21/08/2012

Sobre a crise e a formação do Governo Mundial




por Adrian Salbuchi

Os Donos do Poder Mundial enraizados profundamento dentro dos principais Estados e Governos, estão decididos a impor sobre todo o planeta um Governo Mundial, com unhas e dentes...E quanto antes, melhor (pra eles)! Convido ao leitor avaliar doze "mega-processos" que estão sendo utilizados como "disparadores" geopolíticos para lograr este objetivo. Lamentavelmente, os fatos vão demonstrando que não estávamos errados.

Parece que todos os caminhos conduzem ao Governo Mundial. Isto não deveria surpreender nada. O prestigioso diário britânico Financial Times manifestou abertamente em um artigo redigido por seu comentarista em assuntos exteriores Gideon Rachman, em 8 de Dezembro de 2008 ([2]). Seu título diz tudo: And Now for a World Government (E agora por um Governo Mundial). Isto é apenas um eco do que vem alardeando desde décadas entidades fabricantes do poder mundial como a Comissão Trilateral, o Conselho de Relações Exteriores (CFR), Grupo Bilderberg e inclusive, mais recentemente, o Vaticano. Comecemos pelo óbvio: o gerenciamento integral do planeta Terra não é assunto simples. Requer o planejamento estratégico e tático por parte de uma vasta rede de bancos de cérebros, aliados a universidades de elite, operando através de exércitos de acadêmicos, lobbystas, jornalistas, políticos, funcionários de Governos e operadores de toda classe que interatuam profusamente financiados pela estrutura supranacional de bancos e corporações. Operam de maneira mancomunada e holística, desenhando e ativando estes "disparadores" geopolíticos em diferentes áreas e planos, sabendo que cada um não tem suas próprias características, dinâmica e velocidade. Por exemplo:

- Disparadores Financeiros: se movem à velocidade da luz, graças às tecnologias da informática e das comunicações que permitem elevar ou colapsar mercados, moedas, economias nacionais e regionais em apenas horas ou dias.

- Disparadores Econômicos: se movem mais lentamente posto que a fabricação de automóveis, aeronaves, alimentos, vestimenta ou construção de casas, plantas e instalações demanda meses, senão anos.

- Disparadores Políticos: se encontram sujeitos ao mal chamado 'sistema democrático'. Manobram para posicionar, financiar, e impor seus políticos e operadores nos máximos estamentos de poder de todos os Estados, desde cujas estruturas impulsam durante anos as medidas e leis que favorecem os interesses dos Donos do Poder Mundial.

- Disparadores Culturais: geralmente requerem várias gerações para implementar; é aqui onde a Guerra Psicológica logrou 'exitos' sem igual na formação, conformação, e deformação do imaginário coletivo, impondo padrões de comportamento e pensamento de efeitos perversos e dissolventes, com os catastróficos resultados sociais que temos em vista.

A complexa administração por parte dos Donos do Poder de todos os traços que abarca este processo exige tomar em conta as armadilhas, perigos, e surpresas que o futuro depara. De maneira que para cada um destes e muitos outros itens, têm preparados eventuais 'planos B' - incluso planos C e D - que, por serem precisos, podem ser rapidamente implementados.

12 Disparadores para impor um Governo Mundial

Hoje, os Donos do Poder Mundial estão fechando o processo geopolítico que em seu momento batizaram com o nome de 'globalização', iniciado com o colapso da antiga União Soviética faz pouco mais de vinte anos. Pretendem substituí-lo com um Governo Mundial forjado a sua medida. É assim que nosso mundo se encontra transitando uma perigosa transição que vai desde a prometedora 'globalização' daqueles dias até o Governo Mundial que hoje nos ameaça.

Algo análogo ao que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche descrevera em sua Assim Falou Zaratustra: "Um perigoso cruzar, uma viagem ousada, um perigoso mirar ao mais além, um perigoso tremer e paralizar-se".

Estes 12 Disparadores se encontram entrelaçados e entrecruzados dentro de uma matriz altamente complexa e holística, que é muito flexível em suas táticas, mas rigidamente imutável em seus objetivos estratégicos. Quando se o mira em sua totalidade, este modelo de domínio planetário resulta muito mais que a mera some de suas partes.

1) Colapso do Sistema Financeiro Global. Desde o ano de 2008, o Sistema Financeiro Global continua em terapia intensiva. Grandes banqueiros como Ben Bernanke, Timothy Geithner e a 'equipe SWAT' financeira norte-americana (Robert Rubin, Larry Summers e os megabanqueiros da Goldman Sachs, CitiGroup, JPMorganChase, Rotschild, Lazard, Warburg) operam junto aos seus pares no Banco da Inglaterra, Banco Central Europeu e demais bancos, sem ter tomado medida alguma para ajudar as sofredoras populações e as conomias devastadas por este 'câncer' financeiro. Somente pretendem 'resolver' a crise dando bilhões de dólares à elite bancária e impondo o mito midiático de que certos bancos são "demasiado grandes para deixá-los cair" (que em sua linguagem eufemista orwelliano significa que são demasiado poderosos para deixá-los cair). Por que? Porque no mundo industrializado não são os Governos os que controlam, supervisionam, e monitoram os Goldman Sachs, CitiGroup, HSBC, Deustche Bank e JPMorganChase, mas que a realidade é exatamente o contrário: são os megabancos os que controlam os Governos.

2) Crise econômica. Hoje em dia o 'Capitalismo Extremo e Destrutivo' se encontra muito ocupado colapsando as economias nacionals e regiionais, para então reformatá-las como entidades crescentemente escravistas; um tipo de gulag mundial que o próprio Stálin invejaria. O problema do mundo não é a economia real global (que segue majoritariamente intacta), mas a crise terminal que afeta o mundo falso e artificial das finanças, os bancos e a especulação parasitária e usurária.

3) Convulsões sociais. Os colapsos na Grécia, Irlanda, Portugal, Brasil, em décadas passadas.

4) Pandemias. Preparemo-nos para mais 'surpresas gripais' que, convenientemente engenhadas, preparam o caminho para as vacinações massivas obrigatórias; uma oportunidade discreta para introduzir minúsculos chipes RFID (transponders identificadores por rádio frequência) em nossos corpos e para provar 'vírus inteligentes' que terão como 'branco' determinadas sequências de ADN. Nos enfrentaremos com vírus seletivos étnico-raciais como paprte de campanhas massivas de despovoação?

5)Awuecimento global. A medida que a economia mundial se afunda no 'crescimento zero', os dinamizadores econômicos passam do crescimento expansivo à contração do consumo. Serão os nascentes 'créditos de carbono' o futuro mecanismo de controle social?

6) Mega-ataques terroristas de 'bandeira falsa'. Os donos do poder mundial mantêm esta carta curinga em suas mangas para detonar novas e gigantescas 'crises' que servirão de atalhos em direção à imposição de um Governo Mundial. Veremos novos ataques deste tipo que farão empalidecer os ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque e Washington? Veremos a detonação de algum artefato nuclear sobre alguma cidade ocidental, do que logo se culpará os inimigos dos donos do poder mundial?

7) Guerra generalizada no Oriente Médio. Nestes momentos se alistam forças aéreas, navais, e terrestres ocidentais para atacar países como Síria e Irã.

8) 'Acidentes' ecológicos e ambientais. O acidente nuclear na planta ucraniana de Chernobil em 1986 marcou o princípio do dim da antiga União Soviética ao mostrar ao mundo e aos próprios soviéticos que seu Estado não estava em condições de administrar de forma segura sua infraestrutura nuclear. Em Abril de 2012 vimos o enorme acidente ecológico da plataforma petrolífera da BP Deepwater Horizon no golfo do México; logo, desde Março de 2001, Japão e o mundo se enfrentam com um acidente nuclear ainda maior no complexo nuclear de Fukushima Daiichi. Teve alguma jogada suja em torno destes acidentes?*

9) Assassinato de figuras políticas ou religiosas de alto nível, dos que se culpará algum inimigo dos donos do poder. O Mossad, a CIA, e o MI6 têm vasta experiência neste tipo de jogo sujo.

10) Ataques contra 'Estados transgressores'. Já vimos no Iraque e Líbia. Quem serão as próximas vítimas? Síria? Irã? Venezuela? Coréia do Norte, quiçá?

11) Posta em cena um 'evento religioso'. A crescente necessidade de massas de achar algum significado para suas vidas a torna presa fácil de alguma suposta 'segunda vinda' de um 'messias' eletrônico, orquestrada e armada pelos técnicos de Hollywood com sua realidade virtual 3D e hologramas. Veremos a aparição repentina de algum 'ser superior' eletrônico e virtual que atuará em sincronia com os objetivos mundiais dos donos do poder? Em tal caso, quem se atreveria a desobedecer o próprio 'deus'?

12) Posta em cena um suposto 'contato com seres de outros mundos'. Pode ser que também se esteja planejando algo por este estilo. Ao longo de décadas, grandes setores da população mundial foi convenientemente programados a crer na existência de 'alienígenas': seres de outros mundos. Também aqui pode que vejamos a aplicação de tecnologias holográficas que fabriquem a suposta aterrissagem de uma nave espacial extraterrestre - no jardim da Casa Branca, por suposto! - destacando assim a imperiosa 'necessidade' que tem a humanidade de dispor de uma 'representação unificada' ante os 'extraterrestres'. Uma justificação mais para impor um Governo Mundial?

O quê têm em comum todas estas 'crises' interrelacionadas? O aquecimento global, as pandemias, o terrorismo internacional, justificando assim a anecessidade de contar com um Governo Mundial. Por tudo isto e mais, devemos nos manter particularmente alertas, entendendo as coisas como realmente são e não como os donos do poder mundial e sua multimídia global querem que acreditemos que são.

*O leitor pode se lembrar aqui também que recentemente houveram terremotos no Irã, e alguns anos atrás outro bem forte na América Latina. Na China, no Japão, na Rússia, entre outros locais, foram avistados auroras ou formações de nuvens estranhas sempre que houveram acontecimentos ambientais. Isso remete ao HAARP, projeto feito nos Estados Unidos capaz de interferir nas causas ambientais do mundo inteiro, através da alteração de ondas eletromagnéticas que constituem nosso planeta (Nota do Tradutor Legio Victrix)

18/08/2012

Maoísmo e Tradição

por Claudio Mutti

Quaderni del Veltro, Bolonha, 1973


"O estudo ideológico deve estar baseado uns 99% nas obras do Grande Timoneiro Mao Tsé-Tung, pois nelas se superam, em qualidade, as opiniões de Marx, Engels, Lênin e Stálin". - Lin Piao

Derivações Taoístas da Teoria das Contradições

Afirma Mao Tsé-Tung: "A lei das contradições inerentes às coisas, quer dizer, a lei da unidade dos opostos, é a lei fundamental da natureza da sociedade e, por extensão, do pensamento".

Mao admite, junto com Marx, que a contradição é o motor universal de todo desenvolvimento. Porém o pensamento de Mao difere do marxista no momento em que, se colocando sob a tutela da tradição taoísta, delineia o caráter complementário dos contrários: "Sem o alto não há o baixo; sem o baixo não há o alto".

Segundo os ensinamentos taoístas, yin e yang são "princípios opostos e, ao mesmo tempo, complementares e inseparáveis, que possuem múltiplas valências: são o eterno masculino e o eterno feminino, o ativo e o passivo, o Céu (em sentido não-estrito) e a Terra, o luminoso e o escuro, o criativo e o receptivo, e assim eternamente". O yin e o yang são "duas categorias simbólicas dos opostos eternos, ainda que não sejam opostos em sentido estrito, senão que são complementares um com o outro, são necessários um ao outro, um não poderia existir sem o outro".

É o princípio da complementariedade, presente nos dois princípios da tradição extremo-oriental, o que encontramos no centro da teoria maoísta da contradição, a qual contempla os contrários em sua interdependência: "Assim ocorre com todos os opostos; em determinadas condições eles são opostos entre si, em outras estão reciprocamente conectados: se complementam, são permeáveis reciprocamente, são interdependentes; é a isso que chamamos identidade". Taoísticamente, "o ser e o não-ser se sucedem, adiante e atrás se antepõem, acima e abaixo se complementam, possível e impossível são diferenciações complementares", etc. No taoísmo, a ação sólida dos contrários dá lugar a modificações que "agora se completam, agora se trespassam uma a outra".

A interpretação das contradições dialéticas operada no maoísmo, se conecta a nosso parecer com a tradição extremo-oriental e propõe uma reivindicação dos ensinamentos taoístas revestindo-as de uma terminologia marxista-leninista.

Aspecto Solar da Nova Ordem Maoísta

Em "Para aprofundar na grande revolução cultural proletária", Mao Tsé-Tung escreve: "O desenvolvimento de todas as coisas depende do Sol e o fazer a evolução depende do pensamento de Mao".

Entendemos que na presente frase se expressa a noção tradicional que identifica o Chefe com o Sol. Assim é como o Imperador da China devia dar uma circunvalação ao "Templo da Luz" no sentido do deslocamento aparente do Sol para um observador que olhasse para o sul, detendo-se doze vezes, nas doze estações simbólicas que correspondem aos doze meses; "Desse modo se identificava com os "doze sóis", que são os doze "âditya" da tradição hindu, e inclusive os "doze frutos da Árvore da Vida" no simbolismo apocalíptico. Mao herdou dos imperadores essa imagem analógica, imagem que vem continuamente posta em evidência nos cantos da revolução chinesa:

"O Oriente é vermelho, o Sol se alça,
Sobre a terra da China surge Mao Tsé-Tung"

***

"O Partido Comunista é como o Sol;
Por onde vai lançando seus raios tudo se ilumina.
Para que os viventes cresçam necessitam do Sol;
Para fazer a revolução necessitamos de Mao".

***

"O pensamento de Mao Tsé-Tung é um Sol que nos indica o Oriente.
Para navegar em alto-mar necessitamos do Grande Timoneiro.
Respeitai e amai ao Presidente Mao, o grande educador, o grande guia.
Sol do coração, Sol vermelho do coração do povo revolucionário.
Viva o Presidente Mao!
Desde a montanha de ouro de Pequim seus raios iluminam o planeta.
Este Sol de ouro é o Presidente Mao".

A característica solar que insistentemente vem atribuída ao rol de Mao Tsé-Tung induz a pensar que o maoísmo é o parto contemporâneo da tradição imperial chinesa.

Voluntarismo

O maoísmo oferece uma reinterpretação das forças agentes na história. Mao reafirma a importância das idéias no desenvolvimento histórico: "As idéias justas são as próprias da vanguarda do povo, pelas quais eles penetram nas massas, são uma força material capaz de transformar a sociedade a o mundo".

Enquanto na análise marxista o rol atribuído às forças materiais é preponderante, o pensamento de Mao repropõe o homem como fator decisivo: "é suficiente que existam homens, para cumprir não importa que fim...a Revolução pode mudar tudo". Daí a formulação das quatro prioridades: do homem sobre o fato material, do trabalho político sobre as demais atividades, da doutrina sobre o trabalho político, das idéias vivas sobre as idéias dos literatos. Nos encontramos diante da imagem de um idealismo voluntarista, onde está excluído todo determinismo de caráter laico ou marxista. O maoísmo coloca o homem em seu justo lugar: sujeito da história, e não objeto de uma História supersticiosamente finalista.

Este idealismo voluntarista está na base da revolução cultural: "A revolução cultural tem por objetivo a revolucionarização do pensamento do homem". É o homem o fator decisivo, não a economia: não é suficiente insistir sobre essa, há que atuar sobre aquele. De igual forma, Codreanu propunha a "reforma do homem": "O país vai para a ruína por falta de homens, não por falta de programas. Essa é nossa convicção. Não devemos criar mais programas, senão mais homens, homens novos". Porém a analogia entre as doutrinas de Codreanu e Mao se verá mais evidente quando observemos a importância que reveste o camponês na nova ordem maoísta.

O campesinato

A importância do campesinato e a antítese entre campo e cidade são elementos centrais na concepção maoísta do Estado, elementos que na Europa constituíram os fundamentos das teorias "rurais" de Oswald Spengler, Walter Darré, Karl Dyrssen, Ferenc Szálasi, etc., nos quais o "Bauertum" fiel à terra era visto como a fonte da força mais sadia do sangue e do "Volk". A concepção campesina de Mao e Lin Piao conhece, em termos análogos, a contraposição entre o burguês, o "novo nômade", o "homem infecundo" - protagonista da "Zivilisation", fase terminal, crepuscular de cada ciclo - e a figura anti-democrática do campesino, "princípio e fonte inesgotável do sangue que cria a história mundial".

Na nova ordem maoísta se observam de novo as heréticas profecias que viram no bolchevismo o regime escolhido dos soldados-camponeses, com o qual a Alemanha, retornada a suas tradições socialistas e campesinas, pôde ter feito frente comum contra o "Ocidente" mercantilista.

Escreve Lin Piao: "A guerra de resistência contra o Japão foi essencialmente uma guerra revolucionária dos camponeses guiados por nosso Partido...Tomar posições entre os camponeses, criar as bases rurais e se servir das campanhas para posteriormente atacar as cidades: este foi o caminho que conduziu a Revolução Chinesa à vitória".

A essa teoria da criação das bases revolucionárias nas zonas rurais e sua aproximação progressiva às cidades atribui Lin Piao um valor universal: "Ganharemos todo o globo terrestre desse modo. Se a América do Norte e a Europa Ocidental podem ser consideradas como "a cidade", Ásia, África e América Latina representariam suas "zonas rurais". Depois da Segunda Guerra Mundial, o movimento revolucionário do proletariado nos países capitalistas da América do Norte e da Europa, por diversas razões, perdeu o rumo, enquanto que os movimentos revolucionários dos povos da Ásia, África e América Latina conheceram um vigoroso desenvolvimento. Em certo sentido, a revolução do mundo contemporâneo é um cerco das cidades pelos campos".

Ferenc Szálasi, o chefe da Cruz Flechada Hungarista, invocava insurreição anti-plutocrática das nações de economia agrária contra a potência industrial da Europa e da América do Norte.

Nessa "distância aristocrática e luta existencial contra a burguesia cidadã" reside a oposição entre a sociedade baseada na fidelidade à terra dos ancestrais e a civilização cosmopolita, entre o sentido da estirpe e a bastardização democrática. Os intelectuais burgueses contemplam com horror essa realidade: "É possível que essa adoração delirante pelo chefe seja um novo desenvolvimento do racismo, que até agora não atacou aos demais povos asiáticos". "Uma nova muralha se está construindo na China, mais alta e inexpugnável que a anterior, que consiste em separar dos chineses a todos os estrangeiros presentes no território, de isolá-los. Ninguém pode formalizar uma amizade com os chineses, sejam europeus, africanos ou asiáticos".

A Guerra

"A guerra tempera o povo e permite acelerar a marcha da história". Essa frase de Lin Piao, que pode resumir a ética espartana instaurada na China maoísta, tem escandalizado todas as consciências pacifistas, que perceberam em tal afirmação um eco da exaltação da guerra que foi expressada na afirmação provocadora de Marinetti: "higiene do mundo".

Os gazetilheiros da burguesia manifestaram seu termo diante da visão maoísta da guerra: "Entre os símbolos da Guarda Vermelha revolucionária, junto à foice e ao martelo, se acrescentou um elemento novo e marxistamente blasfemo: o fuzil. Os fuzis dizem mais de Mao do que qualquer de seus exegetas. Karl Marx queria a paz, Mao Tsé-Tung quer a guerra; Karl Marx predicava a paz como fim da luta de classes, Mao Tsé-Tung proclama a eternidade da guerra popular..."

O heroísmo revolucionário ocupa um capítulo especial do "Livro Vermelho": nele se exaltam as virtudes guerreiras, a coragem, o sacrifício e o espírito de luta: "Um exército assim sempre segue adiante, decidido a vencer e a não se submeter ao inimigo. Ainda nas condições mais difíceis continuará lutando até o último homem". "Desenvolveremos continuamente nosso estilo de luta - coragem na batalha, nenhum temor perante o inimigo, nenhum temor perante a fadiga e uma luta contínua, um empenho em lutar sucessivamente em um intervalo de tempo breve e sem descanso".

"Milhares e milhares de mártires sacrificaram heroicamente suas vidas em interesse do povo. Alçamos, avançamos sobre a estrada enrubrecida por seu sangue!". O maoísmo tributa um reconhecimento precioso aos valores heróicos e contrapõe ao pacifismo uma concepção guerreira da vida, com a espiritualidade, os valores e a ética que são característicos de tal concepção. Essa concepção não deixa espaço para o individualismo, senão que predica aquela impessoalidade ativa que, em um clima livr de sugestões subjetivas, dá lugar ao sacrifício heróico, que é por definição desindividualizado, anônimo.

Frente à sociedade do mercador que exalta somente as "virtudes cívicas", que "identifica os valores materiais com os valores em si e cujo ideal de vida é a vida segura e confortável do trabalho, a produção, o esporte, o cinema e a sensualidade", o maoísmo propõe como alternativa um tipo de sociedade cujo primeiro posto está ocupado pelo guerreiro e pelo herói.

Porém não há que pensar que o marxismo, propondo uma moral militar de nível superior à moral burguesa, não tome precauções diante do militarismo: "O partido deve guiar o fuzil, o fuzil nunca deve guir o partido". O elemento militar e, em geral, guerreiro, se situa na esfera dos meios, não da dos fins: na ordem maoísta se deve subordinar ao princípio político, como no Estado platônico o elemento volitivo e a casta guerreira se subordinam ao elemento intelectivo e à elite dos sábios-iniciados.

A Arte

"Nossa literatura e nossa arte estão a serviço da grande massa do povo de trabalhadores, camponeses e soldados; é criada pelos trabalhadores, camponeses e soldados e está a serviço dos trabalhadores, camponeses e soldados".

Quatro anos mais tarde o stalinismo formula em termos análogos sua teoria da arte: "Convém à literatura auxiliar adequadamente o Estado a elevar a juventude, responder a seus problemas, educar às novas gerações para que sejam valorosas, a crer em sua causa, a se mostrarem intrépidas superando os obstáculos e barreiras..."

Essa verdade relativa da arte é similar na concepção política de Platão: "O totalitarismo platônico (...) nasce da consciência de que a velha classe dirigente estava morte e a nova não havia todavia nascido. Visto desde essa perspectiva, o totalitarismo platônico apresenta coincidências históricas relevantes com o totalitarismo moderno, que quer substituir às velhas elites políticas deslocadas pelas revoluções liberais".

Contra as mistificantes teorias burguesas sobre a arte, Mao afirma que "não existe, em realidade, uma arte pela arte, uma arte à margem das classes, uma arte que se desenvolva fora da política ou independentemente dela"; a arte na China deve ser uma arte popular. Platonicamente, Mao divulga o que ele chama de uma arte "liberada", ao tempo que resgata modelos de poesia tradicional. Mao Tsé-Tung, poeta ele mesmo como os velhos imperadores Han, Leang, Tang e Wei, conhecia o exercício das formas tradicionais da poesia, às quais se atém, dotanod-as de elegância, força e aristocracia.

A Medicina

No campo da medicina, o maoísmo apresenta uma alternativa tradicional à pseudo-ciência que veio a predominar no mundo moderno. A acupuntura foi praticada na China desde tempos antiquíssimos, e o Ocidente capitalista se vê obrigado a admitir que contradiz a idéia de "progresso": "Depois da guerra do ópio, em 1849, entre a decadência geral do país e a servidão cada vez mais acentuada dos imperadores Ching aos agressores imperialistas, a acupuntura veio a ocupar uma segunda ordem, e a situação veio a piorar ainda mais sob o governo reacionário do Kuomitang, que exerceu uma verdadeira discriminação contra essa terapia tradicional".

A nova ordem de Mao Tsé-Tung significou, no campo científico, uma redescoberta da medicina tradicional. "Desde a fundação da nova China, o Partido e o Estado tomaram várias medidas para desenvolver as terapias tradicionais, assim se fundaram vários centros de investigação em Pequim e nas grandes cidades, assim como se institucionalizaram os departamentos de acupuntura na quase totalidade dos hospitais". O pressuposto básico da acupuntura, como o de toda a medicina tradicional chinesa, é a doutrina tradicional de que a enfermidade deriva da ruptura do equilíbrio que mantém em tensão ideal o yang (masculino, ativo) e o yin (feminino, passivo). A medicina chinesa quer chegar ao nível das causas, ao contrário da medicina profana, que se aplica ao nível dos efeitos e que se pode descrever, em suma, como sintomática.

"Porém existe outro ponto de vista que é necessário tomar em consideração: a medicina chinesa, como todas as ciências tradicionais, tem em si os elementos simbólicos que lhe permitem ser exercitada no quadro da filosofia taoísta como verdadeiramente cognoscitivos, de servir como base adequada para a realização pessoal. Assim como perante a enfermidade o médico chinês tentará reestabeleer o equilíbrio relativo para a saúde, assim lhe servirá ao paciente como chave simbólica para sua realização como Tchenn-jen, como Homem verdadeiro, que é o ponto de onde parte todo o processo de conhecimento que conduz aos estados superiores do ser e que culmina na identidade com o Tao, quer dizer, na condição de Cheun-jen ou Homem Transcendente.

À hora de construir uma alternativa para a pseudo-ciência do mundo moderno, a resposta da ciência tradicional auspiciada pelo maoísmo põe as condições favoráveis para a realização do aspecto iniciático inscrito nas artes e nas profissões. No caso da medicina, a acupuntura reivindicada pela revolução maoísta, põe em seu lugar as bases do ditado tradicional: "Cura te ipsum".

17/08/2012

Europa até Vladivostok

por Jean Thiriart


História e Geopolítica

A história conhece cidades-estado: Tebas, Esparta, Atenas, depois Veneza, Florença, Milão, Gênova.

Hoje ela conhece estados territoriais: França, Espanha, Inglaterra, Rússia.

Finalmente ela descobre estados continentais, tais como os Estados Unidos da América, a atual China e a União Soviética de outrora. (1)

A Europa atual passa por uma fase de transformações.

Ela tem que proceder da mais ou menos estável fase de estados territoriais à fase do estado continental.

Para a maioria do povo, essa transição é atrapalhada por inércia mental, sem mencionar preguiça de pensamento.

Ainda que não fosse maior que um pedaço de fio, Esparta possuía uma forte vitalidade, de um ponto de vista história, sendo fundamentalmente vital em seu aspecto militar. Suas dimensões e recursos eram suficientes para conter um exército capaz de ganhar respeito de todos os seus vizinhos.

Aqui nós abordamos o problema básico da vitalidade dos estados. A cidade-estado histórica foi substituída pelo estado territorial. O Império Romano substituiu Atenas, Esparta, Tebas. E sem muito esforço. (2)

Hoje a vitalidade histórica do estado depende de sua vitalidade militar, que por sua vez depende de sua vitalidade econômica; que nos leva à seguinte alternativa.

Primeira hipótese: estados territoriais são compelidos a se tornarem satélites de estados continentais. França, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra não representam mais que uma ficção de estados independentes. Já há muito, desde 1945, todos esses países se tornaram satélites dos Estados Unidos da América.

Segunda hipótese: esses estados territoriais são transformados em um único estado continental - Europa.

A falha histórica de um estado continental: a URSS

A pesarosa desintegração da URSS é explicada, em particular, pela compreensão teórica insuficiente do estado por Marx, Engels, Lênin, e de certa forma Stálin. Já em 1984 meu discípulo e colaborador, José Cuadrado Costa, com base nas obras de Ortega y Gasset e nas minhas, publicou um ensaio brilhante e profético sob o título "Inadequação e Obsolescência da Teoria Marxista-Leninista da Nacionalidade". (3)

No que concerne a compreensão da essência do estado, os jacobinos eram obviamente muito mais avançados que os marxistas. Nessa área, Marx permaneceu limitado à era romântica da Revolução de 1848. Já ao fim do século XVIII Sieyes escreveu sobre o modo de obter um estado-nação "homogêneo". O estado-nação é um fruto de vontade política.

Outro exemplo de tolice marxista, derivada do romantismo oitocentista, é a idéia da desintegração do estado. É difícil pensar em uma besteira maior. Este é um velho sonho anarquista. (4)

Assim Lênin preservou a existência formal das repúblicas. Eu propositalmente escrevo a palavra como plural.

Devido à aplicação do princípio de centralismo dentro do partido comunista e à personalidade peculiar de Stálin, essa ficção ou comédia durou até 1990. O enfraquecimento do Partido resultou na desintegração da URSS em linhas derivadas do período 1917-1922.

Ficção se tornou realidade.

Em 1917, os jacobinos russos criaram a República dos Conselhos (eu chamo sua atenção para o singular). Lênin concordou com essa ficção da União das Repúblicas Soviéticas (eu chamo sua atenção para o plural) e a tolerou. De 1946 a 1949, no ápice de seu poder, Stálin também preservou essa aparência de Estados "Independentes", se estendendo da Polônia à Bulgária. Mais uma imprudência teórica.

O estado político enquanto oposto ao estado étnico

No dicionário francês "Le Petit Larousse" está escrito que as condições de uniformidade para uma etnia são sua língua e sua cultura.

Para o propósito dessa análise, eu darei minha própria interpretação estendida desse conceito, tendo dito que a unidade do estado étnico tem suas raízes na unidade de raça, religião, língua, símbolos comuns, memórias comuns, frustrações ou medos comuns.

O conceito do estado político (como um sistema aberto, expansivo) é efetivamente oposto ao conceito do estado étnico (como um sistema fechado, fixo). O estado político é a expressão da vontade de homens livres para ter um futuro comum. 

O estado político, ou mais precisamente o estado-nação político - do qual eu sou considerado o teórico moderno, após Ortega y Gasset (5) - permite aos indivíduos preservar sua individualidade pessoal (perdoe esse pleonasmo bárbaro) dentro da estrutura da sociedade.

Menos de dois meses atrás (6) eu afirmei minha opinião sobre a importância dos conceitos de Imperium e Dominium. Desde 1964 eu jamais parei de desenvolver este conceito de origens romanas.

A um amigo político que me chamou "valão" (não era o bastante para mim!), eu escrevi, como usual, que eu não sou nem valão, nem flamengo, nem alemão, ou belga, e nem mesmo europeu. Eu sou eu. A pessoa de Jean Thiriart - esta é Jean Thiriart, eu lhe escrevi. Eu não gosto de modo algum de aparecer junto a outras pessoas em qualquer arquivo, no qual esteja escrito que eles "me lembram".

Eu quero preservar constantemente minha ironia socrática. Um defensor do totalitarismo quando o assunto é o Imperium, eu me torno um anarquista na esfera do Dominium.

Marx e Engels não sabiam absolutamente nada sobre essa dicotomia fundamental entre Imperium e Dominium; é por isso que eles escreveram "A Ideologia Alemã", dirigida contra Max Stirner. A visão stirniana de Imperium (livre escolha federativa, o direito de secessão, e daí em diante) será sempre utópica e inaplicável. Ao contrário, sua visão de liberdade interna, da esfera de Dominium, sempre será interessante. Eu sou bolchevique, jacobino, prussiano, stalinista, onde quer que o discurso seja sobre o Imperium e sua disciplina civil, mas meu gosto e interesses intelectuais relativos a minha vida privada, minha vida dentro da estrutura do Dominium, elas se inclinam a Ulisses, o campião em imitar os cínicos, a Diógenes, que em resposta à pergunta: "Você pode ver algum homem bom na Grécia?" - respondeu, "Em lugar algum; mas eu vejo uns bons rapazes nos lacedemônios..."

É sabido que Diógenes e os outros cínicos admiravam o sistema espartano porque os espartanos eram partidários da disciplina e da austeridade e inimigos do luxo e da preguiça.

Assim, como Diágoras, eu sou contra religião. Na esfera privada, é claro!

Certamente, eu sou famoso como o mensageiro da Europa unida de Dublin a Vladivostok. (7)

Mas essa Europa unida, que eu escrevo e invoco, está conectada à esfera do Imperium. E em minha opinião tal Imperium tem que ser poderoso, dinâmico, impiedoso - de modo a ser efetivo.

Quanto a personalidade, ela está conectada à categoria de Dominium.

Minha personalidade cultural me proíbe de escolher entre categorias. Ela é única, como único é meu código genético.

Biologicamente, cada pessoa é a corporificação de um código único. Ele é um. No campo da cultura - música, arquitetura, literatura, pintura, etc. - eu reivindico para mim o status de individualista inabalável.

No estado político não pode haver "minorias", já que estas lidam apenas com individualidades, enquanto coletivamente lida com o Imperium.

Esses laços representam limitações, o que eu já mencionei antes.

Infortúnios recentes: federalismo, confederalismo

Tão logo quanto no conceito de construção do estado o conceito gêmeo de "Imperium-Dominium" é introduzido, tais soluções perversas, como federalismo ou mesmo pior que isso, confederalismo, perdem qualquer sentido e utilidade.

Eu não posso deixar de citar aqui um autor americano, o qual eu conheço apenas por uma única citação sua - mas uma citação tão relevante:

"Qualquer grupo de pessoas, independentemente de seu número e similaridade recíproca, e qualquer seja o grau de sua firmeza em avaliar sua opinião - qualquer grupo acaba se dividindo em grupos menores aderindo a variantes diferentes da mesma opinião; nesses subgrupos por sua vez emergem sub-subgrupos, e daí em diante, até o limite final de tal divisão - o indivíduo singular".

Essas palavras são atribuídas a Adam Ostwald, autor de um livro chamado "Sociedade Humana".

Os anarquistas do século XIX e muitos outros, incluindo Proudhon, persistiam no erro grosseiro de acreditar que conflitos e tensões dentro de grupos grandes poderiam quase desaparecer, encontrando para si uma solução em grupos pequenos.

Essa é a harmonia social do século XIX - a harmonia do grupo pequeno, oposta ao horror da dominação intolerável do grupo grande.

Mesmo Lênin inventou um sem-sentido histórico na moldura do conceito absurdo do "grupo pequeno sempre bem sucedido e harmonioso" - o que depois o forçou a escrever sobre o desaparecimento do estado, e também a querê-lo e prevê-lo.

Europa até Vladivostok: O Tamanho Mínimo

O estado-nação, querendo ser independente, é compelido a ter meios militares adequados.

Possuir estes meios depende da demografia, da autarquia de matérias-primas, e do poder industrial do estado.

Entre Islândia e Vladivostok nós podemos unir 800 milhões de pessoas (ao menos para mantar o equilíbrio com os 1,2 bilhões de chineses) e ainda encontrar no solo siberiano tudo que é necessário apra satisfazer necessidades estratégicas e energéticas.

Eu afirmo que, sob o ponto de vista econômico, a Sibéria é a província do império europeu mais necessária para sua viabilidade.

Uma grande união da altamente industrializada e tecnologicamente avançada Europa Ocidental com a Europa Siberiana, dispondo de reservas de commodities quase inexauríveis, permitirá a criação de um poderoso império republicano, com o qual ninguém deixará de entrar em acordo.

Limitações impostas pelo império europeu

Esse estado é uma unidade. Ele não quer conhecer e não sofrerá a divisão horizontal (autonomias regionais), ou a divisão vertical (classes sociais). (8)

Seu princípio central forma uma cidadania uniforme: em qualquer lugar do império europeu, o cidadão possui o direito de eleger, ser eleito e trabalhar. Ele pode de modo absoluto mudar sua residência e seu emprego. Sua qualificação profissional é reconhecida por toda a Europa: o doutor que recebeu seu diploma em Madri, sem qualquer limitações pode praticar em São Petersburgo.

Qualquer corporativismo regionl é excluído.

Separação de qualquer porção de território é excluída por virtude do princípio central.

Nós faremos uso novamente do princípio jacobino: "A República é unitária e indivisível". Não é recomendável repetir o erro leninista do "direito de auto-determinação".

A "região" ou o antigo estado nacional entra nela para sempre. A unidade desse estado é irreversível e consolidada pela lei constitucional.

Ao contrário, esse Império pode se expandir, não por "conquistas", mas pela anexação daqueles que quiserem se unir.

O exército é popular e integrado. Uma casta militar não pode desfrutar de qualquer monopólio ou privilégios sob a excusa do profissionalismo. Esse exército será completamente subordinado à autoridade política.

Dentro dos primeiros 25-50 anos de existência, esse exército integrado receberá atenção especial de modo que os recrutas de diferentes regiões do Império sirvam juntos.

Não é necessário supor a existência de regimentos croatas ou divisões francesas ou exércitos alemães ou russos.

Há uma única moeda. Possuir moeda estrangeira ou usá-la como meio de pagamento é punível.

Não é humilhante, vergonhoso, que hoje seja possível ir à Rússia possuindo apenas dólares americanos?

É humilhante de fato tanto para os turistas da Europa Ocidental, como para os russos.

É um símbolo de nossa decadência comum: os europeus ocidentais colonizados desde 1945, os europeus orientais balcanizados e colonizados desde 1990. Seria mais correto pagar o hotel Moscou em ECUs europeus, ao invés de em dólares estrangeiros. O inglês deveria ser a língua comum. (9)

Eu não escrevi "americano". Aí consiste minha escolha pragmática, inevitável. O conceito de uma legislação uniforme é um dos princípios fundamentais desse Império. Leis civis, leis criminais, leis trabalhistas e leis comerciais são uniformes. Interpretação e aplicação da lei são idênticas em todo lugar.

Dominium e suas limitações

Cada um conhece o ditado de que a liberdade de uma pessoa termina onde a de outra começa.

Em um artigo anterior eu indiquei, entre as áreas gerais do Imperium, aquelas nas quais a República unitária "...jamais recua...". Quanto ao Dominium, ele assume uma liberdade de escolha ilimitada, dispondo de todas as liberdades pessoais que não causem dano ao Imperium.

Essas liberdades são garantidas dentro da moldura da vida privada.

Em velhos sistemas políticos e regimes, sentimentos, emoções, medos da vida privada inevitavelmente tentarão penetrar - com frequência excessiva - na vida política.

O Imperium deve permanecer uma área elaborada, estruturada e dirigida pelo neocórtex apenas.

De modo a compreender o comportamento de uma pessoa, é necessário estudar os mecanismos do cérebro. (10)

Eu repetirei aqui minha piada favorita sobre eu mesmo: "...eu não tenho alma. Eu tenho um cérebro. Na verdade, como qualquer outro indivíduo, eu tenho três cérebros, nomeadamente:

- o córtex originário, o mais antigo (a velha pele do cérebro), que nos permite caminhar, escalar, rastejar ou bater com o taco de baseball;

- o cérebro "intermediário" (meso-córtex), contendo todo meu "software" emocional "programado", necessário para a sobrevivência. Sergey Chakhotin, estudioso de Pavloc, há muito tempo descreveu essas paixões e emoções.

A sobrevivência do indivíduo é promovida pelos impulsos para lutar e para a nutrição; a preservação de uma espécie - por inclinação sexual e parental (associativa).

E finalmente o mais moderno de nossos três "programas de manutenção" é o neo-córtex, esse magnífico instrumento do ser humano. E ferramente insuficientemente utilizada.

A antiga pele do cérebro já possui 200 milhões de anos. O neo-córtex se formou apenas há 1 milhão de anos.

A doutrina (ou tese) dos três tipos de cérebro, "sobrepostos uns contra os outros", ou sobre um cérebro tríplice, como escrita pelo tradutor francês Roland Guyon, foi proposta pelo psicólogo americano Paul D. MacLean. Ela foi então tornada popular por Arthur Koestler.

Na "Psicologia Social" de Otto Klineberg há uma longa discussão sobre a questão do comportamento emocional da pessoa.

Dois séculos antes das obras científicas de Paul D. MacLean aparecerem, Sieyes antecipou a tese moderna sobre a superposição dos três cérebros.

Bastide, em sua dissertação de 328 páginas, menciona o manuscrito de Sieyes "Sobre o cérebro e o instinto".

Muito antes de mim, Sieyes ficou surpreso e irritado por conta de pseudo-demonstrações em linguagem política.

Se eu também impor essa digressão sobre o leitor, é apenas para mostrar que uma grande parte dos discursos amargos e agressivos emerge de nosso cérebro médio superemocional.

Um bom estudo do discurso político é possível somente conhecendo o mecanismo de funcionamento do cérebro humano.

Nesse caso é fácil detectar a razão da introversão, ou o ódio por algo. Isso se torna um simples problema clínico explicado pela fisiologia cerebral.

Por muitos anos eu tive que lidar com "escritores" descrevendo a política como um reflexo do comportamento "meso-cortical" (paixão, emoção, impulso, frustração, medo, repulsão), enquanto eu com todas as minhas forças tento descrever uma República "neo-cortical"...sic!

Um dos meus críticos disse que eu sou um "frio monstro racional".

Eu concordo com ele, e eu prefiro essa condição à de "monstro báquico irracional", tão amada por velhacos pós-nietzscheanos.

Eu persistentemente recomendo ao leitor educado, que seja interessado em política, a se familiarizar com as obras de Paul D. MacLean.

O absurdo de discursos políticos pseudo-racionais pretendendo serem persuasivos (o advogado persuade, o cientista prova), é claramente evidente a partir dessa citação de Marc Jeannerod:

"...o caráter indireto das relações entre o sujeito e o mundo externo. O sujeito cria para si mesmo sua própria representação desse mundo, e essa representação guia sua ação. Nessa perspectiva, a ação não é a resposta para qualquer situação externa, como a consequência ou produto daquela particular representação".

Qualquer vanilóquio primitivo sobre "ethnos" é muito simplesmente explicado através desse conceito de "representação" (fictícia) de uma realidade rejeitada (produção da realidade). Rejeito da realidade, necessidade de devaneio.

Para a pessoa que recebeu uma educação científica rígida, a política e sua lingiagem representam absurdos óbvios.

As pessoas lançam sobre as faces umas das outras invenções e ficções de hostilidade pessoal, se recusando a aceitar aquelas situações...

Mas nós devemos retornar aos três tipos de cérebro de MacLean.

Quando consideramos as órbitas de satélites, a trajetória de sondas espaciais, a durabilidade do aço, as correções óticas introduzidas em construir uma fotolente, nós usamos apenas nosso neo-córtex.

Durante uma rusga entre motoristas, que acaba em uma briga, nós usamos os mecanismos reativos (arqueo-corticais) e emocionais (meso-corticais) e nos comportamos como mamíferos e répteis.

Na briga entre motoristas, impulsos agressivos assumem o controle, gradualmente suprimindo a função reguladora do neo-córtex. A inclinação sexual, às vezes intolerável, nos forçará a desejar a filha menor de idade do vizinho.

A mesma pessoa sempre funciona com a ajuda desse "programa" duplo: os programas de impulsos-paixões-sentimentos-emoções, e o programa do pensamento absolutamente racional.

Essa digressão era necessária como uma transição para a questão do governo de pessoas.

A religião se refere à área do Dominium.

É um tipo de atividade privada, que não deve ter qualquer possibilidade de exercer influência sobre a vida pública (com o consequente risco de ver como "islamistas" desafiaram a autoridade na Iugoslávia). É ridículo supor que a religião deveria interferir com uma vida política razoável, no Imperium. Apenas por se ignorar este princípio, matanças tolas e cruéis ocorreram no Líbano, na Palestina, na Armênia, na Iugoslávia e na Moldávia.

Aqueles que misturam religião com política são os atuais "aprendizes de feiticeiros". É criminoso aquele que criou essa condição de relações tensas, mas, sob o ponto de vista histórico, também criminoso é aquele que desviou os olhos do fato de que paixões religiosas podem ser usadas em um contexto político.

No Imperium laico das Repúblicas Unidas da Europa, a liberdade religiosa será permitida (eu preferiria escrever "admitida") dentro da moldura do Dominium, e impiedosamente suprimida à primeira tentativa de interferir na área pertencente ao Imperium. Racistas falsos e vergonhosos cunharam a tese do etno-diferencialismo e das "identidades etno-culturais". Como resultado disso, verdadeiras guerras emergiram na Moldávia, Iugoslávia, no Cáucaso - guerras travadas por criminosos comuns, ou, em nome da precisão, por gângsters.

Além de roubos, prostituição, jogatina e narcotráfico, os criminosos há pelo menos vinte anos tem demonstrado interesse até mesmo pela questão de "minorias oprimidas".

Essas tolices religiosas e etno-diferenciais tem sido devidamente manipuladas primeiro por charlatães, e então por gângsters - essas tolices, sustentadas por desesperados com armas automáticas em mãos, nos lançarão tão baixo que nos transformaremos nas "milhares de tribos de Nova Guiné", caçando cabeças.

Em resumo, eu deverei dizer que o Dominium significa uma liberdade de opinião praticamente sem controle (mesmo a mais idiota), mas o Imperium das repúblicas laicas e unidas jamais, mesmo por um único instante, admitirá a liberdade de "fazer o que se quiser". Desde 1945, a história nos ensina exemplos claros e sangrentos do que não deve ser feito. Do que não se deve permitir que ocorra amanhã.

Quando doente, Moscou chama a ajuda de "velhas mãos".

É simplesmente insano, o que tem se passado na Rússia nos últimos dois anos.

A economia devia ter sido liberalizada passo a passo, de baixo para cima, permanecendo em cada fase por 2-3 anos. (11)

Ao invés disso, em Moscou os piores aventureiros das finanças internacionais foram admitidos. A venda por barganha dos resultados do trabalho de três gerações do povo soviético está aberta.

Tubarões de Wall Street começam a demonstrar interesse excessivo na economia da antiga URSS.

Ela não deve enfraquecer suas bolas políticas, permitindo a separação de seus povos, mesmo se Lênin, em seu analfabetismo político (uma herança do marxismo ascendente de por volta 1848) concedeu (muito hipocritamente e descuidadamente) "o direito de auto-determinação".

A partição política e militar da URSS é e sempre será um erro histórico imperdoável. Um evento fatídico e irreversível.

A força centrífuga destruirá em cinco anos o que as forças centripetas criaram em quatro ou cinco séculos.

Primeiro teria sido recomendável encher as lojas de salsicha e pão, favorecendo a criação de um milhão de pequenas empresas (de 1 a 50 trabalhadores). Simultaneamente era necessário fortalecer a repressão política contra todos aqueles "combatentes" pela separação, independência e autonomia.

Outro exemplo do comportamento suicida dos novos líderes russos foram suas "viagens" a Washington ao invés de concordarem em receber auxílio econômico da Europa Ocidental.

De um ponto de vista histórico e geopolítico, os EUA são o inimigo especial da URSS.

A estratégia dos EUA é separar a Europa e partir a URSS.

Por quatro séculos a Inglaterra conduziu a mesma política contra os reis espanhóis, contra a França e a Alemanha.

Hoje a Inglaterra deixou seu lugar para os EUA. Mas apenas ontem ela incansavelmente objetivava destruir a principal força continental, capaz de unir o continente europeu em uma federação: Os Habsburgos espanhóis, Bonaparte, Guilherme II, Hitler.

A Rússia "solitária" é o futuro "Brasil na neve".

A partição da URSS é irreversível. A "Grande Rússia" não tem mais chances de ser uma grande potência.

Então a "Rússia solitária" é um país sem futuro, assim como a Alemanha desde 1945, e a França desde 1962.

De um ponto de vista histórico a Alemanha perdeu todo e qualquer sentido em 1945. Ainda que ela hoje seja uma grande potência industrial, ela é completamente passiva, absolutamente não-influente na arena internacional. (12)

Sim - 47 anos se passaram, desde que a Alemanha não possui nenhuma política externa. Em si, isso não é tão ruim para a unidade européia.

A histeria nacionalista causou muito mal para a Europa: duas guerras suicidas - em 1914 e 1939.

Se algum sonhador ainda espera que a Rússia se tornará novamente "Grande Rússia", uma potência de primeira linha, que ele saiba desde o início que Washington ainda tem muitas armas sobrando. Washington cinicamente jogou a carta de Bagdá contra Teerã, e então a carta de Riad, e aquela de seus cúmplices em Damasco e Cairo, contra Bagdá.

Washington ainda tem muitos punhais guardados com os quais, em caso de necessidade, para finalizar a partição da URSS, e então seguir à partição da própria Rússia.

Se necessário, Washington sem a menor dúvida jogará contra Moscou a carta de Pequim ou a carta mundial islamista (do Paquistão ao Marrocos).

Hoje França, Inglaterra, Alemanha não são mais que a ficção histórica de estados independentes, as paródias deles.

Todos esses chamados "grandes" países não possuem mais políticas externas.

A Guerra do Iraque demonstrou que Washington necessita da França e da Inglaterra apenas como fornecedores de "fuzileiros senegaleses".

NOTAS

1 - De 1981 a 1985 eu publiquei uma série de obras (algumas delas traduzidas ao russo), promovendo a possibilidade teórica de unir a Europa de Leste a Oeste através da repetção de um cenário histórico chamado "macedônio". Desde 338 até a revolta na Galiléia, em Queronéia, Filipe da Macedônia efetivamente realizou a unificação da Grécia. 

Naquelas obras a argumentação prosseguia em direção ao método militar-ideológico adequado para unir a Europa na direção de Vladivostok a Dublin.

O continente chinês foi unificado há 22 séculos por um incrível político - Tsin Shihuanti.

A dinastia Tsin (221-206). Estado centralizado unitário, liderança burocrática; subordinação dos senhores feudais. Construção da Grande Muralha.

Eventos subsequentes compeliram a esquecer o temor do Exército Soviético e o habilidosamente alimentado nojo pelo comunismo. Em 1992, a solução "macedônia" já parecia inadequada em comparação com o período de 1982-1984. Hoje nós deveríamos elaborar um conceito de retomar a totalidade do território soviético através da construção da Grande Europa, formulá-lo e desejar urgentemente sua realização.

O conceito infantil e anti-histórico da "Comunidade de Estados Independentes", proposto pelo ingênuo Gorbachev, não possui a menor chance de sucesso. Era uma criança natimorta. Seu absurdo semântico é óbvio: comunidade de estados independentes (sic)...; igualmente bem seria possível falar sobre casais católicos devotos praticando o amor livre.

2 - Roma era um Estado Político objetivando a expansão de suas fronteiras.

Não eram assim, no plano teórico, as cidades de Esparta, Atenas e Tebas, com seu conceito, fadado à paralisia, da "imanente e eterna cidade-estado". Aproximadamente 2000 anos após, a Prússia também se tornaria um estado político em expansão. Porém tal expansão não implica necessariamente em conquista. Um exemplo teórico e concreto disso. Se durante os anos de 1950-55, em plena Guerra Fria, os EUA nos haviam oferecido a integração política da Europa Ocidental em uma sincera e honesta estrutura "atlântica", nós teríamos sido testemunhas do nascimento da República Atlântica, se estendendo de São Francisco a Veneza, e de Los Angeles a Lübeck.

Eu trago este exemplo teórico para que o leitor possa distinguir um imperialismo escravizador usual de um imperialismo integrador.

Tal óbvia habilidade para expansão também deveria ter a República Européia Uniforme. Todos os meus conceitos geopolíticos postulam a necessidade de preservar um Estado-Nação vital.

Eu usarei a geopolítica com o propósito da criação do conceito e descrição da vitalidade da República.

Ambos são imperialistas bem mal disfarçados.

A diferença entre o teórico e o ideólogo é imensa.

Haushofer apenas racionalizou seu pan-germanismo animal. Seu conceito do bloco "Berlim-Moscou-Tóquio" não é mais que um mascaramento racional de suas ficções pan-germanistas.

Quanto aos EUA, eles remetem ao seu "Destino Manifesto". Isso é geopolítica ideológica, messiânica, nascida de imaginações, por sua vez causadas pela leitura regular de uma literatura paranóica e de saques através do texto bíblico.

Weinberg lista os expressivos títulos de capítulo para essa paranóia histórica: "predestinação geográfica", "missão de regeneração", "destino inevitável", "poder de polícia internacional". Psicólogos e psiquiatras encontrarão aí comida para reflexão e entretenimento.

Meu conceito geopolítico é completamente diferente. Eu diria, que o progresso industrial e tecnológico peculiar aos EUA deve ou pode criar tal situação, quando se administrará razoavelmente o Estado Continental do Alasca à Patagônia.

Ao invés de provocadoramente "passearem" com sua frota nos mares chinês e mediterrâneo.

Teorias geopolíticas ideológicas operam nos termos de subordinação e/ou exploração, enquanto a geopolítica teórica "em seu estado puro" lida com desenvolvimento e construção de estados vitais.

3 - José Cuadrado Costa “Insuffisance et depassement du concept marxiste-leniniste de nationalite”, October 1984, in “Conscience Europeenne” n.9, Charleroi Belgique. (Conceito de "nacionalidade" em Marx, Engels, Lênin, Stálin, Ortega y Gasset e Jean Thiriart).

4 - É necessário ler criticamente essa obra de Daniel Guerin ("L'Anarchisme", Poche Gallimard). Lá todos os sem-sentido do romantismo oitocentista estão escritos. É difícil encontrar alguém mais ingênuo e mais tolo que Proudhon. Ele descreveu um mundo idílico, o mundo de "federações de federações". Ele não esperava guerras moldavas, croatas e armenas com o propósito da destruição brutal da "Minoria das Minorias". E com apenas uma rajada de uma arma automática!

5 - Jose Ortega-y-Gasset “La Revolte des Masses”, Editions Stock 1961; Jose Ortega-y-Gasset “La vocation de la Jeune Europe”, Revue de la S.S. Universitaire “LA JEUNE EUROPE” Berlin 1942, Cahier 8.

6 -  Jean Thiriart “EUROPE: I’Etat-Nation Politique”, revue “Nationalisme et Republique” n.8, juin 1992 25, Cours Foch 13640, La Roque d’Antheron (France).

7 - Já há mais 1/4 de século eu tenho desenvolvido o conceito de Europa como: (a) estado unitário, (b) de nações europeias. O general DeGaulle queria uma França forte (e unida) e uma Europa impotente (confederada).

A Europa não gostava disso. Assim como Maurras, ele foi pego em um impasse.

Em 1965 o escritor alemão Heinz Kubi me atacou pelos antigos profetas da Grande Alemanha, aos quais eu supostamente pertencia.

Kubi escreve:

"L'Europe: ume nation? (Europa: uma nação?). O paradoxo do terreno político na Europa Ocidental é que as mesmas pessoas que são mais intolerantes em relação aos próprios inimigos (na questão européia: gaullistas-confederalistas e thiriaristas-unionistas) são apoiadores do mesmo conceito de estado. Para De Gaulle era impensável que o estado podia e devia ser algo diferente do estado nacional, como a nação é a única base legítima para a política. O mesmo conceito é dominante entre uma facção da oposição europeia ("Jeune Europe"). Este último quer sair da moldura nacional, mas não pode oferecer qualquer outro tipo de estado, exceto o nacional. Então, eles querem substituir os estados atuais com o estado nacional europeu. Eles sonham a nação europeia, e não é casual, que nessa questão eles concordem com os profetas da "Grande Alemanha" e outros fascistas do passado".

Ver "PROVOKATION EUROPA", Kiepenheuer und Witsch, Koln-Berlin, 1965. French translation: ” Defi à l’Europe “, Seuil, 1967.

 A derrota da "Grande Alemanha" racista eu conheci muito bem, durante a guerra e depois, nos anos de prisão. Eu assumi disso uma útil lição sobre o fato de que o estado racialmente unificado (o de Hitler) não pode se expandir sem guerras constantes. Portanto em uma cela escura eu trabalhei o conceito do estado político (não racial) unido expansionista.

Eu tomei e desenvolvi os conceitos de Sieyes e Ortega y Gasset, o conceito de nação política a ser concluído em um destino superior, um destino europeu.

8 - Em um encontro, em 7 de setembro de 1789, o abade Sieyes claramente e inequivocamente afirmou e repetiu: "Soberana é apenas a Nação. A Nação não possui nem ordens, nem classes, nem grupos. A soberania não pode ser dividida e transmitida". Ver Colette Clavreuil "L'influence de la theorie d'Emmannuel Sieyes sur les origines de la representation en droit public", doctoral dissertations, Université de Paris, 1982; Jean-Denis Bredin "Sieyes, la clé de la Revolution française", Editions de Fallois, Paris 1988; Paul Bastid "Sieyes el sa pensée" re-ed Hachette 1970.

Ninguém poderia formular o conceito do estado unitário melhor do que Sieyes. Quanto a mim, eu transfiro este conceito de república unida e indivisível para minhas reflexões sobre a criação de uma repúblicai mperial de Dublin a Vladivostok. Assim como Sieyes, eu estou cansado de todas essas teorias federativas, fontes de ameaças de guerras civis, fontes de partições territoriais.

9 - Para a pessoa cientificamente educada, todas as nossas linguagens são meios de expressão fracos demais, indistintos, obsolescentes. A linguagem científica é inequívoca, a linguagem literária é sempre ambígua. Por essa razão "escritores" não se expressam tão claramente em sociologia ou política. Ver a obra capital por Louis Rougier "La metaphysique el le langage", Denoel 1973.

De fato por todo o mundo o inglês já é inevitavelmente a linguagem comum da ciência e da tecnologia. O Instituto Parisiense Pasteur não publica mais nada em francês. Todas as suas obras são publicadas apenas em inglês.

10 - Paul D. MacLean “Les trois cerveaux de l’homme”, Robert Laffont 1990 (French translation); Arthur Koestler “Le cheval dans la locomotive ou le paradoxe humain”, Caiman-Levy 1968; ver Capítulo XVI "Les trois cerveaux". Koestler se dirige aos muitos leitores educados. MacLean escreve para o leitor familiarizado com a neuropsicologia cerebral.

Sergey Chakotin "Le viol des foules par la propaganda politique", Gallimard 1952. Chakotin é discípulo e seguidor de Pavlov. Sua "Violência contra as Massas" é uma obra capital indispensável para aqueles que querem ir mais fundo na questão.

Otto Klineberg “Psychologie Sociale”, Presses Universitaires de France 1967.

Josè M.R. Delgado “Le conditionnement du cerveau et la liberte de L’esprit” Charles Dessart, Bruxelles 1972.
 
Jean-Didier Vincent “Biologie des Passions”, Seuil 1986.

Marc Jeannerod “Le cerveau-machine”, Fayard 1986. Guy Lazorthes “Le cerveau et l’esprit – Complexité et malleabilité “, Flammarion 1982.

11 -  Jean Thiriart e René Dastier (1962-1965) "Principes d'Economie Communautaire", 170pg. Uma obra compreensiva sobre teorias sócio-econômicas de Jean Thiriart. (Socialismo em escala europeia: comunitarianismo). Há também uma breve exposição dessa doutrina em um pequeno volume de 42 páginas: Yannik Sauveur e Luc Michel "Esquisse du Communautarisme" (1987). E por último, o artigo de Jean Thiriart "Esquisse du communautarisem", publicado na revista "La nation européenne", n.l., fevereiro de 1966.

O atual regime russo está realizando a liberalização da economia na direção mais perniciosa. Primeiro eles invocaram a ajuda de tubarões financeiros internacionais, o que era a última coisa a se fazer. E Yeltsin o fez, se provando um leigo, uma pessoa sem qualquer conhecimento seja no campo da economia seja no da história.

Teria sido muito mais correto: (a) liberalizar imediatamente todas as empresas com uma força de trabalho de 1 a 50 pessoas; (b) liberalizar em 2-3 anos empresas com uma força de trabalho de 50 a 500 pessoas. Teria sido necessário ir de baixo para cima, da liberalização imediata das pequenas empresas às de maior importância em 6-8 anos. A livre iniciativa estimula o trabalho. É impossível dizer o mesmo sobre a finança internacional especulativa, que olha apenas para seu próprio benefício imediato. Aqui nós não descreveremos a ampla margem entre capitalismo industrial ("Ford", "Renault", "Citroen") e capitalismo bancário especulativo (FMI). Centenas de páginas de pesquisas econômicas por Dastier e Thiriart (1962-1965) são devotadas a este tema. Consideravelmente simplificador, pode-se dizer que o comunitarismo significa uma economia completamente livre para as empresas com um volume de emprego de até 50 pessoas, economia regulada para aquelas com mais de 500, controlada para aquelas acima de 5.000 e estatal para aquelas com mais do que 50.000. É um sistema de "geometria variável", em um caminho intermediário entre capitalismo industrial e socialismo clássico.

12 - A Alemanha moderna é um gigante econômico, por um lado, e um anão político, por outro. É um país historicamente estripado desde 1945. A Alemanha atual é uma das zonas de exploração da economia cosmopolita baseada em Wall Street.

List brilhantemente demonstrou a diferença entre economia cosmopolita e economia política. Partindo dessa diferença, Thiriart construiu a teoria da economia como poder oposta à economia americana focada no lucro.

Há uma excelente análise das idéias de List pelo autor americano Edward Mead Earl (ver Edward Mead Earl in “Makers of Modern Strategy”, Princeton University 1943). Em 1980, a editora Berger-Levrault publicou essa obra em francês sob o título “Les maitres de la strategie” (Chapitre 6: “Adam Smith, Alexander Hamilton, Friedrich List: les fondements economiques de la puissance militaire”).

List passou muitos anos nos EUA. Ele disse que "riquezas são inúteis sem a unidade e o poder de uma nação". Sobre a qualidade analítica de sua obra Edward Mead Earl escreveu que podia valer a pena incluí-la em uma antologia de estudos geopolíticos.
 
 

15/08/2012

Mobilização Total

por Ernst Jünger



1 - Vai contra a tendência do espírito heróico buscar a imagem da guerra em uma fonte que pode ser determinada pela ação humana. Ainda assim, as transformações multitudinárias e desfarces que a forma pura [Gestalt] da guerra suporta entre as vicissitudes do tempo e espaço humanos oferece a esse espírito um interessante espetáculo para as vistas.

Esse espetáculo nos lembra vulcões que, ainda que estejam em operação em regiões bastante diferentes, constantemente expelem o mesmo fogo terreno. Ter participado em uma guerra significa algo similar: ter estado na proximidade de tal montanha expelidora de fogo; mas há uma grande diferença entre Hekla na Islândia e o Vesúvio no Golfo de Nápoles. Pode-se dizer que a diferença nas paisagens desaparece quanto mais nos aproximamos da luminosa mandíbula da cratera; também no ponto em que a paixão autêntica irrompe - acima de tudo, na nua e imediata luta pela vida e pela morte - se torna uma questão de importância secundária em que século, por que idéias, e com que armas a batalha está sendo travada. Mas este não é o tema de nosso ensaio.

Ao invés, nós tentaremos reunir um número de fatos que distinguem a última guerra - nossa guerra, o maior e mais influente evento de nossa era de outras guerras cuja história nos foi transmitida.

2 - Talvez nós possamos melhor identificar a natureza especial dessa grande catástrofe pela asserção de que nela, o gênio da guerra foi penetrado pelo espírito do progresso. Este não foi o caso apenas para a luta entre diferentes países; foi também verdade para a guerra civil que reuniu uma rica segunda colheita em muitos deles. Esses dois fenômenos, guerra mundial e revolução mundial, estão muito mais interligados do que à primeira vista se poderia perceber. Eles são dois lados de um evento de significância cósmica, cuja irrupção e origens são interdependentes em numerosos sentidos.

É provável que muitas descobertas incomuns aguardem nosso pensamento relativo à realidade oculta por trás do conceito de "progresso" - um conceito ambíguo que brilha em muitas cores. Indubitavelmente a maneira pela qual estamos inclinados esses dias a zombar dele é barata demais. Certamente, nós poderíamos citar cada pensador oitocentista verdadeiramente significativo em apoio a nossa aversão; ainda assim, a despeito de todo nosso nojo pelo tédio e uniformidade das formas vitais na questão, a suspeita emerge de que sua fonte é da maior significância. Finalmente, mesmo o processo de digestão depende dos poderes de uma maravilhosa e inexplicável Vida. Certamente, pode ser hoje demonstrado convincentemente que o progresso é, de fato, não realmente progresso. Mas mais importante do que essa convicção, talvez, é a questão de se a significância real do conceito não é de um tipo mais misterioso e diferente: um que usa a aparentemente manifesta máscara da razão como um lugar fantástico para se esconder.

É precisamente a certeza com a qual movimentos progressivos produzem resultados que contradizem suas tendências mais inatas o que sugere que aqui, como por toda a vida, o que prevalece não são tanto essas tendências mais outras impulsões mais ocultas. O "Espírito" ["Geist"] muitas vezes tem sido justificadamente revelado no desprezo pelas marionetes do progresso; mas os tênues fios que produzem seus movimentos são invisíveis.

Se nós quisermos aprender algo sobre a estrutura de merionetes, não há guia mais agradável do que o romance de Flaubert Bouvard et Pécuchet. Mas se nós quisermos considerar as possibilidades desse movimento mais secreto - um movimento sempre mais fácil de sentir do que de provar - tanto Pascal como Hamann oferecem uma abundância de passagens reveladoras.

"Enquanto isso, nossas fantasias, ilusões, fallaciae opticae, e falácias permanecem sob o reino de Deus". Nós encontramos afirmações desse tipo frequentemente em Hamann; elas refletem uma sensibilidade que busca incorporar os labores da química no reino da alquimia. Deixemos de lado a questão de que reino do espírito governo a ilusão ótica do progresso: esse estudo não é uma demonologia, mas é dirigido aos leitores do século XX. Não obstante, uma coisa é certa: apenas um poder de origem cúltico, apenas uma crença, poderia conceber algo tão audacioso quanto estender a perspectiva da utilidade [Zweckmdssigkeit] ao infinito.

E quem, então, duvidaria de que o progresso é a grande igreja popular do século XIX - a única que desfruta de autoridade real e fé acrítica?

3 - Com uma guerra eclodindo em tal atmosfera, a relação de cada pretendente individual ao progresso estava fadada a desempenhar um papel decisivo. E precisamente aí reside o fator autêntico, moral, de nossa era: mesmo os exércitos mais fortes, equipados com as mais modernas armas de aniquilação da era industrial, não são páreo para suas emanações belas e imponderáveis; pois esta era pode até mesmo recrutar suas tropas a partir do campo inimigo.

De modo a esclarecer essa situação, introduzamos aqui o conceito de mobilização total: há muito passaram os tempos em que era suficiente enviar cem mil súditos alistados sob uma liderança confiável à batalha - como descobrimos, digamos, no Cândido de Voltaire; e quando, se Sua Majestade perdesse uma batalha, o primeiro dever do súdito era permanecer quieto. Não obstante, mesmo na segunda metade do século XIX, gabientes conservadores podiam ainda preparar, travar e vencer guerras em relação às quais os representantes do povo eram indiferentes ou mesmo contrários. Certamente, isso pressupunha uma relação próxima entre coroa e exército; uma relação que havia apenas passado por uma mudança superficial pelo novo sistema de conscrição universal e que ainda pertencia essencialmente ao mundo patriarcal. Ele era também baseado em um cálculo fixo de armamentos e custos, o que fazia com que a guerra parecesse um gasto excepcional, mas de modo algum ilimitado, de forças disponíveis e suprimentos. Nesse sentido, mesmo a mobilização geral possuía o caráter de medida parcial.

Essas restrições não apenas refletiam o grau limitado de meios, mas também uma específica razão de estado. O monarca possui um instinto natural alertando-o a não ultrapassar os limites do poder dinástico. A erosão de seu tesouro parece menos objetável do que créditos aprovados por uma assembléia; e para o momento decisivo de batalha, ele preferiria reservar seus guardas do que uma quota de voluntários. Nós encontramos esse instinto ainda sadio na Prússia mesmo a fins do século XIX. Um exemplo entre muitos é a luta amarga por uma conscrição de três anos: enquanto um breve período de serviço é característico de um exército voluntário, quando o poder dinástico está em jogo, tropas testadas e provadas são mais confiáveis. Frequentemente, nós até mesmo nos deparamos - o que pelos padrões atuais é quase impensável - com uma renúncia do progresso e de qualquer equipagem acabada do exército; mas tais escrúpulos também possuem suas razões. Daí oculta em cada melhoria de armas de fogo - especialmente o aumento do alcance - está um ataque indireto contra as condições da monarquia absoluta. Cada melhoria tal promove o tiro contra alvos indivíduais, enquanto a salva encarna a força do comando fixo. O entusiasmo era ainda desagradável para Guilherme I. Ele emerge de uma fonte que, como o saco de vento de Éolo, oculta não apenas tempestades de aplausos. A verdadeira pedra-de-toque da autoridade não é a medida do júbilo que ela recebe, mas as guerras que foram perdidas.

A mobilização parcial, assim, corresponde à essência da monarquia. Esta ultrapassa seus limites na medida em que é forçada a fazer das formas abstratas do espírito, do dinheiro, do "povo" - em resumo, as forças da ascendente democracia nacional - uma parte da preparação da guerra. Olhando para o passado nós podemos dizer que a renúncia completa de uma tal participação era impossível. A maneira na qual ela foi incorporada na vida política representa a real essência do estadismo do século XIX. Essas circunstâncias particulares explicam a máxima de Bismarck de que a política é a "arte do possível".

Nós podemos agora perseguir o processo pelo qual a crescente conversão da vida em energia, o cada vez mais flutuante conteúdo de todos os laços em deferência à mobilidade, dá um caráter cada vez mais radical ao ato da mobilização - que em muitos estados era o direito exclusivo da coroa, não necessitando de qualquer contra-assinatura. Os eventos que causam isso são numerosos: com a dissolução dos estamentos e a limitação dos privilégios da nobreza, o conceito de uma casta guerreira também desaparece; a defesa armada do estado não é mais exclusivamente dever e prerrogativa do soldado profissional, mas a responsabilidade de todos que podem protar armas. Similarmente, por causa do enorme aumento em gastos, é impossível cobrir os custos de travar uma guerra com base em um orçamento fixo de guerra; ao invés uma expansão de todo crédito possível, até mesmo uma taxação do último centavo  guardado, é necessário para manter a máquina em movimento. Da mesma maneira, a imagem da guerra como combate armado se funde na imagem ampliada de um gigantesco processo de trabalho (Arbeitsprozesses). Em adição aos exércitos que se encontram nos campos de batalha, se originam os exércitos modernos do comércio e do transporte, da alimentação, da manufatura de armamentos, o exército do trabalho em geral. Isso faz da Guerra Mundial um evento histórico superior em significância à Revolução Francesa. De modo a distribuir as energias de tal proporção, ajeitar o braço da espada não é mais o bastante; pois esta é uma mobilização [Rustung] que demanda a expansão até a mais profunda medula, ao melhor nervo da vida. Sua realização é a tarefa da mobilização total: um ato que, como se através de um único apanhar do painel de controle, expressa o suprimento de poder extensivamente dividido e densamente disposto da vida moderna em direção à grande corrente de energia marcial.

Ao início da Guerra Mundial, o intelecto humano ainda não havia antecipado uma mobilização dessas proporções. Ainda assim, seus sinais estavam manifestos em instâncias isoladas - por exemplo, o grande emprego de voluntários e reservistas no início da guerra, a proibição de exportações, as regulações de censura, as mudanças nas taxas cambiais. No curso da guerra esse processo se intensificou: como exemplos, nós podemos citar o gerenciamento planificado de matéria-prima e suprimentos, a transposição de condições industriais [Arbeitsverhiltnisses] para circunstâncias militares, o dever de guarda civil, o armamento de navios mercantis, a extensão inesperada da autoridade do estado-maior, o "programa Hindenbug", a luta de Ludendorff pela fusão entre comando político e militar.

Não obstante, apesar do espetáculo, tão grandioso quanto atemorizante, das últimas "guerras de exaustão" ["Materialschlachten"], nas quais o talento humano para a organização celebra seu triunfo sanfrento, suas possibilidades mais plenas ainda não foram alcançadas. Mesmo limitando nosso escopo ao lado técnico do processo, isso só pode ocorrer quando a imagem de operações marciais é prescrita para condições de paz. Nós assim vemos que no período do pós-guerra, muitos países tecem novos métodos de armamento segundo o padrão da mobilização total.

Nesse sentido, nós podemos introduzir exemplos tais como a limitação crescente da "liberdade individual", um privilégio que, com certeza, sempre foi questionável. Tal ataque toma lugar na Rússia e na Itália e então aqui na Alemanha; seus objetivos é negar a existência de qualquer coisa que não seja uma função do estado. Nós podemos prever um tempo em que todos os países com aspirações globais devam tomar parte desse processo, de modo a sustentar a liberação de novas formas de poder. A avaliação da França da balança de poder da perspectiva da energie potentielle pertence a esse contexto, como o faz o modelo que a América já ofereceu - já em tempo de paz - para cooperação entre indústria e exército. A literatura de guerra alemã levantou questões que tocam na própria essência do armamento, forçando o público geral a fazer juízos sobre questões de guerra (ainda que um tanto tardiamente e em realidade antecipando o futuro). Pela primeira vez, o "plano quinquenal" russo apresentou ao mundo uma tentativa de canalizar as energias coletivas de um grande império em uma única corrente. Vendo como teoria econômica dá um giro de 180º é aqui instrutivo. A "economia planificada", como um dos resultados finais da democracia, cresce para além de si mesma em um desdobramento geral do poder. Nós podemos observar essa mudança em muitos eventos de nossa era. A grande irrupção das massas portanto alcança um ponto de cristalização.

Ainda assim, não apenas ataque mas também a defesa demanda esforços extraordinários, e aqui as compulsões do mundo talvez se tornam ainda mais claras. Assim como cada vida já porta as sementes da própria morte, também a emergência das grandes massas contém em si uma democracia de morte. A era do tiro bem dado já está para trás. Dando a ordem do bombardeio noturno, o líder de esquadrão não mais vê uma diferença entre combatentes e civis, e a nuvem de gás mortífero paira como um poder elemental sobre tudo que vive. Mas a possibilidade de tal ameaça não é baseada nem em uma mobilização parcial ou geral, mas sim em uma mobilização total. Ela se estende à criança no berço, que é ameaçada como todos os outros - e até mais.

Nós poderíamos citar muitos exemplos tais. É suficiente simplesmente considerar nossa vida diária, com sua inexorabilidade e disciplina impiedosa, sua fumaça, seus distritos luminosos, a física e a metafísica de seu comércio, seus motores, aviões, e cidades florescentes. Com um horror com toque de prazer, nós sentimos que aqui, nem um único átomo deixa de estar em movimento - que nós estamos profundamente inscritos nesse processo furioso. A Mobilização Total é muito menos consumada do que se consuma ela própria; na guerra e na paz, ela expressa a reivindicação secreta e inexorável à qual nossa vida na era das massas e das máquinas nos sujeita. Sucede assim que cada vida individual se torna, cada vez mais claramente, a vida de um trabalhador; e que, seguindo as guerras dos cavaleiros, reis, e cidadãos, nós temos agora guerras de trabalhadores. O primeiro grande conflito do século XX nos brindou com um pressentimento tanto de sua estrutura racional como de sua impiedade.

4 - Nós tocamos nos aspectos técnicos da Mobilização Total; sua perfeição pdoe ser traçada desde as primeiras conscrições do governo da Convenção durante a Revolução Francesa e a reorganização do exército por Scharnhorst ao dinâmico programa de armamentos dos últimos anos da Guerra Mundial - em que estados se transformaram em fábricas gigantes, produzindo exércitos na linha de montagem que eles enviavam ao campo de batalha de noite e de dia, em que uma igualmente mecânica bocarra sangrenta assumiu o papel de consumidor. A monotonia de tal espetáculo - evocando o labor preciso de uma turbina alimenada por sangue - é de fato dolorosa para o temperamento heroíco; ainda assim, não pode haver dúvidas quanto a seu significado simbólico. Aqui uma necessidade severa se revela: o selo duro de uma era em um meio marcial.

Em qualquer evento, o lado técnico da Mobilização Total não é decisivo. Sua base - como a de toda tecnologia - é mais profunda. Nós a abordaremos aqui como a prontidão para a mobilização. Tal prontidão estava presente em todos os lugares: a Guerra Mundial foi uma das guerras mais populares conhecidas à história. Isso se deu porque ela ocorreu em uma era que excluía a priori todas as guerras, exceto as populares. Também, à parte peguenas guerras de colonialismo e saque, as nações envolvidas haviam desfrutado de um período de paz relativamente longo. Ao início de nossa investigação, porém, nós prometemos enfaticamente não focar nas camadas elementares da natureza humana que se misturam com paixões selvagens e nobres que descansam nela, tornando-a sempre aberta ao grito de guerra. Ao invés, nós iremos agora tentar desenrolar os múltiplos sinais anunciando e acompanhando este conflito particular.

Quando quer que confrontemos esforços de tais proporções, possuindo a qualidade especial de "inutilidade" ["Zwecklosigkeit"] - digamos a construção de pujantes construções como pirâmides e catedrais, ou guerras que põe em jogo as fontes últimas da vida - explicações econômicas, não importa o quão iluminadoras, não são suficientes. Essa é a razão pela qual a escola do materialismo histórico somente pode tocar a superfície do processo. Para explicar esforços desse tipo, nós devemos ao invés focar nossas primeiras suspeitas em fenômenos de uma variedade cúltica.

Ao definirmos o progresso como a igreja popular oitocentista, nós já sugerimos a fonte do eficaz apelo da última guerra para as grandes massas, cuja participação era tão indispensável. Apenas este apelo vale para o aspecto decisivo de sua Mobilização Total: o aspecto com a força de fé. Se esquivar da guerra foi cada vez menos possível em proporção com o grau de sua convicção - assim em proporção com a pureza com a qual as palavras ressonantes que as moviam à ação possuíam conteúdo progressivo. Claro, estas palavras não raro possuíam uma coloração dura e sinistra; sua efetividade não pode ser duvidada. Elas se assemelham aos farrapos coloridos que atiçam a presa da caçada em direção à mira do rifle.

Mesmo um olhar superficial, geograficamente separando os lados beligerantes em vencedores e vencidos, deve reconhecer a vantagem das nações "progressistas". Essa vantagem parece evocar um processo determinista como a teoria darwinista da sobrevivência dos mais "aptos". Sua qualidade determinista é particularmente aparente na inabilidade de países vitoriosos como Rússia e Itália em evitar uma destruição completa de seus sistemas políticos. Nessa luz, a guerra parece uma pedra-de-toque certeira, baseando seus juízos de valor em leis intrínsecas rigorosas: como um terremoto testando as bases de cada cada construção.

Por outro lado, os inesperados poderes de resistência do sistema progressita, mesmo em uma situação de grande fraqueza física, são notáveis. Daí, em meio à supressão daquele extremamente perigoso motom de 1917 pelo exército francês, um segundo e moral "milagre do Marne" se desdobra, mais sintomático para essa guerra do que fatores puramente militares. Similarmente, nos EUA com sua constituição democrática, a mobilização poderia ser executada com um rigor que seria impossível na Prússia, em que o direito a voto era baseado na classe. E quem pode duvidar que a América, o país carente de "castelos dilapidados, colunas basalticas e contos de cavaleiros, fantasmas e bandoleiros", emergiu como vencedor óbvio dessa guerra? Seu curso já estava decidido não pelo grau em que um estado era um "estado militar", mas pelo grau em que era capaz de Mobilização Total.

A Alemanha, porém, estava destinada a perder a guerra, mesmo que ela tivesse vencido a batalha do Marne e a guerra submarina. Pois apesar de todos os cuidados com os quais ela efetivou a mobilização parcial, grandes áreas de sua força escaparam à Mobilização Total; pela mesma razão, correspondendo à natureza interior de seu armamento, ela era certamente capaz de obter, sustentar, e acima de tudo explorar um sucesso parcial - mas nunca um sucesso total. Atribuir tal sucesso a nossas armas demandaria preparar para outra Cannae, uma não menos significativa do que aquela a que Schlieffen devotou a obra de sua vida.

Mas antes de prosseguir com este argumento, consideremos alguns pontos díspares, na esperança de mostrar ainda mais o elo entre progresso e Mobilização Total.



5 - Um fato é claramente esclarecedor para aqueles que buscam compreender a palavra progresso em seu timbre espalhafatoso: em uma era que executou publicamente, sob horríveis torturas, um Ravaillac ou mesmo um Damiens como filhos do inferno, o assassinato da realeza prejudicaria uma camada social mais poderosa - mais uma crença profundamente entalhada - do que no século que seguiu à execução de Luís XVI. Sucede que na hierarquia do progresso, o príncipe pertence a uma espécie não especialmente favorecida.

Imaginemos, por um momento, a situação grotesca na qual um grande executivo de publicidade teve que preparar a propaganda para uma guerra moderna. Com duas possibilidades disponíveis para inflamar a primeira onda de excitação - nomeadamente, o assassinato de Sarajevo ou a violação da neutralidade belga - não pode haver dúvidas sobre qual prometeria o maior impacto. A causa superficial da Guerra Mundial - não importa quão adventícia possa parecer - é habitada por um sentido simbólico: no caso dos culpados e da vítima de Sarajevo, o herdeiro da coroa Habsburga, princípios nacionais e dinásticos colidiram - o moderno "direito à auto-determinação nacional" com o princípio da legitimidade esmeradamente restaurado no Congresso de Viena pelo estadismo do velho estilo.

Agora certamente, ser extemporâneo no sentido correto - por em movimento um efeito poderoso em um espírito que deseja preservar um legado - é digno de louvor. Mas isso demanda fé. É claro, porém, que a ideologia das Potências Centrais não era nem oportuna, nem inoportuna, resultando em nada além de uma mistura de falso romantismo e liberalismo inadequado. Daí o observador não poderia deixar de notar uma predileção por ornamentos obsoletos, por um estilo romântico tardio, por óperas wagnerianas em particular. Palavras evocando a fidelidade dos nibelungos, esperanças depositadas no sucesso do chamado do Islã à guerra santa, são exemplos. Obviamente, questões técnicas e questões de governo estiveram envolvidas aqui - a mobilização de substância, mas não da substância mesma. Mas o relacionamento inadequado das classes governantes tanto com as massas como com forças mais profundas se revelou precisamente em tolices desse tipo.

Daí a famosa e intencionalmente brilhante referência a um "pedaço de papel" sofre de ter sido proferida com atraso de 150 anos - e então desde princípios que poderiam ter sido adequados para o romantismo prussiano, mas que em seu âmabo não eram prussianos. Frederico o Grande poderia ter falado assim, zombando de pergaminhos mofados e amarelados à maneira de um despotismo esclarecido. Mas Bethmann-Hollweg deve ter sabido que em nossos tempos um pedaço de papel, digamos um com uma constituição escrita nele, possui um sentido similar ao de uma hóstia consagrada para a Igreja Católica - e que rasgar tratados certamente é adequado para o absolutismo, mas a força do liberalismo se encontra em sua exegese. Estude a troca de notas que precede a entrada da América na guerra e você vai se deparar com um princípio da "liberdade dos mares"; isso oferece um bom exemplo da medida em que, em tal era, os próprios interesses recebem o status de postulado humanitário - de uma questão com implicações universais para a humanidade. A social-democracia alemã, um dos baluartes do progresso alemão, compreendeu o aspecto dialético de sua missão quando ela equiparou o sentido da guerra com a destruição do regime anti-progressista do czar.

Mas o que isso significa em comparação com as possibilidades para mobilizar as massas à disposição do Ocidente? Quem negaria que a "zivilisation" está mais profundamente ligada ao progresso do que a "Kultur"; que sua linguagem é falada nas grandes cidades, e que ela possui meios e conceitos sob seu comando em relação aos quais a Kultur é ou hostil ou indiferente? A Kultur não pode ser usada para propaganda. Uma abordagem que tente explorá-la desse modo está ela própria apartada dela - bem como achamos que a oferta das cabeças dos grandes espíritos alemães em milhões de selos de papel é inútil, ou mesmo triste.

Não tempos, porém, vontade de reclamar do inevitável. Nós queremos apenas estabelecer que a Alemanha foi incapaz de assumir convincentemente o espírito da época, independentemente de sua natureza. A Alemanha também foi incapaz de propor, para si mesma ou para o mundo, um princípio válido superior ao do espírito. Ao invés, nós a encontramos buscando - às vezes em esferas romântico-idealistas, às vezes em esferas racional-materialistas - por aqueles sinais e imagens que o indivíduo em luta almeja afixar a seus padrões. Mas a validade subjacente a essas esferas pertence parcialmente ao passado e parcialmente ao milieu estranho ao gênio alemão; não é suficiente garantir máxima devoção ao avanço de homens e máquinas - algo que uma temível batalha contra o mundo demanda.

Nessa luz nós devemos lutar ainda mais para reconhecer como nossa substância elemental, a força profunda, primordial do Vol, permanece intocado por tal busca. Com admiração, nós vemos como a juventude alemã, no início dessa cruzada de razão à qual as nações do mundo são chamadas sob o feitiço de um dogma tão óbvio e transparente, ergue o grito de guerra: luminosa, enfeitiçada, faminta pela morte de um modo virtualmente único em nossa história.

Se a um desses jovens tivesse sido perguntado seu motivo para entrar em campo, a resposta, certamente, teria sido menos clara. Dificilmente ele teria falado da luta contra o barbarismo e contra a reação ou pela civilização, a libertação da Bélgica ou a liberdade dos mares; mas talvez ele teria oferecido a resposta, "pela Alemanha" - aquela frase, com a qual os regimentos voluntários partiram para o ataque.

E porém, esse fogo abrasador, queimando por uma enigmática e invisível Alemanha, foi suficiente para um esforço que deixou nações tremendo até a medula. E se ela tivesse possuído direção, consciência, e forma [Gestalt]?

6 - Como um modo de pensamento organizacional, a Mobilização Total é meramente uma intimação daquela mobilização superior que a era está descarregando sobre nós. Característico desse tipo tardio de mobilização é uma legalidade interior, à qual as leis humanas devem corresponder para que sejam efetivas.

Nada ilustra essa reivindicação melhor do que o fato de que durante a guerra forças podem emergir que são dirigidas contra a própria guerra. Não obstante, essas forças estão mais fortemente relacionadas aos poderes em operação na guerra do que poderia parecer. A Mobilização Total altera sua esfera de operações, mas não seu sentido, quando ela começa a mover, ao invés de exércitos de guerra, as massas em uma guerra civil. O conflito agora invade esferas que estão fora dos limites para os comandos da mobilização militar. É como se as forças que não puderam ser manobradas para a guerra agora demandassem seu papel no conflito sangrento. Daí quanto mais unificada e profunda a capacidade da guerra para convocar, desde o início, todas as forças possíveis para sua causa, mais certa e mais imperturbável será seu curso.

Nós temos visto que na Alemanha, o espírito do progresso só pôde ser mobilizado incompletamente. Para pegar apenas um entre milhares de exemplos, o caso de Barbusse mostra que na França, por exemplo, a situação era muito mais propícia. Em realidade um oponente declarado da guerra, Barbusse podia apenas permanecer fiel a suas idéias ao prontamente afirmar esta: em sua mente, ela refletia uma luta de progresso, civilização, humanidade, e mesmo paz, contra um princípio oposto a todos estes fatores. "A guerra deve ser morta no estômago da Alemanha".

Não importa quão complicada essa dialética pareça, seu resultado é inexorável. Uma pessoa com a menos aparente inclinação para conflito militar ainda se encontra incapaz de recusar o rifle oferecido pelo estado, já que a possibilidade de uma alternativa não se encontra presente em sua consciência. Observemos enquanto ele tortura seu cérebro, montando guarda na desolação de trincheiras sem fim, abandonando as trincheiras tão bem quanto qualquer um quando chega a hora, de modo a avançar através da horrível cortina de fogo da guerra de exaustão. Mas o que, na verdade, é impressionante sobre isso? Barbusse é um guerreiro como qualquer outro: um guerreiro pela humanidade, capaz de deixar de lado o fogo de metralhadora e os ataques de gás, e mesmo a guilhotina, tão pouco quanto a igreja cristão é capaz de abandonar sua espada terrena. De certo, de modo a alcançar tal grau de mobilização, um Barbusse necessitaria viver na França.

Os Barbusses alemães se viram em uma posição mais difícil. Apenas intelectos isolados partiram cedo para território neutro, decidindo travar sabotagem aberta contra o esforço de guerra. A grande maioria tentou cooperar com a disposição militar. Nós já mencionamos o caso da social-democracia alemã. Desconsideremos o fato de que , apesar de seu dogma internacionalista, as fileiras do movimento estavam repletas de trabalhadores alemães, e assim podiam ser dirigidas ao heroísmo. Não - em sua própria ideologia, ela se inclinou em direção a uma revisão que depois levou à acusação de "a traição do marxismo". Nós podemos ter uma idéia dos detalhes do preocedimento nos discursos realizados durante esse período crítico por Ludwig Frank, o líder social-democrata e deputado do Reichstag, que, como voluntário de quarenta anos, caiu alvejado na cabeça em Noissoncourt em setembro de 1914. "Nós camaradas apátridas ainda sabemos que, mesmo como filhos adotivos, nós somos filhos da Alemanha, e que nós devemos lutar por nossa pátria contra a reação. Se uma guerra irromper, os soldados social-democratas cumprirão conscientemente seu dever". (29 de agosto de 1914). Essa passagem extremamente informativa contém resumida as formas da guerra e da revolução que o destino guarda em prontidão.

Para aqueles que querem estudar essa dialética em detalhe, as práticas dos jornais e diários durante os anos de guerra oferecem uma abundância de exemplos. Daí Maximilian Harden - o editor do Die Zukunft e talvez o jornalista mais famoso do período guilhermino - começou a ajustar sua atividade pública aos objetivos do comando central. Nós notamos, apenas na medida em que isso é sintomático, que ele sabia como jogar com o radicalismo da guerra tão bem quanto ele jogaria com o da revolução. E assim, simplicissimus, "um órgão que havia dirigido suas armas de sagacidade niilista contra todos os laços sociais, e assim também contra o exército, agora assumiu um tom chauvinista. É claro, ademais, que a qualidade do jornal diminui conforme seu tenor patriótico se eleva - isto é, na medida em que ele abandona o campo de sua força.

Talvez o conflito interio em questão aqui é mais aparente no caso de Rathenau; ele imbui essa figura - para qualquer um lutando para lhe fazer justiça - com a força da tragédia. Em uma medida considerável, Rathenau havia se mobilizado pra guerra, desempenhando um papel em organizar o grande armamento e focando - até mesmo próximo ao colapso alemão - na possibilidade de uma "insurreição em massa". Como é possível que logo após, ele poderia oferecer a conhecida observação de que a história mundial teria perdido seu sentido caso os representantes do Reich tivessem entrado na capital como vencedores através dos Portões de Brandenburgo? Aqui nós vemos muito claramente como o espírito da mobilização pode dominar as capacidades técnicas de um indivíduo, e ainda assim falhar em penetrar em sua essência.

7 - Com nossos últimos combatentes ainda jazendo perante o inimigo, o exército secreto e o estado-maior secreto comandando o progresso alemão saudaram o colapso com exultação. Se assemelhou à exultação de uma batalha vitoriosa. Foi o aliado mais próximo dos exércitos ocidentais a logo cruzar o Reno, seu Cavalo de Tróia. As autoridades governantes reconheceram o novo espírito pelo baixo nível de protesto com o qual eles rapidamente abandonaram seus postos. Entre jogador e oponente, não havia diferença essencial.

Essa também é a razão para que na Alemanha, a transformação política [seguindo o colapso militar] assumiu uma forma relativamente inofensiva. Assim, mesmo durante os dias cruciais da decisão, o ministro social-democrata do Império podia brincar com a idéia de deixar a coroa intacta. E o que isso teria significado, além de manter uma fachada? Por um longo tempo, a construção havia sido tão entulhada de hipotecas "progressistas", que mais nenhuma dúvida era possível quanto à natureza do verdadeiro dono.

Mas há outra razão pela qual a mudança poderia ocorrer menos violentamente na Alemanha do que, digamos, na Rússia - além do fato de que as próprias autoridades prepararam o caminho para ela. Nós temos visto que uma grande porção das "forças progressistas" já haviam estado ocupadas com dirigir a guerra. A energia desperdiçada durante a guerra não era então mais disponível para o conflito interno. Expressando em termos mais pessoais: faz diferença se ex-ministros assumem o leme ou uma aristocracia revolucionária, educada no exílio siberiano.

A Alemanha perdeu a guerra conquistando um lugar mais forte na esfera ocidental - civilização, paz e liberdade no sentido de Barbusse. Mas como poderíamos esperar algo diferente, já que nós havíamos jurado fidelidade a tais valores; por preço algum nós teríamos ousado estender a guerra para além daquele "muro disposto ao redor da Europa". Isso teria demandado idéias diferentes e aliados diferentes, um desvelamento mais profundo dos próprios valores. Um incitamento de substância poderia ter ocorrido com e através do otimismo progressista - como o caso da rússia sugere.

8 - Quando nós contemplamos o mundo que emergiu da catástrofe - que unidade de efeito, que consistência histórica incrivelmente rigorosa! Realmente, se todas as estruturas espirituais e físicas de uma variedade não-civilizacional se estendendo do fim do século XIX até nossa era tivessem sido reunidos em um pequeno lugar e atingidas com todas as armas do mundo - o sucesso não poderia ter sido mais estrondoso.

Os velhos toques do Kremlin agora tocam a Internacional. Em Constantinopla, crianças usam a escrita latina ao invés dos velhos arabescos do Corão. En Nápoles e Palermo, a polícia fascista regula o ritmo da vida sulista como se dirigisse tráfego moderno. Nas terras mais remotas, e mesmo lendárias, casas parlamentares estão sendo cerimonialmente dedicadas. A abstratividade, e daí o horror, de todas as circunstâncias humanas se eleva inexoravelmente. O patriotismo está se diluindo através de um novo nacionalismo, fortemente fundido com elementos de percepção consciente. No fascismo, no bolchevismo, no americanismo, no sionismo, nos movimentos dos povos de cor, o progresso teve avanços que até recentemente teriam parecido impensáveis; ele prossegue seguindo o curso circular de uma dialética artificial de modo a continuar seu movimento em um plano muito simples. Desconsiderando suas mui reduzidas compensações para a liberdade e a sociabilidade, ele está começando a governar nações de modos não muito diferentes daqueles de um regime absoluto. Em muitos casos a máscara humanitária já caiu, substituída por um fetichismo semi-grotesco e semi-bárbaro da máquina, um ingênuo culto da técnica; isso ocorre particularmente onde não há relação direta e produtiva com aquelas energias dinâmicas para cujo curso destrutivo e triunfal a artilharia de longa distância e aviões bombardeiros representam apenas a expressão marcial. Simultaneamente, a estima pela quantidade está aumentando: quantidade de assentimento, quantidade de opinião pública se tornaram o fator decisivo na política. Socialismo e nacionalismo em particular são as duas grandes pedras-de-moinho entre as quais o progresso pulveriza o que resta do velho mundo, e eventualmente a si mesmo. Por um período de mais de cem anos, as massas, cegas pela ilusão ótica da franquia, foram lançadas de um lado para o outro como uma bola pela "direita" e pela "esquerda". Sempre pareceu que um lado oferecia refúgio das reivindicações do outro. Hoje por todo lugar a realidade da identidade de cada lado se torna mais e mais aparente; mesmo o sonho de liberdade está desaparecendo como sob o toque de ferro de uma pinça. Os movimentos das massas uniformemente moldadas, aprisionadas na armadilha montada pelo espírito-do-mundo, compreendem um grande e temível espetáculo. Cada um desses movimentos leva a uma posse mais afiada e impiedosa: formas de compulsão mais fortes que a tortura estão em operação aqui; elas são tão fortes, que seres humanos as saúdam com alegria. Por trás de cada saída, marcada com os símbolos da felicidade, se ocultam a dor e a morte. Feliz é somente aquele que adentra armado nesses espaços.

9 - Hoje, através das rachaduras e retalhos da torre de Babel, nós já podemos ver um mundo glacial; essa vista faz com que os espíritos mais bravos tremam. Antes de muito, a era do progresso parecerá tão curiosa quanto os mistérios de uma dinastia egípcia. Naquela era, porém, o mundo celebrava um daqueles triunfos que imbuíam a vitória, por um momento, com a aura da eternidade. Mais ameaçadores que Aníbal, com punhos poderosos demais, exércitos simbrios haviam derrubados os portões de suas grandes cidades e canais fortificados.

Nas profundezas da cratera, a última guerra possuía um significado que aritmético algum poderia dominar. O voluntário o sentia em sua exultação, a voz do demônio alemão rebentando poderosamente, a exaustão dos velhos valores sentido unidos com um anseio inconsciente por uma nova vida. Quem teria imaginado que estes filhos de uma geração materialista poderiam saudar a morte com tamanho ardor? Desse modo uma vida rica em excesso e ignorante da poupança do pediente se declara. E tanto quanto o resultado efetivo de uma vida reta não é nada senão o ganho do próprio caráter mais profundo, para nós os resultados dessa guerra não podem ser nada senão o ganho de uma Alemanha mais profunda. Isso é confirmado pela agitação ao nosso redor que é a marca da nova raça: uma que não pode se satisfazer por qualquer das idéias desse mundo, nem qualquer imagem do passado. Uma anarquia frutífera reina aqui, que é nascida dos elementos da terra e do fogo, e que oculta em si as sementes de uma nova forma de dominação. Aqui uma nova forma de armamento é revelada, uma que busca forjar suas armas a partir de metais mais puros e mais duros que se provam impérvios a toda resistência.

O alemão conduziu a guerra com uma, para ele, ambição completamente razoável de ser um bom europeu. Como a Europa travou guerra contra a Europa - quem mais além da Europa poderia ser o vencedor? Não obstante, essa Europa, cuja área se estende em proporções planetárias, se tornou extremamente magra, extremamente envernizada: seus ganhos espaciais correspondem a uma perda na força de convicção. Novos poderes emergirão disso.

Bem sob as regiões nas quais a dialética dos objetivos de guerra ainda são significativos, o alemão encontra uma força superior: ele encontra a si mesmo. Dessa maneira, a guerra foi ao mesmo tempo sobre ele: acima de tudo, os meios de sua própria autorrealização. E por essa razão, a nova forma de armamento, na qual nós já por algum tempo estivemos implicados, deve ser uma mobilização do alemão - nada mais.