penhascos de Mármore; constitui uma reflexão profunda, em chave simbólica, sobre a concentração do poder e o mundo desencadeado pelos "elementais". Mediante uma prosa hiperbólica e metafórica, denuncia a falácia da união de princípios guerreiros e idealistas quando falta uma metafísica de base. Certamente que essa obra, editada em vésperas da Segunda Guerra Mundial, foi considerada, não sem razão, uma crítica do totalitarismo hitlerista, porém não se esgota ali. O escrito vai mais longe, pois se refere ao mundo moderno onde nenhuma revolução, por mais restauradora que se precise, pode evitar a queda do homem e seus dons de tradição, sabedoria e grandeza.

Jünger sempre foi um cético. Em A Mobilização Total há um parágrafo esclarecedor: "Sem descontinuidade, a abstração e a crueza se acentuam em todas as relações humanas. O fascismo, o comunismo, o americanismo, o sionismo, os movimentos de emancipação de povos de cor, são todos saltos em favor do progresso, até ontem impensáveis. O progresso se desnaturaliza para prosseguir seu próprio movimento elemental, em uma espiral feita de uma dialética artificial". Contemporaneamente, Schmitt assinalava: "Sob a imensa sugestão de inventos e realizações, sempre novos e surpreendentes, nasce uma religião do progresso técnico, que resolve todos os problemas. A religião da fé nos milagres se converte em seguida em religião dos milagres técnicos. Assim se apresenta o século XX, como século não só da técnica senão da crença religiosa nela".

Se ambos pensadores acreditavam em uma tentativa de ruptura do ciclo cósmico desencadeado, rapidamente terão perdido suas esperanças. Os próprios desafiantes do fenômeno mundial de homogeneização - cujo motor era a técnica originada no mundo anglo-saxão da revolução industrial - como o nacional-socialismo e o sovietismo, mal podiam levar para a frente esse processo de ruptura quando constituíam parte importante, e em muitos casos a vanguarda, do progresso tecnológico. Não há escapatória possível para o homem atual e o princípio totalitário, frio, cínico e inevitável que Jünger vislumbrou desde suas primeiras obras, e que seguiu desenvolvendo até seu final, será a característica essencial da sociedade mundialista.

O desenlace da Segunda Guerra Mundial, com seu horror desencadeado, liquidou a possibilidade de entronização do tão desejado "homem heróico" e consagrou o "homem econômico" ou "consumista" como arquétipo. Esse evidente triunfo da sociedade fukuyamiana se deveu não só à prodigiosa expansão da economia senão essencialmente, ao auge tecnológico e à democratização da técnica. Isso não implica, não obstante, que o homem seja mais livre; se crê livre enquanto participa de democracias quadrimestrais, habitante do shopping e escravo do televisor e do computador, produtor e consumidor em uma sociedade que realizou o milagre de criar a ânsia do desnecessário; a aparente calma em que vive esconde aspectos ominosos.

A tecnologia despersonalizou totalmente o ser humano, o que se evidencia na macroeconomia virtual, que esconde uma espantosa exploração, desigualdade e miséria, assim como nas guerras humanitárias, eufemismo que subsume a tragédia das guerras interétnicas e pseudo-religiosas, vestimenta da exploração dos recursos naturais por parte das potências mundiais. Desde o FMI até a invasão do Iraque, o "filisteu moderno do progresso" - Spengler dixit - é, sob suas múltiplas manifestações, gênio e fugira.

Em seus últimos tempos, Jünger estava farto. Seu conselho para o rebelde era furtar-se à civilização, à urbe e à técnica, refugiando-se na natureza. O atual silêncio dos jovens - sustentava em O Passo na Floresta - é mais significativo ainda que a arte. À queda do Estado-Nação lhe seguiu "a presença do nada a secas e sem enfeites. Porém desse silêncio podem surgir novas formas". Sempre o homem vai querer ser diferente, vai querer algo distinto. E, como a calma que precede a tormenta, todo estado de quietude e todo silêncio é enganoso.

13/11/2012

A Antártida e o Mito Lovecraftiano

por Sergio Fritz Roa


A Antártida é um daqueles locais de nosso planeta que mais tardou para se converter em outro objeto da cobiça do homem. Seus mistérios e perigos exerceram seu influxo poderoso sobre intrépidos aventureiros do passado, porém seus feitiços superaram os oceanos do tempo e invadiram a alma de alguns modernos exploradores que não trepidam em aceitar o desafio que lhes arroja o Continente Gelado. Estes personagens tiveram que se enfrentar com mistérios de velha data, utilizaram ferramentas incomuns de exploração para penetrar em sua Verdade, se servindo talvez da Literatura e do universo mágico dos sonhos. Eles ultrapassaram, inclusive, os umbrais da consciência ordinária para acessar um estado de superconsciência. E tudo isso, para desenterrar obscuros arcanos e lançar luz sobre um lugar físico e espiritual tão distinto a qualquer outro que nos parece uma região não-terrestre.

Quem são estes aventureiros? São três magos que trazem seus feitiços desde sua antiga terra, são poetas e narradores aos quais conheceremos por seus nomes atuais: Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Miguel Serrano. Três gênios literários, três sonhadores de sonhos impossíveis, três colossos que narraram outra vez os mitos de antanho. Três buscadores do Graal na Antártida. Entre eles, o mais importante para este trabalho em particular é, certamente, H.P. Lovecraft. Ele será o fio condutor de nossa aventura, a qual comprometeu o espírito dos que realizaram este ensaio e implicará o de todos nossos leitores.

Lovecraft será quem assinalará, com sua tocha, o caminho e nos alertará dos terrores que, entocados, acossam ao viajante.

Edgar Allan Poe

"As Aventuras de Arthur Gordon Pym" ou, em tradução de Julio Cortázar, "Narrativa de Arthur Gordon Pym", é um romance que carece daquela grandeza da pluma de Poe que encontramos em seus contos inesquecíveis como "A Queda da Casa de Usher", "Ligéia" e "Manuscrito encontrado em uma Garrafa". Não obstante, não carece desse elemento que distingue tanto sua obra: o mistério. Sem embargo, este, curiosamente, não se encontrará senão até o desenlace dessa narrativa, a qual ocorre de ser qualificada, por alguns críticos, como lenta e frouxa. Em efeito, enquanto que a maior parte do desenvolvimento da Narrativa de Arthur Gordon Pym - talvez dois terços do romance - carece de vitalidade e emoção, a última fração se mostra como um giro incrível que rompe com a monotonia do relato, para se transformar em um oceano de mistério, assim como misteriosas são as águas antárticas. Este fato comoveu os estudiosos da obra de Poe e promoveu um longo debate onde não se consegue ainda formular uma resposta.

O tema do romance, a grosso modo, consiste em uma longa viagem por mar que culmina nos brancos gelos do extremo sul. Ali os viajantes se encontram com aborígenes negros, um povo desconhecido para o homem branco, cuja condição provocará nestes uma complexa confusão de sentimentos opostos, onde a atração e a repulsão se mesclam. As últimas páginas são uma corrida suicida que parece não levar a outra parte que ao terror do vago, a um redemoinho demencial cujo fim não se encontra em nenhum centro nem em nenhum vértice. As respostas são demasiado tímidas, quase ingênuas; os mistérios estão por se decifrar, porém jamais se logra revelá-los; pois, ao final da Narrativa de Arthur Gordon Pym, Poe começa outra história, outro relato. Uma história que, certamente, jamais escreverá...

Porém neste mar de dúvidas e de névoas indefinidas, há um mistério que, no desenlace, se decifra. A saber; Poe nos assinala aquilo que provoca terror nos negros: temiam o branco, a ausência de toda cor que preenchia toda aquela região e ao desesperado grito de Tekeli-Li, pois é o presságio nefando de sua pronta manifestação. Mas, o mistério logo voltará a nos cobrir com seu manto: Uma terrível visão, a última imagem do romance, será a emersão de um gigante branco "cujas proporções eram muito maiores que as de qualquer habitante da terra", visão aterradora que fulmina ao negro Nu-Nu. Quem é este ser? Qual é a origem misteriosa de Nu-Nu e dos outros aborígenes? Qual é a alegoria que se oculta no medo ao branco? O que nos quis dizer Edgar Allan Poe com tudo isso?

As perguntas galopam velozmente, como malditas estrelas fugazes. Uma leitura profunda da Narrativa de Arthur Gordon Pym, centrada naqueles sinais com maior denotação, talvez nos assinale o caminho correto. Uma leitura que assuma a análise comparativa como uma de suas regras mais imperativas. Este é o caminho que decidimos fazer nosso neste ensaio e, certamente, nesse apartado sobre Poe e seu estranho romance.

Não cabe dúvidas de que a essência do mistério da Narrativa reside no seguinte: o branco como fonte de terror. Eis aqui o elemento que faz dessa obra algo mais que um simples romance. Muito mais, sem dúvida, pois nos obriga a realizar uma interpretação metaliterária, esotérica. Veremos, então, o significado do branco no código de Poe e em seu romance. Porém antes devemos conhecer o significado dessa não-cor conforme a hermenêutica tradicional (René Guénon) e a interpretação de um companheiro de ofício de Poe: Herman Melville.

Primeiro: Existe um confronto entre branco e negro. A explicação mais frequente que se dá a respeito, nos diz René Guénon, tem direta relação com a luz e as trevas, o dia e a noite; quer dizer, o confronto entre os opostos complementares.

Segundo: A oposição não é absoluta, já que branco e negro tem a mesma origem. Não haveria dualismo, "pois se tais dualidades existem real e verdadeiramente em sua ordem, seus termos não deixam por isso de se desviar da unidade de um mesmo princípio". Isso adquire clareza quando pensamos no símbolo de ying-yang. Nesse, ainda que as cores pareçam se enfrentar, notamos que dentro de cada zona de domínio de uma cor se encontra presente a cor contrária.

Terceiro: Negro e Branco são expressões do Não-Manifesto e do Manifesto, respectivamente. Não obstante, essa regra tem exceções e, às vezes, nos encontramos na situação inversa; ou seja, onde o negro corresponde ao Manifesto e o branco ao Não-Manifesto. A Antártida, segundo nosso juízo, seria um desses casos excepcionais. O branco polar é o Não-Manifesto, o véu que esconde o Segredo.

Em relação ao prosista Herman Melville, norteamericano como Poe e Lovecraft, devemos considerar sua obra "Moby Dick, a Baleia Branca", como um dos romances ocidentais mais simbólicos e misteriosos dos que já se escreveram. Seu capítulo "A Brancura da Baleia" nos ajudará a comprovar nossa hipótese e a resolver o caráter esotérico do branco, assunto de vital importância para esse artigo. Este capítulo é uma soma de pensamentos em relação ao branco daquela baleia e às emoções que este provoca. O princípio sobre o qual se sustenta Melville é o mesmo sobre o que se baseiam as ideias de Poe e Lovecraft; a saber, o medo humano em relação ao branco.

"O que me estonteava sobre todas as coisas era a brancura da baleia". Curiosa pode nos parecer essa citação de Melville, mas somente se nos detemos aqui e não continuamos com a leitura desse capítulo. O autor mencionará a muitas outras bestas de branco: o urso polar, o tubarão branco, o albatroz, cuja não-cor fará com que o sangue se esfrie somente com sua presença. Assim, o narrador seguirá este mesmo caminho, para tentar responder o enigma. Com novas perguntas irá abrindo o caminho para a solução do mistério: Como é possível que essa cor que representa a espiritualidade, "o próprio véu da deidade cristã", segundo Melville, seja ao mesmo tempo um signo do mais terrível? Não se deverá este horror ao indefinido, o qual se manifesta através do branco? Não será que o branco, que implica a ausência da cor, nos assalta de improviso tocando as mais íntimas fibras de nosso ser?

O branco, podemos concluir da leitura da obra de Melville, ao significar o indefinido, e quiçá também o dual, que não são sinônimos, representa, em definitivo, o misteriosos por antonomasia. E daí vem o medo que o branco provoca em nós, pois nos encontramos perante um véu misterioso que oculta outros mistérios.

Voltando à obra de Poe, recordaremos que o branco causa o medo dos habitantes de Tsalal, ilha próxima à Antártida, ocupada por indígenas de pele negra. Não importa se se trata de um simples pano branco ou de um inofensivo pó branco, o que seja, a reação de horror dos negros não tardava em chegar.

Na página final da tragédia de Pym lemos: "Muitos pássaros gigantescos, de uma brancura fantasmagórica, voavam continuamente vindo de mais além do véu branco, e seu grito, enquanto se perdiam de vista, era o eterno Tekeli-Li!". Este acontecimento causará a morte de Nu-Nu, o habitante de Tsalal, o prisioneiro de Pym. O terrível Tekeli-Li! das aves, é imitado pelos índios cada vez que se encontram diante da presença do branco ou quando estão muito próximos a sua poderosa influência. Os pássaros serão os mensageiros de Deus: recordemos a importância desses no relato bíblico de Noé. eles anunciarão o último terror para os negros: virá figurado no Gigante Branco.

Em síntese, o branco antártico no romance de Edgar Allan Poe é um símbolo de terror e, por conseguinte, de mistério. Porém que significado poderia ter o branco no âmbito do código moral e social do próprio autor? Sidney Kaplan e Julio Cortázar, acreditam ter uma resposta: A luta entre o branco e o negro que se representa em "Narrativa de Arthur Gordon Pym", é uma manifestação do pensamento racista de Poe. "Poe não dissimulou jamais suas opiniões em favor da escravidão", dirá o argentino.

Porém como tornar coerentes as ideias raciais de Poe com a arquitetura de seu romance? Por certo não é difícil: a viagem da Jane Guy (embarcação que resgata a Pym e seus companheiros do naufrágio de seu navio anterior, o Grampus) representa o esotérico caminho em direção ao branco, símbolo da pureza. Quanto mais ao sul se adentram os navegantes, o branco impõe com mais força sua presença e seu mistério. Quanto mais próximo à Antártida - recordemos seu outro nome: o continente branco - Pym se encontra mais próximo ao símbolo aristocrático por excelência.

Não obstante, essa viagem iniciática não está isenta de perigos e dificuldades. A carnificina em que são vitimados os homens da Jane Guy às mãos dos furibundos negros, são somente algumas das perigosas provas pelas quais deve passar o peregrino que vai por esse caminho solitário.

Como signo de proximidade ao sagrado e desde a perspectiva racista de Poe, seguimos analisando essa aproximação ao extremo final do Continente Branco. A medida em que o viajante se aproxima ao Centro do Pólo, vai experimentando um aumento gradual da temperatura - ou seja, na medida em que nos encontramos mais próximos ao centro do centro, as forças hostis da natureza vão perdendo o poder de sua influência. E ainda que este dado anotado por Poe em seu relato possa hoje parecer de escasso valor científico, o certo é que não estava longe da experiência que pode ser constatada pelos sentidos de algum viajante antártico. Como exemplo citamos o curioso fenômeno dos "Oásis da Antártida" onde a água alcança uma temperatura comparativamente mais elevada que o resto das águas antárticas. Conhecia este fenômeno Edgar Allan Poe? Se pudesse nos responder, talvez o faria da mesma forma que Lovecraft quando lhe perguntaram se havia viajado alguma vez a Paris: "Sim, em meus sonhos".

Poe pensava, sem dúvida, da mesma forma: recordemos sua bela frase: "Toda certeza está em meus sonhos".

Um último dado quanto a Poe e sua posição frente aos negros. Se especula que seu gosto pela narrativa do medo nasce com as histórias que escutava dos escravos na cozinha de sua casa quando era uma criança: "E esses temores lhe haviam inculcado os negros e negras escravos de seu tutor, nos relatos de aparecidos que constantemente tinham na boca, e que a criança Edgar ia escutar na cozinha". Inclusive, Hervey Allen, cuja opinião é citada por Ferrari, assegura que a influência narrativa dos negros sobre Poe é ainda maior pois a musicalidade de sua composição literária - os ritmos, complicados e cheios de matizes - é, de certa forma, uma imitação dos cânticos dos escravos".

Seja ou não certo, é importante considerar essas opiniões como hipóteses, as quais podem nos ajudar a lançar luzes no caso de Poe.

Seguindo muito próximo ao genial Poe, após o mistério que aqui nos interessa, encontramos a pessoa de outro mago, o chileno Miguel Serrano.

Miguel Serrano - Os Gigantes

O Mito Antártico adquire força incontida na literatura do poeta, escritor e viajante Miguel Serrano, criador de textos mágicos como "Nem por Mar nem por Terra", "A Serpente do Paraíso", "Quem Chama nos Gelos", "O Círculo Hermético", "Ele-Ella, Livro do Amor Mágico", "Nietzsche e a Dança de Shiva" e "As Visitas da Rainha de Saba", com prólogo de C.G. Jung.

Dizem relação com a Antártida dois de seus trabalhos mais interessantes: "A Antártida e outros Mitos", de 1948 e "Quem Chama nos Gelos", 1957.

O primeiro deles é a transcrição de uma série de conferências ditadas em Chile pelo autor e ex-diplomata. Seu frontispício é revelador: um desenho de um gigante bicorne alado emergindo das brancas neves e portando um tridente. Desde o começo, Serrano faz gala do sincronismo que mantém com Poe.

O tema dessas conferências é o Mito em relação com a Antártida, e nos damos conta de que o título do texto, como diz Erwin Robertson, assinala que "a Antártida é um mito". Serrano relacionará numerosas lendas em referência ao tema que nos ocupa: os belos relatos dos onas (antigos habitantes da Terra do Fogo), a lenda da Virgem dos Gelos, o continente de Lemúria, o gigante de Poe e, ainda, a atrevida ideia de que Adolf Hitler mora no frio antártico. E ainda que à simples vista pareça não existir relação alguma entre cada uma dessas; as há, posto que todas essas lendas se referem aos misteriosos moradores da Antártida. Eis aqui outro ponto onde conflui o pensamento desses três autores. Serrano conhece o relato de Poe e assinala em relação ao Gigante Branco: "É que Poe conhecia a lenda dos selcnam sobre os Jon que habitam na Ilha Branca". "Sabia também do Prisioneiro da Antártida, que vive em seu fundo negro, e que certamente por isso mesmo se vê branco"?

Para entender quem eram os Jon e a que se refere Serrano quando fala de Ilha Branca, se recomenda ler a página 25 de "A Antártida e Outros Mitos", onde explica que os antigos onas (os sélcnam eram somente uma tribo ona) acreditavam na existência dos Jon: humanos de casta aristocrática dotados de faculdades sobrenaturais e possuidores dos Mistérios. "Foram os Jon, magos sélcnam da Terra do Fogo, os que conservaram os segredos ensinados por Quenós e os que ainda se imortalizam se embalsamando dentro dos gelos do sul, para ressuscitar renovados no mais longínquo futuro. Dizem também os sélcnam, que é no Sul, além, nessa "Ilha Branca que está no Céu" onde moram os espíritos de seus antepassados, fazendo uma vida livre de preocupações".

Serão esses espíritos ancestrais Os Antigos, mencionados por Lovecraft? Será a Antártida aquela Ilha Branca da qual falavam as velhas lendas onas?

Serrano, que foi um dos primeiros chilenos a conhecer a região antártica, dá conta da relação entre esse lugar e a loucura. E assinalamos, por nossa parte, que o título do inesquecível romance de Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura, não se deve a um capricho ou a uma ocorrência engenhosa para chamar a atenção de alguns leitores enfebrecidos.

Serrano dirá que a única via para compreender essa realidade austral, ou melhor, para se salvar da loucura que ali espreita, é o Sonho, e o mundo dos sonhos é um elemento clássico da narrativa de H.P. Lovecraft.

A inquietante possibilidade de que exista uma entidade não-humana na Antártida, se registra também nas páginas do texto do autor chileno. O sincronismo entre esses dois escritores nos deixa assombrados, acima de tudo porque Miguel Serrano desconhecia a obra de Lovecraft quando escreveu "A Antártida e Outros Mitos". Citemos, então, Serrano, que com sua arte nos lembra os velhos alquimistas: "Não obstante, nesse continente do repouso e da morte alguém vive. Um prisioneiro se agita, tendo por meio habitável o fogo ardente e eterno". Essa ideia de Serrano se plasma também em outro texto do mesmo autor: "Quem Chama nos Gelos".

Eis aqui um parágrafo de terrível beleza: "Eu vi a esse ser, esse Anjo Negro: aí, em seu recinto do Pólo Sul. É em uma imensa cavidade escura onde reside... Espaços enormes, sem limites, levianos e deprimentes ao mesmo tempo, que se estendem, com segurança, pelo interior psíquico da terra, debaixo dos gelos eternos. E assim se move o Zinoc... Ascende ou descende, até o extremo dessa cavidade e, desde aí, se arroja a uma velocidade vertiginosa em demanda de seu outro extremo, de seu final inalcançável. Toda a eternidade passou nesse esforço, caindo de cabeça, tratando de alcançar o lugar antipódico do qual foi proscrito no início mesmo da criação. O norte é seu sonho, seu desejo profundo e seu maior sofrimento". Lovecraft, por sua parte, em seu romance escreverá algo revelador: "Se fundaram novas cidades terrestres, as mais importantes delas no Antártico, já que aquela região, cenário de sua chegada, era sagrada. A partir de então, o Antártico foi como antes o centro da civilização dos Antigos, e todas as cidades construídas ali pela prole de Cthulhu foram destruídas". Mais adiante, o narrador do romance de Lovecraft indicará que os mapas encontrados na velha cidade polar mostram que as cidades dos Antigos na época pliocênica se encontravam em sua totalidade, por baixo do paralelo 50 da latitude sul. Essas referências de ambos autores são fundamentais, porque nos indicam a oposição simbólica entre Pólo Norte (ou a mítica Hiperbórea) e Pólo Sul, sede dos Antigos. Essa oposição não responde somente a uma diferença de caráter geográfico, senão que, acima de tudo, a diferenças espirituais. Em efeito, o Pólo Norte é o pólo positivo - em termos cristãos, o Bem - e o Pólo Sul - desde a mesma perspectiva, o Mal. Não obstante, esses opostos, conforme os princípios da filosofia maniquéia, se complementam. Ambos pólos mantém a Ordem na Terra, regulam o bom funcionamento energético de nosso mundo. A única possível diferença diz relação com o tipo de energia que irradiam ditos lugares, pois em verdade são centros energéticos. Esse conhecimento que se expressa através da literatura moderna (Lovecraft e Serrano), que diferencia os centros volitivos terrestres, concorda ponto por ponto com o pensamento antigo ou tradicional que ensinaram os mestres indo-europeus, para os quais as palavras que nomeiam os distintos lugares sagrados são: Céu, Terra ou Mundo, Meio e Inferno. O Céu, para eles, é a morada dos heróis, aqueles que viveram a vida tal como se deve, e corresponde a Hiperbórea ou nosso Pólo Norte; a Terra é o lugar habitado ou terreno de expedições e viagens, eles a identificavam com Ásia ou Europa. O Inferno, que era o lar dos demônios - os Antigos e os Shoggoths - parece não ter sido descrito e situado com tanto detalhe e precisão pelos antigos sábios indo-europeus. Esse Inferno é para nós o Pólo Sul.

Em "Quem Chama nos Gelos", Serrano relata um sonho, no qual um misterioso ser lhe diz: "A imortalidade se logra entre os gelos - me respondeu - e se consegue gelando-se. Não sou ninguém, nem nada posso fazer agora. Teu grande combate será com o Anjo das Sombras". Serrano destaca acima de tudo os mitos onas em suas conferências sobre os Mitos da Antártida, para nos proporcionar uma chave para decifrar os arcanos ocultos: "Foi Quenós quem começou a criar a terra, de cima para baixo. Porém antes, com argila branca modelou aos Hohuen, seres gigantescos e transparentes como anjos. Apenas criados, os Hohuen começaram a lutar entre si. Não obstante, não podiam morrer". Eis aqui os mesmos traços arquetípicos dos Antigos lovecraftianos: grande tamanho, poderosos, belicosos, inumanos e imortais. A mitologia ona assinala que os Hohuen (nossos Antigos) foram criados com gelo. Isso, em verdade, assinala sua origem geográfica: a Antártida.

Para finalizar, o romance de Miguel Serrano aporta um dado que é, quiçá, o fio que nos permite unir aos três autores; a saber: a relação do branco com o continente gelado. A cor neste caso não só é expressão dos gelos, senão de aspectos imateriais e filosóficos. Cortázar, como já se escreveu, seguindo nisso a Sidney Kaplan, verá nestes princípios o fundamento do racismo de Poe: "A oposição do negro como signo negativo e do branco como uma força que luta com ele e em último termo". E a propósito de racismo, devemos assinalar aqui um fato que não deixa de nos intrigar: Poe e Lovecraft sustentaram uma filosofia racista, e Miguel Serrano, sustenta hoje essa mesma filosofia. Recorde o leitor que não há casualidade, senão causalidade misteriosa.

Porém citaremos o próprio Serrano em relação à vinculação entre as cores e a Antártida: "Existe ademais uma relação entre a cor e o pólo. Os pássaros negros tendem a desaparecer desses mares e lhes é muito difícil alcançar as latitudes extremas da Antártida. Por sua vez, as aves de plumagem branca suportam o frio muito melhor". Curioso, Lovecraft também nos fala desse outro vínculo entre pássaros e cor. Em seu belo poema Antarktos, lemos:

Deep in my dream the great bird whispered queerly
Of the black cone amid the polar waste;
Pushing above the ice-sheet lone and drearly,
By storm-crazed aeons battered and defaced.
Hither no living earth-shapes take their courses,
And only pale auroras and faint suns
Glow on that pitted rock, whose primal sources
Are guessed at dimly by the Elder Ones.
If men should glimpse it, they would merely wonder
What tricky mound of Nature's build they spied;
But the bird told of vaster parts, that under
The mile-deep ice-shroud crouch and brood and bide.
God help the dreamer whose mad visions shew
Those dead eyes set in crystal gulfs below!

E já que mencionamos Lovecraft, chegou o momento de penetrarmos em seus símbolos e seus mitos.

Howard Phillips Lovecraft - O Trovador de Leng

O recluso de Providence, o mestre do horror e gênio da literatura fantástica desse século, escreverá no ano de 1931 um de seus poucos romances que se constituirá em um pilar fundamental de seu opus. Nos referimos a "Nas Montanhas da Loucura".

Escrevê-la e publicá-la foi todo um sofrimento para nosso autor. A razão: ele detestava transcrever à máquina suas narrativas, porém este era um requisito obrigatório para que qualquer conto ou romance fosse considerado para sua publicação em revistas para aficionados tais como a lendária Weird Tales. Lovecraft dirá, se referindo ao diretor da mencionada revista: "Maldito seja Wright, por rechaçar o conto que quase me mata ao mecanografá-lo!" Essa foi uma experiência dura e desagradável para Lovecraft. Não obstante, o destino não quis que seu romance passasse inadvertido, e decidiu que ao final deveria ser publicado.

Em síntese, Nas Montanhas da Loucura trata das aventuras de uma expedição científica à Antártida, porém, o protagonista, antes de iniciar seu relato, insistente em advertir aos possíveis leitores de que aquele continente não deve ser perfurado por mão alguma, para que não ocorra que se despertem horrores que não devem ser liberados.

O horror que não deve ser perturbado é a raça dos Antigos e seus escravos, os Shoggoths. Na mitologia lovecraftiana, os Antigos são horríveis divindades que desceram desde o céu e que fizeram da Antártida sua primeira base. Esses gigantes de cabeça em forma de estrela criaram o homem e também aos Shoggoths, torpes bestas de carga, submissas inicialmente, mas que mais tarde foram capazes de conduzir uma rebelião contra seus senhores. É difícil subtrair-se à tentação de comparar essa emancipação com o combate bíblico entre Deus e seus Anjos fieis contra o Primeiro Rebelde, Lúcifer ou Prometeu. Os Antigos se defenderão dessa ameaça por meio de uma arma tão devastadora como a bomba atômica. "Os Antigos utilizaram umas curiosas armas de perturbação molecular e atômica contra os entes rebeldes, e ao final abraçaram uma vitória total". Convém recordar que somente em 1945 cairá uma bomba atômica sobre Hiroshima e outra em Nagasaki. Esse caráter profético da obra lovecraftiana é outro de seus aspectos inquietantes.

A narrativa faz perturbadoras referências a um livro espantoso de saber proibido: O Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred. Esse obscuro texto é um elemento central na narrativa de Lovecraft, é a fonte de sua cosmogonia e de sua teologia. O Necronomicon teria sido consultado por alguns dos membros da expedição antártica, especialmente por Danforth, que era um estudioso e "um grande leitor de temas estranhos que havia falado muito de Poe". Ademais ele era um dos poucos infortunados que teve o valor para examinar de forma exaustiva o livro condenado. Danforth, se referirá em repetidas ocasiões ao Necronomicon e fará tímidas referências sobre a possibilidade de que a obscura Meseta de Leng, aquela tenebrosa região, cuja localização nem o próprio Alhazred foi capaz de precisar, em verdade seja um antigo nome para assinalar a Antártida.

Mais que a narrativa em si mesma, a atmosfera de terror do romance está dado pela paisagem e pelo ambiente urdidos pela pena de Lovecraft. Em efeito, ele será sempre fiel a um princípio seu segundo o qual o mais importante na literatura de terror não é tanto o enredo, senão o ambiente ou a atmosfera que cria o escritor e os sentimentos e sensações nefandos que experimenta o leitor. Angela Carter, em um excelente estudo lovecraftiano, assinalará a respeito: "A Antártida de Lovecraft é a mais terrível de todas as suas paisagens. Esse reino desolado de gelo e morte, o lugar onde chegava 'a névoa e a morte' ao velho marinheiro é, ao mesmo tempo, uma versão realçada da Antártida real, e uma visão da aborrecível meseta de Leng, o teto do mundo".

Lovecraft, com a pluma de um escrito que é antes de tudo um observador atento e um psicólogo, criou de forma singular um dos ambientes mais inóspitos e mais hostis à Terra. Cada elemento do continente austral é uma adaga, uma passagem sem saída para a Morte. Alguns desses elementos estão representados pelo Vento, pela Solidão, pela Distância, pelas Lendas, pelo Gelo, pelo Odor e, certamente, pelos habitantes desse ermo, que ocultos na brancura não estão mortos, senão que esperam ser despertados de seu sonho conjurado. E como exemplo do uso magistral desses elementos, citaremos algumas linhas do romance que fazem alusão ao som do vento: "O terrível vento antártico soprava de modo intermitente, e sua cadência tinha para mim um vago som musical, semelhante ao eco de umas charamelas silvestres, que por algum motivo ignorado me parecia inquietante e inclusive ameaçador".

O título do romance se refere particularmente à gigantesca cordilheira onde se encontram as colossais ruínas das cidades dos Antigos, uma região de alturas impossíveis de alcançar pela mente e pelos sentidos de um homem normal e onde o assombroso é a regra. Adentrar naqueles lugares significa penetrar no subconsciente; eterno oceano cósmico de arquétipos: "Era como se aqueles pináculos de pesadelo constituíssem o umbral que dava passagem a esferas proibidas de sonho, a complexos abismos de tempo, espaço e ultradimensionalidade remotos".

A arquitetura lovecraftiana é um conceito desafiador e ousado que tende a levar os sentidos a seu nível máximo de resistência; justo até o ponto em que a tensão é quase insuportável e terminarão por se precipitar na escuridão de um vazio sem sensações. Este traço tão pessoal de seu estilo narrativo, o encontramos em vários de seus relatos mais sobressalentes; a saber, O Chamado de Cthulhu, A Cidade Sem Nome, e Os Sonhos na Casa da Bruxa. Em todos esses, o titânico e o grandioso é a essência do conteúdo narrativo. Ante esses edifícios formidáveis e essas esculturas anormais e inquietantes, o homem deve compreender que não é mais que um pequeno átomo, uma criatura insignificante que crê conhecer os segredos da imensidade do espaço interestelar e da vida, quando em realidade não passa de um ignorante, um grosseiro, que flutua em um amplo mar de conceitos irrelevantes, criados para fazer mais suportável sua existência.

Aqueles exploradores da fria Antártida, sentirão essa ominosa sensação de insignificância, e entre aqueles que possuem um nível mais alto de compreensão, como é o caso de Danforth, enlouquecerão. Ao final serão afogados pela terrível imensidão e a devastadora opressão da solidão nas turbulentas águas da loucura.

Outro elemento de horror é o misterioso grito que já havíamos mencionado no apartado dedicado a Edgar Allan Poe. sim, o temível Tekeli-Li! As palavras de Poe se transformam por meio da magia de Lovecraft no pássaro que avisa a morte, o mistério carregado de ameaças. Pois é o encontro com o horror mais terrível, é a voz mesma dos Shoggoths. Danforth que conhecia a obra de Poe, dirá "que estava interessado devido ao cenário antártico do único romance longo de Poe: o desconcertante e enigmático Arthur Gordon Pym". Como vemos, outra vez a literatura de Poe é o ponto de partida de autores posteriores, como Serrano e Lovecraft. Em efeito, Poe é a Chave.

Assinalados alguns aspectos primordiais do romance de Lovecraft, revisaremos a continuação de maneira detida as chaves do mistério da Antártida que se encontram nessa.

A primeira chave, que nos ajudará na compreensão de aspectos um tanto obscuros nas obras dos outros dois autores, é aquela que assinala à Antártida como o lugar onde fizeram sua entrada os Antigos. O Pólo Sul é a Porta. Desde ali as hostes luciféricas ascenderão ao Pólo Norte, em direção à mítica Hiperbórea, em um caminho de representação da ascese esotérica pelos distintos chakras corporais e que é a via da tomada do poder divino, precisamente o que o Demiurgo castigou. Serrano em uma entrevista disse: "A Terra é um astro, um ser vivo, que está aqui, que tem seus distintos órgãos, e a parte correspondente ao sul do mundo, e ao Pólo, corresponde aos órgãos sexuais". Esses dados nos permitem entender porque o cristianismo foi tão reticente em relação ao poder sexual e a energia que dele deriva. Isso se deve, como vimos recentemente, à relação existente entre energia sexual e Lúcifer. Não obstante, uma alquimia espiritual há de nos facultar transcender o plano da energia sexual pura (o orgônio de Wilhelm Reich) para transformá-la em energia do Espírito, aquilo que nos levará a esse estado de plenitude.

O Pólo Sul - que é o sexo do mundo - é a guarida dos Antigos. E ainda que hajam ocupado também outros territórios, voltarão ali para construir suas cidades. René Guénon, em uma crítica à interpretação de Eliphas Levi sobre o Inferno de Dante, diz: "Isso é certo em um sentido, posto que o monte do Purgatório se formou, no hemisfério austral, com os materiais arrojados do seio da terra quando a queda de Lúcifer cavou o abismo". Podemos afirmar, então, que o monte do Purgatório era a Meseta de Leng da qual nos fala o Necronomicon?

Essa intuição de Lovecraft para reconhecer o Pólo Sul como Porta e Guarida dos Antigos, pode provar o que muitos pensam sobre ele: era um iniciado no esoterismo. Não obstante, acreditamos que seu despertar não se deveria às generosas fontes de alguma irmandade secreta, senão a sua poderosa intuição que foi se fazendo lúcida através de suas leituras e à justa interpretação das mensagens que lhe chegavam do mundo dos sonhos.

A segunda chave, revela que a viagem externa realizada pelos homens do Arkham e do Miskatonic (os barcos que transportam os exploradores da Antártida) é também uma viagem interior. Em efeito, eles devem se enfrentar aos Cinco Elementos para chegar ao Centro do Labirinto. Essa luta nos lembra a imortal Divina Comédia, de Dante. Ambos textos descrevem muito bem as etapas do caminho iniciático. Diferem, isso sim, em que os expedicionários da Universidade de Miskatonic não resolvem o enigma da Esfinge e se precipitam no Inferno, para sofrer para sempre em sua pestilência.

A viagem ao Centro do Sul, o Pólo Sul, é a senda condutora ao Centro do Mundo Inconsciente. Daí sua dificuldade: se ver arrastado nas águas turbulentas dos sonhos, dos medos e dos traumas. Essa realidade perturbadora ficou representada nas páginas finais do romance, cenas que transcorrem em vertiginosos labirintos sob a terra, sítios onde serão descobertos o narrador e o jovem Danforth por um Shoggoth, o qual vem a significar o Minotauro, o guardião do Labirinto.

O Labirinto demanda atenção especial, porque ocupa um lugar de preferência na narrativa lovecraftiana, por exemplo: "Nos Muros de Eryx", "Encerrado com os Faraós", "A Fera da Gruta", "Os Ratos das Paredes", "Horror em Red Hook". Em todos esses relatos sempre encontraremos uma imagem do Labirinto e seus moradores. É provável que o maior número de semelhanças entre os relatos de Lovecraft possam ser encontradas no romance antártico e na Fera da Gruta. Em ambos relatos o Labirinto tem a forma de uma caverna ou se quiser, uma profunda fenda na terra. Em geral se associa a caverna com a morada de nossos primitivos antepassados, porém ademais ela possui outro significado mais justo: é o recinto onde se realiza a iniciação. "...A caverna deve formar um todo completo e conter em si mesma a representação do ciclo tanto como da terra". É o lugar da morte e da ressurreição.

Em relação ao Labirinto, um princípio fundamental é a seleção: Não é qualquer um que deve entrar ali. É uma das provas finais, aquela que mede as destrezas adquiridas no longo caminho da ascese gnóstica. É a última partida de xadrez, na qual se enfrenta com um inimigo que segue nosso avanço e que nos conhece. É o enfrentamento contra o mais terrível de nós: O Monstro.

Os antigos, como seu nome o indica, são a representação viva do mundo passado, no princípio do tempo, são a imagem daquilo que se encontra no mais recôndito de nossa mente. Os Shoggoth são a degeneração do antigo, o imperfeito ou que se encontra submetido a um processo de câmbio constante. O Branco - a grande chave do mistério antártico - é o intocável, o virginal e proibido. O Vento corresponde àquilo que é intangível, porém que não obstante existe, os murmúrios dos outros. O grito Tekeli-Li! é o terrível que se diz e repete, uma e outra vez. As titânicas construções de pedra, é aquilo que ainda que não tenha objetivo ocupa um lugar na mente; é um estorvo, uma inútil ruína que devemos deixar de lado. E o nefando Necronomicon é o lugar onde todos esses elementos tomam a forma terrível da lenda, que se perpetua mais além dos aeons e das gerações, levando consigo a mensagem dos antepassados.

Desde essa perspectiva, se pode dizer que o narrador proíbe, em termos de uma advertência, a exploração da Antártida para assinalar, na realidade, que ninguém deve atravessar o mundo do inconsciente sem estar preparado, pois poderá não voltar.

A interpretação que fizemos poderá se assemelhar à psicanálise aos olhos de alguns. Porém não é assim, porquanto toda técnica psicológica está limitada por uma visão e um pensamento parcelados e muito distantes de toda origem ou fonte primeira; portanto, nada mais distante de um esforço por lograr uma visão tradicional, que se caracteriza pelo totalitarismo, ou seja, que tenta se situar fora de todo ponto de vista: no centro mesmo do Centro. Então se trata de entender o sentido oculto desse romance desde a interpretação tradicional de René Guénon e de Evola, pois somente uma filosofia tradicional nos permite fazer uma comparação esotérica da obra de Lovecraft em relação à obra de outros autores. Alguns deles possuidores de um sólido conhecimento da Tradição e outros ignorantes dessa mesma.

Não é necessário mais do que ler para se dar conta de quais são uns, e quais os outros.

O Encontro de Três Gigantes

Os textos que revisamos estão relacionados - sem dúvida - por um mesmo tema e por um cenário único. Comprovamos que o pensamento desses três autores, coincide à mercê de uma causalidade interna que não é fácil de decifrar, porém que responde a um sincronismo universal e às fontes únicas de cujas águas eles beberam.

Uma vez concluída essa viagem à Antártida cremos que é conveniente nos sentarmos em companhia do aristocrata Edgar Allan Poe, de rosto lívido e frente ampla, e do grande Miguel Serrano, adepto do Amor Mágico. Junto a eles está comodamente sentado um dos homens mais lúcidos do século, Howard Phillips Lovecraft. Se nos aproximamos e compartilhamos de sua conversa, poderemos ouvir maravilhosas histórias de gigantes brancos, dos Hohue e dos Antigos. E se aguçarmos os ouvidos ouviremos todo um fino sussurro, um murmúrio que provém, sem sombra de dúvidas, dos frios mares antárticos.

10/11/2012

Guerra Espiritual

por Charles Upton




Uma história é contada (seja da tradição Zen, da tradição de Bushido, ou do cinema Japonês moderno, eu não me lembro) sobre o encontro entre um guerreiro Samurai e um monge Zen. O guerreiro se aproxima do monge sentado e desembainha a sua espada. O monge permanece impassível. "Você não percebe que eu não tenho receio em matá-lo?" ruge o guerreiro. "Você não percebe que eu não tenho receio de morrer?" calmamente responde o monge.

Qual das figuras desta história apresenta mais coragem?

De uma fonte desconhecida, certos escritores modernos que exaltam o guerreiro ideal —Nietzsche, e (em um certo grau) Julius Evola
— a ideia de que a capacidade do mártir de calmamente enfrentar a morte é de certa forma servil, ao invés de ser um exemplo de coragem viril no mais alto grau. E esse equívoco é também acompanhado pela noção de que enquanto a covardia é uma traição da virtude guerreira, a ideia Cristã de pecado não é — como se a autocomplacência de cada tipo não fosse a mesma coisa que enfraquece o espírito guerreiro, produzindo não o guerreiro viril, mas o guerreiro devasso efeminado.

Como tal equívoco poderia ter crescido é intrigante — embora não inteiramente assim, como veremos. Foi Thomas à Becket servil quando ele desafiou o rei Henrique II, em nome das prerrogativas da Igreja Católica Romana, e deu sua vida em defesa dela? Falando tão claramente quanto eu posso, quem acredita que o tipo de coragem exibido por Becket foi de alguma forma servil ou pouco viril está seriamente fora de alcance da realidade. Pode ser tal coisa como uma piedade patológica, masoquista, como às vezes é retratada na arte religiosa ruim, mas esse tipo de doença mental não tem nada a ver com a coragem e a virtude dos santos.

Entre a coragem do guerreiro e a do monge, não podemos decidir facilmente, porque essas duas versões da virtude existem em planos diferentes, guardadas e exemplificadas por diferentes castas. A coragem de um guerreiro é a jihad menor, e a do monge o fruto da jihad maior: apenas o homem que triunfou em um único combate sobre o seu próprio autoconceito pode se libertar da sua vida no momento em que seu Senhor exigir, como se estivesse libertando um pássaro cativo de seu domínio. E, claro, os maiores guerreiros devem sua preeminência a jihad menor justamente para a sua conclusão bem sucedida da maior. A história é contada de Ali ibn Abi Talib, genro do Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos estejam sobre eles), quarto Califa Sunita, primeiro Imame Xiita e o maior metafísico e guerreiro de seu tempo. Durante uma batalha, ele finalmente teve um de seus maiores inimigos à sua mercê, e desembainhou a espada para matá-lo. Naquele momento, porém, o inimigo derrotado cuspiu em seu rosto — em tal ponto Hazrat Ali embainhou sua espada, virou-se e foi embora, sendo isso uma violação indecorosa da adab (etiqueta) para um verdadeiro guerreiro —  como para um verdadeiro arif, um conhecedor de Deus — matar de raiva.

A casta Brâmane ou sacerdotal é intrinsecamente superior ao Kshatriya ou casta guerreira, precisamente porque o intelecto divino dentro do homem é maior do que a vontade. A força de vontade, a raiz de seu poder, é a certeza — e a certeza é intrínseca ao Intelecto; se Meister Eckhart foi capaz de dizer que "a alma é um aristocrata", foi porque ele sabia com a certeza inabalável que “o meu verdadeiro ‘eu’ é Deus”. Sem contato e lealdade à tal certeza metafísica, seja através de Intelecção direta ou da intelecção virtual conhecida como Fé, a vontade se torna um cão louco — e não a virtude de um cavalheiro culto, só o impulso sem propósito de um bárbaro cego ou um palhaço vulgar. Deve ser óbvio que só o intelecto pode dizer à vontade o que desejar; uma vontade que só consulta a própria intenção,e  não os fatores objetivos que sozinhos poderiam reivindicar ou invalidar essa intenção, torna-se um impulso sem sentido e destrutivo. Toda objetividade tem suas raízes no Divino; mas quando a vontade perde o contato com a realidade objetiva e afunda em sua própria subjetividade, quando se torna egocentrismo ao invés de servir a Deus, então o orgulho do guerreiro eclipsa seu amor próprio. E isso leva a um tipo de corrupção desastrosa e queda abrupta discernida por René Guénon como a antiga revolta da casta Kshatriya contra a casta Brâmane, tal subversão da ordem dada por Deus de coisas que resultaram na Torre de Babel. A vontade que se submete a algo maior do que ela se enche de poder, a vontade que adora apenas a si própria acaba por se destruir.

Dr. Rama P. Coomaraswamy, filho de Ananda K. Coomaraswamy, e em seus últimos anos um padre católico tradicional e exorcista, foi iniciado em sua juventude na casta Brâmane na Índia. Em uma ocasião, ele explicou para minha esposa e eu que enquanto o orgulho espiritual do Brâmane tradicional é mitigado pela sua vida como um mendigo, dependente da Vaishya ou casta comercial / artesanal para sua comida e da casta Kshatriya para a proteção, o orgulho do Kshatriya, aquele elã tão necessário para todos, exceto para o maior de guerreiros, é temperado pelo sempre presente espectro humilhante do ferimento, da mutilação e da morte. E é o dharma tradicional do Kshatriya, toda a sua razão de ser, proteger o Brâmane, de modo que o seu repouso contemplativo, do qual tanto o social quanto as ordens cósmicas dependem, não seja perturbado.

Se alguns escritores modernos, espirituais e políticos, têm cometido o erro de colocar o guerreiro acima do padre, isso pode ser atribuído à degeneração da casta sacerdotal em nosso tempo, não à sua suposta inferioridade intrínseca. O pároco nervoso, efeminado, passarinho tão familiar na ficção e na vida real não tem — como o padre pedófilo Católico — absolutamente nada em comum com o arquétipo sacerdotal, mas baseia-se precisamente na traição individual desse arquétipo, de acordo com o princípio da corruptio optimi pessima, “a corrupção do melhor é a pior”. Nós tendemos a pensar do sacerdote ou prelado como suave e passivo e o guerreiro como ativo; no entanto, de acordo com a Filosofia Escolástica, uma vez que Deus é Ato Puro, a meditação através da qual esse Ato se realiza ou a oração que o invoca são as mais ativas e, portanto, as mais viris, de eventuais atividades humanas. O Ato do contemplativo é imóvel e impassível à medida em que é perfeitamente realizado; em face de tal Ação realizada, a atividade agitada do mundano, e até mesmo a ação apaixonado e devota do guerreiro, são meras Potências. Ato é a expressão do Ser Necessário, a Realidade Divina, o Sempre Assim; Potência é a expressão do Ser Possível — não daquilo que deve ser, mas somente do que poderia ser, e assim deve-se convocar poder a fim de ser realizado.

Essa qualidade de contemplação viril pode ser vista mais claramente na tradição Hindu de Shaivite Tantra, onde Shiva, o Absoluto admantino como Testemunha universal, é o Shaktiman, o "detentor do Poder", enquanto sua consorte feminina, sua Shakti, é o Poder que Ele detém. Foi essa distinção que levou Guénon a atribuir os mistérios maiores ou masculinos à casta Brâmane, e ver o romantismo da casta Kshatriya, a sua tendência em unir cavalaria com o amor romântico heterossexual, com os mistérios menores ou femininos. A amante do cavaleiro é a sua Senhora; o mestre do monge é o seu Deus. No entanto, é através da fidelidade à sua Senhora que o cavaleiro compreende Deus — e  a compreensão de Deus pode também iniciar o monge aos encantos transcendentes da secreta e mais bela Senhora, que é a Santa Sabedoria. (A expressão quintessencial desse desenvolvimento na literatura é a história "O Sacerdote de Shiga Templo e Seu Amor", de Yukio Mishima.)

O homem poderoso é o que tem o poder de efetivar potência, realizar possibilidade — de acordo com esse critério, o contemplativo no único guerreiro verdadeiramente concluído, o único Homem Completo. A ideia de que o contemplativo é macio, confortável, carinhoso, servil não é nada mais do que o preconceito egocêntrico do guerreiro degenerado (melhor chamado de "vândalo", "gangster" ou "bandido"), o homem devorado pela obstinação que se rebelou contra a Vontade de Deus porque o Intelecto dentro dele que poderia discernir tal Vontade foi obscurecido. Infelizmente, a difamação da vontade caída contra o homem de Intelecto espiritual, não importa o quão falsa ela possa ser em princípio, está aparentemente confirmada, muitas vezes, pela indolência e covardia do sacerdote degenerado.

De acordo com Tomás de Aquino, a vida contemplativa tem preeminência sobre a  vida ativa — mas a vida "mista", a síntese de contemplação e ação, é a mais alta. Assim, o santo re-guerreiro é, em teoria, o maior de todos — não porque a função do guerreiro é maior do que a do monge, mas porque nele o monge triunfou sobre o guerreiro, e chegou a tal grau de perfeição que até mesmo os rigores da batalha não podem mais distraí-lo — o Homem Completo no qual monge e guerreiro são perfeitamente unidos — da contemplação constante de Deus. Deixe aqueles que estão fazendo o seu melhor para ressuscitar o ideal de cavalaria em nosso tempo bem entender isso, e então agir sobre isso, para que a sua longa busca pelo Guerreiro, toda sua coragem e auto-sacrifício, guiem eles apenas para as portas do Vândalo.



A Traição & Defesa do Amor

Na virtude conhecida como Amor, a personalidade específica do amado é centralassim como, na realização espiritual verdadeira, Deus não é uma abstração ou um espectro insubstancial, mas sim a Realidade mais concreta que se possa imaginar, que é também (como as profundezas derradeiras de qualquer pessoa verdadeira) infinitamente além de qualquer coisa que possamos imaginar. Do ponto de vista mundano, o amor por determinadas pessoas é visto como um sentimentalismo burguês simples, enquanto que a partir de uma perspectiva tingida com arrogância espiritual, o amor da pessoa amada é visto como nada além de idolatria, o culto do próprio ego na pessoa de outro.

Em face de tal cinismo mundano, e um idealismo espiritual (não menos cínico), temos vergonha do amor romântico. Assim como os Vitorianos se entregavam ao romance sentimental, mas escondiam sua sexualidade, nós entramos em qualquer forma de exibicionismo sexual, mas temos vergonha do Amor. Nas palavras do poeta medieval alemão, Gottfried von Strassburg:

Eu tenho pena do Amor com todo o meu coração, pois, embora quase todos hoje em dia esperam manter-se e apegar-se a ele, nenhum concede a ele o que lhe é devido. Nós todos queremos o nosso prazer dele, e conviver com ele. Mas não! O Amor não é o que nós, com nossos enganos, agora estamos fazendo dele um para o outro. Nós estamos caminhando para as coisas da maneira errada. Nós semeamos meimendro negro, e esperamos para colher lírios e rosas.
Mas, acredite, isso não pode. . .

É verdade o que eles dizem, "O Amor é atormentado e perseguido até os confins da terra." Tudo o que possuímos dele é a palavra, somente seu nome sozinho permanece conosco; e aquilo que, também, temos cogitado tanto, usurpado e vulgarizado, aquela pobre coisa tem vergonha de seu nome, desgostoso com o próprio som. Ele está encolhendo e vacilando em todos os lugares em sua própria existência. Usurpado e desonrado, ele foge mendigando de casa em casa, carregando vergonhosamente um saco todo remendado, abarrotado de ganhos e espólios, que ele nega a sua própria boca, e oferece à venda nas ruas. Ai de mim! Fomos nós que criamos esse mercado. Nós trafegamos com ela dessa forma surpreendente e, em seguida, afirmamos ser inocentes. O amor, a rainha de todos os corações, nascido livre, o primeiro e único, é colocado à venda pública! Que tributo vergonhoso é esse que o nosso domínio exigiu dela!

Em nossa cultura atual a imagem da inocência humana, ternura e auto-sacrifício, especialmente em uma mulher, é, literalmente, terrível para nós, uma vez que nos confronta com a profundidade da nossa própria auto-traição. O sociólogo Herbert Hendin, escrevendo em 1975 quando o atual regime emocional estava sendo estabelecido após o período de transição dos anos 60, teve essa impressão d os estudantes universitários que estudou:

. . . mulheres. . . para se protegerem da ira masculina. . . tentam criar uma vida que parece expressamente concebida para descartar a possibilidade de serem afetadas por um homem. O medo de envolvimento é profundo, penetrante. . . . um medo de serem totalmente eliminadas, ou perderem a luta pela auto-validação. . . a maioria das mulheres jovens evitam uma verdadeira intimidade com um homem, sentindo que cuidar é auto-destrutivo. . . para ambos os sexos na sociedade, cuidar de alguém profundamente está se tornando sinônimo de perder. . . . Em uma cultura que institucionaliza a falta de compromisso, é muito difícil ser cometido; em uma nação que parece determinada a despir o sexo de romance e ternura, é muito difícil ser um terno e fiel amante.
("A Revolta Contra o Amor”, Revista Harper, Agosto de 1975)

Mais de trinta anos depois, isso ainda é verdade, ou até mesmo mais verdadeiro. E se as conclusões de Hendin parecem chocantes para alguns ouvidos, é porque o estado das coisas que ele lamenta agora é tão dado como certo que o seu tom de indignação pode parecer um pouco excessivo. De acordo com o Novo Testamento, essa praga de frieza emocional é um dos sinais dos "últimos dias". Nas palavras de Jesus, “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.[Mateus 24:12].

Em termos de tradição romântica ocidental, a virtude mais relacionada com a defesa do Amor é a Cavalaria: o uso explícito ou implícito do poder de fazer guerra para defender o que precisa e merece defesa. A Cavalaria é baseada no reconhecimento de que o poder não é um valor em si, exceto para um bárbaro, e que só para a defesa de outros valores é que a guerra têm o direito de existir — assim como, no sistema de casta tradicional Hindu, o Kshatriya ou casta guerreira existe para proteger a casta Brâmane, os sacrossantos contemplativos. Em termos de cavalaria espiritual ocidental, o papel ideal do cavaleiro armado é proteger o Amor da violação por parte do Mundo, da Carne e do Diabo, e defender a feminilidade como a fortaleza simbólica do Amor.

A Cavalaria também se relaciona com a defesa dos fracos — os socialmente fracos, um dever que tem tudo a ver com o amor romântico, pois a capacidade de considerar, de realmente ver, aqueles que são reprimidos e descontados pelo Mundo é essencial se quisermos amar sem a vaidade e ambição mundana, uma vez que a nossa escolha de um objeto de amor é baseada nos padrões do Mundo, do egoísmo coletivo, então o nosso "amor" é um mero investimento no ego, um caso de amor-próprio na outra pessoa. Isso significa que, para ser fiel ao amor verdadeiro, é necessário superar em si mesmo a Vaidade tirana, inimiga jurada do amor próprio. E essa guerra interior também tem um reflexo exterior: a guerra contra os costumes sociais, e às vezes contra os seus representantes, que relegam inocência, humildade, sinceridade e coragem emocional para as marés da marginalização social.

Integral à Cavalaria é a virtude da noblesse oblige, o conhecimento de que privilégio aristocrático é inseparável do dever, e que esse dever envolve o reconhecimento e defesa dos valores que ocupam áreas onde a alma do bárbaro, com seu cinismo mundano, vê apenas vítimas a serem exploradas, rivais para serem derrotados, ou perdedores para serem ignorados. Por "aristocracia" eu não me refiro a qualquer linhagem ou classe social atual, mas sim à capacidade de reconhecer e respeitar a singularidade inviolável de cada indivíduo, como na doutrina de Meister Eckhart, de que "a alma é um aristocrata.” O cavaleiro que possui a noblesse oblige sabe que “o que fizerdes ao menor destes, meus irmãos, a mim o fazeis.” A Cavalaria implica a capacidade de andar o que os Sufis chamam de Caminho da Culpa (malamah), para extinguir a morte de uma identidade social.

A versão ocidental do Caminho da Culpa é apresentada na história de “O Cavaleiro da Carroça” do Lancelot Romance de Chrétien de Troyes: a Rainha de Arthur Guinevere foi raptada por um cavaleiro do mal, e os cavaleiros da Távola Redonda se espalharam para resgatá-la. Quente em seu rastro, Sir Lancelot encontra um anão andando de carroça, o qual “. . . naqueles dias. . . serviu para a mesma finalidade do pelourinho agora. . . . Aquele foi condenado por nenhum crime foi colocado em uma carroça e arrastado por todas as ruas, e perdeu daí em diante todos os seus direitos legais, e nunca foi ouvido depois, honrado ou bem-vindo em qualquer tribunal.” O anão diz a Launcelot para entrar na carroça se ele quiser notícias da Rainha. Ele hesita duas vezes, e em seguida salta para dentro. (Sir Gawain, que encontrou o mesmo anão, recusa-se terminantemente.) Após uma série de testes sangrentos, que incluíam atravessar um fosso rastejando sobre as mãos e os pés nus através de uma ponte feita da lâmina revolvida de uma espada, ele consegue resgatar Guinevere, cuja primeira reação é: "Você! Você hesitou por duas vezes antes de entrar na carroça. O que, a sua preciosa honra é mais importante para você do que a minha vida?” Ele envergonhado admite sua culpa diante dela, que, como representante da Divindade (quem mais tem o direito de ser tão exigente?) não o deixa escapar “até que ele pague o último centavo.” Se Lancelot, assim como Gawain, possuísse a vaidade mundana “normal”, ele nunca teria encontrado o rastro dela, uma vez que teria sido abaixo da sua “honra” ouvir o conselho de algum anão sem nome — e para o aristocrata montado e armado, não são todos os outros homens necessariamente “anões”?

No mundo interno, o mundo da jihad maior, a defesa da feminilidade é revelada como a luta, pela consciência individual espiritualmente dedicada (o Bom Cavaleiro) para proteger a “virgindade” da alma (a Princesa ou Rainha) do estupro pelas mãos das paixões (o Dragão ou o Cavaleiro do Mal), e assim preservar a sua receptividade primordial para o Espírito.