01/11/2014

Aleksandr Dugin - O Terceiro Totalitarismo

por Aleksandr Dugin



(Crítica desde a posição da Quarta Teoria Política)

Nas ciências políticas, o conceito de totalitarismo está subentendido nas ideologias comunista e fascista, que abertamente proclamam a superioridade da totalidade (classe e sociedade no comunismo e socialismo; Estado, no fascismo; raça no nacional-socialismo) sobre o privado (indivíduo).

Eles se opõem à ideologia liberal, a qual situa, ao contrário, o privado (indivíduo) sobre a totalidade (como se essa totalidade não pudesse ser compreendida enquanto tal). O liberalismo assim combate o totalitarismo em geral, incluindo o do comunismo e o do fascismo. Mas, ao fazê-lo, o próprio termo "totalitarismo" revela sua conexão com a ideologia liberal - e nem comunistas nem fascistas concordariam com o termo. Assim, todos os que usam a palava "totalitarismo" são liberais, independentemente de sua consciência sobre isso.

À primeira vista, a imagem é perfeitamente clara e não deixa lugar para ambiguidades - o comunismo é o primeiro totalitarismo, o fascismo é o segundo. E o liberalismo é sua antítese, enquanto tal negando a totalidade e situando o privado acima dela. Se pararmos aqui, reconheceremos que a era moderna desenvolveu apenas duas ideologias totalitárias - comunismo e fascismo, com suas variações e nuances. Mas o liberalismo, como teoria política que apareceu antes das outras duas e sobreviveu a elas, não poderia ser chamado de totalitarismo. Daí, a expressão "terceiro totalitarismo", que sugere uma ampliação da nomenclatura das ideologias totalitárias, para incluir o liberalismo, não fazer sentido.

Porém, o tema do "terceiro totalitarismo" pode bem surgir no contexto da sociologia francesa clássica (escola de Durkheim) e da filosofia pós-moderna. A sociologia de Durkheim mantém que os conteúdos da consciência individual são formados inteiramente sobre as bases da consciência coletiva. Em outras palavras, a natureza totalitária de qualquer sociedade, incluindo uma sociedade individualista e liberal, não pode ser cancelada. Assim, o próprio fato de declarar o indivíduo como o valor mais alto e a medida das coisas (liberalismo) é uma projeção da sociedade, que é, uma forma de influência totalitária e indução ideológica. O indivíduo é um conceito social - sem sociedade, o ser humano sozinho não sabe se ele é ou não um indivíduo, e se o individualismo é ou não o mais alto valor. O indivíduo aprende que ele é um indivíduo, uma pessoa privada, apenas em uma sociedade em que a ideologia liberal domina e realiza a função do ambiente em operação. Portanto, aquilo que nega a realidade social e afirma a individual também possui em si mesmo uma natureza social. Consequentemente, o liberalismo é uma ideologia totalitária que insiste, por métodos clássicos de propaganda totalitária, que o indivíduo é a instância suprema.

Este é o início de uma crítica sociológica da sociedade burguesa, não uma social, mas uma desde uma perspectiva sociológica, ainda que normalmente na França e no Ocidente socialismo e sociologia tenham se aproximado quase ao ponto da identificação total (por exemplo, ao modo de Pierre Bourdieu). Nesse sentido, o caráter totalitário do liberalismo é provado cientificamente e o termo "terceiro totalitarismo" adquire lógica e coerência, ao invés de ser um paradoxo assombroso. A partir de então, uma série de conceitos sociológicos, tais como "a multidão solitária (la foule solitaire - David Riesman) e outros.

A sociedade liberal, se opondo às sociedades de massa do socialismo e fascismo, se tornou ela própria uma sociedade massificada, padronizada e estereotipada. Quanto mais o homem aspira ser extraordinário no contexto do paradigma liberal, mais ele se torna similar a todos os outros. O que o liberalismo traz consigo mesmo é precisamente a estereotipação e uniformização do mundo, destruindo a diversidade e diferenciação.

Por outro lado, há a filosofia pós-moderna. No espírito da busca pela imanência radical - característica à modernidade - os pós-modernistas levantam a questão da figura do indivíduo. Segundo sua visão, o indivíduo é um sinônimo para o totalitarismo, mas transposto ao nível micro. O indivíduo é um micrototalitarismo que projeta um aparato de supressão sobre o qual o totalitarismo normal é construído nos níveis individualista e subindividualista. Em um espírito freudiano, os pós-modernistas, explicando a razão como instrumento para supressão, deslocamento e também projeção, a identificam com o Estado totalitário, que reprime a liberdade dos cidadãos impondo sobre eles sua própria perspectiva. O indivíduo é então um conceito, uma projeção da obliteração e violência de uma sociedade totalitária em seus níveis mais baixos. Os desejos e a força criativa do indivíduo são constantemente obliterados. Acima de tudo, os pós-modernistas fazem a comparação com o totalitarismo social - fascismo e comunismo - apenas por causa da estrutura hierárquica estrita do indivíduo racional. Assim, o conceito de totalitarismo liberal como um "terceiro totalitarismo" adquire sentido pleno e se situa em um fundamento legítimo.

Assim, o liberalismo é uma ideologia totalitária e violenta, um meio para a repressão política direta e indireta, para a pressão educacional e para a propaganda feroz, proclamando ser não-totalitária, ocultando sua própria natureza. Este é um fato científico. O terceiro totalitarismo é inteiramente coerente com toda a perspectiva de seu conceito político.

A Quarta Teoria Política aceita completamente essa noção, uma vez que ela permite perceber a imagem completa que unifica as três teorias políticas clássicas da modernidade - a) liberalismo; b) comunismo, e c) nacionalismo (fascismo). Todas elas são totalitárias, ainda que de forma distinta. Precisamente em outro contexto, a QTP revela o caráter racista de todas as três teorias: o racismo biológico dos nazistas, o racismo de classe de Marx (progressismo e evolucionismo universais) e o racismo colonial e cultural-civilizacional dos liberais (que era explícito até meados do século XXI e se tornou subliminar depois - ver "A Concepção Eurocêntrica da Política Mundial" de John Hobson). A QTP rejeita todos os tipos de totalitarismo - comunista, fascista e liberal. O terceiro totalitarismo hoje é o mais perigoso, já que ele é o dominante. Lutando contra ele é uma tarefa fundamental.

A QTP propõe uma compreensão nova tanto do todo como de suas partes, fora das três ideologias políticas da modernidade. Essa compreensão pode ser chamada de um Mit-sein existencial. Mas nessa compreensão existencial da presença (Dasein), não há átomo (partes, indivíduo), nem soma de indivíduos (totalitarismo). Na QTP, "ser com" significa existir, constituir uma presença - uma presença viva em face da morte. Nós somos juntos apenas quando nos deparamos com nossa própria morte. A morte é sempre profundamente pessoal e, simultaneamente, há algo de comum, algo que afeta a cada um de nós. Assim, é necessário falar não sobre totalitarismo (uma concepção mecânica conectando partes e todo), mas sobre um holismo existencial orgânico. E seu nome é Povo. Dasein existiert völklich. Em clara oposição a um "terceiro totalitarismo". Por um Ser-para-a-morte. Mit-sein. Nós somos o Povo.


10/10/2014

Thomas Bertonneau - A Crítica de Evola à Modernidade

por Thomas Bertonneau


Contra o Niilismo: A Crítica "Tradicionalista" de Julius Evola à Modernidade

Com tipos como Oswald Spengler, cujo Declínio ele traduziu para uma audiência italiana, e José Ortega y Gasset, Julius Evola (1898-1974) se destaca como um dos críticos notavelmente incisivos da modernidade de meados do século XX. Como Spengler e Ortega, Evola se via como um devedor formativo de Friedrich Nietzsche, mas mais forçosamente que Spengler ou Ortega, Evola via as limitações - contradições e inconsistências - no pensamento de Nietzsche.

Evola diferia de Spengler e Ortega de outra maneira: como certos outros Homens da Direita durante as mesmas décadas, ele se envolveu profundamente em questões místicas e ocultas, criando uma reputação durante a última parte de sua vida como um especialista em tais tópicos como religiosidade oriental, alquimia, e uma vasta gama de doutrinas esotéricas. Hermann Keyserling vem à mente também, como tendo dirigido seus interesses a essas questões. Não obstante, Keyserling, que conhecia a obra de Evola, evitava Evola, tal como Spengler havia evitado Keyserling. Isso teria sido em parte porque o envolvimento oculista de Evola chocava Keyserling como mais indiscreto e profundo do que o seu e em parte porque Evola parecia, no início da década de 30, ser simpático ao fascismo e ao nacional-socialismo, enquanto Keyserling, como Spengler, via estes como inequivocamente sinais da decadência difusa de seu tempo e os criticava desde os primórdios.

Ainda que as proclividades transitórias de Evola justificassem as apreensões de Keyserling, um rápido e crescente desgosto mútuo pôs uma distância real entre Evola e as ditaduras. Tivesse ele sabido disso, Keyserling poderia ter se aproximado de Evola. À época em que a guerra teve início, o barão havia explicitamente repudiado princípios ditatoriais. Evola, que tinha sua própria teoria da raça, expressava uma particular repulsa pela política racial nazista e pela imitação dela por Mussolini na Itália após 1938.

Evola não obstante cria dificuldades para aqueles de temperamento conservador que poderiam apreciar sua crítica da modernidade. Ele desconsiderava o cristianismo, pelo menos em sua forma moderna, como uma religião social; e como suas contrapartes da esquerda, ele desprezava a burguesia e seus valores, tanto que pelo menos um de seus biógrafos o comparou, de forma alguma sem plausibilidade, a tipos frakfurtianos como Herbert Marcuse e Theodor W. Adorno. Porém a irascibilidade geral de Evola pertence a sua atratividade. Assim, em um artigo de 1929, Bolchevismo ed Americanismo, Evola condena com igual fervor o comunismo moscovita e a democracia financeira americana, como representante, ambas, a mecanização e desumanização da vida. Diferentemente dos marxistas - e diferentemente dos fascistas e nacional-socialistas - Evola via a única esperança para a civilização ocidental como estando em um renascimento do que ele gostava de colocar em letra maiúscula, por um lado, como Tradição e, por outro lado, como Transcendência; ele assim rejeitava todo materialismo e instrumentalismo como reduções cruas da realidade para mentes brutas e, assim também, como sintomas de uma decadência prevalecente e de modo geral repugnante.

I. O especialista em Evola H.T. Hansen expõe os detalhes dos seus envolvimentos políticos, criando uma defesa exculpante generosa, no artigo que serve como introdução à tradução para inglês de Gli Uomini e le Rovine. Eu encaminho leitores a esse artigo e à própria Autodifesa de Evola, que o mesmo volume oferece como apêndice ao texto principal, caso estejam interessados nos detalhes. A análise de Evola da modernidade me interessa no que segue mais do que suas afinidades políticas na Itália no início de sua maturidade. O desprezo apaixonado de Evola pela vulgaridade de coisas como a democracia (aquele fetiche do mundo moderno), "a questão social", e a economia - que, como E. Christian Kopff aponta em um artigo recente na revista virtual Alternative Right, ele considerava "demônica" - pertence a sua convicção absoluta de que o Ocidente tem estado preso em uma crise descendente de niilismo desde o século XVIII pelo menos. A desintegração do Sacro Império Romano nas guerras de faccionalismo religioso pressagiava a desintegração da sabedoria coerente na guerra do Iluminismo contra a fé. A era do Estado-Nação, como Evola a vê, desconstruiu o princípio de que a autoridade política deriva de uma fonte transcendente. Evola admirava o que ele chamava de guibelinismo do Império ainda que ele o defendesse contra seus detratores modernos sem nostalgia. Não se pode nunca voltar para trás; deve-se lidar com as condições, tais quais elas existem agora.

Evola parecia ter concebido Gli Uomini et le Rovine, seu título já comentando sobre as condições atuais, e Cavalcare la Tigre (1961) como uma introdução dupla a sua obra-prima, Rivolta Contra il Mondo Moderno (1934).

Em Gli Uomine et le Rovine, Evola avalia a crise contemporânea, a "doença" e "a desordem de nossa era", paradoxalmente: o totalitarismo, uma tendência sinistra plenamente instigada pelo conformismo amplamente difundido, é, em efeito, um tipo de caso tal que o máximo de coerção ilegítima existe em uma sociedade simultaneamente com a máxima ilegalidade desenfreada; enquanto a proliferação de bugigangas técnicas brilhosas, em cuja fascinação as massas creem participar no progresso, coexiste com uma decadência dos refinamentos sociais e éticos da civilização medieval em várias ressurgências de primitivismo degradante. Pode-se pensar na maneira em que a internet está ligada à pornografia e à jogatina. No esquema de Evola, a Reforma, a ascensão da ciência, e a Revolução Industrial marcam fases da queda, não da subida, na história das formas sócio-políticas viáveis. Para Evola, a exaltação moderna do instrumental, do prático, e do material é equivalente não apenas a uma rejeição petulante de cada "dimensão superior de vida" mas também a um abraço perverso da "disformidade espiritual".

Assim a degradação da pessoa, um termo que Evola usa de maneira especial, pertence a um regime que alcança o controle, inteiramente em prol do controle, ao encorajar os mais baixos impulsos apetitivos daquela criatura útil, porém desesperada, o mero indivíduo numérico. Evola aqui se vale francamente da categoria de Ortega do homem-massa, cuja única qualidade consiste em sua quantidade sobrepujante inevitável.

Evola identifica a fonte aproximada dessas tendências na "subversão introduzida na Europa pelas revoluções de 1789 e 1848" ainda que uma análise poderia traçar ambas explosões a fases e eventos anteriores. Em igualdade, o fetiche central da subversão revolucionária, Evola vê um fenômeno nem natural, nem apropriadamente cultural que sugere a aversão profundamente enraizada de uma consciência supostamente liberada em relação à estrutura efetiva, graduada, da realidade. Em particular, como Evola ressalta, a humanidade contemporânea separou a si mesma inteiramente do único contexto que poderia esclarecer o valor do homem para ele e integrá-lo em uma vida significativa: aquela harmonia de "soberania, autoridade e legitimidade" pela qual "todo Estado verdadeiro" alcança "transcendência de seu próprio princípio". Mais platonista que cristão - talvez de certo modo, como eu sugeri, anticristão - Evola insiste em que o significado de um regime consiste exclusivamente em sua corporificação de "uma ordem superior", por meio da qual exclusivamente seu "poder" deriva. Um regime tradicional, sendo essencialmente hierárquico, assim jamais adotará a face da democracia; de fato, seus aristocratas sempre governarão por "absolutidade", no sentido de que sua condução da ordem, seu "Imperium", sempre tomará direção de sua participação espiritual na mesma "aeterna auctoritas" que doa inteligibilidade ao cosmo físico.

As classes sociais do regime tradicional reconhecem a autoridade incorporada nos seus governantes por seus sinais externos de dignidade e justiça próprios de pessoas reais. A democracia representa o princípio oposto a isso (na medida em que, isto é, seja possível dizer que ele representa algum princípio); a democracia é dissoluta; ela liquefaz todas as estruturas alcançadas e toda subordinação a valores em sua abolição das diferenças autênticas.

É possível notar que suave eco do que Evola reconheceria como ordem genuína informa uma fase até mesmo tão tardia da modernidade quanto a da fundação da América, com suas referências a um "Criador". Não obstante, a afirmação de Evola de que o regime e seus governantes devem tornar manifesta uma ordem transcendente - cósmica, divina e paternal - está tão distante a definição prevalecente de existência que até mesmo a maioria daqueles que se dizem conservadores devem olhar para ela em incompreensão muda. A prática moderna inverteu grosseiramente a visão tradicional de ordem, se orientando para baixo na direção do ctônico, do animista e do maternal. A democracia, para Evola, pertence com sua mediocrização infantilizante da vida, assim como a noção vazia e obsessiva, como ele vê, de individualidade. Aqui também a mentalidade dominante deve recuar - como poderia alguém não defender o indivíduo? Não é a santidade do indivíduo a base indispensável da sociedade anglo-saxã? Não é a Carta de Direitos um conjunto de garantias para o indivíduo?

Mas Evola distingue rigorosamente o indivíduo da pessoa, valorizando o segundo. "A pessoa", Evola escreve, "é um indivíduo que é diferenciado por suas qualidades, imbuído de sua própria face, sua própria natureza, e uma série de atributos que o tornam quem ele é o distinguem de todos os outros". Por distinção, "o indivíduo pode ser concebido apenas como uma unidade atômica...uma mera ficção de uma abstração". Pessoas, sendo efetivamente individuadas, possuem categoria de "pares" na companhia diferenciada, na "vontade de igualdade", por contraste, Evola vê apenas a "vontade do que não tem forma".

Evola também insiste em distinguir o "Estado orgânico" do "Estado totalitário", ligando o primeiro à individuação dentro de uma hierarquia funcional (para pessoas) e o segundo à vacuidade da democracia: "Um Estado é orgânico quando possui um centro, e esse centro é uma idéia que molda os vários domínios da vida de maneira eficaz; ele é orgânico quando ignora a divisão e autonomização do particular e quando, por virtude do sistema de participação hierárquica, cada parte dentro de sua relativa autonomia realiza sua própria função e desfruta de uma conexão íntima com o todo". Evola escreve que, "no totalitarismo nos usualmente encontramos uma tendência à uniformidade e intolerância por qualquer autonomia e qualquer grau de liberdade, por qualquer corpo intermediário entre o centro e a periferia, entre o topo e o fundo da pirâmide social". Em uma sociedade em que a Tradição governa, o "axioma...é de que os valores supremos...não estão sujeitos a mudar e devir". Em uma sociedade liberal em que a democracia governa (que será indistinguível de uma ditadura), "não há princípios, sistemas, e normas com valores independentes do período em que assumiram uma forma histórica, com base em fatores contingentes e irracionais".

Evola se recusa a recuar das duas fases de um duro julgamento: Primeiro que "o início da desintegração das estruturas sóciopolíticas tradicionais, ou pelo menos do que restava delas na Europa, ocorreu através do liberalismo", que é o precursor direto da revolução; e segundo que "a essência do liberalismo é o individualismo". Porque a noção de igualdade não passa de "puro absurdo" e constitui um "absurdo lógico", qualquer implementação da igualdade envolverá necessariamente uma destruição daquilo que, existinto realmente e efetivamente, ofende o sentimento democrático. Assim para Evola a democracia em si é niilismo.

II. Onde Gli Uomini et le Rovine assume a tarefa de descrever nossa situação catastrófica, Cavalcare la Tigre prescreve como uma pessoa genuinamente individuada pode se comportar em um ambiente culturalmente devastado e moralmente degenerado. Cavalcare la Tigre não obstante também analisa os tópicos que fascinam Evola, geralmente o grande espetáculo da civilização em decadência e particularmente as formas exteriores da corrupção dominante. O leitor as encontra, então, em Cavalcare la Tigre, capítulos devotados a "Os Disfarces do Niilismo Europeu", "O Colapso do Existencialismo", "Cobrindo a Natureza - Fenomenologia", "A Dissolução da Arte Moderna", e "Segunda Religiosidade", entre muitos outros. Em relação à situação de meados do século XX Evola incentiva seus leitores a não confundirem a desintegração visível atual do mundo burguês pelo cataclismo primário em cuja paisagem destruída eles vivem: "Socialmente, politicamente e culturalmente, o que desaba hoje é o sistema que assumiu forma após a revolução do Terceiro Estado e a primeira revolução industrial ainda que houvesse não raro misturado alguns remanescentes de uma ordem mais antiga, drenada de sua vitalidade original". Evola permanece diligentemente leal àquela "ordem mais antiga", na ressurreição de cuja vitalidade o bem-estar de pessoas em um mundo hostil está implicado.

Niilismo, na discussão de Evola sobre ele, sabe como se ocultar e dissimular, como sorrir, suavizar e bajular. A habilidade de revelar os esconderijos do niilismo e penetrar suas máscaras assim desempenha um papel fundamental na autonomia continuada da pessoa individuada ou "aristocrata do espírito". Evola toma o bordão de Nietzsche da "Morte de Deus" como utilmente designando uma específica "fratura de um caráter ontológico" que aflige a cena contemporânea. Através dessa "fratura", Evola escreve, "a vida humana perde qualquer referência real de transcendência", e em seu rastro os inúmeros "duplos e substitutos" do "Deus que está morto" ascendem à proeminência. Assim, "quando o nível do sagrado se perde", só fórmulas vazias - ideologias - persistem, como o "imperativo categórico" proposto por Kant ou o "racionalismo ético" (como Evola o chama) promulgado por Mill e seus seguidores Rastejando por trás da cortina dessas e outras construções, Evola vê "niilismo já visível". Por exemplo, o niilismo avança no "herói romântico: o homem que se sente sozinho face a indiferença divina" e que "reivindica para si direitos excepcionais ao que é proibido".

Após o romantismo, o espírito da negação aparece sob o rótulo de "o absurdo", com seu axioma da ausência universal de significado e sua dramatis personae da "juventude perdida", "rebeldes sem causa". Hollywood e a cultura comercial continuamente reinventam esses tipos limitados.

Com uma referência ao artigo recente de Kopff, eu mencionei mais cedo como Evola caracteriza a teoria econômica moderna como "demônica". Evola aplica esse rótulo irrespectivamente de se a teoria sob escrutínio defende uma visão enraizada em Karl Marx ou em Adam Smith porque ambos representam o niilismo mascarado. Um conceito racional de riqueza se torna uma teoria "demônica" quando a idéia de dinheiro e sua relação a bens, primeiro, se reduz a algo inteiramente abstrato e, depois, se infla até que seja o besteirol central e dominante de um regime. Não importa se a ideologia dominante é o socialismo ou o capitalismo: "O erro e ilusão são os mesmos", nomeadamente que o "desejo material" são a causa de toda "miséria existencial" e que a abundância geram felicidade e legalidade. Em uma afirmação chocante, cuja importância quase nenhum político atuante atualmente poderia compreender, Evola oferece que, "a verdade da questão é que o significado da existência pode ser tão carente em um grupo [rico ou pobre] como no outro, e que não há correlação entre miséria material e espiritual". Evola ressalta que toda a política moderna tende ao "messianismo socioeconômico".

Segundo Evola, virtualmente toda filosofia moderna e do século XX é evasão ou enganação. Os capítulos de Cavalcare la Tigre sobre Edmund Husserl, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre - para não mencionar Nietzsche - expõe a perspectiva de que esses pensadores, também, participam no processo de redução da realidade a nada. Nietzsche, no comentário de Evola, participa na redução de Transcendência à imanência: "Uma vez que os ídolos caíram, bem e mal foram ultrapassados, junto a todos os substitutos de Deus, e essa névoa foi retirada dos próprios olhos, nada resta para Nietzsche a não ser 'esse mundo', vida, o corpo". O Übermensch é o substituto de Nietzsche para a Transcendência. Evola categoriza o Übermensch, uma futuridade afastada que supostamente justifica a ação agora, não é "muito diferente da ideologia marxista-comunista", com sua imagem sinuosa da Humanidade Socialista. A Vontade e o Poder de Nietzsche seriam meros disfarces da "ausência de forma". Husserl parece a Evola também como desviado, se engajando no velho projeto de Salvar as Aparências pela desrealização das aparências ainda mais e assim cortando a consciência de seu contato tanto com a natureza como com a Transcendência. Quanto a Heidegger, como Evola vê as coisas, o filósofo do Dasein falhou em ir além de Nietzsche e como ele seu precursor teria reduzido a vida à imanência desesperada. A doutrina de Heidegger seria "uma projeção de homem moderna em crise, ao invés do homem moderno além da crise".

O niilismo pode se disfarçar como espiritualidade e religião. Assim o que Evola chama de "naturalismo moderno" e "o ideal animal" é associado ao que ele chama, pegando emprestado o termo de Spengler, de "segunda religiosidade". Os rótulos "naturalismo moderno" e "o ideal animal" se referem à idéia de "retorno à natureza" que a história dos conceitos traça a uma codificação original em Jean-Jacques Rousseau. "O estado natural do homem jamais existiu", escreve Evola, porque "no início o homem estava situado em um estado supranatural do qual ele agora caiu". Uma descida desindividuadora ao seio da Mãe Terra permanece impossível por definição para pessoas culturalmente maduras. Assim, "cada retorno à natureza é um fenômeno regressivo, incluindo qualquer protesto em nome de direitos instintivos, do inconsciente, da carne, da vida desimpedida pelo intelecto, e daí em diante". Os movimentos neoctônicos familiares à cena moderna pertencem à "segunda religiosidade". Como a "segunda religiosidade" do mundo antigo, a do mundo moderno é afeminada, matriarcal e anti-intelectual; ela é também plenamente anti-espiritual. A "segunda religiosidade" permeia a vida moderna em "formas esporádicas de espiritualidade e misticismo, mesmo em irrupções do supersensível". Porém, tais "sintomas" definitivamente "não indicam uma reascensão" a qualquer coisa genuinamente metafísica.

Evola morreu antes que ambientalismo encontrasse seu pseudo-evangelho na histeria do "aquecimento global", antes que o feminismo organizado começasse sua emasculação sistemática de instituições ocidentais, e antes que essas tendências se concentrassem em charlatães como o "teórico de Gaia" James Lovelock e o ex-senador Albert "Nós-somos-o-inimigo" Gore. Os leitores podem tomar Evola como previdente quando ele escreve que, "nada é mais indicativo do nível de neoespiritualismo do que o material humano da maioria daqueles que o cultivam". Evola nota que, a mistificação e superstição estão constantemente imiscuídas no neoespiritualismo, outro de cujos traços, especialmente nos países anglo-saxões, é a elevada porcentagem de mulheres (mulheres que são derrotadas, marginalizadas ou velhas demais)". Em uma metáfora, Evola compara essas manifestações de "escapismo, alienação e compensação confusa" à "fluorescência que aparece quando corpos se decompõem".

III. Pode parecer haver uma contradição insuperável quando, em minha introdução, eu escrevi que Hermann Keyserling havia desprezado Evola porque o envolvimento de Evola em idéias ocultas se situavam em um excesso desconfortável em relação ao do próprio Keyserling; enquanto, ao fim da seção anterior eu relatei sobre a hostilidade crítica de Evola ao "misticismo" e à "superstição", usando seus próprios termos de Cavalcare la Tigre. Não há contradição real. A idéia de Evola de Transcendência não está tão distante de idéias similares na obra de Giambattista Vico, Oswald Spengler, Arnold Toynbee, Eric Voegelin e Richard Weaver. Evola, cuja educação literária era grande, sabe dos textos antigos que a sequência de experiência visionária intensa - seguida pela propagação viril de uma ordem essencialmente religiosa - se encontra no início de todas as sociedades e civilizações complexas conhecidas. A semelhança de fundações míticas ou proféticas sugere que todas elas correspondiam a uma fonte singular ainda que não seja possível dizer, em linguagem racional moderna, que fonte era essa.

Seja a Dike de Homero cuja origem é Zeus, o "Eu sou o que sou" hebreu, o Dao do Reino do Meio, ou a visão beatífica em Platão, Agostinho e Dante - o efeito formativo da experiência é estabelecer uma hierarquia nocional de estruturas, orientada ao que está "acima" do mundo humano, que, enquanto anunciando a si mesmo como Ser eterno, assume forma física através da atividade humana criativa no mundo atual. Visões fundantes organizam pessoas anagogicamente. Este é um fato histórico. Mesmo Spengler, um cético, escreve, em Der Untergang des Abendlandes (Vol.I), que, "uma Cultura nasce quando uma grande alma desperta da proto-espiritualidade...e se destaca, uma forma a partir do informe". Toynbee, católico heterodoxo, escrevendo em Civilization on Trial (1948), reconhece o cristianismo como uma visão de vida que "emergiu do labor espiritual que foi consequência da desintegração da civilização greco-romana" e que prognosticou a forma de uma civilização sucessora em meio às ruínas da antiga. Quanto a Voegelin, em Israel and Civilization (1956), ele escreve: "A simbolização cosmológica não é nem uma teoria, nem uma alegoria. Ela é a expressão mítica da participação, experimentada como real, da ordem da sociedade no ser divino que também ordena o cosmo".

Evola, ainda que excêntrico, pode não obstante reivindicar companhia nos testemunhos convergentes de inúmeras lendas e sagas da antiguidade e do medievo. A grande obra de Evola, Revolta Contra o Mundo Moderno, torna explícitas as bases filológicas e antropológicas de suas convicções sobre a Tradição. Evola divide Revolta em duas partes: Primeiro, uma descrição compreensiva das estruturas e pressuposições daquelas sociedades históricas que incorporam a Tradição; Segundo, uma "genealogia" da decadência moderna. Na Parte Um de Revolta, Evola se firma fortemente em James G. Frazer, Franz Cumont, Georges Dumézil, Fustel de Coulanges e outros estudiosos que, sem preconceito, tentaram compreender costumes e instituições primitivos e arcaicos, enquanto tal, de dentro para fora. Evola admira sociedades históricas e antigas pela virilidade de suas estruturas - realeza, aristocracia, sacerdócio, guerreiro, trabalhador, e servo - que, em sua perspectiva, permitia que as pessoas se integrassem em um arranjo significativo e vivificante com os outros, incluindo seus superiores, com um mínimo de fricção. Cada estamento na hierarquia tinha seus privilégios, mas cada estamento também tinha suas obrigações para com os estamentos abaixo, assim como cada tinha seus deveres perante a totalidade.

As pessoas modernas veem nas hierarquias sociais, e tais instituições como castas e guildas, algo arbitrário e limitador, mas Evola insiste que os estamentos e vocações tradicionais permitiam uma seleção de talentos e potenciais e que eles permitiam que as pessoas, por meio do aprendizado e da iniciação, realizassem seu progresso pessoal em um contexto bem definido. O Evola também ressalta que, especialmente na sociedade medieval, certas instituições atravessam estamentos, de modo que um homem cujo ofício seja, digamos, sapateiro, poderia como membro de uma ou outra ordem laica, alcançar reconhecimento social por sua atividade para além daquela pela qual ele ganharia seu pão. Hans Sachs, no Meistersinger de Richard Wagner, é por ofício um sapateiro, mas seus pares o celebram como um artista-adepto do Stabreim e do Minnelied. A Igreja, também, atravessava estamentos e oferecia avenidas de mobilidade. Por implicação constante, Evola sugere que, na medida em que a felicidade nos concerna, as pessoas tem sido mais felizes em sociedades tradicionais do que são, apesar dos confortos materiais, na sociedade moderna. Evola é consciente, como o era Nietzsche, de que a dissolução das forças exacerba o ressentimento e que as pessoas modernas são mais ressentidas do que suas predecessoras.

Evola chega até mesmo a defender as atitudes de Aristóteles e do Velho Testamento em relação a escravidão, atitudes que ocasionam ressentimento no comentário moderno: "Deixemos de lado o fato de que os europeus reintroduziram e mantiveram a escravidão até o século XIX em suas colônias ultramarinas em formas odiosas dificilmente encontráveis no mundo antigo; o que deveria ser enfatizado é que se já houve alguma civilização de escravos em larga escala, aquela em que vivemos é ela". As pessoas modernas portam a insígnia de sua "dignidade" ciumentamente. Porém "nenhuma civilização tradicional jamais viu tamanhas massas de pessoas condenadas a realizar trabalhos automáticos, impessoais e vazios". É o caso ainda que, "no sistema escravocrata contemporâneo as contrapartes de figuras como senhores ou déspotas esclarecidos não podem ser encontrados", mas tão somente "as estruturas absurdas de uma sociedade mais ou menos coletivizada". Faz-se necessário dizer que isso não significa defender a escravidão? Mais exatamente é uma condenação do paroquialismo e santimoniosidade de liberais e democratas, e um ataque ao tédio espiritualmente destrutivo das funções burocráticas em que a sociedade liberal-democrática se baseia.

No mesmo parágrafo de onde eu tirei as linhas pretéritas, Evola menciona os campos de trabalho soviéticos, que atestam para ele o mal inerente na "sujeição física e moral do homem aos objetivos da coletivização".

Como qualquer admirador da cavalaria deve, Evola deplora o feminismo e o empoderamento feminino, ambos pertencendo, em sua perspectiva, à tendência do indivíduo puramente quantitativo, com seu egocentrismo infantilizado. "Um estilo de vida prático e superficial de um tipo masculino", Evola escreve, "perverteu a natureza da mulher e a lançou no mesmo abismo masculino de trabalho, lucro, atividade frenética e política". Segue daí que, "a mulher moderna em desejar estar por conta própria destruiu a si mesma", porque "a 'personalidade' pela qual ela tanto desejava está matando toda semelhança de personalidade feminina nela". Mas Evola não poupa ninguém: "Não devemos esquecer que o homem é o maior responsável pela decadência feminina... em uma sociedade governada por homens de verdade, a mulher jamais teria desejado ou mesmo seria capaz de tomar o caminho que ela segue hoje". Como Kopff escreve: "Evola rejeitou o Projeto Iluminista em absoluto, e tinha pouca utilidade para o Renascimento e para a Reforma. Para Evola aqueles realmente opostos ao regime de esquerda, a verdadeira Direita, não teriam embaraço em se descreverem como reacionários e contrarrevolucionários".

IV - A Parte Dois de Revolta Contra o Mundo Moderno traça o pedigree da atual crise niilista fornecendo uma "visão de pássaro da história". Naturalmente, Evola se recusa a seguir a historiografia padrão, desconsiderando sua pressuposição mais básica - nomeadamente que as sociedades humanas originais eram primitivas e que a civilização é um estágio tardio no desenvolvimento social da humanidade. Evola similarmente rejeita a idéia darwiniana relacionada de que entidades complexas evoluem a partir de entidades primitivas. Em ambas instâncias ele vê coisas da forma inversa, não por egocentrismo ranzinza, mas ao contrário como ele escreve, porque a própria Tradição, perante a qual ele se curva, vê as coisas de forma inversa. Ele toma a sério, por exemplo, as cinco fases da humanidade do poeta arcaico Hesíodo do poema didático Trabalhos e Dias; ele toma a sério o conto de Atlântida de Platão dos diálogos Timaeus e Crito, e ele admite como respeitáveis regimes ou sociedades que a variedade do mito e da literatura localizam em uma era antediluviana. No esquema hesiodico, os primeiros homens foram aqueles da Raça de Ouro, após o que vieram os da Raça de Prata, de Bronze, a Heróica e a de Ferro. Hesíodo famosamente jura que ele desejava não pertencer à degenerada Raça de Ferro, tão maligna e desprezível como era. No conto de Atlântida de Platão, os atlantes originais são semideuses, que vivem em um estado moralmente e tecnicamente perfeito; mas seus descendentes se tornam grosseiros, materialistas e degenerados.

Antes de se desconsiderar esse esquema como uma instância de credulidade irremediável, deve-se cuidadosamente notar duas coisas. A primeira é que diferentemente dos ideólogos que ele critica, que situam sua Justiça Social ou sua Raça Mestra no futuro indefinido, Evola situa o regime-modelo irreproduzível em um passado irrecuperável, do qual não pode justificar qualquer agenda modificadora da realidade; ela só pode servir como medida remota para pessoas conscienciosas que buscam padrões distintos do contemporâneo. O segundo é que Evola pensa por hábito em termos mitopoéticos, como o fizeram Platão e Giambattista Vico; e é por símbolos e metáforas que ele derrota a pseudo-cognição mecanística-literalística que ele deplora. Como Platão e Vico - e como P.D. Ouspenski, que também entretinha a idéia de ciclos de civilização e destruição, e que certamente não era um fantasista - Evola aconselharia as pessoas honestas a começarem sua contemplação da realização humana de uma posição de humildade ao invés de arrogância. Eu noto que essa postura, central para o ethos de Evola, o livra da acusação de gnosticismo. Apesar das muitas referências de Evola a conhecimento esotérico, ele nunca qualifica tal conhecimento como milagrosamente ou singularmente garantido a ele. Ele afirma que o retirou dos mitos, sagas e folclore pelo estudo diligente.

Pode-se também notar que nos últimos cinquenta anos a arqueologia aprofundou gradativamente as cronologias de associações humanas complexas e de realização material; e que no mesmo período a outrora desacreditada idéia de uma linguagem humana primordial a partir da qual todas as outras descenderiam reapareceu, muito respeitavelmente, nas hipóteses "nostratica" e "mundial". Por que, se poderia perguntar, desde que a teoria da gênese africana permaneça formalmente inquestionável, alguém deveria levantar objeção à teoria evoliana de uma etnogênese extremo-nórdica ou hiperbórea, formalmente falando? A teoria da Tradição Primordial Hiperbórea explica a difusão cultural tão adequadamente quanto a teoria dominante; cuja preferência é uma questão de um preconceito santificado. De fato, uma formação "boreal" primeira da alta cultura não torna de forma alguma impossível um aparecimento equatorial anterior do homo sapiens, considerado sob uma categoria puramente biológica. Como Evola aponta, muitos povos sulinos situam seus ancestrais culturais em uma pátria nórdica. É claro, o principal interesse na segunda parte de Revolta está no diagnóstico da corrupção moderna.

Qual é a história de Evola sobre essa corrupção? Em um primeiro colapso remoto em "a regressão das castas", como Evola chama o processo degenerativo de longo prazo, "a realeza do sangue substituiu a realeza do espírito", e essa alteração corresponde a uma insurgência da "Civilização da Mãe" sobre o "Patriciado" original. Muito depois - no período medieval tardio - "um segundo colapso ocorreu conforme as aristocracias começaram a cair e as monarquias a tremer em suas fundações", quando "através das revoluções e constituições elas se tornaram instituições inúteis sujeitas à 'vontade da nação'." Depois vem o colapso de uma consciência nacional já estreitada ao coletivismo indiferenciado paradoxal da sociedade burguesa de meros indivíduos, onde a igualdade é o shibboleth tirânico e a conformidade absoluta o modo. Depois, a partir do coletivismo incipiente da sociedade burguesa, vem "a revolta proletária contra o capitalismo", em que Evola discerne "uma redução do horizonte e valor ao plano da matéria, da máquina e do reino da quantidade". O fenômeno é um nadir, inteiramente "sub-humano". Assim, "nos líderes da revolução bolchevique é possível detectar uma coerência ideológica impiedosa".

Como seu artigo "Bolschevismus ed Americanismus" deve levar alguém a supor, Evola nunca poupa os EUA: "A América também, na maneira essencial pela qual ela vê a vida e o mundo, criou uma 'civilização' que representa a contradição exata da tradição européia antiga". Em palavras reminiscentes da dicção de Spengler, Evola descreve os EUA como "uma grandeza sem alma de natureza puramente tecnológica e coletiva, carecendo de qualquer fundamento de transcendência". Enquanto "o comunismo soviético professa oficialmente o ateísmo", Evola ressalta, e enquanto "a América não chega a tanto"; não obstante, "sem percebê-lo, e não raro acreditando no contrário, ela avança no mesmo caminho em que nada resta de significado religioso". Segundo Evola, "a grande maioria dos americanos poderia representar uma refutação em grande escala do princípio cartesiano...eles 'não pensam e existem'." Evola liga o anti-intelectualismo americano com a proliferação nos EUA do "idiotismo feminista", que viaja em paralelo com "a degradação materialista e prática do homem".

Em sua conclusão, a Revolta de Evola prevê uma nova "idade das trevas", para a qual seu termo preferido é Kali Yuga. A América assimilará o impulso cruzado do comunismo soviético e começará a tentar universalizar seus pseudo-valores destrutivos através da agressão imperialista; o Imperium será uma calamidade de vida curta levando a uma ruína global. Quando Evola fala assim em 1934, fica difícil desconsiderá-lo.

O que se deve fazer então com um autor previdente, cuja cultura e educação permanecem indubitáveis, que não obstante fornece sua análise social e política, por mais mordaz que seja, no contexto de uma história alternativa, cujos detalhes poderiam se assemelhar aos contornos de uma história de Lord Dunsany e Clark Ashton Smith? Eu estou fortemente tentado a responder minha própria pergunta dessa maneira: Que talvez devamos começar reavaliando Dunsany e Smith, especialmente Smith, cujos contos de resquícios civilizacionais decadentes - semi-arruinados, erotizados, sucumbindo a apetites momentâneos com abandono fatalista - falam com intuição poderosa sobre nossas circunstâncias atuais. Eu não quero dizer, porém, que Evola é apenas metaforicamente verdadeiro, como se sua obra, como a de Smith, fosse mera ficção. Eu quero dizer que Evola é verdadeiramente verdadeiro, na ordem de um dos "Mitos Verdadeiros" de Platão, não importa o quanto de sua verdade nos desconcerte. 

27/09/2014

Entrevista com Aleksandr Dugin no Encontro Nacional Evoliano - A Nova Rússia é a resistência contra a Nova Ordem Mundial

por Raphael Machado



Essa interessante entrevista foi realizada na sexta-feira do dia 12 de Setembro de 2014, durante um dos intervalos entre as palestras do Encontro Nacional Evoliano que se realizou em São Paulo. Até então não houve em português qualquer material que lidasse mais profundamente com todas as implicações ideológicas da crise ucraniana, com o papel dúplice e problemático da atuação do Kremlin e com as perspectivas e possibilidades futuras relacionadas a esse conflito. A distância e o controle total exercido pelas forças atlantistas sobre nossa mídia não ajudam. Pensamos ser este o diálogo mais claro e esclarecedor para brasileiros até agora sobre todas as questões relativas a Nova Rússia, um tema que tem gerado todo tipo de controvérsias, discussões, debates e rixas nos meios políticos e intelectuais, tanto do establishment como do meio dissidente. E acreditamos que não poderia ser diferente. Como o professor Aleksandr Dugin, que está absolutamente implicado e envolvido nessas questões, deixa claro a Nova Rússia é a linha divisória, o divisor de águas entre "nós" e "eles", entre inimigos da modernidade e lacaios, conscientes ou não, da modernidade. 

Agradecimentos aos camaradas D.Vinco, que fotografou a entrevista, J. Neto, que forneceu o gravador e A. Ortega, que formulou a última pergunta da entrevista, e principalmente ao professor Dugin que nos concedeu um pouco de seu tempo para responder a essas dúvidas. 

1 – Qual é o papel do Eurasianismo e do Movimento Eurasiano no processo de construção da Nova Rússia?

Teoricamente a idéia da separação de parte da Ucrânia já era afirmada nos anos 90, nos meus escritos chamados “Fundamentos da Geopolítica”, onde está a mesma idéia, que é: a Ucrânia deve ser dividida ou entrar no contexto eurasianista, que é pouco provável. 

A razão para isso é que há duas identidades dentro da Ucrânia, dois povos, duas sociedades, com opções totalmente divergentes. 

Uma parte das pessoas jovens da Ucrânia do leste era parte do Movimento Eurasianista desde antes, mas é interessante que algumas pessoas do Pravyi Sektor, entre os nacionalistas ucranianos, também estavam interessadas pela Quarta Teoria Política, por geopolítica, por Tradicionalismo, etc. 

Mas a idéia era: o que prevalece? A Geopolítica ou a Terceira Via, o Neonacionalismo? A questão da geopolítica era mais importante, porque do ponto de vista da geopolítica, a identidade oriental da Ucrânia deve se desenvolver somente no contexto eurasiático. 

E com isso teria sido possível preservar a Ucrânia íntegra, unida. Isso era possível no contexto eurasiático. Mas com o golpe de Estado, isso se tornou impossível, fundamentalmente porque os atlantistas apoiaram os ultranacionalistas, os pequeno-nacionalistas, os nacionalistas ressentidos em relação a Rússia, contra a outra parte da Ucrânia. Depois do golpe de Estado não era mais possível preservar a Ucrânia. 

Os eurasianistas do leste eram a vanguarda do movimento da Nova Rússia. É interessante que os tradicionalistas que estavam antes influenciados por minhas idéias, pelo eurasianismo, também eram a vanguarda do Pravyi Sektor. Duas partes que eram mais ou menos influenciados pela Nova Direita, pelo Tradicionalismo e também pelo Eurasianismo se dividiram. 

Mas os liberais, os pró-ocidentais, estavam em Kiev, os oligarcas, os judeus, os liberais, os atlantistas, e assim os tradicionalistas estavam sendo instrumentalizadas e usadas pelos liberais e não representam o movimento do Maidan. 

Já na Nova Rússia ocorria o oposto, as pessoas que representavam o movimento eurasianista são os líderes da Nova Rússia, do Donbass, desde o começo, desde a Criméia. Os eurasianistas do leste estavam no centro dos acontecimentos, com nosso apoio também, e muitos eurasianistas lutam na Nova Rússia. 

Por exemplo, Igor Strelkov é meu amigo, e é muito significativo que hoje ele é a pessoa depois de Putin mais importante politicamente na Rússia. Ele é o segundo em popularidade, Putin com 80%, Strelkov com 60%. Muito mais popular que Medvedev, é um fenômeno total. E ele é meu amigo, comparte totalmente de todas as minhas idéias. Muitos outros, muitos camaradas que foram mortos, que lutam, que participam politicamente, militarmente, ideologicamente, estão implicados na Nova Rússia. 

A Nova Rússia é minha guerra, é a nossa guerra, porque ela é não apenas uma luta por interesses nacionais russos, mas pelas idéias, pelos ideais, pelos princípios. É muito importante que uma grande quantidade dos russos considera essa guerra da Nova Rússia como a guerra patriótica pela Grande Rússia. E não como guerra étnica, porque entre as pessoas da Nova Rússia muitos são ucranianos. Não é uma guerra entre ucranianos e russos, mas entre o pequeno-nacionalismo de sangue e o grande-nacionalismo imperial do solo.  

2 – Qual é a importância potencial da Nova Rússia para o projeto contra-hegemônico multipolar e para as forças antiliberais ao redor do mundo?

É importante porque a identidade ideológica e política da Rússia atual depende diretamente da Nova Rússia. E a luta interior na Rússia hoje se dá entre a sexta-coluna e o campo patriótico ao redor de Putin. E é muito importante porque essa guerra é particularmente mortal. Se a sexta-coluna vencer isso será uma catástrofe não apenas para a Nova Rússia, porque Moscou não apenas estará abandonando a Nova Rússia, o Donbass, mas também a Criméia e a própria Rússia.

Porém se os patriotas vencerem, isso significaria que a Rússia voltaria à História. A sexta-coluna não permite que a Rússia se desenvolva no sentido necessário para tornar o mundo multipolar mais concreto. Nesse sentido, a luta para a Nova Rússia é a luta pela Rússia, mas a luta pela Rússia é a luta pelo mundo multipolar, e essa lógica demonstra que na verdade este é o ponto do mundo mais importante hoje. Nenhum outro lugar, nenhuma outra guerra é tão importante para o futuro do mundo quanto a luta pela Nova Rússia. 

3 - Quais forças político-ideológicas, além dos eurasianos, também estão representados na luta pela Nova Rússia?

Há muitas forças que também estão lá. Há os monarquistas; Strelkov, por exemplo, é um monarquista. O povo da Unidade Nacional Russa de Barkashov, são imperiais, e estão bastante envolvidos. Muitos movimentos nacional-ortodoxos, nacional-imperiais estão lá, alguns comunistas stalinistas também. O chefe de gabinete de Strelkov, que é monarquista, é stalinista, por exemplo. É muito importante que o chefe de gabinete do monarquista Strelkov seja um comunista. Isso é importante como exemplificação dessa síntese. Há também nacional-bolcheviques, porque Limonov mudou de posição outra vez. Voltou às posições nacional-bolcheviques originais. Não é popular, não é importante, mas é simbólico, há muita gente de esquerda e todos os tipos de nacionalistas também. 

Somente uma pequena parte dos nacionalistas estão com o Pravyi Sektor, contra Putin e são pró-liberais. Isso era muito importante como prova definitiva para separar quem é quem. Com todas as divergências entre as correntes ideológicas nacionais, a maioria total está com a Nova Rússia. 

4 – Quais são as relações entre o Kremlin e a liderança da Nova Rússia?

É difícil responder porque o Kremlin está representado no caso da Nova Rússia em suma por três instâncias: Putin, que é pragmático, que está no equilíbrio entre a facção patriótica e a sexta-coluna. No caso de Criméia ele foi totalmente a nosso favor. No caso da Nova Rússia muito menos. Seu apoio não é como deveria ser. É um apoio muito menor. Mas, finalmente, Putin está entre dois pólos. 

O pólo da sexta-coluna. A sexta-coluna se diferencia da quinta-coluna, porque a quinta-coluna na Rússia está totalmente contra Putin, ela é ultraliberal. A sexta-coluna está a favor de Putin, mas do Putin liberal. Essa diferença é muito importante para compreender as análises do Donbass.

A sexta-coluna apoiava ela mesma a retomada da Criméia, mas se voltou contra a Nova Rússia. Também é importante que a sexta-coluna era favorável à Criméia apenas pelo fato de Putin estar completamente decidido e ter sido rápido. Mas no caso da Nova Rússia a sexta-coluna é completamente contrária. Essa divergência foi imediatamente percebida no início do movimento pela Nova Rússia. As mesmas pessoas que eram favoráveis à Criméia se provaram contra a Nova Rússia. 

Os patriotas eram totalmente pró-Criméia e pró-Nova Rússia. Essa era uma separação muito peculiar ao redor de Putin. Porque a metade era favorável à Nova Rússia e a outra metade, muito importante e com representantes muito elevados no Kremlin, era contra. Passo a passo foi formada uma frente comum composta pelas pessoas que lutam pela Nova Rússia por Strelkov, intelectuais como nós eurasianos, todas as forças patrióticas e também os funcionários do Kremlin, de Putin, que são favoráveis à Nova Rússia. Isso não existia antes. Foi algo totalmente novo. 

A luta continua ao redor desse problema, porque a Nova Rússia hoje é a linha da demarcação entre dois grupos do establishment político russo. A maioria do povo está ao nosso lado. Mas a maioria da elite russa está ao lado da sexta-coluna. Putin está entre a maioria da elite, que é liberal, e a minoria da elite, que é patriótica. E ambos estavam anteriormente a favor da Criméia. Essa situação também foi a razão da minha expulsão da Universidade de Moscou, da revogação de Strelkov e muitos outros fenômenos pouco percebidos em um espaço de tempo extremamente curto se deram por essa luta interior na Rússia, porque Putin está por cima de tudo isso. A sexta-coluna é maioria na elite, em relação ao grupo de patriotas da elite, a elite que é a favor da Nova Rússia. A luta não terminou, ela continua, hoje estamos nesse contexto. É possível seguir essa luta através acontecimentos da Nova Rússia, como através de uma tela, ela é o aspecto externo, o aspecto evidente dessa luta política interna na Rússia. 

5 – Qual é o papel do sionismo internacional em Kiev e de que forma é possível traçar uma comparação entre as lutas da Nova Rússia e do povo palestino?

O caso é que há uma aliança paradoxal entre os chefes judeus sionistas, como o presidente da Ucrânia, Petr Poroshenko, que é um oligarca judeu, ou Kolomoysky, que é o judeu mais ativo na luta contra a Nova Rússia, além de muitos outros que são dirigentes da Ucrânia com as forças nazistas do Pravyi Sektor e outros ultranacionalistas ucranianos. 

Isso é paradoxal porque vemos ali uma aliança entre os liberais, os neonazistas e os judeus sionistas. É muito estranho porque normalmente essas três forças seriam totalmente inimigas e opostas. No caso da Ucrânia vemos uma união e integração total dessas três forças: os neonazistas racistas pró-Stepan Bandera, os judeus sionistas e os liberais ocidentalistas, e tudo isso por ódio à Rússia, ódio aos russos, ódio a Putin, ódio ao Império Russo, ódio ao mundo multipolar. Isso é o que é comum entre forças tão diferentes. 

É interessante que o fato de que Kolomoysky e os outros dirigentes, Poroshenko, Yatsenyuk, Turchynov, eram judeus era acentuado nos maiores meios de comunicação russos que também são dirigidos por judeus, é muito curioso, eles próprios acentuavam que os judeus estavam no governo antirrusso e neonazista da Ucrânia. 

Mas é preciso dizer que Putin não é necessariamente anti-sionista, não é anti-Israel. A linha direita da ideologia russa não tira consequências desse fato, mas as pessoas da massa tiram todas as consequências possíveis disso. É importante notar que a maioria dos judeus liberais também estão a favor da Ucrânia ao redor do mundo e na Rússia. A quinta-coluna é composta praticamente 100% por judeus. Já a sexta-coluna, a oposição indireta, também é composta por judeus, mas também por muitos oligarcas russos que estão aliados aos oligarcas liberais judeus. 

Mas a situação entre Israel e Ucrânia é inversa, porque os palestinos representam a minoria que quer fazer seu próprio país e na Ucrânia não. A situação é que os separatistas são russos que representam a Grande Rússia, os palestinos representam uma minoria, há essa diferença na situação. 

Não sei, particularmente, a posição oficial do sionismo frente a Nova Rússia. Teoricamente eles devem ser contra, mas é interessante que alguns representantes de Israel falaram a favor da Nova Rússia. É interessante, por exemplo, que o ex-chefe do “Nativ”, que é um serviço secreto israelense, Yaakov Kedmi se pronunciou a favor da Nova Rússia. Inclusive supostamente alguns grupos voluntários de Israel teriam sido enviados para combater o Pravyi Sektor. Isso não possui confirmação. Mas na internet há uma propaganda de que Israel está fora do conflito, e alguns judeus sionistas estariam a favor da Nova Rússia, como Avigdor Eskin. Mas é importante que não é unívoca essa atitude dos sionistas a favor dos sionistas ucranianos. 

Pode ser que não seja possível, estando no contexto da verdade, afirmar que essa é a guerra dos sionistas contra a Nova Rússia, isso não é exato. Mas a presença dos sionistas no governo ucraniano é um fato, não é propaganda.

6 – Atualmente como você acredita que Putin pode se defender da sexta-coluna e qual é a probabilidade de um Maidan ocorrer na Praça Vermelha?

O objetivo da sexta-coluna é acabar com Putin, porque Putin sendo pragmático e sendo equilibrado, já que não é um patriota como Strelkov e outros, mesmo assim é bastante patriota para defender os interesses nacionais russos. Ele é um realista político, não necessariamente implicado no eurasianismo, mas ele é um realista. Porém ser um realista hoje é incompatível com a sexta-coluna, não por razões ideológicas, mas por razões pragmáticas. 

Assim, a sexta-coluna deve matar Putin, deve destruí-lo de uma maneira ou de outra. Ou matando violentamente, ou organizando um Maidan em Moscou. A idéia era, acredito que este era o plano dos EUA, convidar os nacionalistas russos à Nova Rússia e depois dar a Nova Rússia à Ucrânia. Isso criaria imediatamente um grande movimento da posição patriótica contra Putin. 

Segundo, Igor Strelkov deveria ser o centro dessa manipulação. Mas muitos outros deveriam também estar no lado da oposição a Putin, já que a oposição liberal é totalmente impopular. Na Rússia muitos poucos apoiam os liberais e com eles não é possível fazer uma revolução. Para fazer uma revolução, como no caso da Ucrânia e seu Maidan, é necessário ter a coluna patriótica na oposição, como o Pravyi Sektor. Sem isso não há a energia necessária, já que os liberais são covardes e impopulares, além de serem minoritários étnicos. É impossível para eles fazerem uma revolução. Mas para acabar com Putin é preciso mobilizar massas. Os patriotas decepcionados, desiludidos, traídos, teoricamente deveriam ser o núcleo ativo da luta contra Putin. Sem mobilização do setor patriótico não é possível derrubar Putin. 

Mas para fazer isso, é preciso trair a Nova Rússia. Traindo a Nova Rússia é possível unir as forças necessárias para lutar contra Putin. Mas essa é a idéia da sexta-coluna, a situação não está acabada ainda. Pode ser que isso ocorra mesmo, mas com Strelkov hoje a situação é muito mais clara, porque hoje ele está na Rússia, hoje começa a criar um movimento patriótico a favor de Putin e da Nova Rússia.

Anteontem, Strelkov proclamou a criação de um movimento para lutar acima de tudo contra a sexta-coluna, dentro da Rússia, porque tudo hoje se decide na Rússia. É muito importante que o personagem mais popular depois de Putin organize um movimento patriótico a favor de Putin e contra o Maidan na Rússia. Essa é a destruição dos planos dos EUA. 

É difícil matar tecnicamente Putin, mas matar Strelkov é mais fácil. Essa é a explicação para ele não retornar à Nova Rússia. Na situação da guerra, seria fácil ele ser assassinado por agentes da sexta-coluna. Um eurasiano, Aleksandr Proselkov, foi assassinado com um tiro nas costas enquanto dirigia um carro em um comboio humanitário, por exemplo. 

Assim, o objetivo da sexta-coluna pode ser resumido como forçar Putin a abandonar a Nova Rússia para gerar um ressentimento contra o próprio Putin e usar esse ressentimento para derrubá-lo, e então abandonar a Criméia e tudo mais. Porém, é impossível governar a Rússia com liberais, assim o que acontecerá inevitavelmente é a desintegração da Rússia e uma guerra civil. Esse não é um projeto positivo, de construção, dos liberais futuramente no poder, é absolutamente um projeto para a destruição da Rússia e nada mais.

7 – Após a guerra com a vitória da Nova Rússia existe a possibilidade de que ela se torne o primeiro foco da construção prática da Quarta Teoria Política no mundo?

É uma boa questão. Isso é o que esperamos. Porque vejamos, o primeiro passo dos dirigentes da República do Donbass foi a aniquilação da grande propriedade privada, a nacionalização dos bens dos oligarcas, e há muitas outras idéias interessantes. A ortodoxia foi proposta como religião oficial, os matrimônios homossexuais seriam proibidos e não apenas isso como se propôs que as relações homossexuais fossem criminalizadas. Muitas idéias antiliberais, antiglobalistas podem se realizar na Nova Rússia. 

Por exemplo, também, a bandeira imperial, branca, negra e amarela, hoje é uma das bandeiras oficiais na Nova Rússia. Muitas idéias da Quarta Teoria Política podem ser esperadas, mas isso também pode ser um tipo de “gatilho” para a própria Rússia. Porque a Rússia atualmente, que ideologia possui? A Rússia rechaça o liberalismo, isso é totalmente evidente, ela não é mais comunista, ela não é da terceira via ou totalmente nacionalista. Esse vazio deve ser preenchido por uma ideologia. E apenas a Quarta Teoria Política pode ser essa ideologia antiliberal, nem comunista e nem fascista. Isso é logicamente inevitável. 

Mas isso é evidente somente para nós, não para os outros. Na lógica de Hegel se diz que há um truque da razão do mundo que age inconscientemente através das pessoas. A Quarta Teoria Política vai ser realizada independentemente das pessoas. As pessoas podem não saber ou não querer, mas ela é logicamente inevitável para preencher o vazio ideológico. Se a Rússia tiver que ter uma ideologia, essa ideologia inevitavelmente será a da Quarta Teoria Política. Pode ser que após certo tempo ainda não tenhamos nenhuma ideologia, como hoje, é possível, mas se teremos uma ideologia essa será a Quarta Teoria Política. 

Na Nova Rússia tudo isso se decide pela guerra e hoje os processos políticos na Nova Rússia estão mais avançados do que na Rússia. A Nova Rússia é a vanguarda. A vitória da Nova Rússia significará a vitória da Quarta Teoria Política, será a vitória da Grande Rússia e do mundo multipolar. Podemos ver vínculos entre os acontecimentos na Nova Rússia, os acontecimentos políticos e ideológicos na Rússia, os acontecimentos na Eurásia, que é o centro do mundo multipolar, e os acontecimentos no BRICS. 

Também essa idéia de que a luta da Nova Rússia é a luta de cada pessoa no mundo, a luta religiosa, a luta para escolher o bem ou o mal, essa luta escatológica propriamente dita.   A vontade de se unir às fileiras do exército da Nova Rússia é a vontade de servir a própria pátria, não é uma luta pelos interesses dos russos. A Nova Rússia é muito mais que a Rússia, ela é o mundo multipolar, é a resistência contra a Nova Ordem Mundial, a resistência contra a unipolaridade, a resistência contra a hegemonia americana, que vai não apenas contra ucranianos, russos, sírios, iraquianos e outros, mas também contra os latino-americanos, muçulmanos, asiáticos, africanos, etc. É interessante, por exemplo, que há até um nacional-bolchevique negro que está lá lutando pela Nova Rússia. 

8 - Algumas pessoas tendem a definir o senhor, o eurasianismo e a Quarta Teoria Política a partir das suas atividades dos anos 90, acusando o senhor de ecletismo, de tentar fundir bolchevismo e nacional-socialismo, o que o senhor tem a dizer sobre isso? 

O meu itinerário ideológico é fácil de compreender. Eu era anticomunista, tradicionalista, no sentido de Guénon e Evola. Era anticomunista e antiliberal. Pode-se dizer que eu era vizinho da terceira teoria política nos anos 80, no período do comunismo. 

Depois do fim do comunismo, quando o comunismo não estava mais presente concretamente na Rússia, havia uma equação a ser solucionada, aceitar o liberalismo, o que era impossível por eu ser antiliberal e anticomunista, continuar a lutar contra o comunismo, que naquele tempo não existia mais, seria uma luta contra um morto, uma luta absurda ou então lutar contra o liberalismo como forma da modernidade absoluta. 

Com que forças lutar contra o liberalismo? Nos anos 90 eu pensava que era preciso lutar contra o liberalismo com todas as forças antiliberais, todas sem exceção. Com a terceira teoria política, com a segunda teoria política, essa era a idéia do nacional-comunismo, unir todas as forças antiliberais para lutar efetivamente contra o liberalismo.

Na fase seguinte foi se tornando claro aos poucos que essa estratégia não é tão correta porque o comunismo e o nacional-socialismo eram ideologias da modernidade, e sendo ideologias da modernidade tem dentro de si mesmas raízes antitradicionais e anti-sagradas, o comunismo de forma mais evidente, o fascismo com o chauvinismo, o eurocentrismo e o universalismo branco anglo-saxão e colonialista. 

Para além da síntese de duas ideologias antiliberais descobri a Quarta Teoria Política que deve estar totalmente fora das três teorias políticas. Nem liberalismo evidentemente, nem comunismo, nem fascismo e nem comunismo e fascismo juntos. Porque entre comunismo e fascismo há uma zona antiliberal de contato muito interessante onde está o fascismo de esquerda, o nacional-bolchevismo de Niekisch, o socialismo identitário, o nacional-bolchevismo comunista soviético de Stálin, etc.

Essa minha passagem ideológica foi totalmente séria, não foi uma forma de dar outra vida ao nacional-bolchevismo, que em si mesmo não era nem bolchevismo nem fascismo, era algo novo, era uma síntese. Porque já nos anos 90 eu era contra o racismo nacionalista, contra o chauvinismo fascista e contra o multiculturalismo comunista, eu era um Tradicionalista como hoje e como antes. Um Tradicionalista que tentou encontrar os meios adequados para lutar contra o mundo do Anticristo, o mundo da Kali Yuga, o mundo da decadência política total que é a modernidade. 

A Quarta Teoria Política é o resultado de um desenvolvimento pessoal sincero. Cada passo que tomava explicava de forma aberta. Eu era contra o comunismo e o liberalismo e pela revolução conservadora nos anos 80, a favor do nacional-bolchevismo nos anos 90 e tudo isso explicitamente. E a partir do novo milênio sou eurasiano e adepto da Quarta Teoria Política, me distanciando de todas as formas da modernidade, comunismo e fascismo incluídos. 

E isso não é possível de ser aceito pelos liberais, porque os liberais pensam que todos que não são liberais são ou fascistas ou comunistas. Não podem imaginar a possibilidade de alguém ser antiliberal, nem fascista e nem comunista. Para eles, como para Olavo de Carvalho, se alguém não é liberal, ou é fascista ou comunista disfarçado. Os liberais são totalitários, chamo isso de terceiro totalitarismo. Esse modo totalitário se manifesta nessa atitude frente a Quarta Teoria Política. Os liberais dizem “não pode ser Quarta Teoria Política, só pode ser terceira ou segunda, stalinismo ou hitlerismo disfarçado”. 

Mas digo abertamente que sou antiliberal, anticomunista e antifascista ao mesmo tempo. Não é possível dizer que um homem é fascista se ele é antifascista, uma pessoa não pode ser comunista se ela é anticomunista. Explico porque sou antiliberal, porque sou anticomunista e porque sou antifascista abertamente nos muitos escritos, com muitas páginas, milhares de páginas que tenho escritas, qual é a lógica disso e que valores defendo. 

Somente a ausência de sinceridade da parte dos liberais ou ausência de conhecimento correto, ou o pagamento pelos EUA, pela CIA, os pode levar a lançar calúnias contra mim. 

Os comunistas conscientes devem ser antiliberais, hoje os fascistas também. Eles devem escolher uma posição muito importante. O que é mais importante para o comunismo na pós-modernidade? Estar contra o liberalismo, que não permite a possibilidade de existência de um comunismo antiliberal, ou estar contra o fascismo, que não representa ameaça, que é perseguido, marginalizado. É muito fácil lutar contra o fascismo. Essa é a aliança entre comunistas e liberais, representada no trotskismo atual e no neoconservadorismo americano, que são trotskistas tornados capitalistas ultraliberais. Para os comunistas a Quarta Teoria Política é uma forma de fascismo pelo fato de não ser nem comunista, nem liberal, e isso já é fascismo. Para os comunistas sinceros o mais importante na Quarta Teoria Política deveria ser a luta contra o liberalismo. Ela deve ser logicamente alguma coisa vizinha, no mínimo uma companheira de percurso para o comunismo. Porque o mais importante para o comunismo deve ser a luta contra o capitalismo liberal. E a Quarta Teoria Política é completamente antiliberal. 

O comunista sincero deve escolher entre Quarta Teoria Política e liberalismo. Ele pode não estar de acordo com ela, mas lutar contra a Quarta Teoria Política e não lutar contra o liberalismo não é nada além de liberal-comunismo, é ser um liberal de esquerda, é traição do comunismo antiliberal, que é não ver nem no fascismo nem na QTP este elemento antiliberal. 

Os fascistas também podem escolher, devem escolher, estar contra os comunistas com os liberais, com os comunistas e contra os liberais, que é o nacional-bolchevismo, ou superar essas posições, compreender a análise da Quarta Teoria Política e fazer a transição entre terceira teoria política e Quarta Teoria Política. Se pode ser um fascista consequente lutando contra o liberalismo com os comunistas sinceros ou com a Quarta Teoria Política que é teoricamente muito mais coerente. 

Para finalizar é muito importante que a mesma lógica descobri nos textos de Martin Heidegger. Ele era um representante da terceira teoria política que criticava o liberalismo, era um nacional-socialista antiliberal, que criticava o conceito de sujeito individual como antifilosófico. O sujeito não pode ser individual, o liberalismo parte do ponto de que o sujeito é individual, o que é um absurdo para Heidegger. A crítica do sujeito moderno é muito importante para a Quarta Teoria Política. Depois ele criticava o comunismo como forma de Machenschaft, palavra alemã que quer dizer “mecanicismo”, característica do comunismo, que acaba na metafísica alienada do Ocidente. 

A crítica de Heidegger é muito importante e também mais interessante é a crítica interior de Heidegger ao nacional-socialismo, nos textos dos anos de 30 e 40, por razões totalmente idênticas às da Quarta Teoria Política. Penso que Martin Heidegger politicamente pode ser concebido como o primeiro representante, como a medida da ortodoxia da Quarta Teoria Política. Acho que Heidegger contém de forma implícita todos os princípios da Quarta Teoria Política e pode ser considerado como pai fundador da Quarta Teoria Política.        

17/09/2014

Aleksandr Dugin - Rumo à Laocracia

por Aleksandr Dugin

Tradução por Conde de Olivares



Sob o capitalismo, os capitalistas governam. Sob o socialismo, são os representantes da classe trabalhadora, o proletariado, que governam. Sob o nazismo e o fascismo, governa a elite nacional ou racial. Sob a Quarta Teoria Política, quem deve governar é o Povo (“Narod”, em Russo, semelhante ao “Volk” alemão: não a mesma coisa que “população”).

A Rússia moderna possui capitalismo. Portanto, ela é governada pelo capitalismo e, portanto, não pelo Narod. Para construir a Rússia na qual governará o “Narod”, é necessário concretizar uma revolução anticapitalista (ou, ao menos, anti-oligárquica). Magnatas financeiros deveriam ser excluídos do poder político. E isso é o central. Todos devem escolher – poder OU dinheiro. Escolha o dinheiro - esqueça o poder. Escolha o poder – esqueça o dinheiro.

A revolução deve se concretizar em três estágios:

1. Ultimato a todos os grandes oligarcas (uma centena tirada de uma lista da Forbes e mais outra centena que se esconde, mas que todos sabemos quem são) para que jurem lealdade aos ativos russos (todos ativos estrangeiros e nacionais estratégicos serão agora controlados por corpos especiais).

2. Nacionalização de todas as propriedades privadas de importância estratégica.

3. Transmutação dos representantes patrióticos do grande capital para a categoria de funcionários com a transferência voluntária da sua propriedade para o Estado. Eliminação dos direitos civis (incluindo aqui o fim do direito de voto, participação em campanhas eleitorais, etc.) para aqueles que preferirem preservar o capital em escala não estratégica, mas significante.

O Estado deveria se tornar o instrumento do Povo. Esse sistema deveria se chamar, dessa forma, Laocracia, literalmente, “poder do Povo (“Laos” é “povo” em grego).

Na sangrenta batalha pela Ucrânia, nós vemos a verdadeira face do capital – o grande negócio ucraniano (oligarcas como Poroshenko, Kolomoisky, Akhemetov, etc.) lidera o genocídio contra o Povo; oligarcas russos traem o povo ao se engajarem em um acordo criminoso com seus companheiros de classe ucranianos. E tudo isso seguindo os interesses da oligarquia global – o sistema capitalista mundial, centrado nos Estados Unidos.

Isso agora expõe toda a incompatibilidade da Russia e do capitalismo. É ou o capitalismo ou a Rússia.

Isso é perfeitamente compreendido pelos líderes da Nova Rússia. Eles, por estarem à vanguarda de todo o povo russo, começaram de fato essa Revolução do Povo Russo. Esse é o porquê de serem eles quem tão furiosamente atacam tanto os devotos mercenários da Junta nas fileiras de porcos fascistas ucranianos quanto os elementos capitalistas liberais nas quintas e sextas colunas da Rússia. E, mais importante, eles se tornaram inimigos existenciais do governo mundial e dos EUA. Strelkov, Gubarev, Purgin, Pushilin, Mozgovoy – todos eles desafiaram o capital global. E eles o fizeram em benefício do Povo. Nesse caso, em benefício do povo russo. Mas se os apoiadores do povo ucraniano fossem coerentes, eles seriam aliados dessa revolução, e não meros capatazes do capital global – como eles o são agora. Voltando-se ao lado da Nova Rússia, os ucranianos se voltam não tanto para a Rússia, e nem mesmo para o lado russo, mas ao lado do Povo, o Povo como letra maiúscula, que luta uma batalha mortal contra o mundo do capital, ao lado, enfim, da Laocracia.

Dessa forma, a campanha que está para vir contra Kiev não será apenas uma vingança ou uma campanha de liberação das antigas terras russas, ela será uma campanha em favor da Laocracia, do poder do Povo, para um Estado do Povo.

Eu não acho que a oligarquia russa apoiará isso, ela não pode deixar de entender que seus dias estão contados. Esse é o motivo pelo qual ela grita tão histericamente “não mandem tropas”, já que a vitória da Nova Rússia significará inevitavelmente a ressurreição da própria Rússia, o despertar do Povo. Essa é a razão para as tentativas desesperadas de trair a Nova Rússia - essa é agonia da oligarquia russa e seus capatazes públicos. Sua tarefa é destruir os heróis da Revolução da Nova Rússia – que é não apenas popular, mas também social – e destruí-la enquanto ainda é um botão de flor. 

16/09/2014

Rafael Aires Ferreira - Oliveira Vianna e sua Relevância para as Linhas Gerais de uma Sociologia Dissidente no Brasil

por Rafael Aires Ferreira 



(Apresentado no Encontro Nacional Evoliano em 11 de Setembro de 2014)

Introdução

Uma sociologia contra a sociologia

A Sociologia surge, como diz Agnes Heller, como um mecanismo de desfetichização da modernidade, mas, ao mesmo tempo, imbuída da necessidade constante de reificação de seu objeto e admitindo o paradigma moderno como sub specie aeternitatis, que além de inexorável e irrevogável teria açambarcado a totalidade das relações sociais através da substituição da estratificação pela divisão funcional orgânica. Ainda segundo Heller, a pré modernidade não demandaria uma ciência social, nem mesmo poderia cogitá-la, por possuir uma outra estrutura de certificação ontológica.

Um dos grandes problemas em lidar com esta concepção de Ciência Social reside no fato da modernidade, por vezes impor-se muito mais como discurso que como fato social, e na dificuldade em reconhecer a profunda cisão que divide o universo social em enclaves modernos e pré modernos que se expressam em relações de tensão e acomodação cuja clivagem poucas vezes se mostra relevante aos estudiosos desta disciplina. 

É justamente no bojo desta clivagem que, no início do século XX, Oliveira Vianna vai estruturar seu pensamento na dicotomia entre o Brasil real, do direito costumeiro das gentes, de onde emanariam as forças vitais da nacionalidade; e o Brasil juridicamente normatizado por um direito intelectual, alheio às formas irracionais e arcaicas daquele primeiro Brasil.

A essência da tese de O. Vianna, sobre nosso devir civilizatório, poderia ser descrita, muito resumidamente, como a que afirma que a grande componente social da civilização Brasileira em forja, exceto por recortes específicos, não abraçou o projeto de modernidade do Liberalismo e acalenta ainda as estruturas epistemológicas e culturais pré modernas que, poderíamos dizer, a aproximam mais do “Oikos” grego que do cosmopolitismo global contemporâneo. Lendo-se aqui, esse Oikos, como a grande “fazenda” doméstica, autoritariamente dirigida, por um príncipe ou senhor territorial, patrício, cujo motivo não reside na aquisição capitalista de dinheiro, mas na cobertura natural e organizada das necessidades de tal senhor; tal como diz Weber.

Esta cisão assinalada por Vianna assenta-se sobre a polarização entre Estado e Sociedade, enquanto estruturas que apresentam naturezas e interesses antagônicos. Aliás, a natureza deste direito que emana do caráter sociológico, nacional das gentes e de sua relação com o aparato legal “científico” e profissional que se encarrega de asfixiar a vitalidade do direito natural “Folkish” destas gentes foi, ao longo da vida de Vianna, mote fundamental de uma carreira que conheceu pouca distinção entre suas duas vocações, acadêmica e pública. Para Vianna, a forja de uma civilização nacional Brasileira passa pela correta adequação desta relação Estado/Sociedade, através da racionalização das instituições políticas de uma forma não apartada entre a Lei Escrita e a Consuetudinária, mas em sua conciliação orgânica. À maneira de Mannheim, que em Ideologia e Utopia dirige sua crítica ao aparato burocrático racionalizador e unilateral, dizendo do “Funcionário” que: “ele não compreende que toda ordem racionalizada é somente uma das muitas formas em que as forças irracionais, socialmente concorrentes, são reconciliadas”; Vianna acrescentaria, dando como indiscutíveis as “preferências tenazes” fixadas na origem da formação de qualquer sociedade, que é preciso contar com esses “fatos de civilização” caso não queiramos ver irreconhecivelmente deformadas as instituições racionalizadoras que se lhe queiram impor.

Ao passarmos em revista a conjuntura desta relação entre estado e sociedade no que tange à formação das instituições políticas no Brasil, percebemos que num contexto onde a “Liberdade” veio antes da Organização, estas instituições têm sido desde sempre aparelhadas, e após o fim do Império, o Brasil sai de um Feudalismo prático para uma República teórica.

Organização x Liberdade

Eis um binômio fundamental na análise de Vianna sobre o subdesenvolvimento das instituições políticas no Brasil. Como bem coloca Paulo Edmur de Souza Queiroz, em “Sociologia Política de Oliveira Vianna”, “Para Oliveira Vianna o pensamento político que Mannheim define como o intelectualismo burguês liberal-democrático, a partir do século XIX, não fez mais, no Brasil, do que demonstrar a tese de que na aplicação intelectual, pura, de um pensamento político a uma realidade sociológica, esse pensamento é inevitavelmente deformado por essa realidade.” (1975, p. 36) Vianna percebia no Liberalismo um novo modelo político-ideológico importado pela intelligentsia pré-republicana que aprofundaria a dissociação entre Estado e Sociedade, e do encontro entre as estruturas semifeudais estabelecidas, com ideologia e uma norma jurídica burguesas consuma-se um panorama onde o aparelho estatal, redesenhado para o livre empreendimento individual torna-se a presa perfeita de um conjunto de facções autocráticas representadas pela junção das velhas oligarquias que sobrevivem, adaptando-se às novas instituições representativas, com os novos especuladores financistas.

Clãs eleitorais formavam partidos que se organizavam ao sabor de interesses pessoais, preterindo a ideia da unidade e da centralização como meios de organização nacionais. Com a República, se aprofundaria o trabalho de desarticulação e fragmentação desta unidade às escusas de um federalismo, como diria Vianna, “mal compreendido e mal praticado, sob o ilusório pretexto de realizarem, assim, a liberdade.”

A polarização entre organização e liberdade, cuja forja civilizacional Brasileira tem sido desde sempre refém, pode ser encarada por outro binômio, o da afirmação do indivíduo, contra a afirmação do grupo. A estruturação Liberal do Estado Brasileiro, além de ter cavado um abismo entre o Brasil das gentes e o Brasil legal, afastando o homem-massa das instituições políticas; aprofundou também seu insolidarismo e indiferença às coletividades. Dos núcleos sociais familiares e profissionais, até as coletividades culturais e de seu senso de nacionalidade, a afirmação do indivíduo tem preponderado sobre a afirmação do grupo.

Vianna nos fala como o espírito de comunidade tem sido mutilado desde a mais remota ocupação de nosso território, onde a dispersão e o isolamento darão lugar a um tipo humano que não vela ou se interessa pelo bem comum, senão pelos seus próprios bens particulares e que não está disposto à cousa pública.

Resta-nos assim questionar, como realizar a construção desta mentalidade solidarista, como desenvolver este espírito comunitário? 

Para Vianna, além das forças armadas e do escotismo juvenil, o grande foco metodológico desta transformação caberia às organizações Sindicais e Corporativas.

A Consciência Corporativa

Tendo patente que a Democracia Liberal é incompatível com o desenvolvimento nacional, por evasão direta de focos prioritários, que além dos já citados, incluem ainda soberania, infra estrutura, autonomia energética e industrial, ordem social e controle da “stasis”; Oliveira Vianna elabora ao longo de suas obras, uma complexa pesquisa do maquinário teórico Corporativista, entendendo as Corporações em um contexto onde seriam o único fundamento possível do poder público.

Como Durkheim, que via o Estado como órgão especial destinado a gerar representações de valor coletivo, para Vianna, num devir civilizatório como o Brasileiro, fundamentalmente isolacionista, insolidarista e anticomunitário, como descreve fartamente em suas obras, principalmente em “Instituições Políticas Brasileiras”; o aparelho Estatal deveria encarregar-se da politização da Sociedade através das Corporações, organizando o corpo social a partir da noção de grupo ao invés da noção de indivíduo, ensejando assim a ascensão do grupo como sujeito de direitos e faculdade de ação daí decorrente.

Vianna vai buscar no Realismo Jurídico de Brandeis, a concepção de individualismo grupalista, que afirma que é no grupo que o indivíduo se realiza em sua plenitude. Vai mais além, e de Marcelo Caetano extrai a definição de que “há regime corporativo sempre que uma atividade é representada e regulada por aqueles que a desempenham”; atando a Manoilesco, para quem o corporativismo puro seria o sistema político em que a fonte do poder legislativo supremo é constituído pelas Corporações.

No esteio destes princípios, o poder não emanaria do “povo massa”, anônimo e desqualificado, mas de forças coletivas economicamente, cultural e socialmente ativas, e institucionalmente encarregadas de seu próprio destino. O Estado Corporativo seria, neste contexto, a incorporação do “Volkgeist”, o instrumento que realiza a finalidade suprema da nação, agindo como interventor econômico, gestor de conflitos e modulador de preços no lugar do livre mercado, trabalhando sempre no sentido da supressão do antagonismo de classe através da conciliação entre capital e trabalho.

As Corporações, sendo estes corpos de natureza pública e colocando-se na posição intermediária entre os indivíduos e o estado, tornar iam-se eficientes substitutos da democracia parlamentar liberal, com a instituição da Câmara Corporativa, tendo a função legislativa.

De maneira objetiva e sintética, podemos afirmar que Vianna buscou construir uma concepção de Estado Corporativo com as seguintes características: 

• Sem caráter Totalitário, dada a influência de Pirou, baseadas na ideia da convenção coletiva e no caráter fiscalizador do Estado; mas rejeitando a concepção de Manoilesco, onde as Corporações estariam sujeitas ao controle do Partido Único.

• Colaboracionista, no sentido clássico da “terceira solução”, onde através da conciliação entre Capital e Trabalho o antagonismo de classe seria suprimido em função do interesse supremo do Estado.

• Antiliberal, do ponto de vista econômico, já que o Livre Mercado não seria o agente modulador de preços e que seu saneamento se daria no equilíbrio entre oferta e procura; e do ponto de vista ideológico, visto que a concepção de grupo teria mais força que a de indivíduo e o capitalista não seria alvo da superestimação dada pelo estado burguês, mas apenas o cumpridor de uma função social cujo fim último seria a promoção do interesse nacional.

• Apartidário e Unicameral, pois tendo as Corporações e convenções coletivas no papel de Legisladores cessaria a necessidade de qualquer organização partidária paralela.

Percebemos, no esboço que aqui se desenha um programa de reestruturação radical do modelo societário Brasileiro a partir das brechas deixadas por um liberalismo que se encastelou em um estado alienado das preferências tenazes do Brasil real.

Malgrado erros e acertos, concordâncias e discordâncias, o ponto de vista ideologicamente eclético e cirurgicamente realista de Oliveira Vianna sobre a adaptação do ideal corporativo à realidade Brasileira toca em feridas até hoje expostas. O Zeitgeist que nos dirige na Pós-Modernidade é refratário ao ideal corporativo, em grande parte por conta da atomização do indivíduo em uma socioesfera fortemente insolidarista e rompedora do tecido comunitário, em especial no Brasil. A concepção corporativa de Estado fornece, porém, um antídoto real ao esvaziamento político do Estado e sua predação por uma sociedade civil aparelhada pela via cultural. Aqui no Brasil, o Estado se tornou refém, neutralizado, despolitizado e burocratizado, de um poder que se exerce a partir de uma base metapolítica e pluri-ideológica, que se autodenomina como "sociedade civil organizada". Esta S.C.O. é justamente a polarização ideológica que busca fomentar uma opinião pública mobilizada contra os mais vitais interesses do país, estratificando o corpo social em bases antagônicas e totalmente desconexas da produção, da cultura e dos seus reais enclaves de poder. As Corporações são o antídoto do "onguismo" e expressão absoluta e radical de uma verdadeira sociedade civil, que no Brasil ainda está por ser organizada.