sábado, 5 de janeiro de 2019

Nikolai Trubetzkoy - Nacionalismo Pan-Eurasiano

por Nikolai Trubetzkoy

(1927)



Se antes o principal fator consolidando o Império Russo em um único todo era o pertencimento de todo o território deste Estado a um único senhor, o povo russo comandado por seu tzar russo, então agora este fator foi destruído. Surge a questão: que outro fator pode agora fundir todas as partes deste território em um único Estado integral?


A revolução avançou a realização de um famoso ideal social como tal força unificadora. A URSS não é meramente um grupo de repúblicas separadas, mas um grupo de repúblicas socialistas buscando realizar um mesmo ideal de um sistema social. É precisamente este ideal comum que une todas as repúblicas.

A comunalidade deste ideal social, e portanto sua trajetória ao longo da qual almeja a vontade estatal de todas as partes individuais da URSS contemporânea é, certamente um poderoso fator unificador. Mesmo que o caráter deste ideal mude com o tempo, o mesmo princípio de participação vinculante no ideal comum de justiça social e a vontade comum de atingir este ideal continuará a jazer no coração da cidadania de todos os povos e regiões atualmente unificadas na URSS. Mas a questão é sobre se este fator para unificar povos diferentes em um único Estado é suficiente. Na verdade, que a República Uzbeque e a República Bielorrussa sejam ambas guiadas em sua política doméstica pelo desejo de alcançar um mesmo ideal social de forma alguma significa que ambas estas repúblicas necessariamente se unirão sob a cobertura de um Estado. Ademais, também não se segue que estas duas Repúblicas não lutarão entre si. É claro que um único ideal social comum é insuficiente, e que aspirações nacional-separatistas em partes individuais da URSS devem ser opostas por algo mais.

Na URSS contemporânea, o antídoto contra o nacionalismo e o separatismo é o ódio classista e a consciência da solidariedade do proletariado em face de um perigo constantemente iminente. Em cada um dos povos compreendendo da URSS, apenas proletários são reconhecidos como cidadãos plenos e a própria União Soviética é essencialmente compostas não tanto por povos como pelos proletários desses povos. Ao tomar o poder e exercer sua ditadura, o proletariado dos diferentes povos da URSS se sente simultaneamente ameaçado por seus inimigos internos (na medida em que o socialismo não foi estabelecido, a existência de capitalistas e mesmo uma burguesia dentro da URSS no período de “transição” deve ser admitida) bem como inimigos externos (diante do resto do mundo deixado à mercê do domínio do capitalismo e imperialismo internacionais). De modo a defender com sucesso o poder que foi tomado das maquinações de seus inimigos, os proletários de todos os povos da URSS devem se unir em um único Estado.

Graças a esta perspectiva do significado da existência da URSS, o governo soviético se provou capaz de combater o separatismo. Nessa perspectiva, os separatistas estão buscando destruir a unidade estatal da URSS, mas esta unidade é necessária para o proletariado, para que ele defenda seu poder e, como se segue, os separatistas são os inimigos do proletariado. A luta contra o nacionalismo, assim, se torna possível e necessário pela mesma razão, já que este pode ser facilmente interpretado como separatismo encoberto. Ademais, segundo a doutrina marxista, o proletariado é desprovido de instintos nacionalistas, já que estes são atributos da burguesia e fruto do sistema burguês. A luta contra o nacionalismo é percebida pelo próprio fato da transição do centro da atenção do povo da esfera das emoções nacionais para a esfera das emoções sociais. A consciência da unidade nacional, sendo a pré-condição para qualquer forma de nacionalismo, é solapada pela agravação do ódio classista, e a maioria das tradições nacionais são maculadas por sua relação com a ordem burguesa, a cultura aristocrática, ou “preconceitos religiosos”. Ademais, as ambições de cada povo são, até certo ponto, aduladas dentro de suas próprias fronteiras, já que seus idiomas são reconhecidos, posições administrativas e de outros tipos devem ser preenchidas com pessoas do próprio ambiente local, e a própria região é usualmente batizada com o nome do povo que o habita.

Assim, se poderia dizer que o fator que une todas as partes da atual URSS em um único Estado integral é o reconhecimento oficial de um único senhor de todo o território estatal. Só que antes, o povo russo, comandado por seu tzar, era reconhecido como tal senhor, enquanto agora este é tomado como o proletariado de todos os povos da URSS liderado pelo Partido Comunista.

As desvantagens da resolução contemporânea supracitada são óbvias. Para não falar no fato de que a divisão em proletariado e burguesia é, em relação a muitos povos da URSS, ou impraticável ou completamente irrelevante e artificial. É particularmente importante enfatizar que a resolução dessa questão em si porta uma indicação de sua temporalidade. Na verdade, a unidade estatal dos povos e países em que o proletariado tomou o poder só é realizável desde a perspectiva do atual estágio da luta do proletariado contra seus inimigos. O próprio proletariado enquanto classe oprimida, segundo o marxismo, é um sujeito fenomênico temporário a ser superado. O mesmo pode ser dito da luta de classes. Assim, a unidade estatal na solução supracitada não se apoia em qualquer base fundamentalmente permanente, mas em uma fundação fundamentalmente temporária, transitória. Isso dá origem a uma situação absurda e a todo um número de fenômenos inteiramente problemáticos. Para poder justificar sua existência, o governo central deve, então, inflar artificialmente os perigos que ameaçam o proletariado, deve ele próprio criar os objetos do ódio classista sob a forma de uma nova burguesia contra a qual o proletariado deve ser incitado, etc. Em uma palavra, passa a apoiar a ideia na consciência do proletariado de que a sua posição como senhor unificado do Estado é extremamente frágil.

O propósito deste artigo não é criticar a concepção comunista de Estado enquanto tal. Estamos examinando a ideia da ditadura do proletariado em um único aspecto, nomeadamente, como fator de unificação de todos os povos da URSS em um único Estado integral oposto às tendências nacional-separatistas. Deve-se reconhecer que apesar desse aspecto da ideia da ditadura do proletariado ainda ser efetiva, ela não pode se tornar uma solução duradoura para a questão. O nacionalismo dos povos separados da URSS está evoluindo conforme estes povos cada vez mais tomam consciência de sua nova posição! O desenvolvimento da educação e de literatura em diferentes idiomas nacionais e o preenchimento de posições administrativas e outras principalmente por pessoas locais aprofunda as diferenças nacionais entre regiões individuais e cria entre intelectuais nativos um medo ciumento de competição com “elementos alienígenas” e um desejo por fortalecer mais firmemente suas posições. Ao mesmo tempo, divisões de classe dentro de cada povo individual da URSS estão desaparecendo conforme as contradições de classe vão se dissolvendo gradualmente. Tudo isso cria condições bastante favoráveis para o desenvolvimento de um nacionalismo com teor separatista em cada um dos povos da URSS. A ideia da ditadura do proletariado se torna impotente contra isso. O proletariado, tendo chegado ao poder, acaba manejando doses, às vezes, bem fortes de instinto nacionalista, os quais, segundo a doutrina comunista, deveriam estar ausentes no proletariado contemporâneo, real. E tal proletariado chegando ao poder acaba se importando muito menos pelos interesses do proletariado global do que a doutrina comunista sugere...

Assim, a ideia da ditadura do proletariado, a consciência da solidariedade proletária, e a incitação do ódio classista se provarão fundamentalmente meios ineficazes contra o desenvolvimento de aspirações nacionalistas e separatistas entre os povos da URSS.

A atual resolução da unificação estatal de partes do antigo Império Russo é uma consequência lógica do ensinamento marxista sobre a natureza classista do Estado e da típica negligência marxista pelo substrato nacional do Estado. Deve ser reconhecido que, para os apoiadores dessa doutrina, não há outro jeito do que substituir a ideia do governo de um povo pela ideia da ditadura de uma classe, i.e., substituir o substrato classista pelo substrato nacional do Estado. E esta própria substituição implica tudo que se segue. Em todo caso, os comunistas estão assim mais corretos e são mais consistentes do que aqueles democratas que, rejeitando o substrato nacional do Estado russo, pregam ampla autonomia regional ou uma federação sem ditadura classista, incapazes de compreender que a existência de um Estado unificado é impossível sob tais circunstâncias.

Para as partes individuais do antigo Império Russo continuarem a existir enquanto partes de um único Estado, a existência de um único substrato de estatalidade é necessário. Este substrato pode ser nacional (étnico) ou de classe. O substrato classista, como vimos acima, é capaz de unificar partes individuais do antigo Império Russo apenas temporariamente. Uma união permanente e duradoura só é possível, portanto, na presença de um substrato étnico (nacional). Este era o povo russo até a revolução. Mas agora, como indicado acima, já é impossível retornar à situação na qual o povo russo era o único possuidor do território estatal. Também é claro que nenhum outro povo vivendo neste território pode preencher o papel de proprietário único de todo o território do Estado.

Consequentemente o substrato nacional do Estado que foi outrora chamado Império Russo, mas agora é a URSS, só pode ser a totalidade de povos habitando o Estado, considerado como uma nação multinacional especial e, enquanto tal, portando seu próprio nacionalismo. 

Nós chamamos essa nação de eurasiana, seu território de Eurásia, e seu nacionalismo de eurasianismo. 
Aplicado à Eurásia, isso significa que o nacionalismo de cada povo da Eurásia (a URSS moderna) deve ser combinado com um nacionalismo pan-eurasiano, i.e., o eurasianismo. Cada cidadão do Estado eurasiano deve ter consciência não só do fato de ele pertencer a tal povo (ou a tal variedade de um povo), mas também de que este povo em si pertence à nação eurasiana. O orgulho nacional do cidadão deve encontrar satisfação tanto em uma consciência como em outra. Assim sendo, um nacionalismo deve ser construído a partir de cada um desses povos. Um nacionalismo pan-eurasiano deve se apresentar como uma extensão do nacionalismo de cada um dos povos da Eurásia, um tipo de fusão de todos esses nacionalismos.

Entre os povos da Eurásia, alguns tipos de relações fraternas sempre existiram e se formaram facilmente, o que sugere a existência de atrações e simpatias inconscientes (os casos opostos, i.e., casos de repulsa e antipatia inconscientes entre dois povos na Eurásia são muito raros). É claro, não há o suficiente desses sentimentos inconscientes. O que é necessário é tornar a irmandade dos povos da Eurásia um fato da consciência e, ademais, um fato vital. O que é necessário é que cada povo da Eurásia, ao reconhecer a si mesmo, se reconheça acima de tudo como membro dessa irmandade ocupando um determinado lugar nela. E o que é necessário é que a consciência de pertencer à irmandade eurasiática de povos se torne mais forte e mais clara para cada um desses povos do que a consciência de pertencer a qualquer outro grupo de povos. Afinal, algumas características individuais podem incluir um povo individual da Eurásia em outro grupo, não puramente eurasiano, de povos. Por exemplo, por virtude do idioma os russos estão incluídos no grupo dos povos eslavos, e os tártaros, chuvashi, cheremis e outros podem ser incluídos no grupo dos ditos povos “turânicos”, tal como tártaros, bashkirs, sartos e outros estão incluídos no grupo dos povos islâmicos por razões religiosas.

Estes laços devem ser menos vinculantes e vívidos para todos estes povos do que aqueles que os unificam na família eurasiana. Nem o pan-eslavismo para os russos, nem o pan-turanismo para os povos turânicos da Eurásia, nem o pan-islamismo para os muçulmanos eurasiáticos devem ser o principal, mas o eurasianismo. Todos estes “pan-ismos”, fortalecendo as forças centrífugas dos nacionalismos dessas nações individuais, enfatizam uma conexão unívoca de um povo com outros apenas por virtude de uma única característica, são, portanto, incapazes de criar um caráter e uma nação multinacional reais a partir desses povos.

Na irmandade eurasiana, os povos estão conectados uns com os outros não por um ou outro número unilateral de características, mas pela comunidade de seus destinos históricos. A Eurásia é uma totalidade geográfica, econômica e histórica. Os destinos dos povos eurasianos estão interligados, firmemente enlaçados em um nó imenso que é impossível de desenrolar na medida em que um povo pode recusar esta unidade apenas por violência artificial contra a natureza, o que só pode levar a sofrimento.

Nada similar pode ser dito daqueles grupos de povos que jazem na base dos conceitos de pan-eslavismo, pan-turanismo ou pan-islamismo. Nenhum dos povos desses grupos estão unidas nesta medida pelo destino histórico. Nenhum destes “pan-ismos” é pragmaticamente tão valioso quanto o nacionalismo pan-eurasiano. Este nacionalismo não só é pragmaticamente valioso, mas mesmo diretamente, vitalmente necessário. Final, nós já vimos que só o despertar da consciência da unidade nação eurasiana multinacional é capaz de dar à Rússia-Eurásia aquele substrato étnico da estatalidade sem o qual ela mais cedo ou mais tarde começará a se desintegrar para o grande azar e sofrimento de todas as suas partes.

Para que um nacionalismo pan-eurasiano realize com sucesso seu papel como fator de unificação do Estado eurasiano é, portanto, necessário recultivar a consciência dos povos da Eurásia. É claro, pode-se dizer que a própria vida está cuidando dessa recultivação. O próprio fato de que todos os povos eurasianos (como nenhum outro povo no mundo) por uns poucos anos já experienciaram e superaram o regime comunista – apenas este fato já cria mil laços psicológicos e histórico-culturais novos entre estes povos e os força a sentir claramente e realmente a comunalidade de seus destinos históricos. Mas isto, é claro, não basta. É imperativo que aquelas pessoas que agora perceberam de forma clara e vívida a unidade danação eurasiana multinacional preguem esta convicção em cada uma das nações eurasianas nas quais elas trabalham. Aqui aguarda uma terra desconhecida de trabalho para filósofos, jornalistas, poetas, escritores, artistas, músicos e acadêmicos das mais distintas especializações. É necessário reconsiderar um número de ciências do ponto de vista da unidade da nação eurasiana multinacional e construir novos sistemas científicos para substituir os antigos. Particularmente, isso demanda construir uma nova história dos povos da Eurásia, incluindo a do povo russo...

Em todo este trabalho de recultivar a autoconsciência nacional a partir da perspectiva da unidade sinfônica da nação multinacional da Eurásia, pode vir a ser o povo russo que terá que se esforçar mais do que qualquer outro povo eurasiano. Primeiramente, o povo russo precisa mais do que os outros lidar com as velhas atitudes e pontos de vista que situam a identidade nacional russa fora do verdadeiro contexto do mundo eurasiano e divorciar o passado do povo russo da perspectiva comum da história da Eurásia. Em segundo lugar, o povo russo, que até a revolução foi o único senhor de todo o território da Rússia-Eurásia, e é agora o primeiro (em número e importância) entre os povos eurasianos, naturalmente precisar dar o exemplo para os outros.

No momento presente, a obra eurasianista de reeducar esta autoconsciência nacional está ocorrendo em condições extremamente difíceis. Tal obra, é claro, não pode ser realizada abertamente no território da URSS. A emigração é predominada por pessoas que são cognitivamente incapazes de reconhecer as mudanças objetivas e os resultados da revolução. Para tais pessoas, a Rússia continua a existir como um conjunto de unidades territoriais conquistadas pelo povo russo e pertencendo apenas ao povo russo por um direito pleno e indivisível. Portanto, estas pessoas são incapazes de entender a questão da criação de um nacionalismo pan-eurasiano e de afirmar a unidade da nação eurasiana multinacional. Para eles, os eurasianistas são traidores porque eles substituem o conceito de “Rússia” pelo de “Eurásia”. Eles não entendem que não foi o eurasianismo, mas a vida que produziu essa “substituição”. Eles não entendem que seu nacionalismo russo, nas condições modernas, não passa de separatismo grão-russo, e que a Rússia puramente russa que eles querem “reviver” só é possível com a separação de todas as “periferias” dentro das fronteiras da Grã-Rússia etnográfica. Outras tendências na emigração atacam o eurasianismo a partir do lado oposto, demandando que qualquer tipo de identidade nacional seja abandonada, e estes sugerem que a Rússia só pode ser construída com base em uma democracia europeia sem propor qualquer tipo de substrato nacional unificado ou classista unificado para a estatalidade russa. Sendo representantes dos sentimentos ocidentalizantes abstratos das velhas gerações da intelligentsia russa, essas pessoas não querem entender que para que um Estado exista, o que é preciso em primeiro lugar é que os cidadãos desse Estado sejam conscientes de pertencerem organicamente a esta totalidade, a esta unidade orgânica, tenha ela bases étnicas ou classistas. Nas condições modernas, só duas soluções são possíveis: ou a ditadura do proletariado, ou a consciência da unidade e originalidade da nação multinacional eurasiana e o nacionalismo pan-eurasiano. 

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